A arte como antecipação do pós-humano em Hopper e Stalenhag

Eu me recordo que, quando escutei a primeira vez o termo “pós-humano”, dei uma gargalhada e disse “mas o que é isso? Os humanos viraram obsoletos e vamos começar a discutir os eventos pós-advento da Humanidade? Já largamos os pontos, gurizada?”.

Pois era isso mesmo, mas um pouco diferente.

O pós-humano é uma corrente de pensamento nascida na ficção científica e no avanço tecnológico, espelhando as preocupações com uma série de circunstâncias que extrapolariam o limite humano, como, por exemplo, robôs, computadores que pensam, casas e carros inteligentes, e por aí vai.

Continuei acompanhando o assunto, mantendo uma respeitosa distância. Hoje sei que o pós-humano se espalha entre nós: tudo que melhora o alcance dos sentidos humanos ou amplia as suas capacidades já pode ser considerado pós-humano, e então vemos óculos com informações digitais, próteses que permitem a amputados terem vida normal e até mesmo substâncias que melhoram o rendimento físico de alguém.

Pós-humano não quer dizer que os humanos deixaram de existir, mas sim que eles coexistem em um ambiente onde existem seres melhores, com habilidades ampliadas e menos falíveis.

A literatura há tempos faz simulações de como seria um mundo pós-humano. Dois dos meus livros prediletos tratam justamente sobre as possibilidades desse cenário. Em “Eu, robô”, do Isaac Asimov (por favor, não vejam o filme, é horrível), as Três Leis da Robótica servem de mote para uma série de atritos entre homens e máquinas. Do ponto de vista jurídico, é muito interessante ver como uma norma, quando usada de acordo com o sentido estrito da lei, pode se tornar não só anti-ética e imoral, como assassina. Por sua vez, em “Crônicas marcianas”, do Ray Bradbury, o homem é o câncer do universo: sai da Terra, mas leva os seus problemas e mesquinhezas por onde quer que vá.

Outro campo que trata do mundo pós-humano é o das artes gráficas e, quando vi essa série de desenhos do artista sueco Simon Stalenhag, não contive o encantamento. Ele imagina um local do planeta Terra após a invasão (e derrota) alienígena. Um lugar com carcaças abandonadas, com mistérios a serem explicados, com robôs e humanos patrulhando estradas, com dejetos de guerra empilhados por todos os cantos.

Lembra muito os quadros de Edward Hopper. Dá para sentir a solidão, o fustigar da chuva gelada nos nossos rostos, o barulho de sirenes distantes, a morte a assombrar as estradas. Humanos e pós-humanos lutando juntos pela sobrevivência, e inaugurando um novo tempo em que ser humano será o princípio para ser algo a mais.

É interessante pensar no trabalho de Hopper como antecipação do pós-humano. Ainda mais por que tal ideia sequer era mencionada na época em que o pintor americano viveu, quando, no máximo, falava-se em “cyberpunk”. Os cenários quase vazios, o isolamento dos seres humanos concentrados nas suas próprias preocupações, o silêncio que sai do quadro e invade o mundo do espectador, todos esses elementos evocam o sentimento pós-humano: a ideia de que existem dois tipos de pessoas no mundo, um melhorado por meios artificiais, outro ligado às tradições. O homem se tornou obsoleto e, assim, está cansado e sozinho no planeta.

Edward Hopper, Sol em Prospect street, Gloucester Massachussets (1934)

Edward Hopper, Sol em Prospect street, Gloucester Massachussets (1934)

 

Edward Hopper, "Excursão na filosofia" (1959)

Edward Hopper, “Excursão na filosofia” (1959)

 

Edward Hopper, "Tarde em Cape Cod" (1939(

Edward Hopper, “Tarde em Cape Cod” (1939(

Descobri sobre o trabalho de Simon Stalenhag no link http://dangerousminds.net/comments/dreamy_sci-fi_paintings_show_the_world_after_an_alien_invasion

A julgar pela reportagem, a obra do artista  imagina uma Suécia dos anos 80/90 onde um experimento atômico deu muito errado, sendo sucedido por uma invasão de “misteriosas criaturas” (ainda não se sabe se são alienígenas). É uma distopia, evidentemente, mas também suscita questões do pós-humano. Se a evolução tecnológica é inevitável, melhor não lutarmos contra a perda de algumas das características que constituem a nossa Humanidade, mas tentar imaginar um tempo em que a igualdade deixará de existir e seremos todos diferentes uns dos outros, tanto em espírito quanto em corpo.

Ah, uma última observação. Não faz muito me comentaram que existe uma teoria pós-humana também da literatura. Mantenho a opinião que então proferi: a julgar pela qualidade do material humano das obras literárias contemporâneas, o ideal seria pensarmos em uma teoria PRÉ-humana, pois estamos involuindo ao invés de avançarmos….

Deixo abaixo alguns desenhos de Simon Stalenhag para vocês viajarem nesse mundo tão distante, tão possível:

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Crônicas de um ano inteiro: “Um mundo de chorões”

No meu texto dessa semana no “Crônicas de um ano inteiro”, eu falei sobre o desagradável costume de reclamarmos de tudo – e o quanto essa conduta nos impede de resolver os problemas, transformando o mundo em um lugar repleto de chorões sem iniciativa.

Os leitores atentos perceberão a minha auto-referência jocosa ao conto “Um mundo de moscas”, que está no livro “O homem despedaçado” (aliás, seria legal pensar em um “Um mundo de moscas choronas”, em que cada mosca que forma o homem representa uma reclamação chorona) e, ao final, uma desconstrução brincalhona com o “Tabacaria”, do Fernando Pessoa. Também coloquei uma frase de Chesterton e duas de Francis Bacon (ah, e também o Edgar Allan Poe), então, fica o registro, para que não chamem minhas brincadeiras intertextuais de plágios.

Boa leitura.

 

Um mundo de chorões

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Não faz muito tempo, li uma entrevista do criador do Facebook, Mark Zuckenberg, na qual ele afirmou que estávamos usando de forma errada as redes sociais. Elas não foram concebidas para espalhar discursos de ódio ou mensagens raivosas, mas para ajudar as pessoas a criar novos laços entre si. Era para ser uma rede social no sentido de solidária, não um local que espelhasse as piores facetas humanas. Por segundos, imaginei a extensão do fracasso desse pobre homem: criou um produto com uma finalidade nobre e, que droga!, todo mundo entendeu errado. Mark ficou rico, mas por que nenhum de nós leu com cuidado as letrinhas pequenas que explicavam o verdadeiro motivo da criação de uma rede social.

Para mim, o maior problema da rede social nem é a disseminação de discursos de ódio, mentiras ou insultos. Os seres humanos sempre foram assim, a diferença atual é só a velocidade e alcance dessas informações. O mais desagradável em uma rede social é ver o quanto somos chorões e reclamões. Por Tutatis, estamos sempre chorando de tudo: se o dia está quente, reclamamos; se está frio, protestamos. Xingamos a chuva e resmungamos sobre a seca. Reclamamos da derrota do nosso time e dos roubos que cometem os árbitros – e políticos, e donos de empresa, e jornalistas, e quitandeiros, hoje usamos “ladrão” para qualquer situação, é uma palavra tão desgastada que quase soa como sinônimo de sucesso. Reclamamos de quando acordamos cedo e de quando estão fazendo obras nas proximidades das nossas casas. Reclamamos que o meteoro não veio e que o mundo ainda existe do jeito que está. Reclamamos da morte de inocentes e do alarido de crianças. Reclamamos do troco que veio errado, do ar condicionado do cinema, do filme indicado para o Oscar (e dos que não foram). Reclamamos de tudo e de todos.

O esporte nacional por excelência é a reclamação. O culpado é sempre o outro. Afinal, do alto da minha perfeição, posso julgar as condutas alheias com dureza e punir quem não se comporta como desejo. Aqueles que seguem as regras da minha consciência, bom, nem merecem um elogio, pois estão fazendo só a sua obrigação. Por sua vez, quem for diferente do que penso, será punido com uma exemplar reclamação. As redes sociais transformaram-se em um grande SAC do universo.

Se a reclamação ainda fosse direcionada para uma melhora geral das condutas alheias ou até mesmo para uma necessária auto reflexão sobre os próprios atos de quem reclamou, seria algo saudável. No entanto, ela é um insidioso vício, pois visa a reclamar pelo simples prazer de ouvir a própria voz protestando. Não é uma reclamação que serve de início para um debate saudável, mas um protesto que só serve para ecoar no vazio. Logo será esquecido e, amanhã, faremos uma nova reclamação, e assim irão os dias, uma reclamação grudada na outra até o final dos tempos.

Outra desagradável consequência das redes sociais é a quantidade de pessoas que, não bastando reclamarem o dia todo, pensam em disfarçar as suas opiniões atrás de uma roupagem irônica, pseudo auto-depreciativa ou até mesmo engraçada. O resultado disso é a rede social ter se transformado em um lamentável arremedo de stand up comedy com um palhaço que enuncia uma piada ruim atrás da outra, resmungando de tudo e de todos enquanto debocha da plateia, que aplaude de forma educada e distraída. Se existe algo que deveria ser ensinado nos colégios é a arte de fazer uma ironia eficaz e corrosiva de tal maneira que rimos, sem saber se somos elogiados ou insultados. As pessoas deviam ler mais Chesterton e Thackeray antes de saírem por aí fazendo ironias; não existe nada mais lamentável do que uma ironia feita por alguém que se pretende ser culto e “descolado”.

Nosso culto à reclamação fácil nos transformou em uma nação de poltrões. Ninguém resolve mais diretamente os seus problemas: preferimos nos afastar e reclamar nas redes sociais. Distante dos conflitos, com a garantia de um afastamento físico, somos os mais corajosos seres que já pisaram na Terra, os senhores da justiça, os arautos do correto. Pensamos em cuidadosas ironias, travestindo nossa covardia em reclamações lindas – colocamos até fotos! Se tivermos a habilidade suficiente, quem sabe não transformamos nossa reclamação em um meme? Covardia gera covardia, e ela se espalha como ondas em um lago, colidindo ou se juntando com outras reclamações, até se transformar em um tsunami ou em um maëlstrom. Estamos afogados em um oceano de reclamações. Sempre chamou minha atenção aquelas pessoas que olham algo que lhes repugna escrito na rede social e chamam seus “amigos” para se juntarem à discussão e agredir o autor do comentário. Para mim, é o equivalente virtual de chamar os amigos no recreio para bater no coleguinha que se comporta diferente.

Tão enfadonha é essa cultura da reclamação impensada que provavelmente alguns leitores estão agora pensando ,“olha aí o cara, fez um texto reclamando de quem reclama, mas que cara de pau”. Eu poderia responder dizendo que sempre coloquei o pronome “nós” nesse texto para me incluir na coletividade e dizer que também reclamo, ou seja, estou fazendo uma auto-crítica, mas seria muito fácil escapar das consequências do que escrevi dessa forma engraçadinha. A realidade é que esse texto constata um grave defeito de nossas personalidades: não enfrentamos mais os problemas. Não queremos mais acertar o mundo. Não queremos mudar. Nós só queremos reclamar, e achar mais amiguinhos que reclamem conosco, e mergulhar fundo no poço de nossa miséria.  Reclamar é um vício debilitante e paralisante, pois não muda a situação, só ajuda a compartilhar nossas covardia e fraqueza com o resto das pessoas. Está na hora de descermos da mansarda e encararmos o mundo como heróis reais, não como aqueles que olham a vida passar – e ficam reclamando ao invés de agirem.

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Obras Inquietas – 21. “Retrato de Varya Adoratskaya” (1914), Nicolai Fechin

Na minha coluna da semana no “Obras Inquietas”, escrevi sobre um quadro de Nicolai Fechin, “Retrato de Varya Adoratskaya” (1914).

Existem poucos detalhes sobre esse quadro. Alguns dizem que Varya Adoratskaya era vizinha de Fechin durante os 4 anos que ele dedicou-se de forma quase exclusiva à pintura de retratos. O rosto de espanto da menina revela uma ponta de medo; sobre a mesa, restos de bonecas e de um chá da tarde mostram melancolia. No meu texto, falei sobre o dia em que perdemos a inocência, mas o quadro também possui um momento histórico interessante: 1914 foi o ano em que iniciou a Primeira Guerra Mundial e, em 1917, viria a Revolução Russa. As cores vivas da pintura também são a despedida de uma forma inocente de ver o mundo.

Boa leitura.

“Retrato de Varya Adoratskaya” (1914), Nicolai Fechin

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Existiu uma época em que o mundo era um local incrível: cheio de novidades, de luzes, de sons estranhos que tentávamos transformar em imagens, de sabores esdrúxulos que agradavam ou repudiavam ao paladar. Todos nós passamos por essa época. Não sabíamos então, mas era o melhor dos tempos. Precisávamos desbravar territórios novos, mapear locais ainda desconhecidos, e cada dia era um novo dia, cheio de aventuras e de descobertas. Não sabíamos o que era segunda feira ou álcool; desconhecíamos o conceito de responsabilidade, de dor, de noites repletas de angústia. A morte era uma ideia inexistente e, assim, todos éramos imortais. Contudo, aos poucos, o universo que circulava ao nosso redor começou a se firmar. Passamos a reconhecer rostos, lugares, vozes amigáveis, gritos ríspidos. Não demorou muito para a fome nos pressionar, para a solidão visitar nossos dias, para o terror habitar as trevas do quarto. O mundo foi diminuindo de tamanho, e deixou de ser mágico para se transformar em um local repleto de perigos e de instabilidades. Os confortos diminuíram, enquanto que os desesperos começavam a projetar suas sombras sobre as nossas vidas. Tudo que é maravilhoso um dia morre. Fechar os olhos hoje não serve para criar outra realidade quando voltarmos a abri-los; estamos presos a um destino que brinca conosco como se fossemos lambaris em um açude, e nunca escaparemos. A única constante da vida é estar vivo. E assim vamos até o dia em que a tristeza ensombra nossos olhos pela primeira vez e é quando, mesmo sem saber, que a experiência de ser humano começa, pois viver não passa de se arrastar de uma dor até outra até o conforto final. Por isso, nenhum de nós esquecerá o anônimo e terrível dia em que, enfim, a inocência morre – o dia em que o medo nasce.

Texto originalmente publicado no link https://artrianon.com/2017/02/19/obras-inquietas-21-retrato-de-varya-adoratskaya-1914-nicolai-fechin/

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Crônicas de um ano inteiro: “Nós que vamos morrer te saudamos”

No meu texto dessa semana no “Crônicas de um ano inteiro”, tratei de seres que sabem que vão morrer e o seu comportamento antes do fim, mas termino com um sonho – e com uma esperança.

Boa leitura.

 

Nós que vamos morrer te saudamos

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Aparece com frequência em entrevistas, em piadas ou em filmes: se soubesse que vai morrer, o quê você faria? As respostas são as mais amplas possíveis, desde uma viagem há muito sonhada até a realização de algum antigo sonho.  Contudo, tratamos isso sempre em abstrato, no campo das ideias, que é o lugar por excelência no qual podemos ser corretos e insinceros, arrancando aplausos admirados da consciência. Desconhecemos a hora em que iremos morrer, e isso nos enche de arrogância para imaginar um final digno para essa suposição. Estamos vivos e – de forma convencida – nos achamos imortais, pelo menos até que a morte nos contradiga.

No entanto, existem seres que, nesse exato momento, sabem que vão morrer. Foram desenganados ou padecem de enfermidades incuráveis. Estão em hospitais, em casas, esperando. Ignoram o momento exato em que deixarão o mundo, mas tem a noção de que esse instante se aproxima com passos céleres. No que pensam aqueles que, por uma ironia do Destino, sabem que a última respiração se aproxima? Terão medo, desespero, ou a tão almejada paz de espírito? O Tempo é um amigo ou inimigo – os segundos que escoam pela ampulheta são preciosos ou meros desperdícios?

Um dos princípios mais antigos da Filosofia é que devemos viver cada dia como se fosse o último, pois, em alguma ocasião, infelizmente estaremos certos. Quando entravam nos anfiteatros romanos, os gladiadores saudavam César: “Ave Caesar Imperator, morituri te salutant”, ou “Salve César, nós que vamos morrer te saudamos”. Existia sabedoria nessa frase. Nem todos os gladiadores morreriam: os que passassem por tal dia, tinham saudado a morte de forma pretérita; os que sobreviviam, sentiam-se como se tivessem renascido. É medida de prudência iniciar cada dia imaginando que vamos morrer hoje, pois talvez seja o que nos faça viver com mais afinco, impedindo-nos de gastar tempo com o supérfluo, de silenciar palavras que deveriam ser ditas, de ocultar sentimentos que deveriam ser demonstrados. Não precisamos estar na frente de César para admitir que, se a Morte quiser, hoje ela nos pega.

Tenho conhecido muitos seres prestes a morrer. Estou cansado de ver a morte vicejar ao meu redor. Perdoem-me se não falo de política, de economia, ou se não falo sobre cafés que chegam gelados, sobre produtos vendidos com defeito, sobre partidas de futebol. Eu gostaria de pensar nisso, de perder tempo criticando o mundo que se atreve a ignorar os meus pensamentos – que são os melhores, acreditem, sei o que é melhor para todos com base no mais excelente juiz de todos, que sou eu mesmo -, mas a morte me rodeia com seu hálito frio e bate na janela do quarto toda noite, lembrando que caminha por aí. No passado, recordo que morriam duas ou três pessoas próximas por ano; nos últimos tempos, a cada ano que passa, as mortes de conhecidos, remotos ou próximos, somam algumas dezenas. Meu pai tem uma frase quando alguém morre, “estão chamando a minha turma”, e, nos últimos tempos, parece que cada vez chegam mais perto.

Pensar sobre a morte não significa que eu a tema, só quer dizer que, diante de tantas variáveis no mundo – inclusive o fato de todos nós podermos não mais existir amanhã -, perder tempo discutindo irrelevâncias não me atrai. Prefiro aproveitar mais o dia que pode ser o meu último. Não faz muito tempo, li que nunca se produziu tanta informação na Humanidade como nos tempos atuais, mas a questão é o que selecionamos como informação a nos ocupar. Às vezes, penso que existe um grande Ministério da Desinformação que, aos moldes do preconizado em “1984” do George Orwell, esforça-se em fazer as pessoas se distraírem com picuinhas ao invés de colocar o dedo nas grandes questões. Só isso explica o fato de, a cada dia, elegerem uma polêmica inconsequente, um meme engraçado, uma reportagem lacrimosa, para, então, quando todos falarem de algo desimportante, conseguirmos silenciar as angústias que continuam ribombando nas nossas cabeças.

Por isso, sempre retorno ao que realmente importa e, nesse momento, está na minha dolorida consciência de que existem seres que sabem que vão morrer. Não lutam, não se desesperam, não negociam termos com a Morte – simplesmente esperam ela bater em casa e vir levá-los embora. Não são as minhas palavras que irão deter o avançar inexorável do inevitável, e nem ao menos servirão de consolo (“Palavras, palavras, palavras!”, e Hamlet joga o livro longe).

As únicas alternativas que tenho é um sonho e uma esperança. O sonho é que a morte seja como um fechar de olhos aqui e um abrir de novo na Eternidade. Sem dor, sem peso, sem nada a atormentar. A esperança é mais um desejo: dizem que, quando os aviões acertaram as Torres Gêmeas em Nova York, em setembro de 2001, muitas pessoas ficaram isoladas pelo fogo na Torre B. Elas viram a Torre A ceder ao próprio peso e desmoronar e, nesse momento, ilhadas, souberam qual era o seu destino inapelável: morrer em alguns minutos. Pegaram seus celulares e ligaram para os parentes que lhes eram queridos e, quando não conseguiam falar com eles, deixavam mensagens. Em todas elas, uma única palavra era onipresente: amor. Antes de morrer, somos preenchidos pelo amor, e essa é a única esperança que posso desejar para os seres que se encontram nesta encruzilhada da sua existência – que se sintam tomados pelo amor daqueles que tiveram o privilégio de conviver com eles. Que saúdem a morte sabendo que foram amados.

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Obras Inquietas – 20. “Os síndicos da guilda de ourives de Amsterdam” (1627), Thomas de Keyser

Na minha coluna da semana passada do “Obras Inquietas”, eu abordei uma pintura de Thomas de Keyser, “Os síndicos da guilda de ourives de Amsterdam” (1627). Falei sobre a sensação de estar sendo constantemente vigiado e julgado por olhos invisíveis, que são os da sociedade.

No mesmo período, muitos pintores fizeram grupos de homens olhando interrogativamente para o espectador da obra, como se soubessem de algum segredo não revelado. Eu poderia ter escolhido o famoso quadro de Rembrandt, “A guilda dos tecelões” (1662). Mas gosto do quadro de Thomas de Keyser por dois motivos: a mão impaciente do homem sentado na extremidade direita e o olhar enviesado do síndico inclinado sobre ele. Existe uma grande ironia nessa pintura; os homens parecem prestes a estourar em gargalhadas.

Boa leitura!

“Os síndicos da guilda de ourives de Amsterdam” (1627), de Thomas de Keyser

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Estamos sendo observados. Mesmo que não conseguimos ver, eles estão lá. Não importa o local ou o tempo, sempre existe alguém a nos analisar, a medir nossos passos e atitudes, a nos recriminar em silêncio distante. Nunca estamos certos. Nunca seremos livres. Os olhos invisíveis nos perseguem; não conseguimos nos esconder da sua suave recriminação, da expressão de desalento, das risadas indiscretas dos lábios ocultos por sombras e barbas. Olhe a mão do homem à direita: ela oscila, irônica, dando a dimensão da sua incapacidade. Com a expressão concentrada de quem nasceu para julgar e condenar, os homens não se impressionam com as nossas maiores glórias e nem se atemorizam com nossos crimes mais grotescos. Para esses olhos incansáveis, somos fracassos ambulantes, seres mesquinhos que fazem tudo errado, tudo. Todos carregamos alguma culpa, algum pecado, algum segredo que não ousamos confessar nem para o travesseiro nas trevas, mas eles – os homens – sabem disso. Não só sabem como estão disfarçadamente escarnecendo dos nossos esforços. Não precisam dizer a sua opinião: a maneira com que nos olham revela um misto de pena e de desesperança. Quando viramos as costas, as suas risadinhas e os cicios nos deixam desconfortáveis; viramos para encará-los, e o escárnio se transfere para outro ponto, incessante. Passamos a vida inteira sonhando em sermos dignos e respeitados por esses homens, mas eles sabem de antemão que nunca conseguiremos. Pois somos humanos e, por definição, estamos condenados a sermos falhos, insuficientes. Inadequados. Viver em sociedade é isso: ter uma sombra invisível a pairar sobre as nossas cabeças, julgando todos os nossos movimentos, rindo em silêncio das nossas angústias – e torcendo pela nossa queda.

Texto originalmente publicado no link https://artrianon.com/2017/02/11/obras-inquietas-20-os-sindicos-da-guilda-de-ourives-de-amsterdam-1627-thomas-de-keyser/

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Texto publicado na revista eletrônica da Dublinense (09/02/2017): “A leitura como ato de guerra”

Na minha coluna dessa semana no Medium da Dublinense, falei das estratégias que uso para priorizar a leitura no meu cotidiano, algo que aconselharia para poucas pessoas.

Mas, como a vida também é elucubração, contei de como eliminei itens que consumiam minha atenção (como jornais e noticiários) para me concentrar nos livros; falei dos irritantes clichês que abundam no mundo (eita, acabei de fazer um clichê); contei da época em que a leitura era uma experiência coletiva; falei dos enroladores de charuto de uma fábrica que eram tão fãs de “O conde de Montecristo” que mandaram uma carta para Alexandre Dumas; falei (mal) dos saraus, que assassinam a leitura dos textos ao invés de incrementá-la; contei a história da interessante disputa entre joglars e trovadores na Europa do século XI para ver quem fazia as melhores leituras, se a literatura de entretenimento ou a literatura clássica (e tem tanta gente achando que descobriu a pólvora por aí ressuscitando uma discussão de 1.000 anos); falei das “Silent Reading Party”, um movimento que começou nos Estados Unidos, em que as pessoas se reúnem à noite em um bar para ler em silêncio e terminei contando a história de um grande homem infelizmente quase desconhecido, o tribuno Caio Asínio Polão, que, após uma vida de guerras, virou crítico literário e convidou ninguém menos do que Virgílio para fazer a primeira leitura pública – e comentada criticamente! – da “Eneida”, tudo para concluir que ler livros é o ato mais subversivo que existe.

Boa leitura!

 

A leitura como ato de guerra

 

Pergunta que sempre me fazem é como arrumo tempo para ler. Creio que a resposta seja frustrante: eu não sei. Não penso em livros como questão de tempo ou de comprometimento, mas como algo integrado à vida. É uma óbvia questão de espaço – e com frequência me angustia a proporção acelerada com que os livros chegam à minha biblioteca e a rapidez com que as prateleiras antes salvadoras tornam-se abarrotadas -, mas não um sacrifício como muitas pessoas parecem acreditar. Como qualquer coisa na vida, a leitura não precisa consumir largos períodos do cotidiano, mas pode tornar o tempo elástico o suficiente para caber dezenas de livros no seu interior. Alguns dizem que a leitura vence as noções de espaço, de realidade e até mesmo amplia a vida, mas, para mim, ler é algo que dilata o tempo ao invés de desperdiçá-lo.

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Com o passar dos anos, alguns procedimentos para deixar mais tempo para a leitura se tornaram inevitáveis, mas por causa de fatores darwinianos e não por minha vontade. Só os fortes sobrevivem. Em torno de 20 anos atrás, constatei o óbvio: não conseguiria ler todos os livros que desejo. Minha vida é curta demais. Para evitar perda de tempo que poderia ser melhor empregado, fiz cortes. Comecei eliminando as leituras de jornais; eles eram mal escritos, as notícias são enfadonhas na sua repetição e, em geral, tinham informações que não me acrescentavam muito. Hoje leio poucos suplementos de jornais, e todos ligados às novidades e análises do mundo cultural, graças aos quais estabeleço metas de espetáculos, filmes, exposições e livros. Para não me tornar um completo alienado do mundo, fiz um pequeno clipping de notícias que abastece meu e-mail com os assuntos que me importam.

Também cortei boa parte dos programas de televisão, pois eram eivados de clichês e de ideias soníferas. O clichê – a repetição ad nauseam da mesma ideia, tornando-a previsível – estava tão disseminado que até mesmo o ângulo da câmera ao explorar os cenários era evidente. Com o aumento progressivo das leituras, boa parte dos filmes do cinema e seriados de televisão também se tornaram previsíveis. Raros são os que conseguem me surpreender, mas uso os filmes e seriados mais para ver as nuances de criação de personagem. Ainda assim, depõe muito contra a cultura atual o quão previsível e datada ela se transformou, a ponto das risadas que damos de um filme agora serem ridículas quando revemos a obra poucos meses depois, demonstrando a vacuidade da ideia original.

É um movimento não cultural, mas da indústria cultural. Quanto mais vezes consumimos algo, mais gastamos. Não se realiza mais um material artístico para ser refletido e perdurar, mas somente para ser vendido várias vezes. É algo que explica a beleza apenas aparente das obras – elas são feitas para durar um pequeno lapso de tempo na nossa atenção, não para indagar questões profundas. Não usam varas curtas para cutucar onças; preferem fotografar os antílopes à distância.

No passado não era assim. A cultura não era parte do entretenimento, mas algo sério. Os artistas não produziam obras para ficarem ricos ou famosos, mas para que elas enganassem o tempo e vencessem os limites da vida do seu autor. A própria leitura era um ato coletivo. Como existiam poucos livros, as pessoas se reuniam em torno de uma pessoa, que lia a obra enquanto todos prestavam atenção. Em geral os atos de leitura aconteciam em igrejas; somente o padre tinha acesso à Bíblia, e a lia em público para as demais pessoas, conduzindo também as suas interpretações do texto sagrado. Aliás, a própria ideia de ter uma Bíblia ou consultá-la era uma heresia, pois somente os padres tinham acesso às palavras de Deus. Foi Santo Agostinho quem escreveu pela primeira vez sobre as benesses da leitura silenciosa, ao comentar sobre os hábitos de São Ambrósio – de quem era tão fã que tentava imitar – que lia para si mesmo mexendo os lábios, mas sem proferir som.

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Hoje vivemos no império da leitura silenciosa. Raramente vemos leituras coletivas, a não ser em saraus, onde elas são tão mal realizadas que geram mais desgosto do que alegrias (pois ler em voz alta também é uma arte, infelizmente desprezada pelos poetas e prosadores ao achar que a palavra escrita basta para um texto).

No entanto, existem histórias impressionantes sobre leituras coletivas feitas em ambientes inesperados, como, por exemplo, fábricas. Colocavam alguém para ler um livro enquanto os operários trabalhavam, e isso ajudava a passar o tempo e dava alívio para a rotina estafante. A mais inesperada das leituras coletivas aconteceu provavelmente na fábrica americana H. Upmann. Os operários – enroladores de charuto provenientes de Cuba – escolhiam por votação o livro que lhes seria lido enquanto trabalhavam. Gostavam tanto de “O conde de Montecristo” que decidiram mandar uma carta para Alexandre Dumas, pouco antes da sua morte em 1870, pedindo-lhe autorização para usar o nome do personagem em um charuto. Dumas aceitou, e até hoje o charuto Montecristo é apreciado ao redor do mundo.

Tão disputada era a leitura em voz alta que existiam grupos de leitores que disputavam a primazia entre si, como foi o caso dos joglars (que podem ser chamados de “menestréis”) e dos trovadores na Europa do século XI. Eram pessoas especializadas em leitura, que costumavam aparecer nas casas de nobres e até mesmo nas estalagens e tavernas para oferecer os seus serviços de leitor. A diferença crucial entre esses dois sistemas de leitura em voz alta é que os joglars eram especializados em quadras e versos populares, ou em uma literatura que podemos chamar de entretenimento, enquanto que os trovadores liam (ou faziam, pois alguns deles também eram autores) literatura clássica, em especial os versos latinos de autores como Virgílio e Homero. Uma distinção feita entre ambos é que o joglar era o intérprete de uma obra, ao passo que o trovador podia ser um intérprete ou um autor.

Os joglars eram estimados pela sua capacidade de se vergar ao interesse do público, podendo contar histórias pícaras, divertidas e de costumes, e com uma vantagem em relação aos trovadores – eles faziam leituras musicadas. Alguns deles também se vestiam como palhaços ou faziam acrobacias, ou seja, era uma leitura com muitos detalhes para chamar a atenção do espectador. Existia ainda uma diferença temática: os joglars falavam histórias eróticas, sendo que quase todos possuíam nomes de duplo sentido sexual. Eram entertainers no sentido mais amplo da palavra. Por sua vez, os trovadores, que se ocupavam do estilo clássico de leitura, acompanhados somente de músicas sóbrias, eram mais comedidos e circunspectos. Preferiam continuar fiéis ao texto escrito, sem muitos improvisos ou distrações, considerando a leitura não só como entretenimento, mas também como instrução e elevação de ideais.

Os dois sistemas de leitura em voz alta entraram em colisão. Alguns trovadores contrataram malabaristas para se apresentarem durante as suas leituras; alguns joglars fizeram composições próprias. No entanto, ambos tinham uma função muito importante, que era manter o povo calmo e sob o domínio dos poderosos: usando as leituras, tanto joglars quanto trovadores mostravam as vantagens de estar sob o jugo de quem lhes pagava, ou seja, o nobre, rei ou senhor feudal. Alguns deles inclusive passavam mensagens políticas cifradas entre diferentes reinos, atuando como espiões. Existem registros de joglars que funcionaram como fatores de rebelião de alguns povoados, algo quase impensável hoje, mas que demonstra a importância da leitura no aspecto social, econômico e político.

Talvez por isso a leitura seja a inimiga número um do poder e da tirania, o que explica a queima de livros como um gesto desesperado para impedir o surgimento de leitores. Contudo, nos tempos atuais, a lei do mercado ditou um novo tipo de queima de livros: com o surgimento maciço de obras que visam a arrecadar dinheiro, faltam aquelas que levam além o conceito de arte e despertam mais inquietações do que certezas.

Em um universo repleto de livros, é muito mais fácil esconder obras relevantes – ou evitar que elas venham ao mundo. Isso transforma o ato de ler livros como o exercício da rebeldia por excelência: estamos cercados de atrações que tentam tirar a nossa vontade de ler. Existem televisões, seriados, filmes impregnados de computação gráfica, videogames com altíssimo nível de perfeição, jornais com manchetes sedutoras. Nesse contexto, ler livros – sem abrir mão de outros prazeres – pode ser a única maneira de manter a sanidade em um mundo que tende à dispersão e à falta de foco.

Ainda existem locais de resistência; pontos em que a ignorância dos que gritam alto para impor argumentos não consegue entrar. Um ainda tímido movimento de renovação do prazer da leitura está se espalhando por cidades do mundo. Começou quatro anos atrás, em Seattle, nos Estados Unidos, e se chama “Silent Reading Party”. No bar do Hotel Sorrento, reuniu-se um grupo de pessoas que trazem os seus livros favoritos de casa, sentam-se confortavelmente nas cadeiras e, durante duas horas, em silêncio total, leem as obras. O máximo de barulho permitido são as bebidas sorvidas e o rumor das páginas virando. Ninguém faz comentários, ninguém tece opiniões, ninguém mostra conhecimento – todos se entregam à leitura compartilhada em um espaço público.

A justificativa é interessante: mesmo em casa, nem todas as pessoas dispõem de um lugar adequado para ler, o que acaba acontecendo na “Silent Reading Party”. Além disso, existe muita interferência do cotidiano – família, celular, vizinhos, obras, trânsito – que transmite inquietação para um leitor e atrapalha a sua imersão na obra. Sem contar que, como toda boa festa que se preze, sempre existe a possibilidade de conhecer pessoas interessantes irmanadas por um único ponto em comum, no caso, a leitura. Quem nunca se apaixonou pelo livro lido por outra mulher antes de gostar dela que jogue a primeira pedra.

Começou em Seattle, mas já se espalhou para Nova Iorque e para São Francisco, além de ter pulado a América do Norte e também aparecer em Roma, integrada ao movimento do Slow Food (enquanto esperam as comidas, as pessoas entregam-se à leitura dos livros ao invés de conversar entre si). Em Nova Iorque, aconteceu em um bar de Williamsburg, e uma cellista proporcionou acompanhamento sonoro não-invasivo para os leitores, enquanto que o bar entrou com um vinho especial para o momento.

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Silent Reading Party em Nova Iorque

Quanto mais tentam sufocar a leitura, mais ela viceja, e existe subversão nesse ato. Quando deixou de assistir telejornais ou opto por não ler jornais, estou na contramão da sociedade de informação; perco em atualidades, mas ganho em alegrias e redescobertas pessoais. Foi o que aconteceu com Caio Asínio Polião, um dos romanos mais ilustres que existiu e, possivelmente, um dos mais ignorados. Não irei me deter em toda a sua biografia, mas destacarei alguns pontos. Nos seus 61 anos de idade, Caio Asínio estava ao lado de Júlio César quando ele atravessou o Rubicão; em conjunto com Caio Curião, perdeu a sangrenta batalha do Rio Bagradas para o rei da Numíbia, aliado de Pompeu, e fugiu com um grupo de soldados, deixando mais de 8.000 mortos para trás; teve que aguentar o desgosto de descobrir a traição de sua esposa, Quíncia, com Dolabela, o líder da oposição ao seu cargo de tribuno; participou ativamente da guerra na Hispânia; na guerra entre Otaviano e Marco Antônio, primeiro se juntou a Marco Antônio, mas, em seguida, ajudou a costurar a paz entre eles na Paz de Brundísio.

Caio Asínio Polião teve uma vida de muita agitação militar para dedicar os seus últimos dias ao estímulo da leitura. Foi o criador da primeira Biblioteca Pública de Roma, transformando-a em um espaço onde os leitores podiam se agrupar para consultar livros. Tentando deixar o local confortável, encheu-o de obras pilhadas de outros povos ou de artistas locais, transformando a leitura em uma atividade de prazer estético mais do que uma obrigação. Após fundar a biblioteca e decorá-la com muita arte, o guerreiro aposentado transformou-se em um renomado crítico literário e historiador, tendo escrito “História Romana”, que não chegou até os nossos tempos, mas foi livro de cabeceira de muitos escritores da época, inclusive Plutarco.

Na qualidade de estimulador da leitura, Caio Asínio Polião costumava organizar leituras públicas na sua casa, ocasião em que os escritores apresentavam os seus trabalhos enquanto os convivas deliciavam-se com um banquete. Como Horácio era um dos seus melhores amigos, é muito provável que boa parte dos poemas do autor romano foram lidos em primeira mão na casa de Caio Asínio.

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Caio Asínio Polião

A leitura pública mais polêmica na casa do antigo militar foi feita por um Virgílio no ápice do seu ímpeto criativo, que apresentou, em premiére mundial, os trechos iniciais da “Eneida”, colocando o troiano Enéias como fundador mitológico de Roma. Tão esperada era essa leitura que a família de Augusto compareceu em peso para prestigiá-la, e o escritor foi muito elogiado.

Ao final da leitura de Virgílio, Caio Asínio Polião resolveu fazer uma apreciação crítica da “Eneida” – a primeira na História da crítica literária. Não temos o teor exato de todas as palavras que ele falou sobre a obra, somente de uma frase que sobreviveu a mais de 2.050 anos desde que tocou as pedras do seu salão de banquete, em uma Roma que, orgulhosa, era o centro do mundo ocidental: “Enganam-se os que dizem que a leitura é uma brincadeira; na verdade, ler é sempre um ato de guerra”. Isso foi dito por um militar que pasou a vida toda envolvido em batalhas, e considerava a leitura como estando no mesmo patamar de intensidade. Uma guerra que nunca cessa: contra o obscurantismo, contra a preguiça de pensar por conta própria, contra o tempo – e contra a nossa inefável mortalidade.

 

Texto originalmente publicado no link https://medium.com/colecao-dublinense/a-leitura-como-ato-de-guerra-5e12d5a39740#.xl7svuaep

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Crônicas de um ano inteiro: “A dignidade da dor”

No texto no “Crônicas de um ano inteiro” dessa semana, eu falei sobre as minhas recentes experiências em hospitais veterinários – e de como um grupo de cachorros me ensinou algo sobre como a dor é o que nos transforma em irmãos.

Boa leitura.

A dignidade da dor

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Não sou uma pessoa acostumada a ambientes hospitalares e à solenidade toda própria dos locais que tratam de saúde, mas quis o destino que, nos últimos meses, passasse a frequentar muitos hospitais veterinários e clínicas. Basta observar como uma sociedade trata dos seus animais para saber qual tratamento reservam aos seres humanos. Não existe tanta diferença assim entre os dois tipos de hospitais, talvez só o fato dos pacientes animais serem muito mais permissivos e calmos do que seus congêneres humanos.

Para alguém que caiu de paraquedas no meio desses locais, completamente desprevenido, estou aprendendo a andar de bicicleta enquanto desço a ladeira: lido com veterinários entusiasmados ou frívolos, com atendentes delicadas e outras ríspidas, tendo que escutar uma linguagem repleta de termos técnicos e soando tão hermética quanto maldições em sânscrito. Mais do que tudo, precisei aprender a controlar a ansiedade – justo eu, que sempre me orgulhei dos meus nervos de aço temperado – para não pular no pescoço do médico veterinário exigindo providências. Também aprendi a importância de fazer perguntas corretas no momento para tanto, algo que hoje considero uma arte perdida que devia ser ensinada nas escolas desde o primeiro dia de aula. Mais vital do que conseguir respostas é fazer as perguntas adequadas, e é irritante – para não dizer perigoso – perder tempo com indagações descabidas.

A melhor maneira de entender a Humanidade é, às vezes, contemplando o comportamento animal. Pois na data de hoje, assim que cheguei a um hospital, antevi problemas, digamos, relacionais: minha cachorra não suporta cães maiores do que ela. Por um rescaldo comportamental da sua época de rua, assim que enxerga um cachorro do mesmo tamanho ou maior, precisa lutar para mostrar o seu valor. Mas esses tempos estão no passado, ela que ainda não entendeu o fato e continua puxando brigas com verdadeiros mastins. Segundos antes de entrar no hospital, olhei para o corredor pelo qual passaria e percebi que o inferno estava prestes a abrir as suas portas, pois, no mínimo, oito cachorros do porte que ela gostava de brigar estavam ocupando o espaço. Previ uma briga homérica, algo digno de se fazer um cântico de louvor.

No entanto, nada aconteceu. A minha cachorra comportou-se de forma exemplar, como se os demais não estivessem ali. Eles também continuaram calados, imersos nos seus pensamentos, alguns deitados, outros sentados, mas todos com os olhares distantes. Sentamos em uma cadeira e, na nossa frente, estava deitado um cachorro enorme, no estilo que o meu animal normalmente chamaria para uma briga. Era possível ver a sua respiração lenta, pausada, e o corpo ostentava várias feridas auto-infligidas (ele possuía uma doença de pele que causava extrema coceira, arrancando pedaços da própria carne para se coçar, o que lhe deixava com um assustador cheiro de carniça). Deitada na frente deste enorme cachorro, que em geral levaria alguns latidos e ameaças rosnadas, a minha cachorra contemplou-lhe com inegável pena, amplamente solidária à sua dor.

Enquanto todos os donos de cachorros teclavam nos seus celulares, eu prestei atenção nos animais, e vi que algo mágico acontecia naquele corredor estreito. Todos estavam em silêncio completo; nenhum latia ou miava. As diferenças entre espécies também não importavam mais. Cada um estava imerso na própria dor ou doença, mas trocavam olhares de simpatia e de mútuo reconhecimento entre si.

A dor é algo que irmana a todas as criaturas. Termina com as barreiras, reduz as diferenças, finaliza as discussões. Todos sentem – ou ainda sentirão – e, apesar das escalas criadas para mensurar a intensidade dessa experiência, só quem sente dor sabe que cada uma delas é individual e única na forma com que aparenta dilacerar nosso corpo e deixar o espírito de joelhos diante do seu poder paralisante. Não interessa se são dores físicas ou espirituais, se é a sensação de vazio gerada por um relacionamento negado ou a amputação física de um membro, qualquer dor é a mais violenta que sentimos, pois rompe a aparente integridade da nossa estrutura. Somos mais frágeis do que imaginamos e, se existe algo ensinado com dureza exemplar pelos sentimentos, é que, na dor, somos todos irmãos.

Escutei relatos de donos de animais dizendo que, quando o humano adoece, tratam dele como se fossem enfermeiros, e a explicação pode ser mais simples do que imaginamos: quem sente dor não gostaria que outra pessoa ou ser sentisse algo igual. Dentro daquele corredor do hospital veterinário, os animais trocavam olhares plenos de compreensão; estavam sentindo dor, cada um ao seu próprio jeito, mas todos sofriam igual. O sofrimento nunca é algo individual e, em certos ambientes, fica nítido que as dores se somam e se compartilham.

Impossível não pensar em quantas pessoas machuquei com as minhas condutas ou quanta gente já me feriu com as suas atitudes. É muito fácil machucar alguém, o difícil é ser solidário diante da dor alheia. Sentado no corredor do hospital veterinário, vendo animais com um comportamento digno enquanto o médico não lhes chamava, trocando olhares cheios de medo e de dor silenciosa, percebi que essa é uma lição que deixamos de aprender, assim como a arte de fazer perguntas certas: a ideia de que somos criaturas feitas de dor, que ela está dentro não só da nossa vida, mas em tudo que nos cerca, e que o único dever que deveríamos observar é não trazer mais dor e sofrimento para um mundo que já se encontra imerso em tais sentimentos. Não machucar ninguém, seja com atitudes ou com opiniões, é um procedimento de coragem no universo em que vivemos, onde a transmissão e a veiculação de dor parece mais importante do que tentar evitá-la.

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