Arquivo do mês: julho 2015

Texto apresentado no Sarau “Escritores na Estrada” (22/07/2015): “Regras de comportamento em saraus”

Não sou muito adepto dos saraus. Poderia passar algumas longas (e provavelmente tediosas) horas explicando as minhas objeções ao formato atual destes eventos, fazendo um paralelo histórico com os saraus de antigamente e dizendo no que os atuais deixam a desejar. Inclusive tenho a teoria de que os escritores são os maiores responsáveis pelos problemas nos saraus, ideia que me faria ser lapidado em praça pública, então é melhor ficar quieto.

Mas, quando se é convidado de forma muito gentil para um sarau especialíssimo e por pessoas que muito prezo, então o comparecimento se torna um prazer.

Zero Hora no dia 22-07-15

 

O projeto “Escritores na Estrada”, formado pelas escritoras Ana Rüsche, Renata Corrêa, Tarsila Mercer de Souza e Jeanne Callegari, além do escritor Rafael Rocha Daud, foi financiado em 2015 pelo Catarse. A ideia deles era alugar uma van e passar por algumas cidades do Brasil, encontrando a cena literária destes locais para realizar mini-cursos e saraus. Fui um dos financiadores, e acompanhei o grande esforço que eles fizeram para reduzir custos a fim de incluir Porto Alegre no destino da van (além da capital gaúcha, passarão também por Florianópolis e Curitiba).

No dia 22 de julho, eu estava lá no Mondo Cane – melhor bar do mundo, quiçá do universo – para prestigiar as colegas escritoras. Ouvi os trabalhos delas – os quais desconhecia – e me impressionei com a altíssima qualidade. A Jeanne Callegari inclusive apresentou um poema feito em homenagem ao grupo que eu e José Francisco Botelho coordenamos no FB em honra ao Lovecraft, chamado de Sociedade Miskatônica dos Pampas. O mais correto seria dizer que foi inspirado pelo nosso grupo. Impressionante como a Jeanne consegue fazer poemas fortes e memoráveis e lê-los com tamanha sensibilidade. A Renata apresentou um texto intenso e repleto de nervosismo, de espelhos deslizando, de cacos de vidro trincando aos nossos pés. Os poemas da Ana Rüsche eram petardos escondidos por belas imagens poéticas. A Tarsila fez uma leitura intimista que nos levou para passear dentro da obra dela. O Rafael trouxe uma batida masculina para o seu texto, repleto de contundência, em um cenário bem urbano e cortante. Todos deram uma amostra dos seus potenciais. Vale a pena observá-los.

No melhor estilo do convidado inoportuno, eu não poderia ir a um sarau sem levar um texto. Acabei fazendo algo específico para as minhas amigas do “Escritores na Estrada”, de acordo com alguns dos meus princípios pessoais sobre como funcionaria um sarau, que seriam:

a palavra escrita é diferente da palavra falada, ou seja, para um texto lido, não se seguem estritamente as regras literárias; usa-se o público, o cenário e os acontecimentos do momento da leitura dentro do texto apresentado; respeita-se o tempo do ouvinte, não o do leitor; não estou ali para ser publicado, mas para ser escutado; o texto deve alternar tragédia e comédia para gerar a velha e boa catarse que nos acompanha desde os gregos.

Uma pena que o texto seguinte está escrito e não sendo escutado, pois alguns detalhes dele acabam se perdendo, como o copo que caiu na cozinha  justo quando ameacei realizar canibalismo dentro do bar (assim como a minha brincadeira, “ué, ficaram nervosos?”) ou o uníssono “oooooh….” quando mencionei que pessoas podiam se apaixonar em saraus. Mas o importante é a ideia.

Ah! Quando me propus a fazer este blog, prometi que, quando meus textos fossem publicados fora dos limites dele, ao trazê-los para cá, eu daria um “presente” para vocês, meus persistentes leitores, na forma de um detalhe inesperado, de um segredo que viria ao mundo só aqui, de uma espécie de “flagra” dos bastidores da criação.

Então, lá vai. No início do meu texto, eu realizo uma desconstrução intencional de grandes inícios da literatura: as primeiras frases de dois contos de Borges (aos interessados: “Tlön, Uqbar, Orbis Tertius” e “As ruínas circulares”), de “Orgulho e Preconceito” da Jane Austen (no momento em que o li, apontei para mim mesmo como o “homem solteiro de boa fortuna”, o que já gerou gargalhadas), de “Anna Karenina” do Tolstói, de “Cem Anos de Solidão”, do Garcia Márquez, até chegar onde queria – o início de “Um conto de duas cidades”, do Charles Dickens.

Qual a minha ideia? Tateando entre possíveis inícios, eu estava só me aquecendo e mostrando outros escritores renomados por realizarem leituras públicas dos seus trabalhos, meio que brincando que eles poderiam ter iniciado seus clássicos em um sarau.

No entanto, esta ideia não veio da literatura, mas da música. Não sou só uma criatura intertextual, mas também uma besta interdisciplinar.

Quando assisti ao show do Deep Purple no Gigantinho em 2006, em Porto Alegre, observei que, em um determinado momento, o guitarrista Steve Morse pegava a guitarra e, no centro do palco, sozinho, começava uma série de notas e sequências musicais, como se estivesse perdido, procurando a música certa. No meio do caos sonoro, as notas se organizavam e ele tocava o início de clássicos, como “Satisfaction”, dos Rolling Stones, “Twist and Shout”, dos Beatles, “Sweet Child o’mine” do Guns and Roses, entre outras. De repente, Morse parecia se lembrar de algo e, então, iniciava a valer a música que desejava, outro clássico: “Smoke on the Water”, esta sim do Purple.  Era como se ele estivesse colocando o Deep Purple dentro de uma longa tradição musical e, ao mesmo tempo, fosse um menino aprendendo a tocar a primeira guitarra.

Colocarei um vídeo com outra versão desta música, com Steve Morse apresentando outros clássicos (aqui the Led Zeppelin, Clash, The Kinks, entre outros):

Um dos grandes segredos da literatura é que tudo é história, tudo é ficção. Quando se vai escrever, a gente deve lançar mão de todas as armas que estão ao nosso alcance. Eu planejei falsos inícios de textos clássicos dentro do meu próprio texto para que a transição da escrita para a fala fosse o mais suave possível, para que todos notassem que, no final das contas, somos só parte de uma longa e delirante história contada em um sarau único.

Espero que gostem.


 

Regras de comportamento em saraus

 

Deve-se à conjunção de um espelho e de uma enciclopédia o surgimento das regras de comportamento em saraus. NÃO, meio clichê.

Todos os saraus felizes se parecem, os saraus infelizes são cada um infeliz à sua própria maneira. NÃO. Não vou vaticinar desgraças no início do texto!

É verdade universalmente reconhecida que um homem solteiro em posse de boa fortuna deve estar procurando o sarau perfeito em que possa aparecer. NÃO. Não é bem isso.

Ninguém o viu desembarcar na unânime noite trazendo as regras de comportamento em saraus debaixo do braço. NÃO. Quase lá – quase assim, mas não desta forma, tão inverossímil.

Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o Coronel Aureliano Buendía havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer um sarau e falou-lhe a respeito das regras de como se comportar. NÃO. Quem começa um texto já morrendo?

Era o melhor dos tempos, era o pior dos tempos. Ah, agora SIM.

É oportuno lembrar-se de Charles Dickens e  da sua relação com saraus. Em 1843, Dickens tinha 31 anos. Estava deprimido e em vias de atingir a ruína financeira. Além disso, os jornais o ignoravam, preferindo outros autores com tramas mais saltitantes. Foi quando Dickens recebeu o convite para um sarau beneficente na cidade de Manchester. Dickens odiava saraus, odiava a exposição da sua arte literária, mostrar as vísceras do seu processo criativo, mas, mesmo assim, ele foi.

Após realizar a leitura, Dickens caminhou pelas ruas de Manchester e, provavelmente influenciado pelos doces eflúvios da literatura que acabara de presenciar, ele viu uma outra cidade: um local sujo e sórdido. Pessoas cansadas e desiludidas. Prédios sombrios e assustadores. Crianças dormindo nas calçadas.

Nunca saberemos o que exatamente Dickens pensou enquanto caminhava até o hotel, mas o fato das notas bibliográficas existentes recordarem deste sarau perdido no tempo é algo mágico. Isto por que o sarau de Manchester marcou o momento inicial que Dickens começou a escritura daquele que, seis semanas depois, viraria “Um conto de Natal”, provavelmente a história de Natal mais conhecida do mundo, que terminou com a sua depressão e afastou de vez a falência. Uma história que o inscreveu, em definitivo, no rol dos grandes escritores da Humanidade.

Não podemos negar que saraus são portas mágicas para outros mundos. Colocar tanta literatura e força criativa dentro de uma única sala é como ficar brincando com um isqueiro ao lado de um caminhão-tanque. Dickens passeou por uma Manchester antes de chegar ao sarau e, quando saiu, era outra cidade que estava o esperando. O seu olhar mudou: tocado pela poesia e pela literatura, ele viu a matrix criativa que cercava Manchester e foi capaz de se embebedar da verdadeira alma dela.

Por este motivo, esta possibilidade de nos levar para outros mundos e nos fazer conhecer outras realidades que moram ao lado da nossa, saraus são perigosos e, já na época de Dickens, existia uma Comissão destinada a regulá-los. As pessoas têm uma grande necessidade de colocarem regras e regulamentos e normas em tudo, e a existência de um território livre como o sarau é inaceitável. Nunca se soube as regras completas, mas algumas normas relativas ao comportamento que devemos ter e observar nos saraus chegaram ao nosso conhecimento.

Regra UM: ninguém morre em um sarau.

Isto aqui não é livro da Agatha Christie, em que pessoas precisam morrer e alguém precisa achar o assassino, ainda que, às vezes, a qualidade do material apresentado induza fortes tendências suicidas. Nos estreitos limites do local onde ocorrem o sarau, somos todos imortais e divinos. Em um sarau, a morte não se senta nas cadeiras para espreitar os seres humanos. Prefere ficar na rua, assustando gatos e namorando mariposas. No entanto, como toda frase taxativa comporta também a exceção destruidora, existiu um único caso de morte documentada em um sarau, e aconteceu – como não podia deixar de ser – em Bagé.  No entanto, pairam tantas dúvidas e mistérios sobre esta morte que não se sabe sequer se ela ocorreu ou se foi parte de um engenhoso plano para chamar a atenção do público. Não se sabe se foi uma morte real, um suicídio planejado, um grande azar ou uma representação que fracassou no campo da ficção e entrou na dureza cruel da realidade. O sonho de todo artista é morrer em cima do palco, no meio de um aplauso consagrador, e, no caso ocorrido em Bagé, quando a morte no sarau envolveu um terneiro, um pote de maionese estragada, um artista mambembe com delírios megalomaníacos e um poema (plagiado, sem os créditos) de Jorge Luis Borges, existem tantas circunstâncias estranhas a rondar tal evento que podemos, inclusive, questionar se algum escritor não o inventou como explicação definitiva para evitar saraus.

Regra DOIS: não é permitido canibalismo em saraus.

Por mais estranha que pareça esta regra, não são poucos os que acreditam que a troca de energias criativas em um sarau conduziria a um enfraquecimento das barreiras que nos transformam em humanos e, em conseqüência, poderia causar o desejo de se amalgamar, de virarmos um só, e isto só pode acontecer de duas formas, ou uma suruba ou através do canibalismo. Ainda assim, proíbe-se somente o canibalismo, mas não a suruba, o que não deixa de ser uma opção interessante.

O canibalismo não é uma opção elegante para um sarau. Demandaria a escolha de uma pessoa para ser degustada, e isto implicaria em muitas discussões. No entanto, a antropofagia é um substituto para o desejo indecente de nos devorarmos. Ao contrário do canibalismo, a antropofagia pode ser feita através de textos, com um devorando o outro, com um poema se sucedendo ao outro, com uma voz galopando o murmúrio de copos irrequietos. Prova do bom-mocismo da antropofagia é aquele grande sarau que se convencionou chamar de Semana de Arte Moderna de 1922, quando todo mundo se comeu e ninguém morreu.

Regra TRÊS: a bebida é aconselhável em saraus.

Todo ajuntamento humano pede bebida. Não conseguimos nos suportar debaixo do manto da sobriedade, não existe nada mais intragável que pessoas sóbrias. A bebida ajeita e azeita o mundo. Com saraus, não seria diferente: enquanto bebemos, as inibições acabam e a coragem aflora. Textos ruins continuam sendo ruins, mas a bebida os distorce e os deixa agradáveis. Na pior das hipóteses, a bebida nos proporciona o bálsamo do esquecimento no dia seguinte.

Regra QUATRO: as pessoas podem se apaixonar em saraus.

Assim como podem se apaixonar em qualquer lugar. Não existem regras ou locais definidos sobre o momento em que o amor vai aparecer. Uma pessoa pode olhar determinada parede e imaginar que ela é formada por tijolos, cimento e argamassa, mas outra pessoa pode ver a mesma parede e pensar que ela foi feita por suor, por sonhos e por ilusões. Em um sarau, as fronteiras da imaginação e da verdade se desvanecem. O homem que lembra um Neruda encontra a outra que sonha com o Drummond e, no frigir da liberdade criativa, o amor pode surgir, entrelaçado no meio das palavras.

Existem muitas regras de como se comportar em saraus, poderíamos nos estender toda a noite tentando elencá-las, mas prefiro prestar um tributo ao primeiro sarau que a Humanidade já fez: quando homens e mulheres nus, com frio, com medo, ficavam escondidos dentro de cavernas no meio da noite úmida, escutando os mais variados sons a quebrarem o mundo e tendo, como única arma para esperar o nascer do dia, a capacidade de contar histórias e de sonhar outros tempos. Todos os saraus nasceram deste, e todos não passam de uma maneira de voltar a sermos irmãos nas nossas dores e alegrias. Estamos sempre juntos na caverna, amigos, e nossas palavras são a única luz capaz de nos guiar.

Talvez toda a Humanidade seja a história que contamos em um sarau.



 

Sabe-se Deus o que eu estava dizendo, mas aparenta ser sério.

Sabe-se Deus o que eu estava dizendo, mas aparenta ser sério.

 

 

Momento da performance.

Momento da performance.

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Os guarda-chuvas sempre morrem no final

Entre as dezenas de fatos irrelevantes que me fascinam, um deles é o comportamento dos guarda-chuvas.

Em geral eles andam pelas casas e gavetas, esquecidos, e só aparecem em dias de chuva. Também são facilmente esquecíveis, e gostaria muito de saber para onde vão todos os guarda-chuvas perdidos no mundo – imagino algo como um gigantesco Triângulo das Bermudas. Possuem formatos e cores diferentes, mas cada um tem personalidade própria, a julgar pela forma com que se deslocam nas ruas. Algumas hastes de ferro das sombrinhas alheias buscam, maliciosas, acertar os meus olhos, mas, na essência, guarda-chuvas são objetos benfazejos, a fronteira seca que nos separa da chuva.

Há uma semana que chove de forma quase ininterrupta em Porto Alegre e, caminhando pelas ruas, percebi uma grande quantidade de guarda-chuvas abandonados à própria sorte. Estilhaçados, destruídos, humilhados, eles se depositam nas esquinas, esperando que alguém os jogue no lixo. Assim que um desmorona diante da traição do vento ou da força dos pingos, a tendência do seu dono é simplesmente se livrar dele e, assim, guarda-chuvas mortos se espalham pelas ruas. Não existe objeto mais importante em um dia de chuva, mas, assim que ele quebra, é fácil descartá-lo e seguir adiante.

Não é uma boa época para ser guarda-chuva.

foto chuva

Este desfile de guarda-chuvas quebrados a assombrar as calçadas de Porto Alegre me fez lembrar Virgílio. No Canto I da Eneida, o herói Enéias enxerga, em um templo de Cartago, um mural retratando a Guerra de Troia, da qual fora um dos poucos sobreviventes. Chorando, ele declara: Sunt lacrimae rerum, et mentem mortalia tangunt (“Há lágrimas nas coisas, e os sofrimentos tocam nossa alma”).

Existe uma grande poesia em pensar que as coisas não são feitas de átomos, mas também de lágrimas. Não são poucos que desandam a chorar quando lembram de alguma coisa conseguida com grande custo emocional; eu sou capaz de dizer onde comprei cada livro da minha biblioteca, e todos possuem uma história singular. O que falta para os guarda-chuvas talvez seja esta capacidade de serem formados por lágrimas e sofrimentos humanos. Estão tão ocupados lutando contra as gotas de chuva que esquecem de formar vínculos com as pessoas , e quem não se torna importante para alguém tende a ser descartado ao primeiro sinal de problema.

No decorrer dos anos, observei que muitos relacionamentos se constroem tomando por base alguém que funciona como guarda-chuva. Alguém que evita as dificuldades, que suaviza os problemas, que permite o crescimento do outro às custas do seu próprio. Uma pessoa não formada por lágrimas e boas (ou más) recordações, e sim alguém que pode ser afastado sem maiores consequências e traumas. Alguém importante em uma chuvarada, mas que, quando chegam os dias de sol, é deixado de lado rapidamente.

Os guarda-chuvas abandonados trazem consigo muitas lições. Assim como eles, todas as pessoas são descartáveis, ainda mais quando a utilidade delas termina. Ninguém é insubstituível. Ninguém pode imaginar que a sua posição é firme, pois não existe segurança em um mundo instável. As relações mudam – o que era amizade vira algo a mais, o que era amor vira indiferença. Da mesma forma que um guarda-chuva, ninguém continua ileso para sempre; apara os problemas alheios, ajuda a resolvê-los, mantém a pessoa amada protegida e, ao menor sinal de fraqueza, é sumariamente jogado para longe. Isso sem contar as ocasiões em que somos esquecidos como se nunca tivéssemos existido.  Abandonados, esperamos que o nosso dono volte, sem lembrar que poucas são as pessoas que retomam a leitura de uma história para buscar as notas de rodapé esquecidas aos pés da trama principal.

Pensar na melancolia dos guarda-chuvas abandonados me faz lembrar de Drummond, e da sabedoria do primeiro segmento de “Nosso tempo”, que está em “O sentimento do mundo”:

I

Esse é tempo de partido,
tempo de homens partidos.

Em vão percorremos volumes,
viajamos e nos colorimos.
A hora pressentida esmigalha-se em pó na rua.
Os homens pedem carne. Fogo. Sapatos.
As leis não bastam. Os lírios não nascem
da lei. Meu nome é tumulto, e escreve-se
na pedra.

Visito os fatos, não te encontro.
Onde te ocultas, precária síntese,
penhor de meu sono, luz
dormindo acesa na varanda?
Miúdas certezas de empréstimos, nenhum beijo
sobe ao ombro para contar-me
a cidade dos homens completos.

Calo-me, espero, decifro.
As coisas talvez melhorem.
São tão fortes as coisas!
Mas eu não sou as coisas e me revolto.
Tenho palavras em mim buscando canal,
são roucas e duras,
irritadas, enérgicas,
comprimidas há tanto tempo,
perderam o sentido, apenas querem explodir.

Gosto da imagem de palavras comprimidas (ou oprimidas) por tanto tempo que perderam o seu sentido e, agora, só querem explodir. Consigo entender uma pessoa que enfrenta tal dilema: o de não ser escutado e sentir-se na iminência de uma explosão de palavras raivosas.

Vivemos um tempo de homens partidos – e de guarda-chuvas mortos. Ou de esperanças destruídas; não podemos esquecer que, no intervalo das suas vidas, os guarda-chuvas também tem a ilusão de serem amados.

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Texto novo no Literatortura (08/07/2015): “Para onde vão as bibliotecas quando morremos?”

Este texto partiu de uma cena presenciada em um sebo de Porto Alegre: uma moça se aproximou do dono do estabelecimento e perguntou se ele não estava disposto a comprar os livros do pai dela, recém falecido. O homem suspirou e perguntou quantos livros eram, ela respondeu que em torno de 300 a 400 livros. Ele suspirou de novo, avisou que não tinha muito espaço disponível. A moça insistiu e, por 100 reais (sim, cem reais), vendeu toda a biblioteca do seu pai, e ainda se comprometeu a levar os livros até o sebo.

Foi inevitável pensar na minha própria mortalidade e de como os traços da nossa passagem se desvanecem de forma rápida (e até por valores bem baixos). Pensei que cada um daqueles livros foi objeto de um sonho, ou de medo, ou de angústia ou até de felicidade para o leitor agora ausente. Se imaginasse que este seria o destino dos seus amigos – pois ninguém junta 300 a 400 livros sem amá-los -, talvez ele se recusasse a morrer.

Pensei no destino dos meus livros após a minha morte, e tomei providências neste sentido. Mas também escrevi um texto a respeito, invocando a Wislawa Szymborska e o Sêneca.

Espero que gostem.

 

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Para onde vão as bibliotecas quando morremos?

Em um dos meus poemas preferidos, “Gato em apartamento vazio”, Wislawa Szymborska parte do ponto de vista de um gato, cujo dono morreu, para contar, de forma lancinante, uma pequena fábula de esperança destruída e de abandono. No início do poema, o bichano reclama “Morrer – isso não se faz a um gato”, pois, na sua visão arrogante da realidade, a morte do humano (ou humana) que lhe dava comida e carinho não foi autorizada. No entanto, a presunção vai cedendo a cada verso. Logo percebemos que o gato está com medo de ser abandonado, receio de permanecer vivo em um mundo onde falta a sua razão de ser. Por trás da valentia falsa das suas últimas declarações e o desejo – fingido – de pretextar irritação (“espera só ele voltar / espera ele aparecer. / Vai aprender, / que isso não se faz a um gato. / Para junto dele / como quem não quer nada, / devagarinho / sobre patas muito ofendidas. / E nada de pular ou miar no princípio.”), o gato sabe que a sua vida mudou desde a morte do dono e, agora, ele está vivendo a lembrança de um passado que não mais se repetirá.

É um poema triste e, se recordo dele, é por causa de uma pergunta que recentemente me fizeram: para onde vão as bibliotecas quando os seus donos morrem?

Não adianta manter ilusões, melhor enfrentar a realidade logo. Assim como o gato em luto pela perda do seu humano, as bibliotecas passarão por um tempo de silêncio. Sozinhas em casas desocupadas, dentro de ambientes escuros, elas esperarão um resgate que não vai chegar. É possível que os livros espiem a porta, imaginando que cada barulho na rua represente a chegada do leitor salvador, até o momento em que o pó acumulado nas lombadas e o silêncio sepulcral os convencerão de que ninguém virá buscá-los. De que o seu dono se foi, deixando para trás os livros juntados no decorrer de uma vida de trabalho e abnegação. Se culparão ou não a carne humana pela sua fraqueza, nunca saberemos. Incontestável é que aquela biblioteca, da forma com que foi originalmente concebida pelos gostos e caprichos de um ser humano, irá morrer.

Livros ocupam espaço, e uma biblioteca mais ainda. Nem todas as pessoas possuem o mesmo carinho ou apreço por eles. Aliás, não são poucas aquelas que os acham completamente supérfluos. Em breve, os interesses particulares das pessoas se incomodarão pela existência de uma série de livros dispostas de forma criptográfica em alguma prateleira, e será inevitável destruir tal organização. Os livros serão abruptamente separados, colocados em caixas ou sacolas e, então, descartados. Alguns serão vendidos, provavelmente por valores muito menores do que aqueles que poderiam valer, pois são “livros usados”. Outros serão doados, e quiçá algum encontre um leitor que irá preservá-lo e tratá-lo bem. Não poucos serão destruídos ou queimados. Depois de anos de construção sistemática, de encontros fortuitos em livrarias ou sebos, de ser disposta com paciência como as peças de um dominó, a biblioteca irá se desfazer como se nunca tivesse existido. Livros que andavam lado a lado serão divididos. Passarão a enfrentar a umidade e o calor excessivo, perderão páginas, irão se esmaecer e até mesmo ficarão velhos e sem serventia.

Um livro pode ser um objeto imortal, mas bibliotecas não são. No entanto, nunca morrem por completo, elas somente se redesenham e sobrevivem. Existe, ainda, uma forma deliciosa de “morte”, quando duas pessoas se amam e suas bibliotecas se combinam em uma alegre pororoca, encontrando livros repetidos, que deverão ceder espaço para somente um exemplar. Na soma de bibliotecas, existe também amor e perda.

Talvez não da forma com que as bibliotecas foram originalmente distribuídas, mas parte dos livros descartados encontrará outros donos e travará contato com outras visões de mundo espelhadas pelas prateleiras de lugares diferentes. Assim como na teoria da evolução de Darwin, somente alguns exemplares sobreviverão, e existe uma definição de livro clássico a nos espreitar nesta ideia: clássico é aquele livro que sobrevive apesar da morte das bibliotecas. Aquele cuja história faz com que ele se equilibre nas mais diferentes prateleiras, oscilando entre os mais opostos donos. Os livros clássicos são aqueles que melhor sobrevivem aos leitores; a ideia de permanência não se relacionaria com o drama humano exposto nas páginas, mas com a capacidade do livro de conseguir fugir da destruição inevitável que cerca cada objeto existente no planeta.

A ideia de que bibliotecas morrem e renascem várias vezes – inclusive por obra e graça do próprio dono, que descarta livros não mais necessários ou necessita fazer uma seleção de livros importantes acaso vá morar em um lugar menor – encontra paralelo com a visão de Sêneca. Para o filósofo romano, cada leitor pode escolher o livro que quiser e formar o próprio passado. A biblioteca não é algo fixo e invariável, mas uma referência fluida passível de ser alterada a qualquer momento, assim como o eram as genealogias na época de Roma. Em tal contexto, uma biblioteca nunca morrerá, mas viverá outras possibilidades de reinventar o passado dos seus leitores. Talvez o livro hoje comprado para um trabalho acadêmico, em outra encarnação da sua existência, seja o livro que declarará de forma sutil o amor trôpego de um adolescente para uma mulher mais velha e, em outra ainda, seja o primeiro livro degustado por um analfabeto de meia idade ou, então, o objeto necessário para apoiar uma mesa bamba.

Não quero deixar os meus livros perdidos como o gato de Szymborska, procurando o dono no apartamento deserto. Não acho justo que sejam condenados à diáspora assim que faltar o elemento que lhes dá liga, ou seja, eu mesmo. Algumas bibliotecas afortunadas são transferidas de forma integral para outra pessoa, que será capaz de lhes dar tanto carinho quanto o dono ausente, o que espero acontecer com a minha biblioteca pessoal, tanto que tomei providências neste sentido. Os meus livros são amigos que me ajudaram a ultrapassar problemas, fases da vida e muitas dúvidas, não é justo que os abandone depois da minha hora final. E, assim, retorno à resposta que dei para a pergunta do que acontece com as bibliotecas depois que seus donos morrem: elas explodem em livros, os quais, da mesma forma que sementes, darão início a novas bibliotecas. Esta é a verdadeira Biblioteca de Babel – a ideia de que não possuímos bibliotecas, mas são elas que possuem humanos a quem ajudam de vez em quando.

(Texto originalmente publicado no link http://literatortura.com/2015/07/para-onde-vao-as-bibliotecas-quando-morremos/ )

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A beleza de ser formado por momentos

Hoje completamos 53 anos sem William Faulkner, um dos maiores escritores que já passou pela Terra. Apesar de frequentemente associado ao Sul dos Estados Unidos, existe na sua obra uma sutileza criativa que transcende fronteiras, uma capacidade única de desvendar as pequenezas e grandes misérias da condição de ser humano. A melhor forma de homenageá-lo é lembrar o seu discurso de aceitação do Prêmio Nobel de Literatura de 1950:

A parte final do discurso uso como um credo pessoal. Irei inclusive transcrevê-la:

“I believe that man will not merely endure: he will prevail. He is immortal, not because he alone among creatures has an inexhaustible voice, but because he has a soul, a spirit capable of compassion and sacrifice and endurance. The poet’s, the writer’s, duty is to write about these things. It is his privilege to help man endure by lifting his heart, by reminding him of the courage and honor and hope and pride and compassion and pity and sacrifice which have been the glory of his past. The poet’s voice need not merely be the record of man, it can be one of the props, the pillars to help him endure and prevail.”

O homem não vai somente durar; ele vai prevalecer. O dever do poeta, do escritor, é lembrar o homem de que a sua alma é imortal, de que ele não é o primeiro e nem o último ser que passará pelo planeta, e sim uma nota dissonante e – ainda assim – harmônica na grande experiência que é o universo.

Parece utópico, mas acredito nisto. Da mesma forma que Henry James, Faulkner considerava que um dos deveres da Arte era elevar o espírito humano, fazê-lo recordar do que veio antes e de todas as suas potencialidades. Às vezes, por causa das minhas postagens sobre literatura, pintura, escultura e música nas redes sociais, há quem me considere um alienado político/econômico/social, e talvez estejam certos. Ao contrário de todas as pessoas, que parecem se conhecer tão bem, eu não tenho a prerrogativa de me conhecer – ainda. Estou em construção. Não possuo sequer a pretensão de que alguém siga as minhas ideias. O fato de manter em silêncio a minha própria opinião política/econômica/social é justamente aquilo que me impede de seduzir, encantar, convencer, ludibriar os outros. Existe uma grande sabedoria em silenciar e não usar as palavras – e o discurso literário – de forma vã. Se não sei fazer como Faulkner, e usar as palavras de tal forma que seja impossível ver as cordas e os interesses que as sustentam, é melhor nem tentar.

Ao invés, almejo tocar questões mais amplas. Na tentativa de usar a Arte como forma de ascensão, busco não a efemeridade do momento, mas o que vai permanecer. O sopro que está na origem da consciência. O fantasma dentro do armário. O terremoto que espreita a segurança da terra. O devaneio único que uma pessoa sente quando sabe que se apaixonou de forma irreversível, incandescente. É o que busco: o impossível. Aquilo que não pode ser reduzido a uma questão binária, a um “sim ou não?”, mas a todas as possibilidades que moram dentro do “ou”.

Foi assim que tomei consciência do meu grande inimigo, o qual – presumo – também é o maior adversário de todos: a irrepetibilidade. A noção de que o momento vem e passa, e nunca mais será o mesmo, não interessa a rotina ou a sua repetição. Heráclito disse que ninguém atravessa o mesmo rio duas vezes. O momento vem e passa, e nunca mais será idêntico.

Interessante contar como estes pensamentos surgiram na minha cabeça. Em recente viagem a Bagé, RS, acabei visitando a Estância do Limoeiro. Deparei-me com este cenário:


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Imaginava que o vermelho das plantas fosse normal. No entanto, a proprietária da Estância comentou que, em toda a sua vida, nunca vira cores tão intensas e espalhadas de forma quase unânime pela parede da casa. Perguntei o motivo das flores terem revelado cores tão fortes, e ela deu de ombros. Disse que talvez fosse a combinação climática, pois, nos dias anteriores, tinha chovido, feito sol forte e muito frio, alternando-se as temperaturas de forma contrastante, imprevisível. Após a tentativa de colocar explicação em algo caótico por natureza, a senhora acrescentou, quase com displicência, “provavelmente nunca mais veremos esta cor de novo”.

No mesmo instante, pensei na esdrúxula combinação de elementos e fatores instáveis que tinham me conduzido, naquele dia em específico, naquela hora, com aquela gentilíssima companhia, até a Estância do Limoeiro. Pensei desde as conjunturas climáticas até as questões sociais, familiares, detalhes de amizades, sombras de relacionamentos que se construíram da noite para o dia, pensei na minha proverbial timidez, no receio que tenho de incomodar os outros invadindo as suas vidas, pensei nas centenas de fatores que construíram uma invisível teia com o objetivo de construir uma única recordação na minha vida.

A irrepetibilidade das sensações é um assunto que me fascina. Se as pessoas imaginassem que tudo que acontece em um único dia deve-se a uma série de elementos voláteis e instáveis combinados em um momento em específico, talvez valorizassem mais a sua vida. Veriam que  não são somente algo que surgiu do nada, mas o ponto no qual desembocou uma infinitude de implausibilidades que visam a construir uma história única. Não existe pessoa desinteressante; cada um de nós é formado por um sem-fim de maravilhas, desde o despertador que atrasa e nos faz perder o ônibus até o telefonema que nos tranca no escritório e nos faz perder a noção do tempo. No final do dia, tudo faz um implacável sentido, com o objetivo de construir um instante singular da nossa vida.

No “Teeteto”, de Platão, Sócrates lembra Protágoras e a sua noção de que a vida é formada por um produto do encontro momentâneo entre um dos nossos sentidos com algum elemento transitório no fluxo universal. Refutando esta ideia, diz que o fluxo universal é inconsistente, impossível de ser reduzido a algo único, afetando a própria noção de conhecimento. O que Sócrates considera desvantagem – a ideia de que os momentos são irrepetíveis, pois as sensações variam até o infinito – é justamente aquilo que acho o mais mágico de tudo: a noção de que não existe uma forma e, dentro do fluxo universal, nunca poderemos dizer que a vida é a mesma coisa, pois cada mínimo segundo é uma urdidura de momentos únicos.

Pensando nisto, recordei momentos únicos, destinados a morrerem um dia comigo. Eu já venci uma luta impossível de ganhar. Eu já perdi uma batalha que não podia ter perdido. Um dos três porres que tomei foi em um bar que não mais existe, só na minha recordação. Eu já fui bilheteiro do Conjunto de Câmara de Porto Alegre. Eu já tomei um mate com trabalhadores do campo no Uruguai, olhando um verde maior do que o mundo. Eu já tive a certeza de que ia morrer – e, ainda assim, não morri. Eu já escrevi uma carta de amor, e ajudei um adolescente a conquistar a moça que amava. Eu já ganhei – sem querer – uma partida de xadrez de um campeão nacional, até então invicto. Eu já fui expulso de um teatro por “comportamento violento”. Eu já senti um arrepio nascer na pele de uma mulher e terminar em mim. Eu já vi a morte de perto, inclusive conheci o cheiro dela. Eu já explodi um bolo. Eu já trabalhei um dia como bibliotecário sem ninguém desconfiar. Eu já ganhei flores de uma criança. Eu já escrevi um livro, que inclusive teve leitores, algo realmente impressionante.

Para algumas pessoas, pode soar deprimente a ideia de que cada momento que passa nunca mais voltará a se repetir. Algo que estamos vivendo e, ao mesmo tempo, extinguindo. Contudo, para mim, a sensação maior foi de agradecimento. Por ter vivido estes momentos – e por saber que, de uma forma ou de outra, eles fazem parte do que sou. Se existe algo de que realmente devemos nos arrepender, é de ter nos recusado a viver um momento único por simples covardia ou medo, pois ele pode não mais se repetir, não naquelas circunstâncias.

E assim retorno até Faulkner e a sua ideia de que a Arte existe para fazer o homem tornar-se alguém melhor. Não é só a Arte.  Reconhecer a beleza de instantes que constitui cada pessoa também é uma forma de glorificar o espírito e saber que ele vai prevalecer à passagem dos anos. Estamos construindo e destruindo momentos únicos ao mesmo tempo em que os vivenciamos, e esta é a nossa maior glória: saber que, assim como a Arte, somos feitos de momentos, e eles é quem são a nossa verdadeira alma, a nossa insubstituível beleza.

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