Eu me recuso a aceitar o fim do homem – o discurso de Faulkner

Revisando algumas anotações antigas, acabei me deparando novamente com essa preciosidade que é o discurso de aceitação do Nobel de Literatura de 1949 proferido por William Faulkner. Palavras tão sensatas que merecem ser relidas e inscritas a ferro na memória, ainda mais nos tempos em que vivemos (tradução de Yuri Vieira):

“Senhoras e senhores, sinto que este prêmio não foi concedido a mim enquanto homem, mas a meu trabalho — o trabalho de uma vida na angústia e no sofrimento do espírito humano, não pela glória e menos ainda para obter lucro, mas para criar dos materiais do espírito humano algo que não existia antes. Assim, este prêmio está tão somente sob minha custódia. Não será difícil encontrar, para sua parte financeira, um destino condizente com o propósito e significado de sua origem. Mas eu gostaria de fazer o mesmo com esta aclamação também, utilizando este momento como o pináculo a partir do qual eu possa ser ouvido pelos jovens homens e mulheres já dedicados à mesma agonia e faina, entre os quais já está aquele que um dia estará aqui onde eu estou.

“Nossa tragédia, hoje, é um geral e universal temor físico suportado há tanto tempo que podemos mesmo tocá-lo. Não há mais problemas do espírito. Há somente a questão: quando irão me explodir? Por causa disto, o jovem ou a jovem que hoje escreve tem esquecido os problemas do coração humano em conflito consigo mesmo, os quais por si só fazem a boa literatura, uma vez que apenas sobre isso vale a pena escrever, apenas isso vale a angústia e o sofrimento.

“Ele, o jovem, deve aprendê-los novamente. Ele deve ensinar a si mesmo que o mais fundamental dentre todas as coisas é estar apreensivo; e, tendo ensinado isto a si mesmo, esquecê-lo para sempre, não deixando espaço em seu trabalho senão para as velhas verdades e truísmos do coração, as velhas verdades universais sem as quais qualquer estória torna-se efêmera e condenada — amor e honra e piedade e orgulho e compaixão e sacrifício. Antes que assim o faça, ele labora sob uma maldição. Ele escreve não sobre amor mas sobre luxúria, sobre derrotas em que ninguém perde nada de valor, sobre vitórias sem esperança e, o pior de tudo, sem piedade e compaixão. Sua atribulação não aflige ossos universais, não deixa cicatrizes. Ele escreve não a partir do coração mas das glândulas.

“Até que reaprenda estas coisas, ele irá escrever como se compartisse e observasse o fim do homem. Eu me recuso a aceitar o fim do homem. É bastante cômodo dizer que o homem é imortal simplesmente porque ele irá subsistir: que quando o último tilintar do destino tiver soado e se esvaecido da última rocha inútil suspensa estática no último vermelho e moribundo entardecer, que mesmo então haverá ainda mais um som: sua fraca e inexaurível voz, ainda a falar. Eu me recuso a aceitar isto. Creio que o homem não irá meramente perdurar: ele triunfará. Ele é imortal, não porque dentre as criaturas tem ele uma voz inexaurível, mas porque ele tem uma alma, um espírito capaz de compaixão e sacrifício e resistência. O dever do poeta, do escritor, é escrever sobre essas coisas. É seu privilégio ajudar o homem a resistir erguendo seu coração, recordando-o a coragem e honra e esperança e orgulho e compaixão e piedade e sacrifício que têm sido a glória do seu passado. A voz do poeta necessita ser não meramente o registro e testemunho do homem; ela pode ser uma das escoras, o pilar para ajudá-lo a subsistir e prevalecer.”

Impressionante que essas palavras tenham já 68 anos de idade, pois continuam atuais. É algo que observo na produção literária atual: ótimos escritores, repletos de técnicas arrojadas e de perfeição estilística, mas vazios de compaixão. Escrever não é denunciar as agruras sociais ou criar jogos vazios com leitores. Escrever é comunicar-se com a angústia que um leitor sequer sabe que possui.

O movimento descrito por Faulkner é aquilo que transforma o verdadeiro escritor em alguém que possui medo do que escreve: ele nunca sabe qual demônio interno estará cutucando sempre com uma vara curta demais, e desconhece o que pode saltar dessa caixa de Pandora que se esconde dentro de cada folha em branco. Aproximar-se demais do mal é concordar com ele, pois, quando escrevemos, estamos em todos os lugares, no certo e no errado, no bom e no ruim, na escuridão e na luz. Escrever não é só mergulhar nos sentimentos de si próprio e dos outros, é também entendê-los – e ser possuído da mais absoluta piedade, e não existe nada mais complexo e difícil do que perdoar o outro.

Enquanto não tivermos piedade, não seremos humanos completos. Sem tocarmos nas verdades universais – os demônios que nos acordam no meio da noite com seus cicios repletos de possibilidades e falsas lisonjas – não estamos escrevendo de verdade, e por isso tantos escritores enchem páginas e mais páginas brincando, tergiversando, escandalizando, mentindo, tudo para evitar o terrível medo que é perder o controle e se transformar no próprio texto.

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Emerson e um credo pessoal

Há alguns dias penso no trecho de um ensaio de Ralph Waldo Emerson no qual ele afirma que as bibliotecas seriam gabinetes mágicos que reúnem muitos espíritos aprisionados no interior de livros. Cada volume contendo histórias seria um objeto espacialmente determinado (tamanho, espessura, páginas), mas o infinito se projeta para o seu interior, pois, antes de abri-lo, nunca saberemos o tipo de espírito que o livro esconde, se virá nos alegrar, nos assombrar, nos deixar tristes ou mesmo nos entediar. É o leitor quem determinará a sorte do espírito que surgirá diante de si. Segundo o filósofo, “a natureza e os livros pertencem aos olhos que os veem”.

Na sequência desse raciocínio, Emerson afirma que a biblioteca de um homem é idêntica a um harém, no qual ele seleciona a companhia ideal para lhe entreter, mais ou menos como um sultão diante das suas mulheres.

Imaginar-me cercado por aproximadamente 3.000 lâmpadas mágicas na forma de livros, com espíritos ansiosos para se libertarem por um tempo e infestarem a minha mente, foi um pensamento que me inquietou. Sentia-me como se estivesse sentado em meio a um campo minado, e o menor movimento pudesse detonar bombas de consequências imprevisíveis. Os livros pareciam me contemplar com seus olhinhos, todos descansando nas prateleiras.

Mas, em seguida, pensei na invulgar oportunidade que tenho. A qualquer momento do meu dia, posso chamar um amigo para me fazer companhia por alguns minutos ou mesmo algumas horas; posso sentar-me na minha poltrona e escutar Benedetti recitando poesias, ou encantar-me com as fábulas de Sheherazade, ou sonhar com os mundos impossíveis de Marco Polo e que existem somente no universo improvável que une imaginação e papel. Não tenho nenhum amigo ou amiga chata, eles sabem exatamente as palavras que preciso. Não só isso, posso olhar um quadro de Caspar David Friedrich e escutar uma música de Brahms, transportando eu e meu amigo de palavras para um local impossível que só existe dentro de mim mesmo.

Ou, como agora, posso estar admirando os quadros de Juan Manuel Blanes e escutando o maravilhoso “Canon em D” de Johann Pachebel (uma das músicas que nos aproximam da perfeição como seres humanos), enquanto leio os poemas de Borges. Esse link aqui com a música é o melhor que conheço:

Também imaginei a biblioteca como um harém, e pensei em 3.000 mulheres ondulando cicios de seda, todas ávidas por passar alguns minutos tentando me atrair com a sua sedutora conversa – pois sou alguém que olha o mundo como uma Matrix não computacional, mas como uma longa estrutura de histórias entrelaçadas e, para mim, toda sedução começa e se sustenta através de palavras. Acham que as pessoas procuram beleza, juventude ou dinheiro, mas, no final do dia, o importante mesmo é sermos capazes de estar com alguém que nos seduz contando histórias ou compartilhando a sua visão de mundo.

Ralph Waldo Emerson é um dos escritores que possuem o dom de acalmar meu espírito. É um autor que transmite serenidade e segurança – vai dar tudo certo, vai dar sim. Escreve como se cada frase fosse enganosamente simples, mas todas escondem um universo tranquilo ao invés de algo repleto de caos e destruição disfarçada, em que causa e efeito estão interligados, em que somos os frutos não de nossas escolhas, mas de nossa ética. Como não se sentir calmo após essa leitura:

“É fácil viver no mundo conforme a opinião das pessoas. É fácil, na solidão, viver do jeito que se deseja. Mas o grande homem é aquele que, no meio da solidão, mantém com perfeita doçura a independência da própria solidão.”

Os seus aforismas caem no espírito como pedras que mostram ao lago a sua natureza quebradiça. “O silêncio que aceita o mérito de alguém como o fato mais natural do mundo é o mais retumbante aplauso que qualquer pessoa pode ganhar” – persigo a verdade dessa frase. Não almejo elogios, considero-os enganosos; muito menos honrarias, pois são efêmeras como falenas. Busco o silêncio de ser alguém tão além do alcance que sequer existem palavras suficientes para classificar.

Ou então “afinal, o que é uma erva daninha, senão uma planta da qual ainda não descobriram as suas virtudes?”. Todos têm virtudes, é só uma questão de ser paciente para encontrá-las. Julgar alguém com pressa é olhar somente um detalhe. Sem contar que é perigoso: como Freud dizia, quando Paulo fala sobre João, está falando mais sobre Paulo do que sobre João.

Outra frase memorável: “A única recompensa da virtude é a própria virtude. A única maneira de ter um amigo é ser um.” Ontem fui questionado sobre a vacuidade de agir com virtude em um mundo no qual ela não só não é reconhecida, como é inclusive temida por revelar as fraquezas alheias de caráter, e disse quase o mesmo: agir com virtude não necessita de aprovação externa, a única recompensa interessante é a satisfação pessoal.

No entanto, a mais importante frase de Ralph Waldo Emerson, e que tenho quase como um credo pessoal, apesar de admitir minhas muitas e humanas falhas, está aqui:

Rir muito e com frequência; ganhar o respeito de pessoas inteligentes e o afeto das crianças; merecer a consideração de críticos honestos e suportar a traição de falsos amigos; apreciar a beleza e sempre buscar o melhor nos outros; deixar o mundo um pouco melhor, seja por uma saudável criança, um canteiro de jardim ou uma redimida condição social; saber que ao menos uma vida respirou mais fácil porque você viveu. Isso sim é ter tido sucesso.

Ser digno de merecer essas palavras ao final da vida – este é o único objetivo a que me proponho.

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Dizer as palavras que realmente importam

Quando era bem mais novo, e estava ainda começando no Direito, eu assistia a uma série de televisão que passava na Fox Brasil, “The Practice” (“O Desafio” na versão em português). Era o seriado que melhor expressava as realidades, dores e pequenas alegrias do Direito. Um grupo de advogados jovens querendo mostrar serviço, às vezes agindo de forma atabalhoada, em outras sendo brilhantes e perdendo as lutas, usando todos os métodos possíveis para que seus clientes ganhassem as disputas jurídicas. Mais ou menos como a vida de qualquer advogado que sai da faculdade e, com fogo nos olhos, tenta subjugar o mundo.

Existia um aspecto de construção do roteiro que era muito bem realizado. No início de cada episódio, o espectador era apresentado para uma série de imagens cortadas: um corpo; uma pegada; uma faca coberta de sangue; uma janela com a cortina esvoaçando. Alguém era acusado pelo crime e o restante do episódio eram os advogados pegando essas cenas e tentando construir uma narrativa verossímil que lançasse dúvidas sobre a culpa do seu cliente e permitisse que ele fosse libertado. É assim que a vida real nos apresenta toda situação – um aglomerado disforme de elementos díspares para o qual tentamos encontrar um fio condutor que forneça algum sentido.

No final do episódio, vinha A VERDADE (era como eu chamava o momento): após a condenação ou libertação do cliente, os espectadores enfim sabiam a verdade dos fatos, e podiam comparar com a narrativa fictícia criada pelos advogados para provar a sua tese. Era decepcionante quando eles faziam o espectador acreditar que o cliente era inocente, mas, na verdade, era culpado. No entanto, o pior momento era quando víamos um inocente condenado por um crime que não cometeu simplesmente por que não conseguiram contar com suficiente verossimilhança a verdade que ele insistia em dizer.

Se hoje recordo desse seriado é por causa de uma cena que marcou a minha vida, tanto que, passados mais de 15 anos, ainda a recordo em detalhes.

No episódio, os advogados receberam um caso aparentemente não tão complexo, e se entregaram a ele com fúria para conseguir libertar o cliente, pois acreditavam na sua inocência. Estavam com uma energia desproporcional para a situação – afobados demais – e estabeleceram uma série de conflitos secundários: brigaram com o juiz, com o promotor do caso, entre si, com todo mundo. Realizaram uma série de incidentes infundados, audiências paralelas e petições cansativas que foram desgastando a paciência do Poder Judiciário, aquilo que hoje chamaríamos carinhosamente de “chicanas jurídicas”. Batiam de forma insistente na mesma tecla, “dúvida provável”: se existir uma sombra de dúvida sobre a culpabilidade de alguém, por menor que seja, deve-se inocentar tal pessoa.

Eles conseguiram montar uma história verossímil, e todas as provas acabaram ficando a seu favor, tanto que consideravam certa a vitória. No entanto, o cliente foi condenado.

Ao final do episódio, um dos advogados chefes do escritório está em um banco do Forum, exaurido, derrotado, a cabeça entre as mãos. Um jurado do caso passa por ele e, mesmo sendo proibidas as comunicações durante e após o julgamento, o advogado não resiste e interpela o outro: se as provas estavam todas a favor, se a narrativa era verossímil, se tudo apontava para a “dúvida provável” do homem em julgamento, por que diabos ele foi condenado?

O jurado olha o causídico de cima a baixo: “vocês nunca disseram que ele era inocente, doutor”. E se afastou, enquanto o advogado contemplava-o fixamente. Em seguida, no momento A VERDADE, ficava demonstrado que o condenado era inocente mesmo.

A ausência de uma palavra só definiu o destino de um homem.

Às vezes, estamos tão envolvidos com uma situação que esquecemos de dizer as palavras mais importantes. Tão concentrados em analisar situações, construir justificativas e torpedear argumentos alheios que deixamos de lado a verdade contidas nas palavras mais simples. Esquecemos o essencial, iludidos pela ilusão e pelas possibilidades.

Ontem estava relendo o “Decálogo do Perfeito Contista”, do Horacio Quiroga – uma série de ensinamentos a que sempre retorno em busca de respostas não literárias, mas para a vida – e a regra VI é preciosa:

“Se queres expressar com exatidão esta circunstância – ‘Desde o rio soprava um vento frio’ -, não há na língua dos homens mais palavras do que estas para expressá-la. Uma vez senhor de tuas palavras, não te preocupa em avaliar se são consoantes ou dissonantes.”

“Palavras, palavras, palavras”, disse Hamlet de Shakespeare, arremessando longe um livro. “Palavras, palavras e mais palavras ainda”, disse Lorde Harry de Oscar Wilde, suspirando de enfado. Quem pode dizer a respeito de si próprio que é “senhor de suas palavras”?

Acabamos nos perdendo em um emaranhado tão grande de palavras que esquecemos de dizer aquelas que realmente importam. Usamos eufemismos, metonímias, metáforas, e deixamos de lado a expressão que se  encaixa com exatidão no que pensamos.

O resultado é idêntico ao de julgamento no “The Practice”: tanto desejamos dizer algo que falamos tudo, menos a palavra decisiva.

Um dos meus poemas favoritos de Aleksandr Pushkin, “O prosador e o poeta” (tradução de Boris Schnaiderman e Nelson Ascher), afirma que, enquanto o primeiro se esmera na busca dos temas, o segundo se encarrega de transformar as palavras em flechas certeiras na direção do leitor:

O PROSADOR E O POETA

Por que te inquietas, prosador?
Escolhe os temas e, ao que for,
eu darei gume, alada rima,
e farei dele flecha exímia
que, após deixar a corda tesa
do arco dobrado servilmente,
voará certeira até que a presa,
nosso inimigo, se lamente!

Hoje vivemos uma época em que, mais importante do que a precisão da palavra brandida como flecha, o essencial é usarmos palavras como se fossem tiros de metralhadora. Muita dispersão, pouco foco. Muita força e impetuosidade, pouca clareza e direção.

Também estamos em um mundo no qual as pessoas se esquecem de dizer ou mostrar que são inocentes, e nos perdemos em distrações, detalhes, informações contraditórias ou – o pior – palavras vazias de vontade. Adorno escreveu que existem músicas que não são músicas, aquelas feitas sem nenhuma emoção e que ocupam o espaço do silêncio (aliás, por que tememos tanto o silêncio?), por exemplo, a música que toca em estabelecimentos comerciais ou dentro de elevadores.

Pois também existem palavras repetidas à exaustão, geralmente ditas sem qualquer reflexão sobre o seu conteúdo – discursos vazios, cansados, sem nenhuma vontade que não seja a de marcar uma pálida posição.

Enquanto isso, assim como em “Procura da Poesia” do Drummond, as palavras continuam esperando que alguém vá buscá-las no seu reino, paralisadas, mas sem desespero. Esquecemos de dizer as palavras que importam e, por causa desse silêncio, somos forçados a conviver com o precipício das verdades não-ditas na época certa.

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Livro: “A vida e as aventuras de Nicholas Nickleby”, de Charles Dickens

Escrevi uma resenha para o Amálgama sobre “A vida e as aventuras de Nicholas Nickleby”, de Charles Dickens, um romance do início da trajetória literária do escritor inglês. Há mais de 60 anos que o mercado brasileiro não via uma nova tradução dessa obra, e foi quase como descobrir um Dickens desconhecido: mais jovem, mais arrojado, mais irônico, mais feroz, ansioso para escrever e tentar mudar o mundo.

No texto, pergunto se, em épocas como as que vivemos, nos quais um livro de 908 páginas em letra miúda é considerado chato, longo, pesado e anacrônico, ainda vale a pena ler Dickens e, olha, não só vale como é uma leitura mais atual e empolgante do que a de muita livro badalado por aí.

 

Atualidade de Dickens

No material de divulgação que acompanha “A vida e as aventuras de Nicholas Nickleby”, do escritor inglês Charles Dickens, encontra-se uma informação cronológica relevante: há mais de 60 anos que o mercado brasileiro não tinha uma nova tradução dessa obra. Em comparação com outros livros do escritor, tais como “Grandes esperanças”, “As aventuras do Sr. Pickwick”, “David Copperfield” e “Oliver Twist”, ou mesmo o onipresente “Conto de Natal”, lembrança inevitável em cada final de ano, impossível não notar que “A vida e as aventuras de Nicholas Nickleby” ocupa uma posição periférica no interesse editorial do país, o que deixa a iniciativa da editora Amarilys ainda mais meritória. Entre os muitos motivos que podem ser alegados para tal fato, estão desde a extensão do livro (908 páginas de linhas simples) até a trama difusa e com muitos conflitos simultâneos, típica de uma obra literária que nasceu como folhetim publicado em jornal, seguindo os humores e veleidades do público à medida que ia sendo publicada.

Resumido de uma maneira muito reducionista, “A vida e as aventuras de Nicholas Nickleby” conta a história de um ano na vida do rapaz cujo nome se encontra no título, sendo que começa com a morte do seu pai e a ida para Londres com o intuito de ganhar dinheiro para sustentar a sua família. No coração do Império Britânico, Nicholas conhecerá uma vasta gama de personagens (em torno de 56), todos com interesses próprios, deparando-se com a hipocrisia das relações sociais, com a selvageria que se esconde dentro dos ternos da civilização, com pequenos lapsos de bondade em meio aos pântanos da crueldade, e – podemos dizer que esse é o mote principal do romance – terá que se transformar em um adulto não por uma questão natural, mas para sobreviver. A obra mostra a fase em que o rapaz se transformou em um homem, e o quanto isso foi afetado pela sociedade que o cercava, deixando o seu coração ingênuo não insensível, mas mais resistente.

O próprio resumo não revela uma história de demasiadas complexidades, e é possível que alguns leitores tenham suspirado pensando que é um livro igual a outros já lidos, com a diferença de que “A vida e as aventuras de Nicholas Nickleby” é grande, pesado e paquidérmico, um anacronismo para os tempos em que vivemos. Pensando por esse ângulo, poderíamos perguntar: em pleno século XXI, que se notabiliza por um mercado amante de textos rápidos e diretos, que existe toda uma disposição de agradar ao leitor ou leitora fazendo com que a sua atenção não se disperse com a multiplicidade de tramas ou de personagens, que um livro pode ser tachado de difícil simplesmente por usar um pouco mais de vocábulos do que a média, ainda existe espaço para apreciarmos Charles Dickens? Podemos ampliar a pergunta e incluir Leon Tolstói, Marcel Proust, Honoré de Balzac ou outros escritores de escrita mais vagarosa, com uma construção de trama mais intrincada e que abusavam de descrições e de diálogos – eles ainda são capazes de nos cativar, ou a nossa mente foi devorada por um mundo repleto de distrações em alta velocidade, que insistem em nos tirar de dentro do livro para outras tarefas consideradas mais “divertidas”?

A única maneira de saber é testando, e ler esse livro de Dickens, originalmente escrito em 1838 e recebido agora pelo público brasileiro quase como um original redescoberto no fundo de uma gaveta, foi uma experiência mais prazerosa do que imaginei. Em primeiro lugar, por que Charles Dickens é engraçado. Existe uma constante graça na forma com que ele se dirige ao leitor, em um misto de enfado e de espirituosidade, tanto que Woody Allen sempre afirmou que aprendeu a escrever diálogos com Dickens e com Dostoiévski. Isso é algo que se perde um pouco em uma leitura apressada ou em uma tradução malfeita (o que não é o caso). Ultrapassada a estranheza inicial de um texto cujas ideias se esticam um pouco além da planura de pensamentos a que a literatura contemporânea nos condenou, quando mergulhamos nos meandros da narrativa e na beleza das imagens evocadas por palavras, percebe-se uma vistosa ironia que subjaz ao narrado e que realiza com ele uma relação de espelhamento. O autor parece estar falando sério, toda a sua disposição é no sentido de uma narrativa circunspecta, mas a forma com que ele dispõe as palavras faz com que a ironia surja, invencível, e o leitor sorri sem saber o motivo. Não foram poucas as ocasiões em que me surpreendi rindo, seja pelo grotesco da situação contida em breves traços, seja por uma reflexão ferina colocada em meio a uma descrição que se pretendia isenta, e é singular que um texto de 180 anos de idade seja mais engraçado do que muitos arremedos de comédias atuais. Isso só demonstra que, para fazer humor, o mais importante é ter cultura geral, algo que faz falta em tempos de imediatismo e de memes preguiçosos.

Em segundo lugar, Charles Dickens é um escritor que se posiciona em relação ao que imagina estar errado na sociedade, e não estou dizendo que “A vida e as aventuras de Nicholas Nickleby” é panfletário. Existe uma confusão frequente nos tempos atuais, em que mesmo metáforas ou outras figuras de linguagem são interpretadas de maneira rasa, no sentido de que todo escritor precisa colocar uma reflexão pessoal na sua obra, ou seja, deve exibir uma posição de forma clara. A riqueza da literatura é justamente a sua capacidade de permitir ao leitor escolher ou ponderar sobre condutas e/ou pensamentos dos personagens, ao invés de ler um texto em que o autor tenta “doutriná-lo” de forma grosseira. Dickens executa essa tarefa de forma magistral: mesmo abusando da ironia, ele não mostra os personagens de forma binária (herói e vilão, mocinho e mocinha), mas como um prisma repleto de nuances. Não só se entende a situação da maneira mais ampla possível como inclusive podemos formar um convencimento a respeito dos motivos de cada personagem. Quando o tio de Nicholas aceita o sobrinho como funcionário da sua empresa que “providenciava empréstimos para pessoas necessitadas” – as descrições de Dickens nos permitem ver Ralph Nickleby como um homem que se aproveitava das fraquezas financeiras alheias para auferir lucros por meio de juros abusivos, sem com isso estar agindo contra a lei, apesar de todo seu comportamento ser típico de um agiota -, podemos entender o motivo pelo qual o tio, sentindo culpa por ter se afastado do irmão, recebe o familiar na sua empresa. No entanto, podemos igualmente entender como, tão logo esse fato acontece, Ralph Nickleby tem medo do sobrinho tomar os seus clientes, passando a sabotá-lo com o intuito de lhe afastar e, assim, ficar com a consciência limpa de que “tentou ajudar”. Não existe nada de inesperado nesse fato, e nada mais humano do que fazer de conta que está ajudando alguém para aplacar a própria consciência culpada.

Em terceiro lugar, a leitura de “A vida e as aventuras de Nicholas Nickleby” é revigorante pela atualidade dos assuntos tratados por Dickens. Imaginem um mundo em que os trabalhadores estão tendo a sua mão de obra substituída por máquinas, em que escolas viraram fábricas de arrecadar dinheiro despreocupadas com a educação transmitida aos alunos, em que políticos e empresários do mercado financeiro convencem o povo a financiar causas inúteis para se locupletar indevidamente, e fica difícil imaginar que isso acontecia na Inglaterra do século XIX e não no Brasil do século XXI. No prefácio, Dickens reforça a sua intenção de capturar um retrato da sociedade em que vivia, e disse que entrevistou diretores de escola, agiotas e outros profissionais para construir os personagens descritos no romance com a maior fidedignidade possível. Menciona o seu contentamento por ver vários diretores de escola irritados ao se imaginarem descritos como o Sr. Squeers, um dos personagens mais abjetos que criou, e revela que a sua intenção maior era forçar uma mudança do sistema educacional do país por meio de um livro que funcionasse também como constatação e denúncia. Nesse sentido, Dickens falhou: “A vida e as aventuras de Nicholas Nickleby” vai além de um objetivo imediato, pois é uma obra literária que atravessou os anos mantendo frescor quase juvenil. Realmente serviu para mudar o sistema educacional da Inglaterra ainda durante o período de vida de Dickens, mas também pode ser aplicada para muitas situações atuais, desvendando os mecanismos que regem as relações humanas. Assim, a descrição que o escritor inglês fez do surgimento de um projeto de lei inócuo (a criação da “Companhia Panificadora Metropolitana Unida de Melhoria dos Pãezinhos e Muffins Quentes e de Entregas Pontuais”, que, como o próprio nome indica, parece ser uma brincadeira, mas é levada a sério) por políticos inescrupulosos que pensavam mais em seus ganhos é praticamente uma aula de como funciona o populismo.

Em todos os sentidos, a leitura de “A vida e as aventuras de Nicholas Nickleby” demonstra que a força literária de Charles Dickens se mantém, mesmo depois de 180 anos do seu lançamento. Para os leitores dispostos a se aventurarem por uma obra muito bem escrita – e quase desconhecida no Brasil –, escrita por um expoente da literatura ocidental, existe a possibilidade de ler um texto que encanta pelo seu misto de fluidez e beleza. Para os leitores dispostos a conhecerem mais da natureza humana e a escaparem de reflexões superficiais, eis um livro sedutor pela forma com que concede um sopro de vida para personagens e que conduz a novos pensamentos. Quem está disposto a se divertir com um interlocutor inteligente e provocador como Charles Dickens, pode considerar esse livro como a oportunidade de experimentar aquilo que a literatura tem de melhor: a suspensão da realidade por alguns momentos e o mergulho em um universo repleto de elegância e perversidade, de medos e glórias, de risadas e lágrimas. A única certeza garantida ao leitor é que, ao final do livro, ele entenderá aquilo que Chesterton afirmou sobre Dickens: ele era um homem grande não por deixar os leitores pequenos, mas por transformá-los em pessoas maiores.

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Obras Inquietas – 53. “Marguerite no sabá” (1911), Pascal Dagnan-Bouveret

Na minha coluna dessa semana no “Obras Inquietas” lá no Artrianon (www.artrianon.com), eu escrevi sobre uma pintura de Pascal Dagnan-Bouveret, “Marguerite no sabá”. Essa é uma cena decisiva do “Fausto”, de Goethe: o momento em que Fausto está em um sabá com Mefistófeles e olha Marguerite, a mulher que seduziu e engravidou, emergir como um espectro de dentro do inferno, o corpo do filho nas mãos.

Um detalhe interessante sobre a pintura: Dagnan-Bouveret costumava usar fotografias para pintar os quadros, mas, nesse caso, usou como modelo uma atriz – Suzanne Delvé – e mais as fotografias que tirou, tudo para extrair o máximo de tensão da cena. E escolheu muito bem o momento em que a imagem se sobrepõe à literatura e crava seus olhos no leitor. Impossível ler a cena de novo sem lembrar de novo desse quadro e, no meu texto, tentei dar uma voz de desesperança à Marguerite, revelando a sensação de inutilidade do seu sacrifício, sem esquecer o mito fáustico, mais Goethe, mais Thomas Mann – acendi vela para um bocado de santo.

Boa leitura.

“Marguerite no sabá” (1911), Pascal Dagnan-Bouveret

 

Maldito o momento em que escutei as palavras sedutoras que escapavam da sua boca como as serpentes ondulam ao sol; maldito o instante em que acreditei no amor. Encare o resultado da sua luxúria e da minha danação. Não, não desvie o olhar; não deixe a vergonha toldar os seus pensamentos. Olhe o crime que cometi por você – contemple o corpo do nosso filho, fruto morto do pecado em que foi concebido. Não preste atenção aos cânticos lascivos desses outros perdidos que vieram encontrar o diabo que mora dentro de si mesmos, nem nas palavras de adulação que lambem a noite com o hálito frio da morte; sinta o calor das chamas a que fui condenada pelo erro de acreditar em você. Nunca serei perdoada. Nunca serei capaz de me perdoar. Responda, então: valeu a pena sacrificar o amor pelo conhecimento? Eu perdi tudo para merecer o sentimento que, iludida, pensei existir na voracidade urgente das suas pupilas; perdi o meu próprio respeito, perdi a família, perdi a alma, perdi o nosso filho, e foi em vão, pois perseguia a sombra de um morto, a neblina insondável que habita isso que você chama de espírito. Olhe o fundo da minha angústia, maldito Fausto, e conheça a imensidão da sua derrota. Eis o nosso filho, morto por causa da soberba do pai e da cegueira ingênua da mãe. As crianças sempre pagam pelos erros dos seus pais. Consegue escutar os lamentos e gritos que se despegam do inferno a que fui condenada? Pois o pior de todos os infernos mora na crueldade da minha memória, no fantasma do filho que condenei à morte por ter escolhido o homem errado para ser seu pai, por ter escolhido você, esse pálido esboço de ser humano.

Texto originalmente publicado no link https://artrianon.com/2018/01/21/obras-inquietas-53-marguerite-no-saba-1911-pascal-dagnan-bouveret/

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Duas balas, e o fim da piedade

Em qual momento deixamos de sentir piedade e passamos a nos guiar por uma lógica utilitarista, na qual somente os úteis devem ser preservados e os que consideramos “inúteis” descartados?

Essa foi a pergunta que passou a me assombrar desde o momento em que assisti “Os Canhões de Navarone” (1961), filme inglês que conta a história de como, na Segunda Guerra, um grupo de soldados invadiu a ilha de Navarone com o intuito de explodir os dois canhões que impediam o resgate de uma parte do exército aliado acuada na ilha de Kheros, na Grécia.

O chefe da expedição, o major Franklin, sofre um acidente logo no início da delicada tarefa, quebrando uma perna. Esse problema de saúde iria prejudicar o seu deslocamento e, em uma missão na qual a surpresa e a velocidade eram fatores essenciais, não é difícil imaginar que um homem de perna quebrada atrapalharia o objetivo maior, que era destruir os dois canhões e salvar centenas de soldados em perigo.

Em um primeiro momento, ainda imbuídos do espírito heroico, o grupo improvisou uma maca e passou a carregar o homem ferido. No entanto, o tempo corria cada vez mais rápido. Os homens precisavam escalar montanhas íngremes, esconder-se em cavernas, deslizar por entre florestas, e viam o objetivo distante por culpa do peso extra que precisavam carregar. Isso os levou ao questionamento inevitável: não seria melhor descartar o homem ferido, deixando-o para trás? No entanto, quando ele fosse capturado, poderia acabar entregando os planos, e isso inviabilizaria ainda mais a missão.

Consequência lógica desse impasse foi se perguntarem se não seria melhor matar o major ferido. Isso o salvaria da dor da perna quebrada (a qual estava gangrenando) e ainda evitaria que os alemães descobrissem os detalhes do plano.

É evidente que o major tinha um dedicado amigo entre os soldados, interpretando o contraponto da ideia para a plateia, que levantou toda a sorte de objeções ao assassinato do companheiro, indo desde a chantagem até as ameaças e súplicas. Justiça seja feita: o próprio major Franklin percebeu que era um estorvo e tentou se matar, mas foi impedido. E a todas essas o tempo correndo e a missão cada vez mais difícil e distante, enquanto carregavam o ferido.

Mesmo contra todas as evidências de que o sacrifício para manter o companheiro vivo era desproporcional, os homens não capitularam. Mesmo tendo várias oportunidades de matá-lo, mesmo com o aumento da dor que ele sofria na perna quebrada, o grupo de soldados deixou o homem vivo. Só o abandonaram nas mãos de um general grego à serviço dos nazistas que, com toda a galhardia possível para o momento, se comprometeu pessoalmente a prestar todos os cuidados médicos para o ferido, dizendo que “não era assim que pessoas corretas se portavam”. Na última cena em que aparece no filme, o major ferido está no hospital alemão quando escuta a destruição dos temidos canhões, e comemora em silêncio a vitória dos companheiros.

Algo nessa insistência em salvar a vida do soldado machucado, mesmo que com sacrifício pessoal e colocando em risco o objetivo maior, me incomodou. Não em relação à nobreza do gesto, mas por ver o quanto modificamos a nossa visão de mundo nos parcos 56 anos que nos separam do filme (vale realçar que o único personagem ficcional acrescentado na história real da destruição dos canhões de Navarone foi justamente o major Franklin, ou seja, a questão “devemos manter vivo ou matar aquele que nos atrapalha?” foi intencionalmente acrescentada ao filme).

Nos tempos atuais, teríamos concordado em silêncio com a morte do major ferido. Teríamos inclusive sugerido tal opção em primeiro lugar, antes mesmo de tentar salvá-lo (até antes mesmo de tentar lhe aplicar remédios), por ser o caminho mais lógico em busca do bem maior: salvar os 2.000 soldados sitiados em Kheros. A vida de um é menos valiosa do que a vida de muitos, pensaríamos com toda a tranquilidade, enquanto comemos pipoca e vemos algum soldado explodir a cabeça do “estorvo” azarado que estava no caminho da missão.

Dificilmente alguma pessoa no mundo atual concordaria em manter vivo um homem ferido. Pensariam que era melhor uma solução piedosa, uma eutanásia rápida para lhe “impedir de sofrer”. Mentira: na verdade, preferimos matá-lo por que ele está atrapalhando. Tentar salvá-lo seria colocarmo-nos em risco, pensaríamos como consolo, ao invés de ver que seguir o caminho piedoso é muito mais difícil do que aparenta.

É mais fácil matar o obstáculo do que tentar resolvê-lo. Todas as elucubrações e voos mentais que realizamos para matar o major ferido é para esconder o fato de que somos covardes e, em um dilema moral, geralmente obedecemos a solução mais simplista, posto que mais cômoda. Nenhum de nós pensa em salvar o homem que se machucou por uma questão de azar, preferimos descartá-lo o quanto antes, e, para isso, culpamos a vítima, culpamos o destino, culpamos a coincidência, culpamos qualquer coisa se, assim, conseguirmos ter um farrapo de justificativa, algo capaz de nos fazer dormir bem à noite.

Confesso – ora, sou um ser humano atual, não consigo escapar de mim – que a insistência em preservar a vida do homem ferido me irritou. Não foram poucas as  vezes que pensei “dá logo um tiro nele e acaba com essa questão”. Era visível que perdiam muito tempo tentando salvar alguém que não tinha chance de sobrevivência, parecia mais teimosia do que heroísmo.

No entanto, foi somente ao final do filme, quando vi o major Franklin vivo (justamente por terem o deixado para trás que o plano acabou se tornando um sucesso, ainda que graças àquela dose de causalidade que só existe na ficção, plantar uma mentira no homem a ser interrogado para que a mentira se espalhe entre os inimigos), que percebi que a maior vitória não foi destruírem os canhões de Navarone, mas não terem cedido aos ímpetos de selvageria e comodismo que autorizariam a morte de um inocente por mera conveniência. O verdadeiro heroísmo do filme foi não terem capitulado nos seus valores humanos, e terem mantido a piedade por um semelhante mesmo quando a lógica apontava o contrário. Lembra a famosa frase de Spock em “Jornada nas Estrelas II – A Ira de Khan”: “a lógica diz que as necessidades de muitos se sobrepõem às necessidades de poucos, ou de um só”. Nem sempre isso é verdade.

Não pude deixar de pensar em quantos filmes, séries e livros defendem com tranquilidade a morte de uma pessoa em benefício de outras. Está tão arraigado no nosso imaginário que bocejamos quando esse momento chega e dizemos com exasperação “tá, mata logo ele”, como se estivéssemos no anfiteatro romano esperando a próxima atração sanguinolenta. Deixamos de pensar que toda a vida é preciosa, e passamos a ver que algumas vidas são mais preciosas e necessárias do que outras, ou que algumas pessoas vieram ao mundo com o intuito único de morrer e deixarem de nos estorvar.

Existe uma mudança no pensamento atual, e isso aparece claramente nos filmes. Não há espaço para tiros de alerta ou para balas distraídas; a precisão na morte do outro tornou-se esteticamente brilhante, parece uma dança. Em filmes como “John Wick – De Volta ao Jogo” ou no seriado do “Justiceiro” na Netflix, em algumas cenas de violência percebe-se o mesmo “modus operandi”: o “heroi” (??) dá sempre dois tiros certeiros, o primeiro em algum órgão ou membro incapacitante, tipo braço, perna ou barriga, e o segundo – à queima-roupa – na cabeça do inimigo. De duas em duas balas, ele vai deixando uma fileira de mortos cujos rostos nem sequer conseguimos ver. Máxima precisão com o mínimo de desperdício de balas. Até mesmo matar pode ser um gesto econômico.

Não estamos mais vivendo na época em que salvar uma vida era salvar um mundo inteiro. Estamos no período em que matar com efetividade é mais importante do que perder tempo preservando vidas. Deixamos a piedade de lado e nos tornamos mais brutais e práticos. O mundo é dos fortes, e não dos que possuem valores sólidos.

Compreender – e aceitar isso como algo inexorável – talvez seja a melhor forma de entender o mundo em que estamos. Um local repleto de pessoas procurando explicações tênues para justificar as suas falhas de caráter. Um local em que culpamos as vítimas para esconder as nossas fraquezas. Um lugar em que é melhor destruir do que salvar.

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Obras Inquietas – 52. “Volta para casa no Natal” (1948), Norman Rockwell

Hoje é Natal e, no melhor espírito da data, sugeriram que eu falasse no “Obras Inquietas” sobre alguma obra de arte com tema natalino. Optei por essa pintura do americano Norman Rockwell, “Volta para casa no Natal”, um bom exemplo de algo que sempre me deixou desconfortável com o estilo do artista: a plasticidade das pessoas, os sorrisos amplos que escondem falsidades, a sensação de que a cena foi cuidadosamente construída para passar uma mensagem de conformismo e aceitação. É tudo tão perfeito que tenho a sensação de que existe um universo de terrores por trás, algo escondido dentro do quadro e que se encontra ao alcance da visão, esperando o momento de ser desvendado.

Bom, se a ideia era ser natalino, creio ter falhado. Mas, além da Páscoa (em que comemoramos uma crucificação), existe feriado mais inquietante do que o Natal?

Boa leitura.

“Volta para casa no Natal” (1948), Norman Rockwell

Não enxergamos o rosto do homem, somente as costas curvadas de quem atravessou o mundo para voltar para casa – ou de quem carrega todos os problemas da Humanidade sobre uma estrutura frágil, de ossos velhos e de coluna alquebrada. Sob um dos seus braços, presentes coloridos escorregam, enquanto a mão firme segura a mala tão exausta quanto o viajante. À primeira vista, é uma cena festiva: o homem que retorna para o lar, o abraço apertado da sua esposa, os olhares de curiosidade da família e dos amigos. No entanto, existe algo oculto na tela, um desconforto na tessitura da imagem, um terror submerso que só observamos depois de algum tempo: todos os homens que encaram o recém-chegado são variações do mesmo rosto, cada um em um tempo cronológico diferente. Não precisamos ver o rosto do viajante por que ele está diante de inúmeros espelhos, todos debochando, todos ostentando risadas que mal escondem o pânico. O homem achou que podia vencer a morte e o tempo se se afastasse de si mesmo, e não conseguiu: retornou para os problemas, para os medos, para os dramas do cotidiano. Estamos sempre voltando para casa, seja real ou metafórica, e nunca conseguimos escapar de quem somos e da sutil prisão de circunstâncias e destino em que nos colocaram tão logo nascemos, prisão essa que chamamos de vida e nos sufoca lentamente com a certeza da areia movediça. O abraço da esposa aproxima-se de um enforcamento. Como Penélope ao reconhecer Ulisses, a mulher não sabe se chora, se ri ou se diz no ouvido do marido a verdade: você voltou para o lugar onde um dia vai morrer – devia ter fugido quando teve chance.

Texto originalmente publicado no link https://artrianon.com/2017/12/25/obras-inquietas-52-volta-para-casa-no-natal-1948-norman-rockwell/

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