Arquivo do mês: abril 2015

Os grandes momentos que perdemos sem saber

Claro que tenho segredos, todo mundo tem. O mistério sobre os motivos que me fazem deixar um pouco de café no fundo da xícara, nunca secá-la por completo, já deu margem às mais divertidas suposições. A forma randômica com que me comporto em congressos, às vezes assistindo palestras que não se relacionam em nada com meus estudos, é outro assunto que desperta certa perplexidade e, por conseguinte, as mais variadas hipóteses. O fato de ser um abstêmio declarado e, em raríssimas ocasiões, dependendo da companhia e do momento, beber álcool, é considerado por algumas pessoas próximas como uma grande deferência que concedo, ainda que nunca expliquei qual o gatilho que me faz beber álcool em um momento e recusar peremptoriamente no outro. A esta altura da vida, todos sabem que tenho medo de galinhas, mas poucos conhecem da minha absoluta aversão e ojeriza ao som (e ao cheiro) de miliopã sendo triturado por dentes humanos. Sou alguém que preserva bem os seus segredos.

Um dos mais bem guardados – percebido, até hoje, por poucas pessoas – é que, mesmo não sendo fanático por doces ou sobremesas, toda vez que eu ver uma torta macron à venda, não interessa o lugar, será sempre meu pedido.

Não é o doce mais bonito do mundo: não sei se já vi duas tortas macron iguais, depende muito das noções estéticas do cozinheiro. A combinação do amarelo dos ovos com o branco do coco queimado e a escuridão das ameixas não é algo bonito de se apreciar. Da mesma forma, também não é a torta mais gostosa que existe, pois seu sabor é, ao mesmo tempo e de forma desigual, doce e amargo.

No entanto, ainda assim peço a torta macron, em um misto de esperança e desencanto. Pois estou procurando uma que não mais conseguirei achar.

 

 

Torta macron encontrada ontem, na Bella Gula.

 

Quando eu era criança, no dia do aniversário, era costume familiar que o aniversariante escolhesse as suas comidas favoritas para celebrar a data. Sempre pedi as mesmas, não gosto muito de inovações, sou fiel às minhas preferências: invariavelmente, pedia almôndegas, feijão mexido e, de sobremesa, uma torta macron – pois imaginava que somente a minha avó fosse capaz de fazer uma torta macron. Considerava um doce de extrema complexidade, algo que já possuía um mistério na sonoridade do nome, destinado para uma ocasião especial. Imaginava princípes e mercenários comendo tortas macron e tecendo conspirações,  pensava em um doce subversivo, para ser degustado em porões e cantos escuros, ou até mesmo algo cuja fórmula quase alquímica deslizava por entre as gerações, um segredo a ser mantido à custa de sangue.

Minha avó nunca explicou o motivo da torta macron ter este nome, e muito menos como aprendera a fazer. Sempre foi o doce que imaginei como meu, feito especialmente para me celebrar.

Depois que a minha avó morreu, a torta macron nunca mais teve o mesmo sabor. Algumas vezes, minha mãe ainda faz, lembrando deste meu gosto antigo, mas – ainda que seja boa – não é mais a mesma. É outra. Tem os mesmos ingredientes e carinho, mas o sabor se alterou.

Não lembro mais o gosto exato da torta macron da minha avó. A cada dia que passa, ele fica mais perdido em algum desvão da memória. Tinha um gosto de maravilha. Recordo, contudo, que possuía um traço único, algo que identifico – de forma estranha – com angústia, com as areias inquietas de uma ampulheta, com o som de um grito na madrugada. Com algo que não tem nome ainda.

Não era a melhor torta macron de todas; já comi algumas realmente espetaculares, encarei versões criativas e releituras da receita tradicional, degustei o trabalho de alguns chefs e suas receitas próprias sobre os mesmos ingredientes, estive diante de tortas feitas com amor e outras com desleixo quase criminoso, assim como coloquei na minha frente tortas que, de macron, só tinham o nome e mais nada.

No entanto, ainda não achei a torta que estou procurando. Aquela que, um dia, me pertenceu.

Também tenho a certeza dolorosa de que  não vou mais encontrá-la. De que devorei a perfeição por cinco ou seis vezes em uma vida inteira, e não sabia disso.

Se existe algo que a vida me ensinou, é a irrepetibilidade. Cada momento nunca mais se repetirá. Cada sensação nunca mais será experimentada. Cada sonho, nunca mais será encontrado. Achamos que tudo pode ser repetido, mas o instante já se foi. Em alguns casos, a perda pode ser cruel. Podemos perder uma alegria, um sorriso distraído da outra, um toque inesperado no braço, um amor – tudo por que acreditamos cegamente que ainda há tempo, que sempre há, quando, na realidade, o tempo passou. Só perdemos tempo na vida. Devemos prestar atenção nos momentos, aproveitá-los ao máximo antes que eles desapareçam – pois sumirão tão rapidamente quanto surgiram.

Deveria ter pedido mais tortas macron, não esperar somente o dia do meu aniversário. Deveria ter perguntado qual a receita usada. Deveria ter valorizado mais o momento que estava vivendo, não achar que ele seria eterno.

Deveria ter aproveitado mais a existência da minha avó.

O momento se foi e, hoje, só me resta pedir uma fatia de torta macron em algum restaurante anônimo e comê-la devagar, com a doce – e amarga – ilusão de que posso encontrar aquilo que perdi. Todos os momentos únicos que deixei passar.

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A lápide vazia

Quando estive em Minas Gerais, a opulência do barroco chamou minha atenção, tanto que manifestei neste blog o fato de ter, às vezes, saudade dele (http://wp.me/p24M2p-13). Também falei, de forma breve, sobre as obras de Aleijadinho e a forte impressão que me causaram (http://wp.me/p24M2p-7G), em especial os olhares cheios de sentimento das estátuas. Olhares humanos presos na pedra.

Uma imagem ainda recorrente na minha memória é o Panteão dos Inconfidentes, localizado no Museu da Inconfidência, em Ouro Preto, MG.

É uma sala vazia, feita de pedra. No chão, estão dezesseis lápides, cada uma pertencendo ao inconfidente cujos restos mortais foram recuperados no estrangeiro – para onde eles foram expulsos – e trazidos de volta para o Brasil. Naquela sala, os dezesseis conspiradores de então continuam juntos, e só podemos imaginar as conversas que estão travando. Conversas cheias de esperança ou sussurros de medo? Não sabemos. Espero que não tenham desistido dos seus ideais republicanos, ainda mais depois de tudo que aconteceu na História do país. Espero que ainda tenham a mesma fé na liberdade do povo que tiveram no passado e pela qual perderam a vida e os seus mais estimados bens pessoais.

Ao entrar no Panteão da Inconfidência, tive uma sensação análoga àquela que experimentara quando entrei no subterrâneo da casa de Tomaz Antônio Gonzaga. Quantas palavras, quantos sonhos, quantos poemas estão presos naquele lugar, reverberando entre as paredes, anônimos e esquecidos! Na casa de Gonzaga, os inconfidentes se reuniam ao redor da ampla mesa, longe dos olhos inimigos, discutindo liberdade e um outro mundo; no mesmo local, nos momentos de solidão, o poeta Tomaz Antonio Gonzaga sonhava com Maria Dorotéia e a transformava em Marília nos poemas. Sempre considerei que a luta política e a luta pela conquista do coração de uma única mulher tem pouquíssima diferença.

Tudo perdido. Tudo em vão. Nem os inconfidentes ganharam, nem Tomaz conseguiu ficar com a mulher amada. No entanto, as consequências dos seus sonhos duram até hoje.

panteao

Um detalhe literário (talvez) delicioso é que, na sala ao lado do Panteão dos Inconfidentes, estão outras lápides, entre elas o cenotáfio de Barbara Heliodora, a esposa de Alvarenga Peixoto. Seus restos mortais nunca foram encontrados e, assim, só restou a possibilidade de construir um monumento em memória ao corpo ausente. Barbara foi considerada por Aureliano Leite como a “Heroína da Inconfidência”, pois estimulou ideais libertários no marido – inclusive quando ele fraquejou e quis desistir – e, depois de Alvarenga sofrer o degredo para Angola, permaneceu cuidando da casa e dos filhos. É considerada a única mulher inconfidente, e a História, esta injusta, acabou a excluindo do Panteão principal. Barbara Heliodora era também uma poetisa, mas não se sabe quase nada da sua obra, e o pouco que conhecemos é colocado em dúvida. Uma escritora cujos poemas desapareceram no tempo, foi afastada do homem que amava e declarada louca para que roubassem os seus bens – não sei se existiu maior castigo do que este.

Outro detalhe literário interessante é que, ao lado de Barbara Heliodora, encontra-se a lápide com os restos mortais de Maria Dorotéia Joaquina de Freitas, a qual entrou para a História como “Marília de Dirceu”. Nem na morte Tomaz Antônio de Gonzaga conseguiu o seu intento, e existe uma ironia cruel nisto. Continua separado de Marília, desta vez a uma sala de distância, sem o consolo de espiá-la de vez em quando ou de sentar-se junto à mesa e tentar capturar o amor sonhado através de palavras. Um amor que nasceu para nunca ser realizado – eis o pior e mais intenso dos sentimentos.

No entanto, a mais fascinante das lápides do Panteão dos Inconfidentes é a décima sétima: a dedicada aos inconfidentes anônimos, aqueles que morreram pela causa e cujos nomes foram apagados de todos os registros. Nesta lápide vazia, encontra-se inclusive Tiradentes,  destruído de tal forma que sequer sabemos como era o seu rosto.

Lápides sem nomes são muito simbólicas. Apesar de não possuírem nenhum corpo pelo qual possam clamar responsabilidade, também podem conter quem quisermos. Em momentos que é esporte reclamar do país ou considerar tudo como fruto da nossa bagagem cultural, minha mente vaga até entrar novamente no Panteão dos Inconfidentes, e a pergunta que faço é a mesma que me consternou na época: eu mereceria estar debaixo desta lápide, ao lado dos meus sonhos, ideais e projetos? Ou deveria ficar fora dela, no meio da multidão que prefere assistir ao invés de realizar?

Contudo, com o passar dos tempos, o que existe na minha memória não é mais o Panteão dos Inconfidentes, e sim o Panteão dos Gustavos que se foram e não vão voltar mais. Todos temos um local assim, mas poucos são os que se atrevem a visitá-lo. Lembrar também é uma forma de homenagear. Todos os dias, entro nesta Panteão mental e lembro de um outro Gustavo que morreu, às vezes com saudade, às vezes com tristeza, em muitas com ironia.

Apesar disso, a lápide vazia no centro deste Panteão interno me assusta, pois diz que outros Gustavos ainda virão. Até o dia em que o último – eu – escrever meu próprio nome no meio do silêncio da pedra.

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Texto novo no Literatortura (16/04/2015): “Sobre ser um estrangeiro dentro da realidade”

Saiu texto novo no Literatortura. Desta vez, eu trato dos artistas, esta raça que se esgueira pelo mundo e insiste em repudiá-lo, pois estar com outras pessoas machuca demais. Participações especiais do Tchekhov (com a pior descrição da mulher amada já feita) e do Cortázar, que grita a verdade – somente os livros dão algum sentido para a existência. Segundo ele, os gatos também, mas daí é questionável.

Espero que gostem.

 

Sobre ser um estrangeiro dentro da realidade

Labirinth 2, Marcel Chirnoaga

 

Eu realmente admiro as pessoas que conseguem viver no mundo real. Admiro a sua capacidade de se concentrarem nos fatos, de não verem possibilidades enlouquecedoras em cada mínimo voo de uma borboleta, de serem incapazes de deixar a mente vagar como cavalo selvagem em uma noite de inverno. É necessária muita perícia para não sucumbir ao devaneio. Todos os dias, a imaginação esmurra as portas da realidade para tentar dar o seu ponto de vista, e aqueles que conseguem manterem-se íntegros dentro dos confortáveis muros de concreto do cotidiano são pessoas admiráveis, os que levam o mundo nas costas.
Escrevo isto por que existe toda uma ideia de que artistas são pessoas felizes por serem criativas e enxergarem o mundo sem os grilhões enfadonhos da realidade. É um erro: não existe artista feliz. A história das artes pode dizer sobre pintores, escultores e escritores e a sua luta infinita em busca da felicidade, luta esta que termina com eles doentes, bêbados, deprimidos ou mortos. Pessoas contentes são incapazes de produzirem arte, pois ela nasce do desconforto com o universo, da angústia com o outro, do medo primitivo. Quem está feliz, é muito ocupado mantendo esta condição, e não tem tempo para expor seus receios em uma obra de arte. A infelicidade é uma condição artística essencial; somente os descontentes sabem o que faz falta no mundo.
Mas existe algo pior do que estar previamente sentenciado à infelicidade. É o constante sentimento de inadequação, de não ser parte deste mundo. A busca infrutífera por um isolamento dos outros e de si mesmo, a criação de espaços seguros onde possa desenvolver o trabalho em paz, os longos silêncios, todas são manifestações externas do fato de que, apesar de ansiarem pelo convívio com outros seres humanos, artistas farão de tudo para evitá-los. As tragédias e comédias humanas são parte indissolúvel do ato criativo, mas, de forma paradoxal, conhecer e interagir com as pessoas é algo que machuca. Cada história alheia escutada é um aguilhão de dor; cada necessidade de ser agradável ou simpático por causa de convenções sociais afasta-nos da perfeição da obra, a qual conseguimos visualizar com riqueza de detalhes. Está ali, ao alcance da mão, tão próxima e tão distante que chega a desesperar.
É quase impossível de explicar. O próprio Tchekhov,em carta enviada para a sua esposa Olga Knipper em 01º de setembro de 1902 teve dificuldades de explicar como era estar ao lado de alguém que amava sem estar presente de forma completa: “Você escreve que eu sou capaz de viver com você em silêncio completo, que só precisa agir com você como um ser humano e você se sente estranha comigo e é estranha para mim. Querida, você é minha esposa, quando você vai entender? Você é a pessoa que está mais próxima a mim, minha querida; Eu te amo infinitamente, mas eu te amo, e a descrevo como uma mulher agradável que se sente isolada e sozinha … Bem, é como você quer, se não há outro remédio.” Quando faltam palavras para Tchekhov explicar o turbilhão de emoções que se esconde nas suas atitudes, e para a mulher que amava, é por que o problema é mais sério do que imaginamos.

Olga Knipper reclamava que Tchekhov conseguia viver com ela em silêncio absoluto, que eles agiam entre si como se fossem estranhos. É algo compreensível; a cabeça de Tchekhov estava povoada por imagens, por personagens, por restos de diálogos, por palavras soltas. Sobrava muito pouco para se concentrar no cotidiano, mesmo que este fosse a mulher amada. A descrição dele para Olga, “a descrevo como uma mulher agradável que se sente isolada e sozinha”, é tão desprovida de sentimentos que até os personagens de papel do contista russo são mais pulsantes do que a mulher viva ao seu lado.
O escritor que melhor se deteve sobre esta sensação de ser um estrangeiro dentro da realidade foi Julio Cortázar que, em um ensaio curto chamado “Do sentimento de não estar totalmente”, falou sobre o estranhamento que sempre sentiu em relação ao resto do mundo: “Desde pequeno assumi com os dentes apertados essa condição que me afastava dos meus amigos e ao mesmo tempo os atraía para o estranho, o diferente, aquele que botava o dedo no ventilador. Eu não estava destituído de felicidade; a única condição era coincidir às vezes (o colega, o tio excêntrico, a velha maluca) com outro que também não coubesse direito nos próprios documentos, e evidentemente não era fácil; mas logo descobri os gatos, nos quais podia imaginar a minha própria condição, e os livros, onde a encontrava por inteiro.” Cortázar chama isso de “sentimento de não estar de todo”, e está na gênese da poesia, uma vez que o poeta não pode estar imerso no mesmo cotidiano das demais pessoas, precisando criar a sua própria esfera subjetiva da realidade, pois senão seria incapaz de fazer uma poesia. Quando alguém consegue se desviar e não se sentir mais parte da realidade, é possível criar uma nova versão dela.
Às vezes, as pessoas perguntam: de onde surgem as ideias? De qual lugar brota a inspiração? Existe uma certa curiosidade voyeurística aí, algo que vem dos nossos antepassados e a sua noção de que os artistas eram seres bafejados por espíritos superiores, as Musas. Os grandes livros da Humanidade nasceram com exortações iniciais pedindo o auxílio das Musas: a “Ilíada” e a “Odisseia”, de Homero, a “Eneida”, de Virgílio, “Os Lusíadas”, de Camões, para ficar em alguns. Hoje as Musas estão aposentadas, mas não são poucas as pessoas que insistem em tentar descobrir a nascente no Nilo, o local onde brota o primeiro veio da inspiração e da criatividade. É uma discussão fadada à inutilidade. Toda pessoa que devaneia é um artista em potencial, a diferença é que artistas colocam as suas obras em um meio físico. No entanto, o sentimento de inadequação e não-pertencimento ao mundo jamais desaparece, e esta é a agonia que separa os artistas das demais pessoas: são homens e mulheres que não conseguem se ajustar e, por isto, andam em constante sofrimento, deixando pedaços seus pelo mundo que os renega, trazendo beleza ao custo – pesado, mas, ainda assim, válido – da própria sanidade.

 

(Texto presente no link http://literatortura.com/?p=24185 )

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