Obras Inquietas – 58. “Autoretrato com Morte tocando Violino” (1872), Arnold Böcklin

Nessa semana no “Obras Inquietas”, eu escrevi sobre o quadro “Autoretrato com Morte Tocando Violino” (1872), do pintor suíço Arnold Böcklin, um homem que esteve cercado pela morte desde que nasceu e que estabeleceu com ela um relacionamento, senão amigável, ao menos respeitoso. Não se sabe direito o que ele quis retratar nesse quadro, mas existem interpretações um pouco esotéricas de que a Morte toca a música da nossa vida. Preferi interpretar essa música como um som incessante no vácuo da nossa consciência, algo que, aos poucos, nos enlouquece e nos faz cometer desatinos. Interessante que não poucos artistas se fascinaram com a música tocada pela Morte: um deles, Gustav Mahler, intitulou o segundo movimento da sua Quarta Sinfonia como “A Morte pega o Violino”.

Boa leitura.

“Autoretrato com Morte Tocando Violino” (1872), Arnold Böcklin

Preso no quadro, o pincel a meio caminho do destino de conspurcar a tela, o artista encara sem medo a própria morte, sabendo que irá prendê-la nesse pentagrama de tintas e esguichos, pois esse é o destino da verdadeira arte: conceder imortalidade aos demônios que nos rodeiam. No fundo de todo som que preenche o mundo de barulhos irritantes, repetitivos ou belos, no resquício de cada silêncio que mora dentro do ar imobilizado, existe uma música que nunca para. Está aí, dentro da sua cabeça, no espaço que separa a sombra da carne; de tão habituado, você não mais a escuta, mas ela continua tocando, misturando-se com os seus pensamentos de maneira tão insidiosa que parece brotar deles. Às vezes, no meio dos pesadelos, você consegue escutar o ruído rasgando a escuridão, algo que congela o espírito e que gruda no céu da sua boca com o gosto incômodo de carne putrefata. É ela, a música que lhe persegue desde o primeiro ar que se apossou dos seus pulmões ainda cheios de líquido; o som discreto e infernal que insiste em lhe bafejar a nuca, uma lembrança amarga de que tudo acabará e de que logo você será outra lápide a acumular musgo em um cemitério qualquer. Junto ao seu ouvido, a sombra do medo sussurra “não esqueça que és humano”, e você caminha com o peso da falibilidade sobre os próprios ombros. Todo ser humano carrega em si, incubada e irreversível, a morte. Ela dita os nossos passos e dúvidas, sempre nos guiando com dedos ossudos, repletos de dores e de memórias, pelos caminhos que nos levarão ao fim, e não podemos escapar da sua condução, pois nos enlouquece aos poucos ao tocar a sinfonia que compôs para cada pessoa assim que ela nasceu, uma música que nos devora com lentidão, assim como a onda paciente faz desmoronar o rochedo.

Texto originalmente publicado no link https://artrianon.com/2018/04/01/obras-inquietas-58-autoretrato-com-morte-tocando-violino-1872-arnold-bocklin/

Anúncios

Deixe um comentário

Arquivado em Arnold Böcklin, Autoretrato com Morte Tocando Violino, Crônicas, Impressões, Obras Inquietas, Pintura, Produção Literária

Obras Inquietas – 57. “Retrato de Família” (1954), Dorothea Tanning

Nessa semana, no “Obras Inquietas”, eu falei sobre um quadro da pintora surrealista Dorothea Tanning, “Retrato de Família”. Dorothea é mais conhecida pelos seus trabalhos literários, que são muito elogiados, mas não se pode esquecer a sua importância para a pintura, arte na qual se destacou desde a adolescência.

Na época em que fez esse quadro, ela estava casada com o pintor Max Ernst – cujas obras são mais conhecidas do que as dela – e não consta que se sentisse pressionada como a mulher que retratou. Inclusive é famosa uma entrevista em que Dorothea Tanning afirmou que ela e Max Ernst jamais conversavam sobre arte em casa. No entanto, um poema do mesmo período deixa entrever a mágoa por constatar que o casamento obscureceu a sua arte (bom, Max Ernst deixou a sua mulher para casar com Dorothea, e ela sempre foi vista como a mulher sedutora-destruidora-de-lares, o que acabou se refletindo na apreciação da sua pintura):

Many years ago today
I took a husband tenderly
This simple human gentle act
Seen as a hard decisive fact
By all who dote on category
Did stain my work indelibly
I don’t know why that is
For it has not stained his

Em uma tradução muito livre:

Há muitos anos hoje

Eu recebi um marido com ternura

Este simples ato gentil humano

Visto como um fato difícil e decisivo

Por todos os que trabalham na categoria

Manchou o meu trabalho indelevelmente

Não sei por que isso aconteceu

Pois não manchou o dele.

Boa leitura.

“Retrato de Família” (1954), Dorothea Tanning

Mesmo ausente, a sombra incômoda do homem se espalha pela sala de jantar, espalhando ordens com a sua onipresença raivosa. Ela diz para a empregada: se vista de forma apropriada, isso aqui não é um puteiro; alimente o cachorro, ele é o ser mais importante da casa; não erga a voz, seja discreta e mantenha a limpeza em dia, mesmo nos desvãos mais improváveis. A sombra fala para os móveis: mantenham a posição em que eu os coloquei, vocês me pertencem e eu controlo a sua vida e a sua morte; não tenham personalidade; não tentem se destacar. Em seguida, a sombra concentra toda a sua atenção na mulher, deliciando-se com a tensão com que a pequena figura se segura na cadeira, os olhos impregnados de um medo palpável que se projeta para o mundo em busca da salvação que não virá: não coma, não desejo que você engorde; não sorria, você não tem o direito de ser alegre sem a minha presença por perto; não fale, você não pode ter voz própria longe de mim para cercear as suas palavras burras e descuidadas; não coloque chinelos ou uma roupa velha, mulher minha tem que estar sempre ajeitada, sempre perfeita; não tenha uma vida ou carreira, pois nada pode obscurecer a minha existência, ainda mais uma criatura ínfima como você. A sombra do homem ausente sufoca a vida da casa, um lembrete constante sobre quem realmente manda na família. Dentro dos olhos cristalinos da mulher, um esgar de terror – sombra fugidia repleta de líquido – tenta escapar, mas ela não foi autorizada a chorar, e tem medo do deboche da sombra, tem medo de que aquilo que chama de amor seja uma prisão dourada, então mantém o corpo teso sobre a cadeira, esperando que a sombra em breve se junte ao corpo do homem de quem está desgarrada – o homem que acabou com a sua luz.

Texto originalmente publicado no link https://artrianon.com/2018/03/18/obras-inquietas-57-retrato-de-familia-1954-dorothea-tanning/

Deixe um comentário

Arquivado em Arte, Crônicas, Dorothea Tanning, Impressões, Obras Inquietas, Pintura, Produção Literária, Retrato de Família

Mari Roldán Cañete – arte que vale dinheiro

Uma das funções do blog também é espalhar as boas ideias que andam à solta pelo mundo e, assim, louvar a criatividade, item que está cada vez em mais falta no mercado.

Recebi um link repleto de informações sobre essa artista espanhola, Mari Roldán Cañete, que desenha imagens clássicas da pintura em notas de euro. Ao contrário das notas que trafegam no Brasil que, quando são rabiscadas, geralmente o são com palavrões ou insultos, Mari transforma dinheiro em pequenos quadros portáteis que são carregados pelas pessoas como uma lufada de beleza na carteira.

Entre as reproduções, temos Magritte, Klimt, uma versão desaforada da “Origem do Homem” de Michelangelo, Rembrandt, Botticelli, Katsushita Hokasai, Van Gogh, Munch, Salvador Dalí e até Bansky.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Deixe um comentário

Arquivado em Mari Roldán Cañete

Obras Inquietas – 56. “Madalena Arrependida” (1453), Donatello

Nessa semana, na minha coluna no “Obras Inquietas”, tratei da estátua que Giorgio Vasari disse em “Vida dos Artistas” que era mais perfeita já feita. Em “Madalena Arrependida”, Donatello usou madeira e gesso para fazer a imagem de uma Maria Madalena muito diferente da que estamos acostumados a ver: ao invés de uma mulher sensual e jovem, a Madalena de Donatello é uma ex-prostituta velha, cansada e vestida com andrajos, que se arrasta atrás de um Jesus em busca de perdão, as mãos em súplica, os olhos repletos de angústia.

Ao melhor estilo de Donatello, também subverti um pouco a história de Madalena, afastando o dilema pecado X salvação para me concentrar na noção – um pouco defasada nos dias atuais – de que um amigo jamais abandona outro.

Boa leitura.

“Madalena Arrependida” (1453), Donatello

Perdão, Senhor. Contemple a serva maltrapilha a lhe seguir como um cachorro sarnento, ansiosa por uma migalha de carinho, e alcance a ela o bálsamo da generosidade que ainda mora nos teus olhos tão magoados, tão desiludidos com todos os amigos que te abandonaram e depois se jactarão de terem o conhecido. Esqueça a dor das humilhações infligidas ao teu corpo e espírito, esqueça o cuspe da inveja e o sangue que desliza, cansado, por entre os teus ferimentos. Foi o Senhor mesmo quem nos disse: os humanos são falhos, eles atacam aquilo que têm medo, e existe receio maior do que admitir a própria fragilidade diante dos olhos do Criador? Concentre-se em mim, Senhor, olhe para a tua serva – não levantais os olhos em direção à colina onde a Morte lhe aguarda, impaciente, ansiosa por vingar-se daquele que tantas almas tirou dos seus dentes podres. Uma vez tu afastaste os pecados que infestavam a minha consciência e fez-me ver que, debaixo da pele e da memória, ainda existia um ser humano; permita agora que minha imagem seja o rosto amigo que não o abandona nem mesmo nos piores momentos. Pois em verdade me atrevo a dizer que, antes de tudo, além de questões carnais ou vínculos familiares, somos amigos, Senhor. Na alegria e na tristeza, nunca deixarei de estar ao teu lado. Contemple as minhas mãos desajeitadas e os lábios que formulam uma prece implorando para que a tua dor seja leve, para que o teu fim seja misericordioso. Estou aqui, Senhor, a mulher que um dia lavou teus pés e os secou com os próprios cabelos, e jamais irei abandoná-lo. Sou a última amiga que te resta, um raio de reconhecimento no meio da escuridão, e o único arrependimento que tenho é não poder ajudá-lo agora da mesma forma que o Senhor um dia me salvou. Cabe a mim o destino de ser a mulher que chora pelo amor morto, e ficarei até o fim ao teu lado, meu Senhor, meu amor, meu amigo.

Texto originalmente publicado no link https://artrianon.com/2018/03/11/obras-inquietas-56-madalena-arrependida-1453-donatello/

Deixe um comentário

Arquivado em Crônicas, Donatello, Escultura, Madalena Arrependida, Obras Inquietas, Produção Literária

O vulcão das verdades subterrâneas

Se existe um indivíduo merecedor de toda a nossa desconfiança é o que afirma ser o portador da verdade absoluta, seja ela qual for, religiosa, econômica, política, artística. Não sei se invejo ou se temo os donos da verdade: inveja por eles serem tão seguros, tão convictos das suas certezas, tão implacáveis e altruístas na forma com que tentam abrir os olhos alheios; temor pela cegueira diante daquilo que discorde das suas crenças, pela sua surdez em escutar as palavras dos outros, pelo seu silêncio sobre a opinião contrária e coerente que apresenta um ponto importante. E se eles, os portadores da verdade absoluta, estiverem errados?

Talvez seja prudente começar pela noção de verdade e, por esse ângulo, a antiga questão filosófica surge: a verdade existe ou é construída de maneira individual de acordo com as impressões de cada um sobre as próprias experiências, ou seja, não é uma certeza inquestionável, mas uma aproximação entre diferentes versões?

Tenho especial pena daqueles que formam um convencimento através da leitura de jornais ou da análise de programas de televisão, pois estão em uma enorme enrascada se são incapazes de ver os sutis mecanismos que os manipulam sob a enganosa máscara de “estamos somente narrando fatos”. Todas as noções de pós-verdade e dos seus perigos partem do pressuposto de que existe uma verdade única ditada pela observação imparcial dos acontecimentos, sendo a pós-verdade, assim, uma distorção emocional de fatos que deveriam ser analisados com frieza. No entanto, não tenho tanta convicção sobre a existência de uma versão dos fatos que já não seja apresentada de forma distorcida pelos interesses mesmo inconscientes de quem a declara. Não existe discurso que não seja ideológico, já afirmava Bakthin, e todo discurso, por mais inocente que seja, implica em uma escolha de palavras que atestam as relações de poder, de acordo com Foucault.

O mais seguro é pensar que não existe uma verdade única, mas diferentes matizes constantemente passíveis de revisão. No conto “O credo de Pilatos”, escrito em 1920 pelo escritor tcheco Karel Capek – e presente no livro “Histórias Apócrifas” (Editora 34, 2009) – a questão é apresentada de forma singular: após a crucificação de Jesus Cristo, José de Arimateia vai pedir o seu corpo para Pôncio Pilatos e o encontra pensativo. Pilatos está recordando o rápido diálogo que teve com Jesus e com aqueles que pediam a sua morte, discutindo justamente a noção de verdade.

Logo no início da conversa, o romano estabelece uma afirmação categórica: assim que alguém proclama uma verdade, proíbe a existência de todas as demais que a questionam, pois se tornam mentiras. Isso seria um equívoco e, para demonstrá-lo, traça uma analogia – não é por que alguém construiu uma cadeira diferente que as cadeiras anteriores ou posteriores devem ser consideradas como lixos, pois ainda possuem a sua utilidade.

Em resposta, um acuado José de Arimateia afirma que a verdade é uma ordem ditada pela razão. Quem desobedece tal ordem estaria agindo de forma desarrazoada, o que lhe torna um inimigo e um traidor. Não partilhar da verdade de alguém é se transformar em um antagonista que deve ser destruído a qualquer custo; a belicosidade de tal constatação demonstra a incapacidade de aceitar a opinião do outro, algo que, na sua essência, é um procedimento totalitário, ainda que brandido por causas consideradas “nobres”.

José de Arimateia também tenta uma analogia – aponta para uma coluna branca e diz que, se alguém afirma que ela é da cor negra, estaria mentindo por contrariar a realidade empiricamente considerada. Pilatos afirma que nada impede que a coluna branca seja negra, dependendo do estado de espírito de quem lhe enxerga, e seria proveitoso conversar com a pessoa para tentar entendê-la ao invés de julgá-la mentirosa de forma sumária. José de Arimateia tenta terminar a discussão:

“ – A minha verdade não existe – protestou José de Arimateia. – Existe apenas uma verdade para todos.

– E qual é essa verdade?

– Aquela em que creio.”

Não é um argumento tão diferente dos que estão acostumados a nos impor nos tempos atuais, o que gera um perigoso silogismo: existe uma verdade única, e é a minha, o que transforma a tua verdade automaticamente em mentira (a não ser que concordes comigo). A única alternativa viável é acreditar que o outro tem razão, e tal crença está na base dos fanatismos grupais e das manadas de seguidores enfurecidos que seguem uma solitária voz, a qual, quase sempre, não tem uma estrutura intelectual e/ou emocional capaz de sobreviver ao mais simples dos debates, refugiando-se em chavões.

Pilatos rebate o mercador judeu com inesperada ponderação:

“Pareceis crianças, que acreditam que o mundo se reduz aos limites do olhar, e que, além disso, não existe nada mais. O mundo é grande, José, e muitas coisas cabem nele. Creio que muita verdade pode caber dentro da realidade. (…) Creio, José, que cada país, tomado por si, é correto; mas o mundo deve ser incomensuravelmente amplo para que tudo possa caber nele, lado a lado, uma coisa após outra. Se colocássemos a Arábia no lugar do Ponto, naturalmente isso seria errado. Isso aplica-se também às verdades. Deveríamos criar um mundo grande, amplo e livre o bastante para que nele pudessem caber todas as verdades efetivas.”

No diálogo imaginário entre Pôncio Pilatos e José de Arimateia – ao final da narrativa, o romano dará a sua versão de verdade, e ela será uma aproximação à ideia do cristão ao invés de uma refutação violenta, um pedido para que as verdades diferentes de ambos sejam amigas e não opositoras -, está sintetizado boa parte dos dilemas que ameaçam qualquer pessoa capaz de estabelecer questionamentos nos tempos atuais. Como é possível evoluir quando se encontra alguém que não permite o debate, estabelecendo uma tática de medo e de imposição para que argumentos contrários não surjam? Ou suprimindo a voz alheia por meio de um silenciamento intencional?

Adoraria viver em um mundo no qual todos pensassem como eu, mas não tenho tanta certeza assim se estou certo ou errado, e é através de diálogos, saudáveis ou não, que serei capaz de corrigir uma rota errada ou reforçar o que está certo. Conversar com alguém que se recusa a escutá-lo e ainda tenta sufocar o seu pensamento com ironias grosseiras, humilhações e palavras de ordem que não passam de clichês não só é inútil como ainda é cansativo, e o país inteiro se enche de pessoas que, cansadas de tentar argumentar, preferem o silêncio. Essas pessoas são chamadas de “alienadas”, “omissas”, “sem opinião”, mas, na realidade, elas possuem uma opinião, só preferem não externá-la para não perder tempo. O silêncio mantido não é passivo; no interior das suas cabeças, sem nenhum tipo de debate saudável que as faça modificar de opinião, as verdades subterrâneas continuam crescendo sem nenhum tipo de oposição, reforçando-se com mentiras e análises apressadas, e, na hora mais inconveniente, elas se revelarão ao mundo como o jorro desgovernado de um vulcão – e decidirão o seu destino.

Texto originalmente publicado no link https://www.revistaamalgama.com.br/03/2018/o-vulcao-das-verdades-subterraneas/

Deixe um comentário

Arquivado em Amálgama, Karel Cápek, Literatura, Verdade

OBRAS INQUIETAS – 55. “Subúrbios de uma Cidade Paranoica Crítica” (1936), Salvador Dalí

Nessa semana, na minha coluna no Artrianon (www.artrianon.com), eu tratei de um quadro do Salvador Dalí, “Subúrbios de uma Cidade Paranoica Crítica” (1936). Um quadro cuja multiplicidade de imagens esconde uma série de símbolos e pensamentos. Além das óbvias referências às pinturas de Georgio de Chirico, na época Dalí também tinha lido os trabalhos de Kraepelin e Breuler sobre a esquizofrenia e a paranoia, desenvolvendo um método que chamou de “paranoico crítico”. O principal sustentáculo deste método era a ideia de que o indivíduo portador de tais doenças psiquiátricas conseguia ver uma série de erros na realidade, empregando-os na formação de uma realidade diversa na qual conseguia articular estes elementos díspares pelos quais nutria uma espécie de “apego apaixonado”.

É um pouco inquietante que os surrealistas tenham conseguido ver o mundo com tamanha clareza. Hoje os seres humanos se sentem oprimidos por cidades que cada vez mais, a pretexto da paz social, lhes vigiam e cerceiam discretamente os seus direitos de ir e vir. Tornamo-nos paranoicos em relação aos nossos semelhantes e críticos em relação a todos aqueles com que interagimos. Preferimos não pensar naquilo que vemos todos os dias, mas podemos oscilar entre maravilhas e horrores com a mais absoluta tranquilidade. A Cidade nos envolve e nos destrói. Não interessa o quão longe tentamos fugir, somos incapazes de escapar dos seus tentáculos de concreto.

Boa leitura.

“Subúrbios de uma Cidade Paranoica Crítica” (1936), Salvador Dalí

As esquinas se sucedem, sempre diferentes, sempre a mesma. Você anda com a sensação de não sair do lugar; o ar saturado de poluição envenena o seu corpo aos poucos. Todas as pessoas lançam olhares estranhos, e você consegue ver a crítica ao modo com que se veste, à forma com que caminha, ao seu comportamento. Mesmo sem querer, você se encolhe diante de tamanha pressão, os passos rápidos e furtivos. A Cidade é um labirinto sem Minotauro, uma boca perversa repleta de dentes ansiosos para se cravar na sanidade dos infelizes sem rumo que deslizam pelas suas ruas. Monumentos para deuses e homens desconhecidos marcam a sua trajetória, dividindo espaço com colunas feitas em um estilo que desafia o cansaço dos tempos. Uma moça lhe oferece uvas, e o cheiro doce mistura-se ao caos dos seus pensamentos. Diferentes pessoas em diferentes distâncias e perspectivas estão perto, longe, em todos os lugares, e todos a lhe julgar, a lhe condenar, a cochichar. Cercado por rostos distorcidos que se misturam em uma canibalesca mistura, aqui um olhar mais incisivo, lá um cílio inesperadamente erguido, ali uma voz rasgante, você nunca sentiu tanta solidão. A Cidade é um buraco repleto de desilusões e de gritos interrompidos, com risadas frenéticas que cortam o rugido dos carros. Você pode abrir uma porta e estar em Pequim, Londres, o inferno ou o lugar que só existe na sua imaginação. A Cidade é uma máquina feita com o propósito de enlouquecer e de confundir e, em meio às suas engrenagens, você não passa de um pião atormentado, batendo de um lado para o outro à espera do dia em que a Morte enfim lhe alcançará.

Texto originalmente publicado no link https://artrianon.com/2018/03/04/obras-inquietas-55-suburbios-de-uma-cidade-paranoica-critica-1936-salvador-dali/

Deixe um comentário

Arquivado em Arte, Crônicas, Obras Inquietas, Pintura, Produção Literária, Salvador Dali, Subúrbios de uma Cidade Paranoica Crítica

Obras Inquietas – 54. “A paraguaia – Imagem de seu país desolado” (1880), Juan Manuel Blanes

Passei um tempo um pouco adoentado – mentira, foi forte, mas me recuso a aceitar essa evidência por motivos de teimosia -, e minha coluna no Artrianon acabou prejudicada. No entanto, agora estou voltando à carga, e nada melhor do que Juan Manuel Blanes para dar uma “up” no meu estado de espírito. Gosto muito de Blanes, há algum tempo queria escrever a respeito, e já tive a oportunidade de ver boa parte da obra dele, a qual é muito mais impactante ao vivo do que em reproduções.

Nesse quadro, “A paraguaia – imagens de seu país desolado” (1880), Juan Manuel Blanes sintetiza, em uma cena repleta de simbolismo, a derrota definitiva de Solano López na Guerra do Paraguai. Uma derrota que não acabou no campo de batalha, mas se arrastou por muitos anos – os historiadores dizem que os efeitos dessa guerra são sentidos até hoje. A luta se estendeu entre 1864 e 1870, ou seja, Blanes fez esse quadro somente 10 anos depois do seu término, mas foi capaz de constatar a ruína total e absoluta do país latino-americano, não somente nas perdas dos soldados, mas no destino das mulheres e das gerações futuras.

Às vezes, perder algo é somente o prenúncio para uma série quase infinita de micro-derrotas tão devastadoras quanto a principal. A desconhecida não está somente passando por um campo, mas pisa sobre a economia, o amor, a família, a honra (foi uma das guerras com o maior número de estupros, mas os países da Tríplice Aliança preferem silenciar) e sobre a esperança.

Boa leitura!

“A paraguaia – imagens de seu país desolado” (1880), Juan Manuel Blanes

 

O campo de batalha fede a carne queimada pelos balaços que atravessaram corpos até pouco tempo atrás repletos de vida, agora esquecidos no chão à espera do festim das moscas e do silêncio. A mulher caminha com hesitação, temendo pisar sobre o sangue de algum conhecido, de um parente, do marido que ainda não retornou para casa. As ondas de calor que emanam da terra misturam-se ao ruído desajeitado e distante de passarinhos, que espiam, sem esconder o horror nos seus gorjeios, o local onde a morte fez a sua colheita implacável desde o nascer do dia. Agricultores com dedos calejados, nobres de roupas outrora coloridas e agora impregnadas de pó, artesãos que davam vida aos objetos e foram forçados a desembainhar espadas, todos se misturam sobre o mesmo solo, mais unidos pelo fim do que no decorrer da sua vida. A morte não faz escolhas; para a Ceifadora, todos são o mesmo ser humano. Dentro do ventre da mulher, a vida dá os primeiros chutes, e ela tem medo do que o futuro reserva para quem ainda não chegou: uma terra semeada por ossos, a fome ansiosa para cravar as suas garras, os tempos de escuridão e medo que assomam no horizonte. Gostaria de dizer para o filho – tão inocente, tão despreparado para esse mundo que nos odeia tão logo chegamos – que tudo vai dar certo, mas a mentira congela dentro da garganta ressecada pela poeira sangrenta, pois a mulher sabe que não está pisando sobre os restos de uma batalha anônima, mas sobre os pedaços do seu país. Próximo da mulher, o urubu mal pode esperar o momento em que irá devorar o cadáver da esperança de milhares de pessoas, cujas roupas oscilam em meio ao vento lúgubre, o verdadeiro senhor da planície.

Texto originalmente publicado no link https://artrianon.com/2018/02/25/obras-inquietas-54-a-paraguaia-imagem-de-seu-pais-desolado-1880-juan-manuel-blanes/

Deixe um comentário

Arquivado em A paraguaia - imagens de seu país desolado, Crônicas, Juan Manuel Blanes, Pintura, Produção Literária