A literatura como um farol

A produção do Fronteiras do Pensamento 2017 pediu para que eu escrevesse um ensaio sobre a obra do escritor cubano Leonardo Padura. Mas, como nada na vida é simples, pediram para que tentasse conectar o texto ao tema do Fronteiras desse ano, que, em uma síntese, seria “Num mundo onde as divisas são sutis e o impacto das culturas é real, o pensamento nos aproxima na tarefa de resgatar e fortalecer valores. O que nos define como civilização? Buscar o que nos conecta, o que nos concretiza como ‘nós’, é um dos grandes desafios atuais.”  Disseram que, se eu não conseguisse, tudo bem – algo que, claro, é a senha para eu tentar até o último suspiro literário. There’s no mountain high enough.

O resultado foi esse texto, “A literatura como um farol”. Escrevi no início do ano, mas tenho lembrado dele cada vez com mais frequência, em especial nos dias que estamos vivendo. Quando estivermos em dúvida sobre algo, ou nos sentindo desesperados e sozinhos demais, é necessário buscar tranquilidade na Arte, que serve como porto seguro para nossas agruras. A beleza e o horror estão criptografados na Arte, assim como nossos dilemas éticos e questões existenciais. Está tudo ali, em silêncio, à espera de ser decifrado por quem realmente se interessa em descobrir respostas que vão além do imediatismo.

Os que tiverem interesse no libreto completo do Fronteiras do Pensamento 2017, está aqui o link: http://www.fronteiras.com/produtos-culturais/produto/libreto-leonardo-padura 

Na segunda feira próxima, assistirei a palestra do Padura.

Boa leitura.

 

A literatura como um farol

“O farol de Bell Rock”, 1819, William Turner

Vamos pensar em um farol. Sozinho, ele luta contra a inexorabilidade furiosa das ondas que se arremessam, tentando arrastá-lo para o seu coração molhado no fundo do oceano, onde moram os fantasmas dos náufragos. Ainda assim, ele resiste ao cerco raivoso, a luz servindo de guia para as embarcações em meio ao escuro e às tempestades. Um farol sinaliza não somente o perigo de rochedos, mas o sonho de uma terra segura em que possamos descansar das agruras do mundo.

Em um livro lançado em Portugal no ano de 1968 e com coordenação de Urbano Tavares Rodrigues, perguntaram para seis escritores franceses, “Que pode a literatura?”, que se tornou seu título. Entre os escolhidos para responder essa singela – e traiçoeira – pergunta, estavam Jean-Paul Sartre, Yves Berger, Jean Ricardou e Simone de Beauvoir. O mundo atravessava momentos conturbados, em que valores eram rediscutidos à medida que os estudantes espalhavam-se pelas ruas da França lutando pelo direito de mudarem aquilo que julgavam errado. Era um período de crise e, como Urbano Tavares Rodrigues anuncia na introdução, é importante determinar se, nesse contexto problemático, estando sob ataque da crítica e da ciência, a literatura ainda teria, nos dias de então, um poder real e efetivo e, se acaso existisse esse poder, “a forma que ele se reveste, se se traduz em negação, contestação, transformação ou manifestação de impotência”. Uma dúvida que, sem muitas alterações, poderíamos aplicar nos dias atuais: a literatura é capaz de mudar o mundo e se, acaso sim, poderia salvá-lo, destruí-lo ou somente manifestar a sua impotência diante dos dilemas humanos?

Entre as respostas, a mais perturbadora e otimista foi a de Simone de Beauvoir. Após interrogar-se se a literatura ainda fazia sentido em um mundo no qual a informação possuía fácil acesso, em que o livro de um sociólogo sobre as favelas que cercam a Cidade do México era analisado de forma idêntica às descrições feitas por Balzac em “A Comédia Humana” – e estávamos antes do advento da internet, quando a informação não só se tornaria abundante como veloz -, a escritora francesa diz que, sim, a literatura fazia sentido, pois não se arvora na condição de ser verdadeira, mas pretende ser uma forma alternativa de se posicionar diante da realidade: “É este o milagre da literatura, o que a distingue da informação: é uma outra verdade que se torna minha sem deixar de ser outra. Abdico do meu ‘eu’ em favor de quem fala e, no entanto, continuo a ser eu própria. (…). A obra literária existe, na minha opinião, sempre que o escritor é capaz de manifestar e de impor uma verdade: a da sua relação com o mundo, a do meu mundo. Mas é preciso levar em conta o significado destas palavras: ter qualquer coisa para dizer não é mesmo que ter um objeto que se leve na mala e se ponha em cima da mesa, procurando descrevê-lo em seguida por palavras.”

Semelhante ao acontecido na década de 60, atravessamos outro período de turbulência. Os valores que imaginávamos intocados, como as noções de democracia e de liberdade civil, estão sob constante readequação. As fronteiras se diluíram; assoberbados pela fome e pela guerra, os povos se deslocam sem respeitar limites físicos, tornando inevitável o choque entre diferentes culturas. As instituições são questionadas, e tudo o que nos deixava seguros hoje paira sobre o clima da incerteza. Assim, torna-se imperativo retomarmos a pergunta: o que pode a literatura para manter esse equilíbrio precário que coloca em dúvida o próprio conceito de civilização?

Oportuno retornarmos à imagem do farol, mas pelo ângulo contrário. Imagine-se sobre o convés de uma embarcação, atacado pelos antigos deuses das águas, que esboroam as madeiras, ansiosos para saborear o seu último hálito. Imagine o vento fustigando a sua cara com centenas de cortes gelados, o rugido de um mundo que se contorce ao redor, o descontrole de vagar pela noite infinita onde as nuvens se unem às águas com o propósito de lhe engolir vivo. Estremecido de medo, você enxerga a luz solitária sobre a água, um bruxuleio tímido que aos poucos se firma no horizonte e lhe diz: calma, tudo vai acabar bem. Aproxime-se com cautela e, em breve, o pesadelo será passado. Toda a lógica indica que aquela luz é um farol, mas, para quem está dentro do barco enfrentando a tempestade, ela se chama Esperança.

Em tempos de crise moral e ética, é na Arte que devemos buscar aquilo que perdemos. É nela que encontramos o Humano, não a criatura multifacetada e repleta de agonia imposta pela pós-modernidade, mas o ser solitário que tenta chegar à sua essência para entender o mundo que lhe cerca. A Arte é o farol que nos conduz no silêncio da existência. É ela que tem a capacidade de fornecer a resposta para aquilo que sequer conseguimos transformar em pergunta.

Entre as artes, a Literatura ocupa um papel de relevo ao mostrar caminhos diferentes dentro da realidade, trazendo novas reflexões para dentro da vida singular que cada um ocupa. A melhor maneira de entendermos o outro é tentando enxergar o mundo através do seu ponto de vista. A Literatura é o exercício de alteridade por excelência, pois, quando lemos um livro, por um intervalo de tempo delirante, deixamos de sermos nós mesmos e nos transformamos em Gregor Samsa, em Aquiles, em Jane Eyre, em um axolote. Quanto mais lemos, maior a capacidade de entendermos os dilemas do outro e, quanto maior a compreensão, maior a tolerância e o respeito a quem nos é diferente.

É o caso do escritor cubano Leonardo Padura. A sua obra constitui um microcosmo dos séculos XX e XXI; o leitor que se debruçar sobre os seus romances, aprenderá mais sobre política, economia, sociologia e relações humanas do que qualquer busca no Google. Terá a vantagem de caminhar por uma Cuba mais real do que aquela que conhecemos: um cenário quente, de desilusões prolongadas, de desencanto e de alegrias que insistem em se esconder nos cantos das esquinas. Conhecerá um povo que sorri apesar das agruras, que sobrevive com dignidade e que possui dramas não muito distantes dos que atormentam pessoas em outros lugares do mundo. Ao contrário do que se pensa, o acesso amplo à informação é inútil se não acompanhado do toque humano de saber articular tais dados na forma de um pensamento coerente. Quando Simone de Beauvoir expressou o seu receio que o excesso de informação tornasse a literatura obsoleta, antecipou algo que Leonardo Padura demonstra nos seus romances: as informações e a pesquisa detalhada dos assuntos só possuem algum sentido quando são depuradas pelo olhar aguçado de um homem sobre o seu tempo.

Para descrever a sociedade em que vive, e fazer com que a sua obra tenha um alcance universal, Leonardo Padura escreve romances policiais, tidos por muitos como uma espécie de subgênero literário (por mais questionado que seja esse conceito). Autor da série de novelas policiais “Estações Havana”, formada por quatro livros (“Passado perfeito”, “Ventos de Quaresma”, “Máscaras” e “Paisagens de Outono”), o autor cubano criou o detetive Mario Conde, um policial atormentado por questões pessoais e que resolve crimes enquanto Cuba vive as primeiras crises do final do socialismo castrista. É um tempo de mudanças sociais e políticas e, em meio a essas incertezas que afetam o cotidiano de milhares de pessoas, Mario Conde atravessa as ruas de Havana em busca de respostas para os crimes, precisando lidar com os mais variados e ricos personagens, que dissimulam, mentem e, às vezes, até falam a verdade.

Dificilmente existe gênero literário que melhor represente a literatura como forma artística do que o romance policial. Reduzido aos seus elementos mais básicos, ele é a caçada de um criminoso realizada por outra pessoa que dispõe a mais perigosa das armas: a criatividade de unir pontos díspares em uma rede lógica de causa e efeito. Seres humanos criativos são algo a ser temido em qualquer tempo e lugar, e o romance policial faz com que os seus leitores tracem ligações e imaginem cenários que expandem as possibilidades da criatividade ao infinito.

Em um ensaio sobre o conto policial, Jorge Luis Borges, após afirmar que a literatura é algo que tende ao caótico, acaba encontrando organização dentro da história policial, “que está salvando a ordem em uma época de desordem.” Poucas sensações são mais tranquilizadoras do que juntar pistas ao lado de um detetive ficcional e trazer algum conforto e segurança ao mundo. Chesterton afirmou que o verdadeiro inimigo da história policial é o escritor, que esconde pistas com o desejo de que elas sejam encontradas. Nesse caso, Leonardo Padura é o melhor adversário que um leitor pode encontrar, pois, além de tentar encontrar sentido para uma Cuba que espelha as perplexidades de todo um século, constrói o caos de um crime dentro de um caos social maior, e faz com que o leitor se torne cúmplice na tarefa de juntar os pedaços de um mundo semi-destruído com o objetivo de dar alguma ordem que, se não for a ideal, ao menos seja satisfatória.

Retomando a pergunta motivadora desse texto, o que pode a literatura? Talvez a resposta seja outra questão: o que a literatura não pode fazer nos tempos em que vivemos? Existiria assunto tão insondável que não possa ser trazido para dentro da arena ficcional a fim de ser analisado sob todos os prismas possíveis? Com o passar do tempo, criou-se a ilusão de que surgirá alguém capaz de nos salvar, um ente iluminado que, com inteligência, guiará a nossa embarcação para longe da crise, mas, parafraseando Brecht, pobre da nação que precisa de heróis! O melhor é buscar o conforto da literatura para achar as respostas tão ansiadas, confiantes de que, como um farol em meio ao mar bravio, ela será capaz de nos conduzir quando nos sentirmos perdidos e sozinhos. Nesse cenário, a obra de Leonardo Padura continuará dialogando com os dilemas da nossa época, mostrando para o leitor que uma das grandes funções da literatura, afinal de contas, é mostrar quem realmente somos.

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Resenha do livro “Urubus em círculos cada vez mais próximos”, de Cesar Cardoso

Escrevi para o Homo Literatus (www.homoliteratus.com) uma resenha sobre o livro “Urubus em círculos cada vez mais próximos”, do Cesar Cardoso. Uma 0obra formada exclusivamente por minicontos, levando ao máximo a tensão narrativa e usando para isso o mínimo de palavras e descrições. O conto no seu estágio mais bruto, mais selvagem. Não é algo que eu aprecie muito escrever – nos tempos atuais o miniconto se aproxima muito das fábulas moralizantes -, mas admiro quem sabe fazer. Se o Cesar não teve sucesso em todos (algo impossível para qualquer escritor que se aventura pelo contos), conseguiu fazer alguns inesquecíveis. Recomendo a leitura, mas, conforme a resenha, devagar, para que cada conto atinja o leitor com a sua máxima força, sem ser atenuado ou obliterado pelo próximo.

Boa leitura.

 

As pequenas impossibilidades de Cesar Cardoso

 

 

Pela sua própria natureza, o conto possui como característica o fato de ser curto. No entanto, essa brevidade não implica em dar um tratamento superficial à história. Ao contrário, o conto bem sucedido é aquele que, por trás de uma aparência simples e quase descuidada, esconde um universo de terríveis possibilidades no seu interior. Dessa maneira, não importa se o conto tem uma, duas ou quinze páginas, desde que a história aparente – aquela que se encontra diante dos olhos do leitor – seja a fachada de uma série de histórias ocultas que se revolvem no seu interior, inquietas como as cobras de uma Medusa, ansiosas para serem desvendadas ao mesmo tempo em que escapam do leitor arguto como a neblina foge entre nossos dedos.

Na orelha do livro “Urubus em círculos cada vez mais próximos”, de Cesar Cardoso, encontra-se que o autor “leva ao extremo a máxima de Cortázar de que no conto o escritor deve vencer por nocaute”. Segundo o autor e teórico argentino, conto perfeito é aquele em que o leitor chega ao final da narrativa com a sensação de atordoamento, de que alguma parte muito importante da sua vida foi indelevelmente modificada. Para ficar com outra metáfora que se refere ao conto, desta vez de Hemingway, essa modalidade narrativa é como um iceberg: olhamos somente a ponta, mas, abaixo dela, está um enorme mistério, uma massa gigantesca de segredos oculta nas sombras do oceano.

Entre as narrativas curtas, poucas são mais cruéis do que os minicontos. Neles, a tensão narrativa é concentrada ao máximo; um piscar de olhos do leitor, uma distração, e o efeito inteiro se perde, transformando-se em confusão ou indiferença. O livro de Cesar Cardoso reúne 91 minicontos, a maioria com extensão de uma página, alguns chegando a duas. Não se confunda brevidade narrativa com conflitos insossos: grande parte das histórias são diretas, viscerais, furiosas. É um livro feito para submergir o leitor em um mundo de impossibilidades possíveis, forçando-o a redefinir os padrões do que considera como realidade e ensinando-o a questionar o status quo imposto pelos padrões sociais do que é verdadeiro ou não. Mais importante do que ser real é ser verossímil e, dentro do livro, as impossibilidades de Cesar erguem aos poucos um muro ficcional repleto de surpresas e de reviravoltas. Serve como exemplo o miniconto seguinte:

“Os bravos soldados do fogo

Acordei com a sirene. O barulho veio aumentando e eu esperei que fosse diminuindo. Mas não. Parou à minha porta. Levantei rápido da cama e corri para abrir a porta da frente, já dando de cara com os bombeiros carregando as mangueiras, gritando ordens, cercando o quintal e procurando, procurando. Eu também não encontrava nenhum sinal de fogo. Mas não tive tempo de alertá-los, eles já acionavam os hidrantes e encharcavam a casa toda. A princípio, não entendi aquele procedimento e até me aborreci. Mas eles foram gentis e pacientes e me fizeram ver que, por mais que a gente não perceba e mesmo não encontre, há sempre um incêndio.”

Observa-se aqui uma série de constantes que se repetirá em outras narrativas curtas contidas em “Urubus em círculos cada vez mais próximos”: a estranheza de uma situação que escapa do normal, a surpresa nas últimas linhas do conto (o mencionado “soco que leva ao nocaute” de Cortázar) e, mais importante do que tudo, a passividade do narrador diante do fantástico. Não existe oposição, luta ou questionamento; ao contrário, o narrador se entrega ao absurdo e considera-o como parte da anormalidade de um dia-a-dia que luta contra os próprios limites impostos pelo real.

Tal circunstância permite ao escritor tecer as mais inventivas ficções, confiante em uma credibilidade inicial a ser concedida pelo leitor e que não se desvanecerá até o final do miniconto. Assim, Cesar Cardoso escreve sobre ursinhos de pelúcia abusadores, sobre um condenado à morte cuja pena nunca é integralmente cumprida, sobre um hospital que vende ingressos para que as pessoas acompanhem cirurgias, sobre alguém que todos os dias procura o próprio obituário nos jornais, sobre vizinhos que entram nos sonhos um do outro, sobre um automóvel que sonha na garagem com o homem que irá destruí-lo. Cada miniconto escancara uma porta sombria, revelando pesadelos que se escondem nas ranhuras do cotidiano brutal imposto pela rotina.

Existem histórias que não entregam facilmente as suas chaves de compreensão, levando o leitor a reler a narrativa em busca do significado que permaneceu oculto nas entrelinhas. Alguns minicontos emulam as obras de Escher e “A circularidade dos parques”, conto de Cortázar, com uma narrativa circular em que o narrador persegue a si mesmo, como no caso seguinte:

“O dia pela frente

O homem com o pijama listrado abriu os olhos, se espreguiçou e ficou ainda alguns minutos na cama, talvez pensando no dia que teria pela frente. Então se levantou, calçou as sandálias e foi até a janela ver se aquele barulho era mesmo de chuva.

Abriu a janela mas só conseguiu ver o quarto, onde o homem de pijama listrado abria a janela para ver se aquele barulho era mesmo de chuva.”

No entanto, é justamente esse desejo de surpreender que acaba deixando o livro um pouco previsível pelo seu viés oposto: o de buscar uma reviravolta ao final de cada história. Tal circunstância faz com que as narrativas curtas se tornem assemelhadas, impedindo que parte dos minicontos fique marcada na memória do leitor. Enquanto que, em algumas histórias, o momento final não só é “evidente e imprevisível” – para ficar em outra metáfora do conto perfeito, essa feita por Ricardo Piglia -, em outras o final soa forçado e gratuito, com uma tentativa de surpreender o leitor que não funciona tão bem. Quando se tornam visíveis as cordas narrativas que controlam a história, o leitor percebe o rompimento da suspensão da descrença sem a qual não existe o pacto ficcional – através do qual o leitor dá um crédito para as mentiras do autor desde que elas não sejam óbvias ou infiéis à verossimilhança interna -, e ver a interferência direta de um autor em busca de uma surpresa causa o efeito contrário, que é deixar a história previsível.  Ou seja: em determinado momento do livro, o leitor sabe que seu destino é ser surpreendido e, portanto, deixa de se surpreender.

A melhor forma de ler “Urubus em círculos cada vez mais próximos” é lentamente, algo que vai contra a ideia de brevidade extrema do miniconto, mas que, para um leitor que não se dedica a devorar com sofreguidão uma obra, mas se esforça para tentar decodificar e lembrar cada narrativa, é o ideal. Ler muitos minicontos em sequência faz com que o efeito de um acabe enfraquecendo o do outro, e assim por diante. No entanto, ler a obra com vagar, refletindo cada miniconto e tentando vislumbrar as possibilidades contidas por trás de uma forma enganosamente simples, pode ser recompensador de muitas maneiras diferentes. O livro de Cesar Cardoso recompensa o leitor lento com uma série de pequenos pesadelos que, apesar de estarem contidos dentro da ficção, podem ser mais reais e presentes do que esse mundo absurdo em que vivemos.

Texto originalmente publicado no link http://homoliteratus.com/as-pequenas-impossibilidades-de-cesar-cardoso/

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Imerso na areia movediça

Excesso de gentileza me deixa desconfortável.

Estava pensando nisso ao comprar o café hoje pela manhã. Muitos anos atrás, acertei com meu terapeuta que iria interagir mais com as pessoas. Ando sempre com as defesas levantadas (“shields up!”, como diria o capitão Jean-Luc Picard da Enterprise): os dramas alheios me invadem sem pedir licença e acabam machucando no processo – quando me contam algo, eu sou você e sou o algo, sinto tudo com a força desproporcional que a imaginação confere -, então prefiro fechar as comportas, evitar interações, passar ao largo dos problemas dos outros antes que eles me afetem. É uma estratégia defensiva. O terapeuta achou necessário começar por um pequeno passo e, assim, todos os dias eu compro um café no McDonald’s e tento interagir por alguns minutos, mantendo uma distância regulamentar.

Nas últimas duas semanas, o pessoal que trabalha no McDonald’s descobriu o meu nome. Afinal, são três anos cumprindo o ritual de comprar o café no mesmo lugar, acabei chamando a atenção. Desde então, basta entrar no McDonald’s e as funcionárias me cercam: “Oi, Gustavo!”, “tudo bem, Gustavo?”, “o mesmo café de sempre, Gustavo?”, “bom dia, Gustavo!”, “cadê o café do Gustavo?”. Isso quando não me dão cafés gratuitos ou trazem meu café antes mesmo de eu pagar, “fiz agora o café e está bem quentinho para ti, Gustavo”. É o inferno para uma pessoa tímida. Não sei como dizer que gostaria de ser tratado de novo com desconsideração e com indiferença – descobrir meu nome abriu as portas de uma série de diálogos íntimos que eu  não teria.

Entendo que, usando o nome, elas tenham a intenção de me tocar, ainda que metaforicamente. Entendo e respeito isso. Imaginem agora o que sinto desde que, nos últimos tempos, várias pessoas por semana passaram a me interromper do nada e começam a falar comigo com grande intimidade. São meus leitores e leitoras, a grande maioria agradecida pelas histórias que escrevo, todos expressando o desejo de compartilhar suas opiniões comigo, todos querendo escutar minhas opiniões.

Não sou mal educado ou mal agradecido. Gosto dos meus leitores – são ótimas pessoas, muito divertidos e costumam interagir até com certa veemência com o livro. Com todos eu parei e conversei por um tempo, e com alguns tirei fotos ou autografei guardanapos e outros papéis (até um braço autografei esses dias).

Após uma longa autoanálise, percebi que essa situação não me fazia bem. Não entrei na literatura para interagir, entrei para escrever. Já lancei duas obras, tive mais leitores do que imaginava que algum dia teria e não pretendo me sustentar com ela, até por que viver de literatura no Brasil é uma utopia que despertaria gargalhadas em Thomas More. Escrever só para mim dá tanto prazer quanto escrever para os outros, e sou meu leitor mais selvagem e exigente. Aliás, por muitos anos fui meu único leitor, e nunca fui condescendente comigo mesmo. A literatura já tinha cumprido o propósito que eu imaginava: escrever livros, ser lido, ser comentado, ser criticado. Mais do que isso é exagero, e dois livros parece uma ótima produção.

Portanto, pensei que agora poderia deixar o meu barco mais preso ao porto. Evitar eventos literários de maneira gradual. Parar de publicar em papel. Restringir exposições públicas. Fechar meus textos comigo, que é o local onde eles nascem e podem permanecer tranquilos. Silenciar aos poucos até sumir de vez. Não parar de escrever – não consigo -, mas permanecer em silêncio. Meu último ato oficial na escrita seria a tese de doutorado de Escrita Criativa, a perfeita saída de cena. Uma andorinha não faz verão; um escritor a mais ou a menos no mundo não muda nada. E eu adoraria voltar a ser leitor.

Entretanto, desde o momento em que pensei isso e decidi esquematizar uma retirada gradual e discreta, fui inadvertidamente sufocado por uma onda de carinho. Não sei se existe serendipidade, não sei se é destino ou mera coincidência, ou mesmo se existem forças invisíveis interligando as pessoas, mas, nas últimas semanas, leitores que nunca conversaram comigo ou entre si me cumularam de mensagens de texto, de e-mails, de gravações de áudio, de fotos dos livros. São agradecimentos, sugestões, perguntas, elogios que me fazem enrubescer.

Em tempos normais, não daria tanta atenção para esse tipo de mensagens, mas foi tão orquestrado e tão simultâneo que me deixou com dúvidas. “Você se torna responsável por aquilo que cativa”, já dizia o sábio Pequeno Príncipe do Saint-Exupéry, e escrever também é um ato de responsabilidade perante os outros. Não sou uma pessoa irresponsável; tenho dezenas de defeitos, mas não esse.

Só agora entendi um conto presente no meu próprio livro, “Tema de Sísifo”. Um homem acorda em uma casa à beira de um rochedo. Passa o dia de forma normal, usufruindo de pequenos prazeres: os raios do sol na parede caiada, uma tigela de arroz, uma sombra inoportuna. Contudo, sua alma não se encontra pacificada; em meio aos ensinamentos deixados por Pitágoras, o homem sente que alguma coisa está fora da ordem. No meio da tarde, caminha na beira da praia; percebe a silhueta distante de pessoas a lhe vigiar, e machuca o pé. Tem a súbita noção de que aquele dia já aconteceu antes. Sente-se invadido pelo terror ao notar que está preso em uma situação impossível de ser vencida, que cada dia será igual ao anterior e ao posterior, pois ele é um “Deus aprisionado na própria armadilha”, o Sísifo por excelência.

Quando escrevi esse conto, não entendi todas as suas possibilidades, mas agora vejo que era a literatura falando comigo, mostrando o espelho incômodo onde estou preso e do qual não consigo escapar. Estou na pior das areias movediças: a que eu mesmo engendrei.

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Os que não cheiram a medo

Sempre que me falam de arte ou de literatura contemporânea, eu digo que não me considero contemporâneo, pois não tenho “cheiro de medo”. Quase todos me olham com incompreensão. Melhor dizendo: todos me olham com incompreensão. Na realidade, estou brincando com uma pequena história contada pelo Juan Gelman e relatada pelo Eduardo Galeano em “O livro dos abraços”:

“A arte e o tempo
Quem são os meus contemporâneos? — pergunta-se Juan Gelman. Juan diz que às vezes encontra homens que têm cheiro de medo, em Buenos Aires, em Paris ou em qualquer lugar, e sente que estes homens não são seus contemporâneos. Mas existe um chinês que há milhares de anos escreveu um poema, sobre um pastor de cabras que está longe, muito longe da mulher amada e mesmo assim pode escutar, no meio da noite, no meio da neve, o rumor do pente em seus cabelos; e lendo esse poema remoto, Juan comprova que sim, que eles sim, que esse poeta, esse pastor e essa mulher, esses são seus contemporâneos.”

Irrito-me com o “cheiro de medo” que sinto sair dos livros, das pinturas, das fotos, do politicamente correto. Irrito-me também com o escândalo fácil, com a polêmica estéril, com a vacuidade mental. Alguns anos atrás, assistindo ao ensaio de uma peça de teatro, depois da vigésima vez  que a atriz principal sugeriu tirar a própria roupa para “escandalizar a plateia”, eu propus que, ao invés de tirar, ela acrescentasse roupas – isso sim seria revolucionário. Não faz muito, ao comentar o texto de um autor contemporâneo, afirmei ter sentido o fedor do medo na hora em que ele hesitou antes que o seu personagem principal abusasse da filha (era a solução lógica, e colocar um Deus ex-machina para policiar a narrativa foi uma solução covarde). Esses daí não são meus contemporâneos.

Em compensação, às vezes encontro contemporâneos que viveram em outras épocas, e com eles sinto não somente respeito, mas também identificação. Não nas suas temáticas, e sim no espírito de se arrojarem sem medo contra as fileiras do correto, do óbvio, do clichê, do pensamento amedrontado.

Nos últimos tempos, é absoluto o meu fascínio por Octave Tassaert (1800-1874). Assim como no poema de Fernando Pessoa, ele foi aquele que perdeu todas as lutas em que entrou. A começar, na sua carreira de pintor. Mesmo com um trabalho consistente e sério, os temas sociais ou eróticos que escolhia para as suas obras faziam com que os críticos mantivessem silêncio sobre elas, fingindo que não existiam. Nunca ganhou um prêmio sequer.

Octave Tassaert – “Os abandonados”

Como não conseguia se sustentar com as pinturas, Tassaert assumiu a profissão de ilustrador para os periódicos franceses. Passou anos comendo o pão que o diabo amassou, mas nunca deixou de pintar, esperando o reconhecimento do público e da crítica. Ao invés de mudar, esperou o mundo mudar. E não é que aconteceu? Os críticos do Salão de Arte do ano de 1855 saudaram as suas obras, reconhecendo valor estético nelas. Alexandre Dumas Filho comprou alguns dos quadros. Tassaert tornou-se 0 símbolo de uma nova época e de uma nova visão artística.

Longe de ficar satisfeito com essa conquista, Tassaert entrou em depressão. Passara muito tempo esperando o reconhecimento, e ele chegava somente agora, no final da sua vida, depois de muitas provações, necessidades e sofrimento. Agora que era inútil, pois ele estava quase cego.

Octave Tassaert – “Uma família desafortunada ou a suicida”

Em 1863, o pintor vendeu todos os seus quadros para um marchand, livrando-se deles. Estava adoentado e com a vista muito fraca, e não podia mais pintar, motivo pelo qual se tornou um alcoólatra. Existem alguns relatos de pessoas que viram o pintor se arrastando pelas ruas, a sombra pálida de um artista. Em 1865 começou a escrever poesia, mas suas obras acabaram se perdendo com o tempo.

Para não dizerem que esse blog não trata de assuntos importantes, um alerta sobre as vantagens do sexo seguro vindo diretamente de mais de 150 anos atrás, antes mesmo de existirem camisinhas:

Octave Tassaert – “A amante cautelosa”

Estava praticamente cego e pobre quando, em 1874, cerrou-se no seu quarto e cometeu suicídio, asfixiando-se com dióxido de carbono.

Nos anos seguintes, Gauguin e Van Gogh manifestaram a sua admiração por Tassaert. Van Gogh, em carta enviada para Theo em janeiro de 1886, disse que Tassaert pintava de maneira “maravilhosamente audaciosa”, com uma “perfeita representação do corpo feminino”, cujas mulheres ostentavam semblantes “com expressões apaixonadas”.

Octave Tassaert tornou-se famoso pelos seus quadros que demonstravam a voluptuosidade da vida e a própria paixão. A obra mais representativa é “A mulher amaldiçoada”,  uma ode à liberdade feminina e ao prazer sem limites:

Octave Tassaert – “A mulher amaldiçoada”

Mesmo fazendo uma arte depreciada pela crítica, Octave Tassaert passou anos insistindo na mesma tecla até que viu seus esforços reconhecidos. Ele esperou o mundo entrar na sua verdade, não tentou se ajustar ao discurso artístico dos demais da sua época. Infelizmente não tinha mais vontade de lutar e de aproveitar os louros da glória, então acabou se deprimindo. Perdeu a visão e a vida, mas nunca perdeu a sua arte de vista – nunca deixou de ser honesto e sincero consigo mesmo. Nunca sentiu medo. Nunca precisou fazer concessões para ser aceito.

É isso o que desejo dizer quando sinto o “cheiro do medo” nos meus contemporâneos, e não me identifico com eles. Não sei qual o momento em que todos passaram não a suscitar opiniões alheias, mas a temê-las. Buscar o conforto comodista ao invés de manifestar uma visão de mundo. Torna-se cada vez mais importante a frase de Frank Miller em “Demolidor – o homem sem medo”: “um homem sem esperança é um homem sem medo”. Então, deixai a esperança de felicidade, ó vós que desejais serem contemporâneos.

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Obras Inquietas – 39. “A Vida e a Morte” (1916), Gustav Klimt

Nessa semana na minha coluna Obras Inquietas, no Artrianon, tive a oportunidade de falar de um dos pintores que mais admiro: Gustav Klimt. Em “A Vida e a Morte”, Klimt deixa de lado as mulheres etéreas ou as paisagens vagas e trata, de forma simbólica, da relação entre uma vida que insiste em preservar aquilo que temos, na forma de um abraço carinhoso, e uma morte que espreita ao redor, ansiosa para terminar com aquela unidade. Curiosamente, muitos críticos consideram-no uma pintura otimista, afirmando que os seres humanos dormem ao lado de sombra tão nefasta por que estariam a desprezando. Eu não penso assim: para mim, a morte é quase como um tigre de tocaia em torno de um acampamento, esperando pacientemente que alguém se distraia para, então, atacar com ferocidade.

Boa leitura!

“A Vida e a Morte” (1916), Gustav Klimt

Enquanto estivermos juntos, estamos protegidos. Basta ficarmos abraçados, protegidos sob a luz e em meio ao conforto cálido do nosso contato, e nada de ruim vai acontecer. Podemos sentir a adversária à espreita, rondando o círculo de proteção em que estamos, ela e a sua caveira sem alma, ela e seus dentes gélidos que nunca sorriem. Basta um segundo de distração, um momento em que tentamos avançar além do seguro, para que o porrete da inimiga desça e acabe com o nosso sonho. Então, só podemos ficar sempre juntos, homens, mulheres e crianças, e dizer que a noite não existe longe do nosso abraço, que a morte não nos espera faminta, que podemos ser felizes enquanto existir luz, enquanto existir cor. Mas não nos iludamos: o bafo pútrido dela cerca o mundo, cobiçando a chama dos nossos olhares, a candura dos nossos amores, ansiosa para nos tocar com os seus dedos repletos de escuridão. Passamos a existência toda tentando evitá-la, mas ela sabe que, mais dia ou menos dia, iremos nos distrair – todos se distraem, seja atravessando uma rua, seja subestimando a pessoa errada – e, neste momento, ela ceifará a nossa vida com toda a fúria que a inveja lhe proporciona. Ela está sempre vigilante e nunca descansa, andando em círculo em torno da pequena esfera de felicidade que ousamos criar. Ela sabe que a felicidade é efêmera e o fim inevitável; um dia, iremos sair do abraço que nos protege e entrar no seu manto sombrio. Tudo é passageiro, menos a paciência da morte, e ela segue esperando o instante em que os nossos entes amados irão se distrair para, então, plantar a dor no seio da nossa – tão rápida, tão cintilante – alegria e se deliciar, vendo desmoronar o mundo perfeito que cuidadosamente criamos ao nosso redor. Aproveite os dias de sol hoje, pois eles irão acabar, e somente o pântano da recordação irá nos lembrar da época em que éramos felizes e não sabíamos. Enquanto dormimos o sono dos inocentes, a morte nos contempla – e espera.

Texto originalmente publicado no link https://artrianon.com/2017/07/23/obras-inquietas-39-a-vida-e-a-morte-1916-gustav-klimt/

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Obras Inquietas – 38. “Finis – O Fim de todas as coisas” (1887), Maximilian Pirner

Na minha coluna dessa semana no “Obras Inquietas”, escrevi sobre um quadro tão repleto de simbolismos que não foi decifrado até os dias atuais. Em “Finis – O Fim de todas as coisas”, o artista tcheco Maximilian Pirner deu a sua versão para o que acontecerá no fim do mundo, e fez de maneira tão misteriosa e criptografada que não conseguimos compreender nada – apesar de estranhamente entendermos o que está na imagem em um nível que faltam palavras para descrever. O melhor lugar para esconder uma folha seca é no meio de um bosque, e o melhor lugar para ocultar algo é colocar o mais próximo possível dos olhos alheios.

Um quadro que, passados 130 anos, não só não entendemos, como inclusive nos recusamos a falar a respeito – um quadro quase invisível, com exceção do detalhe que ele existe. Há algo mais inquietante do que isso, obras de arte que não conseguimos ver e que andam impunes por aí?

Boa leitura.

“Finis – O Fim de todas as coisas”, Maximiliam Pirner

Existem mistérios que não conseguimos responder, e a nossa cegueira seletiva sempre impressiona: vemos aquilo que está diante dos olhos, mas somos incapazes de perceber os infernos que nos espreitam se dermos um passo para o lado errado, se virarmos a esquina inesperada, se encararmos os olhos de um gato sem o medo de enlouquecer. Quando o pintor abandonou o quadro, o fez com um suspiro de dor: de qual incômodo abismo surgira aquela imagem, de qual subterrâneo oculto da sua alma emergira tamanho delírio? Não soube responder, e isso lhe inquietou. Por segundos a arte tocara na fímbria do Universo, e o seu espírito mais sentiu do que viu o último segundo: o fim da raça humana, do sonho, do sexo, da unânime noite, da pergunta que não fazemos, dos medos e das angústias que arrastamos por todos os lados. Na pintura, as imagens pediam para serem decifradas, e a sua simplicidade perturbava por serem mais próximas do que imaginava: os corpos desmaiados no chão ainda recendiam a uma orgia impregnada de desvarios. Na tumba, o anjo tocava a lira, ameaçado pela Morte e por sua silhueta faminta. Aos pés do improvisado altar, uma medusa chorava, lançando um olhar de desespero à procura de uma salvação que não viria. Codificado no interior de um quadro, escondido por trás de camadas de símbolos, de corredores, de neblinas e de falsas respostas, encontrava-se tudo o que precisávamos saber sobre o Fim. Impossível não ver o quadro e não reconhecer que existe um segredo a deslizar, escorreito como uma serpente, por trás das tintas, ansioso para ser descoberto, debochando da nossa sanidade. Impossível não estremecer ao pensar que, nesse exato momento, em uma galeria de arte tcheca, existe um quadro que contém o fim do Universo à espera de um salvador, e não conseguimos entender, pois não entendemos nada, nunca entendemos nada – em especial o que está na frente dos olhos.

Texto originalmente publicado no link https://artrianon.com/2017/07/09/obras-inquietas-38-finis-o-fim-de-todas-as-coisas-1887-maximilian-pirner/

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Dois cadáveres frente a frente

Alguns dias atrás, o Canadá descriminalizou o duelo. A partir de agora, está legalmente aceito em terras canadenses o uso de duelos para arbitrar conflitos de uma maneira civilizada. Mas não nos empolguemos: na realidade, a legislação já existia. A circunstância dela não ter sido revogada em uma recente alteração legislativa no Canadá levou a concluir que os duelos ainda seriam possíveis, acaso preenchidos os requisitos legais. Mais detalhes estão nesse link: http://mundoestranho.abril.com.br/blog/contando-ninguem-acredita/com-reforma-no-codigo-penal-canada-descriminaliza-o-duelo/

Sempre senti uma forte atração por narrativas envolvendo duelos. Gosto da ideia de uma desavença entre duas pessoas ser resolvida de maneira civilizada entre somente ambas, sem envolver multidões. Em um mundo repleto de insignificâncias e de pessoas atacando e difamando pelas costas, soa quase utópica a ideia de homens e mulheres resolvendo eventuais problemas através de uma luta justa que limpe a honra com sangue.

Como não lembrar de “O duelo”, magistral conto de Tchekhov? Ou de “Duelo”, escrito por Guimarães Rosa? Também é possível citar “Os duelistas”, de Joseph Conrad – aliás, considerei o livro mais intenso do que o filme de Ridley Scott. Contudo, minha memória literária está afetivamente ligada a uma obra menor de Alexandre Dumas, “Os irmãos corsos“. Foi um livro que li quando era pequeno, e ainda me recordo a história dos irmãos gêmeos que conseguem sentir as dores e sofrimentos um do outro à distância. Quando um deles, o mais fraco e despreparado militarmente, morre em um duelo por causa de uma mulher, o outro vai vingá-lo em um novo duelo, fiel às tradições da Córsega. É uma história muito bonita, de amor de irmãos, de honra, de luto expiado pelo sangue. Esse livro vive nas prateleiras da minha memória, pois nunca mais o encontrei nas bibliotecas do mundo.

“Duelo depois de um baile de mascarados”, de Jean-Léon Gérôme

(Nesse momento abro um parênteses para lembrar o nome do pior duelista de todos os tempos, o nosso Euclides da Cunha, que pegou um militar com a sua mulher na cama e errou dois tiros, dando tempo para o homem desnudo pegar a própria pistola e matá-lo).

Entre os escritores, o maior duelista de todos foi o russo Aleksandr Pushkin, autor do incrível “Eugene Onegin” e, na minha opinião, o maior escritor russo que já existiu (e olhem que a concorrência é pesada). Gosto muito da história do duelo em que ele deixou o adversário desconcertado quando comeu cerejas sob a mira da pistola. Contei isso no texto que está no link http://wp.me/p24M2p-Ld , e aconselho que todos leiam como um modelo de comportamento digno diante da morte.

Pushkin era um homem que se irritava com facilidade. Durante a sua curta vida, ele convidou 20 desafetos para duelos – e recebeu convites para duelar de outros sete homens. Um homem bem esquentado. O primeiro adversário que convidou para duelar foi o próprio tio, quando ele tinha 17 anos: o tio roubou a mulher com quem ele estava dançando em uma festa, e isso foi o estopim para a briga, a qual não foi levada às últimas consequências, com os dois fazendo as pazes.

Grande parte das contendas do escritor russo foram evitadas por seus amigos, que negociaram essas questões de honra antes de chegarem até o final. Não surpreende que tenha morrido por causa de um dos duelos que foi impossível negociar. Detalhe interessante é que Pushkin nunca deu o primeiro tiro nos duelos de que efetivamente participou, ou seja, nunca ganhou um mísero cara e coroa para ver quem disparava primeiro.

Pushkin teve muito azar no seu último duelo, realizado contra Georges D’Anthès, que teria sido publicamente apontado como amante da esposa de Pushkin, a famosa Natalia Gontcharova. Dessa vez o escritor pegou pela frente um atirador experiente, e os dois não observaram a distância regulamentar de 25 a 30 passos de distância para o disparo, combinando somente 10 passos. O escritor foi atingido no estômago mas, antes de cair, ainda alvejou o adversário na mão. Mesmo agonizando no hospital, preocupou-se com o destino de D’Anthès, perdoando-lhe e pedindo para que o czar Nicolau não condenasse o seu adversário à morte (duelos eram proibidos na Rússia, e esse foi realizado de forma ilegal).

“Pushkin se despede do mar”, de Ivan Aivazovski

Existiu honra no comportamento de Aleksandr Pushkin. Estava com um problema com outro homem e, ao invés de fazer uma campanha de difamação ou de xingá-lo pelas costas (ou até responsabilizar a mulher pela traição, algo que somente covardes fazem), decidiu resolver a desavença frente a frente. No mundo atual, estamos tão acostumados a ver pessoas evitando os seus problemas e preferindo culpar os outros que até parece difícil de entender que a melhor maneira de resolver uma divergência é encarando a própria fonte causadora para chegar a uma resolução.

As situações seriam muito mais simples se, ao invés de perdermos tempo envolvendo outras pessoas nos nossos próprios dramas, tentássemos resolvê-los sozinhos. Mais e mais me convenço do fato de que sou o artífice do meu destino e, quanto menos gente se envolver nos meus conflitos, melhor será para todos. Nesse sentido, oportuno lembrar o pequeno conto do escritor argentino Rodolfo Walsh, cuja lição é muito atual: quando enfrentamos o nosso problema sem interferências de outras pessoas, existem somente dois cadáveres na sala – o meu e o outro. É dessa maneira que pessoas de valor resolvem seus problemas, frente a frente, confiantes nas suas habilidades e sabendo que, mesmo derrotados, ainda assim tinham razão na sua causa.

Deixo aqui o pequeno conto de Walsh, traduzido por Sérgio Molina e Rubia Prates Goldoni:

 

A cólera de um plebeu

(autor chinês anônimo)

 

O rei do T’sin mandou dizer ao príncipe do Ngan-ling: “em troca de tua terra quero dar-te outras dez vezes maiores. Peço que acates minha demanda.” O príncipe respondeu: “Faz-me o rei uma grande honra e uma oferta vantajosa. Mas recebi minha terra de meus antepassados príncipes, e desejaria conservá-la até o fim. Não posso consentir nessa troca”.

O rei se zangou muito, e o príncipe mandou T’ang Tsu em embaixada. O rei disse ao embaixador: “O príncipe não quis trocar sua terra por outras dez vezes maiores. Se teu senhor ainda conserva seu pequeno feudo, quando já arrasei grandes países, é porque até agora o considerei um homem venerável e não me ocupei dele. Mas se ele agora recusa sua própria conveniência, realmente está zombando de mim”.

T’ang Tsu respondeu: “Não é isso. O príncipe quer conservar a herdade de seus avós. Ainda que lhe oferecêsseis um território vinte vezes maior, ele igualmente o recusaria”.

O rei se enfureceu e disse a T’ang Tsu: “Sabes o que é a cólera de um rei?”. “Não”, respondeu T’ang Tsu. “São milhões de cadáveres e o sangue correndo como um rio em mil léguas à roda”, disse o rei. T’ang Tsu então perguntou: “Sabe Vossa Majestade o que é a cólera de um simples plebeu?”. Disse o rei: “É perder as insígnias de sua dignidade e partir descalço golpeando o chão com a cabeça”. “Não”, respondeu T’ang Tsu, “essa é a cólera de um homem ordinário, não a de um homem de valor. Quando um homem de valor se vê obrigado a encolerizar-se, cadáveres aqui não há mais que dois, o sangue corre a apenas cinco passos. E, no entanto, a China inteira se veste de luto. Hoje chegou esse dia”.

E se levantou, desembainhando a espada.

O rei turbou-se, saudou humildemente e disse: “Mestre, volta a sentar-te. Para que chegar a isso? Já compreendi”.

Um último detalhe: adoro o final seco desse conto, em que o rei praticamente diz “meu jovem, qual a necessidade disso, senta aí e vamos conversar.”

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