Obras Inquietas – 51. “Tigre na selva” (1917), Max Slevogt

Nessa semana, na coluna “Obras Inquietas”, eu falei de um quadro do pintor impressionista alemão Max Slevogt. Em “Tigre na selva”, a mistura entre a imprecisão dos movimentos sinuosos de um tigre e o abandono repleto de êxtase da mulher que ele carrega acaba gerando uma forte carga erótica que, ainda que não saibamos colocar em palavras, nos faz perder a respiração. Isso sem contar que Max Slevogt era um grande pintor de tigres e de cenas carregadas de erotismo não-aparente, mas que ensinariam muitos artistas contemporâneos sobre a incrível capacidade de ser pornográfico e escandaloso sem escancarar. Existe coisa muito mais erótica do que genitália, e quem não sabe disso precisa urgentemente voltar para a época do colégio.

Boa leitura!

“Tigre na selva” (1917), Max Slevogt

Possuída pela sinuosidade do tigre, todo o corpo da mulher é medo e entrega. O abandono – o saber se consagrar à volúpia do precipício, o saber desistir da luta – é o mais difícil dos sentimentos, e o mais cruel: nunca se sabe se será possível voltar ao que éramos antes, nunca se sabe se não é tarde demais, fundo demais, dolorido demais. A vítima se entrega à ferocidade do desconhecido e, ainda que exista angústia nesse gesto, também há excitação. O gozo anda muito próximo da morte; o prazer caminha ao lado do desespero. Os cabelos da mulher dançam com o vento, enquanto a selva se rende à sensualidade do tigre que carrega o seu prêmio ofegante. A presa não mais resiste; o predador venceu, e a fúria contida da certeza com que seus passos deslizam pela tinta amorfa do quadro é algo de extrema obscenidade. A violência da cena interrompida momentos antes do seu desenlace – o instante em que o animal, enfim, possuirá a mulher já subjugada – nos deixa na incômoda dúvida do reconhecimento impossível de uma cena que jamais vivemos: somos o tigre vitorioso ou a vítima? O vencedor ou o derrotado? Devemos desistir diante da morte semovente ou encará-la mais uma vez nos olhos antes que ela crave seus dentes na nossa carne e nos confronte com o prazer repleto de indecência que mora no primitivo que não conseguimos entender? Temos medo das sombras e segredos que moram no fundo do abismo da entrega.

Texto originalmente publicado no link https://artrianon.com/2017/12/04/obras-inquietas-51-tigre-na-selva-1917-max-slevogt/

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O Mal que mora no meio das boas intenções

Uma das grandes ingenuidades atuais é imaginar que, se alguém denuncia e descreve a existência do Mal, irá evitar que ele ocorra no futuro.

O uso errado da denúncia como força catártica e explosiva – apesar do alívio momentâneo – realiza justamente o contrário: acaba propagando o Mal. Dando ideias para outras pessoas que, se não fosse a denúncia realizada de maneira impensada, jamais teriam chegado sozinhas a tais conclusões. Como uma avalanche, a boa intenção perde a sua intenção inicial e acaba se transformando em inspiração descontrolada para novas maldades.  O Mal fomentando um Mal muito maior.

Não digo que não seja importante denunciar. Sim, precisamos saber o que acontece no mundo, precisamos compartilhar nossos receios e medos. No entanto, existe uma forma de fazer isso, e ela passa longe da ironia ferina, dos palavrões, das frases impensadas que acabam ensinando o caminho do Mal para aquele que nunca tinha pensado naquilo antes. Todos brincam com a frase de Hemingway, “write drunk, edit sober“, mas nunca imaginaram que ela pode ser uma metáfora para “viva loucamente, reflita com calma”. Mais adequado o ensinamento expresso por Horacio Quiroga na nona norma do “Decálogo do perfeito contista”: “não escreva sob o império da emoção. Deixe-a morrer, e então a evoque. Se és capaz então de revivê-la como foi, atingiste na arte a metade do caminho”. O que mais existe hoje são pessoas que escrevem com a emoção à flor da pele, sem desconfiar de que correm dois riscos: ou fazer algo ridiculamente piegas ou, de forma inadvertida, glorificar o Mal e passá-lo adiante.

Muitos anos atrás, fui contratado para defender um rapaz que cometeu um crime bobo: recém-saído dos 18 anos, com a intenção de impressionar uma moça com quem estava saindo, decidiu pegar a bolsa de uma mulher que estava fechando a garagem da sua casa. Até hoje interrogo-me o que o levou a cometer tamanha insanidade, pois era um rapaz humilde, com pais afetuosos (ele era arrimo de família), e tinha pela frente um futuro, senão glorioso, muito digno.

O roubo deu errado, como era de se esperar. Ele arrancou a bolsa das mãos da proprietária, dobrou a esquina e teve o azar de encontrar um policial à paisana que, ao ouvir os gritos da mulher assaltada, sacou a arma e desferiu um tiro no joelho do outro. Pelo resto da vida o rapaz iria mancar.

(Não existe crime “bobo”. O crime é crime ou não é. Não existe nada correto ou romântico em assaltar alguém. O policial à paisana agiu com desproporção, mas, no calor do momento, quem pode julgá-lo? Sei que muitas pessoas podem ler esse relato e imaginar que o rapaz teve o que merecia ou xingar a fúria com que ele foi tratado pelo sistema, mas, no mundo dos fatos, as coisas simplesmente são, e ninguém pode saber como agiria até passar por isso, assim como ninguém está livre de ter a sua vida inteira determinada por um único segundo de idiotice).

O rapaz foi preso e eu acabei contratado para defendê-lo. Os pais oscilavam: o homem estava desapontado com o filho, a mulher encontrava argumentos para justificá-lo. Tudo muito clichê. Não parecia tão improvável vencer o processo, conseguindo uma pena pequena e justa para que ele nunca mais cometesse aquele equívoco, até por que já tinha sido punido com o tiro no joelho. Seria algo terapêutico e – assim esperava – um “turning point” na vida do menino. Eu o orientei a ser sincero e a dizer a verdade, esperando que, com a confissão espontânea e por ser primário, a pena fosse reduzida ao mínimo legal.

Em resumo, deu tudo errado. O rapaz seguiu minhas instruções, mas pegou pela frente uma juíza extremamente rigorosa, a qual acreditava que o menor dos crimes tinha que ser punido com rigor exemplar. Ela o condenou à máxima pena possível, e a ser cumprida no Presídio Central por, no mínimo, longos 3 anos antes de passar para outro lugar. Entrei com recurso para a segunda instância e, um ano depois, peguei um desembargador que, em um acórdão de 15 páginas, ficou 12 falando sobre a classe política do Brasil e que o país estava deteriorado moralmente por causa da criminalidade para, no final, manter a sentença abusiva. Entrei com recurso para Brasília, nem chegou a ser julgado. Entrei com todos os recursos possíveis, e perdi todos.

No meio do cumprimento da pena, o rapaz morreu. Pegou tuberculose no Presídio, foi para o hospital e teve uma infecção generalizada que nunca ficou bem explicada. A essa altura do campeonato, eu não era mais o seu advogado. Os pais tentaram contratar outros profissionais, e eles viram o óbvio: todos os recursos tinham sido tentados, mas, às vezes, simplesmente não conseguimos ganhar.

Não existe explicação lógica para isso; talvez seja azar ou uma conjunção de fatores, como na queda de um avião. Nem dá para culpar a cegueira dos juízes ou a minha inaptidão técnica, pois ninguém pode ser responsabilizado, todo mundo agiu dentro dos seus papéis. Existem vidas que não deveriam ter sido, e isso é o que mais nos assombra: algumas pessoas vem ao mundo, mas era melhor que não tivessem vindo. Eis algo que não podemos dizer em voz alta, apesar de ser um medo que nos espreita a cada vez que estamos no quarto escuro: eu devia estar aqui no mundo ou não? Estou na lista do que sobrevivem ou naquela dos que serão expurgados?

Enfim, tudo isso para contar que esse caso ainda me assombra. Tive muitos depois, muitas vitórias e derrotas, mas continuo recordando desse, talvez por um detalhe quase insignificante no contexto. Eu costumava visitar o rapaz no Presídio Central: ele estava com medo, e frequentemente pedia a minha presença lá, para saber que ainda estávamos lutando para libertá-lo. Nas primeiras visitas que fiz, o rapaz chorava, implorava por Deus e pela mãe, esticava a minha permanência lá, soluçava, fazia promessas para todos os santos possíveis e imaginários. Eu sentia muita pena; tentava acalmá-lo e passar segurança, mas via um menino magro, fraco e que a vida estava esmagando com dureza desproporcional (um lado meu, envergonhado, também agradecia por não estar nessa situação, pois reconhecia – com espanto – que não era tão difícil imaginar que eu próprio podia estar no lugar do rapaz, na posição involuntária de dejeto e pária social).

Na última visita que fiz ao rapaz, não foi mais ele quem entrou no parlatório. O jovem assustado e medroso de antes tinha virado uma criatura sombria, de olhos vazios que me evitavam, sondando o ambiente. Estava com o rosto marcado por feridas, os dedos pareciam garras e até a sua voz tinha mudado, era algo mais calculado, mais frio. Ele perguntou como estava a sua situação jurídica e eu expliquei. Ao final, o rapaz perguntou sobre a aplicação de alguns artigos jurídicos, eu respondi e ele falou “doutor, pensei muito no que aconteceu, falei com meus amigos, e agora sei onde errei. Na próxima vez, quando eu sair daqui, não vou errar de novo, sei como acertar…”. Olhei para o rapaz e implorei, “cara, não pensa ‘na próxima vez’, pensa que tu nunca mais vais fazer isso, não que vais voltar a fazer, pensa nos teus pais, eles são velhinhos” e ele sorriu – hoje sei que estava rindo da minha inocência – e disse “claro, doutor, claro”. Muito tempo em contato com o Mal puro o tinha transformado em uma criatura amarga e feita de puro ódio. Não voltamos a nos encontrar.

O Mal possui uma incrível capacidade de propagação, e age por acumulação: quanto mais Mal compartilhado, mais ele se acomoda como sedimento no espírito alheio. Viver em meio ao Mal aumenta a possibilidade de se tornar como ele.

Estar em contato com a maldade humana e não saber lidar com as suas consequências é algo perigoso. Leio muitos textos que possuem uma origem boa, decente, mas que soam mais como propaganda para fertilizar outras mentes nas quais a maldade ainda está inativa. Pois o Mal também fascina: toda pessoa que denuncia algo mal consegue esconder a sua admiração relutante pelas atitudes ou pela coragem do outro, e não existe recurso mais enganoso do que as palavras. Elas nos convencem de que estamos fazendo o certo, mas, sem querer, é o contrário.

Por isso me impressiono com a ingenuidade de quem pensa que, denunciando algo, está impedindo que aconteça. Uma denúncia mal feita, realizada sob o império da emoção, acaba virando propaganda. As pessoas pensam que escrever algo é alertar os outros, mas esquecem que existe uma pequena diferença entre admiração e nojo. Não duvido que muitos leem as denúncias mal formuladas nas redes sociais e pensam “ah, agora que sei onde tal pessoa errou, vou fazer certo”. Assim como Deus, o Mal também possui desígnios misteriosos e, às vezes, o melhor lugar para achá-lo é no meio de uma “boa” intenção.

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Obras Inquietas – 50. “A cabeça da Medusa” (1612), Pieter Paul Rubens

Cheguei à quinquagésima coluna no “Obras Inquietas”, lá no Artrianon ( www. artrianon.com ), ou seja, cheguei à 50a obra que me desperta algum tipo de inquietação. Pode parecer pouca coisa, mas são 50 textos curtos que, apesar de terem sido muito prazerosos de escrever, também tocaram fundo em algumas feridas e medos internos que eu sequer imaginava existir.

Para “comemorar” a efeméride, nessa semana tratei de um pintor que respeito muito e, talvez por isso, sempre mantive distância. Em “A cabeça da Medusa” (1612), de Pieter Paul Rubens, o aspecto grotesco da cabeça cortada por Perseu revela tanto surpresa quanto pavor, assim como Rubens tenta responder uma pergunta sobre a qual a mitologia silenciou: o que aconteceu com as cobras da cabeça da Medusa? Freud viu esse quadro como uma representação da castração masculina (bom, afinal, onde o Freud não vê falos masculinos?), mas gosto de um aspecto particularmente inquietante da análise dele: sentimos uma estranha excitação e fascínio diante da obra, algo quase sexual, quase devasso, quase puro. Existe alguma perturbação expressa nesse quadro, mas o fato de não conseguimos definir com clareza o que é deixa as fronteiras entre o macabro e o sedutor ainda mais borradas.

Boa leitura.

“A cabeça da Medusa” (1612), Pieter Paul Rubens

O crime acabou de acontecer; o sangue fresco ainda escorre do corte repleto de crueldade o qual, certeiro, separou o pescoço do resto do corpo. Os olhos que antes levavam desespero ao mundo agora são um espelho estarrecido de finitude: então eu também posso morrer, então não sou imortal. Sobre a cabeça, aquelas que viviam em precária harmonia – unidas em torno do horror inspirado pela sua dona – entregam-se à feroz luta da sobrevivência. Irmãs até então inseparáveis atacam-se com raiva; existem aquelas que tentam aproveitar até o último resquício de vida do ser que lhes animava e dava propósito, sorvendo até a derradeira gota teimosa de sangue; uma delas aproxima-se, sorrateira, do olho vítreo, imaginando qual o gosto da carne de Deus. Outras cobras, pela primeira vez descobrindo o que é ser livre, esgueiram-se sobre a pedra onde jaz a cabeça, sem imaginar a solidão que lhes espera nesse mundo em que deixarão de ondular e passarão a rastejar por migalhas de sol. Enquanto as serpentes decidem seu destino (algumas gritam em silêncio para o sol indiferente), os vermes se aproximam, famintos, ansiosos para possuírem a cabeça sem vida e que, no passado, transformava carne em pedra. Tudo escorre em direção ao inexorável fim, pois aquilo que começa um dia acaba, mas ninguém nunca nos avisou sobre o fedor acre de sangue coagulado, ninguém falou sobre a solidão do vento a mexer nos cabelos insensíveis, ninguém nos avisou que a vida continua, pasma e patética, depois que morremos – e que, na história do universo, somos meros suspiros impregnados de efemeridade, nunca uma respiração.

Texto originalmente publicado no link https://artrianon.com/2017/11/26/obras-inquietas-50-a-cabeca-da-medusa-1612-pieter-paul-rubens/

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Obras Inquietas – 49. “O triunfo do Gênio da Destruição” (1878), Mihály Zichy

Na minha coluna dessa semana no “Obras Inquietas”, eu tratei de um quadro do pintor húngaro Mihály Zichy, chamado “O triunfo do Gênio da Destruição”. Uma obra gigantesca e altamente bélica, tanto que, por causa das suas críticas veladas ao militarismo, acabou sendo proibida no Salão de Arte de Paris. No entanto, a obra também possui uma reflexão muito atual sobre os dias que vivemos: o quanto querem destruir ao invés de criar, o quanto caminhamos por entre escombros de sentimentos enquanto tentamos encontrar nosso papel no mundo.

Boa leitura!

“O triunfo do Gênio da Destruição” (1878), Mihály Zichy

Destruir é mais simples do que criar. É muito mais difícil erguer um castelo de dentro do sonho do que colocar as suas paredes abaixo, imersas em fogo, ruínas e amargura. Para cada pessoa que se anima a criar, existe uma multidão disposta a destruir, e, nesse exato momento, o homem que anda no meio do campo de batalha, com passos que desconhecem o ponto de chegada, atordoado pelo banho de sangue que preenche o ar de vermelho, não é tão diferente da pessoa que sai de casa todo dia e precisa se deparar com a morte da esperança a cada esquina, com raiva desproporcional escapando por olhos injetados de fúria, com angústia represada em gritos ou buzinas, com pessoas que esticam crianças buscando piedade, com a cobiça regrando as atitudes, com os gemidos que se estraçalham em meio ao vento. Viver não só é muito perigoso, viver é uma insanidade, e no meio do oceano da existência não passamos de vagas de madeira perdidas entre as ondas, restos de um naufrágio anônimo. Nessa jornada terror adentro, o homem fecha os ouvidos e um grito estrangulado escapa da sua garganta, juntando-se à litania dos corpos que se empilham ao seu redor, todos buscando uma salvação, uma palavra de conforto, um respiro de ar limpo em meio ao odor pútrido do medo. Enquanto isso, o Gênio da Destruição guia o ser humano por entre o cotidiano, sabendo que tudo que existe só o faz para ser um dia destruído, sabendo que não existe nada que escape do seu toque, sabendo que não passamos de ruínas adiadas e que um dia, mais cedo ou mais tarde, a destruição – dos sonhos, das esperanças, dos amores – será a nossa única companhia.

Texto originalmente publicado no link https://artrianon.com/2017/11/05/obras-inquietas-49-o-triunfo-do-genio-da-destruicao-1878-mihaly-zichy/

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Obras Inquietas – 48. “Espalhados por toda a parte” (1864), Alexander ver Huell

Na minha coluna dessa semana no “Obras Inquietas”, em homenagem ao Halloween, tratei de um ilustrador extremamente singular e não tão badalado, o holandês Alexander ver Huell. Ele se notabilizou pelas suas obras repletas de romantismo e sensibilidade, que adornaram muitos livros do período que vai de 1822 a 1845. Porém, um dia – e ninguém sabe ao certo o que aconteceu -, ele se transformou em um homem repleto de paranoia e de fobia social, e as cenas românticas de antes foram invadidas pela morte, por demônios e pela bizarrice.

A ilustração que escolhi, “Espalhados por toda a parte” (o nome original está em latim, “Straas ubique”, mas optei por passar para português), me é significativa por um evento pessoal: certa vez, um amigo estava em uma casa noturna de Porto Alegre e passou mal, tendo que sair às pressas do lugar. Alguns dias depois, perguntei-lhe o que tinha acontecido e ele disse que, de repente, ao olhar as outras pessoas presentes no lugar, dançando e se divertindo, viu somente gente morta. Ainda lembro dele segurando meu braço e perguntando com urgência “tu não viu? TU NÃO VIU?”. Não enxerguei nada, mas sempre fiquei pensando que, talvez, o olhar seja somente uma questão de perspectiva.

Enfim, eis o texto. Boa leitura.

“Espalhados por toda a parte” (1864), Alexander ver Huell

O homem caminha com pressa, evitando olhar para os lados. Cobre o rosto, com receio de revelar o permanente ricto de terror que vinca os seus lábios em um constante gemido. Eles estão por todos os lugares. Em cada esquina, em cada rua, em cada casa, a doença e a morte espiam o estranho que atravessa os seus domínios. Atrás de risadas histéricas e da alegria fugaz da pele, escondem-se cadáveres putrefatos cobiçando a vida daqueles que ainda não escutaram o canto de sereia do Inferno, a música terrífica que se espalha pela catedral do mundo, o ruído que mora no fundo do pesadelo. A loucura eriça os pelos do homem enquanto ele atravessa as ruínas daquela necrópole, a cidade dos mortos que ainda respiram. “Estão todos mortos! Vocês e seus filhos, amantes, netos, cachorros, vocês não estão vivos, mas se arrastam pelo mundo sem sentido algum que não seja satisfazer o buraco infinito que mora no fundo da cova dos seus ossos!”, o homem deseja gritar, mas não sabe qual serão as consequências de revelar a verdade, então prefere silenciar. Estar vivo e não viver com a intensidade de um arrepio recém-surgido ou com a raiva com que a água na ânfora espia a sala ao seu redor é como estar morto, e o homem atravessa rapidamente o carnaval de gente a rir, a brincar, a sofrer, a se angustiar, sabendo que somente ossos vazios cobertos de enganosa pele estão ali, em uma confraternização macabra que marca os seres de vida comum que vieram ao planeta somente para servir de pasto para os vermes. Os passos velozes do homem e o medo que escapa dos seus olhos esbugalhados não deixam dúvida: ele está em um mundo repleto de inimigos, com o odor nauseabundo da morte a infestar cada recanto, cercado por cadáveres que ignoram essa condição, em eterna fuga de si mesmo, e ninguém sabe disso, não existe conforto em nenhum lugar, não existe descanso em nenhuma cama, não existe sorriso verdadeiro em nenhum rosto – só a morte a espreitar a sua vida com a mesma curiosidade com que a cascavel contempla a vítima distraída.

Texto originalmente publicado no link  https://artrianon.com/2017/10/29/obras-inquietas-48-espalhados-por-toda-a-parte-1864-alexander-ver-huell/

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Obras Inquietas – 47. “A lição de anatomia do Dr. Frederik Ruysch” (1714), de Jan van Neck

Em virtude de ter passado duas semanas viajando e palestrando por aí, atrasei as colunas do “Obras Inquietas”, motivo pelo o qual me puxaram as orelhas em mensagens.

No meu retorno, tratei de “A lição de anatomia do Dr. Frederik Ruysch” (1714) do pintor holandês Jan van Neck. Poderia ter escolhido outras versões da mesma ideia, inclusive mais famosas, como a de Rembrandt: existiu uma época na História da Arte em que era frequente pintores retratarem aulas de anatomia, o que por si só daria um longo texto. Optei por essa de van Neck por que, entre elas, é a que mais recordo, talvez pelo fato de ser a autópsia de um recém-nascido, talvez pelo detalhe destoante da criança assombrada que segura um esqueleto no canto da imagem. Existe algo de perturbador na calmaria aparente dessa pintura e, se não sou capaz de detectar, o quadro merece estar elencado nessa minha lista de perturbações.

Boa leitura.

“A lição de anatomia do Dr. Frederik Ruysch” (1714), de Jan van Neck

Um corpo não passa de um aglomerado de órgãos, músculos e sangue impulsionados por um espírito. Por favor, esqueçam o horror enquanto presenciam a curiosidade quase sádica dos homens ao redor da mesa, para quem o cadáver da criança é um mero objeto de estudo, e nada mais. Eles não pensam na vida que animava esse corpo ainda fresco até alguns minutos atrás, não pensam no ronco de esperança que brotou dos pulmões e, em seguida, desapareceu, não pensam no aspecto lívido da pele que esperávamos rosada, macia, tenra, e agora tem o tom marmóreo da ausência, não pensam no choro da mãe ou nos soluços do pai a ecoar pelo corredor vazio. A ciência não pode se dar ao luxo de ter piedade. Ignoram o olhar espantado do menino que segura o esqueleto do bebê; ele não consegue entender que sentimentos atrapalham o progresso e que os homens reunidos naquela sala, que dissecam o cadáver como se estivessem olhando uma borboleta morta, fazem aquilo pelo bem de todos. Somente quem se afasta da Humanidade é capaz de desvendar o humano. Mesmo assim, por maior o nosso desejo de frieza, impossível não olhar o cadáver diminuto estendido sobre a mesa e pensar em tudo aquilo que ele deixou de viver, em todas as sensações que não teve tempo de sentir, em todos os sorvetes que não comerá, em todos os sorrisos que não dará, em todos os beijos que lhe serão negados, enquanto a curiosa pinça esgravateia o corpo sem defesas e a placenta jaz sobre a mesa, morta. Pior do que morrer é nem ter a chance de ter vivido.

Texto originalmente publicado no link https://artrianon.com/2017/10/22/obras-inquietas-47-a-licao-de-anatomia-do-dr-frederik-ruysch-1714-jan-van-neck/

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Obras Inquietas. 46 – “O homem em queda” (2014), James Wedge

Nessa semana, na minha coluna no “Obras Inquietas”, eu tratei de uma pintura de James Wedge chamada “O homem em queda”. A postura do homem em queda infinita e para sempre não-concretizada lembra uma fotografia icônica do século XXI, também chamada “O homem em queda”, de Richard Drew, que mostra um homem despencando para a morte após o atentado nas Torres Gêmeas nos Estados Unidos, em 2001.

Existe algo de terrível e de poético na forma com que o corpo se entrega à inevitabilidade da queda, desfazendo-se enquanto mergulha na direção de algo que não sabemos.

Boa leitura.

“O homem em queda” (2014), de James Wedge

 

Ninguém sabe precisar o momento – ninguém sobreviveu o suficiente para contar – mas existe um instante, um segundo talvez (um segundo no meio da eternidade da queda possui todos os tempos do mundo no seu interior), em que a barreira do corpo cede ao fascínio de despencar no abismo e o que era carne vira vento, o que era osso vira graveto, o que era sangue vira medo. Nesse fugaz momento, impregnado de delírio e de horror, o espírito perde as comportas que lhe confinavam no interior de pele e músculo e sente, pela primeira vez, as responsabilidades de ser livre. Nunca ficamos tão próximos de algum Deus quanto agora, o segundo em que perdemos os limites. Suspenso em uma queda que nunca será concretizada, o homem persiste caindo agora e para todo o sempre, desfazendo-se como poeira que volta a encontrar o seu destino, como deserto ondulando em dunas instáveis. O desconhecido – será um de nós? Será alguém que amamos? Será aquele para quem não estendemos a mão na hora certa, ou para quem faltou a palavra que poderia ter sido a âncora salvadora? – atravessa o vazio e se identifica com ele, lutando para manter uma coesão que, em breve, será destruída pelo concreto da realidade. Existe algo de conformismo no homem em queda; podemos escutar o grito que ele não solta ou imaginar os pensamentos que se destroçam na sua consciência esperando a chegada do fundo, do chão, do local em que a morte lhe espera sem ansiedade, enquanto olha para cima e vê o céu tão azul conspurcado por uma sombra que corre em sua direção.

Texto originalmente publicado no link https://artrianon.com/2017/10/01/obras-inquietas-46-o-homem-em-queda-2014-james-wedge/

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