Arquivo do mês: dezembro 2013

Aos que me viram morrer ontem

Acordei hoje surpreendido com a notícia de que morri na noite passada.

Um atropelamento na Cidade Baixa. Foi fulminante. O carro me acertou de jeito e jogou-me longe. Provavelmente já caí morto no chão.

Morrer acontece.

Duas amigas mandaram mensagens pelo Facebook, preocupadas (desesperadas), querendo saber se era eu mesmo, se não era um engano, se elas não tinham se equivocado. Eu não sei. Alguém morreu ontem, mas alguém morre em algum lugar do mundo todos os segundos do dia. Não me espantaria que eu tivesse dobrado a esquina e encontrado a morte correndo velozmente pelas ruas, embriagada pela vida. Eu ou outro eu; existem muitos por aí.

(Diverte-me a ideia de que existam vários Gustavos caminhando impunes por aí, aparecendo e desaparecendo de lugares, criando místicas e profundezas. Já ouvi relatos incríveis de coisas que não fiz; eram tão vívidos que não podiam ser invenções. Nesta conjuntura, não espanta que alguns Gustavos acabem encontrando o seu fim e outros o seu início. E o mesmo deve ocorrer com cada um de nós – não acredito no princípio da eterna criatividade divina, simplesmente não posso acreditar que exista um demiurgo ou uma combinação de características biológicas capazes de engendrar SETE bilhões de pessoas diferentes, é evidente que existem pessoas duplicadas e replicadas por aí).

Alguém disse que, cada vez que matamos um homem, é como se matássemos cada homem do mundo.  A julgar pela quantidade de pessoas que me mata por aí, já exterminei a Humanidade algumas vezes. Cada vez que sou informado de que morri (não é a primeira vez, o conto “Vivo morto” de “O Homem Despedaçado” conta uma destas histórias), interrogo-me se isto não aconteceu mesmo. Eu, filho do carbono e do amoníaco, estarei mesmo vivo? O que me faz ter tal certeza? Aliás, o que é estar vivo? Não sei. Só sei que alguém morreu ontem na Cidade Baixa, atropelado, e os rumores diziam que tinha sido eu.

As pessoas superestimam a morte, mas também dão valor excessivo à vida. Estamos morrendo desde o momento em que viemos ao mundo. Recentemente li que o oxigênio que nos dá a vida também é aquele responsável por exterminá-la aos poucos; o oxigênio é um veneno sem o qual não podemos viver, mas o custo de consumi-lo são as doenças, a velhice, a deterioração lenta e inexorável.  Fernando Pessoa disse Sem a loucura que é o homem // Mais que a besta sadia, // Cadáver adiado que procria?” ou, na frase de Epicteto, “o homem não passa de uma pequena alma carregando um cadáver”. Estamos mortos desde que nascemos: são somente impulsos elétricos e o nosso espírito que não nos permitem ceder à Velha Irmã.

As pessoas deviam ler mais Epicteto. Ele só queria responder a duas perguntas: como viver uma vida feliz, plena? E como manter a moralidade num mundo imoral? Penso que são as duas únicas questões que importam no mundo. O resto é detalhe.

Poderia homenagear Mark Twain e dizer que os boatos sobre a minha morte foram um tanto exagerados, mas a verdade é que já morri algumas vezes e de formas tão criativas que até esta piada desgastou. O que posso dizer é que não fui eu quem vocês viram morrer ontem, pessoal. Lamento decepcioná-los, mas ainda não. Não desta forma inglória e abjeta.

Não sejam ansiosos, a nossa hora vai chegar. Um dia. Mas ainda não foi ontem.

Enquanto isto, a música que representa esta manhã de um novo dia da vida que perdi ontem e recuperei hoje:

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Arquivado em Crônicas, Filosofia, Morte, Produção Literária