Um artista não pode perder a humanidade

Alguns dias atrás, assisti na Netflix ao filme “Margot e o casamento” (2007). Em geral, narrativas sobre famílias disfuncionais reunidas à contragosto por um evento naturalmente estressante (como um casamento ou um funeral), sendo obrigadas a conviver sob o mesmo teto e com uma explosão prestes a ocorrer graças à mais insignificante fagulha, não me interessam muito. Parecem muito previsíveis na sua tentativa de soarem surpreendentes. Mas assisto por causa dos diálogos e pelo aspecto da construção de personagens.

Entre os filmes com essa temática, apreciei bastante “Margot e o casamento”, em especial por que os diálogos eram abruptamente cortados no seu ponto mais tenso, impedindo de ver o que aconteceu depois de frases tão agressivas ou carinhosas. Foi um mecanismo muito apropriado para demonstrar a tensão existente entre os personagens, que, mesmo rindo e se abraçando, escondiam um inferno de intenções, desejos e fúrias por trás desses gestos. Colocarei aqui o trailer para quem se interessar:

No entanto, o que mais me perturbou no filme foi uma questão tangenciada pelo diretor. O personagem de Margot, interpretado por Nicole Kidman, é uma escritora de relativo sucesso, mas incapaz de se relacionar com as outras pessoas. Cortante, brusca e auto-destrutiva, Margot está casada com um homem que lhe ama, mas o trai com outro que visivelmente não quer nada além de sexo. O filho dela convive em meio às mais absurdas violências verbais e psicológicas, tudo por que a mulher não lhe mente ou atenua nada. No esforço de prepará-lo para a vida, Margot é aquela que mais se esforça para destruí-lo.

Não bastando, a obra literária de Margot é calcada no seu círculo pessoal e, assim, ela utiliza as situações familiares como força criativa, mesmo que ao custo de expô-las – e, no caso da irmã, terminar um relacionamento. Não se sabe o quanto ela não é um fator desestabilizador da própria família para depois poder criar uma história em cima, aproveitando-se das situações como um abutre farejando uma carcaça próxima. Em uma cena emblemática, logo após brigar com o namorado e se refugiar com Margot em um quarto de motel, a irmã vê a escritora ocupada em registrar fatos no seu diário e a impede, dizendo que aquilo é íntimo e dolorido demais para virar literatura.

Sempre me perturba um pouco a ausência de limites éticos no ato de criar uma obra artística. Recordo de uma pintura de Edvard Munch, “Morte no quarto da doente” (1896), em que o artista retrata o suspiro final da sua própria irmã, em um quarto repleto de familiares. O quanto o pintor viveu da dor da situação e o quanto ele estava artisticamente analisando a cena? Não estaria Munch, no mais recôndito da sua consciência, pensando nas cores que usaria para retratar a cena, ou na melhor perspectiva, ou no estremecer da lágrima no olho da sua mãe? Estaria ele sendo cruel, sendo realista com o seu fazer artístico, sendo um crápula ou usando uma estratégia diversiva para fugir da dor? Essas questões sempre me deixam incomodado, e prefiro pensar que existem histórias e cenas que a decência humana nos impede de contar – mas nem todos comungam dessa opinião.

“Morte no quarto da doente” (1896), Edvard Munch

A conduta de Margot e a sua relação complicada com as pessoas suscitaram-me um questionamento: pode um escritor – ou qualquer artista – ser desumano?

Parece uma pergunta ilógica, mas não é. Todas as pessoas esperam que o artista toque naquilo que nos transforma em humanos, a emoção secreta que sequer conseguimos nomear e para a qual a obra de arte serve como porta de entrada. Se sairão anjos ou demônios por essa porta, não temos como saber, mas o objetivo maior da arte é nos aproximar daquilo que temos de mais sagrado ou profano. Esperam que somente humanidade saia do artista, ou aquilo que enlevará o espírito, e, por isso, imaginam-no como alguém capaz de tocar as mais profundas cordas do ser humano. Nesse cenário, imaginar que um artista possa ser desumano soa como um contrasenso: pode alguém desprovido do mínimo senso de humanidade representar adequadamente o humano?

No filme, todas as condutas de Margot apontam não somente para o fato dela ser desprezível, mas de ser alguém pouco conectado aos anseios, medos e sonhos de outros indivíduos. O seu egoísmo é tão grande que ela não trata ninguém de forma decente, encarando todos como possíveis obstáculos a lhe separarem da felicidade. Ela é uma escritora reconhecida pelo aspecto humano da sua obra – apesar de não ter empatia nenhuma ou senso de observação que nos autorize a imaginá-la como uma artista capaz de se conectar a um público.

Não entendo como um artista pode existir sem ser humano. Se a arte é um produto humano, seja como artista ou seja na forma de uma apreensão diferenciada do mundo, tal variável não pode ser desconsiderada. Inclusive vou um pouco mais longe e digo que artista de verdade não é aquele que possui a melhor técnica ou o assunto mais adequado para abordar, mas aquele que consegue articular melhor a sua humanidade de forma a tocar na dos outros. Na minha visão, a arte só existe como forma máxima de expressão do humano, o que me deixa um pouco decepcionado com os tempos atuais, em que ela deixou esse caráter imanente e passou a ser aquilo que o autor diz que é arte, por mais conceitual e vago que seja.

Não faz muito tempo eu comentei que, antes de ser artista, qualquer pessoa deveria se afundar nos estudos sobre a natureza humana e sobre todos os assuntos possíveis do conhecimento. Nenhum assunto pode existir somente sob uma ótica, tudo é um prisma multifacetado, um mosaico de peças que não combinam. A arte não é só fazer uma obra e colocar algum conceito nela, mas uma tentativa tênue de chegar ao infinito usando um meio físico. Os grandes artistas são aqueles que mergulharam tão fundo no seu oceano interior que conseguiram fazer-nos ver o nosso reflexo nele.

Quando penso em artista completo, tanto pelos defeitos quanto pelas virtudes, o único nome que me ocorre é o de Leon Tolstói. O escritor russo foi cheio de falhas e de posicionamentos morais controvertidos, mas, em relação à sua arte, ele tentou ir além de si mesmo. Sempre tentou abandonar o que era e revelar o espelho cujo reflexo fazemos de conta que não existe. Sua versatilidade temática é impressionante. Querem conhecer as paisagens russas e os dramas dos camponeses? Leiam os contos de Tolstói. Querem discutir a instabilidade dos relacionamentos humanos e as hipocrisias sociais? Leiam “Ana Karênina”. Querem saber como é morrer, as pequenas misérias que norteiam as nossas existências e a fragilidade da vida? Leiam “A morte de Ivan Ilitch”. Querem saber como um mundo inteiro pode existir dentro do nosso mundo? Leiam “Guerra e Paz”. Para Tolstói, a arte sempre foi tudo ou nada, e ele se desnudava por completo dentro da obra. Os leitores reconhecem o seu esforço, tanto que continuo vendo a habilidade com que ele construiu as suas tramas até hoje, em um domínio técnico invejável, sem esquecer a piedade com que encarava o seu semelhante.

Leon Tolstói

E aqui chego naquilo que, para mim, diferencia um artista medíocre de alguém inesquecível: a piedade. Os artistas completos cujos nomes lembro – Auguste Rodin, Camille Claudel, Fernando Pessoa, Leon Tolstói, Jane Austen, Fiódor Dostoiévski, Dickens, Diego Velázquez, Joseph William Turner, Artemisia Gentileschi, Mozart, Beethoven, Tchaikovsky – foram pessoas que usaram a sua arte não com o propósito de fazer sucesso ou conseguir sustento material, mas para tocar o humano nas pessoas que sequer conheciam. Para fazer isso, eles não só entenderam o passado e o futuro dos indivíduos, como viram as suas pequenezes e foram capazes de perdoá-los, pois nós não sabemos muito bem o que estamos fazendo e precisamos que alguém nos segure a mão e diga que tudo vai acabar bem no final da nossa história.

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O dia em que fui censurado

Em todos esses anos de vida que escrevo, nunca tinha passado pela experiência de ser cerceado no meu direito de expressão ou sofrer censura, e acabou vindo do lugar mais inesperado.

Fui denunciado por “pornografia” no Pinterest. Isso por que, no meu painel sobre pinturas, onde coloco as obras que mais gosto, tive a “audácia” de colocar esse quadro de Paul Cézanne:

“Hortense dando de mamar para Paul” (1872), Paul Cézanne

Detalhe interessante: existem dezenas de pinturas nesse painel ( https://br.pinterest.com/gmeloczekster/pinturas/ ) que considero pornográficas, aplicando o conceito mais tradicional da palavra. Tenho pinturas de homens e de mulheres nus, algumas inclusive em posições sexuais, e nunca antes fui chamado de “obsceno” ou “pornográfico”. Não escolho pinturas sob esse viés, mas pela sua beleza estética e, assim, no mesmo painel, podemos encontrar desde autorretratos até paisagens, passando pela exibição de corpos nus, como não poderia deixar de ser, pois é natural da vida. Na minha visão, o importante é a pintura conter uma história inteira condensada em um único momento, e nunca parei para pensar se estou pisando além dos limites da moral e dos bons costumes – aliás, creio que, em matéria de experiência artística, esses limites sequer são claramente identificáveis.

O Pinterest já me “inocentou”, e a pintura retornou para o painel. Ainda assim, a questão persiste me intrigando: o que fez alguém se ofender tanto com uma mulher dando de mamar para o seu filho que o levou a denunciar o quadro como “pornografia”? Não existe nada de sexual aí, a não ser se consideramos o corpo feminino como algo naturalmente pornográfico. Além disso, é possível que a pessoa “enojada” com o quadro tenha se alimentado da mesma forma, ou conheça ao menos uma criança que tenha se alimentado no peito da mãe… seriam essas pessoas também pornográficas?

Não cabe a mim responder a esse anônimo ou anônima que tachou um quadro de Cézanne como “pornográfico” – até por que o anonimato garante a todos os covardes a chance de se manifestarem sem réplica. Na verdade, acho um pouco perturbador alguém pensar assim a respeito de uma cena que, até onde posso ver, é prosaica e absolutamente rotineira. Concordo que as concepções de “pornografia” variam muito entre os indivíduos, mas a ausência de lógica e de coerência daqueles que consideram a amamentação como um gesto pornográfico chega a ser risível. Darão o que para os nenês, Coca Cola? Cerveja?

Não faz muito tempo, comentei que não existia atividade mais perigosa nos tempos atuais do que escrever. Cada mínimo texto meu – cada mísera frase – é descontextualizada, fragmentada e analisada nas suas minúcias em busca de fraquezas ou posições ideológicas. Uma palavra ou expressão distraída é a senha para que não só meu texto seja destruído, mas igualmente eu acabe sofrendo ataques que escapam do âmbito das palavras e entram na esfera pessoal. O mundo está cheio de justiceiros e, como demonstra essa situação que vivi com o quadro de Cézanne, não importa o quanto o indivíduo se ache correto, a verdade é que ele possui uma visão de certo ou de errado que é somente sua.

Sob certos aspectos, sou uma pessoa afortunada. Sei medir o alcance das minhas palavras de tal forma que a patrulha tenta encontrar brechas sem sucesso, e acaba se resignando. A última vez em que fui questionado sobre um texto aconteceu alguns meses atrás, quando inadvertidamente escrevi nesse blog “a grande poeta espanhola Florbela Espanca”. Um equívoco pequeno – não sei onde estava com a cabeça, pois ela é portuguesa – , mas foi motivo suficiente para que a minha caixa de mensagens enchesse de recados. A grande maioria limitou-se a apontar o problema, mas outros foram irônicos (“logo vc, que se acha tão erudito”, adorei essa) e alguns descambaram para a fúria desarrazoada, chamando-me de preconceituoso, xenofóbico e inimigo de Portugal.

As pessoas mais preconceituosas que conheço são justamente as que pensam estar fazendo um “favor” apontando falhas, erros e preconceitos alheios. Da mesma forma, as pessoas que se dizem mais libertárias, progressistas e favoráveis à liberdade da expressão são as que mais vociferam quando alguém tem a ousadia de lhes questionar. Em geral, quem cuida das atitudes e falas dos outros diz mais a respeito de si mesmo do que dos “patrulhados”.

No mundo em que vivemos, parece inevitável ser objeto de patrulhamento e de constante vigilância. Escrever é se expor com palavras. Eu poderia fazer um longo arrazoado histórico sobre patrulhamentos, ou escrever um texto repleto de ironias, ou mesmo fazer um desabafo apaixonado a favor da minha liberdade de expressão. Poderia fazer tanta coisa, mas essa planura de pensamento me dá sono.

A única coisa que posso dizer para quem lê os textos ou observa a minha vida sob o prisma de achar erros, falhas ou preconceitos é que estão perdendo toda a diversão do caminho. Procurar fraturas em meio ao meu discurso é inútil – claro que ele possui ideologia, pois somos seres ideológicos, já diria Bakthin. A questão é: o quanto a tua ideologia sobrevive quando confrontada com a minha? És assim tão fraco(a) que uma imagem ou um texto podem te derrubar?

Os patrulhadores passam, mas a caravana continua seu caminho.

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Obras Inquietas – 43. “Mulher chorando” (1947), Cândido Portinari

Nessa semana, na minha coluna no Artrianon, eu falei sobre uma obra pouco comentada de Cândido Portinari, “Mulher chorando” (1947). A postura pasma e um tanto bovina da desconhecida revela uma mulher acostumada a sofrer e que, ainda assim, deixou a dor assumir o controle dos seus atos. Temos mais dúvidas do que certezas, mas todos nos identificamos de alguma forma com essa mulher e seu choro dolorido.

Boa leitura.

“Mulher chorando” (1947), Cândido Portinari

No silêncio da imagem, um olho mal consegue esconder o espanto, a incredulidade, a dor. As mãos desajeitadas, disformes depois de tantos anos de maus-tratos e de serem usadas até os limites das suas forças, amparam o rosto como se nunca tivessem tocado a pele que envelhece mais rápido do que o tempo. Ela não é uma mulher acostumada a acariciar e, no gesto paralisado, existe algo de mecânico, de desconforto. Do olho fechado, o silêncio dolorido cede diante do peso da sua existência e brota na forma de uma lágrima impregnada de desespero. Ela não é bonita, e sequer sabe se vestir com a elegância irreal que a sociedade exige. A mulher não se preocupa com ser, e sim com o que é, e, nesse momento, ela está preenchida pela dor, que se espalha no mundo através do olho ainda cheio de surpresa, pelo outro semicerrado que permitiu a fuga da lágrima traiçoeira. Ninguém sabe o motivo pelo qual a mulher ali jaz em silenciosa contemplação. Ninguém conhece o seu nome, ou qual o peso que angustia a sua consciência. Ainda assim, reconhecemos nela o incômodo reflexo das vezes em que choramos sozinhos no escuro, das ocasiões em que nos sentimos sufocar no meio do cotidiano, dos momentos em que perdemos o controle. Não perguntes por quem a mulher chora, pois ela pranteia todos nós.

Texto originalmente publicado no link https://artrianon.com/2017/09/04/obras-inquietas-43-mulher-chorando-1947-candido-portinari/

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Sempre esperamos uma mensagem de amor

Ontem assisti a uma montagem de “Yerma”, peça teatral escrita por Federico Garcia Lorca em 1936, e que revela uma incrível atualidade com questões que ainda afligem a Humanidade, como casais que não conseguem ter filhos, a pressão da família para que as mulheres engravidem, as fofocas constituintes de qualquer grupo social, os abortos e a liberdade feminina de dispor sobre o próprio corpo.

Sempre que vou assistir a uma adaptação de alguma obra literária, passo os dias anteriores e posteriores fazendo uma breve imersão no escritor e, assim, acabo redescobrindo algumas preciosidades que julgava esquecidas, bem como anotações de cenas e ideias de histórias futuras. É o Gustavo do passado deixando lembretes e migalhas para aquele que ainda virá.

Lendo a “Obra poética completa de Federico Garcia Lorca”, achei um papel com essa anotação: “Na fila do supermercado, uma moça contava para a outra a angústia que era esperar a mensagem do WhatsApp do rapaz que gostava”.

O poema foi escrito muito antes da criação destas inovações tecnológicas que, no fundo, não servem para esconder a grande verdade: sempre estamos esperando uma mensagem de amor, não interessa a forma ou o mecanismo, mas sempre esperamos.

Eis o poema que tal cena me recordou:

El poeta pide a su amor que le escriba

Amor de mis entrañas, viva muerte,
en vano espero tu palabra escrita
y pienso, con la flor que se marchita,
que si vivo sin mí quiero perderte.

El aire es inmortal. La piedra inerte
ni conoce la sombra ni la evita.
Corazón interior no necesita
la miel helada que la luna vierte.

Pero yo te sufrí. Rasgué mis venas,
tigre y paloma, sobre tu cintura
en duelo de mordiscos y azucenas.

Llena pues de palabras mi locura
o déjame vivir en mi serena
noche del alma para siempre oscura.

Mulher de vestido azul lendo carta – Johannes Vermeer

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Obras Inquietas – 42. “O boxeador de Quirinal” (330-50 a. C.), Anônimo

Na minha coluna dessa semana no Artrianon, eu tratei da escultura “O boxeador de Quirinal”, feita por um artista cujo nome se perdeu no tempo, estimativamente concluída entre os anos de 330 e 50 a. C., ou seja, existem fundadas dúvidas sobre a sua idade. Acredita-se que ela mostre o famoso boxeador Theogenes, campeão absoluto de boxe na Grécia por muitos anos.

Ainda que muitas pessoas considerem a postura do boxeador como se ele estivesse repousando – inclusive intitulam a estátua como “O boxeador em descanso” -, eu percebo, pelo olhar meio agoniado que ele dirige a um interlocutor invisível, a pergunta que todos temem ter que responder: chegou a hora das derrotas se tornarem mais frequentes do que as vitórias? Passei do meu apogeu?

Enfim, são reflexões. Quem estiver disposto, sugiro ler esse texto com a bela música “The Boxer” do Simon e Garfunkel como fundo sonoro.

Boa leitura!

“O boxeador de Quirinal” (330-50 a.C.), Anônimo

 

Sentado, o boxeador não tem somente o peso da idade a prostrar a sua coluna, mas também a sombra de algo desconhecido que desce sobre seu corpo e lhe preenche de medo, algo que se mistura ao gosto amargo do sangue e à bile que tenta escalar a sua garganta. É a derrota que experimentou pela primeira vez e, agora, crava dentes ansiosos no seu espírito até então confiante e invencível. Então, é assim que os fracassados se sentem: cercados por rostos indiferentes, por risadinhas desconfortáveis, pela pena. Ele ainda está atordoado; não imaginava que o adversário fosse tão rápido, que seus golpes fossem tão potentes, que a sua resistência fosse tão fácil de ser batida. Os dedos cobertos de cortes e machucados ainda recendem a uma mistura enjoada de sândalo e de esperança; no rosto, cicatrizes espreitam os olhos impregnados de abismo e de angústia. A batalha está cada vez mais se afastando no passado, mas ele sente os grãos da areia do ringue ainda queimarem no seu rosto onde o sangue crava marcas ciumentas por entre riscos, feridas, hematomas. Perdeu alguns dentes, seu nariz está quebrado, os dedos fraturados, mas o pior é o espírito que, jogado sobre a pedra, sabe que aquela é só a primeira de uma sequência de derrotas. Agora que ele tombou diante da arrogância dos jovens, a tendência é cair cada vez mais, até se transformar em uma sombra do lutador inexpugnável de outrora, um andrajo que se arrasta por ringues cada vez mais fedidos e menores. A primeira derrota queima na sua memória, mas nada é pior do que a vergonha de descobrir que, afinal de contas, Theogenes, o boxeador, é só mais um humano prestes a ser engolido pela Velhice e pelo Medo.

Texto originalmente publicado no link https://artrianon.com/2017/08/27/obras-inquietas-42-o-boxeador-de-quirinal-330-50-a-c-anonimo/

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A leitura selvagem

Todos dizem que a leitura está sob ameaça. Dizem que os leitores estão em extinção, substituindo os prazeres de um livro pela tecnologia cada vez mais onipresente. O governo afirma que vai investir mais e mais para ampliar a leitura de jovens e adolescentes, enquanto a sociedade reclama que falta investimento.

No entanto, não é o que vejo por aí. Sim, faz falta uma política global de estímulo à leitura, mas essa política seria melhor representada se, ao invés de lançarmos mais obras, concentrássemo-nos em proporcionar um maior acesso ao livro, além de apoio ao autor, reserva de mercado para autores locais (por quê não?), e toda uma rede de proteção à leitura que sabe que ela não se esgota com a leitura solitária de uma obra destinada ao vestibular ou a uma prova, mas é um processo a longo prazo.

Enquanto isso não acontece, percebo o crescimento de uma leitura selvagem, independente dos desejos dos governos ou das opiniões dos entendidos – uma leitura que sobrevive nos locais mais inesperados. Uma atitude quase rebelde e, por ser voluntária e não aparecer nas estatísticas, a experiência transgressora mais incrível – aquela que não é publicizada. Basta olhar para os lados e muitos leitores aparecem, apesar da nossa constante crise de desesperança.Vivenciei duas experiências recentemente:

1 – Quando voltava do Rio de Janeiro para Porto Alegre, ao meu lado no avião sentou-se uma menina de 08, 09 anos, acompanhada da sua mãe. Tão logo se acomodou, entregou-se à leitura de um livro. Curioso para saber qual obra prendia a atenção da minha colega de poltrona, espichei o olho e percebi que era “O Pequeno Príncipe”, de Saint-Exupéry. Não resisti e perguntei o que ela pensava do livro. Muito séria, a menina respondeu que estava lendo pela segunda vez, para “conferir algumas coisas”, e continuava gostando bastante. Perguntou o que eu estava achando do livro que carregava (estou lendo “A vida e as aventuras de Nicholas Nickleby”, do Dickens, um portento de quase 1000 páginas) e respondi que também estava gostando. Assim como quem não quer nada, acrescentei “sabe, eu também escrevo livros…” Não é sempre que me identifico como escritor. A menina me encarou por uns segundos e ergueu “O Pequeno Príncipe”, perguntando “Bons como essa daqui?” Eu respondi que não, infelizmente não. Ela abriu o livro e disse “então não escreve direito, livro tem que ser bom.” Voltou a ler e não conversou mais comigo; perdi o respeito por causa da minha confissão. No meio da viagem, desistiu da leitura e se aninhou nos braços da mãe, dormindo com tranquilidade invejável.

 

Robert Doisneau, La ronde 1956

02 – No domingo passado, passava por uma avenida de Porto Alegre quando percebi um mendigo embaixo da marquise, lendo “O matuto”. Estava completamente envolvido com a leitura, os lábios formando as palavras, e eu paralisei no meio da caminhada. Não sabia que livro era aquele ou, melhor dizendo, nunca o tinha visto. Não sei o motivo, mas, na hora, recordei de José de Alencar. O mendigo percebeu que era observado e me encarou com semblante ameaçador, perguntando qual o problema. Eu confessei minha ignorância: não sabia que livro era aquele, podia me resumir a história? O mendigo ficou contente por ter um interlocutor que não o encarava com pena ou reprovação e desandou a resumir o livro, sobre um homem rico que foi raptado quando criança e levado para uma cidade do interior do país, crescendo como um analfabeto, até ser encontrado e assumir a posição de homem mais rico do país. A autora era Zibia Gasparetto, auxiliada pelo Espírito Lucius. Foi difícil me desvencilhar do mendigo, que desejava passar o dia todo falando sobre o livro. O seu entusiasmo de falar sobre a obra era tão genuíno que somente depois percebi: tanto ele não pedira dinheiro ou comida quanto eu esquecera de oferecer.

Apesar de tudo, apesar das opiniões bocejantes dos especialistas, apesar do descaso dos governos, apesar das inúmeras pessoas que apregoam a importância da leitura sem adotar nenhuma prática pessoal nesse sentido, ainda assim ela sobrevive. Não está nos holofotes, mas é um movimento subterrâneo, quase clandestino. Seja no silêncio do lar, seja em um elevador, seja debaixo de uma marquise, existe uma multidão de leitores silenciosos, e é neles que está o futuro do mundo.

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Sobre as pessoas que são ilhas

Juro que não pretendia falar sobre a palestra do escritor cubano Leonardo Padura ontem no Fronteiras do Pensamento 2017.  Comentar a fala alheia me soa meio redundante, para não dizer chato. Além disso, existem reflexões que são melhores de manter para nós mesmos – às vezes, tenho a sensação de que escrever algo mais estraga do que ajuda.

No entanto, quando alguns amigos escutaram a minha opinião sobre a fala do escritor (assim como a analogia que vi traçada dentro das suas palavras, se voluntária ou não é outra questão), pediram para que eu escrevesse. Meu pai, que não é homem de pedir textos, escutou o meu resumo da conferência e disse “tu devia escrever isso, é muito importante”. Não é sempre que escuto isso dele e, assim, só me resta obedecer.

Espero também que a organização do Fronteiras do Pensamento não queira me matar, pois Padura ainda dará a mesma conferência em São Paulo nessa semana e estou dando spoilers. Se os 200 e tantos leitores desse blog ouvirem falar que ninjas ou que a SWAT me raptaram, saibam que foi por uma causa nobre.

Uma retrospectiva. Dois anos atrás, eu palestrei para a SPPA – Sociedade Psicanalítica de Porto Alegre  (outro agrupamento de pessoas que é espantoso que ainda não tenha me caçado como se faz com um tigre fugido do circo) sobre “O homem que amava cachorros”, de Leonardo Padura. Isso foi inclusive registrado em vídeo, e está aqui o link (perdoem minha verve, esqueci que estava sendo filmado e me entusiasmei um pouco, tanto que derrubei a água mineral sobre a mesa):

No momento das perguntas, alguém indagou por qual motivo Leonardo Padura não saía de Cuba. Por que não fugia, aproveitando-se de alguma viagem, e tentava se estabelecer em outro país, onde poderia começar vida nova, pois teria a sua carreira de escritor consolidada.

Se bem recordo, não fui capaz de responder essa questão de forma satisfatória, mas ela ficou ribombando na memória. Existem as opiniões mais diferentes sobre Cuba: alguns acham a ilha linda e um modelo de justiça social, outros a consideram um antro comunista. Não tenho opinião formada sobre o assunto, e ele não me interessa muito – não acho correto julgar sem ver e sem saber todas as nuances e, para mim, algo pode ser simultaneamente bom e mau. Foi estranho constatar que a posição de Padura de continuar morando em Cuba era vista tanto como uma declaração de que o regime comunista era ótimo quanto como uma demonstração de fraqueza do escritor, incapaz de escapar das “garras totalitárias”.

Ontem ele respondeu a dúvida, mas o fez de maneira tão discreta que periga ter passado em branco: para Padura, a literatura não é uma nação, mas a literatura é o escritor. A nação está dentro dele e, por extensão, dentro de cada pessoa.

É uma subversão do que estamos acostumados a imaginar: para Padura, a literatura não é o espelho da pátria (um abraço para Machado de Assis e para Joaquim Nabuco), mas uma experiência individual, assim como o próprio país. Cuba não é um espaço geográfico claramente delimitado, mas um universo interno ao escritor, repleto de personagens, situações, cores, cheiros, passado, presente e memória. Não é a Cuba real que ele aborda, mas o simulacro quase exato que existe somente dentro de si mesmo. Assim, para Padura, Cuba nunca sairá do seu interior, e o autor é incapaz de escapar do país real que corresponde à literatura que lhe habita – não pode abandonar o espaço físico onde cresceu e viveu, pois ele retroalimenta a literatura que forma a sua essência, a sua nação interna.

Estamos tão acostumados a ver a nação como um conjunto de indivíduos em prol de um objetivo comum e unidos pelo mesmo território que nunca paramos para pensar que ela existe somente no nosso interior, na visão que temos sobre a realidade circundante. Para escritores isso é mais evidente: não é o país real que eles abordam nas obras, mas a sua visão de país e de identidade nacional, algo que já passou por um filtro interno. Isso explicaria o motivo de algumas pessoas só verem o lado ruim dos países e outros só enxergarem benesses – a nação que os habita é uma diferente da do outro.

Para estabelecer essa analogia, a fala de Leonardo Padura foi sobre ILHAS, e tinha por título o verso de um poeta cujo nome me escapou: “A maldita circunstância da água por todos os lados”. A palestra tratou sobre as vicissitudes e estranhezas de morar em um país cercado por fronteiras líquidas. Abordou ainda as múltiplas maneiras através das quais os cubanos se relacionavam com as fronteiras que lhe prendiam em um lugar distante de outras terras, e as formas encontradas para rompê-las.

À medida que a fala transcorria, percebi que Padura não estava mais falando de Cuba como nação, mas de indivíduos como ilhas à solta no mundo. Não seria cada pessoa uma ilha, uma nação fechada em si, e as suas relações com o ambiente ao redor e com outras pessoas não constituiriam tentativas de escapar da solidão interna das nossas ilhas?

Nesse sentido, “a maldita circunstância de estar cercado de água por todos os lados” tem a ver com a solidão, o sentimento inexorável que cada ser humano sente por estar preso dentro da sua pele, dentro da sua individualidade. Seríamos ilhas desgarradas pelo mar do mundo, tentando nos relacionar e entender outros seres, o que explicaria o fato de algumas pessoas pensarem tão diferentes entre si – e nos permitiria compreendê-las não como formadas por opiniões, mas como ilhas com códices e vivências próprias.

Para um escritor – e aqui a reflexão é minha -, essa realidade é ainda mais desgastante. Se os outros são ilhas inconscientes tentando se ajustar por meio de acordos e tratados, nós somos territórios instáveis que preservam muito a sua independência. Devemos obediência irrestrita à nossa nação interna, e ela é caprichosa e possessiva (segundo Stendhal na sua biografia sobre Napoleão, o pequeno corso não era um homem, mas a representação do desejo da sua nação, por mais enlouquecedor que isso pareça – ser a voz de uma coletividade inteira). Estamos mapeando os limites e abismos da ilha que nos constitui, estabelecendo toda a mitologia que nos forma, e essa tarefa afasta os demais que – como já me disseram inúmeras vezes – não nos entendem. Falamos muito, mas dizemos pouco.

Quando mencionou o “Malecón”, o muro de 60 centímetros que separa Havana do mar, o escritor falou da relação dos “havaneros” com o muro: enquanto parte deles sentava e olhava para o interior da cidade, outros preferiam contemplar o oceano. Da mesma forma, alguns aproveitavam para conversar sentados no muro, enquanto outros passeavam e ainda outros praticavam o “dolce far niente”. Em alguns momentos, as imagens poéticas usadas evocavam o muro como um espaço físico que dividia as pessoas entre aquelas que preferiam contemplar a si mesmas e as outras que sonhavam com as realidades além do mar.

Ao abordar as maneiras encontradas pelos cubanos de saírem da ilha, que iam desde a fuga pura e simples até o pedido de asilo em outros países, Padura tratou da necessidade de pedir licença para morar em outro país e do esforço de compreendê-lo, das autorizações que precisamos solicitar para entrar em outros lugares. Retomando a analogia, o mesmo acontece com qualquer relacionamento: somos ilhas tentando traçar canais de comunicação e pedindo permissões para ingressar nos territórios alheios, conseguindo não a paz absoluta ou a dominação plena, mas uma relação de trocas e desvantagens mútuas.

A nossa angústia é nunca saber se a solidão será integralmente preenchida pela ilha do outro, se a ilha alheia não é mais compatível do que aquela que julgávamos ser perfeita. Chamou minha atenção o seu silêncio sobre a mais evidente das formas de sair de Cuba: a morte.

Foi com certa exasperação que o escritor disse que não podia sair da ilha, pois a sua essência estava ligada à Cuba que lhe habita. Ninguém pode sair de si mesmo. A ilha física é um detalhe que às vezes coincide ou não com a sua visão literária da Cuba, aquela que ele habita e da qual saem todas as suas histórias. Recordei o poema de Hilda Hilst: “Para onde vão os trens, meu pai? Para Mahal, Tamí, para Camirí, espaços no mapa, e depois o pai ria: também para lugar algum meu filho, tu podes ir e ainda que se mova o trem, tu não te moves de ti.” Mesmo que estejamos distantes de onde nascemos ou acompanhados por outras pessoas, a triste realidade é que nunca conseguimos sair da solidão da nossa ilha interna. Foi o que ficou de mais fundo das palavras de Leonardo Padura: é irrerlevante se ele mora ou não em Cuba, ou a sua opinião sobre política. O que realmente importa é que as pessoas estão sempre sozinhas e insatisfeitas, e encontrar felicidades para povoar a nossa ilha interna deveria ser o único objetivo válido de vida.

Um último comentário: foi tão bonito o que Padura falou sobre Cuba, bem como as suas citações de Alejo Carpentier, que fiquei muito tentado a conhecer o lugar. Eis a força maior da literatura – sedução.

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