Arquivo do mês: junho 2013

Fogo e sombra – um inverno com Anna Akhámatova

Semana passada vi o primeiro casaco a passear na rua e isto me lembrou de que o inverno se aproxima com os movimentos lentos de um felino, ansioso para cravar garras geladas e nos assoprar com a lembrança do túmulo (talvez) distante. O General Inverno, aquele que destruiu os exércitos de Napoleão e Hitler, prepara-se para cobrar a retirada de mantas, luvas, pulôveres e blusões das prateleiras.

O inverno é bom para três prazeres que normalmente deixamos em segundo plano: tomar chocolate quente, enrodilhar-se em outra pessoa para assistir a algum filme e mergulhar no introspectivo. O primeiro item é fácil, o segundo já é um pouco complicado por depender da pessoa e do filme e o terceiro é o mais sombrio de todos. Para abrir a porta dos pensamentos e realizar este diálogo consigo mesmo, geralmente naquele momento em que a coberta ainda não trouxe o conforto do calor e a cama parece um cenário repleto de gelo eterno, nada melhor do que estar bem acompanhado. E Anna Akhámatova é a pessoa ideal.

Nascida em junho de 1889, Akhámatova foi uma mulher excepcional, tanto que foi feito um esforço sobre-humano para apagar os traços da sua obra. Ela não era subversiva, mas os principais homens da sua vida foram mortos ou presos em campos de concentração soviéticos. Apesar de tratar de temas sentimentais, sua poesia pode ser lida como um libelo à liberdade e à beleza humana, capazes de sobreviver ao mais áspero dos climas. Ao invés de mergulhar no desespero, Anna Akhámatova preferiu transferir a dor para as palavras, retratando o inverno da sua alma em poesias repletas de dor e de sensibilidade, de amores perdidos ou afastados, de silêncios e de prelúdios.

Anna Akhamatova.

Anna Akhamatova.

Nos momentos em que o frio tenta se imiscuir pelas frestas da nossa existência, trazendo dúvidas e inquietações, sempre é bom manter a alma aquecida por uma boa poesia. Em especial se o poeta já encarou os olhos da desesperança e voltou do inferno para cantá-la. Ou tomar uma bebida com a lembrança das palavras de Akhámatova:

Último brinde

Bebo ao lar em pedaços,

À minha vida feroz,

À solidão dos abraços

E a ti, num brinde, ergo a voz…

Ao lábio que me traiu,

Aos mortos que nada veem,

Ao mundo, estúpido e vil,

A Deus, por não salvar ninguém.

Viver o inverno não implica em se cobrir de roupas ou apelar para aquecedores e lareiras. Mais do que uma estação, ele pode significar uma ode à individualidade, uma tentativa de reter o calor do lado de dentro do corpo e deixar as fagulhas do vento correrem sobre a pele com crueldade. Também é um estado de espírito ou uma música. Assim como existem músicas solares, repletas de maresia e despojamento, também existem aquelas que são melancólicas, que ressoam angústias e amplificam saudades. Dmitri Shostakovich é o compositor dos estados lúgubres da alma e, para ele, Akhámatova dedicou um poema:

Música

Algo de miraculoso arde nela,

e fronteiras ela molda aos nossos olhos.

É a única que continua a me falar,

depois que todos os outros ficaram com medo de se aproximar.

Depois que o último amigo tiver desviado o olhar,

ela ainda estará comigo no meu túmulo,

como se fosse o canto do primeiro trovão,

ou como se todas as flores tivessem começado a falar.

A ideia de uma música acompanhar a pessoa durante a Eternidade é interessante, ainda mais quando a poetisa afirma que ela sempre tem algo novo a dizer, ressurgindo com o assombro do primeiro trovão e a delicadeza invisível da conversa das flores. As outras estações também moram dentro do inverno, assim como ele pode aparecer no mais abrupto dia de sol ou na mais radiante primavera. Muitas pessoas gostam da indefinição do outono, mas existe algo hipnótico na dureza do inverno e nos tributos que ele cobra dos seres humanos. Esquentar-se não é somente algo que se faz para não deixar o frio entrar, também é um ato que nos lembra de que, por trás da pele, somos todas criaturas feitas de fogo e sombra.

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Tudo se resume a saber viver consigo mesmo, e o inverno, com o egoísmo dos seus casacos, echarpes e luvas, nos faz lembrar disto a cada momento. É enganoso imaginar que precisamos de muitas coisas para viver. A simplicidade é conquistar o gosto pela própria companhia, sabendo que outra pessoa só é bem vinda se souber respeitar a nossa individualidade. No castelo do eu, não bastante bater na porta; é preciso merecer entrar.

 

Aprendi a viver com simplicidade, com juízo,

a olhar o céu, a fazer minhas orações,

a passear sozinha até a noite,

até ter esgotado esta angústia inútil.

Enquanto no penhasco murmuram as bardanas

e declina o alaranjado cacho da sorveira,

componho versos bem alegres

sobre a vida caduca, caduca e belíssima.

Volto para casa. Vem lamber a minha mão

o gato peludo, que ronrona docemente,

e um fogo resplandecente brilha

no topo da serraria, à beira do lago.

Só de vez em quando o silêncio é interrompido

pelo grito da cegonha pousando no telhado.

Se vieres bater à minha porta,

é bem possível que eu sequer te ouça.

Anna Akhámatova viveu em dois invernos: um, o da sua Rússia natal, o outro, o dos próprios sentimentos. O único consolo que lhe restou, a labareda em torno do qual conseguiu suportar a existência, foram as suas poesias. As palavras possuem o invulgar poder de desvanecer o universo e ressemantizar o mundo. Qualquer frio se torna suportável para um poeta capaz de se manter acobertado pela própria sensibilidade. Às vezes, basta uma palavra – a correta ou a inesperada – para que tudo faça sentido, para que a dor seja aplacada, para que surja a luz, para que do Verbo se faça a Carne. A palavra é uma forma de escapar da prisão do inverno e do abismo da melancolia. O problema pode ser achar a palavra ideal, mas, quem a encontra, no momento exato em que ela se faz necessária, sente a primeira brisa da primavera brotar do peito, afastando os tons sombrios do inverno.

Treze versos

E finalmente pronunciaste a palavra

não como quem se ajoelha,

mas como quem escapa da prisão

e vê o sagrado dossel das bétulas

através do arco íris do pranto involuntário.

E à tua volta cantou o silêncio

e um sol muito puro clareou a escuridão

e o mundo por um instante transformou-se

e estranhamente mudou o sabor do vinho.

E até eu, que fora destinada

da palavra divina a ser a assassina,

calei-me, quase com devoção,

para poder prolongar este instante abençoado.

No instante em que a nova estação começa, com seu presságio de ventos frios a sacudirem os nossos subterrâneos, refugio-me na lembrança das paragens geladas que dominaram o espírito de Anna Akhámatova. Com a companhia das suas palavras acalentando o meu espírito, sento-me no sofá e espero o General Inverno entrar pelas frestas da casa para contar as suas histórias ríspidas, sabendo que logo os dedos graciosos da primavera interromperão o monólogo do frio.

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Parábola em busca de sentido

No canto do olhar, o movimento súbito e inesperado chamou minha atenção. Virei-me para a janela e, no meio deste dia frio e de pesadas nuvens que se deslocavam com a indolência dos eternos, enxerguei as cores vivas de uma borboleta. Encostada no vidro, eu não sabia se ela queria entrar ou fugir.  O bater forte das asas mostra a instabilidade do equilíbrio; venta lá fora e estamos no oitavo andar. Nenhuma borboleta deveria chegar a esta altura. Nenhuma vida deveria entrar por esta janela, e este foi o primeiro sentido que tirei de tal visão: a borboleta não deveria estar ali e, ainda assim, estava.

Mesmo sem ver o vento, eu o imagino implacável e cruel. A borboleta desliza de um lado para o outro, mexendo as asas com rapidez, entrando nos vácuos e soluços do ar que se torna movimento ao seu redor, mas, novamente contra as possibilidades, ela mantém o seu centro. Sabe que está se cansando e sabe que, ao final, acabará sendo arrastada, mas continua ali, lutando, e assim eu cheguei ao segundo sentido possível: não interessa a inexorabilidade do adversário, são as pequenas vitórias que valem a pena.

Eu trabalho em uma região onde o concreto é a norma e a natureza, uma exceção. Não tenho a mínima ideia de como uma borboleta foi nascer no meio de cenário tão inóspito: estou cercado por prédios e a poluição gruda em mim como uma segunda pele. No meio daquele lugar insosso, as cores da borboleta assemelham-se a uma bofetada de vida, o que me leva a uma terceira possibilidade de interpretação: o Destino não nos deixa escolher onde nascemos, mas permite que a nossa presença deturpe e escandalize o espaço do outro.

A fragilidade da borboleta também assusta. Imagino que, a qualquer momento, a navalha súbita de um vento repleto de traição irá destroçá-la. Não sei como ela se mantém no ar, toda a sua existência é uma apologia à impossibilidade. Apesar de tudo, a pequena borboleta resiste e não se rende, trazendo outro sentido para a ilogicidade do seu agir: nos menores corpos, podem existir os mais aguerridos espíritos.

Ao redor do meu prédio, existem outros. Pousadas nos beirais, vejo pombas espreitando a cidade, cuidando todo e qualquer movimento em busca de comida, qualquer comida. Ainda não viram a borboleta, mas, assim que a detectarem, cairão sobre ela com bicos e garras implacáveis. Se o vento não quebrar a sua vontade, se o cenário não a desanimar, se ela resistir, seu futuro será sombrio. Andar no meio de inimigos sempre é perigoso, o que me conduz a outra ideia possível: viver cercado de perigo é condição imprescindível para qualquer ser vivo respeitar a seiva que corre no seu espírito.

Eu sei, e todos sabem, que a vida da borboleta é curta. Ela dura algumas horas. O fato desta borboleta ter decidido passar um tempo da sua fugacidade junto à minha janela, lutando contra o vento, contra o frio, contra a ameaça das pombas, contra todo um sistema que deseja que ela morra, não pode ser uma coincidência. Precisa significar alguma coisa. E a resposta mais óbvia é outro possível sentido para uma parábola que não se concretizará: a borboleta busca a imortalidade improvável, busca sair do mundo real que a esmaga para se transmutar de novo, desta vez virando um texto, um local onde sua existência tão frágil ganhará concretude e nunca será questionada.

Talvez a borboleta esteja me usando para burlar a morte, e este é o sentido final de todas as histórias: viver para enganar o próprio fim.

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Quando a maldade não tem motivo

Estou lendo Boécio, “A Consolação da Filosofia”. Gosto imensamente da ideia original: Boécio está na prisão e marcam a sua morte para o dia seguinte. Durante a noite, a Filosofia resolve visitá-lo e os dois passam um educativo tempo juntos, conversando sobre Deus e sobre as grandes variáveis que rondam o conceito de divindade.

É um diálogo intenso e cheio de nuances deliciosas; às vezes a Filosofia questiona Deus enquanto Boécio O defende com paixão e, em outras, a fé do filósofo parece esmorecer, momento em que a Filosofia passa para a oposição. Como construção retórica, este movimento de gangorra nos argumentos é incrivelmente bem feito. Muitos detalhes podem ser ditos sobre o livro, mas uma coisa é certa: a última noite de Boécio foi bem agitada. A Filosofia não o deixou em paz.

Boécio

Boécio

A questão central do livro é: se Deus criou o mundo, como pode existir mal nele? Era de se esperar que, acaso Deus tenha sido o artífice da Criação, não teria criado o próprio inimigo. Boécio não atravessa a inevitável ponte: se Deus criou o mundo e colocou o mal nele, seria Deus uma expressão do Mal? Ou, pior ainda, se existe o Mal no nosso mundo, ele realmente teria sido criado por Deus, que combate o mal em todas as suas formas?

Assuntos bem espinhosos para abordar, em especial nos anos 500 depois de Cristo. Por este motivo, o filósofo pretende dar motivos para a decisão divina um tanto esquizofrênica (criar um mundo em que ninguém pode ser malvado e, ao mesmo tempo, criar o Mal que deve ser combatido). A Filosofia não parece muito convencida dos motivos de Deus, mas, ora bolas, no outro dia Boécio vai morrer, não custa nada agradá-lo um pouco.

Esta leitura me fez refletir sobre outra questão adjacente ao texto, que seria a maldade imanente ao ser humano.

Tenho pensado muito sobre isto, em especial nos últimos dias, quando atos de maldade gratuita subitamente afloraram, sem explicação alguma. No início, foram pequenas crueldades, mas elas foram se avolumando e, logo, tornaram proporções dantescas. Tão grande foi o volume que imaginei que acabaria afogado diante de tamanha virulência. Foi necessário um grande esforço para manter a integridade no meio desta maré de maledicências, de supostos equívocos, de amizades se desfazendo, de surpresas surgindo.

Todos gostam de imaginar que, se estão sofrendo uma maldade, algum motivo deve existir. Faz parte da moral judaica-cristã que ainda sobrevive no nosso imaginário: se estamos sendo punidos, é por algum motivo justo. Assim as pessoas justificam mortes, demissões do emprego, doenças inesperadas, amores perdidos. Se algo ruim aconteceu, eu fiz por merecer tal castigo. E se dedicam a esquadrinhar a própria vida, procurando um motivo, alguma lógica, alguma situação quid pro quo que justifique o mal, e só ficam felizes quando a encontram. Mais ou menos como se a vida andasse com uma tabuleta anotando vícios e virtudes para, em seguida, aplicar a Lei de Talião.

Mas o mal existe por si só, não precisa de justificativa. As pessoas são naturalmente maléficas. Não existe nada que dê mais prazer para o outro do que fazer alguma maldade, e temos que viver com esta falha de caráter. Ainda recorrendo à moral cristã que, apesar dos pesares, se imiscui em toda a nossa existência, até Jesus Cristo considera a batalha perdida. No momento em que afirma que devemos dar a outra face quando recebemos um tapa, ele praticamente admite que vamos receber, sim, um tapa repleto de maldade, tal ato é inevitável. O que faremos com a maldade é a verdadeira questão que cada um sabe como vai responder.

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É espantoso quando a maldade surge sem nenhum motivo de causa e efeito, quando aparece pela simples vontade de machucar o outro. É a mais pura das expressões do espírito humano: somos maus por que assim desejamos. Vejo pessoas que não ganham nada praticando maldades e, ainda assim, se entregam a elas com volúpia. Vejo uma crueldade mínima ir se aprofundando como o fio de água que abre o caminho para um rio, transformando-se em uma enxurrada. Todos os caminhos da maldade confluem contra o meu rochedo; vejo as ondas crescendo no horizonte, uma atrás da outra, e sei que elas quebrarão no meu espírito.

Estou vendo o mal no seu estágio mais selvagem e ele não me impressiona, pois vai passar, tudo passa; impressiona-me ver é o quanto as pessoas se fascinam pelo lado escuro, o quão profundo mergulham nas suas profundezas. Um dia elas acordarão do sono, como os habitantes de Hamerlin, e pensarão: “fui eu mesmo quem fiz isto?”. No entanto, não se arrependerão. Irão procurar um motivo que justifique a atitude, para conseguirem colocar a cabeça de novo no travesseiro.

Contudo, eu não vou esquecer. As cicatrizes se avolumam e são feridas abertas, sanguinolentas, que me impedem de ter paz enquanto queimarem. Aguardo a hora em que me tornarei o Mal alheio. Não tenho a grandeza do perdão. Não tenho também esta sombra que chamam de misericórdia. Homens que leem não conseguem ter tais vícios.

E agora respondo a Boécio: Deus não criou o mal, ninguém seria tão estúpido a ponto de brincar com a própria antítese. Ele surgiu do atrito da sociedade, das aparas e escarpas das nossas almas que deslizam umas contra as outras, gerando faíscas, terremotos, catástrofes. Nós somos os responsáveis pela nossa desgraça. Nós somos o Mal, e adoramos cada segundo disto.

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