Arquivo do mês: dezembro 2012

A palavra como adaga

Em uma das ocasionais conversas que a profissão me força a ter com outras pessoas, certa vez deparei-me com um homem pérfido. Não é estranho que um advogado encontre pessoas malvadas na sua rotina, mas, até aquela data, eu nunca tinha encontrado um homem capaz de ser maléfico e destrutivo usando somente a palavra como cunha para destruir a auto-estima das outras pessoas.

Ao me relatar um acidente de trânsito em que teria se envolvido (e pelo qual era responsável), o homem deparou-se com uma mulher que saiu do carro atingido, furibunda, despejando-lhe uma torrente de palavrões e xingões. Segundo ele, esperou o momento certo para o contra ataque. Quando a mulher baixou a guarda, ele abriu a porta do carro e a apunhalou com uma única palavra: “gorda”.

Assim que contou esta história, desatou a rir. Confesso que não entendi o motivo da sua felicidade e perguntei se considerava a palavra “gorda”  mais ofensiva do que os inúmeros palavrões que insultavam a sua mãe, os seus filhos, as suas capacidades sexuais, a honra de sua esposa. E ele disse que “gorda” era o xingão exato para uma mulher, pois ela não tem como responder. Não tem como dizer “mas eu sou magra!”, pois isso implica em um juízo de valor particular. Além disso, toda mulher pensa estar acima do peso, ou seja, quando ele a chamou de “gorda”, transformou o seu pior receio em realidade e, não só isso, em algo visível para todo mundo, inclusive um desconhecido. Por fim, como o homem fez questão de salientar, este é o típico xingão que crava no espírito da mulher e a sangra progressivamente: ela não conseguirá dormir direito, pensando na palavra; ela diminuirá a sua comida ou iniciará uma dieta, e cada alimento a menos que consumir irá lembrar da forma com que foi insultada; ela encherá os ouvidos das suas amigas e interrogará seus familiares procurando “gordurinhas” inexistentes. Ou seja, toda a vida da pessoa irá sofrer as consequências cruéis de uma única palavra, certeira como uma flecha que atinge o centro do alvo.

De todas as palavras que o ser humano é capaz de engendrar, as que mais me fascinam são aquelas que funcionam como adagas: espetam-se na alma alheia e a desintegram aos poucos. Cada movimento da pessoa é drenado pela adaga; a sua energia vital se dissolve, enquanto ela procura arrancar a traiçoeira haste de metal do corpo, cauterizar a ferida, manter somente a tranquilizante cicatriz no lugar da morte lenta.

A qualquer momento, uma palavra à esmo pode atingi-lo.

A qualquer momento, uma palavra à esmo pode atingi-lo.

É necessário habilidade para se manejar palavras como adagas. Para começar, é difícil de reconhecê-las. Suas funções sintáticas e semânticas aplicam-se em vários contextos, não só para causar sofrimento. Para seu correto uso, elas dependem de uma série de circunstâncias, que vão da entonação até o momento exato da sua invocação. Além disso, necessitam do conhecimento prévio do ponto de fraqueza do outro, detectar onde a sua muralha psíquica é frágil, investigar com olhos argutos a rachadura por onde a palavra pode passar, atravessando a armadura para se enfiar no espírito alheio. É necessário muito treino e muita observação para atingir esta arte. Contudo, assim que se chega na sua essência, a tentação de destruiralguém esboroando a sua auto-estima se torna um poder quase hipnótico. Não é à toa que meu cliente ria diante da felicidade de estragar o dia, a semana e talvez o ano da mulher que teve o azar de se atravessar no seu caminho.

A adaga pode demorar para ser detectada; conheço pais que enfiaram adagas nos seus filhos quando eles ainda eram jovens e as crianças jamais conseguiram desenvolver o seu pleno potencial, sempre esbarrando na limitação que lhes foi imposta. Acredito que psiquiatras, psicólogos e psicanalistas são profissionais que dedicam as suas vidas para remover as palavras adormecidas nos corpos alheios, dar algum tipo de conforto para as feridas em hemorragia lenta, inexorável.

Às vezes, a palavra se torna uma adaga no momento errado, e acaba perfurando o outro sem querer. São cortes repletos de crueldade, mas, como são feitos em um momento impensado, são mais fáceis de serem perdoados, ainda que a sua sombra permanecerá perturbando. Incomoda-me mesmo as pessoas que sabem deste poder debilitante das palavras e as usam para realizar o mal. É difícil apagar os efeitos dolorosos de uma palavra, ainda mais quando ela se enfia tão fundo na alma do outro que se torna quase impossível removê-la. Temos a tendência de considerarmos (e julgarmos) somente o último ato de um suicida, mas ninguém é capaz de ver quantas palavras encontravam-se enfiadas no seu espírito, enfiadas de forma intencional (ou não) por pessoas interessadas no declínio de outro ser humano.

Quando escreveu a última aventura de Hercule Poirot, Agatha Christie fez aquele que eu considero um de seus livros mais interessantes. A maioria da crítica considera o “Assassinato no Expresso do Oriente” e “O Caso dos Dez Negrinhos” como os pontos literários de excelência da autora inglesa. São livros brilhantes, mas típicos da literatura de detetive, aquela em que o leitor acompanha pistas em busca do culpado. Eu considero “Cai o Pano” como seu livro mais singular, pois ela desenvolve a ideia do assassino perfeito: aquele que não mata ninguém, mas detecta a fraqueza do outro e o convence a se matar ou a matar outra pessoa.

Agatha Christie

É o assassinato impossível de ser previsto ou evitado, pois não deixa evidências físicas da sua perpetração. Além disso, utiliza táticas sutis de convencimento que envolvem a psicologia do assassino e a da vítima. É um jogo travado dentro da cabeça de alguém; enquanto o assassino crava facas através de palavras muito bem pensadas e manieta a vítima, ele vai estrangulando a sua vida, até que a decisão de colocar fim a ela ou matar outrem torna-se o último ato de um destino que foi pacientemente escrito.

Um Hercule Poirot envelhecido e cansado enfrenta este mestre oculto do mal. A lista de pessoas que ele matou é enorme, mas não existe uma prova sequer da sua participação. O assassino faz isto por que gosta do jogo psíquico. O ato de cravar palavras no espírito de alguém lembra muito as bandeirolas presas no touro durante a tourada; elas o cansam e exaurem sua vontade, mas não lhe matam. No entanto, desde a primeira que é fincada, o touro começa a morrer devagar – o seu futuro se torna conhecido, inclusive para ele. Mesmo que prorrogue a luta, ela se torna uma questão de tempo.

O detetive belga sempre foi um especialista no uso da palavra, na discrepância do discurso do assassino, na sua capacidade de prever e evitar os atos mortais. Neste último livro, ele é forçado a abandonar a tática psicológica de prever e derrotar o inimigo, desmascarando-o diante da lei. Considero um pouco melancólico que, no mais absoluto desespero de saber que não existe maneira de vencer o crime perfeito, Poirot seja forçado a utilizar um truque físico para enganar o oponente. E que só consiga uma vitória pelo expediente nada honroso de matar o outro. É a confissão da sua incapacidade de vencer um assassino que utiliza a mais mortífera arma para subjugar os outros: a palavra.

Por tal motivo, quando escutei este homem se vangloriando da sua capacidade de destruir uma mulher utilizando a palavra “gorda”, eu pensei que ele estava mexendo com forças de alcance imenso. Brigar com palavras é a luta mais vã, mas não por que elas vão embora, e sim por que elas podem machucar mais do que um soco ou um chute. Palavras podem matar, a menor das adagas pode se imiscuir no corpo de alguém e roçar o coração. Se as pessoas soubessem da importância daquilo que falam – e da capacidade latente de, em uma palavra, estar contida a possibilidade de destruir uma vida – elas seriam muito mais cautelosas com aquilo que deixam vir ao mundo através da sua boca.

Sem querer, ou talvez querendo, você pode estar matando alguém agora.

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A desobediência criativa

Em tempos idos, quando computadores não eram tão abundantes e onipresentes, as pessoas usavam folhas para escrever. No meu caso, os cadernos de colégio e faculdade sofreram sistemáticos ataques de criatividade, que se arrastaram desde o momento em que ganhei meu primeiro até o advento das máquinas de escrever e desta alegre vida tecnológica. Ainda escrevo no papel, mas soa mais como um ato nostálgico, em especial por que escrevi tanto no passado que uma articulação do meu dedo, onde a caneta se apoia, incha em questão de minutos.

Estou escaneando as partes aproveitáveis dos meus cadernos e tocando-os fora. Também aproveito para rever a minha vastíssima produção literária (meu Deus, são seis caixas repletas de papéis, de onde eu tirava tempo e vontade para escrever tanto? São 12 romances, contos incalculáveis, roteiros de histórias em quadrinhos, poesias, crônicas, histórias inacabadas, ensaios, trabalhos técnicos, críticas, resenhas de livros, anotações e material de pesquisa. E o pior é que a prática leva à perfeição, pois tem material muito bom no meio. Vou levar mais tempo do que eu gostaria nesta tarefa).

No meio dos meus cadernos, encontro condutas incompatíveis com a civilidade e uma inusitada rebeldia. Nunca fui uma pessoa rebelde, no estilo destes que trocam a cor do cabelo, colocam piercings e viram entusiastas de regimes anarquistas. A minha revolta sempre foi contra fórmulas pré-programadas, contra a ausência de criatividade, contra o clichê das respostas impensadas. E, por este motivo, eu ousava. Ia onde meus colegas não se atreviam a chegar. Eu era um desaforado. Se a professora mandava improvisar um diálogo, eu o fazia da forma mais inesperada possível. Se mandava fazer um texto, eu encontrava uma maneira de burlar a estrutura e aprontar um libelo. Se recebia uma tarefa, procurava encontrar o ponto de ruptura dela e distordcê-la, brincar com a sua própria concepção, fazer o feitiço voltar contra aquele que o engendrou. E o desafio era vibrante: romper o esperado de tal forma que, ao mesmo tempo, fosse completamente espantoso e impossível de levar um “zero” ou uma reprimenda. Não foram poucos os trabalhos e provas que foram devolvidos com o comentário de que eu escapara da proposta, mas, pela forma com que desenvolvi meu raciocínio paralelo, merecia algum tipo de nota. Meus professores não tiveram vida fácil. Acredito ter praticado alguma forma de bullying  contra os mestres e, portanto, gostaria de pedir perdão a todos. Acreditem ou não, eu tentava deixar a vida de vocês mais doce, a rotina menos desgastante.

Em um antigo caderno do meu primeiro semestre de Espanhol, descubro, no meio do padrão esperado, linhas que escapam do óbvio. No meio de declinações de verbos e de palavras anotadas, assim como de exercícios para prencher as lacunas, encontro pequenos comentários em espanhol, simulações de diálogos impossíveis, textos que flertam com o nonsense. Como o meu vocabulário era muito reduzido, assim como a capacidade de criar construções mais elaboradas sem incorrer no erro gramatical, eu tinha o desafio de ser criativo usando poucas palavras.

A minha professora de Espanhol era uma menina baixinha, com todo o jeito de ser uma freira, pois mal levantava os olhos e mantinha sempre uma postura de retidão e defesa. Era óbvio que eu testaria os seus limites e, no final do semestre, ela já tinha cunhado uma frase do tipo “só podia ser o Gustavo mesmo”. Outros já chegaram a esta mesma conclusão. Mas, até chegarmos ao ponto em que a professora me aceitou e se resignou, passamos por uma jornada de instabilidades. Por exemplo, este diálogo lido na terceira aula de Espanhol e em que alterei o final de forma intencional, pegando todo mundo de surpresa:

– Hola, ¿, qué tal?

– Muy bien.

– ¿ Qué deseas comer?

– Me encantaría una pasta.

– ¿ Alguna cosa como primer plato?

– Sí, me gustaría unos lagostines, por favor.

– Te sugiro la especialidad de la casa: ensalada de brócoli con pimienta.

– No me gusta nada pimienta.

– Perdón, pero todos los platos tiene pimienta.

– Muy bien, mozo, me gustaría una cerveza entonces. Y un rácimo de bananas.

– ¿ Para comer ahora?

– No, para darte.

O objetivo era fazer um diálogo em um restaurante que incluísse “lagostines”, “pimienta” e “cerveza”. Todo mundo foi da mesma forma convencional, mas eu não resisti, a tentação foi forte. Lembro quando perguntei para a professora como se escrevia “bananas” em espanhol e ela levantou as sobrancelhas, espantada. Naquela época, ela ainda não sabia que devia esperar o inesperado.

Em outro exercício de aula, devíamos escrever um pequeno parágrafo que tivesse verbos no presente e no passado. Sabedora das limitações de nosso vocabulário em espanhol, a professora pediu parágrafos de, no máximo, três linhas. Claro que eu ia tentar extrapolar este objetivo:  será que eu conseguiria escrever um texto literário reduzido com um mínimo de léxico de língua estrangeira? Olhem o que saiu, e com direito a título:

“De hizos a brevas sueños son reales

José y Maria llevaron su hijo, Gabriel, en el parque fin de semana pasado. Después de almozar, ellos miraron el lago y dicidieron nadar. En la mitad del lago, Maria quedó cansada y decidió volver. Ella estaba volvendo cuando olvió pedidos de ayuda; su marido y hijo gritaban. El agua estaba roja; una aleta se movía. Maria volvió para el parque nadando más rápido y, cuando el tiburón comió su perna izquierda, ella preguntó se tiburón vivía en los lagos. Maria despertió: gracias a Dios era un suenõ, un sueño con defecto de fabricación. ¿ Porqué su perna continuaba dolendo? Miró la perna  y gritó: ¿ dónde estaba? El ojo del tiburón brillaba, el agua entró en la alma de Maria.”

(deve ter erros este texto, ele nunca foi apropriadamente revisado. Lembrem que meus conhecimentos de Espanhol na época eram reduzidos).

Quando acabei a leitura, um silêncio quase palpável instalou-se na sala. A professora estava vermelha: depois ela me disse que nunca leu algo que lhe deixou com tanto medo, ainda que eu a considere gentil em tão apreciação, pois o texto nem é tão assustador assim e eu o fiz com pressa.  Passei com um honroso “B” em Espanhol, se bem me lembro: a transgressão das normas é algo apreciado em tese, mas nunca recompensado.

A minha revolta sempre foi ligada ao formulismo, que leva ao emburrecimento e à repetição de antigas técnicas mnemônicas que substituem o raciocínio e o vôo livre da imaginação. Sou um paladino da criatividade; sou um defensor do livre pensamento. Hoje, quando as pessoas perguntam de onde vem a criatividade ou como posso criar pensamentos tão fora do ordinário, elas não tem ideia de que eu faço isto toda hora, todo o tempo, em cada mínima oportunidade que se oferece. Estou treinado para procurar o estranho, o diferente, o anormal.

Isto me faz lembrar o Henry David Thoreau e a sua pregação contra a obediência bovina. Em “A desobediência civil”, Thoreau fala de como a sociedade pode viver sem governo ou sem seguir as ordens de uma entidade superior. Ele era um rebelde: Thoreau queria viver na natureza e não queria pagar impostos, pois se recusava a legitimar um sistema em que não acreditava. Lutava contra a falta de pensamento próprio da sociedade e contra a máquina de convencimento do Estado; Thoreau lutava para ser livre e, para isto, usou a sua pena e a sua criatividade para lutar por aquilo que achava ser certo em todos os momentos da sua existência, mesmo sendo preso e escarnecido.

Henry David ThoreauHenry David Thoreau

Henry David Thoreau

Recordo muito de um trecho do livro: Portanto, o Estado nunca confronta intencionalmente o sentimento intelectual ou moral de um homem, mas apenas o seu corpo, os seus sentidos. Ele não é dotado de gênio superior ou de honestidade, apenas de mais força física. Eu não nasci para ser coagido. Quero respirar da forma que eu mesmo escolher. Veremos quem é mais forte. Que força tem uma multidão? Os únicos que podem me coagir são os que obedecem a uma lei mais alta do que a minha. Eles obrigam-me a ser como eles. Nunca ouvi falar de homens que tenham sido obrigados por multidões a viver desta ou daquela forma. Que tipo de vida seria essa?

Substituindo a ideia de Estado ou do governo por esta sensação de que a criatividade precisa ser tolhida e impedida de vir à tona, percebo que sou um anarquista da imaginação. Não sou uma pessoa que nasceu para ser coagida. Tenho a mente livre. Não gosto da ideia de que existem pessoas – até mesmo meu reduzido e ultra qualificado público leitor – capazes de tolher a minha liberdade de escrita. Vejo muitos escritores por aí escondendo seus pensamentos atrás do politicamente correto, com medo de se exporem demais, com medo do que o público vai achar. Identifico a covardia nos seus escritos pelo cheiro, e isto é a única coisa que não perdoo em matéria de ofício literário. Se eu tiver que escrever algo sobre negros, escreverei. Se eu tiver que escrever algo sobre homossexuais, sim, escreverei. Não é do meu feitio ter medo do que a sociedade pensa. Ela pode ser uma multidão, mas eu acredito em mim, e isto basta.

Quando penso nas pessoas que tentam condicionar os meus escritos ou que têm medo dos que eles próprios produzem, lembro, não com certo orgulho, que eu era uma criança quando comecei a me posicionar diante do professor em defesa do direito de me expressar livremente. Nunca foi uma batalha direta, sempre foi algo sub-reptício, mas foi incessante. Até hoje, nas minhas petições do Direito, já recebi reclamações por conduta imprópria, ironia e sarcasmo, mas não removi UMA PALAVRA SEQUER daquilo que escrevi. Eu já fui processado por calúnia, injúria e difamação por juízes e colegas advogados (venci todos os processos, pois ninguém melhor do que eu para saber os limites da liberdade criativa e aquilo que a lei proíbe de ser publicamente dito) e, até agora, nada nem ninguém foi capaz de me coagir ou censurar.

De certa maneira, ainda sou o menino que tem a voz dissonante, a versão alternativa da realidade. Sei que minha audácia será punida, sei que nunca estarei entre os melhores alunos da aula, e não me importo. Também sei que me divertirei horrores pensando nas surpresas que vou preparar. Assim como Thoreau, sou um revolucionário. Sou um desobediente criativo, e esta é uma das poucas coisas na vida que tenho muito orgulho de ser.

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Filme: “Procura-se um amigo para o fim do mundo” (2012)

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Ontem, dia 20 de dezembro de 2012, o mundo deveria ter acabado. Como era de se esperar, tal fato não aconteceu. Bem, se tivesse acontecido, neste exato momento eu não estaria escrevendo e sim seguindo o plano de sobrevivência traçado muitos anos atrás, ou seja, estaria procurando alguma fonte de água potável e ferramentas que poderiam ser usadas também como armas, tais como chaves de fendas e picaretas. Em seguida, eu… bem, não vou contar todo o plano de contingência, mas ele é suficientemente bem bolado para me propiciar alguns anos de vida calma.

Há algum tempo não escrevia sobre filmes aqui no blog, mas o motivo é simples: quase não tenho ligado a televisão. O excesso de tarefas e de assuntos que devem ser escritos acabou me afastando bastante destas questões mundanas (de quase todas, aliás). Mas estamos em um processo de flerte: agora que os feriados de fim de ano se aproximam, creio que conseguirei ver alguns filmes que estava há tempos com vontade de assistir.

No entanto, antes do mundo acabar, eu assisti este “Procura-se um amigo para o fim do mundo” (2012). Era para ser uma diversão leve, sem grandes consequências e sem as desagradáveis escatologias em que as comédias atuais se tornaram. Aliás, eu diria que sequer é uma comédia, e sim uma tragédia, pois a proximidade do fim do mundo é anunciada na primeira cena do filme. É a crônica de uma morte anunciada – literalmente. Até valeria a pena a discussão dos motivos pelo qual este filme foi listado como comédia ao invés de tragédia ou a proximidade relativa dos conceitos clássicos de tragédia e comédia desde a Antiguidade grega, mas seria um debate longo e excruciante demais, comigo correndo o risco de perder o objetivo maior de analisar o filme.  Um dia prometo retomar o tema.

Desde o momento em que assisti ao trailer, a sua premissa me agradou. Se o planeta soubesse que o seu fim era inevitável, o que aconteceria? Como as pessoas reagiriam se o mundo tivesse um horário pré-determinado e inexorável para encontrar o seu final? Para ser bem sincero, esta premissa, ao mesmo tempo em que chamou a minha atenção, também foi aquilo que mais me preocupou. Os roteiristas deixariam a situação anedótica? Simbólica? Épica? Moralista? Simplória? Religiosa?

A resposta é: todas as alternativas anteriores.  Acredito que, se o fim do mundo fosse tão iminente como o filme deixa claro, realmente aconteceria de tudo um pouco. No entanto, esta opção narrativa me deixou um pouco decepcionado, pois se apoiou em clichês bobos. A relativização das relações familiares, com pais estimulando filhos menores a beber, se drogar e se prostituir enquanto fazem orgias poderia ter sido mostrada de forma mais concentrada e menos histriônica. A circunspecção do apresentador de televisão anunciando o avançar progressivo do final do mundo também soou como algo fora do contexto e inverossímil, em especial quando ele tratava de manchetes ocasionais no meio de lembretes sobre o fim cada vez mais próximo. A cena que envolveu religião, quando os personagens chegaram em uma comunidade que se reunia em torno de um pretenso profeta ou sacerdote não-identificado fazendo batismos e distribuindo perdões, é um clichê tanto de ideia quanto de imagens. Fica evidente um certo caráter pacífico e confortador da religião, e é engraçado quando as imagens de paz parecem cartazes repletos de Photoshop, com o sol brilhando sobre um oceano límpido, com a imagem de crianças correndo e brincando na areia da praia, com os sorrisos e pessoas reunidas em torno de rodinhas de violão. Em contraste com a Sodoma que as famílias se transformaram, a religião é um bálsamo de tranquilidade. Tal escolha de imagens fala muito a respeito das intenções do filme.

A ideia que achei mais característica do clima de um eventual fim do mundo é, não por coincidência, a mais discreta: uma rádio resolve tocar todas as músicas de rock já feitas, em uma programação non-stop. Antigas baladas de rock começam a parecer, passando um clima de nostalgia e despedida. Alguns dos grandes e mais dramáticos momentos de “Procura-se um amigo para o fim do mundo” estão ligados à música.

Enquanto assistia ao filme, notei que ele passou por uma transformação temática. Começou como uma comédia, com a batida de criar cenas engraçadas, e assim prosseguiu até a metade. Não estava gostando muito da primeira metade do filme, pois a comédia parecia incapaz de se sustentar somente no desconforto das situações, e o desânimo do personagem de Steve Carell no meio de um cenário cômico era praticamente uma bomba H contra a intenção de fazer rir. Na segunda metade, entretanto, o filme se assumiu como uma tragédia leve e, neste momento, ele cresceu de intensidade. Os personagens resolveram seus conflitos pessoais, deixando de lado os problemas coletivos que foram o assunto majoritário da primeira metade. Não sei se foi um movimento intencional do diretor realizar esta transição de comédia com ares de histerismo caótico para uma tragédia moderada e melancólica, mas o contraste destes dois extremos acabou se revelando um dos grandes achados do filme. Não se pode esquecer que, na vida, quase sempre começamos rindo e terminamos chorando, ou o contrário.

Até a escolha dos atores principais representou a ruptura dos limites entre comédia e tragédia. Keira Knightley é conhecida por papéis mais dramáticos, Steve Carrell é famoso pelas comédias. Neste filme, eles trocaram de área: Carell é um homem que foi largado pela mulher e que se imaginava condenado a passar sozinho os últimos dias de vida da Humanidade, um personagem trágico e decepcionado, em uma fossa gigantesca que não terá muito tempo para suplantar; Knightley interpreta uma mulher que sempre cedeu toda a sua vida para relacionamentos errados, com a característica de ser quase incapaz de ser despertada após pegar no sono (não lembro se isto é uma doença ou só uma parte da sua personalidade), uma otimista incorrigível, verborrágica e amante de discos de vinil clássicos. A caminhada dos dois em direção a um acerto de contas final com os entes amados lembra muito as conversas de Cândido e o Dr. Pangloss do “Cândido” de Voltaire. Knightley acredita que, se for otimista e confiar que tudo dará certo, o mundo lhe sorrirá de volta; Carell é pessimista, acha que o mundo é um local cruel que, se você sorrir demais, lhe arrancará os dentes na porrada. O filme passa uma ideia de que os otimistas estão com a razão, pois, por acreditar na bondade humana, Knightley é aquela que acaba se saindo melhor. Discordo completamente desta visão de mundo, mas não me impede de sorrir ao ver tamanha ingenuidade narrativa.

É evidente que uma história de amor acabará se desenrolando (clichê n.º 225 – coloquem um homem e uma mulher em uma situação limite e eles irão se envolver romanticamente), o que me faz lembrar do primeiro comentário que falei quando vi o trailer: “não sei o que é mais ficção científica, o mundo acabar ou o Steve Carell ‘pegar’ a Keira Knightley”, hehehehehe, e isto que eu nem a acho bonita. O pessimismo dele se complementa com o otimismo dela, os dois aprendem a chegar a um meio termo, algo bem yin/yang e estas coisas que as pessoas gostam de pensar que acontecem em relações amorosas. Algumas cenas são belas e muito eficientes, ainda que o meu cinismo tenha gritado que, em uma situação limite deste tipo (o mundo vai acabar com hora marcada), não se pode escolher muito o que aparece, é preciso aceitar aquilo que está à mão. Gostei de algumas surpresas do roteiro, como a situação que envolve a busca impossível de Carell por uma namorada da juventude – a única mulher que ele teria amado – e a forma com que ele consegue um avião, através de alta dose de sacrifício pessoal.

O melhor do filme, contudo, foi que ele não teve condescendência ou magia. Tudo se encaminha ao final melancólico anunciado na primeira cena. Um filme também é uma representação de mundo, o término da película também implica no final do universo paralelo para o espectador. Com esta motivação, “Procura-se um amigo para o fim do mundo” revelou a sua completa disparidade, pelo menos para os meus objetivos: imaginei assistir uma comédia e era uma tragédia; imaginei que seria uma história de amor impossível e o plot principal foi um otimista e um pessimista juntando forças e suprindo suas solidões internas; imaginei, depois de anos de dominação hollywoodiana na cabeça, que um deus ex-machina interviria para salvar o mundo e isto também não aconteceu (acredito que não, pelo menos). E, como todo filme que ficou a meio caminho das minhas expectativas, este também ficou a meio caminho da aprovação completa. Não é ruim, mas também não é excelente, e serve como um bom entretenimento. Em especial para as minhas simulações mentais de como seria o fim do mundo – ainda que devo admitir que, se alguém entrar no meu apartamento pela janela, não vou perguntar o nome ou as intenções. Só vou mexer a picareta.

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Resenha nova no Amálgama

Saiu outra resenha minha no Amálgama (www.amalgama.blog.br). Desta vez, eu trato de Nikolai Leskov, um escritor russo contemporâneo de Dostoiévski, Tolstói e Tchekhóv – e admirado por todos eles.

Eu li e comprovei: Leskov é um mestre da literatura. Suas histórias são aparentemente simples, mas ele possui uma incrível capacidade de flagrar a vida e transcrevê-la da forma mais luminosa possível. Sabe mexer com as emoções como ninguém: em alguns momentos, tive que suspender a leitura por estar muito emocionado e, em outros, tive que parar por causa das risadas.

Segue o link:

http://www.amalgama.blog.br/12/2012/a-fraude-e-outras-historias-nikolai-leskov/

Boa leitura!

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Planejando o Apocalipse das formigas com Musashi e Maquiavel

Há questão de um mês, enfrento com galhardia e um pouco de desesperança uma praga de formigas trazida pelo calor impossível que está flagelando o Rio Grande do Sul. Por semanas, tentei entender o ponto de origem ou interceptar as linhas de suprimento. Parecia uma tarefa fadada ao fracasso, pois descobri que o veio principal de onde elas saíam é o poço de luz que liga a fiação da casa ao resto do prédio. Ou seja: não conseguirei chegar ao formigueiro central, a não ser que diminua de tamanho e caminhe pelos canos e caneletas atrás das paredes de onde moro. A batalha virou algo homem a homem, ou formiga a formiga. Uma guerra de trincheiras.

Não bastando tal azar, praga simultânea se abateu no meu banheiro: cupins. Já espalhei veneno por todo o local, mas, a cada dia que passa, eles surgem vivos ou mortos. Se começarem a morrer primogênitos, acreditarei que as pragas do Egito estão se replicando em miniatura dentro do meu apartamento.

Contudo, semana passada, descobri um detalhe interessante. Vi alguns cupins debatendo-se, enfrentados por resolutas e ferozes formigas. O inimigo do meu inimigo tornou-se meu amigo. Penso em manobrar esta guerra: colocar uma trilha de migalhas de pão conduzindo as formigas da cozinha até o outro adversário. Se aumentar os contingentes das tropas do banheiro, pode ser que elas vençam os cupins com maior rapidez. Penso nos imperativos morais e éticos de manipular a Natureza desta forma e, sinceramente, não me importo. Vencer é tudo e se, para tanto, for necessário usar truques sujos, bem, que vença o melhor.

Gosto muito de livros de estratégia. O planejamento e a capacidade de ver um cenário hostil com olhos calmos e calculistas lembra muito o jogo de xadrez. Existe algo de hipnótico em projetar os pensamentos do inimigo, antevê-los, preparar-se para ele e, ao final, conduzi-lo à submissão. É o que faço diariamente no Direito. No entanto, ao contrário do pessoal, que adora um clichê até na hora de escolher livros, não dou muita atenção para “A Arte da Guerra”, do Sun Tzu. Sou realmente fascinado pelo “Go Rin No Sho”, ou “O Livro dos Cinco Anéis”, do Miyamoto Musashi.

A diferença entre eles é gritante: Sun Tzu se concentra nas táticas dos exércitos, no coletivo; Musashi é mais intenso, pois trata das batalhas individuais. A lição que ele coloca no primeiro capítulo é vital: a estratégia para vencer um homem em nada difere da tática de vencer 100 ou de vencer um milhão.

Miyamoto Musashi, o maior de todos os guerreiros, aquele que nunca perdeu uma batalha.Miyamoto Musashi, o maior de todos os guerreiros, aquele que nunca perdeu uma batalha.

Miyamoto Musashi, o maior de todos os guerreiros, aquele que nunca perdeu uma batalha.Miyamoto Musashi, o maior de todos os guerreiros, aquele que nunca perdeu uma batalha.

Musashi ensina o Caminho do Guerreiro, que passa necessariamente pela aceitação resoluta da morte, da derrota completa. Somente aceitando tal fato um homem pode se tornar invencível. É uma lição importante. Sabendo de tal destino, o homem nada mais tem a temer, pois já está morto na Terra. As Nove Regras que a pessoa deve seguir para se tornar um mestre de estratégia, capaz de vencer inimigos somente com um olhar, podem ser usadas em qualquer aspecto da vida mínima:

1- Não pense com desonestidade.
2- O Caminho está no treinamento.
3- Trave contato com todas as Artes.
4- Conheça o Caminho de todas as profissões.
5- Aprenda a distinguir ganho de perda nos assuntos materiais.
6- Desenvolva o julgamento intuitivo e a compreensão de tudo.
7- Perceba as coisas que não podem ser vistas.
8- Preste atenção até ao que não tem importância.
9- Não faça nada que de nada sirva.

Todo dia exercito estas regras, em especial as últimas quatro. Ser capaz de analisar as próprias condutas e percepções de uma forma crítica é um constante teste para a paciência e para o auto-conhecimento. Quando as pessoas não enxergam estranhezas que eu vejo de forma natural, oscilando nos ares, rodeando seus sentidos, percebo que tudo é uma questão de ponto de vista. A Literatura é somente um olhar diferente sobre o mesmo mundo que nos cerca, e nada mais.

Uma das minhas técnicas de batalha preferidas se chama “Prender a Almofada”. Significa impedir que o inimigo levante a cabeça e consiga formular uma estratégia. Deixá-lo perder tempo com ações inúteis, desperdiçando uma energia preciosa, enquanto perturba a paz interna do outro bloqueando as suas ações úteis. Fazer o inimigo consumir-se na sua própria energia até o momento em que se passa ao controle dos atos do outro.

Não é tão difícil quanto parece. As formigas ainda não sabem, mas todos os atos que tomei nos últimos dias levaram-nas a uma batalha desesperada contra os cupins. Controlei os pontos de acesso ao apartamento e tive que ceder à evidência de que elas se esgueiram por entre os canos internos do prédio. Bloqueei os locais onde elas costumavam se aglomerar. Dediquei-me à uma limpeza exaustiva e diária dos pontos onde poderiam existir farelos de comida. Transformei a vida delas em um inferno em toda a casa, mas mantive o banheiro intocado. Espero que os canais de comunicação funcionem, espero que formigas famintas avancem como as hordas do Apocalipse para cima dos invisíveis cupins que não consigo achar. Depois que liquidarem com a tarefa, então concentrarei o veneno que as repugna em um único local da casa: o banheiro, onde o Waterloo delas será travado. O trabalho para vencer uma formiga será o mesmo com que vencerei 100 milhões.

Ah, sim, como os leitores atentos devem ter percebido, eu gosto muito de Maquiavel. Talvez um dos maiores erros que a Faculdade de Direito cometeu tenha sido me forçar a estudar e fazer trabalhos detalhados sobre “O Príncipe”. E acredito que Musashi teria muito orgulho ao ver que sigo as Nove Regras, mesmo em uma coisa tão aparentemente banal como uma erradicação de pragas domésticas. Pelo menos até o dia em que eu entrar no banheiro e ver uma formiga gigante me esperando, mexendo antenas peludas, o corpo fornido por cupins que eu acabei fornecendo, um verdadeiro Leviatã criado pela minha pretensão.

Assim como a Guerra pode acontecer em um minúsculo banheiro, a Literatura também aflora em locais estranhos, indevassáveis. Íntimos.

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Memento mori (2)

Depois que morrem, algumas pessoas são enterradas. Outras continuam vivendo em caixões formados por roupas, em casas marcadas com o símbolo da escuridão, em dor tão imensa que o toque do sol representa uma carícia intolerável.

Não gosto de velórios. Quem vai, diz que devemos nos lembrar da morte e homenagear os que foram ao seu encontro. Para mim, a Morte caminha entre os convivas, anotando nomes que esqueceu, fazendo desenhos de lápides imaginárias no seu caderno de notas.

Os estoicos dizem que viver é se acostumar com a morte, é tê-la sempre em mente, é saber que cada segundo pode ser o derradeiro. Memento mori, aí está a chave para uma vida feliz. Mas, e a Morte, será que ela se acostuma conosco?

Vejo esta foto, da mulher sequestrada pelo luto. A Morte andará ao seu lado a partir deste momento; a mulher ceará com ela, dormirá com o seu espectro incômodo, dividirá cada mínimo fato da sua existência com a companheira silenciosa da recordação do morto. A sociedade esquecerá o seu rosto, as curvas do seu corpo, enquanto o abismo de pano a cerca e se serve das suas carnes tenras como se fosse um verme cheio de gula. Até o dia em que a Morte ficar enfastiada e levá-la para o outro lado, para brincar nas paragens ermas.

Lembremos da Morte. A roupa negra talvez esconda o rosto e o corpo de quem se recorda dela todo dia, mas não é garantia de vida eterna. Neste exato instante, em algum velório, a Velha Senhora caminha, escutando trechos de conversas, lembrando nomes e rostos que já não recordava, preenchendo com paciência o seu bloco.

Um dia, seu nome estará nele.

ppp

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O amor é o homem inacabado: Éluard e a dança sem música

Ontem, durante festa de casamento em Bento Gonçalves, minha atenção acabou sendo desviada para a dança de um casal. Eram um homem e uma mulher de mais de sessenta anos, vestidos de forma sóbria, apesar do calor excessivo aconselhar certa informalidade. Eles dançavam passos antigos, sábios, de quem já esteve em muitos lugares e partilhou de diferentes alegrias.

O fato é que estavam dançando techno. Ou algum outro “pancadão” do mesmo estilo.

Enquanto toda a pista dançava de forma desordenada, aos gritos e pulos, o casal de velhinhos trocava passos com as bochechas coladas. Lentos. O pé dele alternava de posição com o dela. Não erravam um passo. Às vezes aceleravam, em outras diminuíam. Sabiam o ritmo dos corpos. O único problema é que dançavam algo diferente da música que estremecia o salão como as trombetas de Jericó em um dia de fúria.

O que eles estavam escutando? Com certeza não era a mesma música que eu estava ouvindo (eu e meio universo). Eles estavam em outro mundo; escutavam uma melodia sem som, sentiam um ritmo sem existência. E era a mesma música interna, pois não erravam passos.  Talvez uma música do passado, talvez a música que eles compuseram juntos no silêncio de anos de convivência. Ou, talvez, a música não importa, nunca importou, e o que realmente vale a pena é sentir o ritmo que mora no outro.

Admiro estas pessoas capazes de parar o caos do cotidiano e fazer o Tempo interno delas virar o tempo do universo. São pessoas preparadas para qualquer situação. O telhado do salão poderia cair sobre a cabeça deles que não atrapalharia a sua dança. O mundo podia estar desmoronando e os passos continuariam vagando, etéreos, sem dar atenção para o desaparecimento do solo.

Nesta hora, lembro do poeta Paul Éluard (1895-1952), um dos criadores do movimento surrealista na França, conhecido em todo o mundo como “O Poeta da Liberdade” por ter lutado durante toda a sua vida contra todas as formas de dominação política. Lembro que o famoso poema “Liberdade” foi despejado por aviões ingleses no solo da França para motivar a Resistência francesa a continuar combatendo os nazistas.

Gosto de Éluard. Era um homem corajoso e capaz de defender as suas posições sempre com garra juvenil. Seu espírito não envelhecia. Ao contrário dos outros surrealistas, que pregavam a linguagem como um objeto a ser destruído e ela própria um meio de destruição, ou seja, a linguagem como inimiga, Paul Éluard considerava a linguagem com um propósito definível em si mesma, algo capaz de se bastar por si só e de nos levar a outros mundos e esferas de compreensão. (Hoje ainda afirmei que a realidade é uma cebola, e as pessoas olham só a casca mais superficial e corroída dela, esquecendo que, embaixo do aparente, existem várias camadas de outras realidades, tudo dependendo de qual ângulo se observa o assunto e até onde se deseja cavar. O mesmo acontece com a linguagem, esta sucessão de Tróias enterradas uma debaixo da outra, todas fadadas à destruição e ao renascimento).

Como todo poeta, Éluard era um homem apaixonado. Foi o primeiro marido de Gala, que depois o trocaria por Salvador Dalí, virando a musa do pintor. Em seguida, conheceu Nusch no sanatório para tratamento da tuberculose, com quem se casou e passou períodos de extrema felicidade. A morte da esposa acabou lhe surpreendendo e, por muitos anos, ele viveu em total infelicidade, descrita com detalhes no livro “Do horizonte de um ao horizonte de todos”, em que seus primeiros poemas são repletos de tristeza e angústia e, à medida em que a obra evolui, ele chega não à felicidade completa, mas à capacidade de admitir que pode viver sem amar. É desta época o poema que sempre recordo em momentos de tristeza:

Dificilmente desfigurado

Adeus Tristeza

Bom dia Tristeza

Você está inscrita nas linhas do teto

Você está inscrita nos olhos que amo

Você não é a pobreza absoluta

Desde que o mais pobre dos lábios denuncia você

Com um sorriso.

Éluard e Nusch. No espaço do olhar, palavras que não precisam ser ditas e uma música os une. É possível sentir.

Éluard e Nusch. No espaço do olhar, palavras que não precisam ser ditas e uma música os une. É possível sentir.

Éluard achava que jamais amaria outra mulher depois de Nusch. No entanto, conheceu Dominique Lemor e se apaixonou de novo, em total entrega. Escreveu um livro saudando o reaparecimento do amor na sua existência dolorida e o chamou de “O Phoenix”. Um ano após se casar, Éluard morreu.

Antes disso, ainda na sua fase depressiva, o escritor francês fez um poema que sintetiza, de certa forma, aquilo que assisti ontem na pista de dança:

O Amor é o Homem Inacabado

Todas as árvores com todos os ramos com todas
[as folhas
A erva na base dos rochedos e as casas
[amontoadas
Ao longe o mar que os teus olhos banham
Estas imagens de um dia e outro dia
Os vícios as virtudes tão imperfeitos
A transparência dos transeuntes nas ruas do acaso
E as mulheres exaladas pelas tuas pesquisas
[obstinadas
As tuas ideias fixas no coração de chumbo nos
[lábios virgens
Os vícios as virtudes tão imperfeitos
A semelhança dos olhares consentidos com os
[olhares conquistados
A confusão dos corpos das fadigas dos ardores
A imitação das palavras das atitudes das ideias
Os vícios as virtudes tão imperfeitos

O amor é o homem inacabado.

O casal na pista de dança ontem mostrou-me que o importante não é amar, e sim nunca parar de amar. O homem é um ser inacabado, inconcluso, fragmentado. Quando se torna capaz de escutar uma música invisível e dançar com alguém aquilo que somente os dois espíritos conhecem, ele atinge a sua essência. A ausência de um ecoa no preencher do outro. As peças do quebra-cabeça encontram seu sentido, a ranhura que lhes complementa. Élouard amou e foi trocado por Dali; amou de novo e a morte veio lhe tirar a felicidade. Qualquer homem aceitaria a sua sina e morreria sozinho, mas o poeta amou mais uma vez, a última. Como uma fênix, venceu a tristeza e voltou a escutar o som da alma de outra mulher.

Em todas as vezes que amou, Éluard entregou-se de forma juvenil ao viço do sentimento. Pablo Picasso, comentando a poesia do amigo, disse-lhe: “Você segura a chama entre os dedos e pinta como um incêndio”. Por muito tempo, pensei que ele estivesse se referindo à intensidade do poeta francês. Ontem, observando a dança quase impassível que cortava aquilo que era o esperado no salão de festa, a frase atingiu um novo significado: ele amava a linguagem da mesma forma com que amou as três mulheres – de forma delirante, visceral, violenta. Éluard dançava com as palavras uma música que somente os dois entendiam. Escrever era uma forma de completar a sua alma. Escrever era também dançar no escuro, com um parceiro imaginário.

Acima do techno, acima do ruído, existia uma música que aquele casal de idosos estava escutando e acompanhando com seus passos tímidos de dança. A capacidade de completar o abismo do outro e dançar uma música invisível – isto sim é amar. Isto sim é escrever.

* E esta postagem é uma comemoração a vocês, caros leitores que me completam, e que hoje fizeram este blog atingir DEZ MIL VISUALIZAÇÕES (10.012, para ser mais exato). Muitíssimo obrigado pela leitura e, se já achei um milagre chegar a 1.000 visualizações, 10.000 é simplesmente enlouquecedor. Obrigado mesmo.

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