Obras Inquietas – 30. “Bacanal” (1920), Auguste Levêque

No trigésimo texto que escrevi para a minha coluna “Obras Inquietas”, eu quis mostrar que também existe inquietação e medo dentro de uma orgia. Falei da obra de Auguste Levêque, “Bacanal” (1920), e os vários corpos de homens e mulheres que se contorcem em busca de prazer, e os sorrisos lânguidos que escondem gritos de dor.

Boa leitura!

“Bacanal” (1920), Auguste Levêque

Ceda ao descontrole. Deixe o animal tomar conta da sua pele; permita-se que todos os seus desejos saiam à tona. Mergulhe no corpo do outro como se ele fosse uma extensão do seu – submeta a vontade alheia aos seus impulsos, por mais selvagens que eles sejam. Grite até o limite da sua garganta, ria com frenesi, lamba pescoços, seios, torsos, pernas, sexos. Arranhe a sua parceira; tire sangue dela, faça com que seus gritos de prazer se transformem em pavor. Esqueça dos limites que a sociedade estipulou, esqueça da sombra de moralidade que anda ao seu redor dizendo o que é certo ou deplorável, esqueça do seu nome e da sua família e da sua ética e de tudo que lhe transforma em humano. Hoje é a noite do animal: da criatura que se esgueira por debaixo do seu sorriso, do medo que você não confessa nem para o travesseiro, do impulso que lhe faz ter vontade de estraçalhar, de morder, de se impor, de machucar o outro. Liberte-se da sua pele. Deseje o mal ao seu semelhante. Entregue-se ao desejo por tudo que é proibido. O outro não é seu amigo; ele é o inimigo, e deve ser devorado pelos seus dentes famintos, pela sua boca raivosa, pelos seus dedos que, como garras, enfiam-se na pele tenra e extraem dela aquilo que existe de mais sublime e de mais terrível. Encharque-se com o desespero alheio. Sinta-se mergulhar em um oceano de gritos, de gestos repletos de fúria, de beijos que mordem, de dedos que penetram. No ápice do prazer mora a mais intensa das dores, assim como, em todo grito de êxtase, esconde-se o prenúncio do horror. A melhor maneira de perder a Humanidade é afundar-se em outro ser humano até que ele grite, e nem todos os gritos em um bacanal são de alegria. Nem toda a luxúria pode ser perdoada. Bem vindo ao festim dos corpos.

Texto originalmente publicado no link https://artrianon.com/2017/05/07/obras-inquietas-30-bacanal-1920-auguste-leveque/

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Obras Inquietas – 29: Estátua suméria de casal diante de Deus (c. 2.600 a. C.), Anônimo

Ando um pouco atrasado nas minhas atualizações sobre os textos que escrevi para a minha coluna no “Obras Inquietas” lá no Artrianon, mas aos poucos vou colocando eles aqui.

Sou um grande admirador da arte suméria, que teve seu apogeu mais de 2.000 anos antes de Cristo. É uma arte acostumada ao terrível, ao inominável, ao que está além do alcance. Nas estátuas, era costume colocarem homens e mulheres mergulhados no mais absoluto pânico, tentando se deparar com questões que iam muito além da sua capacidade de compreensão, o que não deixa de ser uma ótima representação da Humanidade. A diferença é que, nos tempos atuais, preferimos ignorar as perguntas ao invés de tentar respondê-las.

Boa leitura!

“Estátua suméria de casal diante de Deus” (c. 2.600 a.C.), Anônimo

Contemple o vosso Deus e estremeça, verme. Fique diante do Impossível; sinta a presença queimar o mundo, eviscerar as suas memórias, preencher o universo com um canto de terror e enlevo. Toda a sua vida foi uma antecipação desse momento e, agora que ele enfim aconteceu, a fala sumiu, o choro desapareceu e restou somente o desespero de se saber ínfimo, insignificante engrenagem em um jogo que já existia antes da sua chegada e continuará sendo jogado com bocejante previsibilidade. Sinta a sua real extensão, criatura de pó e cinzas postergadas. Suas mãos ainda recendem à terra que semeou pela manhã; muitas vezes eu o acompanhei nos afazeres no campo, nos olhares temerosos lançados à noite e às crueldades que moram nos gritos invisíveis da escuridão. Eu lambi os seus arrepios de horror quando a Morte chegou, eu estava presente quando a vida lhe bafejou de graça e medo. Vejo que você trouxe a sua mulher, como se isso fosse trazer piedade, como se um Deus pudesse lhe perdoar por algo tão abominável e transitório quanto o amor. Vocês se abraçam, procurando conforto para o que sequer conseguem explicar, preenchidos pela presença de algo inominável, fatídico, repleto de violência e sofreguidão, que está na sua frente e em todos os lugares. Escuto as preces titubeantes entoadas por vocês, dois fazendeiros, buscando uma piedade que jamais oferecerei, e a minha risada faz o firmamento encolher as suas nuvens: eu já estive diante de reis, de prostitutas e de macacos; já fechei os olhos de falsos deuses, já beijei os lábios de criaturas extintas. Não há espaço para piedade nesse mundo, nunca houve. Pois eu sou o vosso Deus, aquele que não possui sombra, o que estava antes e estará depois, o horror sem nome, e vocês não passam de pasto para uma fome que nunca termina.

Texto publicado originalmente no link https://artrianon.com/2017/04/30/obras-inquietas-26-estatua-sumeria-de-casal-diante-de-deus-anonimo-c-2600-a-c/

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Sobre o processo de transformar palavras em igrejas

Todo mundo gosta de escrever sobre si mesmo e sobre aquilo que conhece. Desafio mesmo é escrever sobre o que não vemos e, ainda assim, existe.

Três anos atrás, fui convidado a participar de uma antologia de contos. Eu devia escrever sobre Santa Cruz do Sul, sobre algum detalhe da cidade ou de seu povo.

No final, escrevi dois contos. O primeiro, uma história de terror exemplar, “Morrer em Santa Cruz do Sul”, uma trama em que um engenheiro de tráfego descobria que as ruas da cidade tinham vida própria, escolhendo de forma caprichosa as pessoas que deviam morrer, e que cada cidade possuía um espírito sombrio esgueirando-se pelos suas tubulações, esquinas e parques. Um dia ainda pretendo publicá-lo em algum lugar (apesar de ser uma história que dificilmente me deixaria nas graças da valorosa população de Santa Cruz do Sul. É uma homenagem duvidosa, mas interessante, acreditem).

O segundo conto não se passa propriamente em Santa Cruz do Sul, mas no distrito de Rio Pardinho. Uma amiga, Andrea Kahmann, certa vez me contou que a primeira igreja luterana da cidade tinha sido construída em escassos 4 meses e meio por cinquenta e dois homens, que largaram o que estavam fazendo para realizar tal tarefa. A história me fascinou por vários motivos, em especial pela força moral desses homens e suas mulheres que deixaram tudo de lado para construir algo que atravessasse os anos. Em épocas em que somos regidos pelo signo do instantâneo, parece incrível que existem pessoas que pensem não só na satisfação egoísta e momentânea, mas em obras que sobrevivam ao próprio Tempo.

O resultado dessa reflexão foi o conto seguinte, “Cinquenta e duas agonias”, que pretendi escrever como uma homenagem a esses cinquenta e dois desconhecidos. Ainda é uma história que me deixa comovido, pois tenho a forte impressão de que escrevi algo sobre muito maior do que a simples construção de uma igreja.

Eu escrevi sobre essa igreja sem nunca tê-la visto, escutando as histórias contadas pela Andrea, os relatos de outros moradores e investigando sobre o assunto em livros e na internet. Tinha um certo receio de que encontrar a igreja fosse sepultar a minha narrativa antes mesmo que ela conseguisse nascer.

Pois ontem, três anos depois, eu enfim estive na Igreja dos Imigrantes em Rio Pardinho. Foi uma experiência única: encontrar o local que sonhei antes mesmo que ele existisse, e que existia antes mesmo de eu sonhar.

O mais incrível foi ver que a minha história deturpou a realidade: não conseguia mais estar diante da pequena Igreja dos Imigrantes sem ver a sombra dos 52 homens que a construíram. Discreto, o local quase esquecido fica sobre um morro, e a sua vista vai longe. No campanário da pequena torre, uma enorme colmeia de marimbondos despejava criaturinhas voadoras como se fossem mísseis a me cercar. E o silêncio…! Insuperável. Se existe um lugar que eu acredito que Deus possa vir se sentar às vezes para tomar um mate e comer uma cuca, seria sob a sombra da Igreja dos Imigrantes de Rio Pardinho.

Não tenho mais vontade de dedicar histórias para outras pessoas, a não ser que elas façam por merecer – E MUITO. Pois eu dediquei esse conto para a Andrea Kahmann, que não só foi a sua primeira leitora como chorou cântaros quando viu o milagre que a literatura é capaz de fazer: ressuscitar uma história quase esquecida e fazer os mortos sorrirem de novo.

Eis o conto – e com imagens da igreja cuja construção narrei (ou sonhei, o que dá quase no mesmo).

 

Cinquenta e duas agonias

Para Andrea Kahmann,  que acredita.

Ninguém sabe quando a primeira pedra apareceu; não se sabe o local onde ela repousava em mudez eterna, se ela imaginava o destino de tornar-se a primeira, se ela pensava que, algum dia, iria sustentar um templo sobre as suas costas. Assim como nenhum homem escolhe sua missão, não cabe à rocha discutir os desígnios misteriosos que fizeram dela a eleita, ao invés da semelhante que repousava ao lado. Afinal, entre todos os usos que se podia dar a uma pedra, desde assassinatos até a indiferença, fazer parte de um todo maior ainda era o mais louvável.

Os homens apareceram na manhã chuvosa, as roupas sujas e enlameadas antecipando o barro que logo se agarraria como ventosa nos corpos e nem a mais límpida água seria capaz de remover. Do barro eles vieram, e no barro voltariam a se enfiar. Ninguém lembraria o dia em que eles tomaram a decisão, pois ninguém se importa com o início, somente o fim das coisas é que se conta de geração em geração. Não sabemos se eles oraram, se alguém lhes dedicou palavras de incentivo, se eles riam ou se estavam sérios. Não sabemos quase nada sobre eles; talvez alguns nomes ainda nos espiem das lápides do cemitério, talvez eles ainda nos vejam se aproximar da obra para a qual dedicariam tantos medos. O que sabemos é que, um dia, um homem olhou para o pedaço de chão e sonhou um templo. Algumas pessoas sonham filhos, outras sonham futuros, mas este homem, no palácio da sua imaginação, desenhou uma casa para louvar Deus. Era um templo impossível: as cores que lhe foram dadas pelo sonho não existiam no mundo real, o tamanho era desproporcional ao seu custo, ele possuía colunatas, abóbadas, vestíbulos, naves e vitrais que ficariam para sempre presos na mente do homem, limitados pela realidade dura dos tempos difíceis em que viviam. Nunca conheceremos a verdadeira igreja, ela está sepultada com quem a sonhou – e perdida para sempre. Conhecemos somente a sua sombra, a imperfeição que mãos humanas transformaram em realidade. Assim como ignoramos a primeira pedra, nunca conheceremos o projeto original do sonhador, e a noção da nossa falibilidade é pedra angustiada que cai em um poço escuro sem saber onde está o alívio do chão.

Ao final do dia, cinquenta e duas pessoas trabalhavam no terreno. Cinquenta e dois homens de fé, dizia o pastor. Cinquenta e dois loucos, bradavam alguns moradores da região, rindo pelas costas daqueles que abandonaram as famílias e as plantações para construir algo pelo qual não ganhariam nada. Cinquenta e dois hereges, sussurrariam os católicos, incomodados com a ideia de um templo erguido para a pregação de palavras que não as suas. Homens de fé, loucos ou hereges, o rótulo pouco interessava. Se alguém perguntasse para eles o motivo de estarem ali, trabalhando debaixo do sol que nunca sorria e correndo o risco de prejudicar a economia das suas famílias, eles provavelmente não conseguiriam responder. Não era pelo que acreditavam, muito menos por insanidade; faziam por que alguém precisava fazer, por que a Humanidade se divide entre os que fazem e os que ficam assistindo. Precisavam deixar a sua marca no mundo e atravessar os tempos. Seus filhos e os filhos de seus filhos e os filhos destes e todos os demais saberiam de sua existência, não só pelo nome gravado na pedra deitada, mas pelas rochas postas em pé na missão de se tornarem um templo.

Os dias da construção se sucederam. Às vezes, era tão frio que os construtores não conseguiam dobrar os dedos sem a dor estilhaçar suas mãos.Enquanto a geada se espalhava como um manto branco sobre os campos e as árvores secas murmuravam promessas de vento, o mais inabalável dos espíritos encolhia-se e esfregava as mãos em busca de consolo e levantava-as aos céus à espera de mais. Em outras ocasiões, a chuva desmoronava como se o céu quisesse trocar de lugar com a terra, e relâmpagos cruzavam os campos com fúria, despedaçando o silêncio e urrando tempestades. Havia, também,os dias quentes, quando o tempo se arrastava, contado em excruciantes gotas de suor no meio do barro, e o mundo inteiro queimava, devagar e crepitante. Eram cinquenta e dois homens acostumados aos humores da natureza, mas, encolhidos no frio e fugindo do vento insidioso, ou encharcados de tanta água que a pele parecia se dissolver, ou sentindo o calor traçar rios de lava dentro das suas veias, era inevitável que tivessem dúvidas, que sentissem as forças esmorecerem. No entanto, contra todo o comodismo e conforto, não desistiram. Era difícil de explicar tal obstinação para os outros, mas os sacrifícios valiam a pena quando, no final do dia, eles viam o sol se acovardar na linha do horizonte e as primeiras estrelas os recordavam das promessas de um mundo novo, com terras férteis e comida em abundância, mas onde a fé não podia faltar. Ou, então, quando o orvalho da manhã era surpreendido pelo dia, erguendo fumaças tímidas que desenhavam imagens sobre o campo; ou quando as nuvens perseguiam o firmamento e mudavam de tonalidade à medida que o dia passava, limpando um pouco das humanidades afligidas pelo cansaço.

E a igreja subia as paredes em direção ao céu. A cada linha de pedra assentada, o trabalho se intensificava, mas a visão inebriante da obra compensava a dificuldade. Aquilo que tinha sido o sonho de um, agora virava realidade para todos. Eles paravam diante das paredes inconclusas, dos locais em que ficariam as janelas, do ponto em que seria instalado o púlpito, e também sonhavam. Não era um templo que estava naquele terreno; existiam mais cinquenta e duas almas de prédios, cada uma delas com a versão do seu construtor, sentenciada a ruir nas paragens instáveis do sonho enquanto tentava virar realidade. Cada trabalhador acreditava que a sua visão era a mais verdadeira, e, ao final, quando restasse somente uma igreja de pedra, todos teriam certeza que aquela era a sua igreja, a que tinham sonhado em silêncio no meio do campo.

Por vezes, as mulheres vinham ajudar no trabalho. Traziam cucas, pães e assados, espalhando-se ao redor do terreno em um piquenique improvisado, costurando, cerzindo e conversando, enquanto atendiam as crianças que corriam ao redor. Nenhum dos homens confessaria em voz alta, mas a visão de suas famílias e da vida que vicejava ao redor era um estímulo para o trabalho. Mesmo o pastor, com as suas incessantes pregações ao redor da obra, era incapaz de dar a mesma sensação de completude. Ele prometera que, além do culto e da doutrina, a igreja seria o abrigo das primeiras letras, das matemáticas simples e das lições de vida, servindo para formar o caráter das gerações futuras. A sensação de saber que sua obra espalharia religião e educação pelo novo mundo, aliando o divino com o conhecimento humano, também lhes dava força para prosseguir no objetivo: um olho nas pedras, outro nos céus. Entre os extremos, o horizonte ao qual eles chorariam a angústia de nunca mais saber daqueles que ficaram para trás, no velho mundo tão distante. Dali para frente, tudo cheiraria a barro: cheiraria a chão depois da chuva, a lavoura que se sulca para deitar sementes, à terra santa para repousar em paz. E, acima de tudo, o templo e o futuro que deixariam para os filhos e os filhos de seus filhos e aos filhos destes também, que cresceriam com outro clima, outras promessas, outras palavras, tão longe da fome e do flagelo da ignorância. Ou, ao menos, era nisso que acreditavam, no que precisavam acreditar, após tanto mar, tanta mata, tanta raiva, tanto medo.

Nos tempos atuais, as pessoas preferem comprar objetos prontos ao invés de fazê-los e, assim, dificilmente entenderão o que significa construir algo. Contudo, qualquer um que olhe o templo, perceberá que cada mísera pedra foi colocada por duas mãos. Nenhuma máquina ajudou. Cada linha de pedras emparelhada necessitou de força e da dose necessária de conhecimento. Cada parede surgiu graças às pedras colocadas uma a uma e, depois, unidas por argamassa. O templo não foi feito só por rochas ou sonhos, também foi construído com sangue, com calos, com unhas quebradas, com choros disfarçados, com queixas muito humanas. Os cinquenta e dois trabalhadores colocaram parte das suas almas no entremeio das pedras. As dores fazem parte do DNA da obra. Quando ela se alteia ao céu, não são pedras que clamam pela atenção divina: são cinquenta e duas agonias que erguem as suas vozes em uníssono para saudar o sol, para brincar com as nuvens, para ridicularizar os ventos e estremecer as tempestades. Cada homem é uma agonia de si mesmo, e cinquenta e duas almas reunidas no mesmo espaço são invencíveis.

E, assim como o Verbo se fez carne, a carne se fez pedra. As paredes se completaram. O altar foi cuidadosamente colocado. O púlpito para a leitura da Bíblia restou erguido; a palavra de Deus deve estar sempre acima da palavra dos homens. Por esta época, o cemitério ao lado da construção já possuía os primeiros corpos, pois a morte não teve a decência de esperar o término da obra. Não puderam colocar sinos, então sonharam com o seu som a percorrer os campos. Não puderam colocar uma torre, pois isso era proibido para locais não-católicos. As regras dos homens estragavam os sonhos dos construtores, mas o templo continuava existindo. Apesar disso, alguns deles suspiravam ao pensar que jamais escutariam o clamor festivo ou lúgubre do sino a chamar para as celebrações ou a anunciar as mortes, e que jamais veriam a torre cortar o céu azul com o espanto de um passarinho de pedra. Ser humano é conviver com a frustração, e era duro para os trabalhadores saber que nunca veriam o templo desejado. No entanto, sem que precisassem trocar uma palavra a respeito, um pacto se estabeleceu: um dia, um dia longínquo quem sabe, teriam sino e torre, e badalariam o metal na anunciação de seus matrimônios e da glória de se andar pela cidade dos brasileiros tendo pelas mãos os seus filhos legítimos reconhecidos,enfim,pela lei, e não só por Deus. As decisões políticas são passageiras, mas as obras ficam para sempre. E elas poderiam esperar por séculos, pacientes, pois não são somente as pessoas que sonham, um templo também ambiciona o dia em que será perfeito, em que será perfeito, e bom, justo e nobre – tudo conforme a vontade de Deus.

Assim como ninguém sabe quem escolheu e colocou a primeira pedra, nunca teremos noção de quem foi o trabalhador que pegou a última e a depositou na derradeira lacuna. Não saberemos nunca o que os cinquenta e dois homens pensaram ao se afastarem e verem o templo. Não saberemos se choravam, se conversavam ou se seus lábios exibiam sorrisos de júbilo. No entanto, podemos imaginar, e eu imagino o silêncio. Não o silêncio como ausência de som, mas o silêncio primitivo, aquele que existia no primeiro orvalho do mundo, aquele que aparece em intervalos minúsculos da experiência humana; um silêncio tão grande que é possível sentir a nossa alma raspando as paredes do corpo. Imagino que todas as palavras necessárias tinham sido ditas. Imagino que cercaram a entrada da igreja e se entregaram à imensidão do que tinham construído, mergulhando na espiral do mais puro e libertador dos silêncios. Um templo existe antes de ser templo e, apesar das pessoas considerarem o momento do seu nascimento como o dia do primeiro culto, para os seus construtores, ele estava concluído desde o instante em que o hesitante vento esquadrinhou as suas paredes e buliu com a poeira do chão.

Talvez algumas pessoas tenham transmitido para as suas famílias como foi o primeiro culto, mas as palavras exatas se perderam com o tempo. Não sabemos como os cinquenta e dois homens estavam vestidos, não sabemos se olhavam a sua obra com a adoração de quem está diante do objeto amado ou se preferiam lastimar os cortes e machucados nas mãos que, enfim, deixariam o ofício de construtor e voltariam para as plantações negligenciadas. Alguns dos seus nomes seriam apagados pelo tempo, outros deixariam marcas nas lápides do cemitério ao lado da igreja que construíram. Todo homem que constrói algo deixa uma parte da sua alma no objeto, seja ele um texto, seja ele um filho. Hoje, na Igreja dos Imigrantes em Rio Pardinho, cinquenta e duas almas, com suas agonias próprias, sentam-se entre nós e sussurram com vozes imemoriais a sua lição: os homens não são criaturas de poeira. Eles também são feitos de pedra e de sonho.

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As perguntas que devemos nos fazer

… como as pessoas conseguem dormir sabendo que um mundo terrível as espreita a cada dia, ansioso para cravar as suas garras e destroçá-las tão sem piedade quanto uma coruja destrincha os segredos e tripas da sua presa?

…  como se sentir tranquilo quando um grito desesperado no meio da noite impregnada de silêncio é subitamente interrompido em seu meio?

… como manter a esperança quando um homem transformou o seu sangue em música e ela agora cavalga por aí, chutando cachorros, esgueirando-se por bueiros, cobiçando a sua vida?

… como acreditar que tudo vai acabar bem quando Sennarcheb, rei da Assíria entre 704-681 a. C., jactou-se dos horrores e mortes que espalhou inscrevendo-os em um prisma de pedra (“O Prisma de Taylor”), um objeto que sobrevive aos séculos com sua memória de gritos, de sangue derramado, de cabeças arrancadas?

O Prisma de Taylor

… como podemos estar no mesmo mundo em que Cervantes e Dante conseguiram conter por muitos anos, dentro dos seus frágeis corpos, o Inferno e o Fantástico?

… como respirar com inocência sabendo que uma borboleta tem uma vida mais interessante do que a nossa?

… como sobreviver à ideia de que, um dia, Hieronymus Bosch caminhou pelas ruas embarradas da cidade, um outro e impossível universo se retorcendo dentro da sua cabeça?

… como aceitar que a realidade nos esmaga se fomos justamente nós quem a criamos?

… como acreditar que somos livres se não controlamos sequer as batidas de um coração, se somos impelidos a respirar, se o Destino faz o que bem deseja conosco, tratando-nos como tábuas perdidas de um naufrágio,

… como não dar risada ao escutar o 3o movimento do Concerto para Trompa número 4 de Mozart? Aliás, como não sorrir por ter vivido na mesma realidade que abrigou Mozart, Tchaikovsky e Bach?

… como saber se não estamos nesse exato momento em um labirinto, e ainda estamos indecisos se somos Teseu ou o Minotauro?

… como não ter medo do que o dia nos reserva tão logo abrimos os olhos?

… como amar sem saber que, na verdade, o verdadeiro amor mora existe somente quando o perdemos?

… como saber se existem perguntas certas ou se estamos vagando por aí em busca de respostas inexistentes?

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Obras Inquietas: 28 – “Retrato de um coração” (2013), Christian Schloe

Nessa semana, na minha coluna no “Obras Inquietas”, eu cedi à arte digital (também posso ser moderno, não?) e falei sobre “Retrato de um coração” (2013), do austríaco Christian Schloe, que se especializou em mostrar mulheres e seu mundo interno de uma forma poética, mas ainda assim brutal.

No caso da pintura que escolhi, é uma metáfora para o amor morto, cujas brasas continuam queimando mesmo depois que ele já se foi.

Boa leitura.

 

 

Queima como o inferno. Por mais que você tente esquecer, não consegue: está ali, uma chaga viva, cada mínima memória despertando novas dores e ressuscitando as chamas dos gestos não realizados. Tenta pensar em outra coisa, mas a imagem do ente amado insiste em acompanhar os seus passos. Cada mínimo som, cada cheiro mais almiscarado, cada risada surpreendida em um canto do apartamento basta para trazer à tona a ausência tão presente de quem se foi, e isso faz o coração queimar com insuspeitada ardência. Você sufoca em silêncio, e tudo o que gostaria de fazer é mergulhar no poço de lava de recordações que dilacera o seu peito, mas o mundo continua girando ao seu redor, e o tempo vira um amálgama de sensações indefinidas, uma ninfa sombria que tortura os seus pensamentos. Devastado, o sentimento se despedaça em um mar de cinzas incandescentes que insistem em lhe perseguir como milhares de lâminas quentes que se cravam em cada segundo do seu dia, lembrando: você perdeu o amor da sua vida. Pode ser que existam outros amores no futuro, mas, naquele momento de perda, o seu coração triturado jura que é a última pessoa que você amou e que irá lhe amar da mesma maneira (tem razão, pois não existem dois sentimentos iguais). Nunca mais ninguém lhe beijará da mesma forma; nunca mais o corpo da outra será seu. Saber disso lhe machuca mais do que qualquer outra chibata. O coração queima, vulcão que se imaginava pacificado, mas, na verdade, só irrompe quando explode na dor do irremediavelmente perdido. O coração queima em um enterro viking dentro do seu peito, juntando todas as efígies e sonhos de quem um dia lhe amou, e o ar falta, e o mundo encolhe ao redor, e a pessoa que você foi queima junto; a inocência dos sentimentos vai aos poucos se corroendo, até que só resta um animal escorreito, uma criatura sem alma, outro ser que desaprendeu a amar.

Texto originalmente publicado no link https://artrianon.com/2017/04/16/obras-inquietas-28-retrato-de-um-coracao-2013-christian-schloe/

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“Variações de Casanova”, ou como um cavalheiro deveria responder a essa questão?

Quando estou em dor, é na escrita que acalmo minhas turbulências e pacifico o pensamento. Então, perdoem-me a divagação em momento tão impróprio, mas faz parte do meu procedimento de luto, e 2017 tem sido um ano – pelo menos para mim – bafejado pela morte, que está caminhando mais próxima do que eu gostaria. Quanto mais perto ela chega, mais eu falo da vida.

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Ontem fui assistir a um filme, “Variações de Casanova” (2014). Quem me conhece sabe da minha predileção por filmes que versam sobre assuntos literários, em especial personagens e autores, e Giacomo Casanova (1725-1798) sempre me interessou. Ele teve uma vida muito intensa. Foi uma pessoa que se descolou de tal forma da realidade que acabou virando personagem ficcional. Escreveu mais de 28 diários descrevendo as suas aventuras e proezas sexuais. Aquilo que o Marquês de Sade fazia com uma sexualidade violenta, Casanova conseguia através do dom da sedução. Tão forte era a lenda de Casanova que, por muitos anos, se acreditou que ele virou uma espécie de Judeu Errante, um homem que aparecia nas cidades, causava uma onda de seduções e ia embora, deixando no seu rastro várias donzelas grávidas.

Logo na entrada do cinema, a bilheteira me estendeu o ingresso e disse “tomara que o senhor não durma” – um comentário nada auspicioso. A sala estava relativamente vazia – além de mim, mais seis espectadores – e um fato que posso garantir é que todos os seis odiaram o filme. Antes mesmo dele acabar, três pessoas tinham ido embora, e as outras foram embora assim que a luz acendeu.

Por meu lado, gostei bastante. Não tenho essas veleidades de gostar de algo pelo simples prazer de ser do contra, mas apreciei o alto desafio a que o roteiro se propôs. Se teve sucesso em transmitir a intenção é um outro caso, mas a proposta ficcional era ambiciosa: por meio de uma colagem de ficção, história e realidade, “Variações de Casanova” apresentaria trechos do livro “Memórias de Casanova”, dos filmes “Casanova” feito por Ettora Scola e da versão de Fellini para o mesmo personagem, além de músicas das óperas de Mozart  e citações ao filme “Quero ser John Malkovich”. Tudo dentro do espaço dramático por excelência, o Teatro São Carlos, em Lisboa.

Então, é uma peça de teatro que intercala óperas, que intercala literatura, que intercala realidade, que intercala cinema… tudo misturado e em alternância. Muito pós-moderno, muito contemporâneo. Normalmente acho imposições criativas esses voos estilísticos (no estilo de “qual é a necessidade de tanta estrutura para contar uma simples história?”), para não dizer que parecem exercícios de presunção intertextual do autor, mas, dessa vez, foi algo feito com tamanha habilidade que pareceu natural. A única maneira de mostrar um personagem como Casanova, tão multifacetado entre realidade e ficção, é sendo igualmente multifacetado. Nunca vemos o personagem por completo, somente aquilo que queremos ver.

Na interpretação de John Malkovich e de outros atores – um deles é inclusive uma atriz -, Giacomo Casanova é mais do que um personagem unidimensional que só deseja transar com todas as mulheres, mas alguém usando palavras para seduzir todos, não interessa se homens ou mulheres. É um escritor por natureza – ou um mentiroso, como fazem questão de frisar. Ele está preso em um papel eterno da qual não consegue se desvencilhar: o de sedutor. É algo a que ele se submete às vezes com cansaço, como afirma no seu livro: “Se há um aspecto que possa redimir alguém por seduzir virgens ingênuas é que, dessa forma, as estará salvando de um destino pior, tratando-as de maneira mais gentil do que a maioria, como parceiras sexuais no mesmo nível, e que a partir daí elas usariam seus conhecimentos sobre os homens. Fora isso, seria realmente deselegante recusar suas carícias a uma menina que vem até sua cama para submeter-se a elas.”

Não à toa que, em algumas ocasiões, a mesma frase é repetida por diferentes Casanovas: o importante não é realizar algo sempre igual, mas as variações. Todas as seduções são diferentes entre si, não existem duas iguais, e a capacidade de variar é mais atraente do que a existência de uma fórmula fixa. Casanova está mais interessado pelas variações da sedução do que eme stabelecer um vínculo formal. Recordei de um conto do meu primeiro livro, “O homem despedaçado”, e que tem por título“Várias variantes variáveis variam com variações invariáveis”. Quanto mais tentamos variar, mais caímos em um lugar comum: a própria variação. Assim, a variação é uma armadilha pois, dentro de qualquer mínimo ato, existem múltiplas variações que o esgotam. Pensar isso ao extremo esgota o conceito de criatividade, e a transforma em uma variação presa dentro de outra, e ambas presas dentro de outra, e assim por diante. Assim, estamos eximidos do fardo de sermos sempre criativos quando aceitamos que a criatividade é somente uma pequena faceta de livre espírito enfadonhamente prevista no interior de outras.

Tão preso Casanova estava ao destino de sedutor nato que, quando a própria filha o requisitou para um caso amoroso, ele deixou a ideia de incesto de lado e cedeu à sedução. Outra ideia muito bem explorada no filme e que está na base de “Memórias de Casanova”: a noção de liberdade. Para o autor veneziano, o homem sempre tem o espírito livre e, quanto mais fiel for à sua natureza, maior será a sua capacidade de experimentar tal liberdade. Assim, não existe casamento, convenção social, religião ou governo que submeta um homem. Nas suas palavras, “vou começar com esta confissão: o que tenho feito no curso da minha vida, quer seja bom ou mal, foi feito livremente, pois sou um agente livre.” Observem que, para Casanova, não existe certo ou errado, moralidade ou ética. Somente a liberdade traça os seus limites, o que o exime de qualquer culpa. Um pensamento muito semelhante ao do Marquês de Sade, mas, nesse caso, foi usado de forma diferente.

Um filme muito c0mplexo, o que explica a dificuldade de conexão dos espectadores com a história. No palco, John Malkovich interpreta o papel de Casanova. Cai, aparentemente fulminado por um ataque cardíaco, e o drama é tão pungente que os funcionários do teatro correm procurando um médico. Na plateia, uma espectadora vai até o palco, identificando-se como médica. John Malkovich levanta-se, rindo, pois era parte da encenação. Casanova fez de conta que sofreu um ataque cardíaco e a espectadora achou que o homem John Malkovich estivesse morrendo, e essa cena ilustra o quanto os limites entre ficção e realidade estão borrados. Em seguida, o filme muda para o passado, em que o Casanova dito real (ou representado) está preso em uma casa onde as serviçais passam o dia inteiro inventando tormentos psicológicos para ele. Casanova sequer possui mais um nome: inventou tantas peles e pretextos que até o seu nome é uma mentira.

Uma das cenas mais interessantes é quando, no palco de teatro, descem inúmeros espelhos do teto, e todos os Casanovas (o Casanova  da ópera, o do teatro, o do cinema, o real) interagem com todas as Elisas von der Heck, com os espelhos multiplicando as imagens enquanto Casanova brinda, se embebeda e entra em briga corporal entre as suas várias identidades. Uma cena que diz muito sobre a capacidade de fragmentação de qualquer pessoa; estamos sempre em luta contra os outros eus que nos habitam. Nem todos nós somos Fernando pessoa, que conseguiu se dividir em vários.

Por fim, a idêntica pergunta repetida em inúmeros contextos: como um cavalheiro deveria responder a essa questão? Aliás, uma pergunta boa para inúmeras oportunidades do cotidiano em que vivemos.

Na primeira vez, na realidade, Elisa pergunta se é verdade que ele dormiu com a própria filha, e Casanova pergunta “como um cavalheiro deveria responder a essa questão?“. Presume-se que a pergunta é tão abominável que alguém educado não poderia sequer responder. Na segunda ocasião, no segmento da ópera, uma mulher pergunta a quantidade de conquistas amorosas de Casanova, e ele responde com a mesma pergunta, mas o seu sorriso é de vitória, como se a resposta não importasse – ou o valor apontado, 1.003, estivesse defasado.

Na terceira vez, a médica do mundo real que foi socorrer o ator aproveita um momento de interlúdio da peça e pergunta para John Malkovich se é ele é gay ou não. Quando vem a resposta, “como um cavalheiro deveria responder a essa questão?”, percebe-se que o ator desconversou habilmente para não fechar a questão com uma resposta definitiva. Na derradeira ocasião em que Casanova é confrontado, dessa vez durante a peça de teatro, a atriz que interpreta uma criada pergunta se é verdade que John Malkovich (o homem) dormiu com mais de 1.000 mulheres. Quando ele dá a resposta, a mulher sente-se seduzida pela sua discrição, e os dois arranjam um encontro somente com olhares. Responder perguntas com outras perguntas é uma estratégia muito inteligente, e ver a maneira com que a mesma resposta pode ser ressignificada dependendo da intenção do falante foi algo instrutivo.

Não é um filme fácil, e tem uma proposta arrojada, à medida que Casanova se encontra com suas diferentes facetas em inúmeras representações artísticas. Falando em termos de roteiro, é um prodígio juntar tantas expressões de arte sob a mesma batuta e fazer cada uma funcionar em uníssono com as outras. Existem algumas falhas, é claro, mas nada que comprometa o projeto criativo exposto nas duas horas de filme. No meio da história, um momento de desconstrução, quando uma amiga de John Malkovich – para quem ele pediu que produzisse um filme chamado “Variações de Casanova”, em um momento metacinematográfico – vai visitá-lo no camarim e diz que não está gostando de nada, pois não entende o que está acontecendo, e essa foi a reação dos espectadores no meu mundo real. Creio inclusive ter escutado um aplauso tímido quando, na tela, a atriz externou o que estavam pensando na minha realidade de espectador de cinema.

Como eu gosto de filmes que escapam do convencional em termos de roteiro, achei interessante “Variações de Casanova” por demonstrar a tese do meu primeiro livro de contos: cada homem é formado por inúmeros homens que existiram ou não chegaram a surgir. Até mesmo Casanova, o mestre de todos os sedutores, um homem aprisionado pela sua própria fama. Isso explica outra frase recorrente dita por Casanova nos mais diferentes sotaques e acepções: “Eu preciso de variações, eu exijo variações”. É o que nos deixa vivos – a certeza de que sempre podemos fazer algo costumeiro de uma forma alternativa.

 

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Obras Inquietas – 26. “Adão e Eva lamentando a morte de Abel” (1818), Antonio Canova

Na minha coluna de duas semanas atrás no “Obras Inquietas” – esqueci de publicar aqui , acidentes acontecem -, eu falei de uma escultura em terracota de Antonio Canova, “Adão e Eva lamentando a morte de Abel” (1818). Para mim, essa escultura representa a dor que está além das palavras, além do corpo, além do mundo. A sensação de se desfazer em um mar de ácido desespero.

Boa leitura.

“Adão e Eva lamentando a morte de Abel” (1818), Antonio Canova

A dor. A dor incapaz de ser expressa em palavras. A dor que mora no nosso corpo, em estado adormecido, até o dia em que vem à tona e arrasta tudo de roldão. A dor daquilo que é irrecuperável e, agora, se perdeu para sempre. A dor do sorriso que nunca mais veremos, do cheiro que começa a desaparecer assim que a morte toma posse do corpo, do brilho mortiço que se adonou dos olhos até então repletos de vivacidade. A dor de continuar vivo em um mundo no qual o ser amado não está mais. A dor que desfaz o corpo em uma onda de desespero que nunca mais cessará. A dor daqueles que foram privados da voz. Ela nunca acaba, a dor. Só em alguns instantes fugazes da vida conseguimos esquecer de que a dor é o derradeiro destino possível da Humanidade, a única alternativa viável. Existir é desfiar um rosário quase infinito de dores que se escondem em cada recanto, ansiosas por nos engolfar. A dor do arrependimento: tantas maneiras de evitar aquela dor, tantos avisos de que ela iria acontecer, e não percebemos nada. Fomos cegos ao que estava acontecendo e, se hoje nos lamentamos, foi por que fizemos por merecer. A agonia de perder não somente um filho, mas dois – de perder tudo aquilo que foi arduamente conquistado em um único gesto, em uma pedra só. O homem leva o braço do filho assassinado até o peito, esperando que um pouco da sua vida passe para ele, mas nada acontece; no chão, a mulher enlaça a cabeça arrebentada, o rosto tentando reter o calor do corpo sem vida, mas nada acontece. Desesperados demais para conseguirem chorar ou gritar, o casal sente-se sufocar diante da presença maligna do Deus que conseguiu, enfim, a sua vingança, mostrando que, se da terra viemos, é para ela que um dia iremos voltar.

Texto originalmente publicado no link https://artrianon.com/2017/03/26/obras-inquietas-26-adao-e-eva-lamentando-a-morte-de-abel-1818-antonio-canova/

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