Arquivo do mês: julho 2017

Obras Inquietas – 38. “Finis – O Fim de todas as coisas” (1887), Maximilian Pirner

Na minha coluna dessa semana no “Obras Inquietas”, escrevi sobre um quadro tão repleto de simbolismos que não foi decifrado até os dias atuais. Em “Finis – O Fim de todas as coisas”, o artista tcheco Maximilian Pirner deu a sua versão para o que acontecerá no fim do mundo, e fez de maneira tão misteriosa e criptografada que não conseguimos compreender nada – apesar de estranhamente entendermos o que está na imagem em um nível que faltam palavras para descrever. O melhor lugar para esconder uma folha seca é no meio de um bosque, e o melhor lugar para ocultar algo é colocar o mais próximo possível dos olhos alheios.

Um quadro que, passados 130 anos, não só não entendemos, como inclusive nos recusamos a falar a respeito – um quadro quase invisível, com exceção do detalhe que ele existe. Há algo mais inquietante do que isso, obras de arte que não conseguimos ver e que andam impunes por aí?

Boa leitura.

“Finis – O Fim de todas as coisas”, Maximiliam Pirner

Existem mistérios que não conseguimos responder, e a nossa cegueira seletiva sempre impressiona: vemos aquilo que está diante dos olhos, mas somos incapazes de perceber os infernos que nos espreitam se dermos um passo para o lado errado, se virarmos a esquina inesperada, se encararmos os olhos de um gato sem o medo de enlouquecer. Quando o pintor abandonou o quadro, o fez com um suspiro de dor: de qual incômodo abismo surgira aquela imagem, de qual subterrâneo oculto da sua alma emergira tamanho delírio? Não soube responder, e isso lhe inquietou. Por segundos a arte tocara na fímbria do Universo, e o seu espírito mais sentiu do que viu o último segundo: o fim da raça humana, do sonho, do sexo, da unânime noite, da pergunta que não fazemos, dos medos e das angústias que arrastamos por todos os lados. Na pintura, as imagens pediam para serem decifradas, e a sua simplicidade perturbava por serem mais próximas do que imaginava: os corpos desmaiados no chão ainda recendiam a uma orgia impregnada de desvarios. Na tumba, o anjo tocava a lira, ameaçado pela Morte e por sua silhueta faminta. Aos pés do improvisado altar, uma medusa chorava, lançando um olhar de desespero à procura de uma salvação que não viria. Codificado no interior de um quadro, escondido por trás de camadas de símbolos, de corredores, de neblinas e de falsas respostas, encontrava-se tudo o que precisávamos saber sobre o Fim. Impossível não ver o quadro e não reconhecer que existe um segredo a deslizar, escorreito como uma serpente, por trás das tintas, ansioso para ser descoberto, debochando da nossa sanidade. Impossível não estremecer ao pensar que, nesse exato momento, em uma galeria de arte tcheca, existe um quadro que contém o fim do Universo à espera de um salvador, e não conseguimos entender, pois não entendemos nada, nunca entendemos nada – em especial o que está na frente dos olhos.

Texto originalmente publicado no link https://artrianon.com/2017/07/09/obras-inquietas-38-finis-o-fim-de-todas-as-coisas-1887-maximilian-pirner/

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Dois cadáveres frente a frente

Alguns dias atrás, o Canadá descriminalizou o duelo. A partir de agora, está legalmente aceito em terras canadenses o uso de duelos para arbitrar conflitos de uma maneira civilizada. Mas não nos empolguemos: na realidade, a legislação já existia. A circunstância dela não ter sido revogada em uma recente alteração legislativa no Canadá levou a concluir que os duelos ainda seriam possíveis, acaso preenchidos os requisitos legais. Mais detalhes estão nesse link: http://mundoestranho.abril.com.br/blog/contando-ninguem-acredita/com-reforma-no-codigo-penal-canada-descriminaliza-o-duelo/

Sempre senti uma forte atração por narrativas envolvendo duelos. Gosto da ideia de uma desavença entre duas pessoas ser resolvida de maneira civilizada entre somente ambas, sem envolver multidões. Em um mundo repleto de insignificâncias e de pessoas atacando e difamando pelas costas, soa quase utópica a ideia de homens e mulheres resolvendo eventuais problemas através de uma luta justa que limpe a honra com sangue.

Como não lembrar de “O duelo”, magistral conto de Tchekhov? Ou de “Duelo”, escrito por Guimarães Rosa? Também é possível citar “Os duelistas”, de Joseph Conrad – aliás, considerei o livro mais intenso do que o filme de Ridley Scott. Contudo, minha memória literária está afetivamente ligada a uma obra menor de Alexandre Dumas, “Os irmãos corsos“. Foi um livro que li quando era pequeno, e ainda me recordo a história dos irmãos gêmeos que conseguem sentir as dores e sofrimentos um do outro à distância. Quando um deles, o mais fraco e despreparado militarmente, morre em um duelo por causa de uma mulher, o outro vai vingá-lo em um novo duelo, fiel às tradições da Córsega. É uma história muito bonita, de amor de irmãos, de honra, de luto expiado pelo sangue. Esse livro vive nas prateleiras da minha memória, pois nunca mais o encontrei nas bibliotecas do mundo.

“Duelo depois de um baile de mascarados”, de Jean-Léon Gérôme

(Nesse momento abro um parênteses para lembrar o nome do pior duelista de todos os tempos, o nosso Euclides da Cunha, que pegou um militar com a sua mulher na cama e errou dois tiros, dando tempo para o homem desnudo pegar a própria pistola e matá-lo).

Entre os escritores, o maior duelista de todos foi o russo Aleksandr Pushkin, autor do incrível “Eugene Onegin” e, na minha opinião, o maior escritor russo que já existiu (e olhem que a concorrência é pesada). Gosto muito da história do duelo em que ele deixou o adversário desconcertado quando comeu cerejas sob a mira da pistola. Contei isso no texto que está no link http://wp.me/p24M2p-Ld , e aconselho que todos leiam como um modelo de comportamento digno diante da morte.

Pushkin era um homem que se irritava com facilidade. Durante a sua curta vida, ele convidou 20 desafetos para duelos – e recebeu convites para duelar de outros sete homens. Um homem bem esquentado. O primeiro adversário que convidou para duelar foi o próprio tio, quando ele tinha 17 anos: o tio roubou a mulher com quem ele estava dançando em uma festa, e isso foi o estopim para a briga, a qual não foi levada às últimas consequências, com os dois fazendo as pazes.

Grande parte das contendas do escritor russo foram evitadas por seus amigos, que negociaram essas questões de honra antes de chegarem até o final. Não surpreende que tenha morrido por causa de um dos duelos que foi impossível negociar. Detalhe interessante é que Pushkin nunca deu o primeiro tiro nos duelos de que efetivamente participou, ou seja, nunca ganhou um mísero cara e coroa para ver quem disparava primeiro.

Pushkin teve muito azar no seu último duelo, realizado contra Georges D’Anthès, que teria sido publicamente apontado como amante da esposa de Pushkin, a famosa Natalia Gontcharova. Dessa vez o escritor pegou pela frente um atirador experiente, e os dois não observaram a distância regulamentar de 25 a 30 passos de distância para o disparo, combinando somente 10 passos. O escritor foi atingido no estômago mas, antes de cair, ainda alvejou o adversário na mão. Mesmo agonizando no hospital, preocupou-se com o destino de D’Anthès, perdoando-lhe e pedindo para que o czar Nicolau não condenasse o seu adversário à morte (duelos eram proibidos na Rússia, e esse foi realizado de forma ilegal).

“Pushkin se despede do mar”, de Ivan Aivazovski

Existiu honra no comportamento de Aleksandr Pushkin. Estava com um problema com outro homem e, ao invés de fazer uma campanha de difamação ou de xingá-lo pelas costas (ou até responsabilizar a mulher pela traição, algo que somente covardes fazem), decidiu resolver a desavença frente a frente. No mundo atual, estamos tão acostumados a ver pessoas evitando os seus problemas e preferindo culpar os outros que até parece difícil de entender que a melhor maneira de resolver uma divergência é encarando a própria fonte causadora para chegar a uma resolução.

As situações seriam muito mais simples se, ao invés de perdermos tempo envolvendo outras pessoas nos nossos próprios dramas, tentássemos resolvê-los sozinhos. Mais e mais me convenço do fato de que sou o artífice do meu destino e, quanto menos gente se envolver nos meus conflitos, melhor será para todos. Nesse sentido, oportuno lembrar o pequeno conto do escritor argentino Rodolfo Walsh, cuja lição é muito atual: quando enfrentamos o nosso problema sem interferências de outras pessoas, existem somente dois cadáveres na sala – o meu e o outro. É dessa maneira que pessoas de valor resolvem seus problemas, frente a frente, confiantes nas suas habilidades e sabendo que, mesmo derrotados, ainda assim tinham razão na sua causa.

Deixo aqui o pequeno conto de Walsh, traduzido por Sérgio Molina e Rubia Prates Goldoni:

 

A cólera de um plebeu

(autor chinês anônimo)

 

O rei do T’sin mandou dizer ao príncipe do Ngan-ling: “em troca de tua terra quero dar-te outras dez vezes maiores. Peço que acates minha demanda.” O príncipe respondeu: “Faz-me o rei uma grande honra e uma oferta vantajosa. Mas recebi minha terra de meus antepassados príncipes, e desejaria conservá-la até o fim. Não posso consentir nessa troca”.

O rei se zangou muito, e o príncipe mandou T’ang Tsu em embaixada. O rei disse ao embaixador: “O príncipe não quis trocar sua terra por outras dez vezes maiores. Se teu senhor ainda conserva seu pequeno feudo, quando já arrasei grandes países, é porque até agora o considerei um homem venerável e não me ocupei dele. Mas se ele agora recusa sua própria conveniência, realmente está zombando de mim”.

T’ang Tsu respondeu: “Não é isso. O príncipe quer conservar a herdade de seus avós. Ainda que lhe oferecêsseis um território vinte vezes maior, ele igualmente o recusaria”.

O rei se enfureceu e disse a T’ang Tsu: “Sabes o que é a cólera de um rei?”. “Não”, respondeu T’ang Tsu. “São milhões de cadáveres e o sangue correndo como um rio em mil léguas à roda”, disse o rei. T’ang Tsu então perguntou: “Sabe Vossa Majestade o que é a cólera de um simples plebeu?”. Disse o rei: “É perder as insígnias de sua dignidade e partir descalço golpeando o chão com a cabeça”. “Não”, respondeu T’ang Tsu, “essa é a cólera de um homem ordinário, não a de um homem de valor. Quando um homem de valor se vê obrigado a encolerizar-se, cadáveres aqui não há mais que dois, o sangue corre a apenas cinco passos. E, no entanto, a China inteira se veste de luto. Hoje chegou esse dia”.

E se levantou, desembainhando a espada.

O rei turbou-se, saudou humildemente e disse: “Mestre, volta a sentar-te. Para que chegar a isso? Já compreendi”.

Um último detalhe: adoro o final seco desse conto, em que o rei praticamente diz “meu jovem, qual a necessidade disso, senta aí e vamos conversar.”

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Obras Inquietas – 37. “O suicida” (1880), Édouard Manet

Nessa semana na coluna “Obras Inquietas”, eu tratei de um pequeno quadro de Édouard Manet – pequeno no sentido de dimensões, ele possui em torno de 30 cm X 46 cm – que, sem firulas, aborda um assunto considerado tabu até hoje: o suicídio. O quadro é ainda mais singular pelo seu mistério, pois ninguém sabe quem é o suicida retratado (já tentaram ver várias pessoas, até um assistente do estúdio em que o artista trabalhava) e é um quadro que escapa das temáticas preferidas de Manet. Perturba mais por ser uma cena que acabou de acontecer, e o suicida ainda não está completamente morto, mas no limite entre a vida e a morte.

Boa leitura.

O suicida (1880), Édouard Manet

Ninguém nunca saberá qual nome eu carregava. A partir de hoje, serei conhecido somente como “o suicida”, e as pessoas evitarão pensar em mim, enquanto secretamente insultam a fraqueza ou covardia que me levou a esse gesto. Os homens e mulheres são tão fortes, tão bravos, tão destemidos, e a ideia de que existam pessoas que não aguentam o peso insuportável da vida é algo que atemoriza pela sua proximidade: todos pensam em um fim cômodo, uma forma honrosa de colocar fim aos problemas, uma saída de cena no auge da experiência. A única diferença a nos separar é que dei o último passo, enquanto os demais preferem continuar carregando a sua miséria por todos os lados, em uma vida que se prolonga, indesejada, inoportuna. Nenhuma pessoa conhecerá qual angústia carcomia os meus pensamentos no momento em que decidi acabar com o sofrimento, disparando a arma contra o peito. A dor de existir é silenciosa, mas dilacera o espírito como uma adaga a se retorcer nas tripas. Ninguém imaginará o nome que escapou dos meus lábios quando o estrondo do tiro encheu o mundo. Entrarei para o rol dos covardes, para a lista de nomes a serem esquecidos ou mencionados somente em sussurros, nos entremeios de ruidosas festas; todos temerão que a minha covardia seja contagiosa. O suicida é a pessoa mais sozinha do mundo e, no quarto de hotel em que estou, o silêncio era absoluto até o disparo atravessar a noite. Ninguém será capaz de entender o alívio que se espalhou pelos músculos até então contraídos, tendo a bala como epicentro nervoso, quando a morte invadiu meu corpo com seus dedos repletos de gelado. Não terei sequer o consolo de uma lápide; ninguém nunca mais lembrará quem fui, a não ser em alguma risada indiferente ou algum comentário debochado. Eu sou aquele que não devia ter nascido

Texto originalmente publicado no link https://artrianon.com/2017/07/02/obras-inquietas-37-o-suicida-1880-edouard-manet/

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Texto publicado no jornal Zero Hora (01/07/2017): “A arte de viver no vulcão”

Ontem saiu no jornal Zero Hora um artigo que escrevi sobre os espíritos que moram no fundo dos vulcões, sobre a Margaret Atwood e o texto empolgado que ela escreveu com dicas de como os artistas deviam se comportar sob a égide de Trump, e terminei com Ezra Pound e a função da literatura, tudo para dizer algo que tenho refletido muito nos últimos tempos: quando a arte vem com uma mensagem social explícita, ela deixa o status artístico e vira panfleto. Pior ainda – dispara um tiro contra o próprio pé, pois afasta as pessoas, que se sentem ludibriadas quando querem refletir livremente sobre algo e acabam sendo sugestionadas por uma posição pessoal que o artista inseriu à força. A verdadeira arte é aquela que não só reflete a sociedade em que vivemos como é consequência de assuntos do passado e também pode ajudar as sociedades do futuro a resolver seus problemas.

Muitas pessoas de fora do Estado me pediram cópia do artigo, e resolvi colocá-lo aqui no blog para viabilizar uma discussão de maior alcance. Aproveitei para, em um plus, colocar os links que mencionei no texto: o trailer do documentário “Visita ao inferno” (2016), de Werner Herzog, e o texto “What art under Trump?” de Margaret Atwood.

Boa leitura!

 

A arte de viver no vulcão

 

No início do documentário “Visita ao inferno” (2016), de Werner Herzog (disponível na Netflix), que trata da relação quase mística entre seres humanos e vulcões, o líder da aldeia Endu, localizada na Ilha Ambryn, afirma existir espíritos que vivem em meio à lava. O calor imorredouro do fogo e a raiva das explosões de magma seriam os espíritos se retorcendo no fundo da terra e, diante das imagens hipnóticas da lava e dos seus contorcionismos preguiçosos, é difícil imaginar que não exista vida no fundo de um vulcão.

Pensar na fúria indômita de um vulcão leva-nos a lembrar um artigo escrito por Margaret Atwood tão logo Donald Trump assumiu a presidência dos Estados Unidos. Nesse texto, publicado em The Nation e intitulado “What art under Trump?” (“Qual será a arte sob Trump?”), presente no link  https://www.thenation.com/article/what-art-under-trump/ , a autora de “O conto da aia” traça um histórico sobre as ocasiões em que a arte esteve ameaçada pelo poder constituído – e de como, mesmo cerceada, ela vicejou em meio a terrenos tão pedregosos. Mencionando a postura dos artistas que se lamentavam sobre a vitória do republicano – alguém conhecido por desprezar qualquer expressão artística -, Atwood indica escritores que, em tempos de crise, souberam usar a arte para não só definir o tempo em que viviam, como lançaram luzes para o futuro. Com palavras que mal disfarçam a empolgação, a escritora diz que novas oportunidades se abrem para artistas: façam distopias, como Yevgeny Zamyatin; elaborem sátiras sofisticadas, como Jonathan Swift; criem “arte de testemunho”, como Anne Frank ou Nawal El Sadaawi. Contudo, Atwood alerta: façam arte e não política. A arte não funciona sob o espectro monocromático de qualquer mensagem política; ela existe para desconstruir o mundo ao invés de transmitir ideologias. Os artistas cujas obras sobreviveram não foram os que melhor denunciaram as mazelas sociais, mas quem soube usar a arte como pano de fundo de um anseio humano que atravessa todos os tempos, não só o imediatismo do dia seguinte.

O texto de Margaret Atwood serve como admoestação não só para os artistas que vivem sob a égide de Trump, mas para todos. Usar a arte com um propósito, seja ganhar dinheiro ou status, seja passar uma mensagem social, religiosa ou política, é a garantia de que a expressão artística pode até ser consumida pelo público, mas não digerida. Despertará fagulhas, jamais a chama duradoura de uma reflexão. Nunca isso foi tão evidente quanto nos tempos atuais, quando se percebe artistas mais preocupados em passar mensagens ideológicas – aqui no seu sentido mais amplo – do que em realizar uma obra consistente, algo que redimensione o universo alheio ao invés de desaparecer como se nunca tivesse existido.

Em “A arte da poesia”, Ezra Pound afirma que a função da literatura não é a de coagir, persuadir emocionalmente ou forçar as pessoas a aceitarem ou deixarem de aceitar outras opiniões, mas manter a clareza e o vigor de todos os pensamentos e opiniões. Usar a arte para impor uma visão de mundo é fazer com que ela não seja arte, mas uma simples chateação que logo passará. O verdadeiro artista não é aquele que denuncia a destruição da lava ou o avançar do fogo, mas quem está no fundo do vulcão, retorcendo-se com desconforto enquanto sonha com o céu coalhado de estrelas infinitas revelado pela boca da cratera.

 

Texto originalmente publicado em http://zh.clicrbs.com.br/rs/opiniao/noticia/2017/07/a-arte-de-viver-no-vulcao-9829635.html

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Resenha do livro: “A arte do estilo”, de Henry James e Robert Louis Stevenson (org. Marina Bedran)

Escrevi para o Amálgama ( www.revistaamalgama.com.br ) uma resenha sobre o livro “A arte do estilo”, que reúne ensaios e a correspondência mantida entre Henry James e Robert Louis Stevenson. Um diálogo epistolar educado, repleto de argumentos inteligentes e de frases que poderiam muito bem figurar nas obras de qualquer um deles, de tão poéticas e cristalinas. Um livro que me engrandeceu como escritor e como ser humano.

Boa leitura!

Henry James e Robert Louis Stevenson: uma improvável amizade literária

 

Em um mundo cada vez mais polarizado, e em que as pessoas não só possuem opiniões imutáveis como ainda são incapazes de dialogar e provar a validade das suas crenças, usando de ironia grosseira e de violência retórica, soa até estranho imaginar que, não muitos anos atrás, dois indivíduos que pensavam diferente poderiam não só expor suas divergências em busca de pontos em comum, como inclusive se tornarem amigos. O ódio insensato direcionado contra aqueles que não comungam dos nossos ideais é uma característica da pós-modernidade, amplificada pela multidão de nomes sem rosto que grassa nas redes sociais. A simples ideia de opostos estabelecerem uma conversa respeitosa que, longe de ser uma tentativa de doutrinação é mais uma forma de fortalecimento da própria ideia por meio da sua defesa contra um adversário ardiloso e convincente, parece mais ficção científica do que uma hipotética invasão alienígena.

Contudo, por muitos anos, essa foi a tônica do comportamento civilizado: ao invés de odiar o diferente, tente entendê-lo. Nesse processo, um respeito relutante acaba surgindo, e o que era uma discussão entre duas pessoas diametralmente opostas pode se transformar em uma amizade um pouco fria, mas, ainda assim, uma forma de relacionamento que permitiria a convivência de ambas as ideias sem que uma precise eliminar a outra. É o que se depreende de “A aventura do estilo” (2017), que reúne a correspondência trocada entre o escritor nascido americano e naturalizado inglês Henry James e o escocês Robert Louis Stevenson: é só através do diálogo e da troca de experiências que qualquer sociedade pode evoluir. Ainda assim, ao término da leitura, a sensação geral foi de uma relativa tristeza por ver o quanto a sociedade atual se afasta – e com alegria selvagem – dos ideais que nortearam a conversa epistolar entre os dois escritores. Em meio ao oceano de ódio que se espalha por entre as pessoas e suas mais diversas causas e matizes ideológicos, está cada vez mais difícil encontrar diálogo e razoabilidade – sem contar uma dose de inteligência, bom humor e disposição de ouvir o outro.

Antes de prosseguir, uma breve contextualização histórico-literária: dificilmente poderiam existir dois escritores mais equidistantes do que Henry James e Robert Louis Stevenson. Autor de “Os embaixadores”, “Pelos olhos de Maisie” e do inigualável “A fera na selva”, Henry James era um escritor de emoções frias e de uma prosa elegantemente construída, retratando os dramas humanos por meio de uma lente concentrada nas classes mais abastadas; na sua obra, o conflito essencial se estabelece entre civilização e barbárie, entre emoção e razão, entre os sonhos românticos de uma Europa idealizada e os valores materiais de uma América ainda jovem e impetuosa. Essas características ajudam a explicar um pouco a frase jocosa de William Faulkner, “Henry James was one of the nicest old ladies I ever met.”.

Por sua, vez, Robert Louis Stevenson escreveu obras como “A ilha do tesouro” e “O médico e o monstro”, sendo um escritor muito mais físico e menos intelectualizado, muito mais emocional do que racional; não bastando escrever uma literatura que, na sua época, era considerada mais entretenimento do que arte (status esse que acabou sendo revisto por força dos inúmeros escritores que confessaram admirar o seu estilo, entre os quais Jorge Luis Borges, Chesterton e Ítalo Calvino), Stevenson também viveu com intensidade, viajando pelo mundo a bordo de navios e passando por uma série de aventuras que registrou parcialmente na sua vasta obra.

Ao lado do frágil e sensível James, Stevenson – mesmo padecendo de uma tuberculose persistente – era não só um poço de saúde como um espírito impregnado de vivacidade. A tradutora e organizadora de “A aventura do estilo”, Marina Bedran, descreve como foi o primeiro encontro entre os dois escritores: “após um primeiro encontro, em 1879, James diria que Stevenson lhe parecera um ‘boêmio de camisa sem colarinho e um belo de um poseur (de um modo inofensivo)’. Stevenson, por sua vez, viu em James ‘um mero habitué de clubes […] de forma alguma um homem corajoso e afeito às atividades ao ar livre’, e, se estimou desde o início a precisão da escrita jamesiana, se irritava um pouco com seus preciosismos, e achou Washington Square desagradável.”

A amizade improvável entre ambos nasceu graças a uma divergência literária. Em 1884, James publicou em “The Longman’s Magazine” um ensaio intitulado “A arte da ficção”. Nesse texto, o escritor britânico refutou uma palestra proferida pelo escritor e crítico literário Walter Besant, pretendendo ver no romance uma forma de competir com a vida, transmitindo para o leitor uma realidade postiça, mas nem por isso menos real. Para James, o melhor romance seria aquele que mais sucesso tivesse em reprisar a realidade e a vida. O dever da arte – para isso ele usa o exemplo da pintura – era ser fiel ao real, e o melhor artista era aquele que mais se adequasse a esse ideal. Mais do que expor uma história, o escritor era um artista dedicado a representar o real e a transformá-lo de dentro para fora.

Stevenson enviou um pequeno texto para a revista literária, refutando a opinião de Henry James. No título, “Um humilde protesto”, expressa todo o seu respeito perante as ideias do outro: ele reconhece que não possui a erudição e o esmero com as palavras que caracteriza James, e também sabe que é considerado um autor menor para a crítica literária de então, mas isso não lhe impediu de expressar o seu ponto de vista com tenacidade. Para o escritor escocês, a arte e a vida são conceitos que possuem alguns pontos em comum, mas não se confundem entre si. Sua defesa foi apaixonada:

“Competir com a vida, para cujo sol não podemos olhar, cujas paixões e doenças nos consomem e nos matam, competir com o sabor do vinho, a beleza da aurora, o trepidar do fogo, a amargura da morte e da separação, eis a escalada aos céus que se pretende. São trabalhos para um Hércules de casaca, armado de uma pena e de um dicionário, para retratar as paixões, armado de uma bisnaga de alvaiade para pintar o retrato do sol inclemente. Nenhuma arte é verdadeira nesse sentido, nenhuma pode ‘competir com a vida’, nem mesmo a história, construída a partir de fatos que são incontestáveis, mas que tiveram sua vivacidade e sua pungência roubadas, de modo que, mesmo quando lemos sobre uma cidade saqueada ou sobre a queda de um império, nos surpreendemos e louvamos com justeza o talento do autor, se nosso coração dispara. E, como uma última diferença, essa aceleração dos batimentos é, quase sempre, puramente prazerosa: essas reproduções fantasmagóricas da experiência, mesmo as mais fiéis, causam prazer, enquanto a própria experiência, na arena da vida, pode torturar e matar”.

Essa troca de textos públicos dá início a uma troca de cartas que pretende discutir os conceitos de arte, de literatura e de vida, estabelecendo algo que se possa chamar de estilo para um romance nos tempos de então. Na primeira carta, antes de se debruçar sobre o assunto que os fascina, Henry James reconhece as diferenças entre ambos e o valor literário do colega escritor: “É um luxo, nessa era imoral, encontrar alguém que escreve – que realmente tem familiaridade com essa arte adorável. Não seria justo bater-me com você aqui; além disso, nós mais concordamos, creio eu, do que discordamos, e ainda que haja pontos sobre os quais um espírito mais impetuoso que o meu gostaria de pelejar, não é isso o que eu desejo – quero, ao contrário, lhe agradecer por tudo o que há de feliz e de sugestivo em suas observações – notadas com tanta perspicácia e ditas com tanto brilhantismo”.

Uma leitura desses dois breves trechos permite-nos ver a graciosidade repleta de inteligência e de poesia dos escritores, e é uma pena que o tamanho diminuto dessa resenha não permita destacar mais pontos de grande beleza esgrimida entre dois homens que buscavam pontes de compreensão onde existia somente diferença. “A aventura do estilo” é um livro para ser digerido com calma, não pela complexidade das ideias contidas no seu interior, mas pela construção laboriosa dos argumentos e das reflexões de ambos os autores, que encontram na sua troca de cartas um espaço privilegiado para discutir literatura e vida. De uma relação epistolar que se estabelece com cautela e respeito mútuo, aos poucos a amizade cresce, bem como as confidências e a troca de dúvidas sobre as próprias obras.

Mais do que uma discussão estéril e egocêntrica sobre estilos literários, “A aventura do estilo” revela dois escritores no auge da sua criatividade, ambos debruçados sobre a mais antiga questão: o que é mais importante, viver ou escrever? E, se escrever não é uma possibilidade, mas uma necessidade para ambos, como a forma literária pode ser trabalhada até a perfeição sem perder a sua essência humana (posto que os dois são unânimes em admitir a impossibilidade relativa de uma obra de arte atingir a perfeição incontestável). No entanto, o grande destaque do livro é a sua fluidez e a clareza argumentativa de Henry James e Robert Louis Stevenson, dois escritores que deixaram de lado as suas divergências filosóficas e estéticas para se concentrarem naquilo que realmente importava: uma boa e saudável conversa, na qual, ao tentarmos entender a opinião do outro, acabamos fortalecendo a nossa.

 

Texto originalmente publicado no link https://www.revistaamalgama.com.br/07/2017/resenha-a-aventura-do-estilo-henry-james-robert-louis-stevenson/

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