Arquivo do mês: maio 2016

Texto publicado na revista eletrônica da Dublinense (24/05/2016): “De colete desabotoado e sem gravata”

Na minha coluna no Medium da Dublinense nessa semana, eu tentei explicar o motivo pelo qual estou permanentemente alienado do mundo ao redor. Não é uma conduta intencional, mas mera questão de tempo – e de sobrevivência da minha reflexão. Não consigo ler jornais e acompanhar programas de televisão quando os considero superficiais, mal redigidos e chatos. Portanto, prefiro dedicar meu tempo aos livros e à apreciação da arte. Além disso, o nível dos argumentos e ideias alheios é constrangedor. Melhor não me contaminar e ficar dentro da minha esfera de interesse.

Mas falei também das grandes lições de vida (e de literatura) que estou recebendo ao ler as cartas que Anton Tchekhov trocou com outros escritores.

Boa leitura!

 

De colete desabotoado e sem gravata

 

Acontece com relativa frequência, mais ou menos da mesma forma que ocorreu ontem. Alguém me perguntou, “viste o que aconteceu no Congresso?”, e se surpreendeu ao descobrir que eu não tinha a mínima ideia. Espantou-se ainda mais ao perceber o meu total desinteresse em saber o “algo importante” que acontecera no Congresso Nacional, e perguntou se estava me sentindo bem, estando tão alienado da realidade.

Admito que, nos últimos três anos, quase não tenho lido jornais, com exceção de alguns suplementos culturais. Também não assisto telejornais, novelas e nem mesmo partidas de futebol. Darwin tinha mais razão do que imaginava: a vida é uma eterna seleção natural, e estamos toda hora tomando decisões que podem ou não levar a uma evolução do pensamento. No meu caso, chegou um momento da vida em que precisei optar se priorizava a leitura das notícias do dia a dia (que são vastas e consomem um bocado de tempo) ou se leria todos os livros que sempre sonhei ler. Acabei optando pela segunda alternativa.

Em um momento inicial, as pessoas mais próximas preocuparam-se, achando que eu estava em processo de alienação do mundo. Elas possuíam uma dose de razão e, no princípio, foi complicado viver à margem da velocidade da informação. Contudo, com o passar dos meses, a situação se estabilizou. Os livros possuíam toda a informação desejada, era só encontrá-las. Escutava as notícias em algum destes desvãos do cotidiano (dentro de uma lotação, esperando em uma fila de banco, visitando alguém) e era o suficiente saber delas, sem necessitar maiores aprofundamentos feitos por uma pessoa desconhecida – em geral um repórter – dotado de pensamentos repletos de lugares comuns e platitudes. Era plenamente capaz de formar meu convencimento pessoal com base nos livros que lia. Não tenho vergonha alguma de admitir que, na última Copa do Mundo, estava distraído escrevendo enquanto as pessoas assistiam aos jogos, e só sabia dos resultados escutando eventuais foguetórios.

1 MkREvGj_5d7TW-aaEFJAeg

Não julgo quem toma a decisão de passar o dia lendo jornais ou analisando programas de televisão, em especial noticiários. Percebo nelas certa abnegação, um sacrifício voluntário: “estou fazendo isso por que alguém precisa fazer o trabalho sujo de separar o joio do trigo, desvincular a manipulação da verdade”. São como Ifigênias, inocentes sacrificados pela boa sorte do exército grego na guerra contra os malvados troianos – apesar de ninguém saber informar muito bem que é o Grande Inimigo da Ordem Mundial, ou seja, estamos numa guerra eterna contra alguém que sequer sabemos quem é. Inclusive imagino que, um dia, terão seus nomes listados em algum monumento de honra à pátria. É algo respeitável, apesar de eu não possuir tamanha vocação ao auto-sacrifício.

São escolhas que as pessoas tomaram com base naquilo que lhes importava, e quem sou eu para dizer se estou mais certo ou errado do que outro indivíduo? O fato da realidade mesquinha do cotidiano ser desinteressante para mim não me força a convencer outras pessoas a largarem de mão as notícias. Façam bom proveito delas, aliás. Seria interessante que não me julgassem, mas daí já é pedir demais. Estamos sobre constante julgamento, e nem Kafka imaginou tal probabilidade – o mundo não como um processo movido por motivos desconhecidos, mas como um julgamento eterno no qual todos são juízes, jurados e executores.

Na condição de alguém voluntariamente semi-excluído do mundo, um Pária do Universo nos moldes do Wakefield descrito por Nathaniel Hawthorne, posso dizer que tudo parece muito previsível. A cada semana um escândalo, em geral protagonizado por atores cujos nomes mudam, mas não o modus operandi. As mesmas questões irrespondíveis tentando ser respondidas com pensamentos eivados de clichês. Pessoas que analisam a situação por um prisma e acham-no ser o único correto. As mesmas velhas piadas, os mesmos jargões cansativos, a mesma bola entrando em redes idênticas. Se o preço de ficar dentro da sociedade da informação seja receber milhares de informações irrelevantes ou repetidas, quase não compensa. A literatura – e, por extensão, as artes – parecem muito mais vibrantes e questionadoras.

No momento, encontro-me entretido com a correspondência deixada por Anton Tchekhov. Quanto mais leio, mais me convenço de que ele nunca esteve falando de literatura, e sim sobre a vida. Vejo mais originalidade e utilidade em cartas de um escritor russo antigo do que em boa parte das manchetes dos jornais que se encontram nas bancas. As observações dele, longe de se limitarem à vida na Rússia do século XIX, podem ser aplicadas no nosso dia a dia.

Tinha noção de que Tchekhov era um dos maiores contistas que o mundo já teve, mas não imaginava que ele possuía o hábito de receber obras de outros escritores, lê-las e mandar comentários individuais com dicas, críticas (algumas corrosivas) e elogios.  Muitos conselhos que Tchekhov dá para escritores  são lições que podem ser aplicadas para suavizar as agruras da rotina diária a que as informações abusivas nos submetem.

Por exemplo, uma carta enviada para Dmitri Grigorovitch em outubro de 1888: “Ainda não tenho do mundo uma concepção política, religiosa e filosófica; mudo-a todo mês, e por isso devo limitar-me somente à descrição de como os meus protagonistas amam, casam-se, procriam, morrem e de como falam”. Na época da carta, Tchekhov tinha 28 anos e, distante de arroubos juvenis , de uma prosa panfletária ou da certeza de saber as respostas para todos os problemas humanos, não estava preparado para ter uma opinião única nos seus escritos. Preferia descrever a cena e deixar seus pensamentos vacilantes, permitindo-se mudar de ideia à medida que evoluía a sua reflexão. Para o nosso mundo, um lugar tão repleto de certezas que passa a impressão de que todos nasceram com o pensamento já indelevelmente formado, a humildade de admitir que não ter certeza de nada é um importante aprendizado.

Tchekhov1

Anton Tchekhov

Em um caderno de anotações deixado pelo escritor, um rompante: “Não me permita Deus julgar ou falar aquilo que não sei e não entendo!” Eis um conselho que Tchekhov dá para si mesmo, e é outra decisão sábia, em especial nos dias atuais, quando as pessoas parecem dominar todos os assuntos, desde táticas futebolísticas até a microdinâmica das relações do Oriente Médio. O pior nem é opinarem sobre o assunto, mas julgar os outros com base nas suas próprias visões de mundo. Não existe maneira de um julgamento ser justo quando não entendemos muito bem a outra pessoa e, para entender o outro, é necessário não só ouvi-lo, mas reconhecer o mundo através dos seus olhos.

Não é segredo para ninguém o quanto narrativas açucaradas tornaram-se quase uma obrigatoriedade em algumas notícias. Há um consenso de que, se for contada uma história comovente, o leitor ficará mais identificado com ela. No entanto, percebo o resultado contrário: quanto mais tentam fazer chorar, mais ridículo fica. Quem lança mão de tal estratagema para transmitir uma história qualquer é a típica pessoa que, ao ler um livro e se comover, achou que o escritor estava agindo com tal objetivo quando, na verdade, o escritor bom mesmo é aquele que deixa a história comover por si mesma.

Em carta mandada para Lídia Avílova em março de 1893, Tchekhov afirma “Você vem fazendo grandes progressos, mas permita-me repetir-lhe um conselho: escreva com mais frieza. Quanto mais a situação é sentimental, tanto mais frieza é necessária para escrever, e o resultado é mais sentimental. Não convém açucarar.” É uma lição válida para tudo na vida. Quanto maior a frieza na nossa análise do fato, quando maior a distância, menor a chance de deixarmos a emoção contaminar a verdade e distorcê-la. Pessoas passionais não tomam decisões corretas. Elas acabam cometendo erros, os quais, não raro, são irreparáveis.

A lição de Tchekhov para descrever mulheres e a natureza é engraçadíssima: “As mulheres devem ser descritas de modo a fazer com que o leitor sinta que você está de colete desabotoado e sem gravata; o mesmo se aplica à natureza. Conceda-se um pouco de liberdade”, ele diz para Aleksandr Lazariev em carta de 1888. Um leitor apressado pode imaginar que o contista russo prega o relaxamento na descrição de paisagens naturais e de mulheres, mas é o contrário: ele defende a liberdade, o direito de nos permitirmos algo. A única maneira de transmitir frescor e viço em uma narrativa é relaxando, e não contraindo. Não é uma boa forma também de vivermos uma relação, “de colete desabotoado e sem gravata”? Sem obrigações, sem exigências, sem cobranças?

Muitas outras lições saem das cartas de Anton Tchekhov, mas a mais decisiva é o credo que ele mesmo estabelece sobre o que é ser um bom artista e, por extensão, um bom ser humano. Em carta enviada em outubro de 1888 para Aleksei Plechtchéiev, o escritor afirma: “Não sou nem liberal, nem conservador, nem progressista, nem monge, nem indiferencista. Queria ser um artista livre, mais nada, e lamento Deus não ter me dado forças para isso. Detesto a mentira e a violência sob todos os aspectos […]. O farisaísmo, a estupidez e a arbitrariedade reinam não só nas casas dos comerciantes e nas cadeias; eu os vejo na ciência, na literatura, entre os jovens… Por isso, não nutro uma predileção especial nem pelos gendarmes, nem pelos açougueiros, nem pelos cientistas, nem pelos escritores, nem pelos jovens. Considero preconceitos marcas e rótulos. Meu santuário é o corpo humano, a saúde, a inteligência, o talento, a inspiração, o amor e a liberdade absoluta, a insubordinação à violência e à mentira, onde quer que essas duas últimas se manifestem. Aí está o programa que eu seguiria, se fosse um grande artista.”

Uma lição valiosa. Quem determina que precisamos ser algo fixo na vida? O ideal é libertarmos as nossas mentes de preconceitos, marcas e rótulos. Não precisamos gostar de ninguém, e muito menos odiar os outros. Quanto mais passo ao largo do império abusivo que é a necessidade quase imperativa de informação constante nos tempos atuais, mais percebo a liberdade do pensamento que decorre da minha própria apreensão da realidade, sempre através do filtro artístico.

A arte não dá informações, ela permite ressignificar o mundo e fazer as suas engrenagens terem algum sentido. Portanto, perdoem a minha relativa alienação das notícias. Apesar de não me sentir incluído nos vibrantes (?) assuntos que os meios de comunicação proporcionam em um bombardeio diário, estou me sentindo muito bem, com meu colete desabotoado e a gravata jogada ao léu.

Deixe um comentário

Arquivado em Anton Tchekóv, Dublinense, Generalidades, Informação, Literatura

Texto publicado na revista eletrônica da Dublinense (17/05/2016): “A liberdade de pensar é à prova de balas”

Na minha coluna dessa semana no Medium da Dublinense, falei sobre alguns tristes momentos da História do Mundo em que livros foram queimados. Comecei lembrando da queima de livros na Alemanha do Terceiro Reich (cuja data lembramos na semana passada) e passei pela Suméria, pela Babilônia, pela Grécia e pela Roma Antiga, mas também aproveitei para falar de uma edição da “Ilíada” com anotações de Aristóteles e que pertencia a Alexandre o Grande, de alguns dos grandes escritores e poetas que nunca poderemos ler, de Platão queimando livros e de Augusto separando os livros da Roma Antiga em duas pilhas distintas. Também falei da constatação de Tácito sobre a tentativa da destruição das obras de Cremúcio pelo imperador Tibério: os livros não respondem à ingerência do poder humano. Não interessa quantas vezes tentem queimar os livros, eles sempre dão um jeito de sobreviver.

Boa leitura!

 

A liberdade de pensar é à prova de fogo

Na semana passada, o mundo lembrou um dos eventos deploráveis do Terceiro Reich: a “Bücherverbrennung”, ou “queima de livros”, que aconteceu entre os dias 10 de maio e 23 de junho nas ruas, esquinas e praças da Alemanha nazista. Insuflados pelo governo, centenas de cidadãos destruíram livros subversivos, assim considerados aqueles que se afastavam da ideologia nazista ou indignos da pureza da raça alemã. Por todos os lados da Alemanha, fogueiras foram acesas e, dentro delas, obras escritas por Thomas Mann, Freud e outros autores encontraram a morte.

Não foi a primeira vez que livros morreram, assassinados por pessoas invejosas e temerosas da sua capacidade de convencimento. Diria mais: no início de qualquer mudança de poder, os primeiros a serem destruídos são os livros. Eis um paradoxo interessante, ainda mais para um país que lê tão pouco quanto o Brasil. Se livros são considerados como objetos de prazer, e a leitura é uma atividade que (dizem) se liga à diversão e ao ócio, por qual motivo os livros são atacados tão logo uma mudança para pior está prestes a começar? O que existe, em um livro, capaz de deixar os tiranos com tanto medo?

1 9WpsOmjl7fehbeyxTMdkmA

Não só os tiranos, mas qualquer pessoa. Há algum tempo, observo um estranho fenômeno. Quando estou carregando um livro, uma aura de invisibilidade paira sobre mim; as pessoas evitam inclusive me encarar, como se isso atrapalhasse algo importante. Existe uma veneração em torno do objeto “livro”, uma regra não-escrita afirmando que, quem estiver com ele, não pode ser incomodado. É o mesmo princípio, misto de sagrado e pervertido, que faz com que livros sejam tão assustadores, pois ninguém sabe qual espécie de arma pode estar no seu interior. Apesar de imaginarmos que são objetos inertes, e até mesmo como possuidores de uma função estética, eles são seres vivos – a extensão natural do braço e da mente de um homem, na feliz comparação de Borges – e estão à espreita.

O sonho de um livro é mudar o nosso convencimento, e isto assusta: a possibilidade da imitação de vida contida naquelas páginas sair da prisão onde foi confinada e entrar na nossa rotina, modificando-a de forma irreversível. Nunca saberemos qual é o livro capaz de nos atingir em cheio e, assim, caminhamos por bibliotecas e livrarias à procura daquele que nos daria sentido. Algumas pessoas têm tanta sorte que conseguem achá-lo em um lance de sorte, outras passam a vida procurando até que o livro salvador surge, mas a grande maioria dos seres humanos está fadada a nunca encontrá-lo. Nunca terão a satisfação de achar a história perfeita, com o narrador ideal e o personagem imprescindível – a trama que esperaram a vida inteira para ler. Temos esperança, e isso nunca nos deixa desistir. Dessa forma, enquanto não surge a obra certa, vamos nos divertindo com as erradas.

1 mbfKjffsj4Ha_9uC1wHYJQ

Quando se queima um livro, também se queima a possibilidade dele entrar na mente de alguma pessoa desconhecida e modificá-la. É algo instintivo, mas as pessoas sabem que os livros estão ali como uma provocação aos seus pensamentos já consolidados. Em “A tempestade”, de Shakespeare, quando Caliban propõe a Estéfano que capture Próspero, afirma: “Lembra-te primeiro de te apoderar dos seus livros, pois, sem eles, é um tolo como eu”. Aquilo que não entendemos precisa ser destruído. Sem a sabedoria dos livros, somos todos tolos, enfadonhamente humanos.

Quando as pessoas queimam livros, mostram o medo de que a sua ignorância seja exposta. O livro abre novos caminhos onde antes só existia mata densa, e isso é sempre algo assustador. Revela alternativas e maneiras diferentes de ver a situação. Não é à toa que precisa ser destruído, pois não podemos ficar longe dos grilhões que nós mesmos criamos.

A Alemanha nazista não foi o único lugar que queimou livros. É um crime que existe desde o início da Humanidade; antes mesmo de surgirem os livros, eles já eram queimados. As primeiras queimas de obras aconteceram na Suméria, entre os anos 4.100 a. C. e 3.300 a. C. Babilônia, Assíria, Egito, todos queimaram livros. A biblioteca de Assurbanipal, rei da Babilônia, o primeiro colecionador inveterado de livros da história mundial (um dos textos que ele deixou gravado em pedra foi um elogio à sua capacidade de juntar livros no mesmo lugar), levou quase 200 anos para ser integralmente destruída, por fogo, pelo vento, por ação do homem e pela chuva. A literatura nasceu junto com a sua destruição e, se hoje conhecemos muitos livros, é por que a história dos exemplares queimados e destruídos já se perdeu.

Entre as obras que perdemos, dificilmente alguma machuca mais do que a queima do exemplar da “Ilíada” compilado e com anotações realizadas por Aristóteles em pessoa. Além de tal detalhe, este volume reunia figuras e desenhos feitos pelos maiores pintores da época, sendo um dos primeiros livros ilustrados que existiu. A edição da “Ilíada” foi um presente para Alexandre, o Grande, acompanhando-o nas suas batalhas, e era tão estimada pelo rei que estava protegida dentro de uma caixa coberta de enfeites e de joias, outrora pertence a Dario, e que fora parte do tesouro deixado para trás pelo rei dos persas.

Mas também podemos colocar na lista de livros destruídos – e cujo conteúdo só nos resta sonhar – os nove livros de poemas de Safo de Lesbos, os cinco livros também de poemas de Corina de Tanagra (uma das mais importantes poetas gregas, vencedora de inúmeros certames, e que conseguiu emplacar uma série de vitórias sobre ninguém menos do que Píndaro), as 113 peças de Sófocles, as 64 tragédias de Eurípides, as obras completas de Agaton de Atenas (que escrevia compulsivamente, e era admirado por Platão e Sócrates), as 29 comédias de Aristófanes, as 101 comédias de Difilo de Sínope, os 500 livros de Crisipo de Solos, a obra completa de Duris de Samos (que, na sua época, era considerado o único escritor capaz de rivalizar com Homero), e muitos outros. Todas estas obras, e muitas outras, acabaram se perdendo em sucessivas fogueiras. A literatura é uma longa história de perdas irreparáveis.

Há evidências de que o próprio Platão queimou livros. Laércio, um dos biógrafos do filósofo, acusou-o de destruir obras de Demócrito, por inveja ou por medo de serem melhores do que as dele. Não só a História é contada pelos vitoriosos, a Literatura também é. Para cada livro que hoje lemos, centenas de outros morreram, desconhecidos. O mesmo Laércio conta que, quando era jovem, Platão queimou todos os poemas de Sócrates por entender que eles eram indignos do seu mestre. Na “República”, os poetas são mentirosos e loucos que devem ser expulsos da Cidade. Não é tão difícil de acreditar que, percebendo que as poesias de Sócrates estavam em contradição com a sua concepção de mundo, o filósofo tenha decidido eliminar este problema queimando os poemas indesejados. Inclusive Platão era um inveterado queimador de obras; suas cartas e escritos normalmente encerravam com a mesma expressão “Uma vez lido isto, queime”.

1 H84dt7tdqTiTAZkTJqrUiQ
Na Roma Antiga, ficou famosa a queima de livros efetuada pelo imperador Augusto, possivelmente uma das primeiras feita por motivos políticos. Depois de juntar todos os livros que podia, Augusto separou-os em duas pilhas: em uma delas, estavam os livros que ele considerava edificantes, de moral sólida e ensinamentos essenciais, assim como as obras que continham profecias benéficas para o futuro de Roma; na outra, estavam os livros vulgares, imorais, aqueles que estavam destinados ao elogio do ócio e do prazer, bem como as obras com profecias predizendo a queda de Roma. Augusto mandou queimar a pilha que não estava de acordo com os seus interesses, pois tais obras poderiam condicionar o destino das pessoas.

Não são poucas as pessoas que defendem a destruição realizada por Augusto, dizendo que, se os livros ruins e pessimistas ficassem em contato com o povo romano, este acabaria por se ajustar a eles e se acomodar, e que o Império Romano durou tantos anos graças a esta conduta do Imperador. É um argumento para justificar a queima de livros: a possibilidade deles mostrarem fatos e aspectos humanos que preferíamos não conhecer. É melhor ficar com a verdade ruim que possuímos ao invés de questionar aquilo que nos cerca. A arte – e a literatura em especial – tem o poder de nos afastar do comodismo do pensamento único.

Quanto mais perseguidos os livros, mais refulge a sua capacidade de resistir ao discurso daqueles que pretendem destruí-los. Também na Roma Antiga, ficou famoso o caso ocorrido com o senador Cremúcio Cordo, grande crítico do governo do imperador Tibério e responsável por vários livros satíricos. Tibério mandou queimar a produção literária do senador e, alguns meses depois, as obras continuavam vagando pela cidade. Era impossível acabar com os livros. Foi quando Tácito refletiu sobre a destruição dos livros que desagradavam ao poder:

“Quanto a seus livros, deliberaram os senadores que fossem queimados pelos edis. Entretanto, eles sobreviveram ocultos e passaram de mão em mão. Por isso, é lícito zombar da tolice dos que acreditam, com o poder de que dispõem hoje, ser capazes de sufocar até mesmo a lembrança nas gerações futuras. Ao contrário, sucede que o talento perseguido adquire ainda maior autoridade. E os reis estrangeiros, bem como quanto lhes seguiram o cruel exemplo, só o que conseguiram foi atrair a vergonha para si mesmos e a glória para os perseguidos.”

Tácito pega o caso de Cremúcio para exemplificar como os livros lidam com o poder, e como o verdadeiro poder pertence mesmo é às obras literárias, não aos governos. O historiador observa uma grande verdade: quanto mais se tenta destruir livros, mais se fala a respeito deles e mais as histórias lutam para sobreviver. A tentativa de destruir obras literárias só traz descrédito para os governantes. Foi o que aconteceu na “Bücherverbrennung” dos nazistas e em todas as outras destruições de livros. Ainda que algumas obras tenham morrido mesmo e nunca chegaremos a conhecê-las, as sobreviventes levam adiante a semente dos antepassados mortos. Os livros são todos irmãos entre si, e fazem parte da mesma tradição.

No epílogo de “Metamorfoses”, Ovídio falou que sonhava garantir a sobrevivência da sua obra “do fogo, da espada, da mão divina e do tempo”. Ele tinha noção do valor daquilo que escrevera. Por mais que tentem destruir livros e impedir o trânsito do livre pensamento que uma obra artística propicia, ainda assim eles encontram um jeito de sobreviver. Quando pensamos na queima de livros, não nos entristecemos propriamente pela perda dos livros, pois isso não aconteceu, e sim pelo obscurantismo das pessoas, capazes de pensar que, para uma verdade ser certa, a outra precisa ser eliminada.

É algo que está acontecendo cada vez mais no Brasil e no mundo: a ilusão de que o pensamento divergente pode ser tolhido, ridicularizado, cerceado, esmagado. A única maneira de vencer o diferente é desconstruí-lo com argumentos, não com força bruta, e a queima dos livros na Alemanha mostra isto. Hoje, quando lembramos destes fatos do passado, sentimos uma relativa vergonha por existirem pessoas capazes de pensarem assim – que destruindo livros ou exterminando opiniões alheias, a verdade pode mudar. Não vai acontecer. Assim como Tibério tentando destruir Cremúcio, não interessa o quão intensamente tentamos destruir o pensamento de quem pensa diferente de nós mesmos, isto só reforçará os seus argumentos contrários. A liberdade de pensar é à prova de fogo.

 

Texto originalmente publicado no link https://medium.com/colecao-dublinense/a-liberdade-de-pensar-%C3%A9-%C3%A0-prova-de-fogo-1167106380b1#.kxwdjdtf3

 

Deixe um comentário

Arquivado em Aristóteles, Cremúcio, Dublinense, Filosofia, Generalidades, Nazista, Platão, Queima de livros

Texto publicado no Literatortura (13/05/2016): “A última vez”

Na minha coluna dessa semana no Literatortura, tratei de como é importante nos concentrarmos no momento vivido ao invés de ficar tentando capturá-lo de qualquer forma. É algo que tenho observado: a quantidade de gente hipnotizada por aparelhos eletrônicos, incapazes de se concentrarem nas outras pessoas e de estabelecerem laços com os problemas humanos. Estou fazendo um movimento contrário, concentrando-me em mim e nas minhas vivências para manter o foco naquilo que realmente importa.

Boa leitura!

 

A última vez

door_to_water_castle_by_noxvurme-d5hve56

A vida é feita de uma sucessão incessante de atos e sensações que sentiremos sempre pela última vez. Ou, pelo menos, será a última vez até que aconteça de novo, mas, mesmo em tal eventualidade, nunca será igual à outra ocasião. Assim, estamos constantemente fazendo algo e nos despedindo daquilo que fizemos. O momento não vai voltar. Nunca voltará.

Hemingway afirmou que olhava cada experiência na sua rotina como se fosse a última vez, e estava certo. Encarar o mundo que nos cerca em uma atitude de eterna despedida é uma forma de valorizar o instante. Os artistas possuem a ilusão de segurar o segundo da inspiração através da arte. Podemos imaginar Rodin maravilhado vendo um beijo em um jardim e o transformando em mármore, assim como não é tão difícil pensar em Monet diante de um por do sol tremeluzente sobre as águas ainda tépidas de um oceano, pensando em como desejaria possuir para sempre o momento que se escapava entre seus dedos.

Em um de seus textos mais famosos, Barthes diz que a fotografia surgiu como uma forma de perpetuar o momentâneo e garantir que ele não mais fugisse. É o que vemos hoje, mas no seu extremo mais cruel: ao invés de viver a sensação e se embebedar dela, as pessoas parecem mais preocupadas em preservá-la para depois mostrar para os outros. É a espetacularização daquilo que não vivemos. Não faz muito tempo, em uma cortina lírica da OSPA – Orquestra Sinfônica de Porto Alegre, chamou atenção uma senhora que, sentada ao meu lado, estava mais preocupada em gravar pequenos trechos dos cantores para colocar no Facebook, com frases como “Curtindo muito a OSPA!” ou “Adorando o concerto!”. É um paradoxo, pois o que ela menos estava fazendo era curtir ou assistir ao concerto. Podia dizer para os outros, mas estava somente de corpo ali, e não de alma. É provável que, ao retornar para casa, a senhora tenha se sentido vazia ou pensado que a cortina lírica foi ruim. Ela não estava vivendo o instante, preferia estar o gravando para recordar algo que sequer vivera.

Devemos recapturar a magia do momento que iremos perder. Trazer de volta a ideia um tanto angustiada de Hemingway: estou vivendo algo pela última vez. Seja um beijo ou um soco, seja um elogio ou uma ofensa, será a última vez que o fato acontecerá naquelas condições. Depois daquele dia, será um outro fato, e devemos aproveitar ao máximo o momento que estamos vivendo.

O mundo está cheio de eventos bonitos e horríveis, e todos acontecem ao nosso redor. Passamos ao largo deles, pois optamos por não olhar, por não nos concentrarmos no instante. Temos medo do que iremos perder se não estivermos sempre olhando para todos os lados – mesmo que o custo seja não ter foco em nenhum. Muitas pessoas reclamam dos celulares e de como eles distraem durante encontros, mas estamos cercados de distrações, desde a música que toca de fundo em um restaurante até a televisão solitária a grunhir incompreensões junto à parede. Existe uma grande falta de concentração naquilo que realmente importa. Somos uma sociedade cada vez mais distraída e superficial, com uma atenção dispersa em tantos elementos que ainda bem que a respiração é algo feito sem pensar, senão metade das pessoas já teriam morrido por esquecer de encher os pulmões de ar.

Não foram poucas as vezes em que saí com pessoas tão distraídas que não escutaram ou entenderam quase nada do que falei. Para não entrar na esparrela de pensar e regurgitar ideias alheias – deixe-me pensar e imaginar sozinho, mundo, não preciso das ideias prontas de vocês – e para me concentrar nas riquezas que moram na minha memória e que raramente revisito, tenho feito um exercício imaginário: pensar nas coisas que fiz pela última vez, naquilo que nunca se repetirá. Algumas eu não sabia que eram a última vez, e existem outras que eu talvez ainda volte a fazer, mas a graça de uma lista é também a sua instabilidade.

Foi assim, mediante um esforço da memória em conjunto com a recapturação quase obsessiva do momento já transcorrido, que redescobri alguns tesouros esquecidos no meu interior. Não pensem que pretendo viver no passado, pois nem todas as recordações são boas, mas gosto de tê-lo como um guia para valorizar o presente, para saber que posso estar perdendo algo precioso por simples desatenção.

Por exemplo: a última vez em que escutei uma leiteira, estava em Tiradentes, cidade de Minas Gerais. No hotel quase sem hóspedes, o assobio constante era o único som preenchendo aquela manhã de verão. Nos tempos atuais, todas as pessoas aquecem o leite em fornos de microondas, é raro usar leiteira. É provável, inclusive, que algumas pessoas nem saibam para que serve uma leiteira, estes anacrônicos objetos que possuíam como única função esquentar leite. Elas são instáveis, temperamentais, desorientadas: é necessário vigiá-las e interpretar os seus silvos para que o leite não se precipite e caia sobre o fogão. Hoje percebo que leiteiras não são uma forma de aquecer o leite, e sim um exercício de paciência.

A última vez em que li um livro realmente bom, aqueles capazes de se encaixarem com perfeição na minha visão de mundo e de literatura, foi “Crônicas marcianas”, do Ray Bradbury. Quando terminei, ergui-me da cadeira e passei um longo tempo caminhando de um lado para o outro na minha casa, as imagens e palavras reverberando de forma ensandecida na cabeça. Ao me deitar naquele dia, eu estava realizado, e até hoje busco sentir o mesmo em cada livro que leio.

A última vez em que um índio antigo, de olhos cor de catuaba, deu-me um cachimbo para tragar, dizendo que isto iria abrir a minha mente, eu fumei e não senti nada. Foi decepcionante. No entanto, não tem manhã que eu não abra os olhos e pense que, talvez, esteja sonhando toda essa minha vida – e todos vocês – dentro de um delírio de ervas, e que hoje, sim, irei despertar e vocês nunca terão existido, e a vida recomeçará de verdade a partir do momento em que traguei o cachimbo.

A última vez em que ganhei uma corrida, eu estava no colégio e meus oponentes estavam se recuperando de uma violenta gastroenterite sofrida por conta da ingestão de salada de maionese estragada. Ainda assim, foi uma corrida dura, decidida nos últimos 150 metros. Foi bom cruzar a linha de chegada em primeiro lugar. Também foi a única vez em que venci algo assim, e esta sensação – a de ocupar o lugar mais alto do pódio – ninguém pode me tirar.

A última vez em que escrevi uma carta de amor para uma moça, deu tudo errado, e eu nunca mais escrevi cartas de amor.

A última vez em que estive diante do mar, eu não imaginava que seria a última. Pretendia retornar no outro dia, mas choveu. Fiquei o tempo inteiro reclamando da quantidade de pessoas na beira do mar, do preço da água mineral e do milho verde, do barulho saído de um carro próximo, ao invés de pensar naquilo que era importante: o calor do sol, o resfolegar das ondas, os barcos – misto de nuvens com sonho – que tinham chegado às terras míticas que moram na linha do horizonte.

A última vez em que beijei uma mulher, eu também não sabia que, dentro do beijo, com um travo amargo de dor que remetia ao gosto do batom, morava o fim. Se soubesse, talvez o beijo teria sido diferente, mas a verdade é que todo beijo tem que ser encarado como o último – até o dia em que for.

A última vez em que tomei um porre, não lembro nada do que aconteceu. Mas meus amigos lembram, e aquilo que eles contam é tão insano que só pode ser verdade. Existe algum tipo de misericórdia no esquecimento.

A última vez em que eu escutei uma cachoeira, não escutei mais nada ao redor, e ter a noção de que a cachoeira tinha aquele mesmo som ensurdecedor por anos e anos a fio, que nenhuma voz ou grito de animal ou piar podia se altear diante dela sem ser possuído pelo seu estrépito e incorporado à sua essência raivosa, foi algo que me fez repensar muitas coisas sobre a minha vida.

A última vez em que eu tive medo, estava começando esse texto. Antes da primeira palavra, sempre existe medo; antes da segunda, um pouco menos. Cada palavra que escrevo é uma luta solitária contra o medo de não ser capaz de transmitir a ideia. Sempre terei medo. Nunca saberei se tive sucesso, e assim virão outros e mais outros textos.

A última vez em que tive um sonho feliz, eu era dono de uma biblioteca com todos os livros que sempre desejei ler. Acordei me sentindo indecentemente feliz e, agora, cada livro que compro ou ganho, fico mais e mais próximo da noção de felicidade completa experimentada só em sonho.

A última vez em que vi a minha avó, eu estava jantando. Ela beijou-me a testa e disse “Boa noite, nos falamos amanhã”. Isto nunca aconteceu. E eu queria que tivesse acontecido.

A última vez em que me senti completo, inteiro, único, eu estava em uma beira de estrada do Uruguai, sentado na beira da estrada com um grupo de trabalhadores do campo. Era um dia quente, e o nosso ônibus estava esperando a chegada de um guincho. Sentado naquele lugar perdido, com um grupo de desconhecidos, em determinado momento notei que estavam todos em silêncio. Percebi que o céu não tinha um azul só, mas muitos; que o verde dos campos suaves não era um verde único, mas algo de inesperada agressividade, que gritava a sua existência para o mundo; que as nuvens iam de um extremo ao outro da abóbada, e elas não eram uma linha, mas várias camadas, umas sobre as outras, em um canibalismo repleto de selvageria silenciosa. Um trabalhador ofereceu-me sua cuia para tomar um mate e eu aceitei. Tive inesperada noção de que aquilo ali – o estar sozinho no Uruguai, ao lado de homens que não mais veria, todos irmanados ao redor de um mate e cercados por aquela natureza cheia de cores que só existem no mundo real – nunca mais se repetiria. Ao mesmo tempo em que fiquei triste por ter tal noção, também soube que estava no lugar certo e na hora certa para vivê-la com intensidade.

Quando comecei este exercício, tinha o receio de me chatear pensando em tudo o que já aconteceu e não mais se repetiria. No entanto, um inesperado orgulho se apossou de mim. Hoje posso dizer que eu vivi. Não vivi tudo o que outros já viveram – aos 33 anos, Alexandre o Grande já tinha conquistado meio planeta -, mas as experiências que tive foram reais e engrandecedoras, até mesmo as ruins. Também tive a sorte de encontrar excelentes pessoas, que me ajudaram a ver muitas coisas boas e péssimas a meu próprio respeito. Descobri mais a meu respeito pensando naquilo que já passou ao invés de escutar as opiniões distorcidas dos outros. Não precisei tirar fotos do concerto e colocar no Facebook para saber que ele estava bom; eu estava vivendo o concerto por não saber – e no caso da OSPA é uma realidade – se ainda estarei vivo em uma próxima cortina lírica.

Talvez a grandiosidade da vida seja saber que estamos sempre vivendo o último momento de cada sensação, de cada medo, de cada alegria. Até o dia em que for mesmo o último. Contudo, até lá, muitas últimas vezes ainda irão nos esperar.

Texto originalmente publicado no link http://literatortura.com/2016/05/a-ultima-vez/

1 comentário

Arquivado em Irrepetibilidade, Literatortura, Momentos

Texto publicado na revista eletrônica da Dublinense (10/05/2016): “Como sobreviver ao apogeu da era do clichê”

Na minha coluna no Medium da Dublinense dessa semana, falei de um dos maiores males da atualidade: a disseminação acelerada de clichês. As pessoas desaprenderam a pensar com as próprias palavras, e a imaginar livremente, e isto faz com que todo mundo fique repassando as mesmas ideias mastigadas.

Mas também falei das insuportáveis analogias entre a situação política vivenciada pelo Brasil atual com “House of Cards” e “Game of Thrones”; falei de Henfil e de dobermans pretos; falei de como manter a concentração; falei sobre Vermeer pintando os quadros na sua sala de estar e de Napoleão e Júlio César dormindo no meio das batalhas; contei a história de como Robert Louis Stevenson encontrou uma maneira de terminar “A ilha do tesouro” e falei de Ihara Saikaku, “o poeta dos 20 mil”, que escreveu 23.500 haicais no espaço de vida de uma mosca.

Boa leitura!

 

Como sobreviver ao apogeu da era do clichê

 

Uma das consequências mais nefastas do atual momento de instabilidade política que o Brasil atravessa é a proliferação indiscriminada de clichês. Eles nunca foram tão rápidos – e tão devastadores. Alguém tem uma ideia criativa, coloca no Twitter ou no Facebook e, minutos depois, o seu pensamento está correndo o mundo, sendo apropriado por outras pessoas não tão inovadoras, tendo imagens acrescentadas, até exaurir por completo a criatividade inicial. Estamos vivendo no apogeu da era do clichê: ele nunca esteve tão presente como nos tempos atuais.

1 3PFnLNwgRNtpdaGi68cuiA

Não sei quem foi a primeira pessoa que comparou a situação política do Brasil aos seriados “House of Cards”, da NETFLIX, e “Game of Thrones”, da HBO. O fato é que, em algumas horas, tantas pessoas tinham feito a mesma ligação que, longe de ser algo engraçado, passou a ser um monumento à preguiça de pensar livremente. Pois isto é ser clichê: todos nós temos a capacidade de ser criativos, mas preferimos usar a ideia já gasta de outra para não precisarmos criar as nossas.

A propósito, eis outra magia dos clichês atuais: as pessoas normalmente criam referências e ideias novas com base em seriados de televisão, frases de programas de auditório e filmes do cinema. A literatura ocupa uma posição subalterna na formação dos novos clichês. Raros são os literários, e são tão intrincados que poucos são capazes de associá-los aos livros, pois não o leram. Na era da rapidez da informação, vivemos a velocidade até na hora de formular ideias gastas.

Alguns anos atrás, li um texto de Henfil com o qual tive identificação instantânea e recordo com certa frequência. A começar pelo seu título, “A inspiração é um cachorro preto, um doberman bem aí atrás de você”. Para mim, funciona exatamente dessa forma: a inspiração está sempre me caçando, em uma correria insana na qual tenta morder meus calcanhares, e escrevo sob a crescente pressão de outras histórias que persistem em tomar o lugar daquela que estou redigindo. Se parar de correr, a inspiração me engole, me mastiga e cospe longe, então só tenho a opção de não parar.

Henfil aborda assim a imagem que associou ao ato criativo: “Foi aí que eu intuí para eles que há duas formas de você criar. Uma delas é que você só cria com um cachorro preto atrás. O que significa o cachorro preto? É a urgência, é a necessidade concreta, o prazo estourando. É aquele negócio assim. Você está doente, com o joelho arrebentado, mas vem um cachorro preto, um doberman atrás de você. E aí você corre e, se preciso, até pula n’água sem saber nadar. Se for para subir num poste, você sobe. A urgência, a necessidade, é a mãe da criação. Isso tem a ver com uma frase do técnico de futebol Gentil Cardoso aos seus jogadores: ‘eu quero que vocês vão na bola como num prato de comida’. A necessidade é um negócio essencial Eu fiz alguns exercícios em relação a isso. Eu pegava, de repente, e dizia: vamos desenhar agora, tem dois minutos para acabar. Então, as coisas saíam e eles até se assustavam. Mas, claro que saíam: eu soltava o cachorro preto!”

O “doberman” não precisa ser um prazo estourando ou uma situação urgente. A própria criação possui métodos de nos pressionar para que venha à tona. A obra artística é uma necessidade por si só, não uma possibilidade. Quando o artista se expressa, ele cria um prazo particular e um tempo todo seu. A necessidade da obra de arte não segue os ditames humanos e, assim, o artista se esquece de comer, de dormir, de descansar, envolvido por uma pressão que só acabará quando colocar o último ponto na obra. Não deixa de ser uma pena que as pessoas não se comportem assim, com essa noção inata de necessidade, para os fatos da sua vida, que ficam rolando de um lado para o outro sem serem resolvidos de vez.

Vejo muita gente reclamando de bloqueios criativos, seja para escrever livros, seja para redigir teses, dissertações, ensaios, trabalhos acadêmicos. Para todos, a minha resposta é sempre a mesma: um bloqueio criativo só existe se você acreditar nele. Se tratarmos o texto como algo que deve ser conquistado a cada vez que escrevemos uma página, não temos tempo para nos dar ao luxo de vermos o bloqueio. A única alternativa é seguir em frente.

Existe uma noção romântica de que os textos surgem como uma espécie de carícia dada pelo autor na página, um enlevo espiritual. Mentira. Textos existem para serem subjugados, colocados de joelhos e implorarem por perdão. Um texto deve ser vencido, e isto acontecerá a duras penas, com perda de sangue, gritos e cicatrizes morais: na escritura, não existe a alternativa de chegar a um consenso em que as duas partes vão sair felizes. Ao contrário, os dois lados sairão insatisfeitos. O texto sai gritando em silêncio do corpo do autor, que, por sua vez, sente-se exausto ao trazer a luz a sua obra, sentindo-se como Zeus quando removeu Palas Atena da sua cabeça, levando uma bela marretada de Hefesto.

Nenhum escritor teve tamanha noção de que existia um cachorro preto correndo atrás de si do que Robert Louis Stevenson. Afinal, não bastando sofrer com o texto, ele próprio criou o doberman que iria persegui-lo. Em 1880, Stevenson viajou para Braemar, uma aldeia localizada na Escócia. Acossado por uma tosse incessante e repleta de sangue, o escritor ficou preso na cabana e, enquanto não melhorava, dedicou-se a fazer o desenho de um mapa de tesouro com o seu enteado, Samuel Lloyd Osbourne, de 12 anos. O mapa ganhou detalhes cada vez mais interessantes e, em algum momento, Stevenson sentiu a necessidade de escrever aquela história para não perdê-la, dando início ao romance que seria chamado de “A ilha do tesouro”.

1 hAwRdR5gbJGUtkTysA_tig

O mapa de “A ilha do tesouro”, de Stevenson

Durante um largo período, o escritor dedicou-se à história com afinco, preenchendo páginas e páginas, criando as figuras de Jim Hawkins e Long John Silver. No entanto, quando chegou ao capítulo 16, a história sumiu. Acabara a inspiração. Ele se sentia incapaz de escrevê-la, e isto o levou a fazer uma auto-análise: “Eu tinha 31 anos; era um chefe de família; estava mal de saúde; e ainda não havia encontrado o meu caminho.”

Levou um ano para Stevenson retomar a história, e tudo graças a um “doberman” que o próprio autor criou. Ele enviou o livro para uma publicação infantil chamada “Young Folks”, que começou a publicá-lo em fascículos. Imaginou que a história estava fadada ao esquecimento, mas fenômeno contrário aconteceu: os leitores adoraram, esperando os capítulos com ansiedade. O fã mais ardoroso de “A ilha do tesouro” era a mesma pessoa que mudara o seu título original (“O cozinheiro do mar”): o editor de “Young Folks”, James Henderson. Quando soube que Robert Louis Stevenson não acabara o livro e estava bloqueado, um Henderson em pânico ordenou que ele resolvesse o assunto, e o quanto antes.

Com esta pressão na cabeça, o escritor viajou para Davos, na Suiça, e tomou uma decisão crucial: não iria mais se preocupar com o livro. Ia aproveitar o descanso para colocar a leitura em dia. Quando estava prestes a desistir, a criatividade ressurgiu, e com força. Passou a escrever um capítulo por dia, em um ritmo delirante, até que concluiu a obra, espantando mais a si mesmo do que ao editor.

Para Stevenson, foi necessário criar um motivo forte para que terminar o livro. A imaginação não foi capaz de dar conta da história e, assim, somente a urgência e o desespero seriam os combustíveis necessários para terminá-la. Muitas pessoas costumam deixar os seus planos de vida inacabados. A tática do autor escocês de criar as condições necessárias para fazer a criatividade aflorar demonstra que, às vezes, se algo não está funcionando da forma que desejamos, o melhor é criar uma forma de ficarmos com medo, pois, citando Máximo Gorki, “o medo é tão saudável para o espírito quanto um banho para o corpo”.

No início de “A inspiração é um cachorro preto, um doberman bem aí atrás de você”, Henfil fala que precisamos desmistificar a ideia de que a criatividade é algo divino, “um espírito santo que baixa”, e afirma que a criatividade é uma questão de concentração. “Que sem concentração ela não acontece, e esta concentração às vezes é dolorosa, demora muito tempo e dá um trabalho danado.” É uma lição importante para qualquer coisa que se faça na vida: ser capaz de manter a concentração enquanto todo o resto tenta nos distrair. O pintor holandês Johannes Vermeer pintou todas as suas obras na sala da casa, cercado pela mulher, pela sogra e pelos 15 filhos (quatro morreram de forma precoce). Nunca se soube de Vermeer reclamando que não conseguia dosar as cores de “Moça de brinco de pérola” por que a balbúrdia das crianças estava insuportável. Napoleão e Julio César tinham o hábito de tirar gostosas sonecas em meio a batalhas sangrentas, e nenhum soldado relatou que eles reclamavam do barulho atrapalhando o seu sono. Manter a concentração para criar é o verdadeiro desafio, ainda mais em tempos modernos, onde tudo convida para a distração e para o prazer.

A concentração necessita ser exaustivamente burilada. Conseguir mantê-la é bem complicado, pois some como se fosse fumaça em meio a um vendaval. A concentração é um exercício diário e paciente, no qual às vezes perdemos e, em outras, ganhamos. Depois de ser afiada até a perfeição, qualquer pessoa será capaz de permanecer concentrada mesmo que o mundo esteja desmoronando ao seu redor.

Henfil trata também da informação: o artista necessita sempre estar informado antes de fazer a sua obra. O segredo não seria colocar toda a informação na obra, mas dissecá-la, pegar os seus elementos essenciais, e só então criar algo novo. Uma grande obra se forma quando o artista é capaz de pegar elementos díspares e recombiná-los com outra lógica. Sobre isto, Henfil menciona “Você pode olhar as coisas e não ver. É a informação que faz com que você veja as coisas”.

Quando falo dos insuportáveis clichês que preenchem o nosso cotidiano de hoje – e não se iludam, boa parte dos clichês saem justamente dos jornalistas que deveriam combatê-los com galhardia exemplar -, refiro-me à incapacidade geral de articular novas informações com base em elementos existentes. Pegar a ideia de alguém e apossar-se dela de forma displicente, fazendo de conta que é sua, pode até conseguir algumas risadas de quem pensa que o outro é original, mas ele está enganando a si mesmo. É melhor criar e errar sozinho do que ficar repetindo piadas alheias em troca de uma popularidade efêmera, pois a pessoa que não tem medo de criar acabará um dia acertando, enquanto que o repetidor de ideias nunca será mais do que uma caixa de ressonância da criatividade alheia. Qualquer um pode ser criativo, em especial se não tiver preguiça de criar.

Que o diga Ihara Saikaku, escritor japonês que viveu entre 1642 e 1693. Apenas alguns dos seus romances chegaram até nós, notabilizando-se pela descrição dos comerciantes da sua época, e por isto ele é mais conhecido como romancista. No entanto, antes de se dedicar aos romances, Saikaku foi um poeta famoso. Como integrante da Escola Danrin, Saikaku também se opunha ao mais famoso escritor de haicais da época, Matsunaga Teitoku. Eram duas maneiras diferentes de ver a literatura: enquanto Teitoku prestava atenção no lento desbastar das sílabas e imagens poéticas, o outro buscava a espontaneidade e o improviso.

1 PO1CMoF9DUm2bYBhsUbcPQ

Obra de Ihara Saikaku

Em 1671, Saikaku escreveu 1.600 haicais no espaço de um dia e uma noite, feito que impressionou a sociedade literária japonesa da época. Em 1680, em novo recorde, escreveu 4.000 haicais em 24 horas. Contudo, foi em 1684 que Saikaku ganhou o apelido de “O poeta dos 20 mil”, quando escreveu extraordinários 23.500 haicais no espaço de vida de uma mosca, ou seja, algumas horas, o que representou 17 conjuntos de 17 sílabas por minuto.

Não se pode negar a extraordinária criatividade e concentração de Ihara Saikaku, capaz de escrever milhares de poemas em uma questão de horas. Muitos deles eram considerados incompreensíveis – a utilização do improviso traz consigo este dilema, nem todos os haicais funcionavam – e, por este motivo, o poeta japonês recebeu dos seus adversários literários um epíteto que o relacionava com extravagância e hermetismo: “Saikaku, o holandês”.

Os clichês que infestam o nosso dia a dia são desgastantes, mas também servem como lição. Enquanto buscarmos resolver as nossas aflições usando fórmulas batidas e receitas prontas, seremos incapazes de evoluir, e isto vale tanto para a literatura quanto para a arte, para a política, para a economia… É quando todos pensam da mesma forma que devemos olhar para o lado e pensar diferente, pois é ali que o doberman está nos esperando, ansioso para nos colocar para correr. A única maneira que existe de sermos criativos é pensar fora das ideias de todo mundo. Não sair por aí distribuindo os pensamentos alheios e tentar pensar de forma livre ainda é a melhor – e mais deliciosamente surpreendente – opção.

Texto originalmente publicado no link https://medium.com/colecao-dublinense/como-sobreviver-ao-apogeu-da-era-do-clich%C3%AA-a0d77c1a9c36#.k8mu24dvf

 

 

2 Comentários

Arquivado em Bloqueio Criativo, Clichê, Henfil, Ihara Saikaku, Literatura, Robert Louis Stevenson

Texto publicado no Literatortura (05/05/2016): “Para quê escrever ficção?”

Na minha coluna dessa semana para o Literatortura, tentei responder a uma das mais ancestrais questões: existe algum motivo para escrevermos ficção? Uma das definições possíveis para o homem, algo que distinguiria o humano do animal, seria a capacidade de criar ficções. Mas, já estamos lotados de histórias, nossas e dos outros. Por qual motivo inventamos outras histórias?

No meio, a resposta. Contamos histórias para aguentar a vida.

Mas também falei de minha experiência com mexilhões, do falso mexilhão de estimação da Margaret Atwood e de “Attracta”, um conto incrível de William Trevor, sobre a mudança que uma história acabou efetuando sobre a visão de mundo de uma mulher.

Boa leitura!

 

Para quê escrever ficção?

Screen-Shot-2015-12-10-at-9.39.24-AM-1024x399

Se existe uma verdade no mundo é a máxima da conservação da matéria de Lavoisier: na Natureza, nada se cria, nada se perde, tudo se transforma.

Podemos amplificar a ideia de Lavoisier e transportá-la para literatura, pois nenhuma história é criada ou perdida, ela se transforma. Às vezes vira livros, em outras ocasiões vira piada e pode chegar até mesmo a nunca existir, permanecendo escondida no fundo da recordação. Sei de escritores que registram em papéis, blocos ou cadernos qualquer ideia que lhes surge, outros que gravam seus pensamentos e até aqueles que não anotam, confiantes de que a boa imaginação sempre dará um jeito de ressurgir em meio aos escombros do cotidiano. São métodos diferentes que possuímos para tentar segurar a história antes que ela desvaneça diante da mais breve brisa.

A história nunca morre, está sempre em andamento. Não recordamos propriamente das pessoas, mas das memórias que elas nos evocam, das pegadas que deixaram nas nossas vivências. Somos seres que andam por aí derramando histórias a cada passo que damos, e todas se juntam na Grande Narrativa Universal, na qual fazemos parte relutante ao lado de Nero, de Hitler, de Napoleão e de bilhões de outras narrativas. Isto nos força a pensar: por qual motivo precisamos contar histórias que não acontecem conosco? A base da ficção é imaginar cenários inexistentes na nossa realidade objetiva, mas já temos histórias próprias suficientes para preencher algumas vidas. Não seria melhor falar das nossas ao invés de criar outras narrativas?

Podemos aplicar Lavoisier também com sentimentos. Eles nunca deixam de existir – transformam-se em outra coisa, seja indiferença, amizade ou até mesmo o compartilhamento desajeitado de memórias em comum. Algum tempo atrás, em uma troca de recordações com uma ex-namorada de muitos anos do passado, mencionei a ocasião em que fui apresentado ao pai dela. A moça não lembrava, então contei: tínhamos ido a um restaurante na beira da Lagoa, em Florianópolis. Como bom tímido, estava em silêncio total, receando falar alguma impropriedade perto daquele homem com olhar tão ameaçador. No momento de escolhermos os pratos, o “sogro” disse que sabia o que ia pedir para nós dois, “para ver se você é homem de verdade, ‘gaúcho’.” Pediu um prato com mexilhões: em uma panela aquecida, cheia de um molho que suspeito ser vinagrete, o garçom colocava mexilhões ainda vivos, que fritavam aos pulos. Quando paravam de se debater (talvez mortos), eram colhidos da panela, ainda quentes, e devorados.

Não era uma experiência muito agradável de se ver, ainda menos de estar nela. Era um teste e, apesar de não saber o que estava em dúvida ali, tive uma reflexão pragmática: o prato com mexilhões vivos era um dos mais caros do restaurante. Não seria lógico imaginar que eles pretendiam matar os seus clientes ou deixá-los enjoados cobrando um preço tão elevado. Também não podia retroceder, encontrar uma alternativa e menos ainda repudiar a “oferta”, pois isso me diminuiria aos olhos do homem que tentava ver se “eu era digno de sua filha” (por mais defasado que tal conceito seja). A única alternativa viável era me entregar ao momento e, assim, sem titubear, ao lado do pai da minha ex-namorada, comemos os mexilhões saltitantes e em agonia.

Quando terminei de contar a história que tínhamos vivido em conjunto, ela riu e disse que lembrava de tudo, mas não daquela forma. A situação não fora engraçada ou cômica. Ao contrário, fora um filme de terror. A moça ficara com raiva do pai por me colocar em tal situação, e brava comigo por eu aceitar o jogo proposto. Achava que eu deveria confrontar o homem, manifestando meu desagrado, pois era ela quem precisava se impressionar comigo, não o seu pai. No entanto, a forma com que eu contara era tão divertida que, apesar da crueldade da cena e das suas múltiplas implicações, ela preferia lembrar o passado conforme a minha narrativa, e não da maneira que o vivenciara.

Contar histórias não é propriamente questão de talento, mas uma maneira de analisar o mundo através de um ângulo diferenciado. Quando contei a história que outra pessoa já conhecia, mudando somente o enfoque, ela deixou de ser aquilo que foi e assumiu um inédito caráter de lição de vida. Não era mais a história de “o dia em que comi mexilhões vivos”, mas transformou-se em “o dia em que tive a minha masculinidade colocada à prova e como reagi ao teste”. Era quase uma “jornada do herói” às avessas.

Tinha inclusive a dúvida existencial muito importante com que me deparei: vale a pena sacrificar aquilo que somos e pensamos por alguém? Consegui isto por meio da mudança do enfoque. No entanto, tenho certeza também de que poderia colocar o tom que melhor desejasse aos meus propósitos, podia transformar os fatos vivenciados em uma comédia quase pastelão ou em uma tragédia épica. Bastava querer.

Eis um motivo interessante para escrevermos histórias: a realidade é chata demais com a sua visão cartesiana do mundo. Ficcionalizar – ou recontar – a realidade é o que nos permite aguentá-la.

Recordo a história do mexilhão de Margaret Atwood. Pode parecer perseguição minha aos inocentes mexilhões, mas não é. Uma história corrente entre os biógrafos de Margaret Atwood era que, quando ela estudava em Harvard, tinha, sobre a sua mesa no quarto, um vidro com um mexilhão. Quando os colegas lhe perguntaram o motivo de possuir tal molusco, Margaret teria respondido “Ele é muito leal.”

Muitos anos depois desta história correr o mundo, um jornalista voltou a perguntar para a escritora sobre o famoso mexilhão. Margaret suspirou e depois respondeu: “Antes de mais nada, você não consegue manter um mexilhão num vidro em sua mesa por mais de 24 horas, ele morre. Segundo, nunca tive um mexilhão num vidro sobre minha mesa. Terceiro, a história era um tipo de variação de uma história real que aconteceu com minha cunhada, não comigo. Ela tinha um caranguejo-eremita de estimação, sobre o qual observava: ‘Ele é muito leal’. Mas chegou a um triste fim, porque o puseram num aquário em cima da TV, e ficou quente demais.”

A história trágica do caranguejo-eremita da cunhada de Margaret percorreu estranhos caminhos até se tornar uma lenda incômoda na vida da escritora. Não conseguimos seguir o rastro da narrativa, como ela saiu da vida de uma pessoa, mudou de molusco e de propósito e aderiu às estranhezas que se esperam de um escritor, mas não resta dúvida de que é uma história saborosa, mesmo inverídica.

Ainda assim, é possível imaginar que, em algum dia, cercada por um grupo de pessoas, Margaret Atwood contou a história do caranguejo-eremita de sua cunhada. Contou com tamanha vivacidade que os ouvintes, não bastando gostarem da história, acabaram se apropriando dela, aumentando-a, cortando adereços desagradáveis, mudando os personagens e acrescentando detalhes, até que a ficção substituiu a realidade.

Eis a magia da boa história: não pertence ao seu autor, mas às pessoas, que interferem com a trama até o momento em que a desfiguram por completo e ela vira outra narrativa. É possível que contamos histórias uns para os outros não só para revogar a realidade que nos cerca com as suas regras inflexíveis, mas para que nossas narrativas se entrelacem com sonhos e histórias de outras pessoas, em um canibalismo incessante, até que surja algo muito mais interessante do que a verdade. Entre a ficção e a realidade, publique-se a ficção. É ela quem corrige o mundo e o torna um lugar palatável para coexistirmos, e é saudável imaginar as histórias como o grande lubrificante que permite a existência da máquina da Humanidade sem degringolar de vez.

Afirma o ditado popular que quem conta um conto, aumenta um ponto. Não é algo ruim: modificando as histórias, podemos mudar as mentalidades de quem nos escuta e, talvez, até mesmo influenciá-los.

Na semana passada, li um conto de um escritor irlandês quase desconhecido no Brasil, William Trevor. A história me foi passada com um comentário que resume as suas intenções: “um libelo contra o terrorismo”. O resumo vale como uma forma de limitar a história e condicionar a leitura, então prefiro ler sem tais amarras.

O conto se chama “Attracta”, e faz parte do livro “Lovers of their times”, de 1978. Attracta é uma professora de 60 anos, solteira, e que mora na casa deixada de herança por uma tia distante. É uma mulher simples, sem grandes aspirações na vida, com dias que se limitam a mimetizar o dia anterior.

Certa manhã, ao ler o jornal, Attracta se descobre atraída pela história de uma suicida de Belfast, Penelope Vade. O marido de referida moça, um militar inglês, fora decapitado pelo IRA, e a cabeça dele tinha sido enviada para a esposa dentro de uma lata de biscoitos. Penelope ficou tão mexida pela situação que, desejando fazer algo como resposta, viajou para Belfast e se uniu ao Movimento das Mulheres pela Paz. O problema é que os jornais noticiaram a sua triste história, atraindo atenção. A casa onde a moça estava foi invadida por sete combatentes do IRA, que a estupraram. Em seguida, Penelope Vade cometeu suicídio.

Attracta leu a história da suicida e não conseguiu esquecê-la. Passava o dia todo pensando no que a moça enfrentara. Contou para os vizinhos e para os amigos, que não entendiam o motivo da professora solteirona estar tão abalada por uma história que, apesar da violência, era comum naqueles tempos de guerra. Ela passou a se identificar com o drama de Penelope: os pais de Attracta tinham morrido em um conflito paralelo ao combate do exército inglês contra o IRA, em algo que foi considerado um “erro”. A professora pensava na sua vida, tão distante dos conflitos, e refletia sobre os assuntos que realmente devia ensinar para as crianças.

Em uma manhã de aula, Attracta não resistiu e leu a notícia do jornal para os seus alunos. Ao mesmo tempo, intercalou com trechos da sua própria vida. Deparou-se com a indiferença: as crianças não lhe entenderam. Uma delas afirmou: “Todo dia tem a mesma coisa no jornal”. Era a banalização da violência. A professora insiste. Deixa de lado o jornal e conta a mesma história, inserindo detalhes mais significativos – a quantidade de tiros efetuados contra o marido da moça, o jeito que o pescoço dele tinha sido cortado – enquanto que, de forma simultânea, relata situações vivenciadas com os pais, tornando-as cada vez mais palpáveis. Diante do aluno cético, ela acrescenta que as duas histórias são de horror, mas possuem finais diferentes, pois Attracta vive e a moça se suicidou.

Tentando fazer com que as crianças sintam a mesma perplexidade que a motiva, a professora volta a contar a história, preenchendo-a de detalhes pessoais (alguns inventados). Não sabe se consegue tocá-los. Assim, Attracta lança mão de um jogo narrativo arriscado e, por segundos, transforma-se na própria Penelope Vade, narrando os últimos momentos dela em primeira pessoa, como se estivesse vivenciando o drama. Após descrever o estupro pela ótica da vítima, Attracta pergunta-se: “Será que algum dia os homens que se vingaram nela serão criadores de abelhas e periquitos? Será que vão trabalhar em lojas e ser gentis com os cegos e com os surdos? Irão cuidar dos jardins de suas casas à noite e serem bons pais?”. Diante do silêncio da plateia, a professora volta a si e declara: “Só espero que Penelope saiba que há estranhos em algum lugar lamentando a sua morte”.

O sinal toca e as crianças saem correndo para o recreio. Na janela, Attracta as contempla enquanto estão brincando no pátio. Está em dúvida: será que a história tão arduamente contada adiantou de algo? Será que conseguiu fazê-los entender? Apesar das incertezas, mantém a ilusão de que a história mudou algo do mundo daquelas crianças: “O lampejo de esperança que ela ofereceu foi breve demais para surtir efeito naquelas mentes, irrelevante se comparado ao terror que lhes parecia tão familiar, tão parte da vida delas. Mas ela não podia deixar de acreditar que era importante que os monstros não continuassem a ser monstros para sempre.”

Uma semana depois, Attracta é chamada até a sala do diretor da escola, que lhe oferece um “gentil chá” e a demite. Em um momento final de fragilidade, a professora declara: “Todos os dias eu deveria ter contado sobre a coisa incrível que aconteceu nesta cidade. É importante que todos os outros saibam que Penelope Vade morreu em desespero, sem ter mais nenhuma fé na vida humana”. Contar o que aconteceu, mais do que uma forma de não esquecer o drama de Penelope, é dizer que sua história continuará existindo no mundo. Escrever ficção pode ser uma das formas que os seres humanos encontraram de fazer os nossos dramas atravessarem o tempo e o espaço para serem recontados.

Ao ler o drama da suicida de Belfast, Attracta pensou em si mesma, e é algo que somente a ficção permite: o reconhecimento do drama alheio como se fosse o seu próprio. As histórias de ambas se sobrepuseram de tal maneira que, para a professora, tornaram-se a mesma pessoa. Quando falou com os alunos, Attracta usou vários tipos de abordagem, tentando fazer com que a história repercutisse e ficasse no interior deles, semelhante a uma escritora ávida para atingir seu público. Entretanto, o objetivo mais nobre era não deixar Penelope Vade ser esquecida. Dar a voz para quem deixou de falar. Quando contamos uma história, desejamos que alguma coisa dela permaneça dentro do ouvinte – e seja capaz de alterar um pouco da sua visão do mundo. Assim, a ficção não existe por que podemos fazer, mas por que necessitamos dela para continuar dando esperança para os seres humanos.

Texto originalmente publicado no link http://literatortura.com/2016/05/para-que-escrever-ficcao/

1 comentário

Arquivado em Attracta, ficção, Generalidades, Literatortura, Margaret Atwood, Mexilhão, William Trevor

Texto publicado na revista eletrônica da Dublinense (03/05/2016): “A vida, essa baleia branca que tenta nos matar”

Na minha coluna dessa semana no Medium da Dublinense, eu tratei sobre o maior medo dos seres humanos: encontrar o momento perfeito – ou a obra ideal – e não ser capaz de confrontá-lo.

De lambuja, falei de Hawthorne e de Melville, uma das belas amizades forjadas através da literatura, do filme “No coração do mar” e do inusitado método de pintura do Ticiano: olhar o esboço do quadro como se encara a um inimigo.

Boa leitura!

 

A vida, essa baleia branca que tenta nos matar

 

Na semana passada, assisti ao filme “No coração do mar” (2015). Ele conta a história do baleeiro Essex que, no inverno de 1820, foi atacado em alto mar, de forma inesperada, por uma baleia a qual estava perseguindo. O depoimento de um dos sobreviventes serviu de base para Herman Melville escrever “Moby Dick”, um dos maiores romances que já existiu.

1 AqNdEh6MEk_l5rS4iI95SQ

No entanto, para mim, o filme nem foi tão interessante quanto uma subtrama que acontecia nos intervalos da destruição implacável promovida pela baleia. Em algumas ocasiões, o sobrevivente do Essex, Thomas Nickerson, mencionou para Melville que ele “não é um escritor de verdade como Hawthorne” e a história da baleia assassina nascera para ser contada por escritores de gabarito como Nathaniel Hawthorne. No filme, Melville engolia em seco e fazia de conta que não escutara, mas a sombra da perfeição literária de Hawthorne pairava o tempo inteiro sobre ele.

Não se exige adequação absoluta com a verdade para tramas ficcionais, e é possível que tal diálogo tenha alguma dose de realidade (Hawthorne foi mesmo um dos maiores escritores americanos). Contudo, não existiu tal tipo de competição de talentos entre Melville e Hawthorne. Na época em que estava escrevendo “Moby Dick”, Melville e Hawthorne já eram bons amigos, tanto que Melville dedicou a obra para o outro “com admiração pelo seu gênio”. Grandes espíritos acabam estabelecendo uma boa interlocução, e os dois autores não só apreciavam um o estilo do outro como também trocavam impressões sinceras e críticas estilísticas em frequentes cartas.

Herman Melville e Nathaniel Hawthorne eram também vizinhos de propriedade, e as famílias de ambos costumavam se visitar mutuamente. Suas terras, localizadas em Berkshire County, em Massachusetts, distavam seis milhas entre si. Um detalhe interessante sobre esta região dos Estados Unidos é que uma série de escritores fenomenais se concentraram ao seu redor: além de Melville e Hawthorne, moravam próximos Oliver Wendell Holmes, James Russell Lowell e Fanny Kemble.

Os dois escritores apreciavam longas caminhadas, e só podemos imaginar o que conversavam nos seus passeios, a troca de experiências e de ideias que ocorria nas pradarias tranquilas desta região quase bucólica dos Estados Unidos. Sophia Hawthorne observou a relação: “o Sr. Melville, geralmente silencioso e pouco comunicativo, derrama as ricas inundações de sua mente e experiência para [Nathaniel Hawthorne], tendo certeza de que será entendido, completamente seguro de uma interpretação ampla e generosa e do mais delicado julgamento”.

Chegaram até nós algumas cartas que Melville escreveu, não as respostas de Hawthorne, e elas nos permitem ver um relacionamento fraterno (parte dos biógrafos inclusive afirmam possuir uma vertente quase homossexual, mas são conjecturas) – e muitos receios sobre o fazer literário.

Uma das dúvidas chama atenção: eles deveriam mesmo escrever determinadas obras? Um homem seria capaz de escrever o abismo que se esconde dentro da sua imaginação, ou deveria deixar a obra que sonhou para outras pessoas mais calejadas, seguras e preparadas? Hawthorne – autor de “A letra escarlate” – e Melville – que, além de “Moby Dick”, escreveu clássicos como “Bartleby, o escriturário” – tinham dúvidas se eram os homens indicados para escrever as obras que imaginaram. É uma indagação que às vezes nos assombra. Somos capazes de aguentar a história – ou a carga emocional – que a vida depositou sobre os nossos ombros? Temos realmente a capacidade de suportar tanta dor, tanto sofrimento ou até mesmo tanta alegria?

Tais questões estão na origem dos pensamentos suicidas: a impressão de que a nossa existência não comporta a carga dolorosa que o destino nos legou. Uma pessoa pode considerar uma dor tão insuportável que continuar vivo não tem mais graça; outra pode achar que o amor sentido é tão grande que não existe vida sem ele. Estamos constantemente questionando nossos próprios limites, e nunca sabemos qual será a gota que vai encher de vez o copo. Para um artista, existe a severa dúvida de que a obra pode estar além das suas capacidades artísticas – que a obra pode, em suma, acabar com a sua sanidade ou, em casos extremos, até mesmo lhe matar.

Não existe exemplo mais adequado do que o escritor francês Guy de Maupassant, cuja melhor produção textual aconteceu a partir do momento em que foi diagnosticado com sífilis e sentiu a loucura se aproximando de forma progressiva. Maupassant escrevia de forma quase compulsiva para afastar os demônios, em uma corrida pela sanidade e para que a literatura lhe mantivesse vivo. Mesmo assim, tentou se matar algumas vezes, foi internado em um manicômio e nunca desistiu de pensar que a sua obra era mais importante do que a loucura e do que a morte. Quando desistiu de ter medo das suas possibilidades como escritor e soube que a vida escorria lentamente para um fim melancólico, Maupassant se entregou de forma desvairada à literatura. Somente vive de forma plena quem sabe que a morte está à espreita em cada canto da existência.

Guy de Maupassant

Guy de Maupassant

Hawthorne era um escritor cheio de dúvidas sobre as suas próprias capacidades narrativas, e talvez seja isto que o transforma em um dos maiores autores dos Estados Unidos. No livro “Hawthorne”, uma crítica longa sobre o estilo e as obras do autor, Henry James fala do diário deixado pelo estadunidense. Hawthorne estava sempre escrevendo, sempre treinando, em constante processo de aperfeiçoamento para a “grande obra”, aquela que, um dia, iria escrever. Nos seus diários (são seis longos volumes), existem questionamentos existenciais e religiosos, bem como inúmeras páginas dedicadas a descrever os movimentos de uma galinha ou as sombras de um galho na parede. Parafraseando “A fera na selva” do próprio James, Hawthorne passou a vida toda esperando o surgimento da “grande obra” e, neste intervalo, escrevia e treinava o estilo, para saber como se portar quando chegasse a hora de encontrar o tema tão sonhado.

Sobre o diário de Hawthorne, Henry James escreve, com a necessária dose de assombro: “Parecem cartas gratas e inúteis, dirigidas a si mesmo por um homem temeroso de que fossem abertas no correio e que, por isso, tivesse resolvido não dizer nada de comprometedor.” Os exercícios estilísticos de Nathaniel Hawthorne soavam incompreensíveis para uma mente cartesiana, mas Jorge Luis Borges, analisando o diário de Hawthorne e a crítica de Henry James, vai um pouco mais longe: “tenho para mim que Hawthorne registrou essas banalidades por anos a fio para provar a si mesmo que ele era real, para de algum modo livrar-se da sensação de irrealidade, de fantasmidade, que tanto o frequentava”.

Hawthorne passou a vida inteira repleto de insegurança. Sentia que caminhava ao lado de um precipício, o “romance perfeito”, aquele que definiria e justificaria toda a sua existência, e temia ser incapaz de dar concretude literária à obra cuja sombra somente divisava. Teve medo da sua própria criação, e acreditou que suas habilidades narrativas – tão arduamente experimentadas – não estariam à altura do que desejava fazer. Assim, escreveu outros livros ao invés daquele que lhe assombrava, em uma tática diversionista, e mesmo em tal atitude acabou tendo grande sucesso.

Em certo sentido, o receio de Hawthorne não é muito diferente das pessoas que divisam uma existência feliz e são incapazes de se entregarem a ela, por puro medo de que a felicidade seja boa. É mais comum do que se imagina. Conheço pessoas que possuem real receio de serem felizes e, por isso, cometem os mesmos erros ad infinitum. Elas acham melhor passar ao largo de boas situações ao invés de mergulharem nelas, mesmo que dê errado, mesmo que tudo acabe se alterando. É preferível chorar publicamente sobre a infelicidade ao invés de ser feliz em silêncio.

Não se pode ter medo da própria existência, assim como não devemos temer as obras que pretendemos concluir, e isto vale tanto para uma estátua quanto para uma construção nas nossas casas. Não existe tarefa tão gigantesca que não sejamos capazes de vencer. Passar a vida toda fugindo da obra – ou do confronto com ela – é perder tempo.

Oportuno recordar do grande pintor do Renascimento italiano, Ticiano. De acordo com Jacopo Palma, o Jovem, que era seu aprendiz e o enxergava trabalhar, o método do artista era sempre o mesmo. Em primeiro lugar, Ticiano espalhava sobre os quadros uma massa de cor que servia de “cama” (base) para a pintura que viria depois. Em seguida, com algumas pinceladas de diferentes cores, o pintor italiano quebrava a mesmice da “cama”. Nas palavras de Jacopo Palma, o Jovem: “Tendo esses princípios como única doutrina, em quatro pinceladas ele fazia surgir a promessa de uma figura perfeita. Esboços desse gênero satisfazem os maiores conhecedores e são uma guia desejada por muitos que buscam um método correto para se lançarem ao oceano da pintura”.

Em seguida, Ticiano realizava algo inesperado: virava os quadros de costas e colocava-os contra a parede. Ficava meses sem virá-los, e sem sequer encará-los. De costas, os quadros esperavam a finalização, e o pintor se negava a concluí-los, mas não resta dúvida de que a mente de Ticiano estava funcionando. Ele não precisava ver o quadro – a visão talvez até lhe atrapalhasse –, pois precisava ter a figura claramente disposta na sua mente antes de transformá-la em pintura.

Quando se julgava preparado para voltar ao esboço, com a imagem enfim pronta na sua imaginação, Ticiano virava o quadro, e a descrição perplexa de Jacopo Palma, o Jovem, merece destaque: “quando se dispunha a atacá-las [as pinturas] novamente, ele as observava severamente, como se se tratassem de inimigos mortais, a fim de discernir algum erro. Se encontrasse a menor coisa em desacordo com sua intenção, ele se portava como um cirurgião que, ao tratar um paciente, faz uma sangria, põe no lugar o osso deslocado de um braço ou endireita a posição de um pé sem piedade pelo sofrimento do doente.”

"Beldade ao espelho", de Ticiano

“Beldade ao espelho”, de Ticiano

Na descrição do método de criação de Ticiano, percebe-se o grande problema que Hawthorne recusou-se a ver: um artista não é amigo da sua criação, mas seu maior inimigo. Ela está no caminho da sua felicidade e, como tal, deve ser tratada como um obstáculo, não como sinônimo de completude. Da mesma forma, não devemos achar bonita ou agradável a vida em que estamos inseridos, ou os conflitos que nos colocaram desde que nascemos e sem sequer pedir nossa autorização, mas lutar contra ela até o último ar dentro dos nossos pulmões. Pensar que a nossa existência é miserável por causa das agruras impostas pelo destino é uma solução covarde. Melhor fazer como Nabokov com os seus personagens: pegar o chicote e fazer o destino e a vida se dobrarem à nossa vontade, seja ela qual for.

Em determinado momento de “No coração do mar”, Melville confessa aquilo que lhe dá maior medo: ser incapaz de escrever bem a história que a imaginação lhe fez desejar. Escrever mal a história sonhada. Nickerson não comenta o medo do escritor, mas seus olhos demonstram a realidade: todos nós temos que enfrentar baleias brancas e assassinas. A diferença é que alguns lutam de frente e com coragem contra elas, enquanto outros preferem o comodismo de ficar chorando e reclamando a respeito da existência que lhes foi legada.

Texto originalmente publicado no link https://medium.com/colecao-dublinense/a-vida-essa-baleia-branca-que-tenta-nos-matar-50f0bfdbd14f#.hxygwabax

1 comentário

Arquivado em Arte, Cinema, Dublinense, Guy de Maupassant, Henry James, Herman Melville, Literatura, Nathaniel Hawthorne, No coração do mar, Ticiano, Vida

Texto publicado no Literatortura (29/04/2016): “Indagações sobre o olhar de um cachorro”

Na minha coluna da semana passada no Literatortura, falei sobre cachorros e gatos.Não nego que sou um “cachorreiro”, ainda que simpatize com todos os bichos. Quem não gosta de bichos não deve gostar de seres humanos.

Mas minha reflexão começou ao tentar escrever uma breve elegia para um cachorro morto e descobrir, um pouco inquieto, que só lembrava do olhar repleto de pena que ele me direcionou. Mas aproveitei para falar da gata de Montaigne, que praticamente mostrou para o filósofo como deveria ser a sua forma de pensar, de Nathaniel Hawthorne, assim como alguns cachorros famosos da literatura, terminando com o gato que viu Derrida nu (e o livro que o filósofo escreveu a respeito do seu desconforto).

Boa leitura!

 

Indagações sobre o olhar de um cachorro

adeus-a-linguagem

Ontem, o cachorro pertencente a um amigo meu morreu. Certa vez, em um encontro casual na rua, calhou a mim conhecê-lo: o Sansão – sempre reclamei que tal nome era um clichê – era um labrador afável, com pelo amarelo e olhos cheios de piedade. É significativo que eu recorde mais dos seus olhos do que do cachorro em si. Na época do nosso encontro, pareceu-me que o cachorro olhava para mim com pena, como se soubesse de algo desconhecido.

Meu amigo e sua esposa fizeram um bonito tributo nas redes sociais ao cão falecido. Juntaram fotos engraçadas, algumas melancólicas, e não tardaram a aparecer depoimentos comovidos dos outros amigos do casal sobre o cachorro. Sansão deixou um rastro de admiradores. Entretanto, no meio das declarações, percebi um relativo incômodo. Ninguém sabe direito o que é, mas as palavras deixam entrever a sombra de uma vergonha, como se não tivéssemos merecido Sansão.

Pensei em escrever palavras que expressassem a minha simpatia pelo luto que eles estão passando – pois a morte de um animal pode causar grande sofrimento psíquico -, mas esbarro no mesmo obstáculo. Sansão sabia algo desconfortável sobre a natureza humana e, o pior, tinha pena de todos nós. A Humanidade tentou de tudo quanto é jeito, mas não conseguiu enganar o cachorro. Ele sabia aquilo que de mal e pérfido e generoso e sublime se escondia por trás da nossa aparência. No fundo do seu olhar, estava a resignação: “vocês são assim, e nunca irão mudar, não interessa quanto dinheiro, amor e vitórias conquistem”.

Por mais inusitado que pareça, Sansão me fez lembrar Michel de Montaigne. Muitos anos atrás, o filósofo estava escrevendo junto à sua mesa quando ergueu os olhos e notou, no sofá, a sua gata encarando-o fixamente. Ela miou, pedindo carinhos, e Montaigne ficou dividido entre continuar escrevendo e brincar um pouco com o animal. Pois foi neste momento de indecisão que os olhares de ambos se encontraram e, por um segundo delirante, Montaigne ousou ver o mundo através dos olhos da sua gata. O que ela estava pensando? Como enxergava o homem diante de si? Quem estava brincando ali, o homem com a gata ou o inverso? O filósofo sintetizou esta dúvida ao escrever “Quando brinco com minha gata, quem sabe se ela não se distrai comigo mais do que eu com ela?”

Alguns biógrafos consideram esta cena familiar – e o pensamento surgido dela – como a base do pensamento de Montaigne. Ao sair de si mesmo e colocar-se no lugar do outro, em uma inversão do ponto de vista que lhe possibilitou ver o mundo de um ângulo diferente, Montaigne mostrou que não podemos julgar as demais pessoas tomando por fundamento a nossa visão sobre elas, mas tentando ver a situação pelos olhos alheios e entender como o pensamento do outro se constrói.

É um exercício difícil de realizar. Tentar entender como alguém se posiciona diante do mundo implica em abandonar opiniões arraigadas e concentrar-se nos motivos que levaram o outro a pensar daquele jeito. Ter tal tipo de grandeza de espírito faz muito falta atualmente. Todos parecem se arvorar em detentores da verdade e, por conseguinte, quem não pensa como eu, torna-se automaticamente meu inimigo declarado. No entanto, a pessoa chegou àquela visão de mundo com base nas suas vivências, e não tem as mesmas experiências e pensamentos que nós. Também não está errada em pensar diferente. O fato de sermos incapazes de entender como o outro chegou a um determinado tipo de conclusão é um atestado da falha do nosso pensamento. Considerar o mundo como uma bipolaridade insana, no qual existe o meu lado e o lado inimigo, é a maior prova de que não sabemos nos comportar em sociedade.

Percebo tal incapacidade de sentir o outro no Direito. Às vezes, acontece do juiz julgar alguém com a seguinte afirmativa “se eu estivesse na tua situação, não teria agido desta forma”. Mas o juiz não está, e claro que as suas experiências não são as mesmas da outra pessoa. O correto seria perguntar-se, antes de condenar ou inocentar: acaso ele tivesse os conhecimentos do outro e tivesse passado pela sua vida, teria outra atitude que não a decisão tomada?

Não existe uma verdade absoluta, existem diferentes maneiras de contar a mesma história. Nenhum de nós está coberto de razão. Diziam os estóicos: “só sei que nada sei, e nem isto eu sei se sei direito”. Seríamos mais prudentes se adotássemos o benefício da dúvida ao invés de fazer julgamentos sumários.

Acaso as pessoas lessem mais, perceberiam o estrago que representa a falta de leitura. Ler é se posicionar através da visão do outro, entender o drama do personagem como se fosse nosso. Entrar na pele ficcional de uma figura imaginária. Todos sabem que Raskólnikov agiu errado em “Crime e Castigo”, de Dostoiévski, mas, seguindo o mundo através do seu conjunto de crenças e valores, as atitudes do personagem são justificáveis – ele não tinha como agir de outra forma, não sem violentar a sua verossimilhança.

Não faz muito tempo que, em um evento, escutei a palestrante afirmar que “Madame Bovary”, de Flaubert, era um romance machista no qual a personagem foi punida – pelo autor – por ter desejos de mulher. Quem diz isso nunca leu “Madame Bovary”, e é bem possível que tenha consultado um resumo escolar da obra. Ao contar a história de Emma Bovary, Flaubert investe contra as convenções sociais que sufocavam os desejos e vontades femininas. É o contrário do machismo. Além disso, ler uma obra procurando vieses machistas, feministas, racistas ou qualquer outro tipo de conceito acaba por limitar o espectro da leitura, e funciona semelhante a um julgamento: se o juiz tiver a ideia prévia de condenar alguém, vai procurar qualquer mínimo elemento para embasar a sua vontade, descartando as provas contrárias em benefício da sua opinião. Assim, a condenação será inevitável, tudo por que o juiz não entendeu a opinião alheia, preferindo impor a sua ao invés de compreender a do outro. Se Nero quisesse matar o gladiador, não interessava o triunfo que ele tivesse conseguido, ainda assim o polegar estaria apontado para baixo.

Montaigne viu a grande verdade: a opinião é somente uma questão de ponto de vista. O homem olha uma gata brincando e pedindo afagos; para a gata, o homem está fazendo uma tarefa supérflua, e brincar com ela é mais importante. Quando Sansão despejava o seu olhar de pena sobre as demais pessoas, era por que ele tinha idade o suficiente para saber que somos desinteressantes, nós e nossos “grandes” dramas.

Não foi à toa que Montaigne escreveu: “Essa deficiência que impede a comunicação entre eles e nós, por que não será tanto nossa quanto deles? É de conjecturar a quem cabe a falha de não nos entendermos; pois não os entendemos mais do que ele a nós. Por essa mesma razão, eles podem considerar-nos estúpidos, como consideramos a eles.” O fato de não entendermos o que os animais dizem não quer dizer que eles sejam estúpidos, pois, para eles, pode ser o contrário – os seres humanos, sim, não fazem sentido algum.

Os animais se entendem entre si. Não somos capazes de compreendê-los e, por isto, os consideramos irracionais, tomando por suporte nossos duvidosos padrões de racionalidade. O filósofo dá um exemplo: “De resto, percebemos muito claramente que entre eles existe uma comunicação plena e integral e que se compreendem mutuamente – não apenas os da mesma espécie como também de espécies diferentes. Em um determinado latido do cão o cavalo reconhece que existe cólera; com outro som seu, ele não se assusta.” Transportando esta ideia, a nossa incapacidade de entender o outro não deveria ser o suficiente para considerá-lo idiota, burro ou contraditório. Julgar alguém pelos nossos padrões do que seja correto não quer dizer que estejamos com os padrões corretos. Mais vantajoso seria entender os outros ao invés de julgá-los.

Curiosamente, Montaigne foi atacado por pensar assim. O bispo Bousset afirmou que, quando o filósofo aproximou o homem dos outros animais, não salientou que ele seria uma criação especial de Deus. Montaigne foi acusado de “animalismo”, ou seja, considerar os humanos iguais aos animais ao invés de criaturas derivadas do divino. Por heresia, a sua obra máxima, “Os ensaios”, foi incluída no Índex de livros proibidos do Vaticano em 1662, ficando nela até 1854.

Eu acredito que o olhar de Sansão continha uma mensagem desagradável para quem o enxergava, algo que enchia de desconforto e dúvidas. Pensei em escrever uma mensagem dizendo que Sansão era o Wakefield da Humanidade, aludindo ao excepcional conto de Nathaniel Hawthorne, “Wakefield”, mas tive receio dos meus amigos entenderem mal a alusão. Poucos escritores foram capazes de sintetizar melhor a sensação angustiante de ser um indivíduo do que Hawthorne neste conto. Ocupamos um papel na peça de teatro chamada vida, mas basta um passo para o lado e saímos sem querer do palco, com o risco de nunca mais nos reencontrarmos. Sansão podia ser o cachorro que testemunha as pequenas tragédias e vicissitudes humanas na casa ao lado, sem tomar partido, enquanto o mundo corre ao seu redor. Neste contexto, Sansão seria o Grande Pária do Universo, assim como foi Wakefield.

Um dos contos de Horacio Quiroga tem uma vibrante metáfora dos perigos que podemos sofrer por não entender aquilo que os outros estão nos falando. Em “A insolação”, um grupo de cachorros está sentado na porta de uma fazenda, descansando, em um dia de especial calor. Os nomes dos cachorros – Old, Milk, Dick e Prince – remetem à colonização da América do Sul. Eles possuem seus próprios dramas e indagações, mas um detalhe instigante: cachorros são capazes de ver a Morte, na forma de um duplo do ser que deseja matar, e o duplo está caminhando, perdido, pelo pátio da fazenda em Misiones. Quando a Morte se aproxima de Mister Jones, o dono dos cachorros, todos começam a latir, tentando alertá-lo do que vai acontecer. No entanto, Mister Jones pensa que os cachorros estão latindo sem motivo algum e continua indiferente, enquanto a Morte chega cada vez mais perto.

Também poderia falar de “O colóquio dos cachorros”, de Cervantes, com o diálogo de Cipião e Berganza sobre as suas vidas e sobre os homens com quem eles conviveram. Tanto em Cervantes quanto em Quiroga – e para outros escritores, como o Flush, de Virginia Woolf, que discute questões humanas sob a ótica de um animal testemunha – os cachorros funcionam como analistas pasmos da Humanidade que os rodeia. Enquanto os homens se digladiam pelas mais diferentes questões, os animais permanecem à berlinda, vendo tudo o que acontece e impressionando-se com a nossa incapacidade de entendermos o outro.

Chama atenção que, muitos anos depois de Montaigne confrontar a sua gata, outro filósofo francês esteve na mesma situação, também a descrevendo em um ensaio. Em “O animal que logo sou”, Derrida descreve o incômodo de ficarmos, nus, diante dos olhos de um animal – no caso, um gato. Sentimos uma forte vontade de nos cobrir, de manter a decência, de não expor nossas verdades, mas, em última análise, o gato também não está coberto por roupas, não está fazendo julgamentos a respeito do nosso corpo nu e muito menos tem pruridos morais. Ele está nos olhando, mas sem nos distinguir ou tratar diferente por estarmos sem roupas. Explica Derrida: “Assim, nus sem o saber, os animais não estariam, em verdade, nus. Eles não estariam nus por que eles são nus. Em princípio, excetuando-se o homem, nenhum animal jamais imaginou se vestir. O vestuário seria o próprio do homem, um dos ‘próprios’ do homem.” É um animal que está diante de outro e, se é assim, por qual motivo nos sentimos desconfortáveis?

A reflexão filosófica que Derrida faz sobre o seu desconforto, sobre o fato do gato existir como animal e não como figura de gato (“é um gatinho”), sobre as nossas noções de pudor e de vergonha, passando por uma análise do gato de “Alice no país das maravilhas” e “Alice no outro lado do espelho”, de Lewis Carrol, é fascinante. Em especial quando ele se pergunta como uma pessoa nua deve encarar o gato diante dela: como um ser sem motivações e anseios? Como um oponente? Como um terceiro? Estamos sozinhos com o gato ou, entre nós, encontram-se outras figuras imaginárias (espectros familiares, amigos, esposa, marido) ou sociais?

O ponto de vista do outro pertence a ele, por mais que tentamos influir com as nossas visões de mundo. Afirma Derrida: “o animal está aí antes de mim, aí perto de mim, aí diante de mim – que estou atrás dele. E pois que, já que ele está na minha frente, eis que ele está atrás de mim. Ele está ao redor de mim. E a partir desse estar-aí-diante-de-mim, ele pode se deixar olhar, sem dúvida, mas também, a filosofia talvez o esqueça, ela seria mesmo esse esquecimento calculado, ele pode, ele, olhá-lo. Ele tem seu ponto de vista sobre mim. O ponto de vista do outro absoluto, e nada me terá feito pensar tanto sobre esta alteridade absoluta do vizinho ou do próximo quanto os momentos em que eu me vejo visto nu sob o olhar de um gato.” O outro pode tomar as suas decisões sem que tenhamos poder de modificá-las, ainda que possamos tentar compreendê-las. Derrida não convence o gato a ver o que ele deseja que o bichano enxergue, mas pode imaginar – e entender – aquilo que o gato contempla.

Nunca saberei o que Sansão pensou quando estava me olhando. Também não escreverei nada no obituário dele (apesar deste texto funcionar como uma espécie de homenagem enviesada). No entanto, existe em mim uma impressão que, cada vez que tento esquecer, fica mais e mais evidente, e talvez seja isto que as demais pessoas que conheceram o cachorro não foram capazes de expressar, não em termos “racionais”. A sensação de que Sansão não estava me olhando, mas sim pensando naquilo que já fui e ainda poderei ser. E seus olhos cheios de carinho não estavam me julgando – estavam me perdoando.

(Texto originalmente publicado no link http://literatortura.com/2016/04/indagacoes-sobre-o-olhar-de-um-cachorro/ )

1 comentário

Arquivado em Cachorro, Filosofia, Generalidades, Gustave Flaubert, Horacio Quiroga, Jacques Derrida, Literatortura, Madame Bovary, Miguel de Cervantes, Montaigne, Nathaniel Hawthorne