Obras Inquietas – 47. “A lição de anatomia do Dr. Frederik Ruysch” (1714), de Jan van Neck

Em virtude de ter passado duas semanas viajando e palestrando por aí, atrasei as colunas do “Obras Inquietas”, motivo pelo o qual me puxaram as orelhas em mensagens.

No meu retorno, tratei de “A lição de anatomia do Dr. Frederik Ruysch” (1714) do pintor holandês Jan van Neck. Poderia ter escolhido outras versões da mesma ideia, inclusive mais famosas, como a de Rembrandt: existiu uma época na História da Arte em que era frequente pintores retratarem aulas de anatomia, o que por si só daria um longo texto. Optei por essa de van Neck por que, entre elas, é a que mais recordo, talvez pelo fato de ser a autópsia de um recém-nascido, talvez pelo detalhe destoante da criança assombrada que segura um esqueleto no canto da imagem. Existe algo de perturbador na calmaria aparente dessa pintura e, se não sou capaz de detectar, o quadro merece estar elencado nessa minha lista de perturbações.

Boa leitura.

“A lição de anatomia do Dr. Frederik Ruysch” (1714), de Jan van Neck

Um corpo não passa de um aglomerado de órgãos, músculos e sangue impulsionados por um espírito. Por favor, esqueçam o horror enquanto presenciam a curiosidade quase sádica dos homens ao redor da mesa, para quem o cadáver da criança é um mero objeto de estudo, e nada mais. Eles não pensam na vida que animava esse corpo ainda fresco até alguns minutos atrás, não pensam no ronco de esperança que brotou dos pulmões e, em seguida, desapareceu, não pensam no aspecto lívido da pele que esperávamos rosada, macia, tenra, e agora tem o tom marmóreo da ausência, não pensam no choro da mãe ou nos soluços do pai a ecoar pelo corredor vazio. A ciência não pode se dar ao luxo de ter piedade. Ignoram o olhar espantado do menino que segura o esqueleto do bebê; ele não consegue entender que sentimentos atrapalham o progresso e que os homens reunidos naquela sala, que dissecam o cadáver como se estivessem olhando uma borboleta morta, fazem aquilo pelo bem de todos. Somente quem se afasta da Humanidade é capaz de desvendar o humano. Mesmo assim, por maior o nosso desejo de frieza, impossível não olhar o cadáver diminuto estendido sobre a mesa e pensar em tudo aquilo que ele deixou de viver, em todas as sensações que não teve tempo de sentir, em todos os sorvetes que não comerá, em todos os sorrisos que não dará, em todos os beijos que lhe serão negados, enquanto a curiosa pinça esgravateia o corpo sem defesas e a placenta jaz sobre a mesa, morta. Pior do que morrer é nem ter a chance de ter vivido.

Texto originalmente publicado no link https://artrianon.com/2017/10/22/obras-inquietas-47-a-licao-de-anatomia-do-dr-frederik-ruysch-1714-jan-van-neck/

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Obras Inquietas. 46 – “O homem em queda” (2014), James Wedge

Nessa semana, na minha coluna no “Obras Inquietas”, eu tratei de uma pintura de James Wedge chamada “O homem em queda”. A postura do homem em queda infinita e para sempre não-concretizada lembra uma fotografia icônica do século XXI, também chamada “O homem em queda”, de Richard Drew, que mostra um homem despencando para a morte após o atentado nas Torres Gêmeas nos Estados Unidos, em 2001.

Existe algo de terrível e de poético na forma com que o corpo se entrega à inevitabilidade da queda, desfazendo-se enquanto mergulha na direção de algo que não sabemos.

Boa leitura.

“O homem em queda” (2014), de James Wedge

 

Ninguém sabe precisar o momento – ninguém sobreviveu o suficiente para contar – mas existe um instante, um segundo talvez (um segundo no meio da eternidade da queda possui todos os tempos do mundo no seu interior), em que a barreira do corpo cede ao fascínio de despencar no abismo e o que era carne vira vento, o que era osso vira graveto, o que era sangue vira medo. Nesse fugaz momento, impregnado de delírio e de horror, o espírito perde as comportas que lhe confinavam no interior de pele e músculo e sente, pela primeira vez, as responsabilidades de ser livre. Nunca ficamos tão próximos de algum Deus quanto agora, o segundo em que perdemos os limites. Suspenso em uma queda que nunca será concretizada, o homem persiste caindo agora e para todo o sempre, desfazendo-se como poeira que volta a encontrar o seu destino, como deserto ondulando em dunas instáveis. O desconhecido – será um de nós? Será alguém que amamos? Será aquele para quem não estendemos a mão na hora certa, ou para quem faltou a palavra que poderia ter sido a âncora salvadora? – atravessa o vazio e se identifica com ele, lutando para manter uma coesão que, em breve, será destruída pelo concreto da realidade. Existe algo de conformismo no homem em queda; podemos escutar o grito que ele não solta ou imaginar os pensamentos que se destroçam na sua consciência esperando a chegada do fundo, do chão, do local em que a morte lhe espera sem ansiedade, enquanto olha para cima e vê o céu tão azul conspurcado por uma sombra que corre em sua direção.

Texto originalmente publicado no link https://artrianon.com/2017/10/01/obras-inquietas-46-o-homem-em-queda-2014-james-wedge/

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Os polemistas

Estão por todos os lugares, os polemistas, e essa é uma das suas principais características: a onipresença. A capacidade de dar o tapa, esconder a mão e apontar para outra pessoa na multidão. O aparente desdém com que iniciam uma briga inócua e depois recuam um passo, vendo a multidão se alvoroçar em dois lados vociferantes de ódio. Quando isso acontece, ele se retira até um canto e espera os momentos em que uma voz racional se erguerá tentando acalmar as fúrias. Nesse momento, o polemista precisará intervir, gerando novas ondas de raiva. Para essa figura, o diálogo é algo perigoso – tudo o que importa é a discussão.

De tão esperto na criação da sua imagem, o polemista se esconde atrás de múltiplos nomes. A melhor maneira de desaparecer é estar sempre diante dos olhos alheios até que não sejamos mais capazes de percebê-lo – como um tapete ou uma escada. Assim, ele pode ser chamado de “comentarista”, de “mediador”, de “debatedor”, de “formador de opinião”. São eufemismos para esconder a realidade: o polemista não tem opinião própria. Ele se alimenta das ideias alheias da mesma forma que uma sanguessuga exaure alguém. É um parasita do êxito que nunca lhe pertencerá. Assim como Nero queimando Roma para fazer uma música, o polemista olha o mundo desmoronar, e o sorriso habita seus lábios, pois, para ele, não há maior emoção do que ver os outros brigarem por nada.

Algumas pessoas inclusive consideram o polemista inteligente! Serão capazes de defendê-lo até a morte, pois enxergam nele um reflexo das suas ideias, ao invés de vê-lo como um espelho frio e distante que reflete somente aquilo que os outros querem ver. Inclusive o polemista inicia a conversa anunciando com a maior desfaçatez, “hoje vou fazer uma polêmica”, como se fosse um grande esforço, e todos aplaudem o vazio que é criar um debate sem a mínima intenção de melhorar o mundo, só deixá-lo pior e mais afundado na areia movediça.

O verdadeiro polemista percebe qualquer fala como uma possibilidade de gerar discórdia. Não escuta o outro, mas o analisa com a intenção de destruí-lo; procura brechas, titubeios, incoerências, e nelas concentra a sua “análise”. Uma palavra no calor do momento, e o polemista chamará a atenção da urbe até então indiferente, colocando-a sob o microscópio, vendo significados e sombras que provem a sua tese. Pois um polemista que faça jus a tal conceituação começa de uma tese e depois procura evidências que a suportem, jamais seria capaz de colher provas para depois concluir: seria horrível se as suas ideias prontas desmoronassem diante da dúvida.

O bom polemista usa chavões e palavras de ordem – existe maneira melhor de evitar o raciocínio do que se refugiar em clichês? Possui a capacidade de distorcer ideias e frases até que encaixem em alguma polêmica. Sobe aos limites rarefeitos das palavras e pretende discutir conceitos que levam a buracos negros argumentativos, para então poder declarar, triunfante, “eu sempre soube!” Quando não consegue isso, ressuscita alguma questão antiga, e olha as mesmas velhas discussões ressurgirem, renovadas. O polemista tem medo da criatividade ou de ideias jovens: prefere o ranço das discussões cansadas ao invés de se esforçar lendo ou estudando novos assuntos.

Ninguém conhece a obra do polemista, pois ele é incapaz de construir: nunca teve a angústia de erguer o edifício de um texto no meio da planície deserta da folha; nunca encostou o pincel em uma tela e perguntou-se se aquele risco de cor estava destinado à glória ou ao fracasso; nunca teve pesadelos com notas musicais atropelando-se em busca de uma ordem no meio do caos do silêncio. Da mesma forma que um abutre, ele adeja sobre a vida do outro, ansioso para cravar o bico nela e, ao menos, sentir alguma emoção genuína – a destruição. Para isso a claque é essencial: qual a graça de destruir se não existir aplausos no fundo? Contudo, a destruição promove uma satisfação momentânea, que o levará à outra destruição, e depois outra, como um Genghis Khan para sempre infeliz, ao passo que a criação – ah, o prazer dela é insuperável.

Outra característica interessante: os polemistas acham que estão salvando o mundo. Eles realmente acreditam que são essenciais, de que polêmicas levam à mudança de paradigmas, de que é bom fazer o povo se agitar com discussões estéreis. Pensam estar fazendo um favor, mas isso por que confundem a sua posição com a dos argumentadores. Esses sim têm ideias próprias, têm bagagem cultural, têm capacidade de defender um ponto de vista com tanta lógica e coerência que até mesmo o mais encarniçado dos adversários – apesar de discordar – reconhece valor nos pensamentos do outro.

O polemista pensa que tocar napalm em uma floresta é a melhor maneira de vencer o “inimigo”(considerado infantilmente como todo aquele que não comunga dos seus pensamentos). Mal sabem que, assim que a onda de napalm passar, a ideia continuará de pé no meio do campo devastado, encarando o outro com um sorriso de piedade nos lábios. Pois essa é a melhor e única forma de vencer um polemista: mostrar ao mundo o vácuo que habita no seu interior. Mostrar que ideias são à prova de balas – e de tiros de festim.

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Obras Inquietas – 45. “Cão atacando gansos” (1769), Jean-Baptiste Huet

Quem acompanha minhas colunas sabe que gosto de quadros que narram cenas de alta tensão e que estão concentradas em um momento no qual o terror e a beleza confluem como uma pororoca, e esse é o caso da pintura que tratei no “Obras Inquietas”. Em “Cão atacando gansos” (1769), de Jean-Baptiste Huet, a cena revela uma luta feroz pela vida, em que um lado está fragilizado por causa do amor e o outro se sente poderoso pela imposição física – algo que vemos muito por aí.

Boa leitura.

“Cão atacando gansos” (1769), Jean-Baptiste Huet

É no silêncio do anônimo desfiladeiro que se travará a luta decisiva. De um lado, o cão imerso em ferocidade mal esconde a raiva com que contempla as suas futuras vítimas, os dentes salivando de antecipação; do outro, o casal de gansos antepõe seus corpos diante do inimigo, protegendo a ninhada ainda indefesa de filhotes. Sob a pata do cão, os gritos agônicos de um ganso demonstram que esse é um cadáver que ainda respira por uma mera questão de tempo. Os gansos sabem que não possuem chance alguma, mas precisam lutar a batalha impossível e o farão com dignidade. Não existe a possibilidade de virar as costas e fugir, não podem abandonar os filhotes à própria sorte (apesar desse pensamento incômodo às vezes surgir como uma sombra no meio dos olhos injetados de pavor). Eles agitam as asas e grasnam com tons ameaçadores, rezando para assustar o cão, mas o inimigo traz consigo o hálito sombrio da morte, e sustenta a posição, premido pela fome que o faz investir contra a família de animais. A morte nunca é algo pessoal, mas necessário: hoje são os gansos, amanhã quem sabe se não será o cão quem restará acuado? A angústia da cena é palpável, assim como a impressão de que somos os gansos encarando a inexorabilidade do assassino que enfim colocará um termo à nossa vida, e tudo o que podemos fazer é rezar para que o inimigo mostre piedade, só um pouco, e que seja rápido e indolor com nossos entes queridos. Ave caesar imperatori, morituri te salutant, e assim os gansos lutam não para vencer, mas para que seus filhotes possam sobreviver mais alguns minutos em meio a esse mundo impregnado de crueldades e certezas.

Texto originalmente publicado no link https://artrianon.com/2017/09/24/obras-inquietas-45-cao-atacando-gansos-1769-jean-baptiste-huet/

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As pessoas sempre nos decepcionam

Se decepção matasse, hoje eu cairia morto.

O último baluarte da decência e da civilização acaba de desmoronar diante dos meus olhos, confirmando a constatação a que cheguei algum tempo atrás: as pessoas sempre nos decepcionam. Algumas antes do imaginado, outras depois, mas, no final das contas, elas acabam desapontando.

Estou lendo “Heróis”, de Lucy Hughes-Hallett, um livro que trata de como a Humanidade sempre temeu – e buscou – figuras individuais que poderiam ser consideradas como “salvadores da pátria”. O problema é que a característica maior do herói é ser imprevisível, louco e desprovido de padrões morais, ou seja, como diria Brecht (mas por um outro lado), “pobre do país que precisa de heróis!”. Segundo a autora, os heróis oscilariam entre dois extremos: a fúria de Aquiles ou a esperteza de Ulisses. Usando essa base como paradigma, ela analisa Alcibíades, Catão, El Cid, Francis Drake, Wallenstein e Garibaldi.

Sempre tive como uma das minhas mais inabaláveis certezas o fato de que Catão foi um dos últimos homens de verdade que pisou no planeta, e olhem que ele viveu entre os anos de 95 a.C e 46 a.C. Nós todos, os outros humanos, não passariam de meros arremedos, de pálidas sombras da grandiosidade daquilo que Catão representou.

Catão foi o homem incorruptível. Alguém que esteve diante de todos os tipos de tentação e nunca cedeu a elas. Um roched0: incapaz de contemporizar, de buscar o caminho cômodo, de ceder um milésimo que fosse nas suas convicções. Um exemplo de decência e de integridade moral em uma época de devassidão e de valores conspurcados. Um homem que fez tremer gigantes do porte de Júlio César, Virgílio, Cícero, Pompeu e tantos outros.

Não sou somente eu quem admira Catão. Ele tem um conjunto de fãs realmente invejável. Citarei alguns: Cícero afirmou “sozinho, ele [Catão] vale mais do que cem mil outros”. Horácio, que escreveu a “Arte poética”, elogiou o seu “coração feroz”. O grande Lucano o chamou de “godlike”, em uma época que tal comparação era uma ofensa religiosa, mas ninguém foi capaz de contestá-lo. São Jerônimo afirmou que Catão possuía uma glória que não poderia ser aumentada por louvações e nem diminuída por censura. Virgílio disse que gostaria de passar a Eternidade nos Campos Elíseos ao lado de Catão. Dante Alighieri colocou todos os suicidas no círculo mais baixo do Inferno, menos Catão, que foi promovido a guardião do caminho que leva do Inferno até o Purgatório. E o florentino ainda afirmou na “Divina Comédia”: “E que homem sobre a Terra é mais merecedor de representar Deus que Catão? Nenhum, certamente.” Mais “fanboy” impossível.

Não. Catão teve um admirador ainda mais apaixonado, o filósofo francês Michel de Montaigne, que escreveu:

“Eu rastejo em lama mundana, mas não deixo de ver no alto das nuvens as incomparáveis estaturas de certos espíritos heróicos, dos quais o mais sublime era Catão, esse grande homem que foi verdadeiramente um modelo escolhido pela Natureza para mostrar o quão longe a virtude humana e a coragem podem chegar. (…). Catão era um homem diante de quem até mesmo os loucos escondiam seus defeitos.”

Catão

Imaginem um homem que não se dobra nunca. Imaginem alguém que não tenha medo de desagradar outras pessoas e cujo único compromisso é com as suas posições morais. Além disso, Catão era rabugento, mau humorado e não tolerava brincadeiras, piadas e nem distrações pueris. Segundo Plutarco, Catão deixava os grandes homens de Roma angustiados, pois a sua retidão moral os envergonhava pela impossibilidade de imitá-lo. Quando alguém via Catão no júri e era culpado, recusava-se a ser julgado e assumia logo a culpa. Por isso, ele é encarado por muitos como eternamente fadado à derrota (temos como vencer sendo sempre inflexíveis ou a vitória só pode ser atingida com contemporizações e concessões?), mas também é visto como a necessária bússola moral em uma época na qual ela fazia uma falta gigantesca.

Dispondo somente da sua voz, do conhecimento das leis e da certeza que tinha sobre a própria retidão, Catão acreditou que bastava existir um único homem correto para corrigir o mundo. Uma andorinha pode, sim, fazer verão. E tão forte era a sua crença nisso que a sociedade romana lhe temia e respeitava no que foi considerado um dos mais estranhos cultos à personalidade de todos os tempos, pois ele não era belo, não era um prodígio de inteligência, não tinha fama e nem fortuna – possuía somente a cegueira da própria moralidade, e isso bastava para aterrorizar todos.

Um louco, vocês dirão. Mas, e se Catão for o único certo e nós todos estarmos errados até hoje? Impossível não rir ao pensar que Sêneca, quase cem anos depois da morte do senador romano, imaginou Júpiter descendo até a Terra em busca de um exemplo de grandeza humana e vendo o “espetáculo de Catão… de pé, ereto, em meio às ruínas do Império.” O mesmo Sêneca que, vivendo sob a sombra de Nero, manifestou a sua admiração dizendo que “ninguém jamais viu uma transformação sequer em Catão”. Assim como as baratas resistem às bombas nucleares, somente Catão era capaz de sobreviver moralmente ao escrutínio do mais poderoso dos deuses.

Não vou contar todas as histórias de Catão. Basta saber que ele foi o único homem capaz de se contrapor a Júlio César olho a olho e não esmorecer, nem mesmo no momento da sua morte. César nunca reconheceu virtudes no inimigo; odiava-o com todas as suas forças, talvez por ver nele uma integridade moral inatingível para qualquer ser humano normal. Durante 17 anos os dois se enfrentaram nas ruas de Roma, em debates no Senado, em lutas, votações e polêmicas. Ao final, como a História sabe, Catão acabou vencido em Útica e, assim, definiu-se o destino de Roma. O episódio incrivelmente violento da sua morte demonstra a fortaleza moral e a inescapabilidade dos parâmetros morais que constituem a tônica da sua vida – após ler “Fídon” de Platão duas vezes, Catão dormiu calmamente e, quando despertou, enfiou a espada na própria barriga. Ao perceber que corriam para tentar salvá-lo, com as suas entranhas saindo pelo talho, o homem empurrou o médico que tentava suturar a ferida e rasgou de novo o próprio ventre, enchendo o quarto inteiro de sangue.

Ao lado dos demais admiradores de Catão, sempre o tive como um modelo impossível de ser alcançado. Confesso ser incapaz de guardar parâmetros morais rígidos, pois ter essa conduta é condenar-se à morte ou ao ostracismo, ainda mais na sociedade atual, na qual valores morais são prova de fraqueza ou de debilidade do espírito. Assim como Sêneca, imaginava que, se existisse uma pessoa capaz de encarar o próprio Deus (ou Júpiter ou Alá ou Shiva) no olho e constrangê-lo com a sua convicção serena do que é certo, esse homem só poderia ser Catão. Era uma das poucas certezas que eu possuía – isso até eu descobrir uma história estarrecedora, algo que manchou de forma indelével a sua imagem.

Catão também tinha um podre. Contam os historiadores – e com provas documentais ainda por cima, ou seja, nem o conforto de ser uma tentativa de enxovalhar a sua imagem me salva – que Catão estava casado com sua segunda mulher, Márcia, com quem já tivera dois filhos (e ela estava grávida do terceiro) quando foi abordado por Hortêncio, o único advogado que conseguia vencer Cícero no Senado. Esse advogado queria estreitar os laços com Catão por intermédio da junção de suas famílias, e pediu em casamento Pórcia, a filha mais velha do inflexível romano. Ele recusou, pois Pórcia estava casada com outro cidadão. Diante da insistência de Hortêncio, Catão pensou em uma solução intermediária: decidiu divorciar-se da sua mulher grávida e casá-la com o outro homem. A condição era que, tão logo os dois tivessem um filho, juntando as duas famílias pelo vínculo de sangue, Hortêncio se divorciaria e Márcia voltaria a casar com Catão. Um “troca-troca” de famílias em Roma.

O plano funcionou, mais ou menos. Márcia teve um filho com Hortêncio, mas, antes que os dois se separassem, o homem acabou falecendo e toda a sua fortuna passou para Catão, o que acabou sendo um ganho inesperado. César, sempre ciumento da fortaleza moral do seu oponente, insinuou que Catão fez tudo isso por ganância e para se apossar do dinheiro de Hortêncio, mas os romanos não acreditaram, pois ele era incapaz de um plano tão vulgar.

Catão voltou a se casar com Márcia, e a vida prosseguiu. Essa situação é analisada de forma diferente por quem se deteve sobre a vida do romano. Tertuliano considerou essa transação desprezível tanto do ponto de vista afetivo quanto do lado moral. Robert Graves disse que Catão e Hortêncio trataram Márcia como se fosse uma égua reprodutora. No entanto, o historiador Ápio considerou a atitude de Catão exemplar por colocar os interesses de Roma à frente das suas veleidades afetivas.

A maioria dos defensores da conduta de Catão em relação à Márcia afirmam que ele foi coerente com a filosofia estóica: tornar-se afeiçoado em excesso por outro ser humano é tornar-se refém do destino e propiciar o surgimento da infelicidade, algo que o homem sábio não pode fazer. Todos os relacionamentos humanos são temporários e fugazes, não precisando de investimento emocional muito intenso. Permitir que o amor se misture aos princípios morais é ter que abrir mão de um em favorecimento do outro, e isso era algo que Catão, fiel à própria natureza, jamais faria. Em última análise, o gesto dele teria sido algo de notável desprendimento, a atitude mais altruísta que se esperava de um homem preocupado com a falta de moralidade que ameaçava a sua nação: desistir da felicidade pessoal para salvar o coletivo.

Tentamos explicar a conduta implacável de Catão com a sua esposa usando uma série de racionalizações, mas elas não sobrevivem à verdade dos fatos. Catão estava tão imbuído da própria retidão moral que deixou de lado aquilo que lhe tornava humano. Sacrificou a moralidade interna do seu casamento para salvar uma duvidosa moral coletiva que pretendia impor ao povo. Catão estava completamente cego pela sua própria moralidade e, como a mariposa muito próxima da lâmpada, não era mais capaz de distinguir o certo do errado. De tão apaixonado por si mesmo e pela lisura do seu comportamento, pisou em todos que lhe amavam.

Não se pode julgar os deuses da mesma forma que os humanos, e não tenho dúvidas – assim como Lucano – de que, “quando finalmente formos libertos da escravidão, se algum dia isso acontecer, Catão será deificado, e Roma terá um deus de cujo nome não se envergonhará”. No entanto, não posso deixar de lado a frustração de ver a imagem de um dos meus ídolos desmoronar como o Colosso de Rodes sacudido por um terremoto. Afinal de contas, Catão também era humano e até mesmo ele podia cometer condutas repulsivas em prol de um bem maior.

Há alguns dias que esse assunto me incomoda, mas, pensando novamente enquanto escrevo, talvez a conduta de Catão não seja objeto de decepção, e sim de libertação. Se até mesmo Catão decepcionou, qualquer um de nós é passível de frustrar os outros em algum momento. Se isso é inevitável, então, a questão torna-se aceitar tal fato – e pensar como a decepção pode atingir o mínimo alcance. Sujeitar-se a ela e ansiar para que seja de tal ordem que possamos sobreviver ao desprezo e indiferença nos olhos alheios.

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Conto inédito em revista

Que legal: na nova Escriva, a revista virtual da Escrita Criativa da PUCRS, saiu um conto inédito meu, ao lado dos trabalhos criativos de outros colegas e escritores, além de um dossiê sobre sátira, ironia e opressões de gênero na literatura.

Quem desejar ler o meu conto e os dos outros escritores que fizeram parte da revista, segue aqui o link:

http://www.revistaescriva.com/somos-todos-assassinos.html

Em “Somos todos assassinos”, a tentativa de desvendar o mistério contido em “O assassino ameaçado” de Magritte faz com que o personagem descubra o outro homem que mora dentro do seu corpo.

Com participações especialíssimas – e creditadas – de Balzac, Rousseau, Thoreau e Iron Maiden.

Boa leitura.

Somos todos assassinos

René Magritte, “O assassino ameaçado”

Levantou cedo para caminhar no parque: precisava pensar em um artigo sobre “O assassino ameaçado”, de Magritte. Existe algo de tranquilizante quando se caminha em círculos ao redor de uma paisagem estática, um passo sucedendo ao outro, a sequência não necessariamente linear, mas progressiva, assim como funcionavam os termos de uma oração, uma letra colada na sua vizinha, a palavra posterior precipitando-se depois da anterior – ambas formando uma frase – e o consequente encadeamento de frases dando origens a parágrafos até desembocar no inevitável texto. Escrever e caminhar em círculos não é tão diferente assim, e o pensamento lhe divertiu. Não estava passeando, mas escrevendo a si próprio, e lembrou-se de mais pessoas nessa situação: Flaubert passeando entre as aleias congeladas de sua propriedade; os louvores de Voltaire ao caminhante solitário; a saída de Balzac que devia durar uma hora e acabara se estendendo por todo o dia, pois ele escreveu mentalmente os dezessete volumes de “A Comédia Humana” enquanto caminhava; os passeios infindáveis de Thoreau pela floresta onde se isolara. Ato contínuo, os fones de ouvido despejaram dentro da sua cabeça “The loneliness of the long distance runner”; sentiu-se em um lugar inóspito, onde seus passos eram o elemento destoante e onde cada pegada era única e ficaria ali pelo resto dos tempos, sem ser atrapalhada pelo vento ou por outros seres, uma lembrança de que ele deixara marcas por onde passara.

O grande obstáculo para o artigo era não entender o que estava na imagem. Era um crítico de arte de renome, e a simples existência de uma obra que não cedia diante das suas investidas interpretativas era singular. O assassino acabou de cometer o crime: todos sabiam que ele era o responsável, e vários olhos seguiam os seus movimentos. O próprio espectador acompanhava os passos sorrateiros. Ele estava de costas para a mulher assassinada, aparentando interesse pelo gramofone. Ao lado da porta, dois homens esperavam para entrar no quarto, um deles portando um porrete, o outro uma rede. Na janela, mais três desconhecidos de chapéu mantinham-se atentos, em uma atitude quase voyeur. O homem permanecia sob vigilância, mas não ameaçado. A sua calma contrastava com o ambiente repleto de tensão. Ele não agia como alguém culpado e sequer parecia com um, pois qual é o bandido que retira o casaco e o chapéu antes de cometer um crime? A semelhança dos traços fisionômicos do assassino com os guardas que estavam prestes a capturá-lo era outro ingrediente contraditório, pois dava a sensação de que todos ali se confundiam, flagrados em meio a um crime confuso.

Pensava em como iniciar o artigo – pois, afinal, uma frase seguiria a outra, em uma atração quase inevitável, o difícil era a faísca inicial – quando foi interrompido por uma mulher segurando uma planilha. Ela mascava chicletes, e as mandíbulas mexendo de forma escandalosa hipnotizaram-no por alguns segundos. No meio daquele levantar e abaixar sincopado de dentes, saiu uma pergunta meio mastigada: não quer participar de uma rústica ao redor do parque? Demorou segundos para entender o que era uma rústica. Sua primeira reação foi de raiva, pois considerou grosseira a interrupção. No entanto, logo veio a perplexidade – uma rústica? Mas ele não corria desde a época do colégio! Aprontava-se para seguir adiante quando a mulher, olhando as próprias unhas, acrescentou que uma equipe de televisão tinha vindo e ele só participaria da filmagem como figurante, para fazer volume, não era para correr a sério, não te preocupa, meia volta no parque e tu pode ir embora.

Por instantes, a imagem do assassino cercado por inimigos foi esquecida. Quem era aquela mulher para tratá-lo com tamanho desrespeito, como se ele fosse um figurante na grande história da vida, um dos anônimos que ficavam no meio das multidões nos filmes, sempre ladeando os verdadeiros atores? Ela não o chamou para correr, e sim para fechar um número aceitável de participantes capazes de justificar a presença da rústica em dez segundos de algum telejornal noturno. Era muito desaforo.

Ao mesmo tempo, cresceu a dúvida: e se? Fazia tanto tempo que não corria, nem lembrava mais como era. Não tinha ninguém ali o olhando. Ele era o perfeito desconhecido. Ninguém saberia que o famoso professor de crítica de arte entregara-se à voluptuosidade da corrida. Não existiriam julgamentos ou risadas. Por Deus, era só correr por diversão, que mal existiria nisso?

Quando percebeu, estava assinando a ficha de participação e recebendo um número para colar na camisa, 177. Com passos de quem não sabia a etiqueta para se comportar, ele se reuniu aos demais competidores, espalhados em pequenos círculos na extremidade do parque. Percebeu os olhares divertidos ao redor. Todos possuíam corpos atléticos e estavam no auge da forma física. Vendo aquele homem baixinho, com uma barriga nada discreta e a roupa inapropriada para correr, sabiam que ali não estava alguém digno de ser considerado como oponente. Era mais um daqueles retardatários que entravam na corrida para serem ultrapassados, mais um dos percalços de qualquer competição que se pretende democrática e acolhedora a todos, mas não passa de um arremedo de igualdade.

Enquanto esperava o início da prova, o homem ajeitou a sequência de músicas no seu tocador digital. Resolveu escolher a mais empolgante primeiro, em seguida outra empolgante, depois uma visceral, uma pela batida da bateria, após uma música eletrônica desgarrada e, ao final, uma romântica. Devia ser o bastante. Enquanto selecionava as músicas, deixou seu pensamento vagar: o assassino estava na sala. O piso continuava limpo. Todos sabiam, todos o acompanhavam. Mas ele não cometeu o crime, pois faltava nos seus gestos toda a intenção de se transformar em um assassino. Estava sendo implicado por algo que não fizera, e o crítico sentiu que, dependendo da sua argumentação, podia lançar uma nova e perturbadora possibilidade sobre o quadro de Magritte.

Percebeu uma movimentação no grupo. Ao longe, a equipe de televisão estava posicionada. Todos pararam junto à largada e o homem acionou a sequência de músicas escolhidas, sentindo o corpo ser preenchido pelos acordes. A música desencadeou uma reação repentina nos músculos envelhecidos. Percebeu a energia espalhar-se em ondas como uma queimação, partindo do cérebro e das orelhas. Foi violentado por algo muito maior do que a própria vida. Ergueu a cabeça e viu o céu encharcado de azul, as árvores trêmulas, duas pombas atravessando uma nuvem perdida. O ar da manhã ainda era jovem, como aquele que permeava a primeira aurora do mundo. Quando abaixou a cabeça depois de um tempo indefinido, o sangue apossou-se dos seus olhos e, por trás da civilização dos seus 55 anos, notou o animal pulsante, ansioso para se libertar da sua capa humana. Ansioso para correr.

As pessoas superestimavam a Humanidade. Existia uma besta sanguinolenta dentro de cada um, e a música nos seus ouvidos pareceu-lhe a cerimônia que ressuscitava um deus morto. Os pulmões encheram-se de ar. Os pés ciscaram o chão, inquietos. Nas suas retinas, o assassino deslizava, melífluo como a água de uma cascata, pois nunca seria pego. O gramofone, aí estava o centro do quadro. O seu pensamento não se articulava de forma coerente, tudo se misturava, ele, Balzac contendo 17 volumes dentro da sua cabeça, o latido distante de um cachorro, Voltaire diante de um lago crispado pela neve ainda imberbe, o resfolegar dos homens e mulheres ao seu redor esperando o juiz, Thoreau conversando com as árvores, o assassino ignorando a mulher morta – um mundo inteiro morava dentro dele.

O disparo.

O primeiro passo coincidiu com o momento exato em que ocorreu a troca da música. Um novo ímpeto apossou-se de si e ele se lançou na corrida. Ultrapassou a primeira pessoa e aquele foi o estímulo necessário para lançar-se à perseguição dos demais corredores. Os pés ansiavam em se libertar dos tênis, encontrar a força telúrica que morava nos cascalhos ancestrais. Não pensava em nada: o estraçalhar do vento, o desprezo à gravidade, e ele se transformara em um fio desencapado, repleto de violência. Enquanto corria, o coração bombeava sangue com raiva e os pulmões gritavam de felicidade ao se sentirem, enfim, depois de tantos anos, novamente úteis.

Ultrapassou mais alguns, e a primeira curva o encontrou logo atrás do pelotão que liderava a corrida. Risadas estranguladas escapavam dos lábios secos, e o suor tomara conta da sua camisa. Percebeu os corredores virando o pescoço por breves segundos e deixou uma gargalhada alvejar as costas inimigas. Eles não queriam correr? Pois estava na hora da aula, jovens.

Em uma manobra ousada, por fora da pista, ultrapassou os cinco competidores que mantinham a dianteira. Percebeu os olhares em pânico no momento em que a terceira música se apossou da sua alma e se entremeou no seu DNA. Sentiu as vísceras retorcerem, lembrando o motivo pelo qual dormitavam no fundo do seu corpo. Estava levando os músculos das pernas a limites que eles desconheciam. Calafrios atravessavam os seus pelos, mas ele não podia parar, e pequenos buracos negros acordaram no meio das suas coxas, mas ele não podia parar. Estava na iminência de uma falha generalizada do corpo. Ter esta noção o fez gritar mentalmente que ou eles iam correr como nunca tinham corrido ou morreriam juntos, mas desistir não era uma opção. Como um general ordenando as suas tropas, sentiu os calafrios se recolherem, os músculos das pernas se submeterem à dor, os vazios nas coxas voltarem a ser preenchidos de carne e de medo.

Quando o coração cedeu às evidências de que não poderia suportar aquele ritmo tresloucado, não depois de tantos anos de preguiça e sedentarismo, o professor começou a ofegar. Os demais competidores se aproximaram. Não dava mais conta do ritmo imposto a si mesmo e, no momento em que anteviu a possibilidade de desmoronar, a música com um tuc-tuc-tuc selvagem iniciou. Ele se concentrou no que escutava. A bateria impregnada de juventude ensinou o coração a recuperar o ritmo, a se concentrar nas batidas. Os passos passaram a acompanhar a música, assim como o coração, e logo ele voltava ao mesmo ritmo forte de antes.

Ultrapassava a metade do percurso no instante em que a idade lhe atingiu como um soco invisível. Em um princípio de pânico, sentiu os anos de excessos apresentarem a sua fatura. A cervejinha diária, o cigarro largado quatro meses atrás e ainda queimando por dentro como uma brasa obscena, os churrascos empilhando gordura nas artérias, as noites que passava sem dormir, o cotidiano dentro de um carro. Alguém da sua idade não podia fazer aquilo, correr como um desesperado inconsequente era coisa de gente jovem, por Deus, ele era um professor de respeito, um homem acostumado a dar palestras pelo país todo, um pesquisador cujas maiores caminhadas eram dadas em insossos coquetéis de universidade.  A razão saiu do canto da alma onde se escondia e, com sua língua bífida, veio lhe sussurrar motivos. A contragosto, deixou o ritmo diminuir. Concluiu que tinha ido longe demais na loucura, mas, no mesmo segundo, a música eletrônica intrometeu-se no seu playlist e lembrou-lhe da sua juventude, quando tudo parecia ao alcance da mão. Junto com tal imagem, notou que estava correndo contra si mesmo. O único oponente era o outro homem cansado que corria dentro da sua sombra, e lembrou-se de Crísias, “seguindo a sombra, o tempo envelhece depressa”, o segredo da juventude era deixar a sombra sempre correndo atrás. O pensamento foi o combustível para afastar a idade, este veneno que se espalhava como ervas daninhas pelo seu corpo, erodindo o seu espírito com a sabedoria de um musgo antigo, e ele enfim se libertou dos limites do próprio tempo.

Aproximava-se a parte final da corrida. Entrou na última reta. Não existiam mais oponentes a lhe ameaçar, mas o seu inimigo interno continuava construindo castelos de vento. Sangue ribombava pelas suas veias, triunfal, alardeando a sua passagem com os clarins de um exército vencedor. No entanto, a insuficiência do que estava fazendo começou a lhe pesar nas passadas. O que pretendia provar? Que podia correr como um jovem? Qual o sentido daquele sacrifício, de tamanha dor? Podia ver a linha de chegada crescer no horizonte, mas também sentia passos invisíveis e resfolegantes a lhe perseguirem e os dedos insidiosos da dúvida tentando interromper a jornada. Ele podia se refugiar nos louros da sua vitória interna: correra de igual para igual uma corrida impossível. Não precisava mostrar mais nada para ninguém, a única plateia que interessava era ele mesmo.

Confortava-se com tal pensamento quando o amor do passado ressuscitou dentro dos seus ouvidos, trazido pelas ondas sonoras. A recordação trouxe a menina de cabelos cacheados e olhos tristes, e ele entendeu a resposta. Mais do que o corpo, mais do que a raiva, mais do que o tempo, o que movia todos os seus passos era o amor. A música sussurrava promessas impossíveis de algo maior do que ele, e o homem viu que não era mais um ser humano, e sim uma máquina disputando a corrida da vida, sabendo que tudo faria sentido se o beijo acalentador o esperasse ao final, um cálice de calma no meio do turbilhão do mundo. Foi com o sonho de um beijo que ele atravessou a linha de chegada, saudado pelos aplausos das poucas pessoas que esperavam.

Com dificuldade, o professor parou a corrida. No mesmo momento, todo o cansaço e o desgaste lhe atingiram como se fossem corredores retardatários. Sentiu que o seu corpo se esgarçava até o limite do universo. Só não desmaiou por que a vergonha de cair na frente de desconhecidos superou a tomada de consciência do que acontecera.

Demorou um pouco para retomar o controle. Viu os demais corredores cochichando, tentando entender como o figurante anônimo conseguira se destacar. Quando percebeu os flashes, estava sobre um improvisado pódio, um arremedo de coroa de flores sobre a cabeça e câmeras apontadas na sua direção, enquanto uma medalha dependurava-se no seu pescoço.

Com passos lentos, voltou para casa. Tinha certeza de que levaria uma semana, quiçá duas, para as fibras musculares voltarem a se acalmar; lembraria da corrida quando sentasse, quando deitasse, quando sorrisse. Pensava em como explicar para a sua mulher e para os dois filhos aquela medalha. Era melhor dizer que achara em um banco do parque. Livrou-se da coroa improvisada. Demorou um pouco para perceber que os barulhos do cotidiano infestavam a cidade. O tocador digital estava silencioso. Ele analisou a ordem das músicas: ali estava o comando mental que o forçava a correr. Foi uma coincidência que ditou a sua escolha naquele dia, mas devia existir uma sequência para cada fato humano, uma ordem musical ou de quadros ou de movimentos de dança ou de livros ou de qualquer outra expressão artística, algo capaz de deflagrar o surgimento de outro homem. As pessoas passam a vida procurando a programação que irá fazê-las amar, ou escrever como se tudo na vida se limitasse a dedos e a pena, ou cozinhar jantares dignos de um panteão olímpico. Não era espantoso que Magritte tivesse colocado a verdade dentro de um quadro, diante dos olhos das testemunhas e espectadores que se detinham perante a obra: o homem retratado descobrira a sequência musical que o fazia matar e quedava-se, surpreso, diante do gramofone.

Dessa maneira atribulada, nasceu a primeira frase do texto futuro: “Somos todos assassinos, só que ainda não sabemos.” O professor apressou-se, ansioso para prender a ideia dentro das quatro linhas de um papel, a medalha esquecida na mão, a coroa de louros e a sua vitória apodrecendo dentro de um lixo anônimo.

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Obras Inquietas 44. “Melancolia I” (1514), Albrecht Dürer

Na minha coluna dessa semana no “Obras Inquietas”, cheguei à 44a obra que me desperta algum tipo de desconforto, e a escolhida dessa vez foi “Melancolia I” (1514). do Albrecht Dürer. Não cheguei a ler “O símbolo perdido” do Dan Brown, mas certa vez me comentaram que essa pintura é o centro de onde saem todos os mistérios resolvidos pelo personagem principal. Não surpreende: “Melancolia I” tem 503 anos de idade, e ainda engatinhamos nas tentativas de entendê-la.

Não resisti à tentação de atualizar os símbolos constantes na pintura e, assim, na minha leitura da obra de Albrecht Dürer, fiz citações indiretas aos desenhos de Goya, aos desalentos de Nietzsche, aos receios de Bernardo Soares e, por fim, mencionei trechos da peça para vocal “La nuit”, de Jean-Phillippe Rameau, e da música “Bota pra fudê”, do Camisa de Vênus. Vai aqui o link de “La nuit”:

Boa leitura.

“Melancolia I” (1514), Albrecht Dürer

Tudo tende ao vazio. Ao nada absoluto. À irrelevância. O tempo se arrasta com a paciência de quem sabe ser eterno. Paralisado, o vento suspende a sua caminhada ágil e o ar fede à morte, à imobilidade das águas paradas. Na parede, o Quadro Mágico deixa entrever os mistérios que nunca serão desvendados; enquanto isso, o compasso repousa, indeciso, nas mãos tristes do homem que não sabe para onde ir – ou será um artista à espera da sempre traiçoeira inspiração? A imagem retorce-se lentamente em torno do seu próprio centro, como uma cobra saciada que dorme sob a luz de um sol morto; os animais, os anjos e o céu estão cansados, não conseguem sair da areia movediça caprichosa em que a inação do homem os colocou. Diante da enormidade daquilo que podemos ser e do fracasso inevitável dos nossos sonhos, sentimo-nos insignificantes, incapazes de romper a inércia, incapazes de escapar do buraco negro que mora no nosso peito e diz que não podemos ser nada, que nunca seremos nada, que na nossa lápide estará escrito “nada”. Existe uma beleza tão bonita quanto o sonho, existe uma verdade mais doce do que a esperança? Qual o sentido de viver, se não conseguimos escapar de nossas fraquezas? Se nada acontece, a vida então se repete? Dentro da imagem se esconde o segredo dos erros sempre iguais, da sensação de desalento que às vezes nos acomete, da procrastinação das tarefas, do medo de começar para, então, falhar. A Melancolia é um veneno lento que sufoca a nossa liberdade – é o cadáver silencioso que nos segue dentro da sombra, sempre lembrando que somos humanos, demasiado humanos.

Texto originalmente publicado no link https://artrianon.com/2017/09/10/obras-inquietas-44-melancolia-i-514-albrecht-durer/

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