Arquivo do mês: julho 2016

Texto publicado na revista eletrônica da Dublinense (26/07/2016): “As idealizações que criamos”

Na minha coluna dessa semana no Medium da Dublinense, eu falo sobre aquele velho sonho dos leitores: estar dentro da obra de um escritor.

Mas também, não sei por que cargas d’água, desando a falar sobre escritores russos que morreram prematuramente, seja em duelos, seja “suicidados”; admito que o objetivo secreto de toda a obra é mostrar um pouco de morte para o autor e para o leitor; falo de Malba Tahan (de novo, recuso-me a falar da decepção que foi descobrir que Malba Tahan não era um árabe que andava por aí resolvendo dúvidas matemáticas, é um trauma de infância) e do problema do “cálculo da metade da pena de uma prisão perpétua”; conto da polêmica briga que Émile Zola teve com Paul Cézanne, Édouard Manet e Claude Monet – inimigo pouco é bobagem – por causa do personagem de um livro; menciono as sacanagens que Hemingway fazia com o coitado do Fitzgerald, em especial o personagem que criou em homenagem a ele e termino falando da bonita amizade entre Harper Lee e Truman Capote, que começou na infância, passou por brigas contra o bullying, teve um “road trip” de escritores pelo sul dos Estados Unidos e teve o seu ápice com os dois escrevendo livros e criando personagens um em homenagem ao outro.

Boa leitura!

 

As idealizações que criamos

 

Acontece com todos nós. Em algum momento, seja de forma pública ou particular, alguém vai se aproximar e fazer a pergunta fatídica: “tal evento do seu livro se refere a algum episódio vivido?” Ou então: “o personagem tal foi baseado em alguém que você conhece?”. Existe uma curiosidade um tanto mórbida em querer saber isso. É como se a vida necessitasse constantemente irrigar a criação, como se existisse uma relação de causa e efeito entre vida e obra.

Falo isso por que, em decorrência de um curso que ministrei sobre literatura russa, acabei relendo muitas obras e notei um padrão. Durante um determinado período da literatura russa, era costume que escritores se envolvessem em duelos e, como alguns eram bons de letras e nem tanto de tiro, acabaram morrendo por causa desta tendência, como foi o caso de Pushkin e Lermontóv. Na época da revolução russa e do período soviético, um número considerável de escritores morreu na prisão e outros em suicídios mal-explicados, como aconteceu com Mandelstam, Isaac Bábel e Maiakóvski. Muitos viveram longe de duelos ou de brigas políticas, caso de Tolstoi, Akhámatova, Tchekhov e Gorki, mas os escritores de morte prematura tiveram a capacidade de entender qual era o seu destino antes dele acontecer – e deixaram obras inesquecíveis no seu curto espaço de existência. Pareciam saber que iam morrer e, antes de tal evento, escreviam de forma compulsiva. Alguns escritores são a chama duradoura de uma acha de lenha; outros, em compensação, queimam como um fogo fátuo e deixam o mundo, mas ainda recordamos da sua explosão efêmera.

Ora, se existe uma característica que nos transforma em seres humanos é justamente desconhecer o momento em que iremos morrer. Uma das obras que marcou a minha adolescência foi “O homem que calculava”, de Malba Tahan (não vou nem comentar a grande decepção que foi descobrir que Malba Tahan era um pseudônimo, eu imaginava um árabe andando por aí resolvendo problemas matemáticos, mas a vida é cheia de frustrações mesmo). Entre as situações do livro, encontrava-se a questão do vizir que, ao determinar a diminuição das penas de todos os bandidos pela metade, não soube como resolver o problema de um homem condenado à prisão perpétua. Se não sabemos quando ele morrerá, como conhecer o momento em que chegou à metade da pena? Após uma interessante elucubração, misto de filosofia e de matemática – está no livro, não irei resumir senão estragarei tudo – o sábio Beremiz Samir chegou à única conclusão possível: não sabemos quando o homem morrerá e, assim, a única forma de ser justo é mantê-lo em liberdade condicional. No prefácio da obra que recentemente recomprei, Malba Tahan admite que este caso não possui solução possível, pois ninguém sabe o término da vida de alguém. Então, o mais correto foi apelar para a Justiça e para a Compaixão do vizir, alcançando a liberdade condicional não como forma matematicamente justa, mas como o mais humano a se decidir no caso.

Ou seja, até Beremiz Samir, o homem que calculava, refugou nesta questão, mas não a arte. O verdadeiro artista tem consciência de que o seu fazer artístico é uma pulsão de morte. A criação não se vincula somente à vida, mas ao conhecimento de que a morte espreita cada passo nosso, desde o primeiro momento em que respiramos até a última lufada do anônimo ar que saciará nossos pulmões no segundo final. O fim de um livro ou de um conto é, assim como o orgasmo, uma pequena morte. Cada obra é um morrer constante e gradual, e o verdadeiro artista não se preocupa em retratar a vida através do filtro da sua arte, mas em deixar algo maior do que si mesmo.

Por isso estranho um pouco a pergunta sobre qual parte da minha vida ou das pessoas que conheço estão nas minhas obras. Parece-me óbvio que tudo o que vivi está ali – e, ao mesmo tempo, nada. Não crio voltas desnecessárias na história para comportar mensagens elípticas ou lições de moral disfarçadas, e muito menos perco tempo me vingando ou idolatrando alguém através da ficção. Meu objetivo não é retratar a vida, mas lutar contra a morte que me observa de dentro das páginas em branco. Corro contra o tempo, e aqui lembro de Marguerite Yourcenar: “Os livros não contém a vida; contém apenas as suas cinzas”.

No entanto, ao mesmo tempo em que é tudo novo, aquilo que vivi está ali, de uma forma condensada e distorcida. Eu consigo ver a fonte original de onde saiu cada detalhe do que escrevo, e me impressiono com a maneira disforme com que a ficção encara a realidade, amalgamando uma situação vivida com dezenas de relatos, de cenas de filmes, de trechos de músicas e tudo usando a imaginação como argamassa, saindo um verdadeiro Frankenstein em que distingo cada uma das partes formadoras, mas com vida própria e autônoma. Uso a realidade não para me inspirar, mas por que não consigo ficar longe de quem sou, ainda mais em algo tão íntimo quanto é escrever.

O que me faz lembrar a saia justa enfrentada por Émile Zola. Em 1886, ele lançou o livro “A obra”, em que, aproveitando a sua aproximação com os impressionistas e o fato de também fazer críticas de arte, contou a história de um pintor, Claude Lantier, que, ao contrário dos demais pintores da sua época, pretendia fugir dos temas mitológicos então em voga para retratar a fluidez da natureza. Depois de uma série de fracassos, acaba se isolando no campo, onde casa com a sua modelo, Christine, e os dois têm um filho. Resolvem voltar para Paris, para Claude novamente tentar a sorte. A morte do filho acaba gerando uma pintura baseada nele, enfim aceita pelo establishment artístico que, no entanto, acaba por ridicularizá-la, levando o pintor à loucura.

É uma história repleta de reflexões sobre o fazer artístico e sobre os limites quase insanos que separam a criação da vida. No entanto, não foi isto que fez a sua fama, mas o fato de que Cézanne – muito amigo de Zola – identificou-se com o personagem Claude Lantier e os dois trocaram uma série de correspondências enfurecidas, com Zola afirmando que fizera uma ficção e não retratara o amigo. Mas não parou por aí: tanto Édouard Manet quando Claude Monet também foram publicamente apontados como possíveis referências para o personagem principal de “A obra”, o que fez a delícia dos jornais de então. Zola sempre disse que era uma obra de cunho ficcional com base nas suas próprias observações do mundo, mas os críticos detectaram várias semelhanças do agir e do pensar de Claude Lantier com Cézanne. Além disso, uma das obras desenhadas pelo pintor ficcional é uma descrição exata de um dos quadros de Manet, “O almoço na grama” (1862).  As relações dos três pintores e do escritor se deterioraram de tal forma que nunca mais voltaram ao normal.

Édouard Manet, "O almoço no jardim"

Édouard Manet, “O almoço no jardim”

A necessidade das pessoas de acharem uma relação da obra artística com elas mesmas sempre soa um tanto arrogante. O importante para Émile Zola era fazer o seu livro criar vida, e usou as experiências de vida e as pessoas que conhecia para escrever. O fato de três pintores impressionistas se verem no interior de Claude Lantier é prova de que, ao descrever um personagem como símbolo, podemos encontrar várias pessoas no seu interior. É o sintoma da obra bem escrita: perder a sua origem e tornar-se uma universalidade indistinta de outros seres e situações.

Mas claro que artistas são seres humanos, e também possuem a vontade quase indecente de sacanear alguém. Transformar isto em algo que consiga ser uma obra autônoma e apta a ter vida própria fora do objeto da maldade, eis o verdadeiro talento. Na amizade atribulada de Ernest Hemingway e F. Scott Fitzgerald, o primeiro – que era um enorme sacana e aproveitava qualquer possibilidade literária para envergonhar ou embaraçar o colega – resolveu fazer um personagem em “As neves de Kilimanjaro” em homenagem do escritor sulista, ridicularizando a sua visão de que os problemas dos ricos são diferentes dos pobres. Hoje conhecemos o personagem como “pobre Julian”, mas, na primeira versão do livro, ele se chamava “Scott”, em lembrança direta à Fitzgerald. No entanto, o escritor reclamou para Max Perkins, e a reclamação chegou ao conhecimento de Hemingway, que trocou o nome para “Julian”, o qual, ainda assim, guardava uma última brincadeira: Julian era o personagem principal de “Uma nova folha”, conto de Fitzgerald, que o escritor próprio admitia ter baseado muito em si mesmo.

Hemingway não podia desperdiçar a piada e muito menos a chance de ridicularizar Fitzgerald, mas, mesmo fazendo isso, não perdeu o prumo da história, tanto que “As neves de Kilimanjaro” é um dos seus mais festejados contos.  Ser uma alfinetada no colega escritor não tira nada da sua força, só adiciona um pouco mais de cor a uma relação literária, imortalizando a piada.

No entanto, nem sempre a arte é usada como forma de confrontar pessoas reais com ficcionais, ou como objeto de problemas. Também pode ser uma troca de experiências e um intercâmbio de ideias, ainda mais quando as duas pessoas se dispõem a uma relação harmônica dentro e fora dos limites da obra.

Harper Lee e Truman Capote cresceram na mesma vizinhança, e eram amigos desde os cinco anos de idade. Costumavam ler em voz alta um para o outro – Harper Lee lia as aventuras de Sherlock Holmes, Capote lia as obras de Edward Stratemeyer. Eram tão amigos que a escritora não raro entrava em brigas no colégio, protegendo o vizinho do “bullying” praticado pelos demais colegas. Quando tinha quatorze anos, o pai de Harper Lee presenteou-lhe com uma máquina de escrever, e os dois passavam as tardes ditando histórias para o outro datilografar.

Harper Lee e Truman Capote

Harper Lee e Truman Capote

A relação se estendeu pela vida. Quando Truman Capote escreveu “A sangue frio”, Lee foi a sua assistente de pesquisa, primeira leitora e revisora, ao ponto de não poucos críticos acreditarem que ela escreveu parte do livro e nunca ganhou o merecido crédito. Apesar de insinuarem que os dois escritores tinham brigado por ausência até de uma menção a Harper Lee, isto não ficou evidente em nenhum momento. Inclusive, dois anos após o lançamento de “A sangue frio”, Capote e Lee decidiram fazer uma viagem de carro pelos locais da sua infância, mostrando a solidez da sua amizade. Quando perguntada quem era os maiores escritores que conhecia, Harper Lee sempre citava Capote, e a recíproca também acontecia.

Tal relação não podia ficar longe das suas obras e, assim, em “O sol é para todos”, Harper Lee fez um personagem claramente decalcado em Truman Capote, Dill Harris, e muitos dos diálogos estabelecidos com Scout são conversas que os dois escritores mantiveram na vida real. Em retribuição, Truman Capote retratou a amiga como a personagem Idabel Thompkins em “Outras vozes, outros lugares”, uma menina que se vestia como rapaz (“tomboy”), vivaz, alegre e com respostas rápidas. Foi a forma que ambos encontraram de prestar tributo à relação de amizade que os unia: trazê-las para dentro de uma obra literária e gerar uma outra pessoa, alguém que lembra o outro mas não é ele, possuindo vida própria.

Apesar de acharem que somente artistas possuem esta capacidade de distorção do real para colocar na sua obra, é um processo que todos nós fazemos. Nunca vemos a realidade do outro, ela está sempre misturada com a nossa imaginação e com pensamentos pré-concebidos. Não nos inspiramos em fatos reais ou em pessoas existentes, mas eles servem de argila para que possamos criar um mundo idealizado, e isto existe em todos os lugares, seja na pessoa que começa uma relação e vê o espectro de outras no seu interior, seja naquele que jura não cometer os mesmos erros de sempre – e os comete, inapelavelmente.

Criamos obras artísticas para afastar a morte e, no meio do caminho, acabamos achando as vidas não só que passaram pelo nosso caminho, mas as vidas que sequer imaginamos ser capazes de tocar. Vivemos melhor quando sabemos que podemos morrer a qualquer momento e, da mesma forma, chegamos mais perto da essência dos outros se sabemos ser somente uma passagem, e não um fim. Quando Zola cria um personagem que junta três pintores em um só corpo, ou quando Hemingway debocha de Fitzgerald no interior de um conto, ou quando Harper Lee e Truman Capote colocam a amizade de uma vida inteira dentro das suas obras, não estão fazendo nada diferente do que fazemos todos os dias: olhar a vida dos outros e tentar entendê-las do nosso jeito. Fazer perdurar o instante até o infinito.

Texto originalmente publicado no link https://medium.com/colecao-dublinense/as-idealiza%C3%A7%C3%B5es-que-criamos-f689cb607342#.yhdjclb0f

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Texto publicado na revista eletrônica da Dublinense (19/07/2016): “O lado bom de cometer erros e de não entender algo”

Na minha coluna no Medium da Dublinense, falo de como pode ser bom cometer erros e não entender direito as coisas que estão por este mundo.

Aproveito para falar de quando era metaleiro – up the irons! – e de como a interpretação errada de uma música do Metallica me fez ler a obra completa do Lovecraft com o auxílio esforçado de um Dicionário Michaelis de Bolso; conto os eletrizantes eventos que se sucederam no Salão de Artes da Academia Real Francesa em 1833, quando William Turner enfrentou John Constable e depredou a própria obra para aniquilar com o concorrente; menciono a diferença grotesca existente entre Hercule Poirot, da Agatha Christie, e Sherlock Holmes, do Conan Doyle, e encerro falando do conjunto de tapeçarias “Caçada ao Unicórnio”, feito entre 1495 e 1505, e que possui mais mistérios do que certezas.

Boa leitura!

 

O lado bom de cometer erros e de não entender algo

 

Nem sempre é bom estar certo, às vezes o erro é o nosso maior amigo. Aprendi mais com meus equívocos do que acertando. Foi o que aconteceu com a minha leitura de Lovecraft. A minha introdução à obra do escritor americano, pai dos Old Ones, foi, para dizer o mínimo, lovecraftiana. Existiu um tempo da minha vida em que fui metaleiro. Na verdade, ainda sou, mas agora atuo de forma discreta e disfarçada; deixei para trás os tempos de cabelos compridos e de ódio visceral a tudo que não servisse ao Deus Metal – hoje sou uma pessoa mais calma, ainda que somente por fora. Foi na condição de metaleiro que, ao escutar o álbum “Master of Puppets”, do Metallica, descobri uma música chamada “The thing that should not be” (em uma tradução livre, poderia ser tanto “a coisa que devia não ser” quanto “a coisa que devia não estar”). Um título que me atraiu desde o início, apesar da música não ser a minha favorita; sempre fui uma pessoa ligada mais à ideia do que à forma das coisas.

Naquela época, nos primórdios da internet, não tínhamos acesso a muita informação, e em uma revista descobri que a música se relacionava ao universo de Lovecraft. Com paciência – pois quase não existiam obras dele traduzidas no Brasil e, se existiam, passavam longe das livrarias de Porto Alegre – encontrei os textos e li no original, com extrema e absoluta dificuldade. Só quem leu Lovecraft sabe que o inglês dele já é complicado para um nativo de língua inglesa, o que dizer para um rapaz de seus 15 ou 16 anos portando somente um Dicionário Michaelis de Bolso para dominar o mundo. Traduzi de forma precária as histórias e, com relação às muitas palavras que escapavam dos limites do dicionário e que não conseguia encontrar sentido algum, eu imaginava um sentido para prosseguir a leitura (Cícero e São Jerônimo, cujas teorias tradutórias estudamos tanto, devem estar dando piruetas dentro dos seus túmulos após tal confissão). Hoje posso dizer que metade do que li do Lovecraft está escrito e a outra metade foi imaginado, a ponto de, quando estou relendo alguma história atualmente, ter a pretensão de pensar “opa, está tudo errado!”. Aliás, minhas versões internas para as histórias lovecraftianas são muito legais, mas não competirei com a realidade. O livro é um autor e as suas circunstâncias. Ler também é um ato de subversão e de criação.

Por muito tempo procurei a história que contivesse a expressão que me encantara, e nunca encontrei. Achava que fosse algum problema na minha busca, mas algumas semanas atrás me disseram a dura verdade: Lovecraft nunca escreveu “the thing that should not be”. Ela foi criada pelo próprio Metallica para intitular a música composta em homenagem ao autor de “O chamado de Chtulhu” e de “A busca onírica por Kadath”. Parti de um pressuposto errado – uma música que homenageia Lovecraft precisa ter origem na sua obra – e esqueci que poderia ser inspirada pelas suas criações. Um erro de principiante, admito.

chtulhu metallica

Ao tentar encontrar algo que não existia, acabei chegando a uma série de outras descobertas. Qualquer pessoa se irritaria ao perceber que passou dois anos da adolescência perdido na caçada inútil a uma expressão, mas esse equívoco me forçou a ler obras que, de outra forma, não leria, além de testar meu inglês até os limites do impossível – ao ponto de me fazer criar substitutos imaginários para as palavras que não conseguia decifrar. O erro foi mais importante do que o acerto. E se hoje as histórias de Lovecraft se entrelaçam com aquelas que criei e com as histórias de outros, todas em uma alegre confusão intertextual dentro da minha cabeça, não foi por causa dos livros que li intencionalmente, mas graças àqueles a que cheguei em virtude do equívoco.

Ninguém está livre de errar, mas dentro do erro pode estar o acerto. Nem tudo está ao alcance do olhar; às vezes, a verdade pode estar escondida justamente diante dos olhos, debochando da nossa sanidade, pois conseguimos ver que estamos quase atingindo a elucidação completa. Tão próximos, tão longínquos.

É preciso coragem para retificar um problema ou admitir que se errou, ainda mais publicamente. Foi o que o pintor William Turner fez no Salão de Artes da Academia Real Francesa em 1833, ainda que seu gesto tenha sido interpretado como uma atitude de desafio e não a correção de um equívoco. O quadro “Helvoetsluys”, de Turner, foi posto ao lado de “A abertura da ponte Waterloo”, uma pintura que John Constable, seu maior adversário, ficara preparando durante 10 anos. Naquela época, antes de abrir a exposição ao público, os pintores tinham o direito de fazer os retoques necessários na obra até um dia antes e assim, enquanto Constable fazia mais e mais retoques, Turner ficava entrando e saindo da sala, observando o outro à distância.

Turner não resistiu e, com um amigo pintor, comentou em voz alta sobre os tons de vermelho usados pelo inimigo, sabendo que ele escutava a crítica. O clima era tenso. Em certo momento, William Turner saiu da sala e, ao voltar, dirigiu-se até o seu próprio quadro e, com um pincel cheio de tinta vermelha, colocou uma grosseira mancha vermelha no meio do mar. Em seguida, saiu do salão. Ninguém entendeu a sua atitude de estragar o próprio quadro com um borrão vermelho em meio ao azul, ainda mais sabendo que a sua reputação estava em jogo e justo ao lado do seu maior adversário. Todos consideraram um ato de auto-sabotagem de Turner, uma conduta destrutiva típica de um artista indeciso.

No dia seguinte, faltando alguns minutos para o término dos ajustes nas obras deixadas para exibição, Turner voltou a entrar no salão. John Constable continuava retocando “A abertura da ponte Waterloo”. Sem pestanejar, o pintor dirigiu-se até “Helvoetsluys” e, com um movimento delicado do dedo, refez a mancha vermelha depositada no dia anterior, transformando-a em uma boia perdida em meio ao mar. Realizado esse gesto, novamente virou as costas e foi embora.

O som de admiração percorreu o local. O quadro acabava de ganhar um outro sentido: ao invés de retratar barcos preparando-se para uma batalha, ele se tornara o testemunho da derrota e do naufrágio que se sucederia. Os barcos não estavam indo para a batalha, mas se preparavam para sua derrocada final, em que a boia era o indicativo solitário do desastre que se prenunciava. John Constable deixou o descontrole tomar conta de si, afirmando para um colega artista “Ele [Turner] esteve aqui e disparou uma arma!”.

No dia seguinte, os críticos foram unânimes em elogiar William Turner e seu “Helvoetsluys”. Para Constable, que infelizmente estava ao seu lado, foram reservadas críticas pesadas para o trabalho preparado durante dez anos. “Muito inacabado, senhor”, falou Thomas Stothard. O jornal The Morning Herald levou a ofensa a um novo nível: “O senhor Constable pelo visto pensa ser um Turner”.

"Helvoetsluis", de William Turner

“Helvoetsluys”, de William Turner

Todos consideraram o gesto tresloucado de Turner uma maneira de humilhar o adversário, ridicularizando a forma obsessiva com que se entregava aos detalhes. Para Turner, o pintar era uma atitude orgânica, que antecedia o raciocínio lógico, o contrário do que John Constable imaginava como o ideal de arte. No entanto, é grande a tentação de imaginar que, observando “Helvoetsluys” à distância, Turner tenha enfim visto o que estava faltando na sua própria obra, retificando a omissão de forma violenta, incompreensível para os outros, mas fazendo todo o sentido para ele mesmo. O espectro da boia vermelha estava o tempo inteiro ali, o autor da pintura que não a tinha notado até quase ser o momento final.

Todos os indícios de fazer algo de forma correta estão ao alcance dos nossos sentidos, nós que insistimos em negar a verdade. Até por que ter a coragem de mudar um erro e agir de forma destrutiva contra si mesmo como Turner fez, destruindo o quadro que pintara com tamanho empenho para refazer o seu sentido diante dos olhos do público, demanda uma grande dose de coragem. Quem de nós seria capaz de retificar um erro ou omissão a qualquer custo, mesmo perdendo reputação ou prestígio?

Assim como é preciso coragem para corrigir um erro, é um talento esconder a verdade diante dos olhos de todos, impedindo-os de ter a compreensão total da situação que, ao mesmo tempo, possui todos os elementos para ser decifrada ao alcance dos sentidos. É a crítica que se faz na comparação entre Sherlock Holmes, de Conan Doyle, e Hercule Poirot, de Agatha Christie: enquanto as histórias policiais de Agatha Christie possuem todos os elementos necessários para o leitor chegar sozinho ao culpado, os contos protagonizados por Sherlock Holmes possuem informações que somente o detetive conhece, retirando-os da cartola no momento de decifrar o mistério. Por esse ângulo de análise, Agatha Christie leva vantagem. O leitor pode decifrar o mistério; todos os dados estão ali, tudo depende somente da sua inteligência.

No conjunto de tapeçarias “Caçada ao unicórnio”, feitas entre os anos de 1495 e 1505, todos os elementos estão disponibilizados para quem contemplá-la. Ainda assim, não conseguimos entender direito o símbolo colocado à nossa vista. Para começar, ninguém sabe quem a teceu, o que ajuda a dificultar um eventual entendimento. Além disso, desconhecemos quantas peças constituíam o trabalho original: se eram as sete tapeçarias que hoje conhecemos ou se existem mais que ainda estão perdidas. Existem dúvidas inclusive se elas foram tecidas para serem exibidas ou se eram para adornar um quarto ou sala de jantar. Uma das poucas certezas que rondam esta série de tapetes é o fato de que elas nunca foram dependuradas em sequência, ficando sempre separadas uma das outras; quem orquestrou as tapeçarias tinha noção de que cada quadro funcionaria de forma individual, e que juntos comporiam uma história inteira, a qual nunca seria plenamente conhecida, a não ser pelo seu autor.

Tapeçaria "Caçada ao Unicórnio"

Tapeçaria “Caçada ao Unicórnio”

Tentando analisar a imagem, os mistérios somente se aprofundam. O que representa o unicórnio? Quem são as pessoas ocupadas em caçar e destruir o animal mitológico? As interpretações são as mais variadas: para quem estuda os mitos cristãos, o conjunto de tapeçarias representa a Paixão de Cristo; o unicórnio seria uma forma encontrada para representar Cristo, e toda a descrição da sua morte seria uma bem construída imagem religiosa, sem esquecer a crítica embutida em meio às imagens (foi o rei quem ordenou a morte do unicórnio e recebe a sua carcaça, ou seja, seria uma versão moderna de Pôncio Pilatos).

Mas também existe a interpretação gótico-romântica, em que o unicórnio representa o mistério, a magia, o encantamento, que é ardorosamente perseguido pelas pessoas ansiosas para destruir aquilo que não entendem. Nesse caso, o unicórnio seria um símbolo para o amor idealizado, e a sua caçada e morte seria atingir tal sentimento. Ainda há quem veja na série de tapeçarias uma construção inclusive artística, em que as pessoas comuns caçam a nova forma de arte – o unicórnio – e, ao alcançá-la, acabam por destruí-la, invejosos por não serem capazes de imitá-la.  Assim, o artista – ou a própria noção de arte – seria o elemento que deve ser perseguido e aniquilado pela sociedade.

Tapeçarias são interessantes, pois tudo está à vista e, ainda assim, temos mais dúvidas do que certezas. Vale recordar “A dama e o unicórnio”, um conjunto de tapeçaria altamente sensual retratando o amor, ao mesmo tempo cândido e erótico, de uma mulher por este ser mitológico. Deixar tantas dúvidas é permitir que, ao tentar interpretar, cometemos mais erros do que acertos e, na mesma forma do erro que me guiou até a leitura da obra completa de Lovecraft, muitas pessoas acabaram criando novas obras ao ver as possibilidades de significados que continuam inacessíveis no interior de “Caçada ao unicórnio”.

Não entender algo e sentir-se livre para errar, eis a força motriz do nosso progresso. Se eu fosse resumir a minha vida, não incluiria as epifanias, descobertas ou vitórias, mas as grandes burradas e incapacidades de compreensão que, enquanto tentava responder, acabaram me forçando a evoluir. Pois ser uma pessoa melhor é isso: errar até cansar e, no meio de tantos erros, colher alguns acertos.

Texto originalmente publicado no link https://medium.com/colecao-dublinense/o-lado-bom-de-cometer-erros-e-de-n%C3%A3o-entender-algo-738a63fae282#.77642l632

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Texto publicado no Sala de Aula Criminal (19/07/2016): “As lições que a Literatura traz para o Direito”

Não é sempre que tenho a oportunidade de falar em um só texto sobre os meus dois amores, o Direito e a Literatura, mas, graças ao gentil convite do Paulo Silas Filho, acabei realizando esse sonho.

E falei de como o Direito ajudou a mudar a História da Literatura. Falei de grandes escritores que viraram advogados por amor a uma causa, como aconteceu com Voltaire no caso Calas, Zola no caso Dreyfus, Conan Doyle no caso Eljavi, Tolstói no caso Sabunin; falei de Ernest Pinard, o promotor que processou Flaubert e Baudelaire na França, e acabou reforçando os fundamentos artísticos das obras; falei do juiz Woolsey inocentando “Ulisses” de Joyce da acusação de pornografia – e fazendo uma análise literária sobre a verossimilhança; por fim, falei de uma pessoa quase desconhecida no Brasil, o advogado Anatoly Fedorovich Koni, que prestou assessoria jurídica (e literária) para as obras de Tolstói, Dostoiévski e Tchekhov, ajudando com material, conversas e aconselhamento sobre a psicologia dos criminosos.

Tudo para dizer que um bom advogado, no fundo, não passa de um formidável contador de histórias, e que a formação humanística é o que nos transforma em seres humanos melhores.

Boa leitura!

 

As lições que a Literatura traz para o Direito

 

Se considerarmos que o Direito nasce da complexidade das relações humanas, não existe terreno mais fecundo para a Literatura do que os segredos revelados no sigilo dos escritórios de advocacia ou sob o estrépito das luzes de uma sala de audiência. Na qualidade de um advogado que escreve – ou um escritor que advoga, os limites não se encontram bem delineados – não são poucas as reuniões com advogados nas quais, em um determinado momento, o colega se encosta na poltrona e confidencia “sabe, doutor, tenho uma história que poderia sair em um livro seu…”. E geralmente eles têm razão: os relatos que desabrocham nos escritórios de Direito são de uma criatividade impressionante. Até mesmo a ficção teria pruridos em contar alguns fatos que transcorreram na nossa velha e esfarrapada realidade. Advogados são fontes constantes de ótimas histórias, pois todo processo, em suma, é uma narrativa que precisa ser contada por um autor em conjunto com o seu advogado para convencer um único leitor – o juiz. Para vencer um processo não é preciso ter o melhor direito, mas saber contar a história que nos foi confiada em primeira mão pelo cliente.

Poucas ocupações possuem mais vínculos com a Literatura do que o Direito. De Henry Fielding a Scott Turow, é vasta a lista de advogados que atravessaram a linha do fato jurídico e passaram para a ficção literária. É possível perceber um movimento contrário, ainda que tímido, de escritores que, premidos por graves injustiças e incapazes de se calarem,acabaram se tornando advogados em algum momento da sua vida. A lista é pequena, mas honrosa: podemos recordar de Voltaire defendendo Jean Calas em público, sem ter sucesso, mas deixando um belo livro como libelo contra a injustiça da acusação, “Tratado sobre a tolerância”; ou Émile Zola usando toda a sua verve literária para escrever “J’accuse!”, insuflando a França no caso Dreyfus e colocando a própria liberdade em risco com a sua famosa frase final: “Não tenho mais que uma paixão, uma paixão pela verdade, em nome da humanidade que tanto sofreu e que tem direito à felicidade. Meu protesto inflamado nada mais é que o grito da minha alma. Que ousem, portanto, levar–me perante ao tribunal do júri e que o inquérito se dê à luz do dia!”. Também podemos lembrar de Conan Doyle saindo dos braços confortáveis de Sherlock Holmes para atuar em favor do indiano George Eljavi, protegendo-o da acusação de mutilar cavalos e mandar cartas envenenadas, ou de Tolstói defendendo sem sucesso o soldado Sabunin que, bêbado, agrediu um oficial e foi condenado à morte.

"A família calas perante Voltaire em Ferney", anônimo

“A família Calas perante Voltaire em Ferney”, anônimo

Essas relações entre Direito e Literatura são diretas e, portanto, facilmente verificáveis. Mais difícil de ver é quando o Direito, agindo em segredo, acabou mudando a própria história da Literatura. Seria muita ingenuidade imaginar que as duas áreas andam separadas, mantendo-se puras e sem zonas de contato.

Existem muitas maneiras de uma afetar a outra; quando justiça e literatura se misturam, as fronteiras nunca são claras. A tenacidade de uma acusação perante os tribunais pode fazer o autor ser obrigado a defender a sua obra de uma forma que nunca fez antes, tendo que perscrutar sobre os limites da sua criação não para se opor a um crítico, mas para evitar que a obra saia dos limites de um livro e acabe sendo a responsável pela sua prisão. Da mesma forma, um juiz pode acabar se tornando crítico literário, extrapolando as suas funções jurisdicionais para dar uma aula sobre a necessidade de verossimilhança para uma narrativa funcionar. Por fim, um advogado pode acabar se tornando decisivo para o sucesso ou fracasso de uma série de obras literárias – e poucas pessoas saberem disso.

Às vezes, um bom vilão é mais importante para a trama do que o próprio mocinho. A literatura francesa do século XIX encontrou um dos seus maiores inimigos dentro dos tribunais: o promotor Ernest Pinard, que tentou impedir tanto a venda de “Madame Bovary”, de Gustave Flaubert, quanto de “As flores do mal”, de Charles Baudelaire. Os dois livros sofreram processos por obscenidade e por violação dos bons costumes.

O conteúdo completo de ambos os processos pode ser lido em “El origen del narrador: actas completas de los juicios a Flaubert y Baudelaire”. O fato do mesmo promotor ter investido contra obras que acabariam se tornando clássicos da literatura mundial demonstra que, ao analisar a comoção popular causada em torno da recepção dos trabalhos dos dois autores, Ernest Pinard achou que o Poder Judiciário era a única maneira de cercear a liberdade da literatura.

Na justificativa do processo movido contra Flaubert, o promotor assim expõe a sua visão de arte: “A arte que não observa nenhuma regra não é arte, é semelhante a uma mulher que se despe em público completamente e sem pudor. Impor uma regra de decência pública sobre a arte não é feito com o objetivo de subjugá-la, mas para honrá-la.” Para Ernest Pinard, a arte não pode ser revolucionária, deve se pautar por normas mínimas de comportamento, pois representa não só um espelho da sociedade, mas também uma maneira de modificá-la.

Entre as provas carreadas nos autos, duas se destacaram: a primeira seria que o suicídio de Emma Bovary não veio por causa do arrependimento pelo adultério, mas por causa das dívidas que acumulara, o que demonstrava uma falta de moral incompatível com um caráter nobre; a segunda seria o fato da mulher ser insubmissa não só ao seu marido e demais personagens, mas perante inclusive o seu autor: “No livro todo não existe um personagem que possa dominar essa mulher. O único ser que a domina é a própria senhora Bovary”. Duas provas que dizem respeito à própria estrutura do romance – e que, se modificadas, mudariam todo o seu contexto e o transformariam em uma obra moralizante.

Ernest Pinard

Ernest Pinard

Gustave Flaubert e seu advogado Marie-Antoine Sénard precisaram muita habilidade para se defender. Não bastava justificar as motivações de Emma Bovary como personagem, mas a sua visão de arte. Após a colheita de provas e os debates no tribunal, Pinard obteve uma vitória parcial: “Madame Bovary” continuou do jeito em que foi concebida, mas Flaubert recebeu uma admoestação pública.

Tão intensa foi a experiência de defender o próprio livro que Flaubert dedicou o romance ao seu advogado Marie-Antoine Sénard com as seguintes palavras:

“Caríssimo amigo: permita-me gravar seu nome no frontispício desta obra, em dedicatória, pois é ao senhor que devo, acima de qualquer outra pessoa, esta publicação. Com sua magnpifica defesa, este livro adquiriu a meus próprios olhos uma autoridade inesperada. Queira aceitar, portanto, esta homenagem d eminha gratidão, que jamais estará à altura de sua eloquência e de sua dedicação, por maior que seja.”

Mais do que defender um livro, Sénard apoiou a sacralidade da arte e o seu espírito subversivo. Nem sempre gostamos de enxergar a verdade incômoda no espelho e, entre as suas funções, a literatura também mostra aquilo que não gostaríamos de saber.

Charles Baudelaire não teve a mesma capacidade no seu processo. Ernest Pinard usou os argumentos antes experimentados contra Flaubert como base para processar o autor de “As flores do mal”, e o advogado Gustave Louis Chaix d’Est-Ange foi incapaz de apresentar uma defesa consistente. A sua situação era ingrata: os poemas de Baudelaire continham referências pornográficas e uma constante apelação para a escatologia. O resultado: seis poemas com temática de lesbianismo foram abolidos da obra, e somente em 1949 a publicação desta parte objeto de censura foi enfim autorizada.

Também existem momentos em que um juiz, ao prolatar uma sentença, acaba se revestindo da posição de crítico literário. Em 1933, quando tentaram proibir a publicação de “Ulisses” de James Joyce nos Estados Unidos sob a alegação de pornografia, o juiz John M. Woolsey prolatou uma sentença que se tornaria famosa, defendendo a liberdade de criação como forma incontestável de atribuir a necessária verossimilhança para uma trama. Toda a sentença merece ser lida, ainda mais em tempos onde se tenta cercear o direito dos outros falarem aquilo que pensam sob as mais diferentes argumentações, tempos em que não se apela para o Poder Judiciário, mas se vai para as redes sociais ridicularizar as visões dos outros:

“Se Joyce não tivesse tentado ser honesto ao desenvolver a técnica que adotou em Ulisses, o resultado teria sido psicologicamente ilusório, e portanto infiel à técnica preestabelecida. Uma tal atitude do ponto de vista artístico seria imperdoável. (…). Foi, de fato, a tentativa de realizar com sinceridade e honestidade este propósito que levou à eventual utilização de determinadas palavras que geralmente são consideradas vulgares, e ao que, no entendimento de muitos, é um interesse excessivo pelo sexo no personagem dos seus personagens.”

Em outro ponto da sentença, o juiz Woolsey reconhece que a leitura de “Ulisses” é “tediosa e fascinante, difícil e interessante”, e que se sentiu incomodado ao ler os palavrões, mas reconheceu que, para a obra funcionar, para Joyce entrar na cabeça dos personagens, ele precisava escrever daquele jeito. Não existe como fazer uma omelete sem quebrar ovos: um escritor não pode ser coerente com a moralidade e com a visão do politicamente correto se quiser criar verossimilhança, pois então soará falso e – o pecado maior para qualquer obra literária – inverossímil.

Uma terceira forma subreptícia do Direito influir na Literatura é quando autores são ajudados por advogados nas suas tramas. Poderia citar o interessantíssimo livro de Andrew Zurcher, “Shakespeare and Law”, mas mereceria um texto a parte. Prefiro ficar em uma figura que, à moda de Rasputin, esteve por trás da era de ouro da literatura russa – e quase ninguém lembra o seu nome: o advogado Anatoly Fedorovich Koni (1844-1927).

A estreita biografia que encontramos sobre este advogado não faz jus à sua importância. Anatoly Fedorovich Koni não só foi advogado, juiz, senador e membro do Conselho de Estado do czar da Rússia, como também se notabilizou pelos seus ensaios de crítica literária, servindo de consultor jurídico informal para as obras de ninguém menos do que Anton Tchekhov, Fiodor Dostoiévski e Leon Tolstoi. Na área da crítica literária, seus estudos sobre as referências legais na obra de Pushkin – escritos ainda na faculdade – marcaram época na Rússia czarista, que tinha vários problemas com as rebeldias estilísticas daquele que viria a ser considerado o seu maior autor.

Na área do Direito, Anatoly F. Koni notabilizou-se pela sua visão liberal-moderada no período pré-revolucionário, época em que os nervos estavam à flor da pele. Conseguiu se transformar em uma unanimidade entre os historiadores de ambas as vertentes ideológicas. De acordo com Voronov, historiador de antes da Revolução Russa, Koni era “um verdadeiro cavalheiro, que combinou os grandes talentos de artista, poeta, pensador, psicólogo, teórico e crítico.” Segundo Polianski e Syromiatnikov, historiadores do período soviético, “o notável sucesso de Koni em jurisprudência, legislação, teoria literária e literatura fez o seu nome não-russo soar como um dos nomes mais populares em toda a Rússia”.

"Retrato de Anatoly Fedorovich Koni", por Ilya Repin

“Retrato de Anatoly Fedorovich Koni”, por Ilya Repin

Koni conheceu os grandes escritores do período de ouro da literatura russa. Até mesmo Tolstói, que costumava desprezar todos os que não seguiam as suas ideias sobre um mundo perfeito e que dedicava à lei um capítulo todo especial na sua longa lista de desprezos, respeitava Anatoly F. Koni e, mais significativo ainda, o tinha como amigo e confidente pessoal. Eram frequentes as visitas do advogado a Tolstói em Yasnaya Poliana, tanto para aconselhá-lo quanto para discutir nuances das suas obras.

Com relação a Tchekhov, os dois trocaram uma significativa correspondência. Foi graças a este escritor russo que Koni compreendeu – está nas suas memórias, não publicadas em português e que cito aqui com tradução minha do espanhol – “que na vida da justiça e na justiça da vida a ficção literária albergava um alcance de ativismo social, que é uma potência transformadora da realidade”. Koni foi uma das primeiras pessoas a erguer a sua voz em defesa de Tchekhov quando da recepção agressivamente contrária à peça “A gaivota”, reconhecendo seu valor literário muito antes do reconhecimento do restante da crítica.

Quando soube que Tchekhov tinha interesse médico de visitar a ilha Sajalín para saber mais das condições retratadas por Dostoiévski em “Recordações da casa dos mortos”, Koni se dispôs a acompanhá-lo na visita. Tchekhov mandou uma carta para a sua irmã: “após visitar a ilha de Sajalín, eu e o Comissário Koni decidimos escrever uma carta em conjunto para a imperatriz, tratando da situação vivida pelas crianças naquele lugar e pedindo o estabelecimento de um refúgio para protegê-las.” No entanto, Tchekhov desistiu da carta em conjunto e preferiu escrever um livro como denúncia, “A ilha de Sajalín”, o qual só foi publicado em 1893. Nos capítulos XVII e XIX, o escritor russo faz severas críticas ao sistema penitenciário russo e a forma com que tratava mulheres, crianças e outros desprotegidos. Na qualidade de primeiro leitor, Koni acrescentou as suas opiniões, enquanto lutava na esfera burocrática pela melhoria das condições humanas no estabelecimento carcerário.

Não foi o único momento em que Tchekhov e Koni trabalharam juntos. A sua correspondência indica uma constante troca de ideias sobre meandros jurídicos que Tchekhov abordava em suas tramas. Quando ele tinha dúvidas legais sobre as condutas de algum personagem, Anatoly F. Koni era consultado, e a conversa estabelecida entre ambos era uma mistura de pareceres jurídicos e opiniões literárias.

O mesmo aconteceu com Dostoiévski, que também manteve contato com Koni. Da mesma forma que Tchekhov, o interesse maior de Dostoiévski era o campo da psicologia criminal, e basta ler as suas obras para entender o motivo de tamanho fascínio. O que leva uma pessoa a cometer um crime? O que faz um criminoso confessá-lo? As dúvidas de Dostoiévski – e as conversas estabelecidas com Koni – são redimensionadas no interior dos seus livros, em especial “Os irmãos Karamazov” e “Crime e castigo”.

Entre os maiores interesses do autor russo estavam as pulsões autodestrutivas do pensamento fanático e o que impulsionava a violência implosiva dos suicidas. Para ajudar as pesquisas de Dostoiévski sobre o tema, em dezembro de 1876, Anatoly F. Koni emprestou-lhe um pacote de cartas deixadas por suicidas, o que gerou um texto do escritor russo, “Sobre o suicídio e a arrogância”, que começa com o seguinte trecho: “Há cerca de um ano e meio, um homem de muito talento e muita competência, reconhecido no nosso sistema judicial, mostrou-me uma pilha de cartas e notas deixadas por suicidas que havia reunido, e que tinham sido escritas imediatamente antes de sua morte ou, melhor dizendo, até cerca de cinco minutos antes deles se matarem”.

Uma pena que não posso falar mais sobre a profícua relação de Anatoly Fedorovich Koni com alguns dos maiores escritores da sua época, muito menos a importância dos seus trabalhos para o sistema legal e literário russo. O espaço curto de um texto não permite. Contudo, é importante ver como funciona a relação de mútuas trocas e benefícios entre o Direito e a Literatura. Todo bom advogado precisa ser um ótimo leitor, pois nem sempre o texto jurídico é capaz de desvendar a complexidade das relações sociais. Da mesma forma, um bom escritor precisa ter o conhecimento que o Direito já garante a muitos séculos: não existe o certo inequívoco ou o errado absoluto, mas uma ampla gama de matizes entre os dois pólos da verdade.

Assim como Ernest Pinard investindo contra a literatura da sua época (e acabando por reforçar os seus fundamentos estéticos), ou o juiz Woolsey analisando a pornografia de uma obra literária pelo ângulo da necessidade imperativa de estabelecer a verossimilhança, ou Anatoly Fedorovich Koni auxiliando nas sombras aos escritos de Tolstói, Tchekhov e Dostoiévsky, não se pode deixar de lado uma grande verdade: só podemos chegar à justiça entendendo o ser humano. E, para chegar ao humano, a única forma é através da arte e, entre elas, o estudo de literatura é essencial para nos deixarmos não só melhores advogados, mas seres humanos mais piedosos e mais completos.

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Texto (e fotos) publicado no site “Por que hoje é sábado”, edição especial “Mulheres lendo” (16/07/2016)

Quem me conhece, sabe que, entre as dezenas de assuntos que me interessam (para ficar em alguns mais recentes, encontro-me lendo sobre o sistema jurídico da Atenas antiga e sobre as evoluções do conceito de virtude em Samuel Richardson e Marquês de Sade), estão as mulheres leitoras e, em especial, a forma com que a arte, a fotografia e a propaganda costumam retratá-las.

Pode parecer um assunto pouco relevante, mas não é. Desde os primórdios, a leitura foi considerada uma atividade feminina, e existem representações abundantes de mulheres de todas as idades lendo. Os homens saíam para a guerra e viam com condescendência as mulheres com um livro na mão, atribuindo-lhes, assim, um caráter sonhador e descolado da realidade. É muito interessante constatar como esse discurso silencioso – e de dominação – perpassa por toda a História da Arte e é retratado até os dias atuais, quando consideramos natural ver uma mulher com um livro e algo destoante enxergar um homem lendo. Sei por experiência própria: quando levo um livro para algum lugar, os olhares de pasmo que me lançam são frequentes.

Inclusive, quando aparecem homens e mulheres lendo na mesma imagem, geralmente é o homem que aparenta estar lendo em voz alta para a mulher, e isso passa uma espécie de doutrinação tácita. Poderia falar de Santo Agostinho e dos benefícios da leitura silenciosa, mas, ora bolas, estou sempre falando de Santo Agostinho.

Existiu uma mudança progressiva nas imagens de mulheres lendo, e isso é algo que me encanta. No passado, é possível ver que as imagens mostravam mulheres lendo como se fosse uma fuga da realidade, como se elas fossem burras e precisassem de livros para entender o que estava acontecendo. No entanto, nos últimos anos – não sou capaz de precisar o momento exato – as imagens passaram a representar força, conhecimento, inteligência. Algum dia, penso em escrever algo mais detalhado sobre o assunto.

Hotel Lobby (detail) 1943. Edward Hopper (1882-1967).

Hotel Lobby (detail) 1943. Edward Hopper (1882-1967).

Em torno de um ano atrás, criei um painel no Pinterest intitulado “Woman Reading”, que inclui mais de 527 imagens de mulheres lendo, desde pinturas clássicas até propagandas de revistas, desde mulheres famosas até desconhecidas, desde pintores renomados até outros que ninguém ouviu falar. Convido todos a visitarem o site: https://br.pinterest.com/gmeloczekster/woman-reading/

Sabendo desse meu interesse, o Milton Ribeiro, que gerencia o blog “Por que hoje é sábado”, pediu para que eu escolhesse algumas imagens de mulheres lendo e escrevesse um ensaio em homenagem a elas. Foi mais difícil do que eu imaginava fazer texto e imagem casarem entre si com doses duplas e interligadas de significados. Ainda mais por que tentei despersonalizar a questão e transformar o livro no narrador do texto: um livro que se apaixona pela sua leitora, assim como toda obra se apaixona perdidamente por aquele que se atreve a devassar as suas páginas. Não é assim que o amor devia funcionar?

Também fiz um pequeno easter egg do tipo que só eu acho legal: escrevi um texto que serve tanto para mulheres lendo quanto para homens na mesma atividade. Um texto unissex: o livro pode se apaixonar por ambos os sexos, ele não tem problemas com gêneros de leitores.

Boa leitura!

http://miltonribeiro.sul21.com.br/2016/07/16/porque-hoje-e-sabado-mulheres-lendo-2/

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Texto publicado na revista eletrônica da Dublinense (12/07/2016): “Para ter uma vida extraordinária”

Na minha coluna dessa semana no Medium da Dublinense, eu falei sobre como ter uma vida extraordinária, contando sobre uma pesquisa feita no ano passado, passando por Aristóteles, Aquiles “de pés ligeiros” e Heitor “o guardador de cavalos”, Plutarco e suas vidas comparadas, Suetônio e as vidas dos doze Césares, Marcel Schwob e as vidas imaginárias (com participação especial de Saussure ensinando sânscrito para Schwob, mas que belo “quebra-línguas”!), Gonçalo Tavares e as vidas falsas, Borges e as vidas infames e terminei contando a história do mais incrível e inverossímil homem que já pisou na Terra: Sir Richard Francis Burton.

Boa leitura!

 

Para ter uma vida extraordinária

 

No ano passado, uma agência de pesquisas da Inglaterra realizou um estudo para saber o que as pessoas mais desejavam. Várias respostas se destacaram: mais dinheiro, mais saúde, mais segurança, mais viagens, mais prazer. No entanto, no meio das escolhas, a que acabou chamando a minha atenção foi “uma vida extraordinária”. Nem tanto pelo gigantismo expresso através do adjetivo – não era uma vida legal ou gloriosa, mas “extraordinária” – e sim por que, em pleno século XXI, ainda buscamos viver uma existência que transcenda os seus limites temporais e espaciais, algo que esteja além de nós mesmos. Algo extraordinário, em suma.

Um dos motivos de escrever é mostrar para os outros homens, através do exemplo expresso na ficção, como eles podem ser melhores. Quem disse isso foi o velho Aristóteles, que sintetizou a arte poética como uma forma encontrada para mostrar como agem os melhores dos homens, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença. Assim, cada vez que lemos um livro, assistimos a um filme ou vemos uma pintura, estamos tentando aprender como a imitação de vida ali presente pode nos deixar mais capacitados para sobreviver ao mundo.

Caminhamos por entre livros procurando exemplos de vida que possam deixar a nossa existência nada menos do que inesquecível. É uma busca insana: são milhares de livros, e todos possuem visões diferentes da realidade espalhadas por entre os mais variados gêneros e, pior ainda, cada um deles mostra exemplos bons ou ruins de personagens que podemos seguir – pois também podemos ser vilões extraordinários. O ser humano é uma criatura multifacetada demais. Por mais migalhas de possibilidades que juntemos ao longo do vasto bosque da literatura, nunca chegaremos ao pão completo.

Não faz muito tempo, afirmei que a literatura ocidental como hoje conhecemos nasceu diante dos muros de Tróia, no momento em que Heitor, “o domador de cavalos”, caiu diante da fúria de Aquiles, “o de pés ligeiros”. Dois sistemas de valores estavam em confronto nesta luta entre indivíduos: de um lado, a placidez e a honra de Heitor; do outro, a raiva e a instabilidade de Aquiles. A vitória do aqueu sintetiza a literatura do Ocidente, sempre buscando a glória desmedida, ainda que efêmera. Quando precisou optar entre uma vida curta e gloriosa ou uma existência longa e esquecível, Aquiles escolheu a primeira alternativa: “Não, eu não pretendo morrer sem luta e sem glória, como também sem algum feito cuja narrativa chegue aos homens por vir”. Agindo assim, determinou o nosso destino, de estar sempre buscando uma vida extraordinária, algo capaz de ressoar pelos tempos.

Não foram poucos os escritores que perceberam um enorme paradoxo: a única maneira de conseguir uma vida extraordinária é através da ficção. A realidade, com as suas miudezas e insignificâncias, não comportaria espaço para maravilhas, que são digeridas pela rotina, pelo cotidiano e por este grande desgaste que é viver. Quando rearranjamos uma vida na ficção, acabamos deixando-a melhor, mais digna, mais coerente. Somos pessoas melhores quando descritas por palavras, não quando vivemos.

Foi assim que Plutarco escreveu o seu “Vidas Paralelas”, entrelaçando as vidas de figuras reais. Plutarco fez 23 pares, unindo gregos com romanos. Pretendia provar a continuidade da tradição helênica em meio à cultura romana, ou como os romanos podiam ser vistos como uma continuação dos ideais gregos. É uma leitura muito aprazível, pois relata tanto a realidade quanto a ficção, que se encontram tão entrelaçadas que é difícil saber o que é verdade e o que era mito e foi incorporado à história. Também é uma lição de humildade: nunca sabemos quando estamos vivendo uma vida extraordinária, pois estamos muito próximos da nossa própria existência. Somente o distanciamento nos permite afirmar que a vida de alguém é ou não fenomenal. Ou seja: podemos estar vivendo agora o melhor momento das nossas vidas, e não sabemos.

Plutarco em Delfos

Plutarco em Delfos

Mas me interessa saber as derivações literárias desta busca por uma vida extraordinária. Em 1896, Marcel Schwob publicou “Vidas imaginárias”, uma série de contos relatando as vidas de pessoas que existiram, mas cujas histórias tinham mais lacunas do que certezas. A melhor forma de preencher esses espaços lógicos em branco da vida de alguém era tendo a ficção como argamassa e, assim, Schwob usou fontes literárias fictícias, outras verdadeiras, imaginação e muita ironia para fechar as lacunas.

Logo no prefácio, o autor francês fala dos problemas das biografias existentes, atacando Plutarco e Suetônio (autor de “As vidas dos doze césares”, que, apesar do tom panfletário, também é um conjunto de narrativas interessantes, mesclando fatos e mitologias), dizendo que a verdadeira biografia deveria se deter não somente naquilo que destaca os homens, mas sim nas características pessoais que os diferenciam.

Marcel Schwob abdica da realidade para contar a vida dos homens e mulheres, consciente de que somente a ficção traz o extraordinário, o imponderável, o inesquecível. É pensando assim que escreve a história de Empédocles, Deus presumido, antecessor dos grandes profetas bíblicos, e que acabou queimado por causa dos seus supostos poderes divinos (é um fato incontornável da Humanidade a necessidade de queimar os deuses que andam entre nós). Fala de Crates, um cínico à moda de Diógenes, que abdicou de todas as posses materiais para viver nas ruas como um cão. Vai para Roma e conta a incrível história de Clódia, uma mulher que, na mesma tradição de Messalina, utilizava o sexo como a única forma de sobrevivência e de estabelecer laços sociais.

É especialmente delicioso o final alternativo que Schwob concedeu para Petrônio, o autor do Satyricon, que escapa da morte pelas mãos de Nero (fato real) e passou a ser um mendigo vagando pelas cidades romanas, vivendo com mais intensidade a pobreza do que durante a sua vida como nobre. Vale muito ler sobre Cecco Angiolieri, poeta invejoso que competia com Dante e passou uma vida inteira imersa em raiva contra outras pessoas, sem saber que a maior raiva que possuía era contra si próprio. Destaque especial para a história de Paolo Uccello, contemporâneo de Donatello, artista consumido pela arte, que desejava “transmudar todas as linhas num só aspecto ideal”, uma belíssima reescritura de “A obra prima desconhecida”, de Balzac.

Um detalhe interessante sobre Marcel Schwob – o escritor viveu somente 37 anos e, ainda assim, deixou uma obra admirada por dezenas de escritores e filósofos, desde Valéry até Borges, Foucault e Oscar Wilde, que inclusive lhe dedicou “Salomé” – é que, na sua adolescência, ele foi aluno de sânscrito em Sorbonne de ninguém menos do que Ferdinand de Saussure, o pai da linguística moderna. Sempre tento imaginar como devia ser essa aula, e é um dos pensamentos que me diverte, Schwob e Saussure dentro da mesma sala falando em sânscrito. Eis um belo “quebra-língua”.

Não sabemos o que é verdade e o que é ficção na obra de Marcel Schwob, e não importa, mas sim a noção de que a vida extraordinária não existe fora dos limites da imaginação. A grama do vizinho é sempre mais verde, e a vida dos outros sempre parece melhor do que a nossa. Não à toa que a mesma ideia de Schwob foi seguida por Jorge Luis Borges, com a sequência de biografias que mesclavam ficção e realidade contida em “História Universal da Infâmia”, e por Gonçalo M. Tavares que, em “Histórias falsas”, reconta vidas que estavam à margem do discurso oficial, usando a imaginação para preencher espaços e dar estrutura épica para pessoas que, se não fossem a literatura, estariam sentenciadas ao desconhecimento.

Ainda assim, existem vidas reais tão gigantescas que até mesmo a ficção coça a cabeça e pensa “não posso fazer isso, o leitor não vai acreditar”, e mesmo assim tais pessoas existiram. Um exemplo clássico é Sir Richard Francis Burton (1821-1890). O título completo da sua biografia, escrita por Edward Rice, já sintetiza alguns detalhes da sua vida – “Sir Richard Francis Burton: o agente secreto que fez a peregrinação a Meca, descobriu o Kama Sutra e trouxe As mil e uma noites para o Ocidente”. A obra tem incríveis 683 páginas em letra apertada, e quem de nós pode se orgulhar de ter uma vida que preencha tamanho volume em uma biblioteca?

Ainda que repudie a intenção de catalogar um ser humano através de palavras, que por natureza são reducionistas, não resisto à tentação de elencar o currículo oficial de Sir Richard Burton: escritor, tradutor, linguista, geógrafo, poeta, antropólogo, orientalista, erudito, espadachim, explorador, agente secreto e diplomata. Tudo isso entrou no espaço dos seus 69 anos de vida.

Sir Richard Francis Burton

Sir Richard Francis Burton

Se vamos incluir as suas realizações, o currículo só cresce: localizou as nascentes do Nilo, algo buscado desde o princípio da civilização e que gerou inclusive um ditado “tão desconhecido quanto as nascentes do Nilo” – pois é, Burton as encontrou, mas Speke afirmou que era mentira e os dois tiveram uma briga pública que se encerrou de forma trágica; falava 29 línguas e uma série de dialetos; era mestre do disfarce – passou-se por afegão, por colonizador inglês, por fanático islâmico, por mascate de dervixe, por peão cigano; recebeu o apelido de “Negro Branco” e “Diabo Burton”, mas chamava a si próprio de “Bárbaro Amador”; estudou cabala, hinduísmo, alquimia, catolicismo e o sexo tântrico, no qual se especializou; tinha severas crises de decepção, viciou-se em drogas e passou a vida lutando contra o alcoolismo; procurou os traços de Camões na Índia, passando pelas cidades que o poeta português esteve, em busca de evidências da sua presença; esteve em Meca, proibida a quem não fosse do Ocidente, e em Harar, capital da Somália, onde todos os homens brancos eram sumariamente mortos; na África, descobriu o lago Tanganica; no Brasil, viajou de uma ponta a outra pelo rio São Francisco, vivendo em Minas Gerais e na Bahia; foi gigolô em Nápoles e contrabandista de drogas em Pau, na França; traduziu “Os Lusíadas”, “As mil e uma noites” e o “Kama Sutra”, todos do original; foi expulso de Oxford por assistir a uma corrida de cavalos; na condição de agente secreto, é considerado o responsável secreto pela morte de vários líderes de tribo indianos; aprendeu esgrima, envolveu-se com 09 mulheres e escreveu 04 livros, tudo simultaneamente durante um ano vivendo na Itália.

Tão incrível a vida de sir Richard Francis Burton que é difícil de acreditar que tenha sido real, apesar das várias indicações neste sentido. O aproveitamento do tempo do aventureiro inglês, vivendo com intensidade todas as emoções possíveis, permite-nos ver o motivo dele ter conseguido uma existência tão agitada: Burton não tinha medo de ceder às possibilidades que apareciam no seu caminho. Preferia correr o risco ao invés de viver na incerteza e, para fazer isso, estudava o máximo que podia, cercando-se do conhecimento para enfrentar o desconhecido, pois o estudo era a chave para sir Richard Burton chegar a qualquer lugar que desejava.

Quando as pessoas dizem sonhar com uma vida extraordinária, é por que querem algo a mais. É melancólico que a vida seja somente uma, e que cada decisão tomada exclua uma série de possibilidades. Nunca saberemos se os caminhos tomados nos deixarão mais próximos ou distantes do extraordinário. Chegar à existência sublime é algo tão intangível como era na Antiguidade clássica; é tentar capturar a sombra, reter a névoa. A literatura nos ensina que, se não podemos ter vidas loucas como a de Sir Richard Francis Burton, podemos sonhar com outras experiências. Existe algo mágico mesmo nas pequenas insignificâncias do dia a dia: pegar uma chuva no rosto pode ser tão extraordinário quanto ganhar uma guerra, tudo depende de como a enxergamos. Se não podemos ser extraordinários o tempo todo, melhor buscar o maravilhoso que está ao alcance dos nossos sentidos.

 

Texto originalmente publicado no link https://medium.com/colecao-dublinense/para-ter-uma-vida-extraordin%C3%A1ria-74dac5d3523f#.w2id5a1nw

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Sobre Leonardo Padura e seu “O homem que amava os cachorros”

Aos que tiverem curiosidade, eis o vídeo do Café Literário da Sociedade Psicanalítica em que eu e a doutora Maria Cristina Vasconcellos, mediados pelo doutor Maurício Marx e Silva, conversamos sobre “O homem que amava os cachorros”, de Leonardo Padura.

Não me lembro direito o que falei – e nem me animo a assistir ao vídeo – mas me recordo vagamente de que tratei do “Agosto” de Rubem Fonseca, do “Crônica de uma morte anunciada” de Gabriel García Márquez, do “Névoa” de Miguel de Unamuno, do “A insolação” do Quiroga, de Aquiles enfrentando Heitor na “Ilíada”, de Alexandre o Grande, de Dario III, de “A casa de Astérion” do Borges, e da noção de que o embate de dois seres humanos pode, sim, mudar o curso da História da Humanidade.

Eu passara a tarde de quarta falando de Thomas More e do seu “Utopia”, e apresentando trabalho sobre mundos ficcionais na literatura. Espero não ter falado nenhuma impropriedade na quarta à noite, quando aconteceu o Café Literário.

Agradecimentos eternos ao pessoal que compareceu in loco para prestigiar, em especial minhas amigas Vera Cardoni, Cássia Taiana Cavalheiro, Ana Iris Ramgrab, Patrizia Cavallo e Andrea Kahmann, e ao cinegrafista que, de forma misericordiosa, evitou filmar o momento em que derrubei a garrafinha de água na mesa. Isto merecia um prêmio de descoordenação motora em lugares públicos.

 

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Texto publicado na revista eletrônica da Dublinense (05/07/2016): “O leitor, este ‘sujeitinho’ que caminha conosco”

Na minha coluna dessa semana no Medium da Dublinense, falei sobre uma das mais antigas questões: para quem escrevemos? Partindo da desastrada declaração de Bernardo Carvalho (nunca é saudável defender a arte literária em detrimento do leitor, que é um dos seus pólos essenciais, pois não existe livro sem leitor, quando escrevemos já estamos lendo), refleti sobre escritores que desprezavam os seus leitores e outros que escreviam em conjunto com eles. Mas também falei da correspondência educada de Flaubert com seus leitores indignados por causa de “Madame Bovary” e seu espelho incômodo, e também falei de Dostoiévski encontrando o seu Leitor Ideal – e, por Deus, ele era um baita chato.

Boa leitura!

 

O leitor, este “sujeitinho” que caminha conosco

 

A nova velha discussão dessa semana é tão antiga quanto a expressão “mais antiga do que andar para frente”. Em uma palestra na FLIP – Feira Literária de Paraty, o escritor Bernardo Carvalho, diante da questão “para quem se escreve?”, respondeu de forma taxativa: “Não me interessa se o leitor lê ou não lê; eu quero que se foda. O que eu quero é fazer a minha literatura”. Tal declaração despertou uma onda de raiva e de interpretações metafísicas sobre o real alcance da resposta, com pessoas se posicionando a favor ou contra.

É possível que o uso do palavrão tenha sido o combustível para tanta polêmica, pois a mesma frase – sem o palavrão – é dita desde o início dos tempos. Aliás, encontra-se na origem do movimento que Benjamin Constant chamou de “arte pela arte” e que teve ninguém menos do que Aristóteles como seu iniciador. Somente no século XVIII ganhou o nome de “estética”, de acordo com Alexander Baumgarten, mas muitos artistas pautaram as suas obras pelo absoluto desrespeito ao público e concentração no fazer artístico. Viviam em uma bolha criada pela sua própria arte. Que o diga Baudelaire, cujas poesias escandalizaram a sociedade da época e disse escrever não para ser lido, mas pelo simples ato de escrever, ou o próprio Edgar Allan Poe, o qual pregou as benesses da beleza estética sobre os gostos do público em “A filosofia da composição”. É uma maneira de pensar a literatura, e não pode ser considerada nem certa e nem errada.

Por outro lado, existe uma constelação de grandes escritores que seguiam as vontades do público e nem por isso eles se venderam ao mercado. Conseguiram aliar o seu fazer artístico ao gosto dos leitores, atendendo, assim, à trindade maior da literatura segundo Antonio Candido: autor – obra – público.  À guisa de exemplo, Charles Dickens foi um best seller enquanto estava vivo. Escrevia folhetins mensais nos jornais de Londres e, no intervalo de tempo em que cada publicação saía, observava as reações do público e a sua empatia ou desgosto com os personagens, moldando a história para tirar o máximo de suspense. Segundo estimativas, Dickens vendeu mais de 4 milhões de exemplares das suas obras enquanto estava vivo, o que é um feito para qualquer autor. A mesma conduta foi seguida por outros escritores, como Henryk Sienkwiecz, Machado de Assis e Alexandre Dumas, que lançou em folhetim as suas obras máximas, entre as quais “Os três mosqueteiros” e “O conde de Montecristo”. Dumas tinha uma peculiaridade interessante: como recebia por linha escrita, o autor francês precisava preencher espaços nas folhas e, assim, abusava dos diálogos inúteis, no estilo de “Oi.”, “Oi.”, “Tudo bem?”, “Tudo bem, e contigo?”. Ganhava assim quatro linhas e, por conseguinte, recebia mais dinheiro. Isto não prejudicava em nada a sua literatura, além de ajudar na criação do clima e deixar os leitores mais sedentos pelos momentos em que a história avançava de forma serelepe nas cenas de ação.

Este bilateralismo é irritante, lembra um Gre-Nal que nunca termina. É possível ter as duas posições sobre a arte sem que uma implique em desconsiderar a outra. Podemos ouvir o leitor ou desconsiderá-lo. No final do dia, o importante é fazer um bom trabalho para nós mesmos e, se atingirmos outros leitores, melhor ainda. Se o objetivo for só ter mais leitores e escrever para eles, qual seria o problema? Eu não leio o Bernardo Carvalho – pelo visto estou na parte de leitores mundiais que não o leem e logo merecem ir, ficando em expressões antigas, para o diabo que nos parta -, mas ele também não deve me ler e nós dois somos felizes com os leitores que se interessaram pelos nossos trabalhos.

Os leitores, 1914, Martin and Edith Stein Collection

Os leitores, 1914, Martin and Edith Stein Collection

No “Livro dos Cinco Anéis”, Miyamoto Musashi diz que “a tática para ganhar de um homem é igual à tática para ganhar de mil homens”. O mesmo pode ser dito quanto aos leitores: ter um leitor é tão valioso quanto ter 100 ou um milhão. Por meu lado, eu prefiro pensar em Umberto Eco que, em “Seis passeios pelos bosques da ficção”, afirmou que todo autor escreve para uma única pessoa, a quem chama de Leitor Ideal. Ele seria uma figura imaginária, o interlocutor perfeito, o ser para quem o leitor dirige em segredo a sua história, aquele que não só irá entendê-la como será capaz de ver até as nuances que escaparam ao autor. Passamos a vida toda escrevendo para este Leitor Ideal, o qual não conhecemos ainda, mas que está por aí, em algum lugar do mundo.

Eco diz que, em última análise, o Leitor Ideal é uma projeção do seu autor, ou seja, o escritor conversa consigo mesmo através da obra. Considero uma opção muito solitária e, sinceramente, espero não estar escrevendo para dialogar comigo, seria mais fácil e cômodo bater papo com o espelho. Sou mais utópico. Realmente acredito que, em algum lugar do mundo, existe uma Leitora Ideal (sempre imaginei no gênero feminino) que, um dia, lerá algo que escrevo, entrará de cabeça na minha obra e, em seguida, virá me confrontar com um conhecimento a meu respeito que sequer eu possuo.

Minha Leitora Ideal é meu nêmesis, alguém que finalmente me explicará para mim mesmo. Alguém que irá me exaurir, literariamente falando. Enquanto não surge tal figura imaginária e se transforma em realidade, eu vou me divertindo com os leitores e leitoras “errados”. Gosto muito da ideia de que cada texto que escrevemos tem um único objetivo em vista, que toda a história da literatura não passa de iscas em anzóis que colocamos no oceano de livrarias e bibliotecas à espera de um único peixe, enquanto outros se aproximam e flertam com a morte. Nunca terei certeza de que tal Leitora Ideal existe. Talvez ela já tenha morrido, talvez ainda venha a nascer daqui a 100 ou 1000 anos. De qualquer forma, é para ela que escrevo, e os outros leitores são somente “danos colaterais” de uma bomba literária de efeito descontrolado.

Não escrevemos para os leitores, mas apesar deles. Antes que me crucifiquem, não uso o “apesar” de forma pejorativa. Quero dizer que imaginamos uma espécie de leitor para nosso livro, alguém que entenderá a elegância ou a virulência da prosa, e acabamos nos deparando com amigos gozadores, com críticos sérios e outros nem tanto, com fanáticos religiosos, com gente preconceituosa que gostaríamos que não estivessem com o nosso livro nas mãos, com ex-namoradas que encontram em uma frase um ataque sutil, com familiares que passam a ter medo de eventuais indiscrições e, até mesmo, com leitores que não nos conhecem. Os leitores acabam nos sufocando na tentativa de encontrar sentidos para o livro, e escutar seus elogios ou eventuais inconformidades também é perigoso.

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Gustave Flaubert passou por um grande problema por causa dos seus leitores. Após o lançamento de “Madame Bovary”, em 1857, tão convincente era a trama, tão realista – não é por nada que a consideram a obra realista por excelência – que Flaubert recebeu uma enxurrada de cartas indignadas de leitores afirmando que ele tinha contado a sua história. Para quem lê “Cartas exemplares”, que junta algumas das cartas, fica claro que, até o momento em que publicou “Madame Bovary”, as dúvidas de Flaubert cingiam-se ao estilo, à trama, ao cenário, aos personagens. Depois que o livro foi publicado, as cartas de Flaubert viraram explicações polidas de que, não, ele não tinha se baseado na história de Fulano para compor a história de Charles Bovary, ou que não, ele não estava contando o incidente na festa de Beltrana dentro do seu livro, e sim uma outra festa imaginária. Flaubert era um homem educado, respondia para os seus leitores sobre as suas angústias mundanas, mas sempre penso que o escritor devia se deliciar de ter criado algo tão palpável que as pessoas se viam nos lugares dos personagens.

Nem sempre encontrar o Leitor Ideal pode ser uma experiência aprazível. Também pode ser um espetáculo de horrores, ser lido e decifrado por alguém que não só nos odeia, como possui críticas ponderadas e irônicas sobre o nosso trabalho. Assim, é possível que nenhum escritor tenha recebido um ataque mais virulento de um leitor do que o próprio Dostoiévski. Tão violento foi que o autor russo escreveu uma reportagem no jornal, chamada de “Meia carta de um sujeito”.

Apesar de Dostoiévski, possivelmente irritado, chamar-lhe de “um sujeito” – algo que já passa toda uma carga valorativa sobre o que ele pensa do leitor em questão, este “sujeitinho” -, ele se identificou na carta enviada para a redação do jornal. Assinou a carta como “Um observador silencioso”, o qual, de silencioso, verificamos não ter nada. Rousseau disse que “todo homem honesto deve assinar aquilo que escreve”. Lembro que, partindo desta frase, Schopenhauer conclamou os escritores “probos” da Europa a se juntarem contra os autores anônimos e forçá-los a colocarem os próprios nomes nas obras, o que sempre achei uma ideia divertida: escritores que assinam suas obras contra os anônimos, heterônimos e pseudônimos, eis uma batalha épica.

No início da sua resposta a este leitor, Dostoiévski afirma: “Confesso que a publicarei [a carta] apenas para me ver livre dele.” Em seguida, o escritor menciona que, apesar de lhe criticar, o “observador silencioso” se considera um dos seus maiores amigos e defensores: “Ele já escreveu em meu lugar e a meu favor três ‘anticríticas’, duas ‘notas’, três ‘notas de passagem’, um ‘a propósito’, e, finalmente, ‘um guia de bom comportamento’.” E foi esse último que irritou Dostoiévski: “Nesta última e polêmica obra, sob a aparência de um sermão feito contra meus ‘inimigos’, é a mim que ataca, e ataca usando um tom que, em matéria de energia e fúria, ainda não encontrei outro igual, nem mesmo entre meus ‘inimigos’.”

O que fez o leitor para irritar tanto Dostoiévski? O próprio autor responde: “Ele quer que eu publique tudo!” O Leitor Ideal de Dostoiévski é tão encantado com a sua obra que reclama pelo fato do autor não publicar mais ou não publicar tudo aquilo que escreve. Ele quer mais, muito mais, e tem a audácia de reclamar para o próprio autor da sua “preguiça de publicação”.

É um texto engraçado, ainda mais por que é possível ver um Dostoiévski furibundo enquanto lê a carta do Leitor Ideal. Relata a resposta privada que enviou para o leitor, dizendo que publica o que quiser e quando quiser, e deseja lidar sozinho com os seus inimigos, não precisa de ajuda. Em seguida, Dostoiévski tenta analisar psicologicamente o seu Leitor Ideal. Diz que ele é um “homem amargurado, que diariamente causa amargura a si próprio”.

Menciona um traço interessante da personalidade do outro, o qual denomina de “energia cívica”. Diz que o “observador silencioso” escreve para o autor unicamente em função do seu “dever cívico” ou, nas palavras do autor russo, “Até confessou, com certo orgulho, mas com uma sinceridade que lhe é prejudicial, que não escrevia absolutamente para me defender, mas apenas para, aproveitando o ensejo, expressar as suas ideias, já que estas não eram aceitas por nenhuma redação”.

O Leitor Ideal de Dostoiévski era o protótipo das pessoas que entram hoje nas redes sociais e acham que conseguem consertar o mundo fazendo “textões”. Sempre me fascinou aqueles que possuem tal ideal nobre, o de conscientizar os outros sobre aquilo que devem pensar, usando o tom monocórdio de uma lição quase professoral. Afirma Dostoiévski que o Leitor Ideal gasta todo o seu tempo e dinheiro mandando cartas para os jornais e revistas de Moscou com a “esperança doce, mesmo que vã, de demarcar para si um cantinho fixo na revista”. Acrescenta, com espanto:

“O que me deixa abismado é que de modo nenhum pude descobrir, mesmo em suas vinte e oito cartas, quais são as suas inclinações e o que propriamente pretende. Uma confusão só… Com os métodos grosseiros, com o cinismo do seu nariz avermelhado e o ‘cheiro desagradável’ de suas palavras delirantes e de suas botas esfarrapadas, surge uma espécie de seda velada de ternura, de algo ideal, de um tipo de crença na beleza, de Sehnsucht (nostalgia) de algo, por alguma razão, perdido, e tudo isso se revela nele de um modo profundamente repulsivo. E, em suma, estou farto dele.”

Dostoiévski publica metade da carta do “sujeito”, pois a primeira parte é “absolutamente impublicável”, por conter uma série incessante de ataques contra quase todas as editoras de São Peterbsurgo e de Moscou. A metade final é uma série de conselhos – “ingênuos”, na opinião do escritor – que o “observador silencioso” fornece para eventuais folhetinistas, adotando um “tu” aconselhador e tolerante que irrita tanto Dostoiévski que ele destaca ser uma opção do autor para que pareça ser “como nas odes de tempos longínquos”. Não bastando, quando o autor russo comunicou que só publicaria metade da carta do “sujeito”, este lhe solicitou para que a parte publicada começasse a partir de um ponto-e-vírgula, não de um ponto final. Se é para ser chato, melhor ser chato até as últimas consequências.

Aconselho plenamente a leitura da meia carta do Leitor Ideal de Dostoiévski tentando ensinar outros escritores como devem escrever histórias interessantes (e, indiretamente, nas entrelinhas, falando dos erros e acertos do próprio Dostoiévski). Seus conselhos são eivados de sugestões engraçadas e de opiniões ferinas, como quando diz: “Afinal, qual seria o teu triunfo? Raciocina se fores capaz: teus folhetins não representariam a mesma coisa? Tu não apareces toda semana, em dado dia, nu e com todos os pormenores à mostra diante do público? E a troco de que, a troco de que tu te esforças tanto?”. A sua petulância e verve faz com que tenhamos a mesma reação do autor russo: uma mistura de ternura com extrema raiva.

Não se pode esquecer que o “observador silencioso” tinha Dostoiévski como modelo de boa escrita, e esta é a maior alegria dos leitores: auxiliar os escritores a entrarem na selva quase insondável que é o seu próprio texto. Cada leitor acha que é o destinatário secreto da visão de mundo engendrada por um autor e, assim, cada um deles se acha único, pois realmente é – a leitura é uma experiência solitária e, por mais que conversamos a respeito, sempre estamos sós dentro do livro. Não escrevo para leitores em específico, mas para quem deseja pegar meu livro e caminhar comigo por algum tempo em um lugar que só existe na minha imaginação. Pois a leitura não passa disso: uma maneira de acabar com a solidão do autor, do leitor e do próprio livro.

 

Texto originalmente publicado no link https://medium.com/colecao-dublinense/o-leitor-este-sujeitinho-que-caminha-conosco-f3b6087a9c10#.hyp72kvbb

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