Arquivo do mês: setembro 2013

O silêncio dos canhões

Todo objeto nasce com uma sina, assim como todo homem. Retirem o nome de alguém e o possuirão. Retirem a função de algo e ele vira o arremedo da sua própria criação, um pastiche. Uma risada. Um desconforto.

Estou no Forte Santana, em Florianópolis, SC. O sol insulta as pedras brancas. O barulho onipresente de carros enche o mundo e sufoca o resmungar das águas que arremetem ao redor. Pela janela do Forte, um canhão discreto olha o mundo que cresceu ao seu redor, lembrando da sua época de glória – o tempo em que a sua boca estraçalhava o horizonte em chamas de raiva.

Forte Santana, Floripa 2013, um canhão me protege

As nuvens costuram o mundo. Outros canhões permanecem em soturna vigília, guardando com o seu olho de ciclope as águas circundantes. Cada mínimo movimento das ondas pode representar um perigo e eles não relaxam a sua vigilância. Tiraram as balas, tiraram a pólvora, tiraram a função, mas eles ainda se comportam com a dignidade daqueles que se imaginam serem úteis.

Forte Santana, Floripa 2013, o sonho dos canhões é acertar o horizonte

Se os ouvidos humanos fossem mais atentos e menos primários, seria possível entender o diálogo que os dois cansados canhões travam. Lembram das suas épocas de guerra? Lembram quando seu tonitroar rivalizava com o dos trovões? Lembram quando eles possuíam o último e decisivo comando sobre a vida alheia? Hoje eles trocam reminiscências de ferrugem, mas, no passado, as suas vozes resplandeciam com o orgulho jovem do aço e da fúria.

Um canhão não deixa de ser canhão. Ele somente envelhece. E desaprende a falar.

Forte Santana, Floripa 2013, flagra de uma conversa preguiçosa entre dois canhões

Se pensarmos nas cenas com olhos fora dos limites do Tempo e do Espaço, não seria tão difícil visualizar lá, no horizonte, na linha dupla de nuvens cheias de impossíveis, uma esquadra de navios fantasmas preparando-se para trazer a morte para a cidade. Somente os canhões protegem as pessoas, com o seu aviso silencioso: aproximem-se e serão exterminados.

Os fantasmas morrem de medo, mas não sabem que os canhões protegem o mundo através do blefe. E não somos todos assim, blefadores que fingem estarem com jogos melhores do que a realidade nos impõe?

Forte Santana, Floripa 2013, céu se desfazendo

O nervosismo é palpável. Os canhões se agitam dentro das suas estruturas enferrujadas. Esquecemos de avisá-los que a vigilância acabou, que a guerra acabou, que não existe mais perigo, e assim eles ficarão até a Eternidade, esvaziados de sentido, realizando tarefas automáticas que escondem a sua irrelevância. Um canhão que não atira não é mais um objeto, é uma paródia. Crianças brincam ao redor, diante dos olhares atônitos das bocas de ferro que não sabem mais quem é amigo e quem é inimigo.

Precisamos avisar os canhões de que eles não mais o são. Mas temos tal direito?

A vida sacode as águas próximas, que cintilam com o ofuscar de diamantes, com as escamas dos peixes. Ao longe, a silhueta incômoda da cidade que deve ser protegida e cujos perigos não vem mais pelo mar, e sim se revolvem nos seus mosaicos de ruas.

Forte Santana, Floripa 2013, canhões nervosos

O olhar do canhão é melancólico. Vendo o barco que passa próximo, ele brinca de fazer e desfazer a mira, sabendo que nunca virá o tiro que lhe dará alivio. O canhão é um cadáver exposto ao sol e à chuva.

Forte Santana, Floripa 2013, canhão mirando

No meio do seu silêncio altivo, o canhão sonha com o dia em que voltará a ter significado. Sonha com o dia em que as suas balas atravessarão o universo e estilhaçarão o horizonte.

Até este dia chegar, ele deve permanecer em silêncio, espreitando a vida que lhe cerca, invejando o mar que pode ir para longe.

Forte Santana, Floripa 2013, um canhão olha o horizonte

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Os muitos amores

No meio desse mundo que se perde em intransigências e irrelevâncias, serei ousado e falarei do mais ingrato dos temas: o amor.

Inicio com duas cenas.

A primeira: no hotel em que estou em Florianópolis, todos os dias encontro no restaurante o mesmo casal. Aparentam se conhecerem há muitos anos. O homem guarda o lugar junto à mesa enquanto a mulher se serve. Quando ela se senta, ele levanta e pega dois pratos: em um deles, coloca um exíguo pão de centeio e algumas fatias de presunto. No outro, enche de pacotinhos de bolachas, de potes de margarina, de pãezinhos embalados, de sachês de açúcar e sal. O homem retorna para a mesa e come o pão com centeio. A mulher olha para os lados. Quando percebe que os garçons e funcionários do hotel estão distraídos, ela estica a bolsa para o homem, que descarrega dentro o conteúdo do prato. Não chegam a se comunicar, não trocam nenhum sorriso ou olhar. Terminado o café, os dois voltam para o quarto e, na manhã seguinte, repetirão os procedimentos no restaurante do hotel.

A segunda: no Congresso, uma mulher apresenta o trabalho e o seu marido vem prestigiá-la. Para não atrapalhar, ele senta no fundo, na última fileira. Durante a apresentação, a mulher gagueja, hesita e olha para o final da plateia. Algum código invisível é trocado entre o casal e ela volta a se energizar, e assim vai até concluir a sua apresentação. Atravessa a sala, ainda no meio dos aplausos, e concede um rápido beijo ao marido. Senta-se para assistir as demais apresentações. O marido levanta e sai da sala. Volta quase meia hora depois, tendo enfrentado uma fila, com um copo de café nas mãos. Coloca na frente da mulher e ela, distraída, sem sequer se virar, faz um gesto brusco , mostrando que não quer. O homem olha ao redor, perdido, vai até uma lixeira e solta ali o copo ainda cheio de café.

Duas formas de amor, duas maneiras de entender o sentimento inentendível. O casal que rouba alimentos no restaurante do hotel possui um amor repleto de transgressão e peraltice. Para estarem hospedados no hotel, posso presumir que possuem boas condições financeiras. No entanto, o roubo em conjunto e a cumplicidade é algo que somente duas pessoas que se amam podem realizar juntos. Se formos pegos, estaremos juntos, e esta é uma definição possível.

O homem que prestigia a companheira e lhe dá suporte emocional em uma difícil apresentação é o mesmo que recebe um agrado público como agradecimento. Em seguida, realiza um gesto de carinho e é abruptamente recusado. O momento de amar e ser amado passou tão rápido quanto uma nuvem. Amar é ir do céu do reconhecimento ao inferno da indiferença em questão de segundos, e esta é outra definição incômoda.

"Cafe lovers", de J. Lorusso

“Cafe lovers”, de J. Lorusso

“Somos joguetes do destino”, já dizia Shakespeare em “Romeu e Julieta”. Nada melhor do que o amor e suas infinitas variações para nos fazer recordar tal fato. Nunca sabemos a versão que o destino vai nos entregar, se será algo puro ou uma estranheza, se será mel ou se será chicote.Seja qual for, teremos que nos adaptar. Sobreviver ao sentimento.

Entre todas as definições do impossível, a de Agamben ainda é a mais adequada:

Ideia do amor

Viver na intimidade de um ser estranho, não para nos aproximarmos dele, para o dar a conhecer, mas para o manter estranho, distante e mesmo inaparente – tão inaparente que o seu nome o possa conter inteiro. E depois, mesmo no meio do mal estar, dia após dia, não ser mais que o lugar sempre aberto, a luz inesgotável na qual esse ser único, essa coisa, permanece para sempre exposta e murada.

(Giorgio Agamben, Ideia da prosa. Editora Autêntica. 2012. Tradução de João Barrento).

Gosto da ideia de chegar próximo de alguém não para lhe conhecer até exaurir o sentimento, mas para cercá-la e protegê-la de tal forma que ela nem note que é a joia mais importante do universo. Tanto o casal que rouba comida do hotel quanto a dupla que une glória e desprezo nos mesmos gestos estão criando uma ilha e se isolando do resto do mundo. Somente eles entenderão o seu amor.

Recordo da mais incrível declaração de amor que conheço. Nos últimos dias, tenho lembrado dela de forma obsessiva. Muitas pessoas dizem que é uma carta de suicídio, mas eu acredito que foi uma forma de Virginia Woolf dizer para seu marido da intensidade do sentimento que os unia – e o fato dela preferir morrer a conspurcá-lo. Pouco importa a morte ou o fim; o que importa é deixar a consciência do amado tranquila, e se oferecer em sacrifício.

“Querido, Tenho certeza de estar ficando louca novamente. Sinto que não conseguiremos passar por novos tempos difíceis. E não quero revivê-los.
Começo a escutar vozes e não consigo me concentrar. Portanto, estou fazendo o que me parece ser o melhor a se fazer. Você me deu muitas possibilidades de ser feliz. Você esteve presente como nenhum outro. Não creio que duas pessoas possam ser felizes convivendo com esta doença terrível. Não posso mais lutar. Sei que estarei tirando um peso de suas costas, pois, sem mim, você poderá trabalhar. E você vai, eu sei. Você vê, não consigo sequer escrever. Nem ler. Enfim, o que quero dizer é que depositei em você toda minha felicidade.
Você sempre foi paciente comigo e realmente bom. Eu queria dizer isto – todos sabem. Se alguém pudesse me salvar, este alguém seria você. Tudo se foi para mim mas o que ficará é a certeza da sua bondade. Não posso atrapalhar sua vida. Não mais.

Não acredito que duas pessoas poderiam ter sido tão felizes quanto nós fomos.

VIRGINIA WOOLF.

A morte como única forma de preservar o amor também é uma possibilidade inquietante. Estes dias comentei que o importante sempre é preservar os bons momentos de qualquer relação, os pequenos pecados, as gulodices inesperadas, as bobagens proferidas com pressa, o silêncio e o conforto de uma companhia. Talvez amar seja isso: uma sucessão de irrelevâncias colocadas a orbitar em torno de uma pessoa, a única que consegue dar sentido para tudo.

Volto para Shakespeare e reproduzo a exasperação de Julieta: “Ó, Romeu, Romeu, por que és Romeu?”. A única pergunta que não tem resposta neste mundo.

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