Arquivo do mês: abril 2012

Livro: “Akropolis – A Grande Epopeia de Atenas”, de Valerio Massimo Manfredi

Um dos mais interessantes períodos históricos que a Humanidade vivenciou – e que, de certa forma, continua projetando as suas luzes e sombras até os dias atuais – é a época da Grécia Antiga. Começando pelos filósofos que moldaram a escala de valores ocidentais, influenciando as ciências e a forma de pensamento, passando por artistas cujas obras ainda encantam, e culminando no nascimento da democracia, forma de governo que, apesar das suas imperfeições, ainda é a mais vigente no mundo atual, o período da Grécia Antiga foi um dos momentos definidores da civilização ocidental e, entre as polis que constituíam o fragmentado Estado grego, não resta dúvida de que Atenas foi a estrela mais brilhante do período.

No livro “Akropolis – A Grande Epopeia de Atenas”, o escritor italiano Valerio Massimo Manfredi resolve contar a história de Atenas, desde a sua criação mitológica até a derrota para Esparta na Guerra do Peloponeso. Não tenho o costume de adquirir livros por causa do autor, são poucos que têm este status comigo. Entretanto, tinha lido alguns livros de Massimo Manfredi e a combinação das suas habilidades tinha me agradado. Além de ser  um ficcionista de grande qualidade, ele é arqueólogo e especialista em topografia do mundo antigo. Assisti algumas entrevistas com ele em programas de televisão que versavam sobre temas da Grécia Antiga e tinha me impressionado com o seu conhecimento do assunto. Ao contrário de outros escritores, que precisam pesquisar o assunto do seu interesse, Valerio Massimo Manfredi vivencia as sensações: geralmente os seus livros surgem do trabalho que realiza, e não raro ele faz escavações e buscas sobre os próprios assuntos que depois ficcionaliza. A sensação de realidade que permeia os seus livros é muito forte. Claro que tal qualidade seria inútil se ele não escrevesse muito bem, utilizando de forma adequada as estruturas narrativas para criar verossimilhança.

Para contar a história de Atenas, o narrador-autor utiliza um interessante recurso, que é a sobreposição de uma história pessoal de sua amizade com um ateniense com as descrições do passado. Através deste artifício, o autor vai contando a trajetória de Atenas e relacionando com a história da sua amizade com Kostas Stavropoulus. Apaixonado pelo passado da sua cidade, o ateniense escuta as concepções históricas do narrador e sempre acrescenta um toque pessoal, um detalhe instigante, uma versão secreta dos fatos. Com o passar dos anos, ao ver que Kostas está cada vez mais envelhecido e frágil, o narrador envia fitas dos capítulos do livro que está escrevendo, pretendendo, como uma Scheherazade moderna, estender a vida do amigo por meio da história. Em um primeiro momento, achei este recurso constrangedor, para não dizer piegas. Mas logo me envolvi com a história, em especial por que Kostas é um personagem e tanto, graças às suas intervenções apaixonadas a favor da Grécia. Sem contar que a história da amizade de dois homens unidos pelo amor à cultura ateniense acaba mostrando que o mais importante no legado de Atenas não foram os monumentos, as esculturas, as peças de teatro ou as discussões filosóficas, e sim os homens anônimos que a constituíram e acreditaram nos seus ideais. No diálogo dos dois amigos, Atenas deixa de ser uma cidade e passa a ser um estado de espírito.

A leitura não decepciona. Por mais tentador que fosse abordar as outras cidades-estado da Grécia (especialmente o clássico contraste dos ideais democráticos de Atenas em contraposição ao militarismo exarcebado de Esparta), a opção do autor de concentrar a sua atenção somente na história de Atenas revela-se um grande acerto. O leitor acompanha o surgimento da futura capital dos gregos a partir dos seus mitos de fundação. Em seguida, é apresentado às primeiras tribos que fundaram Atenas e toma conhecimento da forma com que a cidade cresceu, em um cadinho de culturas e influências que não mais se repetiriam no mundo. Um detalhe que demonstra a vivência pessoal do autor e a forma com que a sua ficção se apossa desta vivência é a descoberta arqueológica, embaixo da colina na qual se situa o Partenon, de um Palácio que remeteria à própria concepção do labirinto onde morava o Minotauro. As possibilidades surgidas desta descoberta são espantosas, remetendo a uma possível colonização micênica da Atenas primitiva e a criação artificial de um mito de origem que envolvia o próprio Teseu, patrono da cidade.

Um dos grandes méritos do livro é apresentar personagens da História da Humanidade como pessoas normais que estivessem andando por Atenas, imersas em seus problemas cotidianos. A linguagem leve e simples aproxima o leitor de homens como Péricles, Sólon e Fídias. Os conflitos enfrentados por eles passam distante do didatismo comum de um compêndio de História, pois Péricles precisa conviver com a situação de estrangeiro da sua esposa, Sólon lida com problemas burocráticos quase intransponíveis e Fídias se preocupa em como conseguir pedras para as suas construções. Homens gigantescos também são atormentados por problemas comuns. Ao mesmo tempo, as descrições vívidas dos cenários e das imagens que existiam na época praticamente recriam a Atenas do período. É impossível ler a descrição do Partenon sem se arrepiar, sentindo como se o autor estivesse passando por entre as suas colunas no exato momento da leitura, descrevendo aquilo que enxerga com precisão inigualável. Ao mesmo tempo, cresce uma certa tristeza por sabermos que aquela descrição pertence ao mundo da Literatura, da ficção, e são imagens irrecuperáveis da História humana. Para um advogado, a descrição do sistema de justiça de Atenas é tão real que o leitor se sente como se estivesse adentrando na Ágora de Atenas. Aliás, a democracia é um sistema político que praticamente detona com a noção de justiça que temos hoje. Ainda bem que os romanos acertaram esta bagunça criada pelos gregos… inacreditável que a Justiça ateniense fosse tão confusa que um cidadão do porte de Temístocles acabasse sendo vítima de ostracismo simplesmente por causa da inveja dos seus pares.

Apimentando um pouco a história, o autor elenca uma série de histórias apócrifas e não-confirmadas. Não são fontes reais, mas histórias que foram passando de geração em geração. Apesar de fornecer um pouco de alívio para quebrar a monotonia histórica da narrativa, uma vez que estas histórias ajudam a dar um contraponto fictício, percebi que esta dissociação entre ficção e realidade gerou uma desconfiança que afetou tanto um lado quanto o outro. O narrador – que, por seu envolvimento pessoal com a história e com o personagem Kostas, já não era muito confiável – acaba por perder a credibilidade por completo. Algumas histórias aconteceram, mas foram relegadas à categoria de anedota. Por sua vez, eventos históricos tais como a famosa batalha de Plateia, por sua implausibilidade real e a forma jocosa com que foi contada, acabaram sendo contaminados de tal forma que chegaram a assumir o caráter  de ficção. Por este motivo, percebi que o livro ficou no meio caminho entre ficção e realidade. Se isto é bom ou ruim, sou incapaz de dizer. Só entendo que, para mim, esta dicotomia não funcionou muito bem.

No entanto, nada disto atrapalhou completamente a fruição do livro e o prazer genuíno com que o autor se entregou para a história. A sensação de caminhar pelas ruas de Atenas foi insuperável, para não dizer de tirar o fôlego. Após um início de estranheza com a forma encontrada para contar a história, a trama paralela da amizade de dois homens apaixonados por Atenas acabou se tornando envolvente, em especial com as reflexões sobre a velhice e a passagem inexorável do tempo. Apesar de ser o berço da civilização ocidental, nem mesmo Atenas conseguiu escapar da passagem dos anos, mas o único consolo restante é saber que o seu espírito continua ecoando no mundo atual.  Para o bem ou para o mal, todo homem é um pouco ateniense, e esta conclusão talvez seja a maior homenagem para a cidade que ultrapassou milênios para se erigir um farol das aspirações da Humanidade.

Não posso terminar esta postagem sem uma gravura de Leo von Klenze que, por meio da arte, tenta trazer a Atenas do passado de volta à vida:

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Fragmentos de Eternidade – fragmento um

Subo a escada rolante e não dou atenção para o mosaico do chão, para a abóbada fugida de algum templo bizantino, para os lustres balouçantes. Os passos ecoam no meio do som de vozes misturadas, nas quais ocasionalmente se destacam o brilho de algum grito ou a escuridão de alguma risada perdida. As luzes das lojas confundem a visão com sonhos de consumo, tentando me desviar do destino; outras tocam músicas com desespero, fazendo promessas como as sereias turvaram os marinheiros de Ulisses. Resisto ao monstro luminoso que insiste em me reter no estômago e continuo caminhando, os olhos fixos na porta da Galeria. Lembro que Cortázar disse que todas as galerias são a mesma, que as regras do espaço e do tempo não valem no seu interior, que um homem pode entrar na França e sair na Argentina, que um homem pode entrar em Porto Alegre e sair onde quiser. A porta me separa da rua mundana, e o arco que a distingue em meio à sólida parede é um último lembrete, deixai a esperança, vós que entrais. Cada passo me aproxima mais da saída, o barulho das pessoas corre pelo corredor em um cicio quase hipnótico, fecho os olhos e piso para fora, nem sempre o homem que sai é o mesmo que entrou.

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A atraente estética do grotesco

Quando assisti o vídeo que segue abaixo, a minha primeira reação foi de incredulidade: achei simplesmente incrível que uma pessoa tivesse se prestado a ter ideia tão absurda como fazer um bolo no formato de um ser humano e dar de comida para outras pessoas. Pareceu algo – digamos – um tanto CANIBAL. Pouco importa a cor da pessoa retratada no bolo, o ato de devorar um corpo humano pareceu chocante, ainda mais quando o interior do bolo era vermelho.

Mais impressionado fiquei quando soube que tal bolo era uma tentativa de expressão artística do autor, o que demonstra a minha tese de que a arte anda por caminhos muito estranhos nos dias atuais, flertando com o mais absoluto mau gosto. Claro que também fiquei impressionado ouvindo os gemidos lancinantes que brotavam da “instalação artística” toda vez que era cortada, e demorei alguns segundos para perceber que o artista deixara somente a sua cara de fora, com o intuito de transmitir maior verossimilhança ao corpo representado no bolo.

Segue o vídeo:

Isto aconteceu na Suécia, mas poderia ser em qualquer canto do mundo.

Passada a reação de asco, percebi que, se existe algum lugar verdadeiramente criativo no mundo atual, um lugar sem regras definidas e onde a imaginação pode atingir alturas inimagináveis, é na exploração do mau gosto. Quando as pessoas rompem as estruturas da normalidade e realizam transgressões, elas geralmente acabam desembocando na contrariedade geral. No entanto, não posso deixar de imaginar que mau gosto é uma expressão de cunho pejorativo que define aquilo que vai contra o gosto de alguém. No caso, este alguém seria a sociedade que definiu, depois de anos de convivência mútua, o que seria aceitável. Ou seja: o mau gosto também é a sociedade falando, e cabe ao artista transgredir esta noção.

Esta constatação me fez lembrar do grotesco, em especial do livro do Wolfgang Kayser que li na época do Mestrado , “O Grotesco” (preciso muito comprar este livro, ele é inesquecível). Por muitos anos, o grotesco foi tido como expressão do mau gosto determinado por uma época, mas a passagem do tempo reconheceu o seu caráter transgressor e ele acabou virando arte. Pena que, em alguns casos, levaram centenas de anos. Archimboldo já foi considerado grotesco. Os pintores impressionistas também eram considerados grotescos, assim como os cubistas.

Começo a acreditar que qualquer expressão artística, para ser inesquecível, precisa ser grotesca, precisa atentar contra o “bom gosto”, precisa atacar as estruturas. No entanto, discordo de intervenções midiáticas como as feitas na Suécia. O artista ainda pode sacudir o establishment por meio de um avanço gradual da sua visão singular, mas também não precisa partir diretamente para a transgressão absoluta. Existem várias maneiras de ser original e transgressor, sem que resulte em uma atitude chocante. No caso específico do vídeo, o que era uma obra de arte grotesca – um bolo no formato humano – passou a ser uma homenagem ao mau gosto – com o artista gemendo cada vez que era cortado o bolo e sendo alimentado de suas partes -, e com um componente adicional de racismo (que nem vale a pena abordar). Uma overdose de sensações.

Capa do CD do Cannibal Corpse - repugnante e marcante

O grotesco ainda atrai, ainda gera repercussão. Por mais horrorizados e enojados que as pessoas fiquem, ainda assim elas retornam para a imagem, com uma fascinação mórbida pela estética do imponderável representada nela. Mas não se pode exagerar, sob pena de descambar no mau gosto.

No entanto, ainda acho que o grotesco mais legal de ser explorado não é aquele que descamba para a grosseria dos sentidos, mas o grotesco que se revela pela subversão das normas. Muito mais sutil, muito mais difícil de fazer. Qualquer um consegue pegar uma ideia e deturpá-la até o máximo com o intuito de chocar alguém. No entanto, pouquíssimos conseguiram pegar ideias comuns e subvertê-las, brincar com as expectativas, distorcer as possibilidades.

Um exemplo que me ocorre é o conto “O Imortal”, de Jorge Luis Borges,  quando o personagem chega na cidade dos imortais, onde caminha por um palácio labiríntico de corredores acabando em paredes, escadas de cabeça para baixo, portas mínimas que nenhum homem conseguiria passar, janelas abrindo para nenhum lugar, e percebe que a imortalidade retirou todo o significado das invenções e descobertas humanas, tornando-as obsoletas. Este conto me parece um exemplo perfeito de grotesco, em especial quando o personagem encontra um Homero barbudo e macilento, de pele acinzentada. Engraçado que ninguém tenha visto ainda o forte diálogo que este conto trava com o meu “Antes da Batalha”, onde um Homero distorcido também surge como invenção imortal de um agrupamento de homens anônimos. Outra hora falo mais sobre o meu conto.

Na minha concepção, contos como este de Jorge Luis Borges são o grotesco ideal. E quando Giovanni Battista Piranesi fez o quadro “Via Appia, 1756”, me faz recordar direto o conto do escritor argentino e a concepção de grotesco. Toda vez que penso na cidade dos imortais, é deste quadro que lembro: uma cidade sem tempo, sem passado ou futuro, vivendo com a poeira dos séculos.

"Via Appia, 1756", de Piranesi - perfeita demonstração de grotesco

Quadros como o de Piranesi e contos como o de Borges mostram que é possível romper a normalidade sem descambar para o mau gosto. No entanto, um dos sintomas da falta de imaginação atual é quando alguém escandaliza as convenções sociais pelo choque e pelo nojo. É tão fácil fazer isto que nem vale a pena; o verdadeiro artista é aquele que transforma a transgressão em matéria prima, e não aquele que busca os louros fáceis da fama rasteira. Não preciso nem dizer que Borges e Piranesi durarão para sempre, enquanto o cara que fez esta “instalação artística” – quem mesmo? – logo será esquecido.

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Os cachorros do Campus da Vale da UFRGS

Por incrível que pareça, um dia eu fui estudante. Não faz muito tempo. De certa forma, continuo em constante estágio de aprendizado, e começo a me conformar com a ideia de que jamais deixarei de estar estudando, seja Literatura, seja Direito, seja as áreas do conhecimento humano que me atraem.

O que pouca gente sabe é que, antes de entrar no Mestrado em Literatura Comparada, fiz um ano inteiro da Graduação em Letras pela UFRGS. E eu tinha uma disciplina de Produção Criativa. Oh, sim. Nesta aula, ministrada uma vez por semana, devíamos levar textos produzidos com base nas especificações dadas pelo professor: descrição de pessoa, descrição de cenário, ponto de vista narrativo, diálogos e por aí vai. Bem, por motivos processuais evidentes, vou silenciar sobre as opiniões caústicas que tinha em relação a esta disciplina, a qual literalmente tentava forçar pessoas a escrever textos literários, com resultados, na maioria das vezes, trágicos. Sei disso por que o professor compartilhava os piores exemplos com a sala, inclusive nominando o autor (sempre me recordo da tristeza da pessoa que tinha o texto espinafrado em público, pois, por pior que seja, um texto ainda é uma extensão da alma do seu autor). Ao final da leitura, a turma devia sentenciar se aquilo era um texto, uma crônica ou um conto. Se tivéssemos três polegares, seria equivalente a um circo romano.

Eu aproveitava a disciplina para brincar com os limites da minha escritura. Fiz vários textos, um mais engraçado e polêmico que o outro, geralmente com histórias que versavam sobre o cotidiano dos meus colegas, mas sempre sob uma ótica diferente e com bastante crítica ao sistema de ensino da UFRGS.

Ah, o professor também escolhia o melhor texto que tinha lido, e as minhas vitórias eram frequentes. Ou era eu ou era o Espártaco Dutra. Para meu absoluto horror, ele dizia que eu escrevia como o Luis Fernando Veríssimo – acredito inclusive que a ofensa é mútua -, um escritor que, na opinião do mestre, era o maior e melhor do mundo, um injustiçado pela ABL, pelo Nobel, pelo Oscar. Talvez por causa desta comparação eu tenha deletado grande parte dos textos produzidos naquele ano. Lembro vagamente que fiz uma descrição física do meu irmão que deixou metade das meninas da aula apaixonadas por ele sem sequer conhecê-lo – as gurias enlouquecem mesmo quando sabem de um cara abduzido. Lembro também que criei uma vistosa teoria da interconexão de todos os lagos do mundo, e que o Monstro do Lago Ness morava no laguinho próximo ao Campus do Vale, o que explicava as misteriosas bolhas que eu via surgindo de vez em quando. Mas a recordação mais resistente era quando o professor terminava de ler o texto, me olhava e dizia “Mas tu és um advogado… um advogado… um ADVOGADO!”, como se fosse inconcebível que advogados também pudessem escrever.

Mexendo nos arquivos que estavam em um computador desativado, acabei localizando um destes textos, que me deu inclusive um certo reconhecimento nos corredores do Instituto de Letras. É um texto em que eu falo sobre os cachorros que infestam o Campus do Vale. Perdoem o estilo ainda incipiente, as piadas desajeitadas e as conclusões pueris; eu ainda estava (ainda estou) em formação. Vale mais pela discussão levantada e por me lembrar do passado. Não o considero um conto, mas um bom início para reflexões perturbadoras.

Lá vai:

O último dia de um bife

Eu já tive um nome, mas hoje sou um assobio. Às vezes sou chamado de “matungo”, “vira-lata”, “sarnento” ou “guaipeca”. Não fico ofendido: as pessoas se enganam com a aparência. Olham meus olhos cobertos de remelas, o pêlo gasto e surrado em alguns pontos, os carrapatos por trás das orelhas, o rabo saltitante e pensam, “é um cachorro”. Toda conclusão simplista é um engano: cachorros não pensam, não leram a Ilíada, não estudaram o Machado de Assis em Estudo de Autor Brasileiro, não digladiaram com as idéias de Saussure, não tomaram café no Antônio. A verdade é que eu não sou um cachorro – sou um aluno.

Como ocorreu esta transformação? Mistérios que somente a UFRGS pode explicar. Assim como algumas pessoas acordam transformadas em baratas, outras viram cachorros. Esta metamorfose ocorreu um dia depois do meu jubilamento. Admito que tenha sido um pouco negligente na minha relação longa (muito longa) com a UFRGS, mas nada justificaria punição tão grande. Eu jamais conheci um homem que tivesse sido jubilado; agora sei qual é o destino depois do jubilamento, uma vida de chutes, maus-tratos e muitos assobios. Agora sei o motivo desta multidão de cachorros caminhando pelo Campus do Vale: são os alunos jubilados assombrando seus conhecidos, tentando evitar que terminem como eles enquanto fogem da sarna como os europeus outrora fugiram da peste negra.

O meu dia começa como sempre. Sentado na frente da porta do Instituto de Letras, vejo os alunos chegando. Pelas suas faces, é possível ver quem logo estará me acompanhando na minha jornada canina, quem segue rumo ao jubilamento. Hoje eles estão rindo, mas logo estarão chorando. Alguém já ouviu um cachorro chorar? Acreditem, é horrível.

Os alunos passam por mim e são engolidos pelo prédio, que um dia engoliu o meu tempo e cuspiu de volta um cachorro. Alguns me dirigem olhares de pena, outros dão risadas. Tenho sorte de não levar um chute, estou sentado no caminho da porta; ainda tenho uma boa dose de petulância.

As aulas começam e eu investigo os corredores. Por questão de hábito, perco alguns minutos na fila do xerox, depois lembro que não preciso mais tirar cópias ou ler polígrafos – ser cachorro tem que ter alguma vantagem. Caminho no corredor silencioso, lançando olhares para as salas de aula. Quando estou de bom humor, escolho uma sala e acompanho a aula até que alguém me enxote.

Depois de passar pelos corredores, resolvo dar uma passadinha pelo Antônio. Assim como os homens, um dos nossos defeitos é a esperança. Imaginar que o bar do Antônio deixe alguma sobra de comida para pobres cães famintos é como acreditar que eu possa voar. Tudo no bar do Antônio é reaproveitado, inclusive as sobras de comida, ou os alimentos azedos. Não me surpreende que nada tenha sido deixado para nós. O Antônio está se arriscando: já ouvi boatos de que um grande agrupamento canino pretende invadir o bar em uma sexta à noite, roubar mantimentos e ainda defecar em todas as mesas. Não consigo compreender: se os cachorros e o Antônio convivem no Campus do Vale, é óbvio que algumas regras de coexistência pacífica devem ser traçadas, ou será o caos. Quem sabe se, ele nos desse comida, não seríamos ótimos seguranças? É um bom ponto de negociação.

Saio do Antônio e caminho pelo Campus. Procuro algumas cadelas para uma sessão de divertimento antes do almoço. Engraçado como as mulheres, depois do jubilamento, param de fingir e assumem seus instintos mais primais. A maioria delas nem quer saber de conversa, vão direto ao que interessa – e nem precisam estar no cio! A população masculina está diminuindo no meio canino, e está cada vez mais difícil saciar a fome sexual das nossas cadelas. Parece que alguns estrangeiros andaram aparecendo no nosso meio, um pessoal da PUCRS, outros tantos de plagas mais distantes (Unisinos, Ulbra e até um cachorro da UFPEL, que não causa problemas nesta questão, mas nos constrange com atitudes, digamos, pouco acadêmicas). Esta miscigenação não pode ser coisa boa. Afinal, apesar de tudo, ainda somos alunos da UFRGS, e gostaríamos de manter a pureza da nossa raça.

Estou com azar, não achei nenhuma cadela disposta hoje. Devem estar todas no prédio da Veterinária, saracoteando atrás de carne nova, algum pastor alemão fornido ou um rottweiller bem selvagem para segundos de cópula suada. Em compensação, acabo de encontrar Matusa. Dizem que ele foi o primeiro jubilado da história da UFRGS, o decano dos cachorros, o ser que traçou os limites do Campus e provou que os cachorros podiam conquistá-lo. Dizem que sabe mais que o homem que projetou este lugar longe dos homens e dos deuses, este Olimpo da educação. Seu pêlo branco só existe na imaginação, e o tom rosa da pele encarquilhada assusta pela fraqueza.

Caminhamos alguns metros juntos. Matusa sempre foi um cão de poucos latidos. Penso em várias maneiras de romper o silêncio, mas ele acaba me surpreendendo:

– Já é março?

– Estamos em maio, Matusa.

– As aulas começaram? Não estamos em nenhuma greve?

– Não e não.

O velho fica agitado. Deve estar caduco.

– Então o estoque deles está acabando… preciso avisar os outros.

– Avisar os outros do quê?

– Para não chegarem perto do RU nas tardes de quinta.

Matusa se afasta, andando o mais rápido que um cachorro da sua idade pode caminhar sem se arrastar. Eu permaneço parado. O que Matusa quer dizer com não chegar perto do RU nas tardes de quinta? Ele sabe que lá é um ponto de encontro famoso da cachorrada, a nossa melhor chance de alimentação. Qual será o segredo?

A curiosidade não mata só gatos, também mata cachorros. Na tarde daquele dia, meus passos se dirigem até as proximidades do RU. O silêncio é total, quebrado pela dança das árvores com o vento. Do que será que Matusa tem tanto medo?

A porrada sai do nada e atinge a minha cabeça. Consigo ficar de pé e vejo os funcionários do RU me cercando, facas e porretes nas mãos. A compreensão me atordoa, ou talvez sejam os restos da porrada. Descobri o ciclo evolutivo dos alunos da UFRGS, e acabo de virar o último elo da cadeia.

Os cachorros na porta do RU. "Concluam os cursos de vocês ou juntem-se à nossa horda de jubilados"

Relendo o texto praticamente doze anos depois, percebo que os pontos de destaque continuam sendo aqueles que recordo: a pergunta de Matusa se a UFRGS estava em greve (era constante); o fat0 da curiosidade matar cachorros além de gatos; o bar do Antônio e as constantes denúncias de reaproveitamento de restos de comida; o destino misterioso dos alunos jubilados. “Matusa sempre foi um cão de poucos latidos” provavelmente é uma das melhores frases que já escrevi na vida. O pior é notar que, doze anos após tal descrição, pouca coisa mudou. Alunos entram na Universidade, alguns saem, outros somem. E os cachorros continuam lá, esperando comida. A gente pensa que o tempo muda as coisas, mas tudo sempre continua igual.

Uma última nota, e esta de repúdio: recentemente, um segurança matou um cachorro no Campus do Vale alegando que ele teria tentado atacá-lo. Em todos os meus anos de UFRGS, nunca vi nenhum cachorro atacar qualquer pessoa. São os bichos mais dóceis do mundo, pois dependem dos alunos para a sua sobrevivência, e não existe cachorro mais encantador e fiel do que um vira-lata. Por que é tão difícil acreditar no homem, conhecendo os bichos? O cara que mata um cachorro e mente, logo matará uma pessoa e também mentirá.

Muito comum de acontecer são os cachorros assistirem aulas de Literatura no Campus de Vale. Eram mais comportados do que alguns colegas. Lembro de um que adorava as aulas de Linguística. Esta foto está em um blog, e segue o Link: umaviajante.files.wordpress.com/2011/03/dog.jpg

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Livro: “Lady Macbeth do Distrito de Mtzensk”, de Nikolai Leskov

Considerando-se que a Rússia é um país de enormes dimensões, espalhado por dois continentes, não deixa de ser uma grande injustiça que a teoria literária limite o estudo da produção russa a três nomes: Dostoiévski, Tchekhov e Tolstói. Em termos comparativos, seria como resumir a integralidade da literatura brasileira nos nomes de Machado de Assis, Clarice Lispector e Guimarães Rosa, ou seja, impossível ler esta síntese sem sentir a falta de dezenas de nomes igualmente representativos. Desta forma, soa injusto considerar a literatura russa deixando de lado as obras de Górki, Púshkin, Turguêniev e Bulgakóv, para ficar em alguns nomes.

Em boa hora a literatura russa está sendo redescoberta, e a edição de “Lady Macbeth do Distrito de Mtzensk”, de Nikolai Leskov, é um excelente exemplo. Leskov entrou para a história da crítica literária por causa do estudo de Walter Benjamin sobre o narrador, no qual a obra do escritor russo serviu de base para as reflexões de como funcionavam os mecanismos narrativos em um mundo repleto do ideário nazista. No entanto, após a leitura de “Lady Macbeth do Distrito de Mtzensk”, podemos dizer que Leskov é muito mais do que diz o ensaio de Benjamin.

A história é relativamente simples: uma mulher jovem, estéril, casada com homem velho e rico, sente a sua vida afundar no tédio até se apaixonar por outro homem de classe inferior. Ela promete que o criado irá se tornar o dono das propriedades do marido e, a partir deste momento, os dois não economizam esforços para chegar a tal objetivo. Olhando por este ângulo, a trama até poderia soar como um clichê, se, desde o início, o autor já não anunciasse um inevitável paralelo com “Macbeth”, de Shakespeare. Quem conhece a história da peça do dramaturgo inglês já sabe que uma desgraça é iminente, pois “Lady Macbeth” é o personagem catalisador das desventuras do próprio marido, eis que a sua ambição desmedida é o impulso principal para os primeiros assassinatos. O fato de existir uma nova forma de Lady Macbeth no interior da Rússia atesta que a literatura se repete nas atitudes humanas, e os personagens criados pelos autores não passam de reflexos cujas tragédias tendem à repetição eterna.

É conveniente destacar que, para o conceito de romance, a narrativa de Leskov se aproxima mais de uma novela ou um conto estendido. A tensão da trama se desenvolve em poucas páginas, assim como existe um número diminuto de personagens. No entanto, as classificações deixam de ter interesse no momento em que se adentra no romance e o leitor se perde na narrativa. A alternância de vozes dentro da história e a verdade concedida para cada uma delas faz com que os personagens se tornem palpáveis, assim como as suas motivações. A rotina diária de Catierina Lvovna, mulher presa pelo casamento a um homem que não lhe devota o mínimo sentimento, faz com que o leitor não só se identifique com o drama, como também lhe apóie quando ela inicia o seu caso amoroso com o criado. O assassinato do marido acaba se tornando perdoável diante da sua inevitabilidade. No entanto, à medida que a história segue seu curso e os assassinatos se sucedem, a compreensão inicial com os motivos de Catierina acabam cedendo espaço para o asco. O leitor rompe a tolerância com as atitudes da personagem e passa a sentir que foi enganado pelos motivos iniciais, que só serviram para justificar o crime cometido. Leskov consegue esta inversão de expectativas sem pressionar a narrativa ou sem usar truques. É o leitor quem vai evoluindo a sua compreensão e modificando a sua visão sobre a história, deixando de desejar o bem para a “mocinha” e passando a esperar pela sua punição.

Nikolai Leskov é considerado um dos grandes retratistas da alma russa. Somente lendo o livro podemos entender o quanto esta frase é verdadeira. As discussões e conversas dos criados de Catierina Lvovna transbordam de vivacidade. Os diálogos são rápidos, incisivos e com um constante tom pícaro e sedutor, entremeando fatos do cotidiano com alusões de cunho sexual. A primeira vez em que Catierina presta atenção em Serguiêi ocorre quando ela interrompe um folguedo dos criados, que estavam brincando de se pesar, e sobe na balança para romper a monotonia. Serguiêi, ao ver o peso da sua senhora, finge surpresa e menciona, em algo que nos tempos atuais poderíamos considerar como uma cantada, que, com aquele peso, jamais se cansaria de carregá-la no colo. Aquela simples frase faz com que Catierina fique ruborizada e sinta o desejo de continuar ouvindo as palavras ditas pelo criado. Para uma mulher jovem, que jamais escutara qualquer tipo de elogio, a provocação inocente de Serguiêi desperta um vulcão de novas sensações. Além disso, a postura dos criados, de entusiasmar o romance ao mesmo tempo em que o repudiam e falam mal da patroa pelas costas, demonstra que o desejo deles era acompanhar a tragédia que se desenrola diante dos seus olhos, no desejo tão humano de “ver o circo pegar fogo”.

À medida que a atração de Catierina Lvovna cresce, os criados deixam entrever que Serguiêi é um alpinista social, um criado acostumado a flertar e dormir com as suas patroas por maiores benesses. No entanto, Catierina não se afasta e, com a cegueira típica dos apaixonados, imagina que Serguiêi possui o mesmo sentimento que ela. Novo mérito para Leskov, que deixa entrever, nas condutas do criado, que o seu interesse pela patroa nunca foi de cunho amoroso, ao mesmo tempo em que revela, nas palavras e atitudes de Catierina, um amor intenso, infantil e com toque de desespero, típico de uma mulher que jamais foi amada. Apesar de muitas pessoas não verem análise social na obra de Nikolai Leskov, é possível perceber uma mal-disfarçada crítica ao casamento por interesse, arranjado de forma prévia e sem que os cônjuges se conheçam bem. Uma pessoa pode trazer o maior inimigo para dentro de casa, para a santidade do lar.

Destaque para os diálogos do casal, repletos de infantilidades e de lugares comuns, tais como acusações mútuas de desinteresse, juras patéticas de amor eterno, súplicas chorosas e perdões. Os jovens não mudaram nada desde a época de Leskov, pois não é difícil imaginar dois adolescentes atuais com as mesmas conversas. Nas mãos de um escritor sem perícia, este material se tornaria desgastante e chato, mas o escritor russo consegue transformar o clichê em ouro, pois são justamente os diálogos que reforçam o caráter instável dos personagens e as suas motivações. Catierina, que inicia o livro com inocência e juventude, logo se torna uma máquina de matar, e o amor puro acaba virando algo obsessivo. As conversas de adolescentes passam por uma mutação: antes dos assassinatos, elas pareciam inocentes, a mulher tentando cativar o homem, que faz uma série de fingimentos no qual ambos acabam capitulando, em um jogo de sedução; depois dos assassinatos, os mesmos diálogos passam a espelhar a obsessão apaixonada e insana da mulher, ao passo em que o homem deixa entrever os seus motivos egoístas, sendo que ambos capitulam não mais por sedução, mas por conveniência. O jogo amoroso é alterado diante dos olhos do leitor e sem que nenhum componente linguístico seja modificado.

Quando o casal inicia a sua sequência de mortes, os falsos moralismos são pouco a pouco abandonados. De repente, matar aqueles que se opõem aos desejos dos personagens acaba virando o caminho mais tranquilo. Depois que o primeiro assassinato é cometido, a inocência já foi perdida, a alma já está corrompida, o inferno já está assegurado. Imersos no seu comportamento doentio, Catierina e Serguiêi não sabem mais o que é certo, e continuam vivendo na inocência dos seus diálogos, cuja infantilidade e falta de noção começam a irritar o leitor. Deve-se realçar que Serguiêi foi quem mais sentiu a consequência dos crimes praticados com Catierina, demonstrando um arrependimento maior, mas logo sufocado pela própria ambição. Catierina jamais teve as mesmas implicações morais: imersa em um sentimento forte criado mais pela sua imaginação do que pela realidade, acompanhada pela infantilidade imanente da sua conduta, ela sequer é capaz de entender o motivo da sua prisão, tanto que a única preocupação restante é se ficará junto com Serguiêi durante o cativeiro na Sibéria.

Em uma primeira análise, a morte de Catierina soa artificial como uma lição de costumes: a morte é o destino de quem ama com intensidade além do normal. No entanto, observando-se este evento com maior atenção, se percebe que Catierina foi fiel à sua paixão do início ao fim, nunca questionando a força do sentimento. Ao contrário de outros romances, em que a paixão da personagem é distorcida e limitada por livros românticos e visões idealizadas do objeto amado, desde o início o narrador fala que Catierina não sofreu a influência de nenhum livro, pois eles inexistiam na casa. Em “Lady Macbeth do Distrito de Mtzensk” está a paixão em seu estágio mais bruto, não depurada por anos de prática romântica.  Talvez por este motivo a história seja tão inquietante: se não existissem os freios criados pela sociedade na subjetividade das pessoas, o caos estaria instaurado em todas as relações humanas, pois mataríamos ou morreríamos por causa dos sentimentos.

Pela economia dos seus termos e pela força dos personagens, bem como a descrição viva das situações, o livro de Nikolai Leskov se destaca no cenário da literatura russa, mostrando que o autor merece maior realce. Ao contar a tragédia de uma mulher enlouquecida pelo amor, capaz de perder a própria vida para defendê-lo, Leskov revela a atemporalidade da sua narrativa, deixando clara a correção do provérbio bíblico: “A mulher sábia edifica a sua casa. A tola a derruba com as próprias mãos”.

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O mais terrível livro não-lido

O famigerado livro cuja capa está acima representada – “Nascimento e Morte do Sol”, de George Gamow – foi o responsável pelos momentos mais assustadores da minha infância, sendo igualmente o culpado pelos pesadelos que assolavam as minhas noites de então.

Este livro estava na biblioteca do meu pai. Ocupava um canto despretensioso da prateleira. Não sei o motivo pelo qual ele estava na biblioteca, nem a forma com que meus pais o adquiriram, pois passava longe dos assuntos que interessavam eles. No entanto, contra a lei das probabilidades e contra a própria lógica, o livro estava lá, o que depõe a favor da ideia de que toda obra procura um lugar para descansar, por mais implausível que seja.

Não sei qual foi o fenômeno que ocorreu comigo, mas, desde a primeira vez que coloquei os olhos na capa do livro e li o seu título, o horror nasceu. Para uma criança, este momento é inesquecível, assim como o momento em que o Medo nasce – recordações inesquecíveis e que se perdem no passar dos anos, mas que todas as pessoas vivenciaram em algum instante. As implicações lançadas pela capa do livro foram instigantes. Quer dizer que, se um dia o sol tinha nascido, por conseguinte, um dia ele também iria morrer? Quem iria brilhar quando o sol se fosse? Como o sol poderia morrer e abandonar a Terra? No meu mundo infantil, era simplesmente inacreditável que aquele astro que não conseguimos olhar direito, que às vezes se escondia atrás das nuvens, que outras vezes cedia espaço para a chuva, que à noite se transformava na Lua, um dia iria morrer. Não havia noite que eu não deitasse pensando que o sol poderia estar morrendo em silêncio agonizante naquele exato momento, enquanto a Lua zombeteira passeava pelo céu.

A melhor maneira de acabar com este medo seria ler o livro. Depois da leitura, eu provavelmente terminaria com as minhas fantasias sobre o assunto e veria a realidade: o sol ainda irá demorar milhões de anos para morrer e, quando isto acontecer, não se sabe sequer se ainda existirá a vida como conhecemos na Terra. No entanto, também existia o horror de que o livro expusesse alguma teoria que adiantaria a morte do sol por muitos anos. Em suma, eu senti medo da leitura, medo das possibilidades aterradoras que ela poderia evocar. Ainda não li o livro e, até hoje, a visão da sua capa me desperta um arrepio. Enquanto ele estiver confinado na prateleira, tenho a ilusão de que o sol está salvo.

O medo irracional de que o sol irá morrer um dia me fez recordar de Anaxágoras de Clazômenas (c. 500 – 428 a.C.), o primeiro filósofo autorizado a ensinar em Atenas, o qual acabou sendo exilado da cidade por que defendeu a ideia de que o Sol era “maior do que o Peloponeso”. Depois que foi expulso, ele acabou abrindo outra escola filosófica, em Lâmpsaco, colônia de Mileto. Anaxágoras foi precursor de muita coisa, mas o que mais me impressiona, até hoje, é o fato dele ter dito que a Lua era um corpo celeste mais próximo da Terra do que o Sol, assim como a sua defesa da teoria de que a Lua era um pedaço desgarrado da Terra vagando no universo. Tanto ele quanto Empédocles diziam que a luz lunar vinha do Sol. Por muito menos que isto, Galileu quase foi morto.

Anaxágoras de Clazômenas

O meu olhar infantil sobre o sol e a certeza da sua finitude não é tão diferente da ideia do tamanho gigantesco dele, segundo Anaxágoras. Provavelmente, se o filósofo grego tivesse dito que o sol iria um dia morrer, ele não teria sido expulso de Atenas, e sim linchado.

Não existe evidências de que ele tenha pensado o passo imediatamente posterior ao tamanho do astro solar, ou seja, a sensação de que as coisas mensuráveis são, também, finitas. Mas existe uma parte de mim que imagina Anaxágoras sentado à beira mar, olhando o pôr do sol distante nas águas do Mediterrâneo e pensando que aquilo um dia iria acabar, pois tudo chega ao fim, assim como ele um dia iria morrer. Neste momento, Anaxágoras também deve ter sentido o arrepio percorrer a sua pele, sem saber que somos irmãos siameses dos nossos próprios medos.

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Resenha de “O Homem Despedaçado” no blog “O Leitor Comum”

O Arthur Tertuliano – que já participou com comentários e troca de ideias neste blog, na postagem sobre o conto “Antes da Batalha” – possui também um blog muito legal, chamado “O Leitor Comum” (www.oleitorcomum.blogspot.com.br). Neste blog, ele analisa e resenha livros, sendo que seus comentários e leituras são extremamente aprofundadas, revelando um espírito crítico raríssimo nos dias atuais. Apesar de chamar o blog de “O Leitor Comum”, o Arthur possui uma das leituras mais especiais que já vi, e ando recorrendo com frequência ao seu blog para ver os livros mais interessantes a serem adquiridos.

Muito interessante e inusitada a abordagem usada pelo Arthur. Admito que, na primeira vez em que li, fiquei espantado quando ele disse que ia falar de amor, pois sempre imaginei este assunto muito distante dos temas do livro. No entanto, comecei a ler a resenha, a me apaixonar pela argumentação e, ao final, cheguei à conclusão de que o resenhista estava correto (o que leva à igual conclusão de que o autor estava errado). Na minha opinião, este é o maior mérito de uma resenha: investir contra os moinhos de vento dos lugares-comuns e mostrar novas possibilidades na obra, arejar a própria literatura com um sopro de vitalidade.

Isto é frequente nas resenhas de “O Leitor Comum”. Não posso dizer que concordo sempre, mas também não posso deixar de admitir que alguns livros eu terei que reler para desfazer a “incômoda” sensação de que o Arthur viu algo que estava diante dos meus olhos e escapou. Mérito total da leitura especial deste leitor que se diz comum.

Segue o link:

http://oleitorcomum.blogspot.com.br/2012/03/o-leitor-apaixonado.html

Boa leitura.

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