Como conviver com o silêncio

Desde antes de nos conhecermos como seres humanos, ele já caminha ao nosso lado, onipresente e distante. Alguns o consideram temível, outros o veem como um bálsamo. O silêncio possui muitas facetas, mas há quem o considere o verdadeiro criador do Tempo, o Deus que está por tudo e dentro de cada coisa.

As pessoas possuem medo do silêncio e, assim, preenchem a sua vida de sons e de ruídos. Ligam televisões, escutam músicas, falam alto – tudo para fugir da solidão. Não ouvir nada amplifica a grande verdade: estamos sozinhos. Não existe ninguém que possa preencher o nosso silêncio interno, e enfrentar os próprios pensamentos é entrar em uma espiral de insanidade.

O silêncio pode dizer segredos e originar reflexões desagradáveis; melhor sufocá-lo antes que nos incomode. Pergunto-me se todas as experiências artísticas não são formas de acabar com esse silêncio que nos carcome ao redor. Tenho a frequente tentação de escrever a história humana sob a ótica de pequenas criaturas assustadas com a ideia de confrontar o silêncio e inventando guerras, amores, livros, ódios.

Um equívoco muito comum é imaginar o silêncio como a ausência de som. Na verdade, ele é algo muito maior: é o vazio de não existir e, portanto, faz parte de toda a existência. Pensei nisto após assistir entrevista feita com o maestro Daniel Barenboim para o “La Nación” em 03 de agosto de 2016 (a entrevista completa está no link http://www.lanacion.com.ar/1924146-daniel-barenboim-martha-argerich-es-una-de-las-artistas-mas-grandes-que-han-existido ), quando o entrevistador lhe perguntou o que era o silêncio:

“-¿Qué es el silencio?

-Es probablemente lo más complejo que existe en la música, porque el silencio está en permanencia, está aun antes de empezar. Pero el silencio es como alguien que te persigue y hace con vos todo el camino. Porque si no mantenés una nota hasta el final, se te cae. ¿Y dónde se te cae? En el silencio. Hacés un crescendo enorme como en el último tiempo de la Novena sinfonía de Bruckner y la orquesta chilla, grita y uno no da más: cortás el acorde y el silencio es aún más fuerte. Hay mucha gente que no lo entiende. Piensa que el silencio es ‘antes’, ‘después’ y ‘de vez en cuando’, o ‘entre’, como si fuese una coma o un signo de exclamación. No. El silencio es parte integral de la música. El silencio es para el sonido como la ley de gravedad.”

Eis uma tradução acurada da resposta feita pela minha amiga, a escritora Alexandra Lopes da Cunha:

O que é o silêncio?

– Provavelmente, o mais complexo que existe na música, porque o silêncio está em permanência, ainda está antes de começar. Mas o silêncio é como alguém que te persegue, que te acompanha durante todo o caminho. Porque se não manténs a nota até o final, ela se te escapa. E escapará para onde? Para o silêncio. Fazes um crescendo enorme, como no último tempo da Nona Sinfonia de Bruckner, a orquestra chia, grita, não é possível aguentar mais: cortas o acorde e o silêncio é ainda mais forte. Muitos não compreendem. Pensam que o silêncio é ‘antes’, ‘depois’ e ‘de vez em quando’, ou ‘entre’, como se fosse uma vírgula ou ponto de exclamação. Não. O silêncio é parte integral da música. O silêncio está para o som como a lei de gravidade.”

música

Manter o silêncio, prolongá-lo, rompê-lo, manuseá-lo a nosso favor, tudo isso também é uma habilidade. Grandes pessoas são aquelas que conseguem resistir à tentação de preencher o silêncio com qualquer som e procuram o barulho exato que lhe dê algum significado.

Assim como a música tende ao silêncio, o mesmo ocorre com as artes. Criamos para tirar o vazio dos nossos peitos e espalhar vozes e angústias pelo mundo.

Eu tenho um sonho que, como todos, é egoísta. Ambiciono chegar ao silêncio absoluto. O momento em que não precisarei mais falar ou ser cercado por desesperos alheios na forma de sons. O momento em que chegarei à última palavra, a declaração derradeira que escreverei. Eis o segredo de todo texto, e o medo misturado com alegria cada vez que inicio um: nunca sei se conseguirei chegar ao final, seja se estiver escrevendo um livro, seja se for uma lista de supermercado. Não sei se, de repente, sem aviso prévio, no meio de alguma frase, simplesmente todas as palavras irão me abandonar e o texto acabará, assim como as minhas forças e vontade de escrevê-lo. Cada mísero texto e a mesma dúvida me acomete: será este que irá quebrar as minhas pernas? Será este, enfim, o último?

Deixar de pensar, eis o sublime silêncio. A barreira do som é algo que desejamos quebrar por que, além dela, está o tão sonhado silêncio. Como diz Cecília Meireles, que sempre tem o poema certo para a hora oportuna, achar o silêncio é perder os limites, “não falar palavras vãs” como tantas pessoas fazem, não valorizando a força das palavras:

Não digas onde acaba o dia.
Onde começa a noite.
Não fales palavras vãs.
As palavras do mundo.
Não digas onde começa a Terra,
Onde termina o céu
Não digas até onde és tu.
Não digas desde onde és Deus.
Não fales palavras vãs.
Desfaze-te da vaidade triste de falar.
Pensa, completamente silencioso,
Até a glória de ficar silencioso,
Sem pensar.

Os romanos possuíam uma deusa dedicada ao silêncio: “Dea Tacita”, ou “A Deusa Muda”. Era uma divindade ligada à morte, ao obscurantismo, ao terror. Ovídio afirma que as pessoas costumavam realizar sacrifícios em nome de “Dea Tacita” para selar os lábios dos inimigos e impedir que eles se comunicassem ou fofocassem.

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Não é fácil imaginar o silêncio. Manoel de Barros tentou fotografá-lo em um poema famoso, mas só conseguiu relances insuficientes de eternidade. Contudo, se existe alguém que chegou perto de tocar o manto do silêncio que os artistas tanto buscam na sua cacofonia foi John Keats. O poeta inglês teceu uma série de poesias em que tenta fazer ritmo sem palavras, sem música, sem imagens, sem nada. Esbarra na impossibilidade de tal sonho, que se desvanece como névoa nas primeiras hortas da manhã, mas a tentativa também pode ser uma forma de sucesso.

Em “Ode à uma urna grega”, Keats fala da música mais perfeita,m aquela que não possui palavras e nem sons:

Ode à uma urna grega

(tradução de Augusto de Campos)

I

Inviolada noiva de quietude e paz,
Filha do tempo lento e da muda harmonia,
Silvestre historiadora que em silêncio dás
Uma lição floral mais doce que a poesia:
Que lenda flor-franjada envolve tua imagem
De homens ou divindades, para sempre errantes.
Na Arcádia a percorrer o vale extenso e ermo?
Que deuses ou mortais? Que virgens vacilantes?
Que louca fuga? Que perseguição sem termo?
Que flautas ou tambores? Que êxtase selvagem?

II

A música seduz. Mas ainda é mais cara
Se não se ouve. Dai-nos, flautas, vosso tom;
Não para o ouvido. Dai-nos a canção mais rara,
O supremo saber da música sem som:
Jovem cantor, não há como parar a dança,
A flor não murcha, a árvore não se desnuda;
Amante afoito, se o teu beijo não alcança
A amada meta, não sou eu quem te lamente:
Se não chegas ao fim, ela também não muda,
É sempre jovem e a amarás eternamente.

III

Ah! folhagem feliz que nunca perde a cor
Das folhas e não teme a fuga da estação;
Ah! feliz melodista, pródigo cantor
Capaz de renovar para sempre a canção;
Ah! amor feliz! Mais que feliz! Feliz amante!
Para sempre a querer fruir, em pleno hausto,
Para sempre a estuar de vida palpitante,
Acima da paixão humana e sua lida
Que deixa o coração desconsolado e exausto,
A fronte incendiada e língua ressequida.

IV

Quem são esses chegando para o sacrifício?
Para que verde altar o sacerdote impele
A rês a caminhar para o solene ofício,
De grinalda vestida a cetinosa pele?
Que aldeia à beira-mar ou junto da nascente
Ou no alto da colina foi despovoar
Nesta manhã de sol a piedosa gente?
Ah, pobre aldeia, só silêncio agora existe
Em tuas ruas, e ninguém virá contar
Por que razão estás abandonada e triste.

V

Ática forma! Altivo porte! em tua trama
Homens de mármore e mulheres emolduras
Como galhos de floresta e palmilhada grama:
Tu, forma silenciosa, a mente nos torturas
Tal como a eternidade: Fria Pastoral!
Quando a idade apagar toda a atual grandeza,
Tu ficarás, em meio às dores dos demais,
Amiga, a redizer o dístico imortal:
“A beleza é a verdade, a verdade a beleza”
— É tudo o que há para saber, e nada mais.

anfora.grega

É um poema perfeito. É possível visualizar a urna grega que lhe dá origem, imaginar tudo o que testemunhou, os sons que se perderam no seu interior, o silêncio que carrega consigo durante todos os anos. Na urna grega, o pastor é sempre jovem e apaixonado, a cidade não desmorona em torno do próprio eixo, o sol nunca cansa de sorrir. Ao final, a lição de estética, “a beleza é a verdade, e a verdade a beleza” sintetiza uma visão de mundo: o importante é ser verdadeiro consigo mesmo, pois a beleza – a paz, a alegria, o arrebatamento – acabarão por surgir.

John Keats sabia da importância das palavras, mas, mais do que tudo, venerava o silêncio. Antes de morrer, deixou determinações bem específicas para a sua lápide. Não queria que ela levasse o seu nome, mas uma inscrição: Here lies one whose name was writ in water” (“Aqui jaz um homem cujo nome foi escrito sobre a água”). Não existe melhor metáfora para o silêncio do que a transitoriedade de algo escrito sobre a água, desfazendo-se dentro de uma corrente incessante.

O túmulo de John Keats, Cemitério de Roma

O túmulo de John Keats, Cemitério de Roma

A melhor maneira de conviver com o silêncio é aceitá-lo. Não ter medo de mergulhar por inteiro nos pensamentos, ou recear sorver as águas do Leto que moram dentro de cada pessoa. Depois que se aceita que o som é a exceção e o silêncio é a única coisa que pode nos acalentar, tanto nos bons quanto nos maus momentos, fica mais tolerável a ideia de viver em um mundo repleto de solidões que tentamos afastar com ruídos.

 

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Texto publicado na revista eletrônica da Dublinense (17/08/2016): “O espírito livre de quem sabe se divertir”

Na minha coluna dessa semana no Medium da Dublinense, falo deste estranho hábito das pessoas (em especial os artistas) de ficarem o tempo inteiro reclamando ao invés de se divertirem com aquilo que lhes acontece.

Mas, como não sou trigo limpo, falo de artistas que se divertiram para dedéu, tipo o Baudelaire, que fez um livro inteiro em homenagem aos seus vícios; conto sobre o momento em que Baudelaire resolveu deixar a pele humana e falar como se fosse uma taça de vinho, além de fazer suposições sobre o que estaria escrito na camiseta que o autor de “Flores do Mal” usaria nos dias atuais.

Não bastando, falo de Alexandre Dumas, que, como última obra, escreveu um manual de culinária; conto uma piada com um trocadilho infame de quase 200 anos, e envolvendo absinto; falo do dia em que Dumas brigou feio com uma cozinheira, registrando a briga no meio de uma receita.

Por fim, falo deste extraordinário bon vivant que foi Somerset Maugham, contando a diferença (essencial) entre segurar uma mulher e uma garrafa de vinho, e de como ele passou muitos anos comendo o pão que o diabo amassou, mas sem nunca desistir de ver o lado divertido da vida.

Boa leitura!

 

O espírito livre de quem sabe se divertir

Parece que uma condição indispensável para ser artista nos tempos atuais diz respeito à choradeira e aos lamentos sobre o ato de produzir arte. Infelizmente, não é uma exclusividade dos artistas; a tônica dos dias atuais é a choradeira. Basta conversar com qualquer pessoa que ela irá expor um longo rosário de dores e mágoas.

No caso dos que trabalham no mundo das artes, o que mais se vê são pessoas reclamando que ganham pouco dinheiro, que sofrem horrivelmente para produzir, que realizam sacrifícios pessoais incomensuráveis, que passam por dores, privações, angústias e medos, em um processo catártico constante e agônico. Chega até a dar medo. Dupla é a minha curiosidade: primeiro, o motivo dos outros desejarem saber o quanto os artistas sofrem para realizar as suas obras e sempre direcionar as conversas para este tópico; segundo, a razão pela qual todo artista chora suas mágoas assim que encontra um público, por menor que seja. Pois ninguém confessa a verdade: criar também é altamente divertido. É exasperante, cansativo, machuca a lombar, perdemos um tempo enorme que poderia ser dedicado a assuntos mais prazerosos como ganhar dinheiro ou viajar, mas, ainda assim, no final do dia, a sensação de criar é positiva e, às vezes, até mesmo gratificante.

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Contudo, existiu uma época em que os artistas conseguiam ter uma convivência não só agradável com a sua arte, como usaram-na para saudar as benesses da boa vida. Entregaram-se ao prazer e ao vício, e alguns usaram a literatura para glorificar prazeres. Eram hedonistas no sentido mais puro da palavra: só viam prazer no ato de escrever e contar para os outros o quanto gostavam da maravilha de perder as noções da realidade.

Charles Baudelaire escreveu uma obra louvando o ópio, o haxixe e o vinho. Não desperdiçou tempo choramingando ou lutando contra os vícios, preferiu ceder a eles e louvá-los. “Paraísos artificiais” reúne provavelmente algumas das mais belas e inspiradas páginas que Baudelaire escreveu na vida. Muito difícil ler a sua louvação aos estados induzidos por drogas e pelo álcool e não ficar tentado a experimentá-las. Não bastando mergulhar fundo em ditos prazeres, ainda se debruçou a escrever sobre eles de forma apaixonada, intensa, repleta de sensações.

No texto sobre o vinho, o escritor francês faz uma defesa como raras vezes se viu. Citando Hoffmann, defende a ideia de que o ideal não somente é escrever bebendo, como cada música deve ser composta sob os auspícios de um determinado vinho: para uma ópera bufa, importante ter à mão uma taça de vinho de Champanhe, pois o músico “encontrará neste vinho a alegria espumante e leve que reclama o gênero”; para hinos religiosos, o mais indicado seria um vinho do Reno ou de Jurançon, uma vez que “reside neste vinho uma amargura embriagadora”; para músicas heroicas, sugere o vinho da Borgonha, “que tem a impetuosidade séria e o arrebatamento do patriotismo”.

Charles Baudelaire

Charles Baudelaire

Em determinado momento do texto, perdido no seu afã de elogiar o seu amigo líquido, Baudelaire deixa a prudência de lado e coloca o vinho como próprio personagem, assumindo a sua voz:

“Parece-me às vezes ouvir o vinho falar – ele fala com sua alma, com esta voz dos espíritos que apenas os espíritos alcançam: – ‘Homem, meu bem-amado, quero levar até você, apesar de minha prisão de vidro e de minhas aldravas de cortiça, um canto cheio de fraternidade, um canto cheio de alegria, de luz e de esperança. Não sou ingrato; sei que lhe devo a vida. Sei o que lhe custei de trabalho e de sol sobre os ombros. Você me deu a vida, e eu o recompensarei por isso. Pagarei minha dívida com generosidade; porque sinto uma alegria extraordinária quando caio no fundo de uma garganta alterada pelo trabalho. O peito de um homem honesto é uma morada que me agrada muito mais que as adegas melancólicas e insensíveis. É uma tumba alegre onde eu cumpro meu destino com entusiasmo. Faço no estômago do trabalhador um grande rebuliço e daí, em escadas invisíveis, subo ao seu cérebro onde executo minha dança suprema.”

Uma sucessão de belas metáforas para descrever uma bebedeira. Pelos olhos apaixonados de Baudelaire, consumido pelos próprios vícios, o vinho se transforma em um artífice de alegria e de suavidade. Ao final do depoimento do líquido milagroso, uma descrição quase lasciva e que se aproxima da heresia, o momento em que o vinho, enfim, se torna o homem:

“Cairei no fundo do seu peito como uma ambrosia vegetal. Serei o grão que fertiliza o solo dolorosamente escavado. De nossa íntima reunião criaremos a poesia. Para nós dois faremos um Deus e flutuaremos ao infinito, como os pássaros, as borboletas, os filhos da Virgem, os perfumes e todas as coisas aladas.”

Melhor do que chorar das agruras da vida de artista é se entregar com voracidade ao prazer; usar a literatura não como fonte primordial de dor e sofrimento, mas para fazer o mundo se ajoelhar diante de palavras, meras palavras. Toda pessoa possui problemas, os mais diferentes possíveis, e reclamar do que a arte causa nos seus artífices soa como arrogância, uma maneira de dizer que as dificuldades de alguns são mais intensas do que as de outros. Problemas são problemas e, ao invés de lamúrias, melhor se abandonar ao poço infinito do prazer de ser aquilo que se é. Charles Baudelaire sabia disso: acaso pudesse mandar fazer uma camisa para si mesmo, grafaria a expressão “Bêbado, drogado, com a mente alterada, e feliz”.

Outro escritor que se entregou com toda a energia ao prazer de escrever e não ficou o tempo todo perdido em lamúrias foi Alexandre Dumas. Encontro-me lendo o livro de receitas que ele escreveu em 1869, “O Grande Dicionário de Culinária”. A ideia inicial não pode ser mais divertida: Dumas era um conhecido glutão, amante da boa mesa, dos vinhos e das mulheres (não nessa ordem). Vivia com intensidade, viajando por vários lugares da Europa e sempre experimentando receitas exóticas, mas um fato o desagradava imensamente – chegar em um lugar novo e ser recebido por uma comida ruim. Diante deste cenário, o escritor francês resolveu escrever um guia culinário, reunindo verbetes, receitas, comentários de viagens, opiniões sobre outros escritores e receitas que imaginou para alguns dos seus personagens mais famosos.

Alexandre Dumas divertiu-se muito escrevendo. Divertiu-se tanto que chegou ao ponto de transcrever uma piada infame que não deixa nada a dever para os memes atuais. No verbete dedicado ao absinto, segundo Dumas, “a paixão fatal de [Alfred de] Musset pelo absinto, que, aliás, talvez seja o que dê sabor tão amargo a seus versos, fez com que a grave Academia se rebaixasse a um trocadilho infame. Com efeito, como Musset faltava a muitas sessões acadêmicas, o senhor de Villermain, um dos 40, houve por bem dizer: ‘Não acha que Musset anda muito absenteísta nos últimos tempos?’.” Sim, um trocadilho infame de quase 200 anos de idade, para quem acha que estamos inventando a pólvora.

alexandre dumas culinária

O livro é mais uma miscelânea de situações entremeadas com receitas e comentários sobre ingredientes do que uma obra literária. Ainda assim, o escritor às vezes aparece com força, como quando Dumas conta o dia em que chegou na casa de um amigo e deu tantas opiniões sobre o trabalho da cozinheira, “que não era nenhum cordon bleu”, que ela desistiu de fazer comida, momento em que o escritor assumiu o comando da cozinha e encantou todos os convidados com os seus improvisos. A descrição do seu embate com a cozinheira foi imortalizada no meio da receita de “galinhas no barbante”:

“Galinhas no barbante. Até o momento de executar minhas galinhas no barbante, fui vítima das risadas ferinas da minha vice-cozinheira; porém, chegada a hora decisiva, as observações viraram oposição ferrenha. Sem tempo a perder, ameacei-a com um golpe de Estado, que consistiria em indenizá-la e botá-la porta afora. A ameaça fez efeito, ela obedeceu passivamente e, cinco minutos depois, minhas duas galinhas giravam lado a lado, como dois fusos.”

O dicionário de culinária foi a obra que Dumas planejou para ser sua última. Já estava velho e cansado, e queria legar para a Humanidade algo útil, contendo as suas receitas e opiniões gastronômicas. Não chegou a ver o livro publicado – morreu antes – mas foi um jovem Anatole France que o revisou, dando uma certa uniformidade para o conjunto de anotações. O sonho de Alexandre Dumas não era deixar uma obra para ser lida por todos os tempos, mas acalentar os estômagos alheios com boa comida. Para isso, a sua antológica – e errônea – frase: “Minha reputação culinária promete apagar a minha reputação literária. Louvado seja Deus!”

Entretanto, o escritor que melhor soube aproveitar das benesses da vida ao lado da literatura provavelmente foi William Somerset Maugham. Se algum dia ele reclamou dos dissabores de ser um artista, ou lamentou crises de criatividade e bloqueios, não deixou nenhum registro. Preferia escrever ao invés de chorar pelo motivo de não estar produzindo. Considerava a vida como uma grande antesala da ficção e, se estava sem escrever, isso se devia ao fato de estar ocupado demais experimentando novas situações. Era alguém que se comprazia em viver escrevendo e escrever vivendo, e saber articular o que fazemos com aquilo que somos é uma das receitas para uma existência digna.

É famosa a cena acontecida em um jantar, quando provocaram Somerset Maugham perguntando como se segura uma garrafa de vinho, e ele respondeu que as garrafas de vinho são agarradas pelo pescoço, enquanto mulheres devem ser seguras pela cintura. Nada como a experiência e a sofisticação para evitar perguntas inoportunas. O escritor inglês tinha uma simples meta de felicidade: “quando eu era jovem e tinha pouco dinheiro, fiz vários planos para a vida adulta. Um deles é que teria sempre, depois do jantar, um pouco de conhaque acompanhado por um bom e caro charuto. Foi um dos poucos projetos da juventude que realizei.”

Somerset Maugham

Somerset Maugham

Somerset Maugham teve uma vida muito difícil. Sofreu muito durante a sua infância e adolescência. Os seus pais morreram quando ele ainda era criança, e o escritor foi cuidado por um tio cruel, que lhe ensinou a nunca demonstrar nenhuma emoção. Por causa disso e da sua condição de órfão, desde seus primeiros anos, Somerset Maugham foi maltratado pelos colegas de aula, pelos vizinhos e pela comunidade em que vivia. Não tinha um porto seguro em que pudesse se refugiar.

Para não enlouquecer, desenvolveu a arma mais fatídica que um ser humano pode conceber: o sarcasmo. Suas tiradas se tornaram antológicas, o que enfurecia ainda mais os inimigos, que tentavam humilhá-lo e saiam derrotados. Ele nunca deixou de rir da vida, e boa parte do sarcasmo com que enfrentava as situações transportou para a sua obra.

É uma vitória que, mesmo diante de condições iniciais tão adversas, William Somerset Maugham tenha não só alcançado sucesso literário como chegou aos 91 anos de vida, e que a morte tenha lhe encontrado quando escrevia em um quarto instalado em uma linda villa de frente para o Mediterrâneo. Quem não reclama e sabe ter paciência para enfrentar as adversidades acaba tendo uma vida proveitosa.

Os maus-tratos sofridos nos seus primeiros anos nunca lhe levaram a lamentar. Ao contrário, por entender o sofrimento como parte indissociável da vida, Somerset Maugham estava pensando em si mesmo quando fez uma das mais belas descrições sobre a vida do verdadeiro escritor, sempre sufocado por uma humanidade da qual tenta se libertar, em um trecho presente no livro “O destino de um homem”:

“É uma vida cheia de contratempos. Para começar, o escritor deve sofrer a pobreza e a indiferença do mundo; depois, tendo conquistado uma parcela de sucesso, tem de se submeter sem protesto aos seus riscos. Depende de um público inconstante. Está à mercê de jornalistas que querem entrevistá-lo; de fotógrafos que querem tirar-lhe o retrato; de diretores de revistas que o atormentam pedindo matéria, de cobradores de impostos que atormentam por causa do imposto sobre a renda; de pessoas gradas que o convidam para almoçar; de secretários de instituições que o convidam para fazer conferências; de mulheres que o querem para marido e de mulheres que querem divorciar-se dele; de jovens que lhe pedem autógrafo; de atores que desejam papéis e estranhos que querem um empréstimo; de senhoras sentimentais que lhe solicitam a opinião sobre assuntos matrimoniais; de rapazes graves que querem sua opinião sobre suas composições; de agentes, editores, empresários, chatos, admiradores, críticos, e da própria consciência. Mas existe uma compensação. Sempre que tiver alguma coisa no espírito, seja uma reflexão torturante, a dor pela morte de um amigo, o amor não correspondido, o orgulho ferido, o ressentimento pela falsidade de alguém que lhe devia ser grato, enfim, qualquer emoção ou qualquer idéia obcecante, basta-lhe reduzi-la a preto-e-branco, usando-a como assunto de uma história ou enfeite de um ensaio, para esquecê-la de todo. Ele é o único homem livre.”

Ao invés de perder tempo se queixando, Somerset Maugham fez o mais difícil – transformou os problemas em força motriz para a própria obra. Não fez catarse por meio dos escritos, não menosprezou o leitor tratando-o como um terapeuta para seus problemas pessoais, e nem ao menos mergulhou na autocomiseração. Sem procurar a simpatia alheia, o escritor inglês entrou para a categoria de escritores como Charles Baudelaire e Alexandre Dumas: autores para quem a literatura é um simples ornamento, o sucesso uma mera consequência do trabalho, e aproveitar a vida em cada um dos seus mínimos momentos, sim, é o mais importante.

Texto originalmente publicado no link https://medium.com/colecao-dublinense/o-esp%C3%ADrito-livre-de-quem-sabe-se-divertir-28dc8fe0551b#.zcnx4egt0

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Arquivado em Alexandre Dumas, Charles Baudelaire, Literatura, Somerset Maugham

Texto publicado na revista eletrônica da Dublinense (10/08/2016): “Os livros atrapalhados”

Na minha coluna dessa semana no Medium da Dublinense, eu falei dos livros que chegam na hora errada da vida dos leitores e fazem uma confusão danada.

Mas também falo do dia em que escandalizei uma plateia ao confessar que o livro mais assustador de todos é “Éramos seis”, da Coleção Vagalume; falo de Michel de Montaigne, que presenciou um esquartejamento na praça e só depois escreveu ensaios dizendo como o comandante deveria ter agido; falo de Deus ex-machinas que chegam atrasados; falo de Jean Froissart, escritor contratado para ler o seu próprio livro aos nobres franceses, pois era o melhor remédio contra a insônia (isso sim que é desprestígio), e termino falando do pior presente que alguém podia ganhar no século XV, o “Ars moriendi”, ou “A arte de morrer”, o legítimo livro que a pessoa desembrulha o pacote e pensa “bah, estou ralado”.

Boa leitura!

 

Os livros atrapalhados

 

Nem sempre o livro certo chega na hora necessária. Às vezes, a obra muito errada acaba aportando no momento menos apropriado da vida de alguém, e essa experiência vira algo traumático. É um erro imaginar que a Literatura é uma sequência lógica e evolucionária em que cada narrativa chega naturalmente às mãos de um leitor, que se sentirá satisfeito e engrandecido após a sua leitura. Ao contrário, o mais normal é os livros se atrapalharem, se equivocarem, darem péssimos conselhos e ainda nos deixarem tristes. Ler é uma experiência mais ligada ao caos do que à alegria, e nem sempre os livros nos fazem bem.

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Falo isso pela consternação que causei de forma inadvertida quando, certa vez, ao final de uma palestra, me perguntaram qual era a história mais terrível que eu já tinha lido, e respondi sem titubear “Éramos seis”, de Maria José Dupré. A plateia trocou olhares de espanto e risadas: como pode um livro da Coleção Vagalume ser mais terrível do que “Drácula” de Bram Stoker, “Frankenstein”, de Mary Shelley, ou “A coisa”, de Stephen King? (Eu estava palestrando sobre literatura de terror).

Expliquei os motivos para afirmativa tão categórica. Quando li “Éramos seis”, eu tinha 10 anos de idade, e foi a primeira vez que tomei consciência da morte. Através da literatura, descobri que, em futuro não tão distante, a minha situação de equilíbrio familiar iria se encerrar, que a morte se instalaria no meio das pessoas amadas e que dificilmente voltaríamos a ficar juntos sob o mesmo teto.

A plateia concordou comigo, em especial pela descrição que fiz de “Éramos seis”, um livro que ainda tem cheiro de morte na minha memória. Os anos passaram, e provavelmente não lembro tanto dos eventos internos da história, mas recordo da sombra que perpassa pelas suas páginas: tudo vai acabar. As pessoas que amo irão morrer até que, eventualmente, eu também morrerei. A prosa é seca, um pouco repleta de arcadismos, e em nenhum momento o objetivo do livro é escancarado, a não ser no seu final, quando olhamos a capa e pensamos no título, “Éramos seis”, como uma antecipação direta das perdas vivenciadas pelos personagens.

É uma obra cruel, em especial para uma criança cheia de futuro e de alegrias ainda não experimentadas. Quando se mergulha com ímpeto dentro de uma narrativa, e se vivencia o drama dos personagens como se fosse o seu próprio, qualquer livro pode ser assustador ou incrível. Sinto-me um pouco mais consolado por que, ao final da palestra, duas professoras se aproximaram e confidenciaram que também tinham muito medo de “Éramos seis”. Leram durante a infância e passaram semanas aterrorizadas com a ideia de que os seus pais podiam morrer ou desaparecer a qualquer minuto. É possível, aliás, que exista uma ou duas gerações aterrorizadas em silêncio pela morte contida no exemplar amarelo cobre de “Éramos seis”.

Foi um livro que contou que eu iria morrer e a minha família acabaria. Ele não tinha o direito de acabar com a minha ilusão, mas não perguntou nada, veio e revelou a verdade. A primeira parte ainda não aconteceu e a segunda mais ou menos, pois é difícil perceber os momentos de modificação das famílias: no caso da minha, ganhamos novos membros, outros estão distantes e até mesmo a morte já veio colher alguns. O fato é que nunca mais seremos os mesmos seis, estaremos sempre em mudanças. O maldito livro estava certo, mas precisava dizer tão cedo?

Também existem obras que somente surgem depois que já cometemos o equívoco. O estilo de texto que, se tivéssemos lido antes, teria nos alertado para a burrice da nossa conduta. É um Deus ex-machina que chega atrasado, vê o heroi morto e ainda diz “bom, então ficarei de alerta para que outras pessoas não façam o mesmo”. Em uma linguagem moderna, seria o “miga, não faz isso”.

Melhor exemplo aconteceu com Michel de Montaigne. Quando tinha 15 anos, Montaigne assistiu a uma cena que lhe fascinaria e repugnaria em igual medida. A cidade de Bordeaux passava por uma revolta, com multidões de populares ocupando as ruas em protestos contra o aumento dos impostos ordenado pelo rei. O comandante da guarda da cidade, Tristan de Moneins, fechou-se no interior do ChâteauTrompette, onde poderia resistir por semanas de cerco. Ao redor do lugar, os revoltosos se concentraram, desafiando o representante do rei a sair para convencê-los da regularidade da conduta. Pois Tristan de Moneins imaginou que ganharia o respeito da cidade se os enfrentasse cara a cara, e saiu do castelo sitiado para conversar com os adversários. Existe um motivo para políticos raramente se dirigirem ao encontro da multidão sem um grupamento de segurança a lhes cercar, e basta imaginar a cena que percebemos o presunçoso erro do comandante, pois, enquanto tentava conversar com a multidão enfurecida, foi cercado, linchado e esquartejado.

Montaigne ainda era um jovem, e estava longe de ser o filósofo que um dia se tornaria. No entanto, a cena ficou gravada de tal forma na sua memória que alguns dos ensaios escritos mais de 30 anos depois ainda se referem ao tema, analisando os erros e equívocos da conduta do comandante assassinado.

Não bastando esmiuçar as atitudes dele, ainda procurou outros exemplos na História da Humanidade em que um homem ficou cercado por uma turba e conseguiu sair vivo, citando exemplos da Roma antiga. Os títulos dos ensaios são auto-exemplificativos: “Se o comandante de uma praça sitiada deve sair para negociar” e “A hora das negociações é perigosa”, para ficar nos mais famosos. A conclusão de Montaigne é que Tristan de Moneins cometeu o erro decisivo de sair para encontrar a multidão e, no meio do caminho, se apavorou e tentou voltar atrás, o popular ditado “se está no inferno, vai lá e dá um abraço no diabo”:

“Não se pode negar que [Tristan de Moneins] demonstrou coragem ao enfrentar desarmado um mar de furiosos. Mas sua única esperança então seria manter até o fim a atitude de desafio. Ele devia ter bebido da taça até o fim, sem abandonar seu papel; ao passo que o que lhe aconteceu foi que, tendo visto o perigo de perto, perdeu o sangue frio e mais uma vez mudou a atitude aplacada e de lisonja que havia assumido, mostrando-se assustado e deixando transparecer surpresa e arrependimento na voz e no olhar. Tentando esconder-se, ele inflamou a multidão, que se abateu sobre ele.”

É uma pena que as dicas de Michel de Montaigne não puderam ser aproveitadas por Tristan. Acaso o homem tivesse lido as opiniões do filósofo ANTES de sair do castelo cercado, provavelmente teria sobrevivido. No caso do comandante francês, o livro chegou tarde demais. Era o texto certo para o leitor ideal, mas estava atrasado e, assim, hoje conhecemos a melhor maneira de parlamentar com multidões furiosas, mas um homem teve que morrer para que tal ensaio existisse.

Também existem livros que nasceram desviados das suas funções originais. Eles só seriam apreciados e estudados anos depois do seu surgimento, mas, na época em que estavam caminhando os primeiros passos pelo mundo, não só não tinham leitores como literalmente não valiam o papel da sua impressão.

Quando estivermos decepcionados com a vida literária, ou com a eterna agrura de ser um autor que ninguém entende (mal que aflige a todos os escritores), valeria lembrar o pobre Jean Froissart, um escritor francês do final do século XIV que escreveu “Méliador”, uma extensa história baseada nos mitos do rei Arthur. Era uma trama tão longa e tediosa que os nobres franceses contratavam o escritor para lê-la ao pé das suas camas. Assim, “Méliador” ganhou a injusta reputação de ser um livro aconselhável para terminar com a pior das insônias. Um livro chá de camomila.

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Imagino a frustração de um escritor como Froissart, que foi contratado pelo conde du Blois para, durante seis semanas, toda vez que o conde fosse dormir, postar-se junto aos pés da cama e ficar lendo a própria obra até que a insônia do outro fosse embora. É o pior desprestígio para um criador: ter o seu livro usado não para encantar, mas como um objeto que induz o sono. Ainda assim, a obra sobreviveu à passagem dos anos. Jean Froissart não é muito lido, e menos ainda conhecido, mas, ao menos, hoje não é mais usado para acabar com a insônia.

Outra modalidade de livro que chega na hora errada é aquele que não queremos ler, mas somos presenteados, e não raro com as melhores intenções. Na Europa do século XV, uma moda peculiar surgiu nos círculos mais nobres. Quando algum familiar estava adoentado e ninguém sabia direito qual mal lhe afligia, ele então recebia de presente um livro, intitulado “Ars moriendi”, ou “A arte de morrer”.

Imaginem a cena: você está deitado na cama, sentindo-se enfermo. Médicos entram e saem, propondo sanguessugas e outros tratamentos que não resolvem o seu problema de saúde. Você se sente mal, mas acha que logo vai passar, tudo vai dar certo. De repente, entra um familiar lhe trazendo um presente, e é um livro que lhe ensina como morrer com dignidade. A intenção era ótima, pois era melhor prevenir do que remediar. Eis uma leitura bastante agradável para se realizar em um momento tão delicado.

Os capítulos não podiam ser mais tensos. Em geral,  o “Ars moriendi” clássico tinha seis segmentos. No primeiro, o autor explica que morrer não é algo tão ruim, que a morte pode ser uma experiência bem legal e instrutiva, não algo assustador. Estão tentando consolar o moribundo, fazê-lo olhar “o lado bom de estar morrendo”. No segundo capítulo, o livro abordava os cinco perigos que a pessoa podia enfrentar nos últimos segundos de vida: falta de fé, impaciência, desespero, orgulho espiritual e avareza. Também dava dicas de como evitar essa tentação final, e uma delas chama atenção: morda a língua. Alguém está em vias de morrer, precisando se preocupar em não dizer bobagens ou maldições e, para tanto, o mais indicado é morder a língua.

No terceiro capítulo, estão as sete perguntas que se deve fazer para um homem agonizante (as mesmas que Deus lhe fará nas portas do Paraíso, e não sei como conseguiram tal spoiler do Altíssimo), assim como algumas palavras de consolo que podem ser direcionadas por ele para a família e vice versa. O quarto capítulo do “Ars moriendi” ostenta trechos da vida de Jesus que servem de exemplo ao moribundo para que ele não esmoreça. O quinto capítulo fornece dicas de conduta para os amigos e para a família do quase morto, estabelecendo as diretrizes para o que acontecerá no leito de morte e depois dele. É importante organizar tais detalhes. Por fim, o último capítulo sugere uma série de orações e cânticos que os presentes podem entoar para o agonizante, a fim de que ele entre no outro mundo com a trilha sonora apropriada.

Essa modalidade de presente foi muito apreciada durante quase 100 anos. Hoje achamos de mau gosto, mas as pessoas do passado eram mais pragmáticas. É o caso de livro que não gostaríamos de ganhar, pois não só nos diz que vamos mesmo morrer, que não tem mais chance de nos salvarmos, mas ainda alerta que agora tudo é uma questão de ajustar condutas e burocracias para não atrapalhar muito.

Assim como as pessoas, os livros nem sempre estão certos. Às vezes eles são atrapalhados, se esbarram e cometem indiscrições, e a literatura está farta de casos em que os livros mais atrapalharam do que ajudaram. Eles podem aparecer na vida de alguém no momento errado e trazer a morte para o meio da infância (caso de “Éramos seis”), ou podem chegar atrasados para nos salvar (como os ensaios de Montaigne sobre Tristan de Moneins demonstram), ou podem ser usados de forma diferente do motivo para o qual nasceram (caso de Froissart e seu “Méliador”, um livro considerado como a cura da insônia), ou ainda são o pior tipo de presente que alguém pode receber (quem deseja aprender a morrer direito lendo um tutorial em “Ars moriendi”?). Mesmo assim, e novamente como acontece com as pessoas, o livro errado para alguém pode ser o certo para outro alguém, e assim caminhamos por entre bibliotecas, sempre na dúvida se o livro escolhido é amigo ou inimigo, herói ou vilão. Exatamente como as relações humanas.

 

Texto originalmente publicado no link https://medium.com/colecao-dublinense/os-livros-atrapalhados-da91955e4270#.m5lfbs7c1

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Texto publicado na revista eletrônica da Dublinense (02/08/2016): “Três lições que a literatura me ensinou”

Na minha coluna dessa semana no Medium da Dublinense, eu cometi uma indiscrição com a equipe de gincana estudantil que me contatou e resolvi escrever um texto mais comprido do que duas linhas sobre o que a literatura me ensinou.

Só coloquei três lições, mas evidente que foram muito mais. E só citei Pushkin, Stevenson e Pizarnik, senão a lista seria infindável.

Boa leitura!

 

Três lições que a literatura me ensinou

 

Uma das partes mais importantes de ser humano é responder perguntas. Desde que nascemos estão nos exigindo respostas: já comeste hoje? Como foi o teu dia? Tudo bem? Estão sempre querendo saber minha opinião sobre algum assunto, quando o que interessa mesmo é o abismo imenso das perguntas, essas, sim, muito mais criativas e inesperadas do que as suas respostas. Responder algo é restringir o mundo. Deveríamos fazer mais perguntas sem resposta.

Foi assim que recebi, como parte da gincana de um colégio, um questionário. A tarefa era simples: os alunos deveriam buscar um escritor para responder dez perguntas. Vale 10 pontos numa escala de 200 possíveis, ou seja, pode fazer diferença entre a vitória e a derrota, entre o clarim da glória e a tumba dilacerante do fracasso (eu já fui aluno, sei como essas questões são importantes). Pediram para que eu “fosse criativo”. As perguntas eram singelas e deram duas linhas para cada resposta; nem Hemingway seria genial com tão pouco espaço. Espero que as demais turmas participantes da gincana tenham encontrado escritores mais comedidos nas suas respostas. Aliás, tenho curiosidade em saber quais são os outros colegas escolhidos e se existirá uma espécie de competição entre os escritores pelas melhores respostas para merecer os 10 pontos. Se assim for, amigos, se preparem, pois as minhas estão estupefacientes e criativas (sim, estou fazendo pressão psicológica sobre os times inimigos – eu realmente sei da importância de uma gincana estudantil).

No entanto, uma das perguntas grudou na minha memória, talvez pela sua inesperada sabedoria ou pela sua crueldade: “o que a literatura te ensinou?”. O meu primeiro instinto foi uma declaração ferina: “ela me ensinou a não responder tal questão em míseras duas linhas!”.

Mesmo depois de saciar tal curiosidade, a pergunta continuou ressoando na recordação. O que a literatura me ensinou? Em um primeiro momento, diria sem titubear que ensinou tudo o que sei. No entanto, a função da literatura não é somente ensinar, ela também possui outras atribuições, entre as quais alertar, sonhar, reconhecer, retratar, ridicularizar. Também me ensinou nada; a literatura só faz sentido quando conjugada com a emoção ou com a reflexão. Somente ler não é vivenciar algo. É necessário ler para viver e viver para ler, as duas atividades caminham juntas.

Por me negarem o espaço merecido para uma resposta (existe sabedoria nisso também, pois eu me prolongaria ao infinito), pensei em algumas lições que a literatura trouxe para a minha vida.

 

I – Ensinou-me o verdadeiro gosto das cerejas.

 

As cerejas são frutas pequenas, vermelhas, com uma semente que ocupa o centro da sua existência e, em geral, possuem gosto rançoso e sumarento. Eu comia cerejas e assim pensava sobre elas, como todos pensam, até que Aleksandr Pushkin veio e mudou a minha visão de mundo.

O incrível é que a história começa na realidade. Pushkin, o maior escritor da Rússia, também era um homem acostumado a viver no limite das paixões, o que o levava para a cama das mulheres casadas, a criar versos e histórias repletos de vida e, às vezes, até mesmo a defender a sua honra através de duelos.

Quando tinha 23 anos, Aleksandr Pushkin envolveu-se com uma discussão com um soldado do exército, tido como um dos melhores atiradores do seu destacamento. A conclusão inevitável da discussão foi a realização de um duelo, com a dupla de homens indicando seus respectivos padrinhos. Detalhe significativo é que, na época, apesar de ser o método mais utilizado para acertar questões de honra, os duelos eram proibidos pelo czar, até para evitar perdas entre as suas tropas. Ainda assim, a honra era um assunto tão forte que os duelistas desprezavam as ordens contrárias.

Na manhã seguinte, Pushkin e seu desafeto se encontraram na beira do rio. As regras eram claras: eles tirariam na moeda quem teria o direito de dar o primeiro tiro. Em seguida, andariam dez passos em sentido contrário e se virariam; o vencedor no arremesso da moeda teria o direito ao primeiro tiro. Se o adversário sobrevivesse, teria direito então a realizar o seu disparo.

Pushkin perdeu o arremesso da moeda. O competidor, que atirava melhor, teria o direito de ser o primeiro, e ele só precisava mesmo era de uma bala. Os dois andaram em direções opostas e se viraram.

Antes mesmo de erguer a pistola, o soldado provavelmente percebeu o inesperado. Pushkin não estava com medo do tiro, não receava estar exposto e sem defesa à mira da pistola inimiga. Ao contrário: enquanto esperava o tiro do outro, ocupava-se comendo cerejas, que retirava do bolso do seu casaco, passando a devorá-las e, enfim, cuspindo as sementes.

Aquilo não era normal. Nenhum homem fica diante da morte comendo cerejas. O normal era que tivesse medo, expectativa, pavor, e não tamanha calma. O soldado concentrou-se e fez a mira. Enquanto isso, o escritor russo continuava saboreando as cerejas, provavelmente o seu último alimento em vida.

O soldado atirou. E errou. Não se sabe se estava desconcentrado ou irritado demais, o incontestável é que errou o tiro que não poderia ter falhado.

Era a vez de Pushkin. Ele limpou as mãos, pegou a sua pistola e a levantou. Mirou atentamente no outro, os dois estáticos por alguns segundos… e não disparou. Abaixou a arma e saiu do local do duelo, sem nenhuma explicação. Também não fez as pazes com o adversário.

O duelo de Oneguin e Lensky, gravura de Ilya Yefimovich Repin, 1898

O duelo de Oneguin e Lensky, gravura de Ilya Yefimovich Repin, 1898

Tempos depois, o escritor publicou um conto, “O tiro”, em que relata exatamente a mesma experiência. No entanto, ele tenta enxergar o mundo através dos olhos do seu oponente, que fica descorçoado ao ver um inimigo em um duelo manifestar tanto desprezo pela vida, comendo cerejas enquanto espera o tiro, que resolve não atirar, uma vez que o adversário “não sabe o real valor da vida, pois não tem nada a perder”. Decide suspender o duelo antes do seu tiro e cobrar esta dívida de honra somente quando o outro tiver algo a perder, o que acontece no momento em que descobre que ele casou com a mulher que amava. A partir desse momento, o personagem principal procura o inimigo para retomar o duelo interrompido anos antes, e do ponto que parou: o momento em que ele ia atirar.

A maneira com que a vida real se entrelaça com a ficção fez com que o conto se tornasse inesquecível para mim. Traço maior do grande escritor, Pushkin mostra a realidade de todos nós: só valorizamos a vida quando temos algo a perder. A morte pode caminhar por aí esperando o momento de cobrar a sua fatura, e pode acontecer quando finalmente somos felizes.

Pushkin morreu em outro duelo alguns anos depois. Nem sempre teve a mesma sorte com seus oponentes. No entanto, hoje, quando como cerejas, elas não tem mais a mesma inocência de antes. Elas tem gosto de vida, de desafio, de coragem, mas também possuem o sabor que mais identifico com a morte.

 

II – Ensinou-me a ver as maravilhas ocultas que andam por aí.

 

Robert Louis Stevenson era um bom cara. Não é uma constatação minha, mas de todo mundo que teve a sorte de encontrá-lo. Até mesmo Henry James, um homem naturalmente frio , rendeu-se ao charme luminoso de Stevenson. Dizem que as histórias do escritor escocês faziam James chorar de tanto rir, e acho mais fácil acreditar em unicórnios esvoaçantes do que em tal cena.

Estou lendo “Viagens com um burro pelas Cevenas”, o segundo livro de Stevenson. Também parte de uma experiência real: durante doze dias de setembro de 1878, o escritor pegou uma burra e foi passear pela cadeia das Cevenas, localizada no sul da França. A sua burra – Modestine – é temperamental e instável, e Stevenson acaba tornando-se escravo das vontades dela, que empaca do nada e decide seus próprios percursos, e as brigas do homem com o seu meio de locomoção são hilárias por si só.

Stevenson pegou essa viagem em que deu tudo errado e transformou em um livro delicioso. Ao invés de reclamar ou de desabafar das suas agruras, ele abandonou-se à experiência de ser guiado por uma força da natureza, por alguém que não conseguia controlar, e descobriu ruínas perdidas, pessoas com histórias espantosas, vilas fora do ordinário, cenários que nunca teria visto se tivesse ficado no trajeto de sempre. Stevenson cedeu ao maravilhamento que só vem de perder o controle de si mesmo. Lendo a sua obra, percebo que a verdadeira maravilha é olhar o mundo com os olhos de quem acabou de nascer.

Stevenson e Modestine

Stevenson e Modestine

A sua filosofia de vida era mais profunda do que descobrir as maravilhas que andam por aí. Stevenson acreditava que o segredo para viver bem era abraçar o fracasso, conforme o sermão que ele preparou para a sua família no Natal de 1888, uma série de postulados para se atingir a felicidade na existência:

“Ser honesto, ser amável – ganhar um pouco e gastar um pouco menos, em geral tornar uma família mais alegre com sua presença, renunciar-se, se preciso, e não se sentir amargurado, ter poucos amigos mas estes sem se renderem jamais – sobretudo, com essa condição severa, ser amigo de si mesmo -, eis uma empresa que requer toda a força e delicadeza que um homem possa ter. Possui uma alma ambiciosa quem pedir mais, e um espírito otimista quem espera que tal empresa seja bem-sucedida. Há na sorte humana, sem dúvida nenhuma, um elemento que nem sequer a cegueira pode controverter: seja qual for a nossa tarefa, não estamos destinados ao sucesso. Nosso destino é o fracasso. É assim em toda arte e em todo estudo; é assim, sobretudo, na comedida arte de viver bem.”

Stevenson passou a vida toda vendo maravilhas ao seu redor enquanto era destruído pela tuberculose. É sintomático que um homem consiga ver graça e beleza no mundo enquanto está sendo devorado aos poucos pela doença. Nos seus últimos anos de vida, comprou um terreno em uma das Ilhas Samoa, na Nova Guiné, e dedicou-se a mais difícil das tarefas: relacionar-se com os vizinhos e com as suas guerras eternas. Até nisto Stevenson mostrou ser um bom cara, pois, em pouco tempo, tribos rivais estavam lhe ajudando com as plantações no terreno. Ele trocava essas gentilezas por literatura: todos os dias, ao final da tarde, Stevenson sentava próximo da fogueira e contava histórias para os adultos e para as crianças. Uma atrás da outra, sem parar, sempre rindo e se encantando com a dança das fagulhas no céu repleto de noite das ilhas Samoa.

 

3. Ensinou-me sobre a importância de ser metódico:

 

Estive lendo os “Diários”, da escritora argentina Alejandra Pizarnik. É um livro impactante. Comprei alguns anos atrás, quando estava no Uruguai. Uma série de coincidências me levou a isso: a camareira do hotel em que estava em Montevidéu, ao me enxergar lendo na recepção, disse com orgulho que quem não leu Alejandra Pizarnik ainda não aprendeu a ler. Dias depois, em uma livraria, estava com um livro de poemas dela na mão quando a atendente me sugeriu que eu trocasse pelo seu “Diários”, que era melhor. Ambas as mulheres tinham razão, e essa é outra das magias da literatura: o livro sempre chega ao seu leitor.

Alejandra era uma mulher metódica. Registrava seus sonhos e pesadelos em um diário, que mantinha sempre ao alcance da mão. Também fazia pequenos exercícios estilísticos. Na introdução, o editor descreve o método utilizado pela poeta para escrever: ela tinha um quadro negro. Colocava cada um dos versos e meditava longamente a respeito dele. Depois que escrevia tudo, Alejandra trabalhava o ritmo, a sonoridade, as palavras, sempre em busca da perfeição estilística. Podia passar semanas debruçada sobre um único poema, apagando e reescrevendo versos no quadro negro, até o momento em que cedia ao cansaço e encerrava o poema. Os verdadeiros poemas não são feitos de palavras, mas da exaustão dos seus autores.

A mulher não gostava de sair do seu quarto. Era tímida e fechada, não ambicionava o contato com outros seres humanos. Com o passar dos anos, o Diário que começou como uma forma de descarrego dos seus pensamentos mais secretos virou um amigo caloroso com quem Alejandra conversava. Às vezes, nossos melhores amigos não possuem pele e carne, mas só a vontade de nos escutar.

Alejandra Pizarnik

Alejandra Pizarnik

As frases curtas do Diário são mais apontamentos e lembretes do que literatura, mas ela está ali, sempre à espreita. No dia 07 de dezembro de 1952 (todas as traduções são minhas): “Eu quero morrer. Estou com medo de voltar ao passado. Eu penso em uma mulher da minha idade um século atrás. O que ela fazia quando estava angustiada?”. Ou então 18 de dezembro de 1960: “Noite crucial. Noite em sua noite. Minha noite. Minha importância. Eu mesma. A asfixiada ama a ausência de ar. Memórias de uma náufraga. Sonho de uma náufraga. O que pode sonhar uma náufraga senão que acaricia as areias da praia.” Ou o extraordinário desconforto do dia 05 de janeiro de 1961: “O horror de habitar-me, o estranho de ser minha própria convidada, meu fugaz, meu lugar de exílio.”

No dia 28 de setembro de 1962, um desejo de se proteger: “Escrever um livro em prosa, ao invés de poesia ou fragmentos. Fazer um livro ou uma habitação em que possa me abrigar.” Não foi suficiente, pois, em 25 de setembro de 1972, Alejandra Pizarnik se matou. A vida foi pesada demais para ela; os livros e as poesias já não lhe davam guarida.

Nas primeiras linhas do Diário, impregnada de alegria quase solar, Alejandra declara: “Morrer! Claro que não quero morrer! Porém, devo fazê-lo.” Quinze anos depois dessa esperança, é arrepiante ver, escrito no dia 30 de outubro de 1962, ao final de uma singela descrição do dia, a seguinte frase: “não esquecer de suicidar-se”. É importante ter método até na hora de fechar a porta e abandonar a casa.

 

Três lições sobre a vida, e as três saíram da literatura. Muitas outras possibilidades acabam surgindo dos livros, e se existe alguma coisa que as cerejas de Pushkin, o burro de Cervantes ou os pesadelos de Pizarnik trouxeram para a minha vida foram novas – e mais intensas – maneiras de ver o mundo. Mas explicar isso em duas linhas é impossível, então peço desculpas à minha equipe da gincana  – já viraram minha equipe – para revelar a resposta que dei para o que o a literatura me ensinou: ensinou-me a ser eu, nos defeitos e nas qualidades.

 

Texto originalmente publicado no link https://medium.com/colecao-dublinense/tr%C3%AAs-li%C3%A7%C3%B5es-que-a-literatura-me-ensinou-e4a1fd7148c8#.j3utcvaqu

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O beijo queimou-lhe o coração, mas persiste na sua Ideia

Assusta um pouco que, na festa em comemoração aos seus noventa anos, Bertrand Russell tenha iniciado o discurso do seu brinde com a seguinte frase: “Durante toda a minha vida ouvi dizer que o homem é um animal racional. Em todos esses anos, não encontrei nenhuma prova disso.”

É preocupante. Estamos falando de alguém que chegou aos noventa anos de idade e manifestou nunca ter encontrado um ser humano racional pela frente. E não é qualquer um que fez tal constatação: foi Bertrand Russell, uma das pessoas de inteligência mais completa que já pisou na Terra. Alguém que foi matemático e filósofo, e teve destaque nas duas carreiras. Um homem que ganhou o Prêmio Nobel de Literatura e, ao mesmo tempo, criou a Filosofia Analítica, para resumir de forma grosseira as suas qualificações extraordinárias.

Por algum tempo, torci para que fosse uma ironia de Russell, mas os anos passam – estou chegando aos quarenta -, e a verdade parece cada vez mais incontornável: está difícil achar gente racional. Os que se jactam da sua racionalidade e inteligência não raro são os mais intransigentes e cruéis, pois mascaram a sua intolerância com base em um duvidoso senso de que “eu sim sei a verdade, e não é a sua, então vou te ensinar”. Não existe debate possível quando um lado se arvora de ser o único dono da verdade.

Bertrand Russell

Bertrand Russell

Bertrand Russell defendia a liberdade. Não esta liberdade idiota dos tempos atuais, em que as pessoas são livres para dizer o que desejam, desde que concordem comigo. O filósofo pregava a liberdade que está antes  da doutrinação, na origem de tudo; a liberdade inclusive de ter liberdade, pois podemos optar por não sermos livres.

Para chegar a tal ideal, Russell estipulou um Decálogo. Não é uma ideia muito criativa, até Deus e Horacio Quiroga fizeram Decálogos; parece que, quando alguém não sabe muito o que fazer, estipula dez regras e acha que o mundo inteiro estaria melhor se as obedecesse. No entanto, o diferencial do Decálogo de Russell é que ele não tenta impor condutas, mas considera como um lembrete para o próprio indivíduo lembrar da sua liberdade de pensamento em relação aos outros:

I – Não tenhas certeza absoluta de nada;

II – Não consideres que valha a pena esconder evidências, pois as evidências sempre e inevitavelmente surgirão;

III – Nunca tentes desencorajar o pensamento, pois com certeza tu terás sucesso;

IV – Quando encontrares oposição, mesmo que seja de teu cônjuge ou de teus filhos, esforça-te para superá-la através do argumento, e não pela autoridade, pois uma vitória que depende da autoridade é ilusória;

V – Não tenhas respeito pela autoridade alheia, pois há sempre autoridades contrárias a serem achadas;

VI – Não utilizes o poder para reprimir opiniões que consideres perniciosas, pois as opiniões irão reprimir-te;

VII – Não tenhas medo de possuir opiniões contra o senso comum, pois todas as opiniões hoje aceitas foram um dia consideradas excêntricas;

VIII – Encontra mais prazer em desacordo inteligente do que em concordância passiva, pois, se valorizas a inteligência como é teu dever, o primeiro será um mais profundo que a segunda;

IX – Seja absoluto e escrupulosamente verdadeiro, mesmo que a verdade seja inconveniente, pois será mais inconveniente se tentares escondê-la;

X – Não tenhas inveja daqueles que vivem num paraíso dos tolos, pois apenas um tolo o consideraria um paraíso.

São conselhos sábios, para lembrar a nós mesmos que somos livres para pensar o que bem desejarmos. Sem doutrinações, sem imposições, sem debates infrutíferos com paredes sem argumentos. Somente nossas reflexões, e o direito de possuí-las.

Nos últimos tempos, tenho recordado muito do “Grande Inquisidor”, personagem de “Os Irmãos Karamázov”, de Dostoiévski. Estou entre aqueles que o consideram um dos grandes – senão o maior – personagem da Literatura Mundial.

Recapitulando um pouco o romance: o “Grande Inquisidor” aparece em um trecho de “Os Irmãos Karamázov”. Ele faz parte de um poema que Alexei Karamázov pretende um dia escrever. O homem resume a trama do poema para seu irmão, Ivan Karamázov, e o simples fato de um personagem acessório ganhar vida própria diz muito a respeito da genialidade de Dostoiévski.

Certo dia, Jesus resolve voltar ao mundo e está caminhando pelas ruas de Sevilha quando um enterro aparece no seu caminho. As pessoas o identificam e os pais  imploram para que ele intervenha, trazendo a criança morta de volta à vida:

“De repente, ouve-se um grito e a mãe lança-se aos Seus pés: ‘Se és Tu, ressuscita-me a filha!’ – e estende-Lhe os braços. O préstito para, pousam o caixão nas lajes. Jesus contempla-o com piedade e a Sua boca profere suavemente, uma vez mais: ‘Talitha kum’, e a moça levantou.”

No mesmo instante, passa pela praça o Grande Inquisidor e presencia a cena:

“É um ancião quase nonagenário, de elevada estatura, de rosto ressecado, olhos cavados, mas onde havia ainda uma centelha. Não traz mais a pomposa veste com a qual se pavoneava ontem diante do povo, enquanto eram queimados os inimigos da Igreja Romana. Retomara sua velha batina grosseira. Seus sombrios auxiliares e a guarda do Santo Ofício seguem-no a uma distância respeitosa. Detém-se diante da multidão e observa de longe. Viu tudo, o caixão depositado diante dele, a ressurreição da menininha, e seu rosto ensombreceu-se. Franze suas espessas sobrancelhas e seus olhos brilham com um clarão sinistro. Aponta o dedo e ordena aos guardas que prendam. Tão grande é o seu poder e o povo está de tal maneira habituado a submeter-se, a obedecer-lhe sem questionar, que a multidão se afasta imediatamente diante dos esbirros; em meio dum silêncio de morte, estes o pegam. Como um só homem, aquele povo se inclina até o chão diante do velho inquisidor, que o abençoa sem dizer palavra e prossegue seu caminho.”

A partir de então, o Grande Inquisidor procede ao interrogatório de Jesus Cristo, e toda a sua argumentação é no sentido de forçar o Filho de Deus a negar a própria condição divina. Usa ameaças, subterfúgios, arcabouços teológicos. De forma alternada, o Grande Inquisidor seduz, encanta e aterroriza. Em parte da conversa, começa-se a discutir a ideia de liberdade e de como os homens precisam ser submetidos a algo para se sentirem livres. A discussão se encaminha naturalmente ao cerne da divergência entre os dois personagens: existe livre arbítrio genuíno ou só gostamos de pensar que ele existe, mas somos escravos que sequer conseguem olhar os grilhões que nos amarram ao chão e nos impedem de voar?

The-Pope-and-the-Inquisitor

É preocupante perceber o quanto existem Grandes Inquisidores tentando tolher os nossos pensamentos e forçando-nos a negar o que sabemos. O direito de ter uma opinião trouxe consigo uma faceta desagradável, que é a tentativa de imposição das suas ideias a qualquer custo. A única coisa que pode nos ajudar é o respeito ao outro e aos seus pensamentos, mesmo que seja contrário a nós mesmos.

Por isso gosto tanto do final dessa parte de “Os irmãos Karamázov”, quando Alexei conta o final que imaginou:

“- O fim que eu tinha pensado era este: O inquisidor cala-se, espera um momento a resposta do Preso. O Seu silêncio é opressivo. O Cativo escutou-o sempre fixando nele o olhar penetrante e calmo, visivelmente decidido a não lhe responder. O velho gostaria de que Ele lhe dissesse alguma coisa, mesmo que fossem palavras amargas e terríveis. De repente, o Preso aproxima-se em silêncio do nonagenário e beija-lhe os lábios exangues. Mais nenhuma resposta. O velho tem um sobressalto, mexe os lábios; vai até à porta, abre-a e diz: ‘Vai e nunca mais voltes… nunca mais.’ E deixa-o ir, nas trevas da cidade. O Preso vai embora.

– E o velho?

– O beijo queimou-lhe o coração, mas persiste na sua Ideia.”

Mesmo corroído pela culpa, o Grande Inquisidor prefere permanecer fixo na sua visão de mundo, e também há honra em tal decisão. Não existem vencedores ou derrotados em qualquer debate de ideias. Ele defendeu a sua ideia, Jesus manteve-se fixo na sua, e ambos saíram fortalecidos. Eis o maior sintoma da falta de racionalidade dos dias atuais: achamos que o outro existe para ser convencido quando, na verdade, precisamos trabalhar melhor é o nosso próprio argumento.

 

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Texto publicado na revista eletrônica da Dublinense (26/07/2016): “As idealizações que criamos”

Na minha coluna dessa semana no Medium da Dublinense, eu falo sobre aquele velho sonho dos leitores: estar dentro da obra de um escritor.

Mas também, não sei por que cargas d’água, desando a falar sobre escritores russos que morreram prematuramente, seja em duelos, seja “suicidados”; admito que o objetivo secreto de toda a obra é mostrar um pouco de morte para o autor e para o leitor; falo de Malba Tahan (de novo, recuso-me a falar da decepção que foi descobrir que Malba Tahan não era um árabe que andava por aí resolvendo dúvidas matemáticas, é um trauma de infância) e do problema do “cálculo da metade da pena de uma prisão perpétua”; conto da polêmica briga que Émile Zola teve com Paul Cézanne, Édouard Manet e Claude Monet – inimigo pouco é bobagem – por causa do personagem de um livro; menciono as sacanagens que Hemingway fazia com o coitado do Fitzgerald, em especial o personagem que criou em homenagem a ele e termino falando da bonita amizade entre Harper Lee e Truman Capote, que começou na infância, passou por brigas contra o bullying, teve um “road trip” de escritores pelo sul dos Estados Unidos e teve o seu ápice com os dois escrevendo livros e criando personagens um em homenagem ao outro.

Boa leitura!

 

As idealizações que criamos

 

Acontece com todos nós. Em algum momento, seja de forma pública ou particular, alguém vai se aproximar e fazer a pergunta fatídica: “tal evento do seu livro se refere a algum episódio vivido?” Ou então: “o personagem tal foi baseado em alguém que você conhece?”. Existe uma curiosidade um tanto mórbida em querer saber isso. É como se a vida necessitasse constantemente irrigar a criação, como se existisse uma relação de causa e efeito entre vida e obra.

Falo isso por que, em decorrência de um curso que ministrei sobre literatura russa, acabei relendo muitas obras e notei um padrão. Durante um determinado período da literatura russa, era costume que escritores se envolvessem em duelos e, como alguns eram bons de letras e nem tanto de tiro, acabaram morrendo por causa desta tendência, como foi o caso de Pushkin e Lermontóv. Na época da revolução russa e do período soviético, um número considerável de escritores morreu na prisão e outros em suicídios mal-explicados, como aconteceu com Mandelstam, Isaac Bábel e Maiakóvski. Muitos viveram longe de duelos ou de brigas políticas, caso de Tolstoi, Akhámatova, Tchekhov e Gorki, mas os escritores de morte prematura tiveram a capacidade de entender qual era o seu destino antes dele acontecer – e deixaram obras inesquecíveis no seu curto espaço de existência. Pareciam saber que iam morrer e, antes de tal evento, escreviam de forma compulsiva. Alguns escritores são a chama duradoura de uma acha de lenha; outros, em compensação, queimam como um fogo fátuo e deixam o mundo, mas ainda recordamos da sua explosão efêmera.

Ora, se existe uma característica que nos transforma em seres humanos é justamente desconhecer o momento em que iremos morrer. Uma das obras que marcou a minha adolescência foi “O homem que calculava”, de Malba Tahan (não vou nem comentar a grande decepção que foi descobrir que Malba Tahan era um pseudônimo, eu imaginava um árabe andando por aí resolvendo problemas matemáticos, mas a vida é cheia de frustrações mesmo). Entre as situações do livro, encontrava-se a questão do vizir que, ao determinar a diminuição das penas de todos os bandidos pela metade, não soube como resolver o problema de um homem condenado à prisão perpétua. Se não sabemos quando ele morrerá, como conhecer o momento em que chegou à metade da pena? Após uma interessante elucubração, misto de filosofia e de matemática – está no livro, não irei resumir senão estragarei tudo – o sábio Beremiz Samir chegou à única conclusão possível: não sabemos quando o homem morrerá e, assim, a única forma de ser justo é mantê-lo em liberdade condicional. No prefácio da obra que recentemente recomprei, Malba Tahan admite que este caso não possui solução possível, pois ninguém sabe o término da vida de alguém. Então, o mais correto foi apelar para a Justiça e para a Compaixão do vizir, alcançando a liberdade condicional não como forma matematicamente justa, mas como o mais humano a se decidir no caso.

Ou seja, até Beremiz Samir, o homem que calculava, refugou nesta questão, mas não a arte. O verdadeiro artista tem consciência de que o seu fazer artístico é uma pulsão de morte. A criação não se vincula somente à vida, mas ao conhecimento de que a morte espreita cada passo nosso, desde o primeiro momento em que respiramos até a última lufada do anônimo ar que saciará nossos pulmões no segundo final. O fim de um livro ou de um conto é, assim como o orgasmo, uma pequena morte. Cada obra é um morrer constante e gradual, e o verdadeiro artista não se preocupa em retratar a vida através do filtro da sua arte, mas em deixar algo maior do que si mesmo.

Por isso estranho um pouco a pergunta sobre qual parte da minha vida ou das pessoas que conheço estão nas minhas obras. Parece-me óbvio que tudo o que vivi está ali – e, ao mesmo tempo, nada. Não crio voltas desnecessárias na história para comportar mensagens elípticas ou lições de moral disfarçadas, e muito menos perco tempo me vingando ou idolatrando alguém através da ficção. Meu objetivo não é retratar a vida, mas lutar contra a morte que me observa de dentro das páginas em branco. Corro contra o tempo, e aqui lembro de Marguerite Yourcenar: “Os livros não contém a vida; contém apenas as suas cinzas”.

No entanto, ao mesmo tempo em que é tudo novo, aquilo que vivi está ali, de uma forma condensada e distorcida. Eu consigo ver a fonte original de onde saiu cada detalhe do que escrevo, e me impressiono com a maneira disforme com que a ficção encara a realidade, amalgamando uma situação vivida com dezenas de relatos, de cenas de filmes, de trechos de músicas e tudo usando a imaginação como argamassa, saindo um verdadeiro Frankenstein em que distingo cada uma das partes formadoras, mas com vida própria e autônoma. Uso a realidade não para me inspirar, mas por que não consigo ficar longe de quem sou, ainda mais em algo tão íntimo quanto é escrever.

O que me faz lembrar a saia justa enfrentada por Émile Zola. Em 1886, ele lançou o livro “A obra”, em que, aproveitando a sua aproximação com os impressionistas e o fato de também fazer críticas de arte, contou a história de um pintor, Claude Lantier, que, ao contrário dos demais pintores da sua época, pretendia fugir dos temas mitológicos então em voga para retratar a fluidez da natureza. Depois de uma série de fracassos, acaba se isolando no campo, onde casa com a sua modelo, Christine, e os dois têm um filho. Resolvem voltar para Paris, para Claude novamente tentar a sorte. A morte do filho acaba gerando uma pintura baseada nele, enfim aceita pelo establishment artístico que, no entanto, acaba por ridicularizá-la, levando o pintor à loucura.

É uma história repleta de reflexões sobre o fazer artístico e sobre os limites quase insanos que separam a criação da vida. No entanto, não foi isto que fez a sua fama, mas o fato de que Cézanne – muito amigo de Zola – identificou-se com o personagem Claude Lantier e os dois trocaram uma série de correspondências enfurecidas, com Zola afirmando que fizera uma ficção e não retratara o amigo. Mas não parou por aí: tanto Édouard Manet quando Claude Monet também foram publicamente apontados como possíveis referências para o personagem principal de “A obra”, o que fez a delícia dos jornais de então. Zola sempre disse que era uma obra de cunho ficcional com base nas suas próprias observações do mundo, mas os críticos detectaram várias semelhanças do agir e do pensar de Claude Lantier com Cézanne. Além disso, uma das obras desenhadas pelo pintor ficcional é uma descrição exata de um dos quadros de Manet, “O almoço na grama” (1862).  As relações dos três pintores e do escritor se deterioraram de tal forma que nunca mais voltaram ao normal.

Édouard Manet, "O almoço no jardim"

Édouard Manet, “O almoço no jardim”

A necessidade das pessoas de acharem uma relação da obra artística com elas mesmas sempre soa um tanto arrogante. O importante para Émile Zola era fazer o seu livro criar vida, e usou as experiências de vida e as pessoas que conhecia para escrever. O fato de três pintores impressionistas se verem no interior de Claude Lantier é prova de que, ao descrever um personagem como símbolo, podemos encontrar várias pessoas no seu interior. É o sintoma da obra bem escrita: perder a sua origem e tornar-se uma universalidade indistinta de outros seres e situações.

Mas claro que artistas são seres humanos, e também possuem a vontade quase indecente de sacanear alguém. Transformar isto em algo que consiga ser uma obra autônoma e apta a ter vida própria fora do objeto da maldade, eis o verdadeiro talento. Na amizade atribulada de Ernest Hemingway e F. Scott Fitzgerald, o primeiro – que era um enorme sacana e aproveitava qualquer possibilidade literária para envergonhar ou embaraçar o colega – resolveu fazer um personagem em “As neves de Kilimanjaro” em homenagem do escritor sulista, ridicularizando a sua visão de que os problemas dos ricos são diferentes dos pobres. Hoje conhecemos o personagem como “pobre Julian”, mas, na primeira versão do livro, ele se chamava “Scott”, em lembrança direta à Fitzgerald. No entanto, o escritor reclamou para Max Perkins, e a reclamação chegou ao conhecimento de Hemingway, que trocou o nome para “Julian”, o qual, ainda assim, guardava uma última brincadeira: Julian era o personagem principal de “Uma nova folha”, conto de Fitzgerald, que o escritor próprio admitia ter baseado muito em si mesmo.

Hemingway não podia desperdiçar a piada e muito menos a chance de ridicularizar Fitzgerald, mas, mesmo fazendo isso, não perdeu o prumo da história, tanto que “As neves de Kilimanjaro” é um dos seus mais festejados contos.  Ser uma alfinetada no colega escritor não tira nada da sua força, só adiciona um pouco mais de cor a uma relação literária, imortalizando a piada.

No entanto, nem sempre a arte é usada como forma de confrontar pessoas reais com ficcionais, ou como objeto de problemas. Também pode ser uma troca de experiências e um intercâmbio de ideias, ainda mais quando as duas pessoas se dispõem a uma relação harmônica dentro e fora dos limites da obra.

Harper Lee e Truman Capote cresceram na mesma vizinhança, e eram amigos desde os cinco anos de idade. Costumavam ler em voz alta um para o outro – Harper Lee lia as aventuras de Sherlock Holmes, Capote lia as obras de Edward Stratemeyer. Eram tão amigos que a escritora não raro entrava em brigas no colégio, protegendo o vizinho do “bullying” praticado pelos demais colegas. Quando tinha quatorze anos, o pai de Harper Lee presenteou-lhe com uma máquina de escrever, e os dois passavam as tardes ditando histórias para o outro datilografar.

Harper Lee e Truman Capote

Harper Lee e Truman Capote

A relação se estendeu pela vida. Quando Truman Capote escreveu “A sangue frio”, Lee foi a sua assistente de pesquisa, primeira leitora e revisora, ao ponto de não poucos críticos acreditarem que ela escreveu parte do livro e nunca ganhou o merecido crédito. Apesar de insinuarem que os dois escritores tinham brigado por ausência até de uma menção a Harper Lee, isto não ficou evidente em nenhum momento. Inclusive, dois anos após o lançamento de “A sangue frio”, Capote e Lee decidiram fazer uma viagem de carro pelos locais da sua infância, mostrando a solidez da sua amizade. Quando perguntada quem era os maiores escritores que conhecia, Harper Lee sempre citava Capote, e a recíproca também acontecia.

Tal relação não podia ficar longe das suas obras e, assim, em “O sol é para todos”, Harper Lee fez um personagem claramente decalcado em Truman Capote, Dill Harris, e muitos dos diálogos estabelecidos com Scout são conversas que os dois escritores mantiveram na vida real. Em retribuição, Truman Capote retratou a amiga como a personagem Idabel Thompkins em “Outras vozes, outros lugares”, uma menina que se vestia como rapaz (“tomboy”), vivaz, alegre e com respostas rápidas. Foi a forma que ambos encontraram de prestar tributo à relação de amizade que os unia: trazê-las para dentro de uma obra literária e gerar uma outra pessoa, alguém que lembra o outro mas não é ele, possuindo vida própria.

Apesar de acharem que somente artistas possuem esta capacidade de distorção do real para colocar na sua obra, é um processo que todos nós fazemos. Nunca vemos a realidade do outro, ela está sempre misturada com a nossa imaginação e com pensamentos pré-concebidos. Não nos inspiramos em fatos reais ou em pessoas existentes, mas eles servem de argila para que possamos criar um mundo idealizado, e isto existe em todos os lugares, seja na pessoa que começa uma relação e vê o espectro de outras no seu interior, seja naquele que jura não cometer os mesmos erros de sempre – e os comete, inapelavelmente.

Criamos obras artísticas para afastar a morte e, no meio do caminho, acabamos achando as vidas não só que passaram pelo nosso caminho, mas as vidas que sequer imaginamos ser capazes de tocar. Vivemos melhor quando sabemos que podemos morrer a qualquer momento e, da mesma forma, chegamos mais perto da essência dos outros se sabemos ser somente uma passagem, e não um fim. Quando Zola cria um personagem que junta três pintores em um só corpo, ou quando Hemingway debocha de Fitzgerald no interior de um conto, ou quando Harper Lee e Truman Capote colocam a amizade de uma vida inteira dentro das suas obras, não estão fazendo nada diferente do que fazemos todos os dias: olhar a vida dos outros e tentar entendê-las do nosso jeito. Fazer perdurar o instante até o infinito.

Texto originalmente publicado no link https://medium.com/colecao-dublinense/as-idealiza%C3%A7%C3%B5es-que-criamos-f689cb607342#.yhdjclb0f

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Texto publicado na revista eletrônica da Dublinense (19/07/2016): “O lado bom de cometer erros e de não entender algo”

Na minha coluna no Medium da Dublinense, falo de como pode ser bom cometer erros e não entender direito as coisas que estão por este mundo.

Aproveito para falar de quando era metaleiro – up the irons! – e de como a interpretação errada de uma música do Metallica me fez ler a obra completa do Lovecraft com o auxílio esforçado de um Dicionário Michaelis de Bolso; conto os eletrizantes eventos que se sucederam no Salão de Artes da Academia Real Francesa em 1833, quando William Turner enfrentou John Constable e depredou a própria obra para aniquilar com o concorrente; menciono a diferença grotesca existente entre Hercule Poirot, da Agatha Christie, e Sherlock Holmes, do Conan Doyle, e encerro falando do conjunto de tapeçarias “Caçada ao Unicórnio”, feito entre 1495 e 1505, e que possui mais mistérios do que certezas.

Boa leitura!

 

O lado bom de cometer erros e de não entender algo

 

Nem sempre é bom estar certo, às vezes o erro é o nosso maior amigo. Aprendi mais com meus equívocos do que acertando. Foi o que aconteceu com a minha leitura de Lovecraft. A minha introdução à obra do escritor americano, pai dos Old Ones, foi, para dizer o mínimo, lovecraftiana. Existiu um tempo da minha vida em que fui metaleiro. Na verdade, ainda sou, mas agora atuo de forma discreta e disfarçada; deixei para trás os tempos de cabelos compridos e de ódio visceral a tudo que não servisse ao Deus Metal – hoje sou uma pessoa mais calma, ainda que somente por fora. Foi na condição de metaleiro que, ao escutar o álbum “Master of Puppets”, do Metallica, descobri uma música chamada “The thing that should not be” (em uma tradução livre, poderia ser tanto “a coisa que devia não ser” quanto “a coisa que devia não estar”). Um título que me atraiu desde o início, apesar da música não ser a minha favorita; sempre fui uma pessoa ligada mais à ideia do que à forma das coisas.

Naquela época, nos primórdios da internet, não tínhamos acesso a muita informação, e em uma revista descobri que a música se relacionava ao universo de Lovecraft. Com paciência – pois quase não existiam obras dele traduzidas no Brasil e, se existiam, passavam longe das livrarias de Porto Alegre – encontrei os textos e li no original, com extrema e absoluta dificuldade. Só quem leu Lovecraft sabe que o inglês dele já é complicado para um nativo de língua inglesa, o que dizer para um rapaz de seus 15 ou 16 anos portando somente um Dicionário Michaelis de Bolso para dominar o mundo. Traduzi de forma precária as histórias e, com relação às muitas palavras que escapavam dos limites do dicionário e que não conseguia encontrar sentido algum, eu imaginava um sentido para prosseguir a leitura (Cícero e São Jerônimo, cujas teorias tradutórias estudamos tanto, devem estar dando piruetas dentro dos seus túmulos após tal confissão). Hoje posso dizer que metade do que li do Lovecraft está escrito e a outra metade foi imaginado, a ponto de, quando estou relendo alguma história atualmente, ter a pretensão de pensar “opa, está tudo errado!”. Aliás, minhas versões internas para as histórias lovecraftianas são muito legais, mas não competirei com a realidade. O livro é um autor e as suas circunstâncias. Ler também é um ato de subversão e de criação.

Por muito tempo procurei a história que contivesse a expressão que me encantara, e nunca encontrei. Achava que fosse algum problema na minha busca, mas algumas semanas atrás me disseram a dura verdade: Lovecraft nunca escreveu “the thing that should not be”. Ela foi criada pelo próprio Metallica para intitular a música composta em homenagem ao autor de “O chamado de Chtulhu” e de “A busca onírica por Kadath”. Parti de um pressuposto errado – uma música que homenageia Lovecraft precisa ter origem na sua obra – e esqueci que poderia ser inspirada pelas suas criações. Um erro de principiante, admito.

chtulhu metallica

Ao tentar encontrar algo que não existia, acabei chegando a uma série de outras descobertas. Qualquer pessoa se irritaria ao perceber que passou dois anos da adolescência perdido na caçada inútil a uma expressão, mas esse equívoco me forçou a ler obras que, de outra forma, não leria, além de testar meu inglês até os limites do impossível – ao ponto de me fazer criar substitutos imaginários para as palavras que não conseguia decifrar. O erro foi mais importante do que o acerto. E se hoje as histórias de Lovecraft se entrelaçam com aquelas que criei e com as histórias de outros, todas em uma alegre confusão intertextual dentro da minha cabeça, não foi por causa dos livros que li intencionalmente, mas graças àqueles a que cheguei em virtude do equívoco.

Ninguém está livre de errar, mas dentro do erro pode estar o acerto. Nem tudo está ao alcance do olhar; às vezes, a verdade pode estar escondida justamente diante dos olhos, debochando da nossa sanidade, pois conseguimos ver que estamos quase atingindo a elucidação completa. Tão próximos, tão longínquos.

É preciso coragem para retificar um problema ou admitir que se errou, ainda mais publicamente. Foi o que o pintor William Turner fez no Salão de Artes da Academia Real Francesa em 1833, ainda que seu gesto tenha sido interpretado como uma atitude de desafio e não a correção de um equívoco. O quadro “Helvoetsluys”, de Turner, foi posto ao lado de “A abertura da ponte Waterloo”, uma pintura que John Constable, seu maior adversário, ficara preparando durante 10 anos. Naquela época, antes de abrir a exposição ao público, os pintores tinham o direito de fazer os retoques necessários na obra até um dia antes e assim, enquanto Constable fazia mais e mais retoques, Turner ficava entrando e saindo da sala, observando o outro à distância.

Turner não resistiu e, com um amigo pintor, comentou em voz alta sobre os tons de vermelho usados pelo inimigo, sabendo que ele escutava a crítica. O clima era tenso. Em certo momento, William Turner saiu da sala e, ao voltar, dirigiu-se até o seu próprio quadro e, com um pincel cheio de tinta vermelha, colocou uma grosseira mancha vermelha no meio do mar. Em seguida, saiu do salão. Ninguém entendeu a sua atitude de estragar o próprio quadro com um borrão vermelho em meio ao azul, ainda mais sabendo que a sua reputação estava em jogo e justo ao lado do seu maior adversário. Todos consideraram um ato de auto-sabotagem de Turner, uma conduta destrutiva típica de um artista indeciso.

No dia seguinte, faltando alguns minutos para o término dos ajustes nas obras deixadas para exibição, Turner voltou a entrar no salão. John Constable continuava retocando “A abertura da ponte Waterloo”. Sem pestanejar, o pintor dirigiu-se até “Helvoetsluys” e, com um movimento delicado do dedo, refez a mancha vermelha depositada no dia anterior, transformando-a em uma boia perdida em meio ao mar. Realizado esse gesto, novamente virou as costas e foi embora.

O som de admiração percorreu o local. O quadro acabava de ganhar um outro sentido: ao invés de retratar barcos preparando-se para uma batalha, ele se tornara o testemunho da derrota e do naufrágio que se sucederia. Os barcos não estavam indo para a batalha, mas se preparavam para sua derrocada final, em que a boia era o indicativo solitário do desastre que se prenunciava. John Constable deixou o descontrole tomar conta de si, afirmando para um colega artista “Ele [Turner] esteve aqui e disparou uma arma!”.

No dia seguinte, os críticos foram unânimes em elogiar William Turner e seu “Helvoetsluys”. Para Constable, que infelizmente estava ao seu lado, foram reservadas críticas pesadas para o trabalho preparado durante dez anos. “Muito inacabado, senhor”, falou Thomas Stothard. O jornal The Morning Herald levou a ofensa a um novo nível: “O senhor Constable pelo visto pensa ser um Turner”.

"Helvoetsluis", de William Turner

“Helvoetsluys”, de William Turner

Todos consideraram o gesto tresloucado de Turner uma maneira de humilhar o adversário, ridicularizando a forma obsessiva com que se entregava aos detalhes. Para Turner, o pintar era uma atitude orgânica, que antecedia o raciocínio lógico, o contrário do que John Constable imaginava como o ideal de arte. No entanto, é grande a tentação de imaginar que, observando “Helvoetsluys” à distância, Turner tenha enfim visto o que estava faltando na sua própria obra, retificando a omissão de forma violenta, incompreensível para os outros, mas fazendo todo o sentido para ele mesmo. O espectro da boia vermelha estava o tempo inteiro ali, o autor da pintura que não a tinha notado até quase ser o momento final.

Todos os indícios de fazer algo de forma correta estão ao alcance dos nossos sentidos, nós que insistimos em negar a verdade. Até por que ter a coragem de mudar um erro e agir de forma destrutiva contra si mesmo como Turner fez, destruindo o quadro que pintara com tamanho empenho para refazer o seu sentido diante dos olhos do público, demanda uma grande dose de coragem. Quem de nós seria capaz de retificar um erro ou omissão a qualquer custo, mesmo perdendo reputação ou prestígio?

Assim como é preciso coragem para corrigir um erro, é um talento esconder a verdade diante dos olhos de todos, impedindo-os de ter a compreensão total da situação que, ao mesmo tempo, possui todos os elementos para ser decifrada ao alcance dos sentidos. É a crítica que se faz na comparação entre Sherlock Holmes, de Conan Doyle, e Hercule Poirot, de Agatha Christie: enquanto as histórias policiais de Agatha Christie possuem todos os elementos necessários para o leitor chegar sozinho ao culpado, os contos protagonizados por Sherlock Holmes possuem informações que somente o detetive conhece, retirando-os da cartola no momento de decifrar o mistério. Por esse ângulo de análise, Agatha Christie leva vantagem. O leitor pode decifrar o mistério; todos os dados estão ali, tudo depende somente da sua inteligência.

No conjunto de tapeçarias “Caçada ao unicórnio”, feitas entre os anos de 1495 e 1505, todos os elementos estão disponibilizados para quem contemplá-la. Ainda assim, não conseguimos entender direito o símbolo colocado à nossa vista. Para começar, ninguém sabe quem a teceu, o que ajuda a dificultar um eventual entendimento. Além disso, desconhecemos quantas peças constituíam o trabalho original: se eram as sete tapeçarias que hoje conhecemos ou se existem mais que ainda estão perdidas. Existem dúvidas inclusive se elas foram tecidas para serem exibidas ou se eram para adornar um quarto ou sala de jantar. Uma das poucas certezas que rondam esta série de tapetes é o fato de que elas nunca foram dependuradas em sequência, ficando sempre separadas uma das outras; quem orquestrou as tapeçarias tinha noção de que cada quadro funcionaria de forma individual, e que juntos comporiam uma história inteira, a qual nunca seria plenamente conhecida, a não ser pelo seu autor.

Tapeçaria "Caçada ao Unicórnio"

Tapeçaria “Caçada ao Unicórnio”

Tentando analisar a imagem, os mistérios somente se aprofundam. O que representa o unicórnio? Quem são as pessoas ocupadas em caçar e destruir o animal mitológico? As interpretações são as mais variadas: para quem estuda os mitos cristãos, o conjunto de tapeçarias representa a Paixão de Cristo; o unicórnio seria uma forma encontrada para representar Cristo, e toda a descrição da sua morte seria uma bem construída imagem religiosa, sem esquecer a crítica embutida em meio às imagens (foi o rei quem ordenou a morte do unicórnio e recebe a sua carcaça, ou seja, seria uma versão moderna de Pôncio Pilatos).

Mas também existe a interpretação gótico-romântica, em que o unicórnio representa o mistério, a magia, o encantamento, que é ardorosamente perseguido pelas pessoas ansiosas para destruir aquilo que não entendem. Nesse caso, o unicórnio seria um símbolo para o amor idealizado, e a sua caçada e morte seria atingir tal sentimento. Ainda há quem veja na série de tapeçarias uma construção inclusive artística, em que as pessoas comuns caçam a nova forma de arte – o unicórnio – e, ao alcançá-la, acabam por destruí-la, invejosos por não serem capazes de imitá-la.  Assim, o artista – ou a própria noção de arte – seria o elemento que deve ser perseguido e aniquilado pela sociedade.

Tapeçarias são interessantes, pois tudo está à vista e, ainda assim, temos mais dúvidas do que certezas. Vale recordar “A dama e o unicórnio”, um conjunto de tapeçaria altamente sensual retratando o amor, ao mesmo tempo cândido e erótico, de uma mulher por este ser mitológico. Deixar tantas dúvidas é permitir que, ao tentar interpretar, cometemos mais erros do que acertos e, na mesma forma do erro que me guiou até a leitura da obra completa de Lovecraft, muitas pessoas acabaram criando novas obras ao ver as possibilidades de significados que continuam inacessíveis no interior de “Caçada ao unicórnio”.

Não entender algo e sentir-se livre para errar, eis a força motriz do nosso progresso. Se eu fosse resumir a minha vida, não incluiria as epifanias, descobertas ou vitórias, mas as grandes burradas e incapacidades de compreensão que, enquanto tentava responder, acabaram me forçando a evoluir. Pois ser uma pessoa melhor é isso: errar até cansar e, no meio de tantos erros, colher alguns acertos.

Texto originalmente publicado no link https://medium.com/colecao-dublinense/o-lado-bom-de-cometer-erros-e-de-n%C3%A3o-entender-algo-738a63fae282#.77642l632

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