Obras Inquietas – 01: “O Jardim da Morte” (1896), de Hugo Simberg

Antes de começar, uma breve explicação: a Aline Pascholati, do Artrianon – https://artrianon.com/ – me convidou para escrever uma coluna sobre arte. Não sei nada de arte, não tenho conhecimentos teóricos o suficiente, mas notei que as obras que ficam na minha memória são aquelas que, de uma forma ou de outra, me transmitem inquietude, desconforto, inadequação. Toda obra de arte desperta isto, mas algumas me tocam de um jeito diferente e acabam se tornando mais memoráveis, e a razão disto nem eu sei direito, mas espero descobrir. Por isso, o nome da coluna é “Obras Inquietas”, e nela mostrarei pinturas, esculturas, fotografias, músicas, danças, quadrinhos, objetos e até livros que me deixaram inquieto, ao passo que, em pequenos textos, tentarei desconstruir meus receios.

O homem é pequeno, ainda que a ambição seja grande. Pretendo chegar a 1000 obras (ou seja, 1000 inquietudes), mas o que eu conseguir fazer – e tiver forças – estará ótimo. E quem quiser contribuir com as próprias perplexidades, sinta-se livre para me indicar autores e obras que vou agregando os desconfortos de vocês aos meus.

Talvez mil seja uma estimativa modesta, afinal de contas.

Espero que gostem. No primeiro texto, “O Jardim da Morte”, do pintor finlandês Hugo Simberg.

 

01. “O Jardim da Morte” (1896), de Hugo Simberg

 

Hugo Simberg, "O Jardim da Morte"

Hugo Simberg, “O Jardim da Morte”

 

No Jardim da Morte, jaz a Vida. A Morte cuida bem das vidas que trouxe ao mundo. Jardineira hábil, apara arestas, rega as plantas ainda no seu início, permite que elas se desenvolvam e até mesmo frutifiquem. No entanto, também possui caprichos: se achar que alguma planta não se desenvolve da maneira esperada, ela a corta sem piedade e parte para outra semente, outra vida para chamar de sua. Ela possui seu próprio Tempo, e sua Vontade é soberana e sem motivo algum que não seja o de ter uma flor mais bonita do que as dos outros canteiros. “Seja uma boa plantinha”, sussurra a Morte com sua voz cheia de dentes ossudos, e a Vida estremece diante do olhar da Ceifadora. A Morte caminha pelo jardim, cumprimentando as outras Mortes que cuidam das respectivas plantinhas. Às vezes, para perto de um canteiro e conversa com a irmã sobre adubos, estimulantes, pragas e venenos, contemplando com olhos distraídos a vida que se desenrola, lenta, valente, trêmula, no solo nem sempre favorável da existência. Apesar do medo de estar sempre diante do olhar atento de várias versões de uma única Morte, a Vida cresce, passando de semente para muda ainda instável, dela para o viço cheio de alegria verde da adolescência e, a seguir, a maturidade repleta de experiência que contempla com destemor o vento a sacudir as vidas próximas, a chuva que dá alívio e aterroriza, o calor tíbio e o frio hesitante que insistem em lhe dobrar, até o momento em que tudo que a planta consegue pensar é quando os dedos sem alma, que tanto sonharam belezas e glórias para ela, virão enfim colhê-la, depositando um beijo frio nas pétalas cansadas.  No Jardim da Morte, a Vida espera o momento da colheita.

 

Texto originalmente publicado em https://artrianon.com/2016/09/29/obras-inquietas-01-o-jardim-da-morte-1896-de-hugo-simberg/

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Texto publicado na revista eletrônica da Dublinense (29/09/2016): “Aqueles que não podem morrer em paz”

Na minha coluna no Medium da Dublinense dessa semana, eu falei sobre algumas pessoas que não conseguiram terminar tudo o que planejavam em vida e, por isso, tiveram que voltar dos mortos para encerrar a sua lista de tarefas. Às vezes, a morte não é um descanso, mas um leve obstáculo para terminar as nossas obrigações.

Aproveito para reclamar da concorrência desleal que os escritores mortos fazem com os vivos no caso dos livros espíritas (poxa, como vamos competir com Olavo Bilac? Os espíritos não precisam trabalhar, comer, respirar, podem passar o dia inteiro escrevendo, e isso é muito injusto); falo de Arthur Conan Doyle e do seu engenhoso plano para ou provar a existência do Espiritismo ou impedir que obras espúrias surgissem em seu nome depois da morte; conto de como Dante Alighieri morreu e só então notou que não tinha mandado o final da “Divina Comédia” para o seu patrono, e a forma que ele encontrou para terminar o livro, e encerro contando a história de Simonetta Vespucci, a Musa Persistente, que, mesmo depois de morrer, continuou incomodando Sandro Botticelli, tudo para dizer que nem a morte salva os procrastinadores da sua lista de tarefas por fazer.

Boa leitura!

 

Aqueles que não podem morrer em paz

 

Não faz muito tempo, eu disse que a melhor parte de ir para o mundo dos mortos será parar de escrever. Não me interpretem mal, não tenho problemas com a literatura e nem penso em morrer tão cedo, mas imagino a morte como um espaço sem necessidade de escritores, um grande silêncio em que as histórias que ficam se esboroando como ondas nas paredes do meu crânio enfim encontrarão o seu término. Um lugar em que as histórias serão felizes, cada uma do seu jeito, sem mais precisar de um veículo humano e falho a carregá-las por aí como uma bagagem excedente. Pois a minha memória é formada por histórias que vivi, que escrevi, que sonhei e que ainda não tive tempo de escrever, e todas elas ficam se batendo na caixa craniana como carrinhos em um parque de diversão.

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É evidente que a vida logo tratou de desmentir meu idílio impregnado de utopia, pois, passeando por uma livraria, acabei me deparando com a prateleira de livros espíritas e várias obras ditadas por escritores diretamente do além. Não vou entrar no mérito da justiça ou não de tal agir dos colegas mortos: eles tiveram seu tempo na Terra, e me parece injusto que estejam estabelecendo uma concorrência predatória do além-túmulo, onde não precisam comer, respirar ou trabalhar, podendo passar o dia a escrever e a burilar o estilo. Isso sem contar que eles podem pedir dicas literárias para outros escritores mortos, o que deixa a competição ainda mais desanimadora. Quando vi a prateleira, logo imaginei uma mesa no outro lado da existência tomada por escritores a redigir furiosamente nas suas máquinas, sendo assessorados por um time de notáveis como Machado de Assis, Olavo Bilac, Guimarães Rosa… E sem ganhar nada, só pelo prazer genuíno de escrever sem dar atenção para críticos ou veleidades do mercado. Se já é difícil escrever no mundo atual (e ter leitores mais ainda), imaginem este tipo de concorrência vinda do além.

Eu não quero continuar escrevendo por toda a Eternidade. Por favor, depois que eu morrer, não me chamem. O que eu tinha para escrever, farei em vida, não pretendo ficar o resto dos Tempos azucrinando a paciência alheia.

Talvez eu faça como Arthur Conan Doyle. Nos seus últimos anos de vida, o criador do detetive Sherlock Holmes fascinou-se pelo espiritismo, em especial depois do falecimento da sua esposa, filhos, netos e até mesmo cunhados. Estava em profunda depressão, e foi o Espiritismo que acabou lhe dando forças. Conan Doyle passou a frequentar sessões espíritas com assiduidade, tornando-se um dos seus maiores defensores. Escreveu livros e textos sobre o assunto.

A sua briga com o mágico Harry Houdini, com quem mantinha uma forte amizade, acabou se tornando épica. Houdini não acreditava no Espiritismo, dizendo que os sons, luzes, batidas e eventos estranhos ocorridos nas sessões espíritas eram truques bem elaborados. Conan Doyle discordava e, tentando convencer o amigo, costumava levá-lo a sessões espíritas, mas Houdini aproveitava essa ocasião para tentar expor a religião ainda nascente como uma farsa. A amizade acabou com brigas e reclamações mútuas quando o escritor inglês afirmou que o mágico não fazia truques, mas tinha mediunidade em grau moderado. Ou seja: Houdini era aquilo que combatia, e não queria que os outros soubessem.

Arthur Conan Doyle e Harry Houdini

Arthur Conan Doyle e Harry Houdini

No meio de toda essa defesa do Espiritismo e pregações públicas pela sua validade, chegou um momento em que Conan Doyle constatou que também iria morrer. Neste caso, se o Espiritismo fosse uma farsa como diziam, o mercado seria inundado de obras falsas atribuídas a ele, que sequer poderia negar, posto que estava morto e era um defensor ardoroso de tal prática religiosa. Ao mesmo tempo, o escritor pensou em unir o útil ao agradável e usar a própria morte como uma maneira de provar a existência em definitivo do Espiritismo.

Conan Doyle bolou um plano intrincado, ao melhor estilo dos desenvolvidos por Moriarty. Ele chamou três amigos de confiança e deu para eles uma palavra chave que somente ele e os três conheceriam. Após a sua morte, tais pessoas deveriam ir nas sessões espíritas e, se algum espírito se identificasse como Conan Doyle, deveria fornecer a senha. Acaso dissesse a palavra secreta, ali estaria a alma do escritor pronta a contar as suas peripécias no outro lado da vida.

Até hoje não se sabe qual seria a palavra chave. Depois da morte de Conan Doyle, seus amigos andaram por sessões espíritas procurando-o, mas nenhum dos médiuns informou a senha correta.  Muitos problemas podem ter ocorrido, desde Conan Doyle estar falando a palavra chave na sessão espírita errada até ele ter esquecido dita palavra, não se sabe o que resta da memória depois que morremos. Conan Doyle tentou enganar a Morte e provar a existência do Espiritismo, mas acabou conseguindo – por via indireta – o silêncio eterno, eis que ninguém lança obras se identificando como o famoso criador do detetive residente no número 221B da Baker Street, pois não foram oficialmente chanceladas pela palavra chave apta a demonstrar a autoria.

Mesma sorte não teve Dante Alighieri. A morte acabou surpreendendo o escritor florentino antes da hora, deixando-o com um grave problema a resolver: a “Divina Comédia” estava concluída, mas ninguém sabia. Dante terminou a sua obra máxima e morreu antes de anunciar tal fato ao mundo, o que deixaria a “Divina Comédia” no rol das grandes obras literárias que nunca foram finalizadas. Isso não era nada justo.

Para um escritor, é terrível a ideia de ser interrompido no meio do ato de escrever uma história. Só consigo imaginar o pavor de Dante Alighieri que, depois de quase 20 anos dedicado à escritura incessante da “Divina Comédia”, depois de arquitetar 100 cantos, milhares de versos hendecassílabos em terceto e elaborar toda uma história que fizesse sentido e tivesse personagens inesquecíveis, é surpreendido pela malária em uma das estradas próximas a Ravena e morre, deixando inconcluso o trabalho para o qual tanto se dedicou.

É Boccaccio quem conta a história de como Dante Alighieri deu um jeito de colocar o ponto final na “Divina Comédia”. À medida que a obra chegava ao final, talvez com medo que algum incidente acontecesse com suas anotações, Dante passou a enviar os cantos encerrados para o seu patrono, Cangrande della Scala. Foi assim que o homem recebeu toda a obra, com exceção dos últimos 13 cantos do “Paraíso”, que Dante morreu antes de enviar.

Imaginou-se que a obra tinha sido definitivamente perdida pela morte prematura do seu autor. Os filhos e discípulos de Dante procuraram os cantos restantes entre os papéis que o florentino deixara para trás, sem achar nada, e ficaram “enraivecidos porque Deus não lhe permitira viver no mundo o bastante para ter a oportunidade de concluir o pouco que faltava de sua obra”.

Dante não podia sossegar enquanto não terminasse a sua obra máxima e resolveu se atribuir o papel de “deus ex-machina” do próprio livro. Em uma noite, Jacopo, terceiro filho de Dante, sonhou que o pai entrava no seu quarto, vestido com uma bata branca e com a pele ostentando uma leve luminescência. Segundo o depoimento dado a Boccaccio, Jacopo perguntou ao pai se ele ainda estava vivo – uma pergunta típica de quem é pego de surpresa no meio da noite – e Dante respondeu, em tom exasperado, que estava sim, na vida verdadeira, não a nossa. Isso lá é pergunta que se faça para um fantasma?

Em seguida, o filho do escritor perguntou se ele conseguira terminar a “Divina Comédia”. Dante sorriu: “sim, eu a terminei”. Levou Jacopo até o seu antigo quarto de dormir, colocou a mão em um ponto da parede e disse “aqui está o que vocês procuram há tanto tempo”. Quando o jovem acordou, chamou seus irmãos e eles quebraram a parede, descobrindo um nicho com os 13 cantos finais do livro envoltos em um pano que começava a mofar. Mais um pouco e a “Divina Comédia” teria sido perdida de vez.

Boccaccio encerra a narrativa com uma frase admoestatória: “Assim, o trabalho de tantos anos de Dante Alighieri foi concluído”. Mesmo morto, o maior escritor italiano não conseguiu descansar sem concluir a sua obra mais importante, e encontrou uma maneira de deixar os Campos Elíseos para vir terminar com a história que outrora começara. O dever maior de Dante não era com a vida ou com a morte, mas com a narrativa, e ele não podia deixá-la incompleta.

Existe algo de vaidade aí: alguém vencer a Morte por um motivo tão egoísta quanto provar a existência do Espiritismo ou concluir um livro. É preocupante imaginarmos que existem pessoas determinadas a não morrerem enquanto não terminarem com as tarefas que deixaram inconclusas, mas também existem pessoas que não se permitem morrer enquanto não virarem lendas.

Esse foi o caso de Simonetta Vespucci, a musa – ou, dependendo do ângulo, maldição – do pintor renascentista Sandro Botticelli. Não vou entrar nas invejáveis credenciais pessoais dela, que foi prima de Américo Vespúcio e amante de Juliano de Médici. O que realmente a transformou em alguém inesquecível foi o fato de que, mesmo tendo só 23 anos quando morreu de tuberculose, o fantasma de Simonetta Vespucci nunca mais parou de atormentar Botticelli.

Antes, um parênteses: aos 16 anos, ela foi escolhida, pelos nobres e artistas da época,  como a mulher mais bonita de todo o Renascimento. Transformou-se na musa dos maiores pintores de então: quadros foram feitos usando-a como modelo, assim como esculturas. Juliano de Médici, em um torneio de justa, entrou na arena ostentando um banner com uma imagem de Simonetta como Palas Atena. Ao vencer o torneio, ordenou que a mulher fosse coroada como “A Rainha da Beleza”.

Simonetta Vespucci

Simonetta Vespucci

Botticelli a conheceu e, como não podia deixar de ser diante de beleza tão inspiradora, apaixonou-se perdidamente. Nunca concretizou de forma física este amor, pois Simonetta era amante de um Médici, e não era nada prudente envolver-se com tal família. Ainda assim, Botticelli inspirou-se nela para começar uma série imensa de pinturas cujas personagens femininas tinham os traços de Simonetta Vespucci, sempre nos mais variados cenários mitológicos. Basta colocar o olho em uma obra do pintor de Florença e veremos algum traço da mulher a nos contemplar mais de 500 anos atrás.

Contudo, a musa do Renascimento morreu de tuberculose, ainda jovem. Outras mulheres assumiram o posto de mais bela da época, tornando-se seu modelo de beleza, mas não para Botticelli, pois a imagem de Simonetta continuou a lhe perseguir. O pintor passou a ser assombrado pela recordação da outra, que, de tão persistente, ele só conseguia exorcizar fazendo aquilo que melhor sabia: pintando.

Foi assim que as figuras femininas de “A primavera” (1482) e “O nascimento de Vênus” (1483), algumas das obras mais famosas de Botticelli, ostentam efígies de Simonetta Vespucci, a musa persistente. Se hoje conhecemos os traços fisionômicos dela, isso se deve graças à precisão do pintor que, para afastar o fantasma da bela mulher, desenhava-a de forma compulsiva.

Existem críticos que consideram tal insistência uma lenda ou uma limitação técnica do pintor de Florença, mas não se pode olvidar que todas as mulheres que ele retratou possuíam traços que remetem a uma única mulher. Tão grande se tornara a sua obsessão que, ao morrer, Sandro Botticelli pediu para ser enterrado aos pés da tumba de Simonetta Vespucci, na Igreja de Todos os Santos, em Florença. A mulher venceu a morte para que um do maiores artistas do período imprimisse o seu rosto à tinta e névoa em meio aos seus quadros.

Muitas pessoas evitam falar da morte ou possuem verdadeiro terror dela. Desculpem o spoiler, mas, no final da vida, sempre morremos, com exceção daquelas pessoas que conseguem burlar a Morte usando imaginação e criatividade, tudo para não deixar a sua passagem pelo planeta desaparecer em vão. Para não termos que deixar assuntos pendentes para depois da morte, nada mais oportuno do que aproveitarmos bem a vida e todas as suas possibilidades. Portanto, se alguém quer escrever uma “Divina Comédia”, faça de uma vez; se quer ser a musa inesquecível de alguém, lute para chegar a tal status, faça com que a graça seja maior do que a beleza; se alguém quer evitar o mau uso do seu nome e da sua reputação, tomem providências agora. Não deixem para outro dia o que se pode fazer hoje, pois, um dia, será realmente o último, e deixar tarefas, palavras ou sentimentos incompletos é algo abominável.

Texto originalmente publicado no link https://medium.com/colecao-dublinense/aqueles-que-n%C3%A3o-podem-morrer-em-paz-6193e161ff8b#.51wcfk4y3

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Texto publicado na revista eletrônica da Dublinense (15/09/2016): “Precisamos de mais dúvidas”

Na minha coluna dessa semana no Medium da Dublinense, eu falei de como é bom ter mais dúvidas do que certezas em meio a um mundo que privilegia respostas.

Aproveitei para contar algumas histórias, como a da Igreja dos Jacobinos, em Toulouse, na França, que, atrás do relicário com os restos mortais de São Tomás de Aquino, esconde um segredo de várias gerações; também falo da incrível história real de Kcymaerxthaere, uma realidade alternativa que está sendo construída debaixo da nossa – e agora adquiriu vida própria e descontrole, espalhando-se em silêncio pelo mundo; termino contando a história de um escritor que não sabemos ainda se existiu ou não, François Villon, o qual, na sua curta vida, por ser um péssimo ladrão e um assassino sanguinário, passou tanto tempo na prisão que acabou escrevendo a sua obra inteira nos intervalos das torturas, obra que se encontra na origem de boa parte das escolas literárias posteriores, do maneirismo ao classicismo, tudo para concluir que o mistério é muito mais excitante do que encontrar respostas para tudo.

Boa leitura!

 

Precisamos de mais dúvidas

 

Não deixa de ser um sintoma dos nossos tempos o fato das pessoas preferirem a certeza relativa das respostas ao delírio repleto de loucura que caracteriza as perguntas. Mais do que buscar explicações, deveríamos ir atrás do mistério, daquilo que não vemos e, ainda assim, existe. As perguntas são desafiadoras, enquanto que as respostas são carregadas de conformismo e placidez. Perguntas são leões famintos correndo atrás de gazelas; respostas não passam de paquidermes se dourando ao sol à espera da comida entrar na própria boca.

Estamos ansiosos demais por respostas. A internet nos deixou acostumados a buscar explicações para tudo, outras versões, contrapontos, análises minuciosas, vídeos, gráficos, diagramas. É frequente ver, em palestras, pessoas digitando nos celulares em busca de novas informações sobre o que acabei de falar, quando era tão mais simples perguntar. Nem sempre é bom ter acesso à sabedoria, ao conhecimento. Também existe magia em não saber algo – tentar desvendar algo nos leva a outros níveis de reflexão.

No centro de Toulouse, na França, está localizada a Igreja dos Jacobinos. Construída no início do século XIII, também foi usada como sala de aula, ginásio de esportes, alojamento de soldados e museu. Somente após a I Guerra Mundial ela voltou a ser empregada como igreja e, entre os seus tesouros, encontra-se o relicário contendo os restos de São Tomás de Aquino, um dos santos-filósofos mais importantes da Igreja Católica.

No entanto, pouca gente sabe que, debaixo de um pilar duplo da Igreja dos Jacobinos, alguns metros atrás do relicário de São Tomás de Aquino, esconde-se uma pergunta que jamais será respondida: um homem esmagado. Só conseguimos ver as mãos de gesso e os pés sobrepostos, não seu rosto ou características do corpo. É bem possível que sequer corresponda a um corpo, talvez seja uma estranha homenagem deixada no interior da igreja pelo seu construtor ou pelos pedreiros.

Pilar na Igreja dos Jacobinos, em Toulouse, França

Pilar na Igreja dos Jacobinos, em Toulouse, França

Por muitos anos, tentou-se buscar uma resposta para o homem esmagado pelos dois pilares. Não existe nenhum documento registrando o motivo, e não se sabe sequer se os responsáveis pela construção da Igreja dos Jacobinos tinham conhecimento da escultura deixada com discrição diante dos seus olhos. O homem esmagado não possui nenhuma explicação e, por isso mesmo, possui todos os motivos do mundo para estar ali.

Também existe ironia em um enigma insondável estar tão próximo de são Tomás de Aquino, o homem que desvendou justamente o mistério da Santíssima Trindade, o responsável pela frase que constitui a base de qualquer método científico: “Dê-me, Senhor, agudeza para entender, capacidade para reter, método e faculdade para aprender, sutileza para interpretar, graça e abundância para falar, acerto ao começar, direção ao progredir e perfeição ao concluir.”

Não precisamos responder uma dúvida. Podemos acalentá-la, deixá-la crescer, espalhar-se de forma exponencial e ser o germe para novas e excitantes questões. Se não existissem pessoas capazes de preservar mistérios como faziam as vestais na Roma Antiga, não existiria a arte, essa trabalhosa maneira de plantar inquietações nos espíritos alheios. Não foram poucas as vezes em que, ao tentar respondermos algo, a dúvida de origem acabou sendo o início de uma revolução.

Da mesma forma que o homem esmagado de Toulouse, as pessoas nem suspeitam que, neste exato momento, existe um mundo paralelo sendo esculpido dentro do mundo em que vivemos. A intenção desta realidade alternativa é clara: um dia, ela pretende substituir o nosso universo. Dentro da velha Terra onde moramos, encontra-se um mundo inteiro sendo gestado, ansioso para vir à tona e nos destruir.

Esse outro local chama-se Kcymaerxthaere e, assim como o nosso, está repleto de histórias. Elas são tão fortes que acabam transbordando para a nossa realidade. No momento em que escrevo este texto, existem 59 pontos de intersecção de Kcymaerxthaere com o nosso mundo, todos representados por placas relativas a eventos, estátuas, locais históricos, batalhas, grandes derrotas, que aconteceram nesse universo paralelo.

Aqui na Terra, caminha entre os humanos Eames Demetrios, que é o elo de ligação entre os dois mundos, registrando no nosso planeta os eventos acontecidos em Kcymaerxthaere. Elas assumem a forma de placas, que estão em locais tão díspares quanto uma colina na Islândia, um terreno baldio em Singapura, um jardim no Japão e uma praça na Espanha. Essa última placa fica em Madrid, na Plaza de La Luna, e conta a história do evento que se sucedeu no mundo paralelo, e que transcrevo aqui:

““Hoy la llamamos la Plaza de la Luna pero su nombre original era Plaza de las Lunas, debido a que el resplandor de éstas demarcaban los límites de la plaza. En los tiempos de Kcymaerxthaere, cada 257 órbitas de nuestra luna visible, convergían en este lugar, eclipsándose, las 29 lunas visibles de las 29 dimensiones alternativas (cada una simbolizando los 29 infinitos negativos de cualquier xthaere), todas ellas en su plenitud (algunas eran más grandes que nuestro planeta), reunidas en este espacio. Esta conjunción de fuerzas puede ser la causa o La consecuencia de que esta Plaza sea un portal insólito de incalculable valor, una puerta aparentemente pacífica hacia La umbraesfera, la conexión entre todas las sombras, la oscuridad y las penumbras de este planeta que llamamosTierra.

Esta plaza era antaño peligrosa, ya que las distintas series dimensionales de sombras encadenaban sus zonas más oscuras, formando una ruta de viaje poderosa en la umbraesfera, que era transitada por los viajeros más audaces para evitar las ywrengs (fronteras del tiempo). Fueaquí, en la Plaza de lasLunas, donde Nobunaga-Ventreven, recién llegado de los gwomes de liquen, em el que denominamos Soria, siguió La ruta más veloz a Segoleno, un sitio tan inaccesible como remoto, pero que, una vez que se llega, el viajero se encuentra paradójicamente cerca de cualquier otro punto del universo. Allí, tuvo lugar el encuentro con Eliana Mei-Ning, La mujer de la voz inconcebiblemente bella, dejando su huella em La Batalla de Some Times (Algunos Tiempos), donde Kmpass, el Urgende Dios de la Direccionabilidad, fue derrotado cuanto intentó destruir toda La complejidad del mundo. Es función y deber de la Plaza de la Luna preservar la riqueza de Kcymaerxthaere, por ello celebramos aquí cada año lineal la gloria y el claroscuro que define al Festival de las Lunas Restadas.”

Placa de Kcymaerxthaere, em Víddaflakk

Placa de Kcymaerxthaere, em Víddaflakk

Soa incrível que um mundo esteja surgindo do interior do nosso, mas esse não é o detalhe mais interessante. Kcymaerxthaere é uma realidade alternativa criada através de narrativas e, como todos sabem, as histórias são incontroláveis, rebeldes, violentas. Elas se encontram e estabelecem relações novas e, assim, talvez não seja tão surpreendente o fato do mundo paralelo ter escapado do controle do seu criador. Algumas placas que surgiram no mundo dizem respeito a histórias inéditas. O mundo alternativo, em um canibalismo criativo, agora se dedica a criar as suas próprias narrativas, sem controle algum – selvagem.

Ninguém sabe exatamente como isso está acontecendo, mas Kcymaerxthaere cresce em ritmo acelerado e, em breve, a tendência é que comece a substituir pequenos trechos da nossa realidade. É o legítimo caso em que fazer perguntas pode acabar nos levando a respostas indesejadas. Melhor ficar na ingenuidade da ignorância.

Assim como existem lugares com mistérios feitos de pedra e realidades alternativas que espreitam nossos passos, também existem algumas pessoas que não são realmente reais. Vale perguntar o que transforma uma pessoa em real: o fato dela ter CPF, endereço, família, amigos, um nome? Todos são elementos muito circunstanciais para afirmar que, no mundo, só existem seres humanos reais. É claro que alguns homens e mulheres inventados estão caminhando por aí, misturados a seres de carne e osso como eu e – acredito – parte significativa de vocês.

François Villon (1431 – 1463) foi um escritor que, mesmo tendo deixado obra, ninguém sabe se chegou a existir. Na tradição de Shakespeare e Homero, é uma daquelas pessoas que deixaram obras mais vistosas do que uma vida real. No entanto, a peculiaridade que o diferencia de outros escritores de existência duvidosa é ainda mais frágil – ninguém sabe ao certo se Villon realmente existiu. Temos evidências circunstanciais – um registro de matrícula em um colégio, uma sentença de trabalhos forçados, menções em cartas -, mas são tantos nomes diferentes considerados como variações do seu que também podem se referir a outras pessoas que não sejam esse poeta francês.

A própria vida de François Villon é incrível demais para ser verdadeira. A ausência de detalhes é tão significativa que a tentação de imaginá-lo como ser ficcional torna-se mais verossímil do que aceitá-lo como ser humano. Para começar, Villon passou toda a vida sob as graças de alguns dos mais influentes e poderosos nobres da França, tais como Guillaume de Villon e o duque de Orléans, que não só perdoavam as suas desfaçatezes como ainda lhe conseguiram dinheiro e posição social na corte. Ao mesmo tempo, Villon era um rematado criminoso, e quando uso essa expressão é no sentido dele ter sido um poeta que realmente gostava da vida ilícita. Nos seus primeiros anos de vida, ele fundou um grupo de delinquentes juvenis especializados em roubar viajantes desavisados. Depois começou a carreira individual de assaltante, passou a planejar roubos cada vez mais intrincados e, enfim, tornou-se um assassino frio e calculista.

François Villon

François Villon

De forma paradoxal, o poeta não era um criminoso muito esperto, e foi preso várias vezes. Passava mais tempo em masmorras e calabouços do que solto. Também existem evidências de que ele não só tenha sofrido violências nas prisões, como também experimentou todas as torturas possíveis e imagináveis que então existiam. Villon era o legítimo “bad boy” da sua época, muito antes de outros escritores mais badalados reivindicarem tal posição, considerando-se “malditos”. Assim, como passava muito tempo entre a corte e a prisão, François Villon aproveitava os momentos de ócio na cadeia para escrever poesias, e a sua obra nasceu dentro dos cárceres franceses, nos intervalos de torturas e audiências com juízes.

Em determinada ocasião, François Villon foi inclusive condenado à morte, e escreveu uma das suas poesias mais famosas, “A Balada dos Enforcados”, planejando-a usar como seu epitáfio. Esse poema tanto é provido de extremo lirismo e inquietude sobre o fim quanto de um humor irônico muito incomum para o período. Contudo, a pena de morte acabou sendo comutada para dez anos de banimento. Quando saiu da prisão, a lenda nasceu, pois o poeta sumiu e nunca mais foi visto. A partir de então, Villon se multiplicou: foi visto em brigas em tavernas; roubou nobres em um jogo de cartas; engraçou-se com uma mulher casada e com a filha dela – ao mesmo tempo; teve filhos e começou uma carreira respeitável como alfaiate (ou padeiro, há divergências também nesse ponto); esteve por trás de todas as artimanhas políticas do período; viajou para a Inglaterra como agente secreto do trono francês.

Como desapareceu sem deixar vestígios, o poeta acabou se transformando em um fantasma e, com o passar dos anos, suas evidências físicas cessaram de existir, mas a obra sobrevive. Os poemas de François Villon notabilizam-se por oscilar da linguagem mais vulgar às construções mais eruditas; conseguem opor, dentro de uma sequência de versos, o mais sublime nível de consciência humana às necessidades mais toscas. Não suficiente, estão na origem de quase todas as escolas literárias posteriores, desde o maneirismo até o classicismo. Entre os seus poemas, destaca-se a “Balada das Coisas sem Importância”, que muitas pessoas conhecem de forma quase instintiva mesmo sem nunca terem a lido, o que demonstra que Villon não precisa mais ser um homem, somente uma voz poética a bradar do meio do nosso DNA:

Conheço se há moscas no leite,

Conheço pela roupa o homem,

Conheço o tédio e o deleite,

Conheço a fartura e a fome,

Conheço a mulher pelo enfeite,

Conheço o princípio e o fim,

Conheço pela chama o azeite,

Conheço tudo, menos a mim.

Conheço o gibão pela gola,

Conheço o rico pelo anel,

Conheço o fiel pela sacola,

Conheço a monja pelo véu,

Conheço o porco pela tripa,

Conheço o irmão pelo latim,

Conheço o vinho pela pipa,

Conheço tudo, menos a mim.

Conheço a mula e o cavalo,

Conheço o carro e a carreta,

Conheço a galinha e o galo,

Conheço o sino e a sineta,

Conheço a flor pelo talo,

Conheço Abel e Caim,

Conheço o pote e o gargalo,

Conheço tudo, menos a mim.

Ofertório

Príncipe, conheço tudo em suma,

Conheço o branco e o carmim,

E a morte que o fim consuma.

Conheço tudo, menos a mim.

 

Não sabemos se François Villon algum dia existiu. Aliás, é muita presunção imaginar que uma obra poética precisa sair de um homem – quem nos assegura que uma poesia não pode sair do nada, das estrelas, do roçar dos ramos de uma árvore? É realmente imprescindível um aparato humano, com sua fortaleza de instável carne, a sustentar um texto com a sua sombra de uma origem baseada na sua biografia? Contudo, muitas pessoas tentaram responder ao seu mistério, sem perceber que a existência de um homem mais atrapalha a obra do que a auxilia. É melhor imaginar a literatura como algo puro, desvinculado das veleidades e idiossincrasias de uma única pessoa.; melhor imaginar que a arte brota do chão ao invés de sair de uma pessoa desprezível ou criminosa, alguém indigno de ter criado poemas que mais se assemelham a mentiras e ironias do que algo capaz de elevar o espírito.

As melhores perguntas são aquelas que não conseguimos responder. Na época em que vivemos, o mundo se desespera para ter mais informações, mais certezas. Eu sigo o contrafluxo: procuro a pergunta que não se rende. A resposta impossível. O mistério escondido na neblina. A instabilidade da dúvida. Não tenho as respostas – sequer sou capaz de me entender, o que dirá entender os outros -, mas sei que a pergunta em torno da qual meu espírito se originou continua a animar minha existência com seu fogo frio.

Texto originalmente publicado no link https://medium.com/colecao-dublinense/precisamos-de-mais-d%C3%BAvidas-a15252edd17d#.rpxyp9q8e

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Texto publicado na revista eletrônica da Dublinense (01/09/2016): “Uma ode aos insensatos”

Na minha coluna dessa semana no Medium da Dublinense, eu falo das pessoas insensatas, aquelas que sempre tentam abocanhar mais do que o tamanho da própria boca.

Mas, como também sou um insensato, aproveito para contar a história do “Requiem para um Jovem Poeta”, feito pelo compositor alemão Bernd Alois Zimmermann em 1969, uma obra portentosa que costurava uma multiplicidade de músicas e mais as vozes dos poetas e personalidades do início do século XX, necessitando de uma orquestra completa, de um narrador, de um solo soprano, de um barítono, de três coros, de uma orquestra de instrumentistas de jazz e outra de instrumentos eletrônicos — todos tocando simultaneamente.

Também aproveito para falar dos mapas impossíveis de Jorge Luis Borges e de Umberto Eco, e termino contando a saga do poeta Alexander Pope, esse ser pretensioso e ousado que passou a vida toda perseguindo o Grande Épico Inglês e, quando finalmente conseguiu esboçá-lo…. bom, sem spoilers.

Boa leitura!

 

Uma ode aos insensatos

 

Eu admiro as pessoas insensatas. Aquelas que não possuem noção nenhuma, seja de razão ou de ridículo, e estabelecem objetivos muito além das próprias capacidades. Elas estão por todos os lugares, desde o jovem imberbe que deseja conquistar o coração de uma atriz de cinema até a moça que sonha em ganhar não só o Nobel da Literatura, mas também o Oscar, o Grammy e o Pulitzer. Em geral, as pessoas insensatas são jovens, e ainda não tiveram o necessário choque de realidade que somente a vida proporciona, e com requintes de crueldade, pois cada opção que tomamos necessariamente deixa um rastro de sonhos e de possibilidades destruídas no seu rastro.

Santos Dumont, um insensato

Santos Dumont, um insensato

As pessoas insensatas não raro tentam abocanhar mais do que a capacidade da sua própria boca. São vorazes, insatisfeitas, chegam às raias da insanidade. Elas são admiráveis, não pela tarefa de Hércules a que se dedicam, mas por imaginarem o impossível e tentarem realizá-lo. Um ditado que gosto muito: “Mirar a lua, acertar as estrelas”. Mesmo quando se erra o objetivo maior, pode-se acertar outros secundários. Ninguém acorda pensando em ser uma pessoa medíocre; todos sonham ser maiores do que são. Deixar o próprio nome gravado em pedra, não rabiscado na areia.

Sempre que vejo algum projeto grandiloquente fadado à impossibilidade de ser concretizado (ao menos em um mundo real), recordo da tarefa extraordinária a que se propôs o compositor alemão Bernd Alois Zimmermann. Em 1969, ele decidiu fazer a obra musical que definiria toda a sua geração, os nascidos entre 1920 e 1970 na Alemanha Ocidental. Algumas pessoas acordam pensando no que comerão no almoço, outras querendo mudar o mundo, e a intenção declarada do compositor era concentrar um mundo polifônico e multifacetado dentro de uma única música.

Com tal objetivo em mente, Zimmermann compôs o “Requiem para um Jovem Poeta” (Requiem für einen jungen Dichter), uma obra de dimensões portentosas. Para se ter uma ideia, o Requiem necessitava de uma orquestra completa, de um narrador, de um solo soprano, de um barítono, de três coros, de uma orquestra de instrumentistas de jazz e outra de instrumentos eletrônicos – todos tocando simultaneamente. Pela sua ousadia estilística, a obra foi considerada uma “polifonia”, mesclando partes do século XX tão díspares quanto as linhas iniciais de “Hey Jude”, dos Beatles, com trechos de “Tristão”, de Richard Wagner, das sinfonias de Beethoven, de Milhaud (“A criação do mundo”) e de Oliver Messiaen (“A ascensão”), sem esquecer a onipresença do jazz, que a tudo acompanha, e mais as batidas eletrônicas fornecendo o necessário compasso.

Requiem para um jovem poeta

Requiem para um jovem poeta

Se no aspecto musical o “Requiem para um Jovem Poeta” era complexo, a letra era ainda mais ambiciosa. No princípio, Zimmermann pretendia inserir somente textos escritos por poetas que cometeram suicídio, tanto que os primeiros a aparecerem são Vladimir Maiakóvski, Eugene Essenin e Konrad Bayer. No entanto, com a evolução da ideia, o compositor decidiu incluir as vozes do seu tempo e, assim, surgiram falas de Churchill, de Chamberlain, de Stalin, de von Ribbentrop, de Goebbels, de Mao Tsé-Tung e de Hitler. Trechos de Albert Camus, de Ezra Pound, de Schwitters e de Sandor Weores tornaram-se parte da música, assim como o monólogo de Molly Bloom conforme escrito por James Joyce em “Ulisses” sucede um discurso do Papa João Paulo XXIII, que, por sua vez, é antecedido por uma página de “Investigações filosóficas” de Wittgenstein. Toda esta multiplicidade de ideias é coordenada pelo grande tema do “Requiem para um Jovem Poeta”, providenciado por um verso de Konrad Bayer: “O que podemos esperar? Não há nada que nos aguarde, a não ser a morte.”

Para uma ideia tão megalomaníaca, a interpretação era essencial. Sequer existia um lugar apropriado para comportar múltiplas orquestras em palcos diferentes e, para executar a contento a sua obra, o compositor alemão sugeriu a construção de um espaço esférico, através do qual o público poderia circular livremente durante a performance, recebendo os estímulos acústicos e óticos vindos de todos os lados.

Ao final da partitura do “Requiem”, Bernd Alois Zimmermann sofreu um grave esgotamento mental e foi internado às pressas em uma clínica para doenças nervosas, na qual permaneceu alguns meses. Ao sair, entregou-se para uma nova obra, mas a pressão era grande demais e ele cometeu suicídio em 1970. Alguns acreditam que isso aconteceu em razão dele ainda sofrer o impacto da exposição a armas químicas durante a Segunda Guerra Mundial, outros pensam que um quadro de depressão severa que o afligiu por muito tempo foi decisivo, mas não foram poucos os que culparam a composição de uma obra tão ambiciosa quanto o “Requiem para um Jovem Poeta”.

A intenção inglória de Zimmermann – representar toda a sua geração – era gigantesca demais para um discurso único. Não surpreende que seja enlouquecedor, mas a intensidade do desafio é singular: o compositor não teve medo de soar pomposo, ridículo ou grandiloquente. Ao contrário, ele tentou atingir os píncaros da arte, mesmo correndo o risco de se quebrar no processo.

De certa maneira, a intenção de Zimmermann lembra muito um famoso conto de Jorge Luiz Borges, “O rigor da ciência”, presente no livro “O fazedor” e que, por suas parcas dimensões, pode ser transcrito aqui:

“…Naquele Império, a Arte da Cartografia atingiu uma tal Perfeição que o Mapa duma só Província ocupava toda uma Cidade, e o Mapa do Império, toda uma Província. Com o tempo, esses Mapas Desmedidos não satisfizeram e os Colégios de Cartógrafos levantaram um Mapa do Império que tinha o Tamanho do Império e coincidia ponto por ponto com ele. Menos Apegadas ao Estudo da Cartografia, as Gerações Seguintes entenderam que esse extenso Mapa era Inútil e não sem Impiedade o entregaram às Inclemências do Sol e dos Invernos. Nos Desertos do Oeste subsistem despedaçadas Ruínas do Mapa, habitadas por Animais e por Mendigos. Em todo País não resta outra relíquia das Disciplinas Geográficas. (Suárez Miranda: Viagens de Varões Prudentes, livro quarto, cap. XIV, 1658.)”

Esse pequeno texto borgeano foi ampliado por Umberto Eco em “O segundo diário mínimo”, com o título “Da impossibilidade de construir a carta do Império em escala um por um”. Na ampliação da ideia de Borges, fica claro o seguinte: no momento exato em que se pretende fazer algo muito gigantesco, o objeto buscado já se torna inalcançável, pois traçar um limite é considerar que exista algo que excede dito alcance. Por mais amplo que seja o desejo de fazer algo inesquecível, assim que ele é traçado, já se torna comum e, em breve, ultrapassável. Estamos em uma corrida que nunca ganharemos, metidos em um eterno paradoxo de Zenão: nunca vamos ganhar da tartaruga.

Mas o que não nos impede de ser ousados, como Alexander Pope. Desde seus sete anos de idade, o poeta inglês começou a fazer versos com uma facilidade que encantava e desconcertava os membros da sua família, o que o levou a afirmar “Eu ciciava aos borbotões, por que borbotões vinham.”

Quando tinha 13 anos de idade, Pope foi expulso de Tyword School. Motivo: escreveu uma sátira extremamente devastadora sobre um professor. Quando tinha 14 anos, escreveu uma peça ampliando temas da “Ilíada” de Homero, e cooptou seus vizinhos e o o jardineiro da casa para interpretar dita peça. Quando tinha 15 anos, Samuel Johnson, seu futuro biógrafo, disse que Alexander Pope já escrevera panegíricos de todos os reis da Europa, além de um poema épico, uma tragédia e uma comédia.

Quando tinha 16 anos, Pope decidiu escrever o Grande Épico Inglês.

Não era uma ideia tão original. Boa parte dos escritores ingleses eram fascinados pela ideia de escrever o Grande Épico Inglês, uma obra que, ao estilo da “Eneida”, de Virgílio, de “Dom Quixote”, de Cervantes, e de “Os Lusíadas”, de Camões , servisse de base para toda a produção literária da Inglaterra, juntando economia, política, sociologia, comércio, história e literatura em uma única narrativa. Muitos escritores gigantes tentaram chegar a esse Éden, entre os quais Coleridge e Milton. Assim, no auge dos seus 16 anos, Alexander Pope decidiu fazer aquilo que outros monstros da literatura universal tinham tentado sem sucesso.

O poeta inglês escreveu “Alcânder”, obra na qual, segundo o depoimento que deixou no seu diário, pretendia “reunir todas as belezas dos grandes escritores épicos numa só peça. Havia o estilo de Milton numa parte, o de Cowley em outra, aqui o estilo de Spenser imitado, e ali o de Estácio, aqui Homero e Virgílio, e ali Ovídio e Cláudio.” Não chegou até nossos tempos: os originais de “Alcânder” foram queimados pelo bispo de Rochester, Francis Atterbury, que considerou a obra do jovem poeta muito sediciosa e correndo o risco de gerar consequências políticas indesejáveis.

Alexander Pope

Alexander Pope

Quando tinha 19 anos, Pope tentou novamente escrever o Grande Épico Inglês, dessa feita tratando das reformas agrárias feitas pelos irmãos Graco na Roma Antiga. Não temos conhecimento dessa obra, pois foi o próprio autor quem a destruiu, para se lançar em um novo projeto com a qual pretendia atingir o Nirvana da literatura inglesa: “A Tolíada”.

O trabalho foi concluído quando Alexander Pope tinha 40 anos de idade. O poeta já era um escritor calejado, e fez uma obra que se precavia antecipadamente das críticas. Em suma, jogou bonito para encantar a plateia. Logo no início, ele se referiu a “Margites”, a famosa comédia criada por Homero e que não chegou viva aos nossos tempos (a não ser em citações descuidadas feitas por Aristóteles na sua “Arte poética”), querendo mostrar que a sua obra se filiava a essa tradição satírica.

O problema de “A Tolíada” – e que a levou a ser reprovada por todos os críticos sem exceção – foi justamente o fato de Pope fazer uma sátira tratando de escritores, rabiscadores, poetas, críticos e editores que o haviam atacado alguma vez. Mesmo anunciando que era uma sátira, ou seja, que não devia ser lida a sério, o fenômeno contrário aconteceu: os críticos acharam que ele dava o nome de sátira para poder dizer o que pensava de forma impune. Lendo hoje o trabalho de Pope, percebe-se que, além de atacar toda a sociedade literária do seu período, ele ainda investiu contra a própria cultura da qual era contemporâneo.

No fim da vida, Alexander Pope tentou uma última vez atingir o Grande Épico Inglês. Em uma longa carta enviada para o seu editor, anunciou a escritura de um épico ao qual dera o título provisório de “Bruto”. Não suficiente, mandou uma descrição detalhada da história: “Bruto” se passaria 66 anos após a queda de Tróia. Bruto seria o neto de Enéias, e que possuiria uma forma extremamente peculiar de conceber a sociedade, considerando-a mais justa e equânime.

Não tendo muito espaço para desenvolver suas ideias de liberdade, Bruto resolve juntar um grupo de troianos sobreviventes e se refugiar na terra indicada por um oráculo egípcio, “um lugar de clima igualmente livre da frágil delicadeza e suavidade dos climas meridionais e da ferocidade e selvageria do Norte”, uma ilha que, de acordo com as indicações geográficas, só poderia ser a Inglaterra. Não escapará, aos leitores atentos, a circunstância dessa história ser semelhante a outro famoso épico, “Eneida”, de Virgílio, que deu origem à fundação mitológica de Roma.

Após contar todas as peripécias da viagem, que incluem batalhas contra criaturas fantásticas, sonhos em que Bruto recebeu conselhos de Hércules, encontros com criaturas muito semelhantes aos anjos caídos de “O paraíso perdido” de Milton, chegada nas Ilhas Afortunadas (um local mágico que quase consegue reter os soldados fugidos) e o encontro com um filho de Ulisses em Lisboa, os troianos enfim chegam na Inglaterra e estabelecem contatos com os druidas, os quais imploram para que os recém chegados destruam dois gigantes, Goguemagogue e Corineu. Um grupo é montado para enfrentar os gigantes, e cada homem escolhido integrá-lo possui uma característica que o destaca, como “o velho e cauteloso companheiro”, “o soldado que só pensa na pilhagem”, “o herói cruel e sanguinário”, “o guerreiro regido pelos impulsos”.

Pope tinha essa ideia perfeitamente delineada, pronta para se transformar no Grande Épico Inglês e – imperioso admitir – é uma história que reúne todos os elementos dignos de figurarem em um épico inesquecível.

Era o momento perfeito para atingir o seu sonho e, assim, Alexander Pope enfim começou a realizar o seu sonho… e morreu, vitimado pela febre. Além de todo o esboço da história, deixou somente as primeiras oito linhas, que prometiam ser memoráveis:

“O chefe paciente, que depois de muito labor chegou

Às praias da Bretanha e trouxe com ele deuses generosos

Artes, armas e honra a seus filhos antigos;

Filha da memória! Lembrança de um

Tempo passado; e eu com a glória dos bretões me animei

Eu, longe de cuidado mesquinho ou de canção menor,

Arrebatei para a montanha sagrada da baía imaculada,

O poeta do meu país, para recordar sua fama.”

A vida tem dessas coisas, já diria a música. Quanto mais insensato o ser humano, quanto maior a sua ambição, mais curta se torna a sua vida, e a morte sempre chega para todos, atalhando projetos. Assim como Zimmermann criou um Requiem de proporções gigantescas ou como Pope passou a vida inteira tentando escrever um único e decisivo livro, chegando a ele somente na véspera da morte, não é o produto final que acaba nos definindo, mas o percurso que realizamos caçando a sombra da perfeição inatingível.

Então, sejamos insensatos, sim, tenhamos projetos grandiloquentes e inalcançáveis, pois é a única maneira que temos de sair da caixa das pessoas comuns, aquela em que a sociedade insiste em nos encaixar desde que nascemos. Aos insensatos pertence tanto a glória das vitórias únicas quanto a fragorosa derrota dos que caem lutando, e existe honra em lutar contra aquilo que Camus disse ser a nossa maior tentação: não ser nada.

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Como conviver com o silêncio

Desde antes de nos conhecermos como seres humanos, ele já caminha ao nosso lado, onipresente e distante. Alguns o consideram temível, outros o veem como um bálsamo. O silêncio possui muitas facetas, mas há quem o considere o verdadeiro criador do Tempo, o Deus que está por tudo e dentro de cada coisa.

As pessoas possuem medo do silêncio e, assim, preenchem a sua vida de sons e de ruídos. Ligam televisões, escutam músicas, falam alto – tudo para fugir da solidão. Não ouvir nada amplifica a grande verdade: estamos sozinhos. Não existe ninguém que possa preencher o nosso silêncio interno, e enfrentar os próprios pensamentos é entrar em uma espiral de insanidade.

O silêncio pode dizer segredos e originar reflexões desagradáveis; melhor sufocá-lo antes que nos incomode. Pergunto-me se todas as experiências artísticas não são formas de acabar com esse silêncio que nos carcome ao redor. Tenho a frequente tentação de escrever a história humana sob a ótica de pequenas criaturas assustadas com a ideia de confrontar o silêncio e inventando guerras, amores, livros, ódios.

Um equívoco muito comum é imaginar o silêncio como a ausência de som. Na verdade, ele é algo muito maior: é o vazio de não existir e, portanto, faz parte de toda a existência. Pensei nisto após assistir entrevista feita com o maestro Daniel Barenboim para o “La Nación” em 03 de agosto de 2016 (a entrevista completa está no link http://www.lanacion.com.ar/1924146-daniel-barenboim-martha-argerich-es-una-de-las-artistas-mas-grandes-que-han-existido ), quando o entrevistador lhe perguntou o que era o silêncio:

“-¿Qué es el silencio?

-Es probablemente lo más complejo que existe en la música, porque el silencio está en permanencia, está aun antes de empezar. Pero el silencio es como alguien que te persigue y hace con vos todo el camino. Porque si no mantenés una nota hasta el final, se te cae. ¿Y dónde se te cae? En el silencio. Hacés un crescendo enorme como en el último tiempo de la Novena sinfonía de Bruckner y la orquesta chilla, grita y uno no da más: cortás el acorde y el silencio es aún más fuerte. Hay mucha gente que no lo entiende. Piensa que el silencio es ‘antes’, ‘después’ y ‘de vez en cuando’, o ‘entre’, como si fuese una coma o un signo de exclamación. No. El silencio es parte integral de la música. El silencio es para el sonido como la ley de gravedad.”

Eis uma tradução acurada da resposta feita pela minha amiga, a escritora Alexandra Lopes da Cunha:

O que é o silêncio?

– Provavelmente, o mais complexo que existe na música, porque o silêncio está em permanência, ainda está antes de começar. Mas o silêncio é como alguém que te persegue, que te acompanha durante todo o caminho. Porque se não manténs a nota até o final, ela se te escapa. E escapará para onde? Para o silêncio. Fazes um crescendo enorme, como no último tempo da Nona Sinfonia de Bruckner, a orquestra chia, grita, não é possível aguentar mais: cortas o acorde e o silêncio é ainda mais forte. Muitos não compreendem. Pensam que o silêncio é ‘antes’, ‘depois’ e ‘de vez em quando’, ou ‘entre’, como se fosse uma vírgula ou ponto de exclamação. Não. O silêncio é parte integral da música. O silêncio está para o som como a lei de gravidade.”

música

Manter o silêncio, prolongá-lo, rompê-lo, manuseá-lo a nosso favor, tudo isso também é uma habilidade. Grandes pessoas são aquelas que conseguem resistir à tentação de preencher o silêncio com qualquer som e procuram o barulho exato que lhe dê algum significado.

Assim como a música tende ao silêncio, o mesmo ocorre com as artes. Criamos para tirar o vazio dos nossos peitos e espalhar vozes e angústias pelo mundo.

Eu tenho um sonho que, como todos, é egoísta. Ambiciono chegar ao silêncio absoluto. O momento em que não precisarei mais falar ou ser cercado por desesperos alheios na forma de sons. O momento em que chegarei à última palavra, a declaração derradeira que escreverei. Eis o segredo de todo texto, e o medo misturado com alegria cada vez que inicio um: nunca sei se conseguirei chegar ao final, seja se estiver escrevendo um livro, seja se for uma lista de supermercado. Não sei se, de repente, sem aviso prévio, no meio de alguma frase, simplesmente todas as palavras irão me abandonar e o texto acabará, assim como as minhas forças e vontade de escrevê-lo. Cada mísero texto e a mesma dúvida me acomete: será este que irá quebrar as minhas pernas? Será este, enfim, o último?

Deixar de pensar, eis o sublime silêncio. A barreira do som é algo que desejamos quebrar por que, além dela, está o tão sonhado silêncio. Como diz Cecília Meireles, que sempre tem o poema certo para a hora oportuna, achar o silêncio é perder os limites, “não falar palavras vãs” como tantas pessoas fazem, não valorizando a força das palavras:

Não digas onde acaba o dia.
Onde começa a noite.
Não fales palavras vãs.
As palavras do mundo.
Não digas onde começa a Terra,
Onde termina o céu
Não digas até onde és tu.
Não digas desde onde és Deus.
Não fales palavras vãs.
Desfaze-te da vaidade triste de falar.
Pensa, completamente silencioso,
Até a glória de ficar silencioso,
Sem pensar.

Os romanos possuíam uma deusa dedicada ao silêncio: “Dea Tacita”, ou “A Deusa Muda”. Era uma divindade ligada à morte, ao obscurantismo, ao terror. Ovídio afirma que as pessoas costumavam realizar sacrifícios em nome de “Dea Tacita” para selar os lábios dos inimigos e impedir que eles se comunicassem ou fofocassem.

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Não é fácil imaginar o silêncio. Manoel de Barros tentou fotografá-lo em um poema famoso, mas só conseguiu relances insuficientes de eternidade. Contudo, se existe alguém que chegou perto de tocar o manto do silêncio que os artistas tanto buscam na sua cacofonia foi John Keats. O poeta inglês teceu uma série de poesias em que tenta fazer ritmo sem palavras, sem música, sem imagens, sem nada. Esbarra na impossibilidade de tal sonho, que se desvanece como névoa nas primeiras hortas da manhã, mas a tentativa também pode ser uma forma de sucesso.

Em “Ode à uma urna grega”, Keats fala da música mais perfeita,m aquela que não possui palavras e nem sons:

Ode à uma urna grega

(tradução de Augusto de Campos)

I

Inviolada noiva de quietude e paz,
Filha do tempo lento e da muda harmonia,
Silvestre historiadora que em silêncio dás
Uma lição floral mais doce que a poesia:
Que lenda flor-franjada envolve tua imagem
De homens ou divindades, para sempre errantes.
Na Arcádia a percorrer o vale extenso e ermo?
Que deuses ou mortais? Que virgens vacilantes?
Que louca fuga? Que perseguição sem termo?
Que flautas ou tambores? Que êxtase selvagem?

II

A música seduz. Mas ainda é mais cara
Se não se ouve. Dai-nos, flautas, vosso tom;
Não para o ouvido. Dai-nos a canção mais rara,
O supremo saber da música sem som:
Jovem cantor, não há como parar a dança,
A flor não murcha, a árvore não se desnuda;
Amante afoito, se o teu beijo não alcança
A amada meta, não sou eu quem te lamente:
Se não chegas ao fim, ela também não muda,
É sempre jovem e a amarás eternamente.

III

Ah! folhagem feliz que nunca perde a cor
Das folhas e não teme a fuga da estação;
Ah! feliz melodista, pródigo cantor
Capaz de renovar para sempre a canção;
Ah! amor feliz! Mais que feliz! Feliz amante!
Para sempre a querer fruir, em pleno hausto,
Para sempre a estuar de vida palpitante,
Acima da paixão humana e sua lida
Que deixa o coração desconsolado e exausto,
A fronte incendiada e língua ressequida.

IV

Quem são esses chegando para o sacrifício?
Para que verde altar o sacerdote impele
A rês a caminhar para o solene ofício,
De grinalda vestida a cetinosa pele?
Que aldeia à beira-mar ou junto da nascente
Ou no alto da colina foi despovoar
Nesta manhã de sol a piedosa gente?
Ah, pobre aldeia, só silêncio agora existe
Em tuas ruas, e ninguém virá contar
Por que razão estás abandonada e triste.

V

Ática forma! Altivo porte! em tua trama
Homens de mármore e mulheres emolduras
Como galhos de floresta e palmilhada grama:
Tu, forma silenciosa, a mente nos torturas
Tal como a eternidade: Fria Pastoral!
Quando a idade apagar toda a atual grandeza,
Tu ficarás, em meio às dores dos demais,
Amiga, a redizer o dístico imortal:
“A beleza é a verdade, a verdade a beleza”
— É tudo o que há para saber, e nada mais.

anfora.grega

É um poema perfeito. É possível visualizar a urna grega que lhe dá origem, imaginar tudo o que testemunhou, os sons que se perderam no seu interior, o silêncio que carrega consigo durante todos os anos. Na urna grega, o pastor é sempre jovem e apaixonado, a cidade não desmorona em torno do próprio eixo, o sol nunca cansa de sorrir. Ao final, a lição de estética, “a beleza é a verdade, e a verdade a beleza” sintetiza uma visão de mundo: o importante é ser verdadeiro consigo mesmo, pois a beleza – a paz, a alegria, o arrebatamento – acabarão por surgir.

John Keats sabia da importância das palavras, mas, mais do que tudo, venerava o silêncio. Antes de morrer, deixou determinações bem específicas para a sua lápide. Não queria que ela levasse o seu nome, mas uma inscrição: Here lies one whose name was writ in water” (“Aqui jaz um homem cujo nome foi escrito sobre a água”). Não existe melhor metáfora para o silêncio do que a transitoriedade de algo escrito sobre a água, desfazendo-se dentro de uma corrente incessante.

O túmulo de John Keats, Cemitério de Roma

O túmulo de John Keats, Cemitério de Roma

A melhor maneira de conviver com o silêncio é aceitá-lo. Não ter medo de mergulhar por inteiro nos pensamentos, ou recear sorver as águas do Leto que moram dentro de cada pessoa. Depois que se aceita que o som é a exceção e o silêncio é a única coisa que pode nos acalentar, tanto nos bons quanto nos maus momentos, fica mais tolerável a ideia de viver em um mundo repleto de solidões que tentamos afastar com ruídos.

 

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Texto publicado na revista eletrônica da Dublinense (17/08/2016): “O espírito livre de quem sabe se divertir”

Na minha coluna dessa semana no Medium da Dublinense, falo deste estranho hábito das pessoas (em especial os artistas) de ficarem o tempo inteiro reclamando ao invés de se divertirem com aquilo que lhes acontece.

Mas, como não sou trigo limpo, falo de artistas que se divertiram para dedéu, tipo o Baudelaire, que fez um livro inteiro em homenagem aos seus vícios; conto sobre o momento em que Baudelaire resolveu deixar a pele humana e falar como se fosse uma taça de vinho, além de fazer suposições sobre o que estaria escrito na camiseta que o autor de “Flores do Mal” usaria nos dias atuais.

Não bastando, falo de Alexandre Dumas, que, como última obra, escreveu um manual de culinária; conto uma piada com um trocadilho infame de quase 200 anos, e envolvendo absinto; falo do dia em que Dumas brigou feio com uma cozinheira, registrando a briga no meio de uma receita.

Por fim, falo deste extraordinário bon vivant que foi Somerset Maugham, contando a diferença (essencial) entre segurar uma mulher e uma garrafa de vinho, e de como ele passou muitos anos comendo o pão que o diabo amassou, mas sem nunca desistir de ver o lado divertido da vida.

Boa leitura!

 

O espírito livre de quem sabe se divertir

Parece que uma condição indispensável para ser artista nos tempos atuais diz respeito à choradeira e aos lamentos sobre o ato de produzir arte. Infelizmente, não é uma exclusividade dos artistas; a tônica dos dias atuais é a choradeira. Basta conversar com qualquer pessoa que ela irá expor um longo rosário de dores e mágoas.

No caso dos que trabalham no mundo das artes, o que mais se vê são pessoas reclamando que ganham pouco dinheiro, que sofrem horrivelmente para produzir, que realizam sacrifícios pessoais incomensuráveis, que passam por dores, privações, angústias e medos, em um processo catártico constante e agônico. Chega até a dar medo. Dupla é a minha curiosidade: primeiro, o motivo dos outros desejarem saber o quanto os artistas sofrem para realizar as suas obras e sempre direcionar as conversas para este tópico; segundo, a razão pela qual todo artista chora suas mágoas assim que encontra um público, por menor que seja. Pois ninguém confessa a verdade: criar também é altamente divertido. É exasperante, cansativo, machuca a lombar, perdemos um tempo enorme que poderia ser dedicado a assuntos mais prazerosos como ganhar dinheiro ou viajar, mas, ainda assim, no final do dia, a sensação de criar é positiva e, às vezes, até mesmo gratificante.

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Contudo, existiu uma época em que os artistas conseguiam ter uma convivência não só agradável com a sua arte, como usaram-na para saudar as benesses da boa vida. Entregaram-se ao prazer e ao vício, e alguns usaram a literatura para glorificar prazeres. Eram hedonistas no sentido mais puro da palavra: só viam prazer no ato de escrever e contar para os outros o quanto gostavam da maravilha de perder as noções da realidade.

Charles Baudelaire escreveu uma obra louvando o ópio, o haxixe e o vinho. Não desperdiçou tempo choramingando ou lutando contra os vícios, preferiu ceder a eles e louvá-los. “Paraísos artificiais” reúne provavelmente algumas das mais belas e inspiradas páginas que Baudelaire escreveu na vida. Muito difícil ler a sua louvação aos estados induzidos por drogas e pelo álcool e não ficar tentado a experimentá-las. Não bastando mergulhar fundo em ditos prazeres, ainda se debruçou a escrever sobre eles de forma apaixonada, intensa, repleta de sensações.

No texto sobre o vinho, o escritor francês faz uma defesa como raras vezes se viu. Citando Hoffmann, defende a ideia de que o ideal não somente é escrever bebendo, como cada música deve ser composta sob os auspícios de um determinado vinho: para uma ópera bufa, importante ter à mão uma taça de vinho de Champanhe, pois o músico “encontrará neste vinho a alegria espumante e leve que reclama o gênero”; para hinos religiosos, o mais indicado seria um vinho do Reno ou de Jurançon, uma vez que “reside neste vinho uma amargura embriagadora”; para músicas heroicas, sugere o vinho da Borgonha, “que tem a impetuosidade séria e o arrebatamento do patriotismo”.

Charles Baudelaire

Charles Baudelaire

Em determinado momento do texto, perdido no seu afã de elogiar o seu amigo líquido, Baudelaire deixa a prudência de lado e coloca o vinho como próprio personagem, assumindo a sua voz:

“Parece-me às vezes ouvir o vinho falar – ele fala com sua alma, com esta voz dos espíritos que apenas os espíritos alcançam: – ‘Homem, meu bem-amado, quero levar até você, apesar de minha prisão de vidro e de minhas aldravas de cortiça, um canto cheio de fraternidade, um canto cheio de alegria, de luz e de esperança. Não sou ingrato; sei que lhe devo a vida. Sei o que lhe custei de trabalho e de sol sobre os ombros. Você me deu a vida, e eu o recompensarei por isso. Pagarei minha dívida com generosidade; porque sinto uma alegria extraordinária quando caio no fundo de uma garganta alterada pelo trabalho. O peito de um homem honesto é uma morada que me agrada muito mais que as adegas melancólicas e insensíveis. É uma tumba alegre onde eu cumpro meu destino com entusiasmo. Faço no estômago do trabalhador um grande rebuliço e daí, em escadas invisíveis, subo ao seu cérebro onde executo minha dança suprema.”

Uma sucessão de belas metáforas para descrever uma bebedeira. Pelos olhos apaixonados de Baudelaire, consumido pelos próprios vícios, o vinho se transforma em um artífice de alegria e de suavidade. Ao final do depoimento do líquido milagroso, uma descrição quase lasciva e que se aproxima da heresia, o momento em que o vinho, enfim, se torna o homem:

“Cairei no fundo do seu peito como uma ambrosia vegetal. Serei o grão que fertiliza o solo dolorosamente escavado. De nossa íntima reunião criaremos a poesia. Para nós dois faremos um Deus e flutuaremos ao infinito, como os pássaros, as borboletas, os filhos da Virgem, os perfumes e todas as coisas aladas.”

Melhor do que chorar das agruras da vida de artista é se entregar com voracidade ao prazer; usar a literatura não como fonte primordial de dor e sofrimento, mas para fazer o mundo se ajoelhar diante de palavras, meras palavras. Toda pessoa possui problemas, os mais diferentes possíveis, e reclamar do que a arte causa nos seus artífices soa como arrogância, uma maneira de dizer que as dificuldades de alguns são mais intensas do que as de outros. Problemas são problemas e, ao invés de lamúrias, melhor se abandonar ao poço infinito do prazer de ser aquilo que se é. Charles Baudelaire sabia disso: acaso pudesse mandar fazer uma camisa para si mesmo, grafaria a expressão “Bêbado, drogado, com a mente alterada, e feliz”.

Outro escritor que se entregou com toda a energia ao prazer de escrever e não ficou o tempo todo perdido em lamúrias foi Alexandre Dumas. Encontro-me lendo o livro de receitas que ele escreveu em 1869, “O Grande Dicionário de Culinária”. A ideia inicial não pode ser mais divertida: Dumas era um conhecido glutão, amante da boa mesa, dos vinhos e das mulheres (não nessa ordem). Vivia com intensidade, viajando por vários lugares da Europa e sempre experimentando receitas exóticas, mas um fato o desagradava imensamente – chegar em um lugar novo e ser recebido por uma comida ruim. Diante deste cenário, o escritor francês resolveu escrever um guia culinário, reunindo verbetes, receitas, comentários de viagens, opiniões sobre outros escritores e receitas que imaginou para alguns dos seus personagens mais famosos.

Alexandre Dumas divertiu-se muito escrevendo. Divertiu-se tanto que chegou ao ponto de transcrever uma piada infame que não deixa nada a dever para os memes atuais. No verbete dedicado ao absinto, segundo Dumas, “a paixão fatal de [Alfred de] Musset pelo absinto, que, aliás, talvez seja o que dê sabor tão amargo a seus versos, fez com que a grave Academia se rebaixasse a um trocadilho infame. Com efeito, como Musset faltava a muitas sessões acadêmicas, o senhor de Villermain, um dos 40, houve por bem dizer: ‘Não acha que Musset anda muito absenteísta nos últimos tempos?’.” Sim, um trocadilho infame de quase 200 anos de idade, para quem acha que estamos inventando a pólvora.

alexandre dumas culinária

O livro é mais uma miscelânea de situações entremeadas com receitas e comentários sobre ingredientes do que uma obra literária. Ainda assim, o escritor às vezes aparece com força, como quando Dumas conta o dia em que chegou na casa de um amigo e deu tantas opiniões sobre o trabalho da cozinheira, “que não era nenhum cordon bleu”, que ela desistiu de fazer comida, momento em que o escritor assumiu o comando da cozinha e encantou todos os convidados com os seus improvisos. A descrição do seu embate com a cozinheira foi imortalizada no meio da receita de “galinhas no barbante”:

“Galinhas no barbante. Até o momento de executar minhas galinhas no barbante, fui vítima das risadas ferinas da minha vice-cozinheira; porém, chegada a hora decisiva, as observações viraram oposição ferrenha. Sem tempo a perder, ameacei-a com um golpe de Estado, que consistiria em indenizá-la e botá-la porta afora. A ameaça fez efeito, ela obedeceu passivamente e, cinco minutos depois, minhas duas galinhas giravam lado a lado, como dois fusos.”

O dicionário de culinária foi a obra que Dumas planejou para ser sua última. Já estava velho e cansado, e queria legar para a Humanidade algo útil, contendo as suas receitas e opiniões gastronômicas. Não chegou a ver o livro publicado – morreu antes – mas foi um jovem Anatole France que o revisou, dando uma certa uniformidade para o conjunto de anotações. O sonho de Alexandre Dumas não era deixar uma obra para ser lida por todos os tempos, mas acalentar os estômagos alheios com boa comida. Para isso, a sua antológica – e errônea – frase: “Minha reputação culinária promete apagar a minha reputação literária. Louvado seja Deus!”

Entretanto, o escritor que melhor soube aproveitar das benesses da vida ao lado da literatura provavelmente foi William Somerset Maugham. Se algum dia ele reclamou dos dissabores de ser um artista, ou lamentou crises de criatividade e bloqueios, não deixou nenhum registro. Preferia escrever ao invés de chorar pelo motivo de não estar produzindo. Considerava a vida como uma grande antesala da ficção e, se estava sem escrever, isso se devia ao fato de estar ocupado demais experimentando novas situações. Era alguém que se comprazia em viver escrevendo e escrever vivendo, e saber articular o que fazemos com aquilo que somos é uma das receitas para uma existência digna.

É famosa a cena acontecida em um jantar, quando provocaram Somerset Maugham perguntando como se segura uma garrafa de vinho, e ele respondeu que as garrafas de vinho são agarradas pelo pescoço, enquanto mulheres devem ser seguras pela cintura. Nada como a experiência e a sofisticação para evitar perguntas inoportunas. O escritor inglês tinha uma simples meta de felicidade: “quando eu era jovem e tinha pouco dinheiro, fiz vários planos para a vida adulta. Um deles é que teria sempre, depois do jantar, um pouco de conhaque acompanhado por um bom e caro charuto. Foi um dos poucos projetos da juventude que realizei.”

Somerset Maugham

Somerset Maugham

Somerset Maugham teve uma vida muito difícil. Sofreu muito durante a sua infância e adolescência. Os seus pais morreram quando ele ainda era criança, e o escritor foi cuidado por um tio cruel, que lhe ensinou a nunca demonstrar nenhuma emoção. Por causa disso e da sua condição de órfão, desde seus primeiros anos, Somerset Maugham foi maltratado pelos colegas de aula, pelos vizinhos e pela comunidade em que vivia. Não tinha um porto seguro em que pudesse se refugiar.

Para não enlouquecer, desenvolveu a arma mais fatídica que um ser humano pode conceber: o sarcasmo. Suas tiradas se tornaram antológicas, o que enfurecia ainda mais os inimigos, que tentavam humilhá-lo e saiam derrotados. Ele nunca deixou de rir da vida, e boa parte do sarcasmo com que enfrentava as situações transportou para a sua obra.

É uma vitória que, mesmo diante de condições iniciais tão adversas, William Somerset Maugham tenha não só alcançado sucesso literário como chegou aos 91 anos de vida, e que a morte tenha lhe encontrado quando escrevia em um quarto instalado em uma linda villa de frente para o Mediterrâneo. Quem não reclama e sabe ter paciência para enfrentar as adversidades acaba tendo uma vida proveitosa.

Os maus-tratos sofridos nos seus primeiros anos nunca lhe levaram a lamentar. Ao contrário, por entender o sofrimento como parte indissociável da vida, Somerset Maugham estava pensando em si mesmo quando fez uma das mais belas descrições sobre a vida do verdadeiro escritor, sempre sufocado por uma humanidade da qual tenta se libertar, em um trecho presente no livro “O destino de um homem”:

“É uma vida cheia de contratempos. Para começar, o escritor deve sofrer a pobreza e a indiferença do mundo; depois, tendo conquistado uma parcela de sucesso, tem de se submeter sem protesto aos seus riscos. Depende de um público inconstante. Está à mercê de jornalistas que querem entrevistá-lo; de fotógrafos que querem tirar-lhe o retrato; de diretores de revistas que o atormentam pedindo matéria, de cobradores de impostos que atormentam por causa do imposto sobre a renda; de pessoas gradas que o convidam para almoçar; de secretários de instituições que o convidam para fazer conferências; de mulheres que o querem para marido e de mulheres que querem divorciar-se dele; de jovens que lhe pedem autógrafo; de atores que desejam papéis e estranhos que querem um empréstimo; de senhoras sentimentais que lhe solicitam a opinião sobre assuntos matrimoniais; de rapazes graves que querem sua opinião sobre suas composições; de agentes, editores, empresários, chatos, admiradores, críticos, e da própria consciência. Mas existe uma compensação. Sempre que tiver alguma coisa no espírito, seja uma reflexão torturante, a dor pela morte de um amigo, o amor não correspondido, o orgulho ferido, o ressentimento pela falsidade de alguém que lhe devia ser grato, enfim, qualquer emoção ou qualquer idéia obcecante, basta-lhe reduzi-la a preto-e-branco, usando-a como assunto de uma história ou enfeite de um ensaio, para esquecê-la de todo. Ele é o único homem livre.”

Ao invés de perder tempo se queixando, Somerset Maugham fez o mais difícil – transformou os problemas em força motriz para a própria obra. Não fez catarse por meio dos escritos, não menosprezou o leitor tratando-o como um terapeuta para seus problemas pessoais, e nem ao menos mergulhou na autocomiseração. Sem procurar a simpatia alheia, o escritor inglês entrou para a categoria de escritores como Charles Baudelaire e Alexandre Dumas: autores para quem a literatura é um simples ornamento, o sucesso uma mera consequência do trabalho, e aproveitar a vida em cada um dos seus mínimos momentos, sim, é o mais importante.

Texto originalmente publicado no link https://medium.com/colecao-dublinense/o-esp%C3%ADrito-livre-de-quem-sabe-se-divertir-28dc8fe0551b#.zcnx4egt0

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Texto publicado na revista eletrônica da Dublinense (10/08/2016): “Os livros atrapalhados”

Na minha coluna dessa semana no Medium da Dublinense, eu falei dos livros que chegam na hora errada da vida dos leitores e fazem uma confusão danada.

Mas também falo do dia em que escandalizei uma plateia ao confessar que o livro mais assustador de todos é “Éramos seis”, da Coleção Vagalume; falo de Michel de Montaigne, que presenciou um esquartejamento na praça e só depois escreveu ensaios dizendo como o comandante deveria ter agido; falo de Deus ex-machinas que chegam atrasados; falo de Jean Froissart, escritor contratado para ler o seu próprio livro aos nobres franceses, pois era o melhor remédio contra a insônia (isso sim que é desprestígio), e termino falando do pior presente que alguém podia ganhar no século XV, o “Ars moriendi”, ou “A arte de morrer”, o legítimo livro que a pessoa desembrulha o pacote e pensa “bah, estou ralado”.

Boa leitura!

 

Os livros atrapalhados

 

Nem sempre o livro certo chega na hora necessária. Às vezes, a obra muito errada acaba aportando no momento menos apropriado da vida de alguém, e essa experiência vira algo traumático. É um erro imaginar que a Literatura é uma sequência lógica e evolucionária em que cada narrativa chega naturalmente às mãos de um leitor, que se sentirá satisfeito e engrandecido após a sua leitura. Ao contrário, o mais normal é os livros se atrapalharem, se equivocarem, darem péssimos conselhos e ainda nos deixarem tristes. Ler é uma experiência mais ligada ao caos do que à alegria, e nem sempre os livros nos fazem bem.

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Falo isso pela consternação que causei de forma inadvertida quando, certa vez, ao final de uma palestra, me perguntaram qual era a história mais terrível que eu já tinha lido, e respondi sem titubear “Éramos seis”, de Maria José Dupré. A plateia trocou olhares de espanto e risadas: como pode um livro da Coleção Vagalume ser mais terrível do que “Drácula” de Bram Stoker, “Frankenstein”, de Mary Shelley, ou “A coisa”, de Stephen King? (Eu estava palestrando sobre literatura de terror).

Expliquei os motivos para afirmativa tão categórica. Quando li “Éramos seis”, eu tinha 10 anos de idade, e foi a primeira vez que tomei consciência da morte. Através da literatura, descobri que, em futuro não tão distante, a minha situação de equilíbrio familiar iria se encerrar, que a morte se instalaria no meio das pessoas amadas e que dificilmente voltaríamos a ficar juntos sob o mesmo teto.

A plateia concordou comigo, em especial pela descrição que fiz de “Éramos seis”, um livro que ainda tem cheiro de morte na minha memória. Os anos passaram, e provavelmente não lembro tanto dos eventos internos da história, mas recordo da sombra que perpassa pelas suas páginas: tudo vai acabar. As pessoas que amo irão morrer até que, eventualmente, eu também morrerei. A prosa é seca, um pouco repleta de arcadismos, e em nenhum momento o objetivo do livro é escancarado, a não ser no seu final, quando olhamos a capa e pensamos no título, “Éramos seis”, como uma antecipação direta das perdas vivenciadas pelos personagens.

É uma obra cruel, em especial para uma criança cheia de futuro e de alegrias ainda não experimentadas. Quando se mergulha com ímpeto dentro de uma narrativa, e se vivencia o drama dos personagens como se fosse o seu próprio, qualquer livro pode ser assustador ou incrível. Sinto-me um pouco mais consolado por que, ao final da palestra, duas professoras se aproximaram e confidenciaram que também tinham muito medo de “Éramos seis”. Leram durante a infância e passaram semanas aterrorizadas com a ideia de que os seus pais podiam morrer ou desaparecer a qualquer minuto. É possível, aliás, que exista uma ou duas gerações aterrorizadas em silêncio pela morte contida no exemplar amarelo cobre de “Éramos seis”.

Foi um livro que contou que eu iria morrer e a minha família acabaria. Ele não tinha o direito de acabar com a minha ilusão, mas não perguntou nada, veio e revelou a verdade. A primeira parte ainda não aconteceu e a segunda mais ou menos, pois é difícil perceber os momentos de modificação das famílias: no caso da minha, ganhamos novos membros, outros estão distantes e até mesmo a morte já veio colher alguns. O fato é que nunca mais seremos os mesmos seis, estaremos sempre em mudanças. O maldito livro estava certo, mas precisava dizer tão cedo?

Também existem obras que somente surgem depois que já cometemos o equívoco. O estilo de texto que, se tivéssemos lido antes, teria nos alertado para a burrice da nossa conduta. É um Deus ex-machina que chega atrasado, vê o heroi morto e ainda diz “bom, então ficarei de alerta para que outras pessoas não façam o mesmo”. Em uma linguagem moderna, seria o “miga, não faz isso”.

Melhor exemplo aconteceu com Michel de Montaigne. Quando tinha 15 anos, Montaigne assistiu a uma cena que lhe fascinaria e repugnaria em igual medida. A cidade de Bordeaux passava por uma revolta, com multidões de populares ocupando as ruas em protestos contra o aumento dos impostos ordenado pelo rei. O comandante da guarda da cidade, Tristan de Moneins, fechou-se no interior do ChâteauTrompette, onde poderia resistir por semanas de cerco. Ao redor do lugar, os revoltosos se concentraram, desafiando o representante do rei a sair para convencê-los da regularidade da conduta. Pois Tristan de Moneins imaginou que ganharia o respeito da cidade se os enfrentasse cara a cara, e saiu do castelo sitiado para conversar com os adversários. Existe um motivo para políticos raramente se dirigirem ao encontro da multidão sem um grupamento de segurança a lhes cercar, e basta imaginar a cena que percebemos o presunçoso erro do comandante, pois, enquanto tentava conversar com a multidão enfurecida, foi cercado, linchado e esquartejado.

Montaigne ainda era um jovem, e estava longe de ser o filósofo que um dia se tornaria. No entanto, a cena ficou gravada de tal forma na sua memória que alguns dos ensaios escritos mais de 30 anos depois ainda se referem ao tema, analisando os erros e equívocos da conduta do comandante assassinado.

Não bastando esmiuçar as atitudes dele, ainda procurou outros exemplos na História da Humanidade em que um homem ficou cercado por uma turba e conseguiu sair vivo, citando exemplos da Roma antiga. Os títulos dos ensaios são auto-exemplificativos: “Se o comandante de uma praça sitiada deve sair para negociar” e “A hora das negociações é perigosa”, para ficar nos mais famosos. A conclusão de Montaigne é que Tristan de Moneins cometeu o erro decisivo de sair para encontrar a multidão e, no meio do caminho, se apavorou e tentou voltar atrás, o popular ditado “se está no inferno, vai lá e dá um abraço no diabo”:

“Não se pode negar que [Tristan de Moneins] demonstrou coragem ao enfrentar desarmado um mar de furiosos. Mas sua única esperança então seria manter até o fim a atitude de desafio. Ele devia ter bebido da taça até o fim, sem abandonar seu papel; ao passo que o que lhe aconteceu foi que, tendo visto o perigo de perto, perdeu o sangue frio e mais uma vez mudou a atitude aplacada e de lisonja que havia assumido, mostrando-se assustado e deixando transparecer surpresa e arrependimento na voz e no olhar. Tentando esconder-se, ele inflamou a multidão, que se abateu sobre ele.”

É uma pena que as dicas de Michel de Montaigne não puderam ser aproveitadas por Tristan. Acaso o homem tivesse lido as opiniões do filósofo ANTES de sair do castelo cercado, provavelmente teria sobrevivido. No caso do comandante francês, o livro chegou tarde demais. Era o texto certo para o leitor ideal, mas estava atrasado e, assim, hoje conhecemos a melhor maneira de parlamentar com multidões furiosas, mas um homem teve que morrer para que tal ensaio existisse.

Também existem livros que nasceram desviados das suas funções originais. Eles só seriam apreciados e estudados anos depois do seu surgimento, mas, na época em que estavam caminhando os primeiros passos pelo mundo, não só não tinham leitores como literalmente não valiam o papel da sua impressão.

Quando estivermos decepcionados com a vida literária, ou com a eterna agrura de ser um autor que ninguém entende (mal que aflige a todos os escritores), valeria lembrar o pobre Jean Froissart, um escritor francês do final do século XIV que escreveu “Méliador”, uma extensa história baseada nos mitos do rei Arthur. Era uma trama tão longa e tediosa que os nobres franceses contratavam o escritor para lê-la ao pé das suas camas. Assim, “Méliador” ganhou a injusta reputação de ser um livro aconselhável para terminar com a pior das insônias. Um livro chá de camomila.

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Imagino a frustração de um escritor como Froissart, que foi contratado pelo conde du Blois para, durante seis semanas, toda vez que o conde fosse dormir, postar-se junto aos pés da cama e ficar lendo a própria obra até que a insônia do outro fosse embora. É o pior desprestígio para um criador: ter o seu livro usado não para encantar, mas como um objeto que induz o sono. Ainda assim, a obra sobreviveu à passagem dos anos. Jean Froissart não é muito lido, e menos ainda conhecido, mas, ao menos, hoje não é mais usado para acabar com a insônia.

Outra modalidade de livro que chega na hora errada é aquele que não queremos ler, mas somos presenteados, e não raro com as melhores intenções. Na Europa do século XV, uma moda peculiar surgiu nos círculos mais nobres. Quando algum familiar estava adoentado e ninguém sabia direito qual mal lhe afligia, ele então recebia de presente um livro, intitulado “Ars moriendi”, ou “A arte de morrer”.

Imaginem a cena: você está deitado na cama, sentindo-se enfermo. Médicos entram e saem, propondo sanguessugas e outros tratamentos que não resolvem o seu problema de saúde. Você se sente mal, mas acha que logo vai passar, tudo vai dar certo. De repente, entra um familiar lhe trazendo um presente, e é um livro que lhe ensina como morrer com dignidade. A intenção era ótima, pois era melhor prevenir do que remediar. Eis uma leitura bastante agradável para se realizar em um momento tão delicado.

Os capítulos não podiam ser mais tensos. Em geral,  o “Ars moriendi” clássico tinha seis segmentos. No primeiro, o autor explica que morrer não é algo tão ruim, que a morte pode ser uma experiência bem legal e instrutiva, não algo assustador. Estão tentando consolar o moribundo, fazê-lo olhar “o lado bom de estar morrendo”. No segundo capítulo, o livro abordava os cinco perigos que a pessoa podia enfrentar nos últimos segundos de vida: falta de fé, impaciência, desespero, orgulho espiritual e avareza. Também dava dicas de como evitar essa tentação final, e uma delas chama atenção: morda a língua. Alguém está em vias de morrer, precisando se preocupar em não dizer bobagens ou maldições e, para tanto, o mais indicado é morder a língua.

No terceiro capítulo, estão as sete perguntas que se deve fazer para um homem agonizante (as mesmas que Deus lhe fará nas portas do Paraíso, e não sei como conseguiram tal spoiler do Altíssimo), assim como algumas palavras de consolo que podem ser direcionadas por ele para a família e vice versa. O quarto capítulo do “Ars moriendi” ostenta trechos da vida de Jesus que servem de exemplo ao moribundo para que ele não esmoreça. O quinto capítulo fornece dicas de conduta para os amigos e para a família do quase morto, estabelecendo as diretrizes para o que acontecerá no leito de morte e depois dele. É importante organizar tais detalhes. Por fim, o último capítulo sugere uma série de orações e cânticos que os presentes podem entoar para o agonizante, a fim de que ele entre no outro mundo com a trilha sonora apropriada.

Essa modalidade de presente foi muito apreciada durante quase 100 anos. Hoje achamos de mau gosto, mas as pessoas do passado eram mais pragmáticas. É o caso de livro que não gostaríamos de ganhar, pois não só nos diz que vamos mesmo morrer, que não tem mais chance de nos salvarmos, mas ainda alerta que agora tudo é uma questão de ajustar condutas e burocracias para não atrapalhar muito.

Assim como as pessoas, os livros nem sempre estão certos. Às vezes eles são atrapalhados, se esbarram e cometem indiscrições, e a literatura está farta de casos em que os livros mais atrapalharam do que ajudaram. Eles podem aparecer na vida de alguém no momento errado e trazer a morte para o meio da infância (caso de “Éramos seis”), ou podem chegar atrasados para nos salvar (como os ensaios de Montaigne sobre Tristan de Moneins demonstram), ou podem ser usados de forma diferente do motivo para o qual nasceram (caso de Froissart e seu “Méliador”, um livro considerado como a cura da insônia), ou ainda são o pior tipo de presente que alguém pode receber (quem deseja aprender a morrer direito lendo um tutorial em “Ars moriendi”?). Mesmo assim, e novamente como acontece com as pessoas, o livro errado para alguém pode ser o certo para outro alguém, e assim caminhamos por entre bibliotecas, sempre na dúvida se o livro escolhido é amigo ou inimigo, herói ou vilão. Exatamente como as relações humanas.

 

Texto originalmente publicado no link https://medium.com/colecao-dublinense/os-livros-atrapalhados-da91955e4270#.m5lfbs7c1

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