Obras Inquietas: 28 – “Retrato de um coração” (2013), Christian Schloe

Nessa semana, na minha coluna no “Obras Inquietas”, eu cedi à arte digital (também posso ser moderno, não?) e falei sobre “Retrato de um coração” (2013), do austríaco Christian Schloe, que se especializou em mostrar mulheres e seu mundo interno de uma forma poética, mas ainda assim brutal.

No caso da pintura que escolhi, é uma metáfora para o amor morto, cujas brasas continuam queimando mesmo depois que ele já se foi.

Boa leitura.

 

 

Queima como o inferno. Por mais que você tente esquecer, não consegue: está ali, uma chaga viva, cada mínima memória despertando novas dores e ressuscitando as chamas dos gestos não realizados. Tenta pensar em outra coisa, mas a imagem do ente amado insiste em acompanhar os seus passos. Cada mínimo som, cada cheiro mais almiscarado, cada risada surpreendida em um canto do apartamento basta para trazer à tona a ausência tão presente de quem se foi, e isso faz o coração queimar com insuspeitada ardência. Você sufoca em silêncio, e tudo o que gostaria de fazer é mergulhar no poço de lava de recordações que dilacera o seu peito, mas o mundo continua girando ao seu redor, e o tempo vira um amálgama de sensações indefinidas, uma ninfa sombria que tortura os seus pensamentos. Devastado, o sentimento se despedaça em um mar de cinzas incandescentes que insistem em lhe perseguir como milhares de lâminas quentes que se cravam em cada segundo do seu dia, lembrando: você perdeu o amor da sua vida. Pode ser que existam outros amores no futuro, mas, naquele momento de perda, o seu coração triturado jura que é a última pessoa que você amou e que irá lhe amar da mesma maneira (tem razão, pois não existem dois sentimentos iguais). Nunca mais ninguém lhe beijará da mesma forma; nunca mais o corpo da outra será seu. Saber disso lhe machuca mais do que qualquer outra chibata. O coração queima, vulcão que se imaginava pacificado, mas, na verdade, só irrompe quando explode na dor do irremediavelmente perdido. O coração queima em um enterro viking dentro do seu peito, juntando todas as efígies e sonhos de quem um dia lhe amou, e o ar falta, e o mundo encolhe ao redor, e a pessoa que você foi queima junto; a inocência dos sentimentos vai aos poucos se corroendo, até que só resta um animal escorreito, uma criatura sem alma, outro ser que desaprendeu a amar.

Texto originalmente publicado no link https://artrianon.com/2017/04/16/obras-inquietas-28-retrato-de-um-coracao-2013-christian-schloe/

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“Variações de Casanova”, ou como um cavalheiro deveria responder a essa questão?

Quando estou em dor, é na escrita que acalmo minhas turbulências e pacifico o pensamento. Então, perdoem-me a divagação em momento tão impróprio, mas faz parte do meu procedimento de luto, e 2017 tem sido um ano – pelo menos para mim – bafejado pela morte, que está caminhando mais próxima do que eu gostaria. Quanto mais perto ela chega, mais eu falo da vida.

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Ontem fui assistir a um filme, “Variações de Casanova” (2014). Quem me conhece sabe da minha predileção por filmes que versam sobre assuntos literários, em especial personagens e autores, e Giacomo Casanova (1725-1798) sempre me interessou. Ele teve uma vida muito intensa. Foi uma pessoa que se descolou de tal forma da realidade que acabou virando personagem ficcional. Escreveu mais de 28 diários descrevendo as suas aventuras e proezas sexuais. Aquilo que o Marquês de Sade fazia com uma sexualidade violenta, Casanova conseguia através do dom da sedução. Tão forte era a lenda de Casanova que, por muitos anos, se acreditou que ele virou uma espécie de Judeu Errante, um homem que aparecia nas cidades, causava uma onda de seduções e ia embora, deixando no seu rastro várias donzelas grávidas.

Logo na entrada do cinema, a bilheteira me estendeu o ingresso e disse “tomara que o senhor não durma” – um comentário nada auspicioso. A sala estava relativamente vazia – além de mim, mais seis espectadores – e um fato que posso garantir é que todos os seis odiaram o filme. Antes mesmo dele acabar, três pessoas tinham ido embora, e as outras foram embora assim que a luz acendeu.

Por meu lado, gostei bastante. Não tenho essas veleidades de gostar de algo pelo simples prazer de ser do contra, mas apreciei o alto desafio a que o roteiro se propôs. Se teve sucesso em transmitir a intenção é um outro caso, mas a proposta ficcional era ambiciosa: por meio de uma colagem de ficção, história e realidade, “Variações de Casanova” apresentaria trechos do livro “Memórias de Casanova”, dos filmes “Casanova” feito por Ettora Scola e da versão de Fellini para o mesmo personagem, além de músicas das óperas de Mozart  e citações ao filme “Quero ser John Malkovich”. Tudo dentro do espaço dramático por excelência, o Teatro São Carlos, em Lisboa.

Então, é uma peça de teatro que intercala óperas, que intercala literatura, que intercala realidade, que intercala cinema… tudo misturado e em alternância. Muito pós-moderno, muito contemporâneo. Normalmente acho imposições criativas esses voos estilísticos (no estilo de “qual é a necessidade de tanta estrutura para contar uma simples história?”), para não dizer que parecem exercícios de presunção intertextual do autor, mas, dessa vez, foi algo feito com tamanha habilidade que pareceu natural. A única maneira de mostrar um personagem como Casanova, tão multifacetado entre realidade e ficção, é sendo igualmente multifacetado. Nunca vemos o personagem por completo, somente aquilo que queremos ver.

Na interpretação de John Malkovich e de outros atores – um deles é inclusive uma atriz -, Giacomo Casanova é mais do que um personagem unidimensional que só deseja transar com todas as mulheres, mas alguém usando palavras para seduzir todos, não interessa se homens ou mulheres. É um escritor por natureza – ou um mentiroso, como fazem questão de frisar. Ele está preso em um papel eterno da qual não consegue se desvencilhar: o de sedutor. É algo a que ele se submete às vezes com cansaço, como afirma no seu livro: “Se há um aspecto que possa redimir alguém por seduzir virgens ingênuas é que, dessa forma, as estará salvando de um destino pior, tratando-as de maneira mais gentil do que a maioria, como parceiras sexuais no mesmo nível, e que a partir daí elas usariam seus conhecimentos sobre os homens. Fora isso, seria realmente deselegante recusar suas carícias a uma menina que vem até sua cama para submeter-se a elas.”

Não à toa que, em algumas ocasiões, a mesma frase é repetida por diferentes Casanovas: o importante não é realizar algo sempre igual, mas as variações. Todas as seduções são diferentes entre si, não existem duas iguais, e a capacidade de variar é mais atraente do que a existência de uma fórmula fixa. Casanova está mais interessado pelas variações da sedução do que eme stabelecer um vínculo formal. Recordei de um conto do meu primeiro livro, “O homem despedaçado”, e que tem por título“Várias variantes variáveis variam com variações invariáveis”. Quanto mais tentamos variar, mais caímos em um lugar comum: a própria variação. Assim, a variação é uma armadilha pois, dentro de qualquer mínimo ato, existem múltiplas variações que o esgotam. Pensar isso ao extremo esgota o conceito de criatividade, e a transforma em uma variação presa dentro de outra, e ambas presas dentro de outra, e assim por diante. Assim, estamos eximidos do fardo de sermos sempre criativos quando aceitamos que a criatividade é somente uma pequena faceta de livre espírito enfadonhamente prevista no interior de outras.

Tão preso Casanova estava ao destino de sedutor nato que, quando a própria filha o requisitou para um caso amoroso, ele deixou a ideia de incesto de lado e cedeu à sedução. Outra ideia muito bem explorada no filme e que está na base de “Memórias de Casanova”: a noção de liberdade. Para o autor veneziano, o homem sempre tem o espírito livre e, quanto mais fiel for à sua natureza, maior será a sua capacidade de experimentar tal liberdade. Assim, não existe casamento, convenção social, religião ou governo que submeta um homem. Nas suas palavras, “vou começar com esta confissão: o que tenho feito no curso da minha vida, quer seja bom ou mal, foi feito livremente, pois sou um agente livre.” Observem que, para Casanova, não existe certo ou errado, moralidade ou ética. Somente a liberdade traça os seus limites, o que o exime de qualquer culpa. Um pensamento muito semelhante ao do Marquês de Sade, mas, nesse caso, foi usado de forma diferente.

Um filme muito c0mplexo, o que explica a dificuldade de conexão dos espectadores com a história. No palco, John Malkovich interpreta o papel de Casanova. Cai, aparentemente fulminado por um ataque cardíaco, e o drama é tão pungente que os funcionários do teatro correm procurando um médico. Na plateia, uma espectadora vai até o palco, identificando-se como médica. John Malkovich levanta-se, rindo, pois era parte da encenação. Casanova fez de conta que sofreu um ataque cardíaco e a espectadora achou que o homem John Malkovich estivesse morrendo, e essa cena ilustra o quanto os limites entre ficção e realidade estão borrados. Em seguida, o filme muda para o passado, em que o Casanova dito real (ou representado) está preso em uma casa onde as serviçais passam o dia inteiro inventando tormentos psicológicos para ele. Casanova sequer possui mais um nome: inventou tantas peles e pretextos que até o seu nome é uma mentira.

Uma das cenas mais interessantes é quando, no palco de teatro, descem inúmeros espelhos do teto, e todos os Casanovas (o Casanova  da ópera, o do teatro, o do cinema, o real) interagem com todas as Elisas von der Heck, com os espelhos multiplicando as imagens enquanto Casanova brinda, se embebeda e entra em briga corporal entre as suas várias identidades. Uma cena que diz muito sobre a capacidade de fragmentação de qualquer pessoa; estamos sempre em luta contra os outros eus que nos habitam. Nem todos nós somos Fernando pessoa, que conseguiu se dividir em vários.

Por fim, a idêntica pergunta repetida em inúmeros contextos: como um cavalheiro deveria responder a essa questão? Aliás, uma pergunta boa para inúmeras oportunidades do cotidiano em que vivemos.

Na primeira vez, na realidade, Elisa pergunta se é verdade que ele dormiu com a própria filha, e Casanova pergunta “como um cavalheiro deveria responder a essa questão?“. Presume-se que a pergunta é tão abominável que alguém educado não poderia sequer responder. Na segunda ocasião, no segmento da ópera, uma mulher pergunta a quantidade de conquistas amorosas de Casanova, e ele responde com a mesma pergunta, mas o seu sorriso é de vitória, como se a resposta não importasse – ou o valor apontado, 1.003, estivesse defasado.

Na terceira vez, a médica do mundo real que foi socorrer o ator aproveita um momento de interlúdio da peça e pergunta para John Malkovich se é ele é gay ou não. Quando vem a resposta, “como um cavalheiro deveria responder a essa questão?”, percebe-se que o ator desconversou habilmente para não fechar a questão com uma resposta definitiva. Na derradeira ocasião em que Casanova é confrontado, dessa vez durante a peça de teatro, a atriz que interpreta uma criada pergunta se é verdade que John Malkovich (o homem) dormiu com mais de 1.000 mulheres. Quando ele dá a resposta, a mulher sente-se seduzida pela sua discrição, e os dois arranjam um encontro somente com olhares. Responder perguntas com outras perguntas é uma estratégia muito inteligente, e ver a maneira com que a mesma resposta pode ser ressignificada dependendo da intenção do falante foi algo instrutivo.

Não é um filme fácil, e tem uma proposta arrojada, à medida que Casanova se encontra com suas diferentes facetas em inúmeras representações artísticas. Falando em termos de roteiro, é um prodígio juntar tantas expressões de arte sob a mesma batuta e fazer cada uma funcionar em uníssono com as outras. Existem algumas falhas, é claro, mas nada que comprometa o projeto criativo exposto nas duas horas de filme. No meio da história, um momento de desconstrução, quando uma amiga de John Malkovich – para quem ele pediu que produzisse um filme chamado “Variações de Casanova”, em um momento metacinematográfico – vai visitá-lo no camarim e diz que não está gostando de nada, pois não entende o que está acontecendo, e essa foi a reação dos espectadores no meu mundo real. Creio inclusive ter escutado um aplauso tímido quando, na tela, a atriz externou o que estavam pensando na minha realidade de espectador de cinema.

Como eu gosto de filmes que escapam do convencional em termos de roteiro, achei interessante “Variações de Casanova” por demonstrar a tese do meu primeiro livro de contos: cada homem é formado por inúmeros homens que existiram ou não chegaram a surgir. Até mesmo Casanova, o mestre de todos os sedutores, um homem aprisionado pela sua própria fama. Isso explica outra frase recorrente dita por Casanova nos mais diferentes sotaques e acepções: “Eu preciso de variações, eu exijo variações”. É o que nos deixa vivos – a certeza de que sempre podemos fazer algo costumeiro de uma forma alternativa.

 

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Obras Inquietas – 26. “Adão e Eva lamentando a morte de Abel” (1818), Antonio Canova

Na minha coluna de duas semanas atrás no “Obras Inquietas” – esqueci de publicar aqui , acidentes acontecem -, eu falei de uma escultura em terracota de Antonio Canova, “Adão e Eva lamentando a morte de Abel” (1818). Para mim, essa escultura representa a dor que está além das palavras, além do corpo, além do mundo. A sensação de se desfazer em um mar de ácido desespero.

Boa leitura.

“Adão e Eva lamentando a morte de Abel” (1818), Antonio Canova

A dor. A dor incapaz de ser expressa em palavras. A dor que mora no nosso corpo, em estado adormecido, até o dia em que vem à tona e arrasta tudo de roldão. A dor daquilo que é irrecuperável e, agora, se perdeu para sempre. A dor do sorriso que nunca mais veremos, do cheiro que começa a desaparecer assim que a morte toma posse do corpo, do brilho mortiço que se adonou dos olhos até então repletos de vivacidade. A dor de continuar vivo em um mundo no qual o ser amado não está mais. A dor que desfaz o corpo em uma onda de desespero que nunca mais cessará. A dor daqueles que foram privados da voz. Ela nunca acaba, a dor. Só em alguns instantes fugazes da vida conseguimos esquecer de que a dor é o derradeiro destino possível da Humanidade, a única alternativa viável. Existir é desfiar um rosário quase infinito de dores que se escondem em cada recanto, ansiosas por nos engolfar. A dor do arrependimento: tantas maneiras de evitar aquela dor, tantos avisos de que ela iria acontecer, e não percebemos nada. Fomos cegos ao que estava acontecendo e, se hoje nos lamentamos, foi por que fizemos por merecer. A agonia de perder não somente um filho, mas dois – de perder tudo aquilo que foi arduamente conquistado em um único gesto, em uma pedra só. O homem leva o braço do filho assassinado até o peito, esperando que um pouco da sua vida passe para ele, mas nada acontece; no chão, a mulher enlaça a cabeça arrebentada, o rosto tentando reter o calor do corpo sem vida, mas nada acontece. Desesperados demais para conseguirem chorar ou gritar, o casal sente-se sufocar diante da presença maligna do Deus que conseguiu, enfim, a sua vingança, mostrando que, se da terra viemos, é para ela que um dia iremos voltar.

Texto originalmente publicado no link https://artrianon.com/2017/03/26/obras-inquietas-26-adao-e-eva-lamentando-a-morte-de-abel-1818-antonio-canova/

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A felicidade de viver no mesmo mundo em que Tolstói esteve

Cansados dos homens medíocres que nos rodeiam e de seus pensamentos mesquinhos, ínfimos, ridículos? Também estou. Pois bem, então vamos falar de quando lendas caminhavam pela Terra.

Estou lendo a autobiografia de Constantino Stanislavski, “Minha vida na arte”, e quase não consigo sair da cadeira, de tão eletrizante a leitura. Em primeiro lugar pelo estilo: Stanislavski elenca fatos e maravilhas em um ritmo fluido que deixa impossível não mergulhar nas suas vicissitudes, seguindo uma trajetória que atravessou dois séculos e mudou a História do Teatro. Ele é o criador do Sistema Stanislavski de interpretação que, em um resumo grosseiro, afirma que o ator deve interpretar um personagem através de ações físicas que refletem o espírito do papel, usando a sua própria imaginação e vida para ficar o mais próximo possível da verdade, não da representação. O sistema explica os procedimentos de imersão dos atores não só no texto da peça, mas na época, na sociedade, na vida do autor da peça, na sua própria vida, em tudo.

Em segundo lugar, Stanislavski conheceu algumas das maiores mentes da sua época. Entre os homens e mulheres com quem conviveu, pode-se listar Ivan Turgueniev, Leon Tolstói, Anton Tchekhov, Isadora Duncan, Máximo Gorki, Henrik Ibsen, As suas indiscrições e comentários sobre essas fascinantes pessoas estão dispostas de forma tão natural que as risadas surgem de maneira natural, incontida.

Constantino Stanislavski

No entanto, o encontro com Leon Tolstói foi especialmente marcante, tanto que há alguns dias só consigo pensar nele.

Logo no início, o momento em que Constantino Stanislavski pela primeira vez esteve diante do autor de “Guerra e Paz”:

“Um dia, andava tudo ali em polvorosa, quando surge à porta, de repente, a figura imponente de um homem vestido de camponês. Aquele velho de longas barbas brancas, botas de feltro, blusa cinzenta e cinto de couro, entra na sala de jantar, onde o recebem dando gritos de alegria. Custei um pouco a perceber que era Leon Tostói em pessoa: fotografia nenhuma, retrato nenhum poderia representar exatamente a expressão daquele rosto, e sobretudo daqueles olhos, a um tempo agudos e penetrantes, doces e risonhos! Quando Tolstói fixava o olhar em alguém, ficava imóvel, concentrado, como se tentasse aspirar na alma do outro tudo que nela havia de bom ou de mau. Depois, os olhos de Tolstói escondiam-se sob as sobrancelhas, como o sol por trás das nuvens. E se acaso respondia ao gracejo de uma criança, um riso encantador iluminava-lhe a fisionomia. E os olhos, emergindo das espessas sobrancelhas, rebrilhavam de alegria. Às observações de qualquer pessoa, Tolstói reagia imediatamente. E esse entusiasmo, essa vivacidade juvenil, acendia-lhe no olhar centenas de gênio.

(…)

Quando lhe fomos apresentados, ele segurou na sua a mão de cada um de nós, apoiando longamente o olhar no nosso. Eu tive a perfeita impressão de estar sendo atravessado por uma seta.

Esse encontro inesperado desnorteou-me, a ponto de tirar-me a consciência do que se passava em mim e em torno a mim. E quem sabe em que conta os russos tinham Leon Nicolaevitch, disso não se espantará.

Enquanto ele vivia, dizíamos ‘que felicidade viver na época de Tolstói!’. E quando nos sentíamos tristes, impressionados pela maldade dos homens, a ideia de existir lá longe, em Iasnaia-Poliana, um Tolstói, nos consolava e nos reanimava.”

Qual homem ou mulher atual de quem podemos dizer o mesmo, “que felicidade viver na época de Fulano ou Beltrana!” A nossa decadência mede-se pela incapacidade de escolhermos modelos de conduta. Tolstói funcionava não só como um escritor, mas era o farol e baluarte ético da sua época e de todo um país. Quanta responsabilidade estava sobre os seus ombros! Claro que existem revisões atuais do papel de Tolstói, mas ninguém viveu a época com a mesma intensidade que Stanislavski, e o fato dele reconhecer que, mais do que um escritor, a aura de Tolstói impunha-se sobre o ambiente e caía como um manto protetivo sobre o país diz muito a respeito da fraqueza moral que assola os países da atualidade, que trocaram modelos de vida pelos grasnados enganosos da publicidade.

Também gosto de ver a percepção de Stanislavski: Tolstói observava o mundo com tamanha intensidade que parecia atravessá-lo através do olhar. É algo que falo sobre a criação literária. O importante nem é escrever ou o domínio das técnicas, mas saber observar o mundo com intensidade, percebendo que tudo tem um significado e, se determos os sentidos por tempo suficiente, é possível extrair uma história de qualquer coisa.

Leon Tolstói

No jantar daquela noite, o encenador russo continuou passando vergonha. Na cabeceira da mesa, o anfitrião perguntou qual era a peça que seria representada em Toula, e Stanislavski esqueceu por completo o nome. Alguém avisou que era um trabalho de Ostrovski, que Tolstói confessou não conhecer, pedindo para que lhe contassem o enredo. De novo Stanislavski bloqueou diante do olhar quente do grande escritor, sendo incapaz de resumir o enredo da peça que seria encenada. Tolstói se divertiu bastante com as atrapalhações do convidado.

No meio do jantar, o maior autor russo pediu para que Stanislavski tirasse “O poder das trevas” da censura, encenando-a em Moscou. A solicitação foi recebida com tamanho entusiasmo que, ali mesmo, na sala de jantar, a trupe de Stanislavski distribuiu entre si os papéis da peça, fazendo um ensaio geral diante de Tolstói.

No calor do momento, os atores perceberam que o final do quarto ato interrompia a ação justo no seu ponto culminante e, aproveitando a presença de Leon Tolstói no recinto, pediram para que ele “corrigisse” aquele problema. Na mesma hora se calaram, percebendo a loucura do que estavam pedindo. Tolstói riu e respondeu:

– Bom… Expliquem-me por escrito como acham que devo fazer a ligação das cenas no quarto ato, que eu torno a escrever a peça de acordo com as suas indicações.

Ao perceber a perturbação que essa frase gerou no ambiente – quem eles pensavam que eram para corrigir justo Tolstói? – o escritor russo os tranquilizou:

– Acreditem, vocês me prestariam um grande favor. Vocês são especialistas.

Ainda assim, o desconforto continuou, e a peça – após ser liberada pela censura – foi encenada com o defeito no quarto ato. Muitos anos se passaram até o dia em que Constantino Stanislavski recebeu uma carta de Leon Tolstói pedindo uma reunião. Foi ao encontro do escritor na sua casa em Moscou. Para seu espanto, mal tinha entrado e Tolstói anunciou que assistira várias encenações de “O poder das trevas” e, sim, o quarto ato estava irremediavelmente errado. Ele precisava corrigir aquilo o quanto antes, pois o assunto era angustiante, e precisava da ajuda de Stanislavski.

Os dois estavam conversando, e deixarei Stanislavski assumir o controle da narrativa para compartilhar com o leitor a cena que se sucedeu:

Conversamos longamente. Encontrava-se por acaso na sala vizinha a mulher de Tolstói, Sofia Andreevna, que, como todos sabem, era ciumentíssima. Que estaria ela pensando daquele idiota, que se atrevia a criticar a peça e aconselhar o seu genial marido a modificá-la? Que desaforo! Que audácia inaudita! Tanto mais que ela não sabia o que se passara dantes, em Toula.

Não podendo mais conter-se, a senhora Tolstói precipita-se na saleta, dá-me um tapa e um valente empurrão. E ninguém sabe o que aconteceria se a filha do casal, Maria Lvovna, não entrasse e não procurasse acalmar a mãe. Quanto a Leon Tolstói, nem sequer se mexera, não saíra do seu lugar, nem dissera uma palavra em minha defesa. Limitara-se a puxar, o tempo todo, pela barba. Sofia Andreevna acabou indo embora. E ele, vendo-me ali de pé, envergonhado, sorriu amavelmente e disse-me:

– Não faça caso. Ela é mesmo muito nervosa.

Depois acrescentou, mudando de assunto:

– Vamos lá! Onde é mesmo que estávamos?”

Tolstói e Sofia

Esse pequeno drama familiar mascara o motivo pelo qual Leon Tolstói se tornou um dos maiores escritores que existiu no mundo: a capacidade de reconhecer que podia errar, e estar sempre disposto a aprender com quem entende mais. A reação de Sofia Andreevna foi um pouco extremada, mas, para o escritor, não importavam a mulher, o encenador, os conselhos pedidos, mas somente o fato de que a peça de teatro tinha um intolerável defeito que lhe comprometia por completo.

Existiu uma época em que pessoas de grande espírito como Tolstói andaram por esse mesmo chão que hoje tocamos. Pessoas dispostas a observar as virtudes e vícios do mundo e despi-lo com um olhar penetrante; pessoas dispostas a corrigirem seus erros a qualquer custo.

Que felicidade viver no mesmo mundo em que outrora Leon Tolstói esteve.

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Obras Inquietas: 27 – “Melancolia e mistério de uma rua” (1914), Giorgio de Chirico

No meu texto dessa semana no “Obras Inquietas”, lá no Artrianon, eu falei sobre “Melancolia e Mistério de uma Rua” (1914), quadro repleto de mistérios pintado por Giorgio de Chirico. Uma obra que inquieta por nos colocar na desconfortável posição de testemunhas – voyeurs – de um crime que pode estar acontecendo ou existir somente na nossa imaginação, e não sei qual das duas alternativas é pior.

Boa leitura.

 

“Melancolia e Mistério de uma Rua” (1914), Giorgio de Chirico

 

Na placidez dos eventos mais calmos existe um universo furioso de átomos e de intenções que se esboroam e lutam entre si, ansiosos por se revelarem ao mundo. Essa é a história de um crime: se vai acontecer ou não é irrelevante, pois ele existe somente na nossa expectativa. Podemos ser os assassinos, ou a vítima, ou os salvadores, e ter tais possibilidades nos transforma em indesejados voyeurs da cena que não deveríamos – ou preferíamos – ver. A menina brinca na rua; a sua solidão mede-se através do som dos passos amortecidos pela areia, a sábia areia que sorve sangue humano desde que o início, a indiferente areia que esconde segredos, cadáveres, sonhos. A sua infância tem o sabor doce de um futuro que não conseguimos ver, mas pode ser glorioso ou medíocre, assim como são todas as inocências antes de se transformarem em flores ou em medos. A rua inteira dorme, mas a tensão se esconde nas reentrâncias das paredes, nos bocejos dos arcos, no céu impregnado de azul que ondula em meio às nuvens invisíveis. Longe do olhar sonolento da rua, a sombra espreita a alegria da menina, cobiçando a vida que se esgueira por entre as esquinas. Não existem coincidências, e a carreta com portas abertas também espera o momento em que será acionada. Somente o tempo sabe o que vai acontecer naquela anônima rua que reconhecemos como a paisagem incômoda de um pesadelo sem fim; a rua continua dormindo, enquanto a criança corre, a sombra se angustia de expectativa e a carreta espera ser acionada. Os melhores mistérios são aqueles que não serão nunca resolvidos, sobrevivendo no campo exíguo da imaginação, equilibrando-se no vazio. A menina gira a roda e corre em direção ao destino que nunca saberemos qual é, mas a sombra no horizonte sabe – e espera com a sabedoria daqueles que estão mortos antes mesmo de nascerem.

Texto originalmente publicado em https://artrianon.com/2017/04/09/obras-inquietas-27-melancolia-e-misterio-de-uma-rua-1914-giorgio-de-chirico/

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Um conto para você, leitor e leitora do blog

Olá, leitor e leitora do blog.

Sim, você mesmo. Não olhe para trás, não estou falando com outra pessoa. Pois é, hoje vim falar com você mesmo. Rompi a barreira que separa autor do leitor, e resolvi deixar de ter um texto como intermediário para conversarmos de forma direta.

Em primeiro lugar, para pedir desculpas. Sou um blogueiro meio ingrato. Em geral não penso muito nos leitores. Às vezes, inclusive acho que não tenho nem seguidores e nem leitores, e que o WordPress brinca comigo criando visualizações para não me desanimar. Talvez o WordPress não queira me ver deprimido: “puxa, vou dar uma força para o cara, ele fez o texto com tanto esforço, merece umas visualizações e, voilá, eis 200 visualizações, Gustavo”. Parece muito verossímil. É um pouco difícil de acreditar que existem pessoas que leem meus longos textos! Então, se for isso, muito obrigado pela mentira, WordPress.

Aliás, o meu nível de ingratidão é tão grande que nem sei quantas visualizações tem esse blog. Sou ruim de números, e eles não me importam tanto, somente o texto. Mea culpa, mea maxima culpa: isso que dá escrever sem pensar em ser lido, às vezes a gente acaba sendo lido mesmo. Pois hoje descobri que tenho 95.367 visualizações – até esse momento. Pois é. Quase 100 mil vezes esse blog foi acessado. Se colocasse todas as pessoas deitadas em fila, se transformasse cada visualização em um barbante de 10 cm, se todas as pessoas estivessem em um estádio… não sei o que aconteceria. Como eu disse, não sou bom em números.

Falando em tamanho de textos… são grandes, não é? Sei disso por que, às vezes, alguns dos leitores do blog me mandam e-mails comoventes – quase súplicas – pedindo para que eu escreva menos, pois não possuem tempo para ler tudo. Ah, não foram poucas as pessoas que vaticinaram que esse blog não seria lido por causa da extensão dos textos, que o mundo pós-moderno não quer saber de textos longos e sim de memes, e outras previsões do tipo e…. bom, 95.367 acessos. Estavam errados. Podem não ser milhões de acessos como seria se eu falasse sobre celebridades televisivas ou fofocas políticas, mas também não é um número insignificante. E números nem importam tanto.

O mais impressionante foi notar hoje que tenho 340 seguidores! Poderia, em tese, começar uma religião. Ou, talvez, dar início a um povoado. Se conseguirmos treinamento militar, dá até para ocupar um país pequeno.

Passei os olhos pela lista de seguidores e percebi que, tirando a família e alguns amigos, em torno de 290 pessoas são amplamente desconhecidas. Não sei nem como chegaram aqui e começaram a me seguir. Para ser sincero, tenho até um pouco medo de saber. Pois a única explicação lógica é que essas 290 homens e mulheres estavam vagando pela internet, chegaram – por caminhos desconhecidos – a esse blog, gostaram do que leram e resolveram ficar. Se isso for verdade, é tão incrível que nem sei o que dizer.

Aliás, esses 290 seguidores sequer me conhecem ou sabem como sou. Alguns deles são de outros países (é isso ou os hoaxes andam cada vez mais criativos). Por isso, deixem eu mostrar quem sou:

Esse sou eu. Muito prazer a todos. Se algum dia me verem passando por aí, por favor, digam que me leiam e vamos conversar e trocar ideias.

Acredito que boa parte de vocês desconfia, mas também sou escritor. Bom, sou muitas coisas, nem todas dizíveis em horário nobre, mas escritor também. Escrevi um livro de contos, “O homem despedaçado” (isso mesmo, o nome do blog), e agora está saindo o segundo livro de contos, “Não há amanhã”. Olhem que legal ficou a capa dele:

Aliás, vou dar um spoiler: esse banco de praça abandonado em uma praça tem muito a ver com dois contos do livro. Não está aí por coincidência.

Para quem estiver a fim de adquirir o livro, ele já está à venda no site da editora e, em breve, estará por várias livrarias do Brasil, virtuais e físicas. Para quem tiver dificuldade de encontrar – ou ser como eu, um paranoico rematado em compras via internet – podem entrar em contato comigo, que dou um jeito do livro chegar até onde estiverem. Enquanto isso, segue aqui o link para quem desejar adquiri-lo no site da Editora Zouk:

http://www.editorazouk.com.br/pd-43a8cb-nao-ha-amanha.html?ct&p=1&s=1

Não posso terminar essa postagem sem agradecer a todos vocês pela confiança nesses cinco anos de blog, e pelos quase 100 mil acessos. Obrigado mesmo. Perdoem o fato de eu ser um pouco “mocorongo” nessas questões virtuais e por ter criado um blog que, como um amigo me disse certa vez com desespero na voz, é o “ambiente mais hostil já criado para um leitor virtual”.  Aqui não tem espaço para fracos.

Deixo um presente, para vocês que me acompanham com tanta fidelidade. Um conto que não entrou em “Não há amanhã” (já tem 30 contos no livro, chega uma hora de parar, né) e que só existirá aqui, pois não pretendo publicá-lo. Ele tem uma proposta de escritura meio arrojada, uma constante inversão de narradores (dentro do mesmo parágrafo) e é uma ode à criação e às criaturas ou, como gosto de pensar, sou eu quem crio ou a criação que me inventou?

Boa leitura, pessoal, e nos falamos – sempre – por aqui.

Pigmalião inversus

Quando aparei a última aresta, pequeno defeito no ombro, senti a sua respiração, e foi algo bom, mistura de arrepio e neblina: as coisas mudaram e eu soube que lhe tirara da pedra para me fazer companhia, e tudo pareceu com tanto sentido de repente, como se o mundo parasse de rodopiar para dizer que você era o meu prêmio por tanto trabalho e miséria e sofrimento e as coisas que acontecem quando não se tem dinheiro, mas dom nas mãos. Sim, você, a minha maior criação e aquela que ninguém verá, pois os olhos dos homens e mulheres são indignos de tocarem nos pontos onde somente a minha mão pode passear, na carícia do formão ou na pancada gentil do martelo. Você não nasceu para ser colocada com outras estátuas, ultrajaria a sua nudez de mármore, transformaria o amor com que cuidei de cada detalhe em algo corriqueiro, você e o seu púbis saltado, as coxas fortes de quem escalava oliveiras na Arcádia, sorriso saciado, sêmen ainda escorrendo pela virilha, pelo canto dos lábios, por entre os dedos entreabertos, sêmen de sátiro passeando pelo corpo da ninfa violentada. Você existe para me servir, a ilusão do sonho que não acaba, a mulher que não envelhece, não trai, jamais abandona. Não mexer as pernas, é horrível, pior que o sorriso paralisado, este sorriso mentiroso – estou me vendo no espelho da sala, horror duplo o de ser e enxergar aquilo que se é – tão satisfeito e que só serve para esconder o grito da minha condição. Ele me fixa com olhos de louco, as mãos repletas de pedaços meus, barba por fazer, e suas mãos quentes, ambiciono este calor, sinto tanto frio, passeiam na aspereza do corpo que nada sente. Você me tirou da pedra e da sua cabeça, me sentenciou a uma vida de amargura, recolhida neste gelo sólido. Destruiu a minha essência de centenas de anos inocentes para que servisse ao seu egoísmo, por que você se ama tanto que me fez à sua imagem, ou não percebe que os olhos que encara nasceram da sua solidão, o sorriso satisfeito é aquele reservado para o final de um dia de trabalho, o meu corpo feminino feito para se adequar às investidas e recuos do seu membro. Tão preocupado você estava em criar a perfeição que descobriu a mulher incapaz de se mexer, alguém preso a esse amor doentio que o move.

Doente de merda, filho da puta insensível, as palavras de Lúcia ainda ecoam na minha cabeça, assim como a batida da porta que a tirou para sempre da minha vida. Como podia explicar para ela o amor que nos une, este amor bonito de pedra e carne, ela nunca iria entender que não existe espaço para duas no meu coração e, entre ela e você, mil vezes o sabor duro das suas juntas ao invés da incerteza da carne feminina. Você é imortal, como gostaria que compreendesse a extensão do presente que lhe ofertei, o maior presente que alguém pode dar a outra pessoa, mas você não entende, fica aí com este ar sensual, sem saber que está diante do homem que desafiou o Tempo para estar ao lado da mulher sonhada no meio de uma bebedeira; ah, querida, você me tirou da companhia da garrafa, afastou as más influências, me guiou pela escuridão e mostrou o amor eterno. Explicar para você, que não consegue me ouvir, é o mesmo que explicar para Lúcia o que ela viu quando abriu a porta do atelier, ela foi capaz de entender o simbolismo do ato e nem tentou entender, me julgou com só um olhar, condenou e bateu a porta, doente de merda, filho da puta insensível, eu, cujo único pecado foi amar, eu, que disse para Lúcia na nossa primeira noite juntos que nunca a amaria, meu coração pertencia a outra. Você não pode ouvir, mas se colocar a cabeça no meu peito saberá que imploro pela liberdade, ambiciono a minha antiga forma e não este arremedo repleto de curvas desagradáveis, sinto tanto frio, tanto. Não é minha culpa que você deseje preencher as faltas de sua vida. Pensa ter criado, mas você destruiu, não consigo mais lembrar como era, e o sorriso abestalhado do espelho, aquele que você me deu, mostra que estou satisfeita, mas eu não estou. Gostaria tanto de sentir novamente o calor do sol na aurora de tudo, quando só existia o silêncio e não haviam criaturas para brincar com nossa aparência, seres com egoísmo tão grande que criavam para não se sentirem sozinhos. Agora tenho que aguentar o seu olhar injetado diante do meu rosto, bafejando na face imóvel, lambendo a orelha de pedra e sussurrando palavras de amor falso, mentiroso e passageiro como tudo o que a carne sente. Você é fraco, não passa de poeira em acúmulo, já vi centenas do mesmo material que você, eles passaram e eu continuo, eterna na minha existência e na vergonha das coisas que presenciei você fazer com meu corpo.

Eu não tive culpa. Quando concluí a última batida e vi a perfeição que agora respirava em silêncio, imobilizada na pedra, o impulso de adorá-la foi demais, e nunca foi tão bom ver o sêmen correndo pelas pernas de uma mulher, você nasceu para ser diariamente homenageada, merece ser o acúmulo insensível do meu esperma. Pena que Lúcia tenha interrompido, mas acabou sendo bom. Logo ela teria que entender que somente você, com seu olhar vazio e os cabelos de Medusa, consegue me fazer sentir algo, e isto é o mais próximo que já cheguei do amor, este amor para o qual me julgava invulnerável e que me acertou quando vi a mulher perfeita em um sonho de bêbado, amor que precisava ser desgarrado do sonho para virar uma estátua. Passar a vida presa em uma situação insustentável, este é o meu dilema: não passo de um capricho da criatura que concebeu esta forma bestial, despindo a aspereza que me acompanhava desde o início. Algo na minha nova estrutura atinge os olhos e o membro deste ser, que não cessam de verter lágrimas, cristalinas ou brancas, como se eu fosse o sentido da sua vida passageira, que absurdo, dedicar uma existência tão frágil à adoração da pedra, ele devia juntar-se aos seus iguais e não perder tempo com algo que lhe ultrapassa. As criaturas de carne prendem a transitoriedade em seres imutáveis, perdem tempo, fazendo como esta pessoa, parada na minha frente e imaginando estar diante do amor da sua vida quando ele acabou de bater a porta e ir embora. Pena que não entendem a verdade, não podem amar um pedaço de pedra, somente iguais amam, as criaturas de carne e pó dedicam o amor à busca da perfeição, ao passo que a pedra possui sentimentos que não mudam, dores que não esquece, tristezas insondáveis no fundo do mármore.

Agora preciso viver desta maneira vazia, sem sonhos, estou diante da mulher que sonhei e ela está sorrindo e nós transamos (na medida do possível), ela sorri quando eu conto o meu dia e o seu sorriso malicioso me convida a um novo sacrifício a escorrer pelo seu corpo eterno, ela sabe que nunca poderá me abandonar. Tem pés fixos, mas não está triste, pois, na sua cabeça constante, com pensamentos femininos materializados no tempo e espaço, ela me ama. Prendi o amor na pedra. Contudo, há um abismo no meu peito, um buraco dizendo que não adianta estar ao lado de uma mulher se ela não pode sentir e não posso senti-la por inteiro. O amor ideal continua tão longe quanto na época em que o forjei dentro do sono, estar ao lado de uma mulher que não pode amar e só ser amada é tão horrível quanto não estar. Pare de me encarar com estes olhos imersos em mansidão, olhos que refletem a angústia de quem foi modificada para lhe servir, virar depósito das coisas que saem do seu corpo. Pedra eu sou e continuarei sendo pelo resto dos tempos, criatura eterna em contraste com a sua fraqueza, ser de poeira. Você precisa se conformar com a sua natureza, pois nada mais é do que uma passagem, um intervalo, enquanto eu sou o ponto em comum que o une com seus antecessores e posteriores, eu sou a que estava e a que vai ficar para ver a geração que lhe seguir, e a outra, e a outra. Modificar a minha forma não altera a solidão da sua vida. Os olhos castanhos refletem um vazio comparável à minha imensidão, um corpo inerte que não possui maiores objetivos, uma criatura que necessitaria ser moldada pela minha paciência, isto, claro, se quisesse aprender que, diante de mim, você não representa coisa alguma e se assemelha a um aglomerado de sujeira marrom. Encare minha frieza, criatura de gesso e líquido, e começará a entender que mudar a minha forma é atingir a imortalidade, se equiparar à minha beleza, nada sentir, tudo ser e jamais recear o fim.

Contudo, a vida existiu por um motivo, e esta vida foi preâmbulo do sonho em que lhe criei, amada minha, e talvez este sonho tenha um significado maior do que conseguimos ver, pois não fui um homem, mas somente uma criatura que sonhou o motivo da sua morte. Agora sei que, sem você, não posso viver. Cumpri a missão, criar o motivo pelo qual morrerei, uma morte por amor desenfreado, existe uma única forma de nos juntarmos e, se não pode ser em carne, que o seja na rigidez dos que nada sentem, na ausência de respiração, na dureza que é sua maior virtude, um encontro na eternidade para a qual me dirijo. Espirro de areia, você foi útil, despertou pensamentos sobre o que sou e o que posso ser, e agora vejo você se afastar com passos rápidos, tensos, e me sinto sozinha, como se o seu calor se transmitisse, sinto saudades surpreendentes. Quando o vejo com a faca, disparo gritos em silêncio com este sorriso zombeteiro, não tente se juntar a mim, pois você é poeira e eu sou pedra, não tente, não tente e você não escuta. A faca entra no peito frágil que eu odeio, e só então entendo que o amo com toda a força que uma pedra pode amar o homem que lhe prendeu, e vejo você cair e sua mão tocar meu peito, a coxa, resvalar até o chão, seu sangue na minha sombra branca, você tentou me resgatar da pedra virando uma, meu pequeno amor, tola criatura de poeira que aprendi a amar.

Uma lágrima corre do olho. O líquido vermelho esquenta a sola do meu pé. Grito ao entender o que perdi e, desta vez, o som sai, se espalha no atelier, dançando nas cortinas, nas roupas do homem enrijecido.

“Pigmalião e Galatéia”

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Obras Inquietas – 25. “Bela Adormecida” (1899), Henry Meynell Rheam

No meu texto dessa semana no “Obras Inquietas”, eu falei sobre uma pintura de Henry Meynell Rheam, um pintor pré-rafaelita, chamada “Bela Adormecida” (1899).

Existe algo que sempre me deixa perplexo sobre esse quadro. Quando estamos dormindo, ficamos vulneráveis e, nessa condição, qualquer coisa pode acontecer. A sensação de que alguém espia a nossa vigília é uma das mais antigas que tempos, e vem da época das cavernas. Muito dos terrores noturnos que sacodem algumas pessoas – entre elas eu – está nesse receio ancestral: o de que existem presenças que estão ao nosso lado e não conseguimos ver.

A predominância do azul no quadro também não é uma coincidência: no passado, o azul era considerado um tom opressivo.

Boa leitura.

“Bela adormecida” (1899), Henry Meynell Rheam

 

Você pode não saber, mas ele está ali, ao lado da cama, analisando os seus traços fisionômicos com um misto de escárnio e ternura. Pode não ter um nome para essa presença, mas sabe de quem estou falando. É mais um desconforto, uma sombra um pouco mais soturna que se destaca na parede do quarto, um arrepio que não devia eriçar sua pele, mas, ainda assim, está ali. As crianças tentam nomeá-lo: Homem de Areia, Devorador de Sonhos, Bicho Papão. Com o passar dos tempos, damos outros nomes (Horla, vampiro), mas a presença nunca deixa de nos acompanhar. Afinal, nomes não importam, pois ele está sempre no canto do quarto onde a luz tem medo de entrar, velando o seu sonho, tão próximo que a boca está a centímetros do beijo, tão atento que você pode sentir o toque gelado roçar a sua face. Quando está irritado, o hálito dele causa pesadelos horríveis que parecem nunca terminar, e você se sente sufocar no tempo infinito que mora dentro do horror. Quando feliz, ele sussurra histórias que lhe deixam com um sorriso bobo. No entanto, existem vezes em que essa presença invisível deseja o seu mal. Nessas noites, a criatura sem nome e sem rosto senta sobre o seu peito e sorri angelicamente enquanto pressiona o seu pescoço com dedos repletos de morte, sentindo você sufocar dentro do pesadelo, escutando os gritos sem som que você solta. Em geral, após brincar um pouco trazendo a morte para dentro do sono, a presença recua, e se regozija ao ver o seu despertar no estertor de um grito suado. No dia seguinte, você não saberá o que lhe deixou tão mal ou o pesadelo que transformou a noite em um inferno sem fim, e é provável que nunca saiba o quão próximo da morte esteve. Contudo, um dia, a presença irá cansar; os dedos serão um pouco mais firmes ao redor do seu pescoço, sua vontade um pouco menos volúvel. Nesse dia, você estará no pior pesadelo de todos e não irá sair nunca mais dele, enquanto o espectro beija seus lábios e retém o seu último suspiro como se fosse o manjar dos deuses. Algumas pessoas chamam tal presença de Medo, e saber que ele nasceu conosco e está sempre próximo, ansioso para cravar suas garras ao menor sinal de distração, é o que nos deixa em constante estado de tensão por estarmos vivos.

Texto originalmente publicado no link https://artrianon.com/2017/03/19/obras-inquietas-25-bela-adormecida-1899-henry-meynell-rheam/

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