Arquivo do mês: outubro 2012

Vamos parar de pensar

Recentemente, em alguma conversa, defendi a ideia de que aquilo que separa o homem do seu sonho é o pensamento.

Estávamos falando de futebol. Tal assunto me interessa pouco, usei-o somente para embasar meu argumento. Tirando o tolo fanatismo que cerca tudo ao redor do esporte bretão, afirmei que o Internacional só foi campeão do mundo por que Adriano Gabiru, o homem que marcou o gol do título, não pensou no que estava fazendo. Se tivesse pensado que ia marcar um gol contra o invencível Barcelona da época, em uma luta que reprisou Davi e Golias, seus joelhos teriam tremido com as implicações de tal descoberta.

Como não pensou, ele foi lá e fez o impossível. O homem improvável no local exato.

(Sonho com o dia em que inventaremos uma máquina capaz de ler pensamentos do passado. Muitos mistérios serão descobertos. No entanto, também saberemos que alguns momentos essenciais da história humana não foram sequer refletidos com a cautela que se esperava dos envolvidos. Talvez por tal motivo – a inevitável decepção que nos aguarda, a sensação de que toda a História da Humanidade paira sobre os ombros de homens insensatos – que ninguém invista tempo nesta pesquisa).

Lendo “O imitador de vozes “, de Thomas Bernhard (já prometi, a resenha está a caminho), deparo-me com um pequeno conto que ilustra a minha reflexão. Vou transcrevê-lo:

Um dançarino famoso

Em Maloja, conhecemos um ex-dançarino famoso da Ópera de Paris que, certa noite, entrou em nosso hotel numa cadeira de rodas empurrada por um jovem italiano de Castasegna, a quem o dançarino contratara por vários anos. Como ficamos sabendo pelo próprio dançarino, ele havia caído em plena estreia de um Rafael de Händel que Béjart coreografara exclsuivamente para ele e, desde então, ficara paralítico. Contou-nos ainda que, de súbito, perdera a consciência e só a recuperara dois dias depois. Era possível, disse-nos, envolto num casaco caríssimo de pele de castor, que seu infortúnio tivesse se devido ao fato de, pela primeira vez na carreira, ele ter pensado na complexidade de certa combinação de passos, o que sempre temera fazer ao longo dos quinze anos de uma carreira que já o levara a todas as grandes casas de ópera do mundo. Enquanto dança, afirma ele, o dançarino jamais pode pensar em sua dança: deve apenas dançar, e nada mais.

Pensar é morrer. O sonho de voar só existe quando não pensamos nele.

O conto de Thomas Bernhard sintetiza bem o problema: quando o dançarino entendeu a complexidade do ato que ia realizar, ele se tornou incapaz de consegui-lo. Covardia, medo, receio, tudo isto brotou no seu peito na hora em que ele descobriu que era somente um ser humano e, por esta condição, poderia fracassar.

Pensar demais é perigoso. Pensar é abrir brechas para que as ervas daninhas se alastrem, trazendo consigo o medo de falhar. E, diante de tal antecipação, a possibilidade da queda se torna concreta. Tão impressionante era a coreografia feita especialmente para ele que, ao fracassar, o dançarino perdeu aquilo que mais gostava de fazer e ficou paralítico. O pensamento rompeu a confiança e o resultado foi o sacrifício da própria essência do dançarino: sua mobilidade.

(É interessante que ele apareça no conto não só conformado, mas quase feliz. Bem vestido, bem cuidado, capaz de usufruir visualmente daquilo que antes realizava, mas sem mobilidade. O pensamento que tirou as suas pernas se instalou na sua vida e acalmou a sua voracidade interna, a sua insatisfação, o demônio invisível que o levava à dançar. Ele se tornou um tigre domesticado, e gosta desta posição. O pensamento traiçoeiro que se imiscuiu na sua mente não acabou somente com a dança; também quebrou o seu espírito e lhe transformou em um acomodado).

Se o beija-flor pensar, um milissegundo que seja, sobre a impossibilidade das suas asas sustentarem no ar um corpo pesado, não conseguiria levantar vôo.

Não defendo o instinto. Ele é perigoso, falso, conduz a conclusões errôneas. No entanto, a frase final do conto encerra uma grande máxima da vida: “Enquanto dança, afirmou ele, o dançarino jamais pode pensar em sua dança: deve apenas dançar, e nada mais”. 

O mesmo pode ser dito da escrita. Enquanto uma pessoa escreve, não pode pensar naquilo que está escrevendo, deve apenas sentir a história escorrendo por entre os dedos. Pensar é começar a falhar, é trazer insegurança para a narrativa. Tenho visto muitos livros atuais – por alguma estranha ironia, a vida me colocou em um emaranhado de literatura contemporânea do qual está difícil se desvencilhar – e o que mais irrita é ver o percurso psicológico feito pelo autor no ato de escrever. Ele está pensando demais enquanto escreve e, assim, vejo narrativas medrosas, com receio de assumir posições ou ferir o politicamente correto, personagens sendo incluídos por um obscuro sistema de cotas (“melhor colocar uma mulher para atrair o público feminino”), situações forçadas para agradar o leitor de forma artificial (em especial cenas de sexo fora de contexto). Esta atitude é um bocado irritante. Se a pessoa vai escrever, pelo menos que seja sincero consigo mesmo; que pare de racionalizar e se abandone ao que está fazendo.

Se pretendemos dançar, vamos fazer com todas as nossas energias, com toda a nossa gana. Não vamos pensar no que estamos fazendo, pois o pensamento só existe para colocar obstáculos. Portanto, não sejamos o dançarino que cai ao notar, pela primeira vez depois de anos de prática, a complexidade dos passos de dança executados. Ao invés disto, sejamos Adriano Gabiru, vendo a bola a sacudir as redes e pensando “fui eu mesmo quem fiz isto? Parece um sonho que outra pessoa me contou!”.

Basta não pensar e tudo se torna possível. As dificuldades só existem por causa do pensamento. Ceder a ele é perder o sonho.

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Microcontos, sim, mas sem pressa

Na revista ÉPOCA da semana passada, li uma larga reportagem sobre as vantagens de ser lento e reflexivo em um mundo cada vez mais dinâmico, rápido, guiado por instintos. A reportagem prega as vantagens de desacelerar o ritmo, mesmo cercado de pessoas sequiosas por informações e com atitudes cada vez mais rápidas e impensadas. Para quem tiver interesse, aqui está o link da reportagem: http://revistaepoca.globo.com/Sociedade/noticia/2012/10/desacelere.html

Nada contra as pessoas que se guiam pela primeira impressão e pelo desejo de tomar decisões rápidas baseadas no instinto: o único problema são as pessoas em si. Somente alguém com domínio pleno de um assunto poderia se dar ao direito de ser instintivo, pois, de tanto estudar os meandros da questão, pode guiar suas decisões de forma mais acertada. Imaginar que um homem de 19 anos decida de forma satisfatória uma questão complexa usando os instintos é ser ingênuo demais, ainda que, pelas leis das possibilidades, a chance de tudo dar certo pode acabar acontecendo.

Recordo uma situação que vivenciei na Faculdade de Direito: ao contrário dos outros professores, que costumavam ir para a aula vestidos com ternos lustrosos feitos sob medida por alfaiates, um professor ia para a aula de bermuda, sandálias e camiseta simples. Certa vez, em uma roda, conversávamos sobre esta diferença quando um colega mais experiente disse: “Ele pode vir dar aula com a roupa que quiser. Atingiu tal grau de conhecimento da matéria que ensina que sabe que as pessoas não estão contratando a sua roupa, a sua imagem, e sim o seu conhecimento”. Foi uma grande lição: hoje, tento identificar as pessoas que atingiram tal grau de especialização que a sua presença, imagem ou fatores externos são irrelevantes para demonstrar o conhecimento.

Tudo isto para falar em microcontos. Nunca gostei deles. Sempre me pareceram o cúmulo da preguiça criativa, chistes pretensamente espirituosos, não dotados de catarse, nem de epifania, nem de deslumbramento, mexendo somente com a história oculta em completa desconsideração ao leitor. É evidente que o leitor, em um mundo acelerado, adora a experiência de usufruir de algo “literário” condensado em uma frase. Encaixa com perfeição no seu dia a dia, a pessoa pode inflar o peito e declarar que leu um livro. No entanto, poucos são capazes de memorizar a sensação causada pelo conto. Geralmente, eles são lidos e consumidos no próprio ato da leitura. Literatura fast food.

Posso citar dezenas de exemplos de microcontos que ofendem os meus princípios como leitor. É um dos poucos casos em que, se eu citar um microconto ruim, estaria fazendo injustiça para dezenas de outros microcontos ruins não citados. Brincadeirinhas bobas e simplórias, com jogos de palavras medíocres.

Quando estudei na graduação da UFRGS (não se preocupem, foi somente um semestre), tive um colega, um rapaz de olhos sonhadores. Todo dia de aula, ele chegava na frente do quadro negro, bafejava, erguia uma expressão súplice para o céu e – sabe-se lá qual musa brincalhona que acorria ao seu chamado – escrevia um microconto no canto do quadro. Em seguida, exaurido, sentava-se na sua cadeira e acompanhava a aula. Ai do professor que tentasse apagar o microconto, corria o risco de ser linchado. Todos os meus colegas elogiavam e alguns professores, para não se desgastar com a turma (meu Deus, como eu espero que seja este mesmo o motivo!), também louvavam o impulso criativo do colega. Em um ano inteiro, não vi um microconto que prestasse. Por alguns tempos, me diverti anotando-os no caderno, mas logo percebi que o rapaz imaginava que eu estava admirando o seu trabalho, então parei.

Quando conto esta história, recebo sempre o mesmo comentário: “ah, mas no Brasil são tão poucas as pessoas que leem ou escrevem, se o rapaz se sente feliz fazendo isto, mal nenhum ele está praticando!”. Não. Esta desculpa eu não aceito mais. Ele está praticando um mal, sim. Está submetendo ao público o seu esforço interno, está fingindo que isto vem das musas da criação, está impondo – com uma boa dose de convencimento e empáfia – uma visão distorcida do que é literatura. Pois literatura, amigos, é trabalho braçal e exaustivo da forma, é acordar todo dia e pegar um broquel para quebrar uma montanha de granito. Se o rapaz realmente deseja escrever e mostrar o seu trabalho, ele que vá ler mais, tentar mais, escrever mais, refletir mais, não fazer de conta que é um autor desconhecido tocado pela inspiração profunda dos grandes criadores.

 

 

Eu imaginava que minha opinião sobre microconto – eu os chamo de “a solução da preguiça”, fazendo chiste com o diálogo, chamado entre os teóricos de “a solução da facilidade narrativa” – fosse permanente, e estava errado. Agora percebo que tive más experiências com o microconto e, se ele for feito com talento, sem pressa, medindo cada palavra e cuidando do excesso, pode dar certo. Não é uma impresão completa: para mim, não é a mesma coisa que um conto, e acho até que existe um problema de definição aí, pois compará-lo a um conto completo é desgastar o conceito e parodiá-lo. Deveriam buscar novas formas de chamá-los, pois até a expressão “microconto” é preguiçosa, apoiando-se em uma definição anterior mais abrangente.

Mudei minha opinião por dois fatores. O primeiro foi a leitura de “O imitador de vozes”, de Thomas Bernhard, que me mostrou que contos podem ser pequenos para concentrar maior carga dramática. Em breve colocarei a resenha aqui no blog. Não são exatamente microcontos, eu sei, e sim contos reduzidos. A exiguidade narrativa contribui para a criação do clímax mais na mente do leitor do que dentro dos limites da história. E Thomas Bernhard faz isto com maestria, alternando sensações e gerando linhas de mistério típicos do contemporâneo. Se o conto fosse mais extenso, ele não conseguiria tais efeitos.

O segundo fator foi a descoberta involuntária de um microconto escrito por Ernest Hemingway, tido como o melhor já feito. Bem, vou contar a mitologia completa: certo dia, reunido com os amigos, Hemingway foi desafiado a escrever uma história com seis palavras. Diz a lenda que, na hora, ele pegou um guardanapo e escreveu:“For sale: baby shoes, never worn.”. Traduzindo – “Vende-se: sapatinhos de bebê, nunca usados.”

Como toda história, acho difícil de acreditar que Hemingway tenha sido tão rápido assim. Faz parte do mito do autor-criador-que-traça-palavras-geniais-em-um-guardanapo essa sensação de que as criações surgem como Palas Atena das cabeças alheias. No entanto, este microconto tem frequentado a minha memória há mais de duas semanas. Em várias situações, as mais diferentes possíveis, eu me lembro dele. Por este motivo, admito que, quando bem feito, um microconto pode ser eficaz. Ainda assim, o que mais atrapalha chegarmos ao microconto bom é o excesso de ruins que tendem a cercá-lo e exaurir a sua força.

O microconto é a síntese da aceleração do mundo na vida literária. Muitos autores apelam para ele imaginando que a genialidade e a impressão literária podem ser sintetizadas em algumas palavras. Por este motivo, acredito que a desaceleração é ainda mais necessária no momento de se fazer algo acelerado. Criar devagar e com calma é mais importante do que elaborar um chiste rapidinho e imaginar que escreveu uma micro-história.

O maior inimigo do microconto é ele próprio. De tão apressado, feito por autores rápidos para leitores sem tempo, ele acabou se esquecendo que é literatura. Desacelerem, amigos escritores, curtam a paisagem: não tenham medo do tamanho da história, não tenham medo da pressa do leitor. Se for boa a experiência, todos chegaremos ao mesmo ponto: o final.

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Filme: “Prometheus”

 

Na minha opinião, o cinema foi criado especialmente para o gênero da ficção científica. Não existe gênero melhor para abordar as vantagens do progresso da ciência, as inquietudes do homem submetido ao antigo duelo contra a máquina, a vontade de procurar respostas no infinito – e existe infinito mais absoluto do que o espaço? O homem é o lobo do próprio homem, disse o Herman Hesse. Eu adaptaria para “a ciência é o lobo do próprio homem”.

Com relação à excelência do gênero da ficção científica, recordo que Isaac Asimov (ou teria sido o Ray Bradbury?) considerava a literatura como tendo sido projetada para escrever ficção científica. Um exagero, mas às vezes eu me interrogo se tudo, inclusive a vida, não é mesmo uma gigantesca parábola científica elaborada por alguma mente.  Mente capaz de não somente formular a sua gênese como respeitar as opiniões contrárias e até fomentar discussões sobre a própria existência, em um processo de auto-desconstrução eterno, sabendo que o melhor lugar para esconder uma folha seca ainda é no meio da floresta.

Ontem assisti “Prometheus” (2012). Quando soube que seria dirigido pelo Ridley Scott, fiquei imediatamente interessado: ele sabe contar histórias de ficção científica. Vou citar somente duas que merecem estar na lista de qualquer pessoa que ame ficção científica: “Blade Runner” e “Alien – O oitavo passageiro”. Não tive oportunidade de assisti-lo quando estava no cinema.

É um filme excelente. Tanto nos acertos quanto nas falhas. Inclusive as falhas são até mais interessantes do que os acertos, pois permitem vislumbrar possibilidades tão aterradoras que dificilmente seriam exploradas sem uma ponta de receio. “Prometheus” tenta responder a mais antiga pergunta dos humanos: quem nos criou? Sempre digo que é perigoso fazer uma pergunta sem ter uma boa ideia de qual será a resposta provável. Os tripulantes de “Prometheus” descobrem que a resposta é mais terrível do que se poderia imaginar.

Os conflitos secundários são tão interessantes quanto o principal. Eu até diria que, se retirássemos os aliens do filme, ele acabaria se mantendo com suas próprias forças, tamanha a relevância das subtramas. O homem que não deseja morrer para conduzir o seu império econômico por toda a Eternidade não é tão diferente do sonho de viver para sempre, algo que não passa de uma extensão do seu egoísmo. A filha que espera toda a vida para substituir o pai e sente-se roubada pela vontade do progenitor de continuar vivo é a representação de um conflito humano ancestral. Até onde um cientista iria para provar a sua teoria é um ponto de extrema relevância – não podemos esquecer os experimentos feitos pelos nazistas com pessoas vivas, tentando demonstrar as suas teorias, e quanto de repulsa isto nos causa hoje.

No meio desta subtramas, aparece um robô. Ridley Scott gosta de robôs: nos três filmes que citei, eles aparecem em diferentes posições, alternando-se entre amigos e inimigos, entre sensíveis e indiferentes, entre mortais e frágeis.  No caso de “Prometheus”, o robô é interpretado com dignidade por Michael Fassbender. Muitos anos separam os filmes de Ridley Scvott entre si, e chamou a minha atenção o grau de ironia e perversidade que foram conferidas ao robô mais recente. No entanto, não é uma perversidade intencional, e sim maquiavélica: os fins justificam os meios e, como o robô é programado com fins, tudo se torna justificável no seu propósito, pois ele está “seguindo ordens”. É o velho dilema de Nuremberg vindo à tona para nos assombrar: os nazistas mataram milhares de pessoas cumprindo ordens. Assim, onde está o mal, nas ordens que foram dadas ou nas pessoas que lhes obedeceram? Somente a capacidade de ser humano pode responder esta pergunta. E vários personagens insultam o robô dizendo que ele não é humano, mas, para meu espanto, o mais humano é justamente a máquina. Na sua última indagação, o robô pergunta para Noomi Rapace qual o sentido de encontrar o criador para perguntar o motivo do seu ódio. A resposta: “você não sabe a importância disto, pois não é humano”. Ora, em outro momento do filme o robô faz questão similar para outro personagem e, ao receber a resposta (“nós criamos vocês por que podíamos”),  fica subentendido que, por conhecer o seu criador (os homens), o robô não tem a necessidade de perguntar o motivo da sua criação, ele existe e basta. Assim como o seu ódio de não ter uma alma e a cobiça em se apropriar dos sonhos (da alma) alheia são condições de extrema humanidade, que destoariam de um robô se não soubéssemos que ele foi programado e é reflexo dos motivos da sua existência.

Como também é praxe neste tipo de filme, é criada a dúvida sobre a Humanidade de outra personagem. O piloto da nave pergunta, de forma direta, se Charlize Theron é um robô. É uma dúvida relevante, pois ela não aparenta nenhum traço de humanidade. Para provar a sua condição de humana, a mulher se oferece para transar com o piloto. Este ato provaria a nossa condição de humano? Máquinas seriam incapazes de imitar o ato sexual? Não vou nem entrar no mérito de bonecas infláveis e outros itens. Prefiro lembrar do lindo conto de Isaac Asimov, “Prova“, constante no livro “Eu, robô”, onde um homem é tão perfeito – até nas suas deficiências, que soam programadas para soarem naturais – que as pessoas duvidam da humanidade do outro. Qual a prova suprema de que alguém é humano, como fazemos para demonstrar isto? É uma questão sublime. E irrespondível.

Diante de dúvidas tão devastadoras suscitadas pelo filme, a possibilidade do nosso DNA estar no corpo do alien também nos transforma em criadores daqueles que pretendem nos destruir. É um círculo: criamos e somos criados, destruímos e somos destruídos. A cena inicial liga na última – a criação encontra caminhos estranhos para se manifestar, e do ódio pode nascer uma criatura. Não pretendo adiantar o filme, mas a questão principal é justamente definir o motivo do nosso criador nos odiar. Por ser uma questão muito complexa, as falhas do roteiro se encontram aí: por que o nosso demiurgo deixaria inscrições nas paredes para nos guiar até ele? Mais simples seria erradicar os traços da sua passagem. Se teve a tecnologia para vir até a Terra, por que não nos destruiu ainda no estágio inicial da criação? Outras dúvidas surgem, mas eu não acredito na verossimilhança absoluta. Sempre existe um espaço na realidade para a velha e boa burrice. Prefiro pensar que os aliens não cogitaram neste plano, ou que razões extras e misteriosas lhe impediram de executá-lo. Também existe a possibilidade de que nem todos os alienígenas desejassem erradicar a corruptela do seu DNA que resultou na civilização humana, ou também deveriam existir criadores que nos amavam ao invés de nos temer como ameaças. Muitas possibilidades surgem, abrindo novas interpretações. O bom filme de ficção científica não tem respostas, e sim perguntas.

O filme é repleto de símbolos, que vão desde o nome da nave (explicação desnecessária, às vezes é melhor deixar o mistério, creio que existiu uma certa desconfiança com o tipo de espectador para quem o filme se direcionava) até o sombrio nascimento da criatura, trazida à luz sem nenhuma espécie de sentimento que não seja o horror e parafraseando o próprio parto de um ser humano, que possui cenas horríveis também. O mistério do Engenheiro que morre no início não foi bem explicado e, por isto, reúne possibilidades quase infinitas, desde um sacrifício até uma execução. Em tal contexto simbólico, o surgimento do alien é quase uma homenagem ao “Alien – O oitavo passageiro”, e é mais um simbolismo dentro de outros. Ridley Scott homenageia a própria criatura e o filme em que ela apareceu, dando-lhe uma perturbadora indagação: será que, ao entrar no corpo dos seres humanos, o alien também não quer se integrar ao seu criador, entender o seu sentido de vida? E não é isto que nós, seres humanos, não fazemos todo dia? Aliens – demasiado humanos.

Um último detalhe: na abertura do filme, as imagens de uma possível Terra jovem, nos seus primeiros anos, logo antes de surgir a vida, me deixou extremamente comovido. A força quase mitológica da natureza ainda intocada, ainda juvenil, foi inebriante. São para cenas como esta que o cinema existe, para que possamos sonhar com aquilo que perdemos – e recapturar um pouco da sua magia.

Vou colocar o trailer. Não faz jus ao filme, assemelha-se a um trailer de horror, mas a parte do filme em que tal horror ocorre é quase insignificante diante do suspense que foi até chegar nela:

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Eu, o devorador de pecados

Muitas vezes eu escutei histórias de pessoas que desistiram do Direito por serem incapazes de ouvirem certas perguntas – ou de chegarem a certas conclusões. Em todos estes anos de exercício profissional, já enfrentei os mais diversos dilemas éticos, problemas intrincados e questões de inegável criatividade, que me fizeram ver que as capacidades de engendrar maldades (e bobagens) do ser humano é inesgotável, a pedra jogada em um poço e que nunca chegará ao fundo.

Mas, em segredo, eu temo a última pergunta, a gota que encherá o copo, a questão que serei incapaz de responder sem perder a Humanidade.

Um dia ela chegará. Várias pessoas que respeito – e que desistiram do Direito – alertaram-me, com as suas histórias, de que, em um dia ainda desconhecido, encontrarei meu nêmesis. Incapaz de responder, cederei o pescoço à Esfinge e, antes de ter meu corpo jogado nos desfiladeiros que cercam Tebas, desistirei do jogo e capitularei da boa luta.

Cada pessoa que entra na minha sala pode ser o portador da pergunta. Em cada história ouvida, pode espreitar a loucura,  a impossibilidade de traduzir a experiência alheia em parâmetros racionais.

Vivo com este medo. Talvez a pergunta nunca apareça, ou talvez eu seja incapaz de ouvi-la. No entanto, ainda assim, ela existe. E espera o momento para atacar.

Ontem, chegou muito perto. Desagradavelmente próximo. Se fosse um cometa, teria passado a poucos quilômetros da esfera terrestre.

O homem conta uma caudalosa, árdua história. Torce as mãos; os olhos vagam por todo lugar, menos em mim, o interlocutor. Ele evita o assunto, e eu espero. Tenho paciência e tenho tempo. Queira ou não, a história virá. Ela sempre se oferece para quem deseja ouvi-la, para quem lhe anseia com sofreguidão.

E ele não me frustra. Fala que o seu falecido pai foi diagnosticado com câncer no estômago. Após o primeiro dia de quimioterapia, voltou para casa quieto. Sentou-se no pátio e passou algumas horas lá. Era noite quando o filho foi buscá-lo. A pergunta é inevitável: “o que houve, pai?”. O velho o encara com sofrimento genuíno: “Filho, quero que tu me faça uma promessa”. Depois do jovem recusar algumas vezes,  o pai consegue que ele concorde. Então, pede: “Não vou mais em nenhuma sessão de quimioterapia. Não aguentarei tamanho horror novamente. A dor é imensa demais. Não vou mais ir e não quero que você me leve mais”. O filho é o único que mora com o pai, o responsável por levá-lo ao hospital. Ele hesita, mas o pai diz que, se é para morrer, que seja sem dor, sem sofrimento, sem quimio.

Ele concorda. Não leva mais o pai no hospital. Omite os diagnósticos sombrios para os seus irmãos. Como era de se esperar, a saúde do velho se deteriora cada vez mais.

No final, levaram ele para o hospital. Está a família ao redor da cama. O velho sofre. No seu último momento, quase na última respiração, ele aponta para o jovem e diz, com raiva: “Foi você quem me matou”. E morre, deixando para trás o espírito do próprio filho, estilhaçado em mais pedaços do que a terapia pode emendar

Nos dias posteriores, os irmãos investigam. Logo descobrem que o pai não apareceu nos últimos tempos no hospital para o tratamento, apesar das recomendações contrárias dos médicos.  Sempre desaparecidos, de repente os irmãos se tornam presentes. E ávidos. Após um almoço de família, colocam o irmão contra a parede e ameaçam: ou ele desiste da herança em favor dos outros dois ou ele será preso por homicídio doloso. E, então, o homem faz a pergunta que interessa, a única possível e que lhe trouxe até aquele momento:

“Doutor, fui eu? Eu matei meu pai mesmo?”

A questão escapa do jurídico. Ele não tem medo da lei. Na sua voz, reside a dúvida, e não é a dúvida de um culpado, é a dúvida de um ser que pode ter matado o próprio pai por causa de um erro de interpretação, por causa de uma cabeça prejudicada pela quimio ou com os primeiros sinais da demência.

E a resposta é mais dolorosa ainda. Sem redenção alguma, sem alívio.

Sim, matou. Deveria ter pego esta vontade do pai por escrito. Deveria ter se cercado de testemunhas. Deveria ter consultados seus irmãos.

Deveria. Mas não fez.

Alinhavamos a estratégia de defesa, o que fazer para quando chegar a hora, como pressionar, como fingir mais fortaleza do que a realidade. Quando ele saiu, por mais paradoxal que pudesse parecer, estava aliviado. No fundo, sabia a resposta, só confirmei aquilo que ele sabia.

No entanto, a pergunta me assombrou o dia inteiro. Ele matou mesmo o pai? Uma pessoa pode matar a outra sem querer? E que espécie de jogo demoníaco foi este praticado pelo pai, que lhe pediu uma morte sem dor e, na hora H, como uma vingança tola, resolveu culpar outra pessoa pela sua decisão? E o gosto ruim preenche a minha boca enquanto perco um pouco mais de esperança na Humanidade, sabendo agora que filhos podem matar os pais por omissão, que pais podem transferir culpas invisíveis para um filho,  que o egoísmo no momento final fala mais alto do que a piedade, que irmãos podem usar uma tragédia para destruir outra pessoa.

Reflito sobre o peso das perguntas que ouço e das atrocidades que presencio. Penso em quanto tempo ainda tenho antes que elas comecem a fragmentar a minha índole. Cada vez menos.

Tudo o que consigo pensar é que acabei virando um “devorador de pecados”. No passado, em muitas comunidades, era comum que colocassem um pão sobre o peito do morto ou sobre seu esquife. Acreditava-se que os pecados eram transferidos para este alimento. Em seguida, entrava em cena o “devorador de pecados”, um homem que devorava este pão, ingerindo os pecados do outro e alcançando-lhe o perdão eterno, garantindo uma alma límpida, sem máculas. Sempre me angustiou a quantidade de pecados e podridões que um único homem pode aguentar sem corromper a sua essência. Imagino o homem andando pela cidade, com passos fortuitos, envergonhados, os olhares alheios fugindo da sua sombra incômoda, sabendo que ninguém iria lhe convidar para jantar naquela noite, mas que ninguém erraria o seu endereço na hora de comer o último pão de um falecido.

De certa forma, a questão que me assombra é pouco diferente da angústia que meu cliente experimentou.

Para salvar a alma do outro, vale a pena perder a própria?

Continuo esperando a última pergunta.

Túmulo de Richard Munslow, último devorador de pecados da área de Shropshire. O seu epitáfio é desagradável e revelador: “”I give easement and rest now to thee, dear man. Come not down the lanes or in our meadows. And for thy peace I pawn my own soul. Amen.”

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Os motivos (teóricos) da minha decepção com Péter Esterházy em “Os verbos auxiliares do coração”

Há algum tempo eu não escrevia nada mais teórico. Pelo menos nada publicável; mantenho meus escritos teóricos para consumo próprio. No entanto, devido à minha leitura de “Os verbos auxiliares do coração”, de Péter Esterházy, como parte do evento “Leituras do Séc. XXI”, senti necessidade de escrever as minhas considerações. Nem tanto em relação à palestra do professor Biagio D’Angelo – que foi muito acurada, inclusive ajudando a fundamentar o meu ponto de vista neste breve ensaio -, mas com o fato de eu ter me sentido logrado ao final da leitura.

Ao término da leitura de “Os verbos auxiliares do coração”, de Péter Esterházy, eu me senti incomodado. Foi difícil precisar o motivo. Em um primeiro momento, poderia ser a história, que trata da forma com que o autor/personagem/narrador lidou com a morte da sua mãe, em um acerto de contas amargo com o passado. Contudo, logo afastei esta possibilidade: a literatura de luto virou um rentável filão editorial e existem dezenas de livros explorando leitores com relação a tal sentimento, não causando mais o frisson que se esperaria de assunto tão polêmico (A este respeito aconselho a leitura do artigo da revista Época presente no link http://revistaepoca.globo.com/cultura/noticia/2011/09/literatura-de-luto.html). Em uma segunda análise, pensei que o desconforto poderia estar ligado ao fato do autor/personagem/narrador ter descrito as suas sensações após a morte da mãe em algo pretensamente biográfico (podemos confiar tanto assim no autor a ponto de saber que o escrito realmente ocorreu?). A figura da mãe é carregada de simbolismos, e pareceu-me confortável abordar um tema em que o leitor possui capacidade de identificação instantânea, pois todo mundo já perdeu algum ente querido e todo mundo tem mãe. Com estas variáveis na equação literária, torna-se difícil fazer um texto que não seja sucesso. No entanto, não foi isso que me deixou desconfortável, pois todos sabem que, desde a Ilíada e a Odisséia, na realidade só existem duas histórias em torno do qual a literatura circula nas mais diversas variações: a volta para casa e a batalha pelo auto-conhecimento. Por fim, após uma longa deliberação interna, consegui precisar o que me incomodou: a simbiose indecente e cômoda de autor/personagem/narrador, um dos traços da literatura contemporânea, em algo que considero uma vulgarização do voyeurismo, uma demonstração estéril de virtuosismo.

Seria um bom momento para citar Hannah Arendt e o seu conceito de “banalidade do mal”, que também se aplicaria no que pretendo escrever, pois Esterházy age dentro das regras da literatura de forma a banalizar os seus sentimentos e manobrar o leitor em busca de uma falsa epifania. Neste diapasão, considero o subtítulo “Uma introdução à Literatura” como a expressão mais irônica da sua real intenção, pois Literatura envolve sentimentos genuínos, ainda que o autor seja o primeiro mentiroso, pois, se transmite o que pensa com tal intenção, ele não é mais genuíno e nem é mais sentimento. Aqui não é o momento e nem o lugar correto para expor esta ideia. Prefiro me deter no traço do contemporâneo que detectei, gerando um afastamento dos meus sentimentos de leitor em relação ao livro.

Por muitos anos, a crítica literária debateu a figura do autor diante da sua obra: seria necessário ler um livro sabendo quem foi o autor ou as suas intenções na hora de escrevê-lo? Em alguns momentos, inclusive, chegou-se ao extremo de defender uma análise literária na qual o autor não teria mais nenhuma relevância, adotando somente a obra como paradigma de referência. Esta teoria foi chamada de “a morte do autor”, mas o assunto pertence ao campo da crítica literária. Sou um leitor, não um crítico. Destaco esta teoria somente para dizer que, hoje, ocorre o contrário do apregoado nela: parece-me que os livros contemporâneos só possuem validade quando lidos em conjunto com a vida do autor. A pulsão criativa tão louvada pelos críticos deslocou-se da epifania de um texto bem escrito para o quanto este texto está vinculado à vida do autor que o produziu. Quanto maior a identificação dos fatos narrados por ele com o seu texto, melhor seria a experiência de vida nele descrita. Os leitores estão se tornando voyeur das vidas dos autores, e confundem tal vinculação com excelência literária.

É uma tendência da literatura contemporânea, e vale a pena observar, pois a observação é o primeiro passo para a desconstruir um engodo ou reafirmar uma realidade. Para ficar somente em exemplos atuais, destaco dois livros em que isto aconteceu: “O filho eterno”, do Cristóvão Tezza, e o recente “A queda”, do Diogo Mainardi. São obras cuja análise não se detém no seu valor literário, mas em circunstâncias de vida enfrentadas pelos autores, abordadas “com coragem” (para usar um eufemismo tão amado pela crítica). São livros que necessitam de forma indelével da figura do autor para existirem e serem valorizados pelos leitores.

Todo leitor procura o autor dentro do seu texto, de forma consciente ou não. Impressiona na literatura atual que o status de autor tenha adquirido maior importância do que a própria história narrada, como se a tentativa de criar vida em um livro dependesse da aparição mágica do demiurgo na trama. Recordo aqui Foucault e a sua defesa do locus ocupado pelo autor em relação à história:

“(…). É sabido que, em um romance que se apresenta como o relato de um narrador, o pronome da primeira pessoa, o presente do indicativo, os signos da localização jamais remetem imediatamente ao escritor, nem ao momento em que ele escreve, nem ao próprio gesto de sua escrita; mas a um alter ego cuja distância em relação ao escritor pode ser maior ou menor e variar ao longo mesmo da obra. Seria igualmente falso buscar o autor tanto do lado do escritor real quanto do lado do locutor fictício; a função autor é efetuada na própria cisão – nessa divisão e nessa distância.” (“O que é o autor?”. In: FOUCAULT, Michel. Estética: literatura e pintura, música e cinema. Coleção Ditos e Escritos. V. III. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2001. P. 264-298)

Na literatura contemporânea, a divisão entre narrativa e autor é cada vez mais desconsiderada. Em uma tentativa de criar vida na ficção, o próprio autor aparece na obra como autor/personagem/narrador, caso de Péter Esterházy. No entanto, não é a vida que um autor deve buscar, e sim a sua imitação. Se não existir um motivo específico ou ficcional para que o autor figure na narrativa, a sua presença se torna um fardo, além de demonstrar insegurança sobre a recepção, pois quem pode criticar “Os verbos auxiliares do coração” sem criticar o próprio autor que narra a sua gama de sentimentos díspares? A confusão de tragédia – no conceito aristotélico – com melodrama é visível, e a presença do autor só potencializa esta sensação de desconforto, de que criticar o livro é impossível sem criticar o autor que lhe deu origem. Pelo teor dos demais comentários e postagens feitas no blog do “Leituras do Séc. XXI”, o livro é elogiado mais pela pena que os leitores ficam em relação ao seu autor, e não pelo valor intrínseco da narrativa, cuja estrutura fria e cortante soa com o mesmo vazio estético de uma casa projetada por Le Corbusier.

Na primeira parte do livro, o autor/personagem/narrador se entrega a uma descrição detalhada dos sentimentos conflitivos que se sucederam pouco antes e pouco depois da morte da sua mãe. Na segunda parte, o autor se entrega a uma fantasia intertextual, em que trata da mãe como um misto de criatura verdadeira com ficção, tecendo longos comentários que demonstram a sua erudição e o manancial de obras que constituíram a narrativa, até terminar em um mistura bestial e excelsa de Édipo com Saturno. Poderia ter funcionado, se o autor/personagem/narrador não tivesse sacrificado a verossimilhança e o sentimento para demonstrar os seus livros de formação. O livro ficou no meio termo de um depoimento sentimental e um exercício de estilo, com a diferença de que não conseguiu virar nenhum dos dois, fracassando em ambas as tentativas.

Façamos uma auto-análise: nossos comentários sobre os livros se prendem à história narrada e a sua capacidade de atração ou estamos falando de como o autor articulou a sua experiência de vida dentro de um livro? São abundantes as análises de livros tentando vinculá-lo às vidas dos seus autores. Quando não conseguem isto, o desconforto é palpável, haja vista a quantidade de indagações e criações mirabolantes que perseguem a crítica quando a figura do autor de uma obra portentosa se desvanece sem deixar um campo seguro de análise, caso de Shakespeare. Aliás, como se torna difícil analisar uma obra literária sem a muleta confortante que é a vida do autor! Tudo soa tão explicável quando fazemos esta análise em conjunto – até mesmo a arte.

No caso de Esterházy, o desconforto é ainda maior, pois ele anuncia a sua intenção de nos comover pela escolha do assunto logo no prefácio. Quando afirma “Faz quase duas semanas que minha mãe morreu, tenho de me entregar ao trabalho antes que a necessidade demasiado ardente de escrever sobre ela recue para o mutismo covarde com que reagi à notícia da morte”, é quase impossível distinguir se a força motriz do impulso criativo é o desejo de compartilhar a angústia dos sentimentos com o leitor ou se é a vontade de aproveitar uma tragédia para escrever um livro. Nenhuma pessoa de sã consciência vai dizer que Esterházy escreveu “bobagem” quando pretendeu abordar a morte da própria mãe. O que incomoda é que o próprio escritor veja a intensidade do assunto e coloque uma estrutura literária visando compartilhar a sua intimidade com o leitor, que espia por entre a cortina, ansioso pela vulgaridade de uma exibição familiar. O meu desconforto se situa no fato de não considerar isto pulsão criativa, e sim no fato de que o escritor viu, na sua tragédia pessoal, a bela oportunidade de fazer literatura sobre um tema universal. E declare isto, não para angariar simpatia ou repulsa, mas como uma exibição narcisística. Podemos dizer que toda forma artística é uma extensão do narcisismo do seu criador, mas, ainda que respeite esta vontade de brincar com os leitores, receio que o escritor falhou naquilo que é mais importante: a verossimilhança.

Não estou dizendo que o livro seja mau escrito, longe disto. Inclusive penso que a história se constrói mais nos intervalos entre a narrativa e as notas de rodapé, que geram ondas de atrito e tensão, e isto é interessante. Contudo, resta evidente que o autor se refugiou na segurança de um desabafo, transformando suas sensações em uma obra literária, mas que, retirado o suporte do luto pela mãe, não se sustenta sozinho. Pouco se diferencia de um diário e – para situar em uma obra de alcance mundial – perde feio para a veracidade do “Diário de Anne Frank”. O autor deglutiu a emoção e, ao invés de transferir a dor supostamente sentida para o leitor, acabou criando uma falsa confissão ou admissão de culpa. Os leitores conseguem ver o autor e não afastam o livro da sua imagem, simpatizam com a dor não por causa da narrativa, e sim por causa da figura intrometida do próprio criador.

Tenho dúvidas se um livro pode se fundar exclusivamente na figura externa do autor. O importante deveria ser as ações internas, a fluidez da história, as mudanças e os sofrimentos experimentados pelos personagens. Quando o autor coloca o foco sobre si mesmo como parte constituinte da trama, ela acaba enfraquecendo, pois se torna uma imitação de pulsão literária. Ainda bem que a “Poética” de Aristóteles faz coro às minhas declarações, quando afirma:

“A mais importante dessas partes é a disposição das ações: a tragédia é imitação, não de pessoas, mas de uma ação, da vida, da felicidade, da desventura; a felicidade e a desventura estão na ação e a finalidade é uma ação, não uma qualidade. Segundo o caráter, as pessoas são tais ou tais, mas é segundo as ações que são felizes ou o contrário. Portanto, as personagens não agem para imitar os caracteres, mas adquirem os caracteres graças às ações. Assim, as ações e a fábula constituem a finalidade da tragédia e, em tudo, a finalidade é o que mais importa”. (ARISTÓTELES, HORÁCIO, LONGINO. A poética clássica. 7a ed. São Paulo: Cultrix, 1997, p. 25).

Sabendo que a emoção foi deglutida e assimilada antes de virar livro, tudo é feito para gerar uma falsa sensação de intimidade. As confissões inoportunas, os rompantes e desabafos, a fúria dos sentimentos, tudo soa falso. O autor pretexta uma pulsão irresistível para escrever. Utilizando a figura de um autor/personagem/narrador, é impossível não ser bem sucedido. Ele utiliza a curiosidade mórbida do público leitor com as suas reações para criar intimidade e, neste aspecto, o leitor é pouco diferente da pessoa que diminui a velocidade do carro para contemplar as vítimas fatais de um acidente de trânsito.

Na literatura contemporânea, é quase impossível dissociar a narrativa da figura do autor. Estamos regredindo na nossa análise: deixamos de ver a verdade de vida contida no texto literário e consideramos mais autêntico o texto que mais se aproxima da vivência do autor. Sabendo disto, o autor se refugia no comodismo de narrar, sob um verniz literário, uma história pessoal, seja de tristeza, separação, angústia, superação, vitória. É a vulgarização do voyeurismo; estamos virando voyeurs da vida de um autor.

Tal fato não deveria me decepcionar, pois é uma das cláusulas do longo contrato de ficção firmado entre autor e leitor. No entanto, em Péter Estérhazy, incomodou-me esta tentativa de brincar com os meus sentimentos, a vontade de usar a literatura não como catarse do sentimento, mas como exploração comercial dele, quase um deboche, uma demonstração de perícia técnica estéril e forçada. Quando vejo a história das suas outras narrativas, deparei-me com um comportamento reiterado: Esterházy escreveu “Harmonia Caelestis” dissecando a sua relação pessoal com o pai e “Uma mulher” foi escrito revelando os bastidores de uma relação amorosa. Não conheço toda a obra dele, e inclusive adquiri o “Uma mulher” para ter certeza desta impressão, mas o indicativo não parece ser muito bom. Ele só consegue escrever sobre aquilo que vivenciou. Não existe criação genuína ou pulsão original; existe a tentativa deliberada de dissecar um sentimento com falsidade e gerar uma leitura confortável. Aliás, quando o autor fala da própria vida em uma forma ficcional, isto é considerado ficção?

No texto anterior que fiz no blog “Leituras do Séc. XXI” (http://leiturasdosec21.blogspot.com.br/search/label/Gustavo%20Melo%20Czekster), reclamei da preferência absoluta da literatura contemporânea pelo narrador em primeira pessoa, que considerei preguiçoso e acomodado. “Os verbos auxiliares do coração” são a epítome desta declaração: o autor anuncia que vai expor as vísceras, mas, na realidade, só revela o seu penteado através de um espelho fosco, quase sem ocultar a vaidade, quase como se dissesse “minha mãe morreu e, olhem só, fiz literatura com isto!”. Talvez minha visão esteja defasada, mas ainda acho mais válida a ficção de um homem que descreve seus sentimentos sobre a morte da mãe sem que referido autor apareça para validar a sua experiência ou – mais relevante ainda – um autor capaz de descrever a morte da mãe sem truques estilísticos e estando com a própria mãe ainda viva, criando para o leitor uma imitação de vida tão forte que espanta pela força. De passagem, recordo da morte de Dora em “Capitães de Areia”, do Jorge Amado, de como ela ganha o status de mãe dos meninos de rua, gerando sentimentos em todos eles, e de como o seu fim acaba sendo uma experiência catártica para o leitor, sem que o próprio Jorge Amado apareça na trama para reforçar a aparência de vida da tragédia vivenciada.

Interrogo-me se esta tendência da literatura atual não seja um grande problema; interrogo-me se estou lendo a vaidade sublime de um autor que se pretende eternizar dentro de um livro ou se estou lendo a representação de vida dentro de um livro. Recordo aqui o sábio alerta de Elias Canetti sobre Sartre: “Sartre sempre se orgulhou e justificou com o fato de se expor. Mas é bastante importante não se expor. Deveríamos recuar e esperar até nos sentirmos arrebatados por dentro. Não deveríamos nos obrigar a dar respostas. Responder não é nada. Responder é falta de liberdade, e, por isso, equivocado.” (CANETTI, Elias. Sobre os escritores. Rio de Janeiro: José Olympio, 2009, p. 171) Não sei se a figura onipresente do autor é uma necessidade da literatura contemporânea; para ser bem sincero, acho que o texto existe apesar do autor e, não raro, se constrói mesmo é no conflito com ele. O que sei, no momento, sem tirar os méritos de construção do livro, é que vi o jogo maléfico feito por Esterházy para me comover – e me decepcionei com isto.

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Um jogo de xadrez e literatura com Borges

Nada como iniciar com um saudável clichê, então não existe nada como um dia depois do outro. Ontem, escrevi uma postagem sobre o xadrez, mencionando o conto “O homem despedaçado”, onde o jogo possui participação decisiva como uma das chaves de interpretação (ainda que narrador e autor tenham seguido a vereda tranquila de indicar um número, como se o número contivesse uma resposta possível).

Hoje, encontro esta genial poesia de Jorge Luis Borges sobre o xadrez. Não irá adiantar muito dizer que eu nunca a li. Contudo, ainda que não seja verossímil, é a verdade. Gosto muito das poesias de Borges, em especial aquelas mais frias, que considero pulsionais de uma forma diferente. A minha pulsão criativa também ocorre desta forma distorcida: a emoção passa por um agrupamento ríspido de controles e depurações. Aquilo que chega ao papel é muito diferente do sentimento original. Eu sou capaz de senti-lo, mas poucas pessoas até hoje entenderam que, na orquestra da literatura, a minha pulsão equivale ao som discreto de um oboé: a emoção está ali, mas tão contida que mal se pode reconhecer a sua sombra.

Se pensar naquilo que escrevi ontem em comparação com a poesia que segue abaixo, impressiona-me que as mesmas inquietações turvaram a minha cabeça e a de Borges. O xadrez é um jogo inocente? Qual o papel do jogador? Estamos jogando as peças ou sendo jogados por elas? As peças também sentem dor? As duas cores se odeiam, mesmo sendo irmãs na sua tragédia e na repetição de mortes infinitas?

São perguntas que não deveriam sequer existir. Respostas desagradáveis me esperam no final deste caminho. Enquanto isto, vamos à poesia, ouçamos a pulsão de Borges, esta estrela gélida que capta a emoção do leitor e a decompõe:

 

XADREZ

Jorge Luis Borges

I

Em seu grave rincão, os jogadores

as peças vão movendo. O tabuleiro

retarda-os até a aurora em seu severo

âmbito, em que se odeiam duas cores.

Dentro irradiam mágicos rigores

as formas: torre homérica, ligeiro

cavalo, armada rainha, rei postreiro,

oblíquo bispo e peões agressores.

Quando esses jogadores tenham ido,

quando o amplo tempo os haja consumido,

por certo não terá cessado o rito.

Foi no Oriente que se armou tal guerra,

cujo anfiteatro é hoje toda a terra.

Como aquele outro, este jogo é infinito.

II

Rei tênue, torto bispo, encarniçada

rainha, torre direta e peão ladino

por sobre o negro e o branco do caminho

buscam e libram a batalha armada.

Desconhecem que a mão assinalada

do jogador governa seu destino,

não sabem que um rigor adamantino

sujeita seu arbítrio e sua jornada.

Também o jogador é prisioneiro

(diz-nos Omar) de um outro tabuleiro

de negras noites e de brancos dias.

Deus move o jogador, e este a peleja.

Que deus por trás de Deus a trama enseja

de poeira e tempo e sonho e agonias?

A sombria imagem de um regicídio. Um deus presta sua homenagem ao outro – a luta acabou, o rei está morto, vida longa ao rei.

Às vezes lembro as gentis palavras que a minha orientadora Léa Masina escreveu na orelha de “O homem despedaçado” e fico assustado: como discordar da expressão “conjunto de narrativas que se aproximam de vertentes borgianas” se os fatos insistem em me contrariar, se mais pistas e evidências aparecem? Insisto em dizer que gosto de Borges, mas não muito, acho algumas narrativas até pueris demais. O que eu realmente curto é o jogo com o leitor e com as suas percepções. Mas também gosto de Faulkner, Dickens e Cortázar pelos mesmos motivos.

Tenho o certo receio de, um dia, encontrar um texto do Borges que defina com exatidão ímpar tudo aquilo que sou quando escrevo, por isto evito trechos da sua obra que podem me desmascarar. Esta coincidência com o xadrez não é uma coincidência. Estamos na mesma sintonia, gostemos ou não.

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Xadrez, possibilidades e mortes infinitas

Do outro lado da monótona planície, olhos vazios me contemplam. Eu sou o alvo. Todos ambicionam me acuar em um canto, deixar-me sem movimentos, sem ar, até que o toque frio me alcance e a queda seja inevitável. À direita, a rainha com a sua roupa branca sussurra que ninguém vai se aproximar, que ela vai agredir o inimigo – posso confiar? No outro lado do trono, o bispo reza e diz que correrá de um lado para o outro da planície procurando os auspícios dos seus deuses. Nos flancos, os cavalos se agitam, irrequietos, ansiosos para atravessar as barreiras inimigas e escrever seu nome com glória no campo de batalha. Ainda distantes, as torres prometem segurança, solidez, a última linha de defesa e de sacrifício.

As minhas forças são iguais às do inimigo. Ainda assim, sinto-me desprotegido. Será que o meu antípoda tem a mesma sensação? Nós somos o alvo e, no momento, só podemos confiar nos nossos desconfiáveis exércitos.

A batalha não depende de nós. Depende dos outros.

Do outro lado da planície, o exército de sombras espera o momento de atacar. O campo ainda está puro; logo, estará coberto por cadáveres invisíveis. Foto tirada do site http://www.deviantart.com

A batalha começa. Corpos caem de ambos os lados. Por momentos, sinto que estamos ganhando. Em outros, o desespero se apossa da planície enquanto a derrota parece cada vez mais próxima, com dentes podres que insistem em se prender nos meus calcanhares.

Tudo chega ao fim, inclusive eu. Os mesmos que me iludiram com promessas de vitória caem tentando estabelecer uma última linha de defesa. O inimigo – a minha sombra distorcida – dança ao redor, ceifando o exército como se fossem um milharal esperando o momento da colheita.

Desde o início, eu sabia que isto podia acontecer. Terei dignidade antes do fim? Assim espero. Quando resta somente um soldado a me defender, um tolo que insiste em negar o óbvio, não sei se devo rir ou honrar o seu esforço inútil em uma última batalha, esquivando-me, fugindo dos inimigos para forçar um resultado honrado. Protelar o inevitável também é dar chance para que algo aconteça.

É duro perceber: não perdi a luta para o outro. Perdi para mim mesmo. A falta de concentração, o descuido, a incapacidade de raciocinar – todos os motivos escondem um único culpado pela derrota.

 

No final, sempre resta um – e a fútil esperança de salvamento representada pela obstinação de somente um último e insensato amigo. Foto tirada do site http://www.deviantart.com

A batalha termina. Até a próxima distribuição de tropas sobre o tabuleiro, permanecerei na tumba com meus guerreiros, fantasmas silenciosos dormitando com os inimigos e suas zombarias, todos irmanados no fundo da mesma caixa.

Talvez a gente discuta táticas; contudo, o mais provável é que façamos promessas vãs de vitória e glória no futuro. Pois a vida é um jogo, a existência é uma luta e, no final, tudo o que realmente importa é destruir o outro.

* Aos leitores mais atentos: esta é a centésima postagem no blog. Vamos comemorar. Para os que ainda acham que escrevi o livro sem querer, ofereço como presente uma nova chave de leitura para o conto “O homem despedaçado”, desta vez sob a ótica do xadrez, que testemunhou eventos e não pôde depor sobre aquilo que viu. Quem disse mesmo que ele era somente um símbolo? O narrador. E quem disse que devemos confiar no narrador? O autor. Perigoso confiar em criatura tão instável.

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