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Texto publicado na revista eletrônica da Dublinense (20/10/2015): “Vamos ser mais cruéis com nossos semelhantes”

Na minha coluna desta semana no Medium da Dublinense, falei sobre escritores cruéis com personagens e também sobre criações que dão uma sova no seu demiurgo.

Ao contrário do que o senso comum dita, acredito que escritores que não sejam cruéis nem deveriam estar escrevendo. Nos tempos atuais, existe uma exasperadora vontade de buscar a versão mais politicamente correta do mundo, e esta correção toda deixa a Literatura pasteurizada.

Devemos ceder à maldade que mora no fundo dos nossos corações. Mergulhar no desassossego da nossa condição de ser humano. Não ser corretos nunca, pois só sabe o caminho do correto aquele que não tem medo de enfrentar a crueldade inerente ao seu espírito.

Ando um pouco cansado de livros que não me acrescentam nada, que são somente entretenimento vazio. Faz falta um pouco de crueldade no mundo – e admitirmos que, no nosso interior, espreita uma criatura maldosa ansiosa para ser decodificada, sendo que as artes são a melhor forma de entender este animal que mora em cada um.

Boa leitura!

Vamos ser mais cruéis com nossos semelhantes

Sejamos sinceros: escritores não são boa gente. São pessoas repletas de manias, delicadas a ponto de tecer odes a cebolas ou criaturas insensíveis capazes de ver o pai morrendo e, ao invés de confortá-lo, pegar uma pena e descrever os seus egoístas pensamentos. São indiscretos; nenhum segredo está a salvo deles. São vingativos — você nunca terá certeza se determinado personagem escroto não é a resposta cheia de rancor a uma antiga briga. São infantis e déspotas, falastrões e irônicos, vaidosos das suas obras e petulantes sobre as suas capacidades. Eles pensam ter poderes divinos, e o fato de Santo Agostinho, em um trecho das “Confissões”, brincar (só pode ser brincadeira, ele era um grande pândego) que Deus foi o primeiro e último escritor que existiu, pois, após criar o universo e o mundo no Gênesis, “olhou a sua obra e ficou satisfeito”, não ajuda em nada para debelar tamanha presunção.

Mas os maiores escritores são os cruéis. Aqueles que estão pouco se lixando, não somente com o seu leitor, mas com prêmios literários, com honrarias, com listas, com dinheiro, com entrevistas. Aqueles que só estão no ofício literário para ter um pretexto legalizado de pegar um bando de personagens e fazer bullying com eles até cansar. Usar a obra como um “sparring” e derrubá-la seguindo as regras do ringue da Literatura e, quando os juízes intervirem, continuar acertando golpes baixos no corpo caído.

É uma pena que a pós-modernidade nos amoleceu, transformando-nos em uma massa amorfa de cordeiros balbuciando as mesmas verdades engessadas enquanto fazem corações com os dedos. Estamos perdendo o viço da maldade e, se existe algo importante que a Literatura nos mostra, é a capacidade do homem de ser cruel com o seu semelhante. Não é algo ruim: é a velha catarse mencionada por Aristóteles, o desejo quase indecente de expiar nossos pensamentos malvados por meio da identificação com o drama alheio. No entanto, do jeito que as coisas vão, em breve não existirá mais maldade nos textos ou personagens completamente desprezíveis. Teremos uma Literatura feita para unicórnios — ou para pandas.

Escritores sofrem e fazem sofrer [Fonte: Radio Play Musical]

Uma das poucas coisas que me orgulha nas releituras que faço do meu livro e de outros textos é que reconheço ser um crápula em relação às minhas histórias. Não tenho sentimentos bonitos de libertação ou de alívio, como leio nas frases pasteurizadas de outras entrevistas. Nada disso. Para mim, a literatura funciona mesmo é na base da violência; agrido ou serei agredido e, neste espírito, sempre prefiro dar o primeiro soco.

No final, existem duas opções: ou as palavras seguem aquilo que eu quero ou serão destruídas. Os leitores não conseguem ver tamanha tirania, pois está bem escondida atrás de camadas de palavras bonitas, mas, ultrapassando os muitos vernizes que passei sobre as minhas ideias, existe um espírito animalesco contorcido, gritando por um copo de água. “A mad man in the attic”: um escravo aprisionado no porão da minha criatividade. Às vezes, eu abro a janela e deixo entrar uma lufada de ar fresco, mas logo volto a encerrá-lo no seu catre úmido e sombrio. Consigo ver a origem desprezível de cada história, a forma com que peguei um sentimento genuíno e o transformei em aberração, e, por causa disto, toda a minha experiência literária é uma tentativa de disfarçar os caminhos que deslindarão a maldade do espírito que anima meu corpo.

Menos mal que não estou sozinho neste percurso impregnado de crueldade. Algum tempo atrás, emprestaram-me um livro fascinante, “Lectures on Don Quixote”, de Vladimir Nabokov, contendo as aulas que o escritor russo ministrou em Harvard sobre o livro de Miguel de Cervantes. Após uma análise detalhada do clássico, contando personagens, motivos, cenários e outros detalhes — um começo bastante chato, aliás -, Nabokov apresenta uma ideia revolucionária. Para ele, “Dom Quixote” é uma das obras mais cruéis da Literatura. Cervantes pegou uma personagem com problemas mentais e a colocou dentro do livro com o intuito exclusivo de debochar das suas desventuras. A extensão avantajada do livro demonstra o tamanho da maldade do autor, que criou a personagem só para poder torturá-la e humilhá-la de todas as formas possíveis. A conclusão dele é aterradora: Cervantes escreveu “Dom Quixote” ao mesmo tempo em que gargalhava das maldades criadas, sendo possível escutar as suas risadas maléficas por entre as frases do livro.

Esta é a leitura que Nabokov fez de “Dom Quixote”. Talvez tenha forçado algumas conclusões, mas é uma visão sedutora. Deixar de ver a obra como a trama de um homem imerso no conflito entre a imaginação e a realidade, passando a encará-la como um longo exercício de degradação da personagem. Nossas risadas assumem caráter desconfortável, e Cervantes deixa de ser um exímio fabulista para se transformar em um torturador de extremo requinte, capaz de fazer a sua personagem sofrer diante da plateia — e ainda ganhar aplausos. Para Nabokov, gostamos em “Dom Quixote” a sua capacidade de atrair por meio da maldade do autor. Ele não tira a importância da obra para a História da Literatura, mas a considera dotada de um humor duvidoso e bárbaro.

O que Nabokov desconsidera é o fato de que, se os escritores não forem cruéis com as suas tramas e com as personagens, eles serão escravizados. É uma luta inglória, gangorra que nunca está equilibrada; ou estamos batendo ou estamos apanhando.

Nesta hora, recordo de “Cartas Exemplares”, de Gustave Flaubert. Após “A tentação de Santo Antonio”, Flaubert isolou-se da sociedade parisiense, mudando para o campo. Tinha a ideia de escrever o romance definitivo, algo que nunca tinha sido tentado antes: o livro que, no futuro, se transformaria em “Madame Bovary”.

Flaubert, em retrato feito por Eugène Giraud [Fonte: Wikipedia]

As cartas de Flaubert são dolorosas. Seu método de escrita foi lento, excruciante. Nos dias bons, ele escrevia uma ou duas páginas; nos dias ruins, rasgava estas páginas boas e saía com um parágrafo ou uma frase. Existem poucas situações mais frustrantes do que passar um dia inteiro tentando criar um livro para sair somente uma frase. O escritor francês passava a manhã caminhando e respondendo cartas, em preparação física para o momento de trabalhar. As tardes arrastavam-se sem que a obra avançasse, e as lamúrias de Flaubert demonstram o massacre sem piedade que ele sofreu.

Lendo as cartas, fica visível que “Madame Bovary”, a personagem, deu uma surra inesquecível e diária no seu autor. Mostrou quem mandava na história e, se o livro existe hoje, não foi por mérito do seu criador, mas por graça e obra da criatura, que se permitiu vir ao mundo. Ao contrário do detectado por Nabokov em “Dom Quixote”, na correspondência deixada por Gustave Flaubert é possível escutar as risadas de Emma Bovary enquanto tortura o seu autor sem piedade alguma.

Os críticos leem as “Cartas Exemplares” (só a parte correspondente à criação de “Madame Bovary”, pois, após o seu lançamento, as cartas de Flaubert passaram a ser engraçadas missivas explicando para leitores que, não, a história não era real e, não, nenhuma das personagens correspondia a pessoas existentes na sociedade francesa) como “a cuidadosa e detalhada elaboração de uma obra literária”. No entanto, por trás do aspecto técnico, existe uma verdade incômoda: Flaubert apanhou da sua personagem. Quase enlouqueceu por causa dela. No esforço de dar voz e concretude para Emma Bovary, o escritor francês teve que se submeter à escravidão e à exaustão física.

A descrição da sua rotina de trabalho revela a sova que o livro lhe aplicou de forma incessante, durante cinco anos, conforme carta enviada para Louise Colet: “Eu estou arrasado, o cérebro se põe a dançar no crânio. Acabo, isto desde ontem das dez da noite até agora, de recopiar setenta e sete páginas de vez que não dão mais que cinquenta e três. É embrutecedor. A coluna vertebral está no pescoço, como observaria M. Enault, quebrada por causa da cabeça abaixada tanto tempo. Quantas repetições de palavras eu acabo de surpreender! Quantos todo, mas, pois, entretanto! É isto que é diabólico na prosa, que faz com que nunca esteja terminada. No entanto há boas páginas, e eu creio que o conjunto funciona, mas eu duvido que eu esteja pronto para ler no domingo tudo isto para Bouilhet. Assim, desde o fim de fevereiro, eu escrevi cinquenta e três páginas! Que ofício encantador! Que creme desgraçado de bater, que vale por mármores a serem carregados!”

São dois exemplos extremos: o autor que tortura intencionalmente a sua personagem e o escritor que precisa se submeter aos caprichos e veleidades da própria criação. Conforme Sócrates, a literatura amortece a vida, e contra isto devíamos nos insurgir. É possível ver toda a experiência artística como um flerte incessante com a noção de crueldade e com aquilo que existe de pior no espírito humano. Victor Hugo dizia que mesmo o grotesco tinha um aspecto sublime e, assim, é difícil de entender o motivo pelo qual tantos escritores atuais tratam com tanta civilidade as suas personagens e vice versa. O mundo era um local bem melhor quando assistíamos aos banhos de sangue nas tragédias gregas ou líamos obras escritas não para ganhar dinheiro, mas ao som alegre dos chicotaços distribuídos por personagens dominadores. Pelo menos, não éramos tão cínicos a ponto de achar que o mundo é um local bom e que a Literatura só eleva o espírito humano, quando, na realidade, ela deveria ser um espelho da nossa imorredoura crueldade — o animal que não gostaríamos que morasse no fundo dos nossos olhos.

(Texto originalmente publicado no link https://medium.com/colecao-dublinense/vamos-ser-mais-cru%C3%A9is-com-nossos-semelhantes-810b94b0707#.tj1efzkv8 )

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OK, agora sou um velho

Em uma conversa recente, perguntaram-me qual o momento em que tomei consciência de que era um adulto. A resposta veio fácil: foi o dia em que alguma pessoa, em lugar não mais lembrado, chamou-me de “senhor”. Não “guri”, “moço”, “cara” ou  “tu aí”; foi um vistoso “bom dia, senhor”. Eu ultrapassara a barreira da irresponsabilidade da juventude e chegara, enfim, ao mundo dos adultos e de suas obrigações. As outras respostas foram igualmente interessantes: o dia em que recebi uma conta bancária com o meu nome estampado; o dia em que entrei na faculdade; o dia em que levei uma namorada na casa dos meus pais. Momentos em que pensamos: OK, agora sou um adulto.

Muitos livros tratam da transição que separa um jovem da maturidade, mas poucos abordam outra passagem igualmente importante: quando a velhice chega. O instante delicado em que precisamos assumir que os anos não voltarão, e a última etapa da vida está iniciando. É um momento vital da nossa existência, aquele em que a Morte abana no horizonte e torna-se cada vez mais visível.

Na semana passada, um cliente falou algo de inesperada sabedoria. Conversando sobre o cansaço que sentia, ele acrescentou “Doutor, a gente nunca sabe quando virou um velho. Na minha cabeça, ainda sou novo.” É um fato incontestável: um dia temos todo o futuro pela frente e, no instante seguinte, estamos contando o futuro com sovinice. No início, a vida parece infinita e, a partir de uma data imprecisa, começa a contagem regressiva. Uma das minhas frases favoritas de filmes está em “Gladiador”, de Ridley Scott: os germanos preparam um ataque contra o exército romano. Um centurião comenta com o general Maximus que não sabe o motivo pelo qual os germanos ainda não se renderam à dominação estrangeira. Em resposta, o general pergunta: “você sabe o dia em que será derrotado?” Ninguém sabe. Ninguém acorda pensando que hoje será o último dia (a não ser os estoicos, mas eles estão preparados para que todo o dia seja o primeiro ou o último ou nenhum dos dois). Da mesma forma, não sabemos o momento da morte ou a data exata em que a velhice chegou.

A velhice chegará para todos nós. A questão é como iremos encará-la.

Não é segredo o meu apreço por Cícero. Sempre me arrepia imaginar a força retórica de um homem que, no período tempestuoso que marcou a mudança do regime da República romana para o Império, conseguiu não só continuar vivo, como usou as palavras para pregar aquilo que acreditava ser o certo (ainda mais um homem que nadou no meio de tubarões como Pompeu, Júlio César e Catilina, para não citar outros). No seu “Saber envelhecer”, Cícero aborda a velhice, destrinchando os problemas normalmente associados a ela e oferecendo respostas, a ponto de concluir que “somente os idiotas se lamentam de envelhecer”.

A lição principal de Cícero é a seguinte: envelhecer é uma arte e, como tal, deve ser encarada como um aprendizado de si próprio. Não adianta se lamuriar sobre o avanço da idade e a consequente decadência da memória, do corpo e do vigor sexual. Ao contrário, é necessário se adaptar às novas circunstâncias, utilizando a sabedoria inata da idade em seu benefício.

Existem duas situações inesquecíveis – uma nos quadrinhos e outra no cinema –  que abordaram o momento em que homens tomaram conhecimento amargo de que não podiam mais se comportar como jovens, e tiveram que se ajustar à sua idade. Deixaram de se lamuriar sobre a juventude perdida e passaram a usar a idade avançada como vantagem ao invés de problema.

O primeiro instante está em “O Cavaleiro das Trevas”, de Frank Miller. Um Batman envelhecido sai da aposentadoria em que se encontrava para defender Gotham mais uma vez. O problema é que o mundo está diferente: os EUA estão sob a égide de um regime fascista controlado pelo governo em conluio com os meios de comunicação, o Super Homem virou um fantoche controlado pelos políticos e o crime se modernizou.

Quando retorna, Batman continua pensando como jovem. Acredita que ainda vive na Gotham da sua maturidade. Contudo, enquanto ele envelheceu, os criminosos estão cada vez mais fortes, mais rápidos e mais ensandecidos.

É neste descompasso que Batman decide enfrentar o supremo comandante dos jovens criminosos, um ser de força descomunal, movido a drogas: o Líder Mutante. Imagina que, cortando a cabeça da cobra, conseguirá eliminar toda a ameaça.

Ele leva uma sova. Pior ainda: leva uma sova sendo humilhado. O Líder Mutante quebra o Homem Morcego de todas as formas, pontuando as porradas com frases como “Você é LERDO, velho” e “Está cansado, velho?”. Ele debocha dos socos e chutes do inimigo, mostrando a pouca importância que dá para a força do outro. Se não fosse a intervenção de um Deus ex-machina franzino (a nova Robin), Batman teria morrido.

Após ficar muito próximo da morte, Bruce Wayne se recupera e decide ter uma revanche contra o Líder Mutante. No entanto, desta vez, ele aprendeu a lição, tanto que reconhece, com humildade, que “Meu erro foi tentar ser selvagem como ele. Querer lutar como um jovem.”

Quando vai de novo enfrentar alguém mais jovem e mais forte, Batman decide usar a sabedoria: inicialmente, escolhe o terreno ideal para a batalha, onde a velocidade do outro será drasticamente reduzida (uma fossa repleta de lama). Em segundo lugar, inicia a luta mirando um ponto não tão essencial do corpo do inimigo: logo acima do supercílio. O sangue surge e se mistura com a lama, embaçando a visão do Líder Mutante. Em seguida, inutiliza um braço do adversário, atingindo os nervos do deltoide. Com o inimigo machucado, parcialmente cego e com os movimentos limitados, basta escolher a melhor maneira de liquidá-lo. Usando a sabedoria da idade e a experiência, Batman transforma em vitória retumbante a luta que seria uma derrota certa. Um homem velho adaptando-se à sua idade.

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O mais vibrante nesta cena nem é a vitória física de Batman, mas o triunfo sobre si mesmo. Ele reconhece o fato de agora ser um velho, tendo que lutar como alguém da sua idade, não como o lutador que foi no passado. Tem a grandeza de espírito e a humildade de notar que o seu tempo de glória passou, e um novo homem existe na pele daquele que se imaginava para sempre jovem. Um homem que luta não com os punhos, mas com a inteligência. Neste sentido, Batman lembra outro trecho do “Saber envelhecer” de Cícero, quando ele fala da força física e das pessoas que acreditam que seu corpo se manterá para sempre inexpugável:

“Que frase mais pungente a de Mílon de Crotona! Envelhecido, e observando no estádio atletas em treinamento, eis que ele olha seus próprios bíceps e exclama num lamento: ‘Ai, os meus estão agora arruinados!’. Não são apenas teus bíceps que estão arruinados, imbecil, mas tu mesmo! Pois não é a ti, mas a teus bíceps e abdominais que devias teu renome.”

Muitas pessoas prorrogam ao máximo o momento de confrontar a velhice, mas a pior imaturidade não é a do corpo, é a do espírito. Batman passou pelo teste: olhou-se no espelho e reconheceu que precisava representar a idade que tinha, não uma outra.

Outro instante inesquecível está no filme “Rocky Balboa”. Na minha interpretação, o filme não passa de uma comovente metáfora para o avançar da velhice e a progressiva tomada de consciência dela. A luta de boxe encenada é um embate entre a força arrogante da juventude e a experiência serena da maturidade, em que nenhum dos lados tem a possibilidade de vencer.

No momento em que Rocky decide enfrentar um lutador mais jovem e mais forte, está entrando em uma luta onde a derrota parece certa. Neste contexto, só lhe resta usar a idade como vantagem. É quando o treinador Duke estabelece a estratégia que o boxeador mais velho deve adotar:

 

Em uma transcrição, eis o que treinador fala:

“Duke: You know all there is to know about fighting, so there’s no sense us going down that same old road again. To beat this guy, you need speed – you don’t have it. And your knees can’t take the pounding, so hard running is out. And you got arthritis in your neck, and you’ve got calcium deposits on most of your joints, so sparring is out.

Paulie: I had that problem.

 Duke: So, what we’ll be calling on is good ol’ fashion blunt force trauma. Horsepower. Heavy-duty, cast-iron, piledriving punches that will have to hurt so much they’ll rattle his ancestors. Every time you hit him with a shot, it’s gotta feel like he tried kissing the express train. Yeah! Let’s start building some hurtin’ bombs!

 

Este discurso motivacional faz lembrar também a lição de Sun Tzu, de como um general deve agir quando o seu exército encontra um terreno desesperador. A princípio, remover toda a esperança dos soldados: explicar que estão em uma situação impossível de ser resolvida, que não existe maneira de serem salvos e que cada um deve lutar o máximo que puder pela própria vida. Descartada a opção de vitória, e condenando os soldados ao fim inevitável, eles lutarão com todas as suas forças. Quando Duke destaca todos os pontos negativos da idade de Rocky, está deixando implícito que o cenário é um terreno desesperador clássico, e a única maneira de vencer sobre o ringue é usar o máximo de força possível. Saber que a derrota é inescapável desde o começo, deixando a esperança como a única força capaz de mudar o resultado.

Ao invés de velocidade, Rocky desvia todo o treino para intensificar a força bruta. Quando abre mão da defesa e se concentra em melhorar o ataque, o lutador sabe que irá apanhar muito, mas confia na sua força de vontade – e no fato de que cada soco seu irá machucar o oponente. Uma tática suicida. Na luta definitiva, ocorre um novo Deus ex-machina (por causa de um soco mal dado, o oponente machuca a mão esquerda e fica algumas rodadas da luta usando somente a outra), mas não tira o mérito de Rocky reconhecer que não é mais um garoto e não pode lutar como um, e que, lembrando Cícero, “sem dúvida alguma, a irreflexão é própria da idade em flor, e a sabedoria, da maturidade.”

Tenho visto muitas pessoas imaturas por aí, tanto homens quanto mulheres. A imaturidade independe de gênero. O que realmente me consterna é acharem que a sua imaturidade pode durar para sempre. Usando a alegoria de Santo Agostinho, a vida humana é o sopro de ar quente que forma um vaso de vidro. Somos passagens, não fins (agora, usando a alegoria de Nietzsche). Reconhecer que a idade avança e que a velhice chegará é sintoma de maturidade.

O único patrimônio que perdemos é tempo. E não existe nada pior do que ser um velho bobo, alguém que, nas palavras de Cícero, pensa possuir todo o tempo do mundo, sem desconfiar que o tempo, com seus dentes carcomidos de madrepérola, é quem o possui.

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Texto publicado na revista eletrônica da Dublinense (13/10/2015): “Por um mundo com mais mau humor”

Comecei a escrever uma coluna semanal na revista eletrônica da editora do meu livro, a Dublinense (www.dublinense.com.br), onde tratarei de… não sei qual o assunto. Deram-me carta branca. A license to kill. Só fizeram a necessária ressalva de que não seria legal fazer textos racistas ou preconceituosos, mas, como alertei a corajosa Julia Dantas, irei deixar este material para a minha coluna na revista da Klu Klux Klan (aliás, ela me disse que este é o exato tipo de piada que poderia ser mal interpretada, então eu alerto: pessoal, é uma brincadeira. Uma ironia ferina. Uma estocada mordaz. Não existe revista da KKK e, se existisse, eu não escreveria nela).

Como sei que muitos dos seguidores do blog só me acompanham por aqui, consegui autorização para trazer os textos para este local. E, conforme prometi anteriormente, ele virá com algum detalhe adicional sobre a sua construção e método.

Na primeira coluna, tratei de escritores mal-humorados. Admito que sou um deles. Não é tão fácil ver o meu mau humor. Está escondido atrás de polidez, de maneiras educadas e, em especial, de muita ironia. Existe uma grande arte em ser mal-humorado sem demonstrar tal condição; são muitos anos escondendo com cautela esta faceta, deixando o mau humor surgir em pequenas doses sem, com isto, comprometer a minha sociabilidade. Em um mundo onde todos querem ser felizes, eu prefiro escutar o mau humor cáustico ao invés do elogio impensado.

Elias Canetti é um caso fascinante. Não raro ele externa comentários altamente mal-humorados com elogios e, às vezes, os dois estão no mesmo parágrafo. É necessário ler até o fim para saber se ele gosta ou não do escritor analisado e, mesmo após a leitura, permanecemos em dúvida. Foi ao lê-lo que percebi a grande arte do mau humor: dizer a verdade, mas com polidez e usando metáforas bombásticas. O mau humor pode ser uma faca, mas mesmo no manejo de lâminas devemos manter uma certa dignidade.

Boa leitura!

grumpy cat

 

Por um mundo com mais mau humor

Eu admiro pessoas mal humoradas. A sociedade exige que estejamos em busca da felicidade, e manter uma visão engraçada da vida seria um dos caminhos para se chegar lá. No entanto, quem disse que precisamos ser felizes? Na qualidade de uma pessoa que foi recentemente descrita como “o mal humorado mais engraçado de todos”, considero o humor uma característica superestimada. Aliás: o mundo seria um lugar bem mais autêntico se as pessoas cedessem à raiva da sua condição diária de almas presas dentro dos mesmos corpos, mas seria uma vasta explanação dos motivos pelo qual — parafraseando Gorki — considero o mau humor tão saudável para o espírito quanto um banho para o corpo.

Quando sugeriu que eu escrevesse esta coluna, a Julia Dantas — autora do belíssimo Ruína y leveza — disse que textos engraçados seriam apreciados. O único problema é que não sei escrever assim; estou mais para o stand-up tragedy do que para o stand-up comedy. Após uma longa troca de e-mails, na qual, entre outros fatos, ganhei a promessa — agora tornada pública — de bolo com sorvete, falamos das onipresentes galinhas e aprendi a arte de colocar quatro verbos (sendo dois gerúndios) na mesma expressão, entendi que eu tinha carta branca para escrever o que desejasse. Então, resolvi tratar de escritores mal humorados.

São vários. Nabokov tornou-se famoso pelas suas frases mal educadas; impossível esquecer a resposta que ele deu para a Paris Review, comentando o elogio de E. M. Forster sobre o domínio que ele teria sobre as personagens: “O meu conhecimento das obras de E. M. Forster limita-se a um romance, do qual não gosto. De qualquer forma, não foi ele quem deu início a essa fantasia banal a respeito de personagens que fogem ao controle; isso é mais velho do que o mundo. Se bem que, naturalmente, daria para se sentir solidário com as personagens dele, caso tentassem escapar daquela viagem para a Índia, ou onde quer que ele os estivesse levando. Os meus personagens são verdadeiros escravos”. Detalhe significativo é que o romance mais conhecido de Forster foi “Uma passagem para a Índia”: imaginar as personagens tentando escapar da chatice do seu demiurgo e embarcando em tramas para fugir do marasmo autoral sempre me fascinou.

Recentemente, assisti a uma entrevista de Borges em que ele não deixou o entrevistador concluir nenhuma pergunta; no meio da fala do outro, o escritor mexia a mão, com um sorriso que mal escondia o enfado, e punha-se a responder. Thomas Bernhard tem um mau humor refinado. Em “Meus prêmios”, ele descreve as cerimônias em que foi receber prêmios literários, ridicularizando cidades e juízes dos prêmios com ironias destruidoras.

No entanto, nenhum mal humorado é melhor do que Elias Canetti, vencedor do Nobel de Literatura de 1981. Suas opiniões sobre as obras alheias são tão cruéis que o leitor cai na gargalhada. Algumas das frases dele: “Flaubert — hipopótamo que geme”. “Ainda prefiro Deus a Tolstói”. “Se eu fosse Freud, sairia correndo de mim mesmo”. “Tudo em James Joyce o repugna; não fosse pela cegueira, haveria pouco para respeitá-lo”. “Em Montaigne, o que me incomoda frequentemente é a adiposidade das citações”.

Uma das maiores habilidades dos mal humorados é esconder esta condição, fazendo com que um um elogio inesperado rasgue o céu sombrio dos seus comentários e, assim, obscureça todas as críticas destiladas antes. Ninguém é irritado todo o tempo, mas os que se destacam em tal arte são os que sabem dosar veneno e bálsamo. Os elogios de Canetti são tão vibrantes que o seu mau humor transforma-se em um detalhe: “Se, apesar de tudo, permaneço vivo, devo isso a Goethe, da forma que só se deve a um deus”. “Somente desde que li o poema de Blake sei o que é um tigre”. “Topei com Robert Walser, entre muitos, entre uma centena de outras coisas: o mais vivo. Diante dele, Kafka empalidece”.

O método de escrita de Canetti era interessante. Quando desejava escrever, ele viajava até alguma cidade a esmo e escolhia um hotel. Neste local, selecionava um quarto, no qual ficaria até o final da obra. Então, o escritor abria as malas e espalhava, por todas as paredes do quarto, reproduções dos afrescos da capela Sistina que sempre lhe acompanhavam. Envolvido por Michelangelo, Canetti podia, enfim, entregar-se às suas narrativas, e mesmo neste método existe outro sintoma do mal humorado: o isolamento dos outros seres humanos. A noção de que a sua presença é a única companhia necessária. A indiferença em relação aos demais.

O mal humorado é o amigo a quem podemos recorrer quando estamos em dúvida. A sua sinceridade nos machuca, mas é um mal necessário. Cercados por sorrisos falsos, é o mal humorado quem nos dá a real perspectiva das coisas; ele é o escravo anônimo que, atrás da biga do César vencedor, no meio do triunfo, das palmas e das libações, sussurra “não esqueça que és humano”. Para nos lembrar do nosso papel no mundo, precisamos de mais pessoas mal humoradas, grosseiras, indiferentes. Um mundo repleto de felicidade é um local chato e previsível.

 

Link do texto original: https://medium.com/colecao-dublinense/por-um-mundo-com-mais-mau-humor-69ee6de1a78

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Texto novo no Literatortura (08/10/2015): “Os livros insolentes”

Na coluna que escrevi para o Literatortura (www.literatortura.com), tratei dos livros que invadiram e se instalaram na minha biblioteca, e não sei como isto aconteceu. Também falo que estes livros, por mais bobos que aparentam ser, também representam o oxigênio para os outros livros, mais sérios e com finalidades claras.

No meio do texto, menciono a biblioteca do Nautilus, de acordo com o descrito por Jules Verne em “Vinte mil léguas submarinas”. Pode soar difícil de acreditar, mas foi uma menção emocionada. Tenho uma ligação muito forte com este livro. O primeiro filme legendado que assisti – e li as legendas aos gritos, algo que, imagino, deve ter deixado o cinema inteiro contente – foi justamente o “Vinte mil léguas submarinas”.

Depois que tive esta experiência, procurei o livro na biblioteca do colégio, e não achei. Foi uma grande decepção. A bibliotecária, a Tia Inês (peço desculpas às demais bibliotecárias, mas ela foi a melhor que já passou por este planeta – também foi uma das melhores pessoas que já conheci), viu a minha tristeza e não comentou nada. Uma semana depois, ela me chamou na sala de aula. Quando entrei na biblioteca, a Tia Inês abriu uma gaveta da sua mesa e, dentro, estava uma edição de “Vinte mil léguas submarinas”, do Jules Verne. Ela me contou que esperara o seu salário sair e comprara o livro para colocar na biblioteca do colégio, mas, antes de cadastrá-lo, ia me emprestar. Na época fiquei bem feliz pela oportunidade de ler o livro, e levei alguns anos para entender aquilo que exatamente acontecera – e o gesto incrível feito pela bibliotecária, a quem sempre serei grato.

Foi um grande prazer voltar à biblioteca do Nautilus, e lembrar a maneira com que a li pela primeira vez: como um local de magia e de livros raros, como o conjunto de obras que poderiam formar a mente de um homem. No entanto, o alerta do texto é válido: bibliotecas são organismos vivos. Constranger livros, impedindo a chegada de novos ou a saída dos antigos, é a chave para destruir qualquer leitor – o momento em que a biblioteca vira não solução, mas veneno.

Boa leitura!

 

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Os livros insolentes

 

Ao arrumar a minha biblioteca, deparei-me com uma estranha classe de livros: os insolentes.

São obras que surgiram no meio das prateleiras e não tenho a mínima ideia de como isto aconteceu. Algumas são surpreendentes, como é o caso de “O garanhão”, de Harold Robbins, cuja capa brega ofende não somente os pruridos de um eventual leitor como faz promessas de sexo em quartos de motéis sujos, mas deixa de lado a literatura. Outras obras não li e não sei como se materializaram, caso de “Próximo Destino: Marte”, de Marina Vidigal, que aborda um assunto que sequer me interessa muito (a colonização de Marte). Mais inquietantes ainda são os que não foram lidos, não me atraem e eu acho a ideia deles um enorme clichê, como ocorre com “A Cabana”, de William P. Young. É incompreensível a forma com que surgiram; não lembro de tê-los ganhado e, menos ainda, comprado. São livros que deveriam ser descartados em benefício de outros que me interessam mais. No entanto, a sua capacidade de resistência em um ambiente hostil permite continuá-los frequentando a biblioteca, caminhando entre os outros livros com o convencimento dos imortais. São sobreviventes.

Uma pessoa desavisada poderia achar que os livros procriam ou que, das suas conversas, pode ser gerada uma nova obra. Não é um pensamento tão absurdo; todo livro é formado por várias obras de qualidade refinada ou de bom gosto deplorável que o autor pega e mistura em um cadinho com as suas experiências e sensações, até aparecer algo inédito. No entanto, o caso dos insolentes é diferenciado. Não deveriam estar na biblioteca, mas estão. Mesmo se forem tocados fora, ressurgirão, como em um truque de mágica. Quando vistos no meio de outras obras, causam estranheza e uma dose de escândalo. Existem livros com que podemos andar na rua de mãos dadas, trocando carícias e cumplicidades, mas outros devem ficar presos nos porões, com uma máscara de ferro diante da capa, sem ver a luz do dia.

Não deixa de ser uma espécie de preconceito. Uma distinção entre livros que temos orgulho de possuir e outros que nos dão vergonha. Bibliotecas são criaturas paradoxais: muitas pessoas acreditam que são espaços de liberdade e de construção de pensamento, pontos de luz que escapam de vaidades, e não podem estar mais erradas. As bibliotecas são locais de exclusão por excelência. Ao refletirem uma pessoa, revelam, com a claridade incômoda de um espelho, os seus pensamentos mais ocultos. Podemos enganar todas as pessoas boa parte do tempo, mas, assim que lançarem um olhar para as prateleiras, saberão exatamente nossos desejos profundos. Recordo que algumas amigas me relataram o desconforto de carregarem uma obra considerada erótica, por exemplo, “Cinquenta Tons de Cinza”, da E. L. James, e transmitirem uma impressão equivocada para a sociedade. A simples escolha de um livro já revela algo da nossa personalidade. Quando colocado entre outras obras, temos um retrato perfeito do ser humano que possui tal conjunto de títulos.

Por este motivo, me incomoda a dicotomia insinuada atualmente, sobre o fato de, se alguém possui mais obras de autores homens em relação às mulheres, ter uma conduta machista ou sexista. É uma análise muito primária, pois são editados mais homens do que mulheres, e eles recebem mais divulgação do que as autoras femininas. Por critérios matemáticos, parece-me que, se mais homens possuem obras editadas e divulgadas, a proporção deles será maior em qualquer biblioteca. O mais interessante seria afastar a análise dos hábitos de leitura (aceitando a biblioteca como o lugar de exclusão formado por uma pessoa) e tentar descobrir por que menos mulheres são editadas e divulgadas. Tirar o foco do leitor, este preconceituoso por natureza, e se concentrar no mercado editorial.

Pensar que a biblioteca é o espaço em que nossos maiores preconceitos vêm à tona nos permite dizer que os livros insolentes são essenciais. Eles são a válvula de escape das outras obras, o contraponto cômico, a risada inoportuna que constrange um rosto no meio da tragédia. Nesta hora, recordo da biblioteca do Capitão Nemo, de “Vinte mil léguas submarinas”, de Jules Verne. Quando criança, muito imaginei a forma exata da biblioteca que adornava o Nautilus, os exemplares vetustos depositados nas estantes, as lombadas acariciadas pelo capitão. Também fiquei triste quando o submarino foi a pique, levando obras preciosas para o vazio oceânico. Nunca esqueci o comentário do capitão ao apresentar este espaço para o visitante: “os meus livros são os únicos elos que me ligam à terra. Quando entrei no Nautilus, e comprei os últimos exemplares e panfletos que iam me acompanhar para o interior do oceano, assumi a ideia de que, a partir deste instante, a humanidade não produziu mais nenhuma obra digna de valor”.

A biblioteca do capitão Nemo era formada por cerca de 12 mil exemplares, escritos em quase todas as línguas, “tudo o que o homem produziu de mais belo na Humanidade”. A maioria dos livros eram científicos, e grandes raridades da mecânica travavam contato com tratados das ciências naturais. Não tinha nada de economia política, pois o capitão achava que o leitor devia construir as suas teorias nesta área. Não existiam livros recentes nas prateleiras, eis que Nemo só lia os clássicos. Por fim, eles estavam distribuídos em uma lógica conhecida somente pelo proprietário da biblioteca, independente de idioma ou de temática, e os exemplares de aspecto surrado deixavam entrever que não existiam somente como objetos de decoração, mas como fonte constante de consultas e leituras. A biblioteca continha as maiores obras de literatura, de moral, de ciência, todas reunidas no mesmo local.

Não consigo imaginar que, dentro do espaço exíguo de um submarino, o capitão Nemo se desse ao luxo de ter livros insolentes. Ele arrancaria os cabelos ao ver, no meio de sua biblioteca tão arduamente selecionada para lhe acompanhar durante a sua vida inteira, algo que não devia estar ali. Por não existir entradas e saídas, não teria como outros autores se insinuarem na biblioteca do Nautilus e, assim, o capitão Nemo tinha uma biblioteca estática, imutável, perfeita – e, por isto mesmo, assassina.

Na segunda parte de “Vinte mil léguas submarinas”, o capitão Nemo vira juiz e carrasco da Humanidade. Entrega-se ao terrorismo. Com base nas suas leituras e no conhecimento por elas proporcionado, acredita ser a única pessoa no planeta capaz de separar o bem do mal e, investido de tal poder, não hesita em arrematar contra todas as pessoas. O humanitário dotado de uma biblioteca transforma-se, assim, em um déspota violento.

Em uma biblioteca dotada de livros que representam o caráter e a moral do seu proprietário, a inexistência de livros insolentes é perigosa para o próprio indivíduo. Eles são a argamassa que dão estrutura para o muro de saber. São o ponto cego onde a lógica não manda. São o erro e o caos que se intrometem na nossa existência e lembram que, parafraseando Wander Wildner, não conseguimos ser sérios o tempo todo.

Uma biblioteca formada somente por livros escolhidos pelo seu dono é uma temeridade; qual pessoa consegue olhar o tempo todo para a própria imagem sem enlouquecer? Como qualquer organismo vivo, a biblioteca é formada por um trânsito de seres e de intenções. As obras são dadas como presente, doadas por mortos, acrescidas por uniões, separadas por divórcios; elas andam livremente, à procura de um local em que consigam sobreviver. No caso dos insolentes, são convidados inoportunos em uma festa fechada, mas, ainda assim, vivem, respiram e comem seus salgadinhos com as traças, esquecidos.

Os livros insolentes não sobrevivem às limpezas por serem teimosos, mas, para nos lembrar de que sempre existe incerteza. Ao excluí-los do seu convívio, o capitão Nemo condenou-se aos pensamentos estagnados dos livros, cometendo um erro imperdoável: imaginar que o mesmo conjunto de obras incessantemente lidas sempre daria pensamentos novos para o seu proprietário, quando é o surgimento dos livros inesperados, revoltosos, que permite a oxigenação das ideias. Então, que seja bem vinda a insolência ao seio da minha biblioteca, e que os livros desaforados continuem me envergonhando quando surgem no meio das prateleiras, pois são a prova de que a minha visão de mundo não está paralisada no tempo.

 

Link original: http://literatortura.com/2015/10/os-livros-insolentes/

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