Arquivo do mês: janeiro 2016

Texto publicado na revista eletrônica da Dublinense (19/01/2016): “Não existe escritor livre (ou coisas para não se fazer na literatura)”

No texto que escrevi esta semana para o Medium da Dublinense, tratei da liberdade relativa do ato de escrever.

Imaginamos que a literatura é um ato de sublime liberdade, mas, na verdade, nunca estamos completamente sem amarras, sempre estamos com o pé preso em algum lugar. Recordo que Virginia Woolf afirmou que só existiram dois escritores livres no mundo, Montaigne e Rousseau, no sentido de que tudo aquilo que pensavam era colocado em algum papel. Concordo quanto ao Montaigne e discordo quanto ao Rousseau, mas aposto que meus pensamentos não perturbarão a Virginia Woolf.

Boa leitura!

Não existe escritor livre (ou coisas para não se fazer na literatura)

 

Sábado passado, durante o jantar, estava conversando com uma amiga sobre a peça “Dona Flor e seus dois maridos”, baseada no livro de Jorge Amado, e constatei um inesperado paralelismo com “Incidente em Antares”, do Érico Veríssimo. Em ambas as obras, os autores utilizaram elementos fantásticos para desmascarar as hipocrisias do seu tempo: a primeira usou o fantasma de Vadinho, a segunda, mortos-vivos. Mencionei a ironia de que dois escritores imbuídos do espírito da Geração de 30, caracterizada pela denúncia política, pela exploração dos temas nacionais e pela busca incessante do realismo, tenham apelado para o velho e bom fantástico para conseguir contar as suas histórias.

Jorge Amado e Erico Verissimo em Porto Alegre

Jorge Amado e Erico Verissimo em Porto Alegre

Às vezes acontece de eu mencionar uma frase solta e ela só fazer sentido alguns dias ou meses ou anos depois. No caso desta conversa, foi “não existe escritor livre, estamos todos presos”. Assim que falei, a frase caiu como uma pedra no poço azul da minha tranquilidade, gerando ondas, reflexos, dúvidas.

Sempre imaginei a literatura como um espaço livre no qual escritores teriam plena liberdade para desenvolver os assuntos que melhor desejassem. No entanto, não é bem assim. Escritores são escravos dos seus leitores: é uma cadeia bem elegante, com muito conforto e até mesmo algumas alegrias, mas, ainda assim, é uma cadeia. A extensão da nossa liberdade é ditada pelo público. Escrever fora das suas expectativas leva à maior de todas as punições: a não-leitura. O desprezo. O escárnio. A obra futura está em constante comparação com a que já foi realizada, e sempre em desvantagem. Com o passar dos tempos, não é tão difícil imaginar um fantasma parado às nossas costas, olhar pousado sobre as frases escritas, dedos tamborilando o encosto da poltrona. Maupassant chamou de Horla, mas poderia ser o Leitor, e não é um copo de leite que irá satisfazê-lo.

No domingo, assisti a um documentário contando a vida de Charles Dickens em que o assunto voltou a surgir. Dickens foi um dos primeiros escritores a realizar leituras públicas das suas obras e a ganhar muito dinheiro com elas. Ele realizava turnês pela Inglaterra, lendo “David Copperfield”, “Oliver Twist”, “Barnaby Rudge”, “A Christmas Carol”, e os teatros enchiam de leitores dispostos a pagar caro para escutá-lo. Segundo depoimentos de alguns espectadores, Dickens não falava muito alto, mas a sua figura magnetizava o ambiente. Ele interpretava a voz e os maneirismos de cada personagem. Na plateia, algumas pessoas riam, outras se emocionavam e ainda existiam aquelas que desmaiavam de emoção ao escutar ditas leituras públicas. No entanto, Dickens odiava realizá-las, e o seu propósito manifesto era, de acordo com as cartas, “ganhar muito dinheiro”. Conseguiu tal objetivo, mas às custas de se exibir como um macaco amestrado para os seus leitores. Não é coincidência que, após retornar de uma turnê nos Estados Unidos, estava magro, cansado e sem vontade de conversar com ninguém, acabando por falecer alguns meses depois. Estar constantemente agradando ao leitor e se submetendo à sua vontade causa problemas de saúde e ausência de criatividade.

keep calm an

Talvez por causa deste paradoxo – escrevemos para exercer a liberdade, mas acabamos sendo presos pela própria literatura – que, em uma esquecida noite de 1939, em San Isidro, Jorge Luis Borges, Silvina Ocampo e Adolfo Bioy Casares sentaram-se para conversar e acabaram esboçando um conto (“otro de los que nunca escribiríamos”).

Imaginaram a história de um jovem literato da capital que, atraído pela fama – restrita a alguns círculos acadêmicos refinados – de um escritor, resolve investigá-lo e chega a uma lista desparelha de obras, que vão desde discursos vazios até tratados sobre assuntos irrelevantes. Os livros escritos por este escritor eram feitos com o objetivo específico de não serem estimados pelo público, e não tinham uma sequência lógica. Intrigado, o jovem literato persegue os passos do escritor e chega ao castelo onde ele passou seus últimos meses de vida. Entre rascunhos e papéis incertos, encontra uma lista de “coisas para não se fazer na literatura”, constituída pelos seguintes itens a serem evitados quando se pretende escrever:

* Curiosidades e paradoxos psicológicos: assassinatos por gentileza, suicídios por felicidade;

* Interpretações surpreendentes de certos livros e personagens: a misoginia de Don Juan, etc.;

* Pares de protagonistas muito obviamente contrastantes: Dom Quixote e Sancho, Sherlock Holmes e Watson;

* Romances com personagens idênticos, como Bouvard e Pécuchet: ao inventar uma característica para um deles, o autor é obrigado a inventar uma equivalente para o outro;

* Personagens retratados por suas singularidades, como em Dickens;

* Novidades e surpresas: leitores civilizados não se divertem com a descortesia de uma surpresa;

* Jogos ociosos com o tempo e o espaço: Faulkner, Borges, etc.;

* Revelação, em um romance, de que o verdadeiro herói é a pradaria, a selva, o mar, a chuva, a bolsa de valores;

* Poemas, situações, personagens com os quais o leitor pudesse se identificar;

* Frases que possam se tornar provérbios ou citações: são incompatíveis com um livro coerente;

* Personagens capazes de se transformar em mitos;

* Enumeração caótica;

* Vocabulário rico, sinônimos, “Le mot juste”, toda tentativa de precisão;

* Descrições vívidas, universos repletos de detalhes físicos, como em Faulkner;

* Pano-de-fundo, ambientação, atmosfera: calor tropical, ebriedade, som de rádio, frases repetidas como um refrão;

* Começos e fins metereológicos, falácias patéticas: “Le vent se lève! Il faut tenter de vivre!”;

* Toda metáfora, especialmente metáforas visuais, e sobretudo metáforas tiradas da agricultura, da navegação, das finanças, como em Proust;

* Antropomorfismo;

* Livros que espelham outros livros: Ulisses e a Odisseia;

* Livros que fingem ser cardápios, álbuns de fotos, mapas viários, programas de concerto;

* Tudo que inspire ilustrações, tudo que possa inspirar um filme;

* A censura ou o elogio nas críticas (segundo o preceito de Ménard). Basta o registro dos efeitos literários. Nada mais cândido que estes “dealers in the obvious” que proclamam a inépcia de Homero, de Cervantes, de Milton, de Molière;

* Toda referência histórica ou biográfica. A personalidade dos autores. A psicanálise;

* O incongruente: cenas domésticas em romances policiais, cenas dramáticas em diálogos filosóficos;

* O esperado: páthos e cenas eróticas em histórias de amor, enigmas e crimes em romances policiais, fantasmas em histórias sobrenaturais;

* Vaidade, modéstia, pederastia, ausência de pederastia, suicídio.

O leitor atento perceberá que o escritor que seguir toda esta lista de “coisas a não se fazer na literatura” jamais escreverá literatura. No meio de elementos inócuos (enumeração caótica), existem outros dos quais a literatura não pode prescindir (caso da metáfora). O autor que deseja evitar os velhos truques da literatura não escreverá literatura, ou seja, melhor aceitar os grilhões do que tolamente tentar enfrentá-los. Bioy Casares descreveu esta noite de conversa com Borges e Ocampo no texto “Libros y amistad”, e a sua conclusão sobre os motivos pelo qual o texto não foi escrito diz muito sobre o medo de como ele seria recebido pelo público dos três escritores:

“Os poucos amigos para quem lemos este catálogo inconfundivelmente manifestaram o seu desgosto. Talvez acreditaram que nos arrogamos das função de legisladores das letras e quem sabe se não receavam que, mais cedo ou mais tarde, iríamos lhes impor a proibição de escrever livremente; ou talvez não entenderam o que propúnhamos. Neste ponto, alguma razão tinham, pois o critério da nossa lista não era claro; inclui recursos lícitos e práticas censuráveis. Percebi que, se tivéssemos escrito o conto, qualquer leitor encontraria suficiente explicação no destino do autor das proibições, o literato sem obra, que ilustra a impossibilidade de escrever com lucidez absoluta.”

Conforme Bioy Casares comenta no texto, no decorrer desta mesma conversa, Borges contou para ele e para Silvina Ocampo a trama de “Pierre Ménard, autor de Quixote”. De certa maneira, este conto ilustra a ideia de tradição literária, de que o escritor ecoa outros escritores e, por mais que tente se libertar deles, é um produto do seu tempo e da sociedade que lhe cerca.

Um escritor que faz a sua obra sem prestar tributo à tradição (e sem a pretensão de, um dia, tornar-se também a tradição de outro) é um escritor que não faz literatura. Chama a minha atenção alguns autores atuais que imaginam que a literatura nasceu com eles ou que são livres para ousar o quanto quiserem e ir contra todas as convenções. Por mais criativos que pensam ser, alguém já passou por lá antes. Não existe escritor livre, estamos todos com mãos presas uns nos outros; assim como Jorge Amado e Érico Veríssimo apelando para o fantástico para contar a realidade social, ou Charles Dickens interpretando as suas histórias para uma plateia extasiada de leitores que drenavam as suas forças, ou Bioy Casares, Ocampo e Borges na silenciosa noite de San Isidro, arquitetando maneiras de escrever um texto de ficção sem que ele seja literatura, toda a experiência humana é uma tentativa de escapar da previsibilidade e do clichê, os verdadeiros grilhões que nos sufocam.

Texto originalmente publicado em https://medium.com/colecao-dublinense/n%C3%A3o-existe-escritor-livre-ou-coisas-para-n%C3%A3o-se-fazer-na-literatura-3a40c3af9fde#.180bgcgjo

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Texto publicado na revista eletrônica da Dublinense (12/01/2016): “Os leitores assassinos”

No meu retorno à coluna da Dublinense em 2016, escrevi sobre uma modalidade de leitores que me fascinam: os assassinos. Aqueles que, talvez sem querer, acabam matando a obra ou um personagem ou até mesmo as aspirações e vontades do seu autor. Bom, alguns até podem matar os autores, mas aí seria assunto para outro texto.

A qualidade de um escritor decorre – e muito – do nível dos seus leitores. Neste sentido, não posso reclamar. Conforme menciono no texto, nos últimos tempos tenho recebido vários retornos dos leitores, com comentários, sugestões e dúvidas, e todos são muito apreciados. Aprendo muito com meus leitores, e mesmo os assassinos me ensinam bastante.

Boa leitura!

 

Os leitores assassinos

Nos últimos tempos, por um destes motivos sazonais que não possuem uma explicação lógica, tenho recebido muitas mensagens de leitores e leitoras. São todas semelhantes: um breve itinerário de como chegaram até “O homem despedaçado”, um relato de que leram meu livro (boa parte está na segunda ou terceira leitura) e, em seguida, alguma reflexão sobre os contos, ou dúvida, ou epifania que tiveram. Boa parte delas mostra certo constrangimento, como se estivessem falando o óbvio ou com receio de me incomodar. Muito pelo contrário – as mensagens são lidas com atenção. Contudo, minhas respostas são insuficientes: também sou meu leitor, e tenho tantas dúvidas quanto as que me apresentam. É ilusão pensar que o autor sabe tudo sobre o seu livro; a obra é sempre menos decepcionante do que o homem.

Em geral, os leitores são criaturas muito afáveis. Gostam dos personagens, identificam-se com as narrativas, mandam palavras de estímulo e até mesmo as suas críticas e dúvidas mostram as eventuais fraquezas de uma história. Aprendo muito com os leitores. Também é verdade que uma parcela deles me assusta um pouco, em especial os que levam tudo ao pé da letra ou que consideram seus erros de caráter legitimados pelas minhas narrativas.

No entanto, existe uma modalidade de leitor que, assim como Moriarty, desliza por entre os textos ficcionais, buscando brechas por onde possa enfiar sorrateiras facas, seus passos sempre pressentidos nas sombras dos parágrafos, seu olhar frio escondendo-se atrás dos números de capítulos. São os leitores assassinos, aqueles que, talvez sem saber, leem um livro com a intenção de matá-lo.

faca no livro

A invisibilidade destes leitores dificulta muito na compreensão dos seus métodos, mas, assim como os astrônomos, não precisamos ver um buraco negro para saber que ele existe, basta analisar o comportamento do espaço ao seu redor. Ainda não fui capaz de catalogar todos os tipos. O leitor assassino é melífluo e inconstante; adapta a sua tática às particularidades da vítima. É como o assassino perfeito descrito por Agatha Christie na última aventura de Hercule Poirot, “Cai o pano”: o assassino perfeito não é aquele que mata, mas que convence sutilmente outros a matarem em seu nome.

Uma das suas táticas é fazer com que a originalidade de uma trama seja falsa, pois o livro seria a versão ficcional de algo que realmente aconteceu. Após o livro, o leitor espalha a notícia de que é a versão não-autorizada de um episódio da sua vida e, com tal atitude, transforma a obra em um pastiche malfeito da realidade. Acontece com todos os escritores: leitores que se aproximam e dizem que a trama descrita na ficção tinha acontecido consigo, mas os nomes estariam trocados. Contudo, é mais provável que o autor tenha escutado dezenas de casos semelhantes para formar a sua narrativa, não somente uma história repleta de imperfeições.

Existe o estranho conceito de que escritores escrevem para se vingar de determinadas pessoas ou para revisar situações do passado, o que transformaria toda a História da Literatura na mera extravasação de um bando de recalcados. É possível que alguém faça isto, mas a raiva e a vingança nunca são bons conselheiros. Vejo muitos memes ou frases espirituosas no estilo de “cuidado! Se você não se comportar com um escritor(a), ele(a) poderá colocá-lo(a) em uma obra e matá-lo(a).” Não sei fazer isto, e não conheço nenhum escritor que faça. Afinal, existem pessoas bem mais interessantes para “matar” ficcionalmente do que a garçonete que me trouxe um café frio. Não somos assim tão irascíveis ou volúveis.

Gustave Flaubert foi sistematicamente atacado por este tipo de leitor assassino, como demonstra a sua correspondência, parcialmente juntada em “Cartas Exemplares”. Até terminar “Madame Bovary”, a luta do escritor francês era com o seu estilo e com a sua própria criação, tentando deixá-la o mais próxima da realidade. Foram inúmeras cartas com dúvidas estilísticas ou contando as vicissitudes da revisão forte de descrições. Após o lançamento do livro, contudo, as cartas de Flaubert tornaram-se polidas respostas para um sem-número de homens e mulheres que se enxergavam na narrativa de “Madame Bovary”, todas dizendo que não, o autor não tinha se espelhado em nenhuma história real para construir o seu livro. Algumas pessoas poderiam elogiar a aparência de verdade, capaz de fazer uma obra ficcional ficar tão vívida que é indistinguível da ficção. Entretanto, é injusto que um homem se tranque durante muitos meses em uma casa de campo para escrever o livro sonhado, tendo sofrimento inclusive físico para cumprir tal tarefa, e, ao final, tal esforço seja considerado como a narrativa desajustada de uma história que teria realmente acontecido.

Outra modalidade de leitor assassino foi identificada por José Castello: aquele que, por sua pressa, preguiça e desatenção, não lê com cautela um livro e, em seguida, fala mal por causa de algum detalhe que lhe desagradou. Está descrito em “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, de Machado de Assis, no capítulo “O senão do livro”, em que o escritor fala diretamente com o leitor: “O maior defeito deste livro és tu, leitor. Tu tens pressa de envelhecer, e o livro anda devagar; tu amas a narração direita e nutrida, o estilo regular e fluente, e este livro e o meu estilo são como os ébrios, guinam à direita e à esquerda, andam e param, resmungam, urram, gargalham, ameaçam o céu, escorregam e caem…”

Vivemos em um tempo em que a quantidade é mais importante do que a qualidade, e isto se espelha na leitura. Os leitores trocam impressões sobre velocidade da leitura ou número de páginas lidas e, com tal objetivo, é esperado que prefiram narrativas mais curtas, quase espasmódicas, com poucos personagens, construções gramaticais nada elaboradas, muitos e frenéticos diálogos. Uma leitura que não demande muita dedicação, mas que possa ser incluída como um vistoso troféu em uma sala de caçadores: os livros que li neste ano, neste mês, nesta semana.

O leitor assassino, agindo nas trevas, considera “chato” ou “sonolento” todo livro que não seja escrito de forma quase minimalista. Elevou a “linguagem cinematográfica” ao status de arte narrativa, quando nem tudo aquilo que funciona bem no cinema ou na televisão é adequado para a literatura. Assume, como crimes imperdoáveis, as digressões, os pensamentos, a interferência do autor, o deus ex-machina. Exige uma linguagem asséptica, sem ousadias. Recusa-se a ver as ironias ou não as compreende, preferindo as piadas mais evidentes. Não possui cultura o suficiente para entender os prismas que se escondem nos livros, mas se considera bom o suficiente para emitir julgamentos com base nas suas opiniões ainda pobres e em uma visão de mundo titubeante. Este tipo de leitor assassino é capaz de destruir um livro antes de entendê-lo e, em alguns casos, antes mesmo de lê-lo.

Também existem leitores que se especializaram na arte do assassinato de personagens. Um perigo em conversar com os leitores é dar razão para as suas críticas e ver o óbvio que se escondia dos olhares do próprio criador. Aconteceu com vários escritores, mas Anthony Trollope, autor inglês de muitas obras de ficção histórica e incompreensivelmente não traduzido no Brasil, tem a melhor descrição do momento em que tal tipo de leitor assassino o atacou:

“Eu estava sentado certa manhã trabalhando [em The Last Chronicle of Barset] no fim do comprido escritório do Atheneum Club – como eu costumava fazer na época quando havia dormido a noite anterior em Londres. Enquanto eu estava ali, dois clérigos, cada qual com uma revista na mão, sentados, um de um lado da lareira e o outro do outro lado, perto de mim. Logo começaram a criticar o que estavam lendo, e cada um lia uma parte de algum romance meu. O ponto fundamental da reclamação deles estava no fato de que eu reintroduzia os mesmos personagens com muita frequência! ‘Aqui’, disse um deles, ‘está aquele arquidiácono que aparece em todos os romances que ele já escreveu.’ ‘E aqui’, disse o outro, ‘está o velho duque sobre o qual ele falou até todo mundo se cansar dele. Se eu não pudesse inventar novos personagens, não escreveria romances.’ Então um deles se aborreceu com a sra. Proudie. Era impossível para mim não ouvir as palavras deles, e quase impossível ouvi-las e ficar em silêncio. Levantei-me e, ficando em pé entre os dois, identifiquei-me como o culpado. ‘Quanto à sra. Proudie’, eu disse, ‘irei para casa e matá-la-ei antes do final da semana. E assim o fiz.”

Anthony Trollope

Anthony Trollope

Sobre este fato, Edith Wharton conta a história vivida por Trollope (mencionando que os dois clérigos eram “dois idiotas quaisquer do clube”) e manifesta seu espanto ao perceber que a descrição da morte da sra. Proudie, “provocada de modo tão arbitrário”, é uma das maiores páginas já escritas por ele. Assim, os leitores assassinos tinham razão ao provocar Trollope, ainda que de forma involuntária. Não foram poucos os autores que mudaram todo o rumo das suas narrativas ou o destino dos seus personagens por causa da opinião ácida de um leitor. Aconteceu comigo, no terceiro livro que escrevi, quando tinha 15 anos. Mostrei para dois amigos e ambos foram unânimes: o personagem principal era um chato. Se eu o removesse, a trama ficaria bem melhor. Diante da minha incapacidade de realizar tal ato, o livro pertence hoje às minhas gavetas e, cada vez que o releio, ele continua não parecendo tão ruim quanto a opinião dos leitores assassinos deixou entrever. Mas, eu posso estar enganado e, como não tenho a coragem de Trollope de cortar um personagem importante, prefiro não mexer no original.

Como afirmei antes, é impossível descrever todas as táticas usadas pelos leitores assassinos. Eles costumam aparecer quando menos esperamos, e nem sempre são serial killers, pois assassinam um que outro livro, um que outro personagem. Ao contrário do que possa parecer, leitores assassinos são um mal necessário. É graças a eles que a literatura se desenvolve e cresce, que escritores aprendem a não subestimar a atenção do seu público e que personagens inconvenientes são removidos das tramas.

Mesmo que existam tantos leitores dispostos a assassinar uma história, o ideal de qualquer escritor é encontrar aqueles descritos por Italo Calvino em “Se um viajante numa noite de inverno”: exigentes, sim, mas que “gostariam que um escritor fizesse livros do mesmo jeito que uma macieira faz maçãs”. Leitores que sentassem à sombra das histórias para degustar a imitação de vida nela presente, não pensando na árvore que lhe deu origem, mas no gosto único, irrecuperável, que cada maçã possui. Sem pensar em cortar a macieira assim que terminarem de comer o seu fruto.

Texto originalmente publicado em https://medium.com/colecao-dublinense/os-leitores-assassinos-2f100d7a0e53#.rt30j2qq7

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