Obras Inquietas – 49. “O triunfo do Gênio da Destruição” (1878), Mihály Zichy

Na minha coluna dessa semana no “Obras Inquietas”, eu tratei de um quadro do pintor húngaro Mihály Zichy, chamado “O triunfo do Gênio da Destruição”. Uma obra gigantesca e altamente bélica, tanto que, por causa das suas críticas veladas ao militarismo, acabou sendo proibida no Salão de Arte de Paris. No entanto, a obra também possui uma reflexão muito atual sobre os dias que vivemos: o quanto querem destruir ao invés de criar, o quanto caminhamos por entre escombros de sentimentos enquanto tentamos encontrar nosso papel no mundo.

Boa leitura!

“O triunfo do Gênio da Destruição” (1878), Mihály Zichy

Destruir é mais simples do que criar. É muito mais difícil erguer um castelo de dentro do sonho do que colocar as suas paredes abaixo, imersas em fogo, ruínas e amargura. Para cada pessoa que se anima a criar, existe uma multidão disposta a destruir, e, nesse exato momento, o homem que anda no meio do campo de batalha, com passos que desconhecem o ponto de chegada, atordoado pelo banho de sangue que preenche o ar de vermelho, não é tão diferente da pessoa que sai de casa todo dia e precisa se deparar com a morte da esperança a cada esquina, com raiva desproporcional escapando por olhos injetados de fúria, com angústia represada em gritos ou buzinas, com pessoas que esticam crianças buscando piedade, com a cobiça regrando as atitudes, com os gemidos que se estraçalham em meio ao vento. Viver não só é muito perigoso, viver é uma insanidade, e no meio do oceano da existência não passamos de vagas de madeira perdidas entre as ondas, restos de um naufrágio anônimo. Nessa jornada terror adentro, o homem fecha os ouvidos e um grito estrangulado escapa da sua garganta, juntando-se à litania dos corpos que se empilham ao seu redor, todos buscando uma salvação, uma palavra de conforto, um respiro de ar limpo em meio ao odor pútrido do medo. Enquanto isso, o Gênio da Destruição guia o ser humano por entre o cotidiano, sabendo que tudo que existe só o faz para ser um dia destruído, sabendo que não existe nada que escape do seu toque, sabendo que não passamos de ruínas adiadas e que um dia, mais cedo ou mais tarde, a destruição – dos sonhos, das esperanças, dos amores – será a nossa única companhia.

Texto originalmente publicado no link https://artrianon.com/2017/11/05/obras-inquietas-49-o-triunfo-do-genio-da-destruicao-1878-mihaly-zichy/

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Obras Inquietas – 48. “Espalhados por toda a parte” (1864), Alexander ver Huell

Na minha coluna dessa semana no “Obras Inquietas”, em homenagem ao Halloween, tratei de um ilustrador extremamente singular e não tão badalado, o holandês Alexander ver Huell. Ele se notabilizou pelas suas obras repletas de romantismo e sensibilidade, que adornaram muitos livros do período que vai de 1822 a 1845. Porém, um dia – e ninguém sabe ao certo o que aconteceu -, ele se transformou em um homem repleto de paranoia e de fobia social, e as cenas românticas de antes foram invadidas pela morte, por demônios e pela bizarrice.

A ilustração que escolhi, “Espalhados por toda a parte” (o nome original está em latim, “Straas ubique”, mas optei por passar para português), me é significativa por um evento pessoal: certa vez, um amigo estava em uma casa noturna de Porto Alegre e passou mal, tendo que sair às pressas do lugar. Alguns dias depois, perguntei-lhe o que tinha acontecido e ele disse que, de repente, ao olhar as outras pessoas presentes no lugar, dançando e se divertindo, viu somente gente morta. Ainda lembro dele segurando meu braço e perguntando com urgência “tu não viu? TU NÃO VIU?”. Não enxerguei nada, mas sempre fiquei pensando que, talvez, o olhar seja somente uma questão de perspectiva.

Enfim, eis o texto. Boa leitura.

“Espalhados por toda a parte” (1864), Alexander ver Huell

O homem caminha com pressa, evitando olhar para os lados. Cobre o rosto, com receio de revelar o permanente ricto de terror que vinca os seus lábios em um constante gemido. Eles estão por todos os lugares. Em cada esquina, em cada rua, em cada casa, a doença e a morte espiam o estranho que atravessa os seus domínios. Atrás de risadas histéricas e da alegria fugaz da pele, escondem-se cadáveres putrefatos cobiçando a vida daqueles que ainda não escutaram o canto de sereia do Inferno, a música terrífica que se espalha pela catedral do mundo, o ruído que mora no fundo do pesadelo. A loucura eriça os pelos do homem enquanto ele atravessa as ruínas daquela necrópole, a cidade dos mortos que ainda respiram. “Estão todos mortos! Vocês e seus filhos, amantes, netos, cachorros, vocês não estão vivos, mas se arrastam pelo mundo sem sentido algum que não seja satisfazer o buraco infinito que mora no fundo da cova dos seus ossos!”, o homem deseja gritar, mas não sabe qual serão as consequências de revelar a verdade, então prefere silenciar. Estar vivo e não viver com a intensidade de um arrepio recém-surgido ou com a raiva com que a água na ânfora espia a sala ao seu redor é como estar morto, e o homem atravessa rapidamente o carnaval de gente a rir, a brincar, a sofrer, a se angustiar, sabendo que somente ossos vazios cobertos de enganosa pele estão ali, em uma confraternização macabra que marca os seres de vida comum que vieram ao planeta somente para servir de pasto para os vermes. Os passos velozes do homem e o medo que escapa dos seus olhos esbugalhados não deixam dúvida: ele está em um mundo repleto de inimigos, com o odor nauseabundo da morte a infestar cada recanto, cercado por cadáveres que ignoram essa condição, em eterna fuga de si mesmo, e ninguém sabe disso, não existe conforto em nenhum lugar, não existe descanso em nenhuma cama, não existe sorriso verdadeiro em nenhum rosto – só a morte a espreitar a sua vida com a mesma curiosidade com que a cascavel contempla a vítima distraída.

Texto originalmente publicado no link  https://artrianon.com/2017/10/29/obras-inquietas-48-espalhados-por-toda-a-parte-1864-alexander-ver-huell/

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Obras Inquietas – 47. “A lição de anatomia do Dr. Frederik Ruysch” (1714), de Jan van Neck

Em virtude de ter passado duas semanas viajando e palestrando por aí, atrasei as colunas do “Obras Inquietas”, motivo pelo o qual me puxaram as orelhas em mensagens.

No meu retorno, tratei de “A lição de anatomia do Dr. Frederik Ruysch” (1714) do pintor holandês Jan van Neck. Poderia ter escolhido outras versões da mesma ideia, inclusive mais famosas, como a de Rembrandt: existiu uma época na História da Arte em que era frequente pintores retratarem aulas de anatomia, o que por si só daria um longo texto. Optei por essa de van Neck por que, entre elas, é a que mais recordo, talvez pelo fato de ser a autópsia de um recém-nascido, talvez pelo detalhe destoante da criança assombrada que segura um esqueleto no canto da imagem. Existe algo de perturbador na calmaria aparente dessa pintura e, se não sou capaz de detectar, o quadro merece estar elencado nessa minha lista de perturbações.

Boa leitura.

“A lição de anatomia do Dr. Frederik Ruysch” (1714), de Jan van Neck

Um corpo não passa de um aglomerado de órgãos, músculos e sangue impulsionados por um espírito. Por favor, esqueçam o horror enquanto presenciam a curiosidade quase sádica dos homens ao redor da mesa, para quem o cadáver da criança é um mero objeto de estudo, e nada mais. Eles não pensam na vida que animava esse corpo ainda fresco até alguns minutos atrás, não pensam no ronco de esperança que brotou dos pulmões e, em seguida, desapareceu, não pensam no aspecto lívido da pele que esperávamos rosada, macia, tenra, e agora tem o tom marmóreo da ausência, não pensam no choro da mãe ou nos soluços do pai a ecoar pelo corredor vazio. A ciência não pode se dar ao luxo de ter piedade. Ignoram o olhar espantado do menino que segura o esqueleto do bebê; ele não consegue entender que sentimentos atrapalham o progresso e que os homens reunidos naquela sala, que dissecam o cadáver como se estivessem olhando uma borboleta morta, fazem aquilo pelo bem de todos. Somente quem se afasta da Humanidade é capaz de desvendar o humano. Mesmo assim, por maior o nosso desejo de frieza, impossível não olhar o cadáver diminuto estendido sobre a mesa e pensar em tudo aquilo que ele deixou de viver, em todas as sensações que não teve tempo de sentir, em todos os sorvetes que não comerá, em todos os sorrisos que não dará, em todos os beijos que lhe serão negados, enquanto a curiosa pinça esgravateia o corpo sem defesas e a placenta jaz sobre a mesa, morta. Pior do que morrer é nem ter a chance de ter vivido.

Texto originalmente publicado no link https://artrianon.com/2017/10/22/obras-inquietas-47-a-licao-de-anatomia-do-dr-frederik-ruysch-1714-jan-van-neck/

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Obras Inquietas. 46 – “O homem em queda” (2014), James Wedge

Nessa semana, na minha coluna no “Obras Inquietas”, eu tratei de uma pintura de James Wedge chamada “O homem em queda”. A postura do homem em queda infinita e para sempre não-concretizada lembra uma fotografia icônica do século XXI, também chamada “O homem em queda”, de Richard Drew, que mostra um homem despencando para a morte após o atentado nas Torres Gêmeas nos Estados Unidos, em 2001.

Existe algo de terrível e de poético na forma com que o corpo se entrega à inevitabilidade da queda, desfazendo-se enquanto mergulha na direção de algo que não sabemos.

Boa leitura.

“O homem em queda” (2014), de James Wedge

 

Ninguém sabe precisar o momento – ninguém sobreviveu o suficiente para contar – mas existe um instante, um segundo talvez (um segundo no meio da eternidade da queda possui todos os tempos do mundo no seu interior), em que a barreira do corpo cede ao fascínio de despencar no abismo e o que era carne vira vento, o que era osso vira graveto, o que era sangue vira medo. Nesse fugaz momento, impregnado de delírio e de horror, o espírito perde as comportas que lhe confinavam no interior de pele e músculo e sente, pela primeira vez, as responsabilidades de ser livre. Nunca ficamos tão próximos de algum Deus quanto agora, o segundo em que perdemos os limites. Suspenso em uma queda que nunca será concretizada, o homem persiste caindo agora e para todo o sempre, desfazendo-se como poeira que volta a encontrar o seu destino, como deserto ondulando em dunas instáveis. O desconhecido – será um de nós? Será alguém que amamos? Será aquele para quem não estendemos a mão na hora certa, ou para quem faltou a palavra que poderia ter sido a âncora salvadora? – atravessa o vazio e se identifica com ele, lutando para manter uma coesão que, em breve, será destruída pelo concreto da realidade. Existe algo de conformismo no homem em queda; podemos escutar o grito que ele não solta ou imaginar os pensamentos que se destroçam na sua consciência esperando a chegada do fundo, do chão, do local em que a morte lhe espera sem ansiedade, enquanto olha para cima e vê o céu tão azul conspurcado por uma sombra que corre em sua direção.

Texto originalmente publicado no link https://artrianon.com/2017/10/01/obras-inquietas-46-o-homem-em-queda-2014-james-wedge/

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Os polemistas

Estão por todos os lugares, os polemistas, e essa é uma das suas principais características: a onipresença. A capacidade de dar o tapa, esconder a mão e apontar para outra pessoa na multidão. O aparente desdém com que iniciam uma briga inócua e depois recuam um passo, vendo a multidão se alvoroçar em dois lados vociferantes de ódio. Quando isso acontece, ele se retira até um canto e espera os momentos em que uma voz racional se erguerá tentando acalmar as fúrias. Nesse momento, o polemista precisará intervir, gerando novas ondas de raiva. Para essa figura, o diálogo é algo perigoso – tudo o que importa é a discussão.

De tão esperto na criação da sua imagem, o polemista se esconde atrás de múltiplos nomes. A melhor maneira de desaparecer é estar sempre diante dos olhos alheios até que não sejamos mais capazes de percebê-lo – como um tapete ou uma escada. Assim, ele pode ser chamado de “comentarista”, de “mediador”, de “debatedor”, de “formador de opinião”. São eufemismos para esconder a realidade: o polemista não tem opinião própria. Ele se alimenta das ideias alheias da mesma forma que uma sanguessuga exaure alguém. É um parasita do êxito que nunca lhe pertencerá. Assim como Nero queimando Roma para fazer uma música, o polemista olha o mundo desmoronar, e o sorriso habita seus lábios, pois, para ele, não há maior emoção do que ver os outros brigarem por nada.

Algumas pessoas inclusive consideram o polemista inteligente! Serão capazes de defendê-lo até a morte, pois enxergam nele um reflexo das suas ideias, ao invés de vê-lo como um espelho frio e distante que reflete somente aquilo que os outros querem ver. Inclusive o polemista inicia a conversa anunciando com a maior desfaçatez, “hoje vou fazer uma polêmica”, como se fosse um grande esforço, e todos aplaudem o vazio que é criar um debate sem a mínima intenção de melhorar o mundo, só deixá-lo pior e mais afundado na areia movediça.

O verdadeiro polemista percebe qualquer fala como uma possibilidade de gerar discórdia. Não escuta o outro, mas o analisa com a intenção de destruí-lo; procura brechas, titubeios, incoerências, e nelas concentra a sua “análise”. Uma palavra no calor do momento, e o polemista chamará a atenção da urbe até então indiferente, colocando-a sob o microscópio, vendo significados e sombras que provem a sua tese. Pois um polemista que faça jus a tal conceituação começa de uma tese e depois procura evidências que a suportem, jamais seria capaz de colher provas para depois concluir: seria horrível se as suas ideias prontas desmoronassem diante da dúvida.

O bom polemista usa chavões e palavras de ordem – existe maneira melhor de evitar o raciocínio do que se refugiar em clichês? Possui a capacidade de distorcer ideias e frases até que encaixem em alguma polêmica. Sobe aos limites rarefeitos das palavras e pretende discutir conceitos que levam a buracos negros argumentativos, para então poder declarar, triunfante, “eu sempre soube!” Quando não consegue isso, ressuscita alguma questão antiga, e olha as mesmas velhas discussões ressurgirem, renovadas. O polemista tem medo da criatividade ou de ideias jovens: prefere o ranço das discussões cansadas ao invés de se esforçar lendo ou estudando novos assuntos.

Ninguém conhece a obra do polemista, pois ele é incapaz de construir: nunca teve a angústia de erguer o edifício de um texto no meio da planície deserta da folha; nunca encostou o pincel em uma tela e perguntou-se se aquele risco de cor estava destinado à glória ou ao fracasso; nunca teve pesadelos com notas musicais atropelando-se em busca de uma ordem no meio do caos do silêncio. Da mesma forma que um abutre, ele adeja sobre a vida do outro, ansioso para cravar o bico nela e, ao menos, sentir alguma emoção genuína – a destruição. Para isso a claque é essencial: qual a graça de destruir se não existir aplausos no fundo? Contudo, a destruição promove uma satisfação momentânea, que o levará à outra destruição, e depois outra, como um Genghis Khan para sempre infeliz, ao passo que a criação – ah, o prazer dela é insuperável.

Outra característica interessante: os polemistas acham que estão salvando o mundo. Eles realmente acreditam que são essenciais, de que polêmicas levam à mudança de paradigmas, de que é bom fazer o povo se agitar com discussões estéreis. Pensam estar fazendo um favor, mas isso por que confundem a sua posição com a dos argumentadores. Esses sim têm ideias próprias, têm bagagem cultural, têm capacidade de defender um ponto de vista com tanta lógica e coerência que até mesmo o mais encarniçado dos adversários – apesar de discordar – reconhece valor nos pensamentos do outro.

O polemista pensa que tocar napalm em uma floresta é a melhor maneira de vencer o “inimigo”(considerado infantilmente como todo aquele que não comunga dos seus pensamentos). Mal sabem que, assim que a onda de napalm passar, a ideia continuará de pé no meio do campo devastado, encarando o outro com um sorriso de piedade nos lábios. Pois essa é a melhor e única forma de vencer um polemista: mostrar ao mundo o vácuo que habita no seu interior. Mostrar que ideias são à prova de balas – e de tiros de festim.

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Obras Inquietas – 45. “Cão atacando gansos” (1769), Jean-Baptiste Huet

Quem acompanha minhas colunas sabe que gosto de quadros que narram cenas de alta tensão e que estão concentradas em um momento no qual o terror e a beleza confluem como uma pororoca, e esse é o caso da pintura que tratei no “Obras Inquietas”. Em “Cão atacando gansos” (1769), de Jean-Baptiste Huet, a cena revela uma luta feroz pela vida, em que um lado está fragilizado por causa do amor e o outro se sente poderoso pela imposição física – algo que vemos muito por aí.

Boa leitura.

“Cão atacando gansos” (1769), Jean-Baptiste Huet

É no silêncio do anônimo desfiladeiro que se travará a luta decisiva. De um lado, o cão imerso em ferocidade mal esconde a raiva com que contempla as suas futuras vítimas, os dentes salivando de antecipação; do outro, o casal de gansos antepõe seus corpos diante do inimigo, protegendo a ninhada ainda indefesa de filhotes. Sob a pata do cão, os gritos agônicos de um ganso demonstram que esse é um cadáver que ainda respira por uma mera questão de tempo. Os gansos sabem que não possuem chance alguma, mas precisam lutar a batalha impossível e o farão com dignidade. Não existe a possibilidade de virar as costas e fugir, não podem abandonar os filhotes à própria sorte (apesar desse pensamento incômodo às vezes surgir como uma sombra no meio dos olhos injetados de pavor). Eles agitam as asas e grasnam com tons ameaçadores, rezando para assustar o cão, mas o inimigo traz consigo o hálito sombrio da morte, e sustenta a posição, premido pela fome que o faz investir contra a família de animais. A morte nunca é algo pessoal, mas necessário: hoje são os gansos, amanhã quem sabe se não será o cão quem restará acuado? A angústia da cena é palpável, assim como a impressão de que somos os gansos encarando a inexorabilidade do assassino que enfim colocará um termo à nossa vida, e tudo o que podemos fazer é rezar para que o inimigo mostre piedade, só um pouco, e que seja rápido e indolor com nossos entes queridos. Ave caesar imperatori, morituri te salutant, e assim os gansos lutam não para vencer, mas para que seus filhotes possam sobreviver mais alguns minutos em meio a esse mundo impregnado de crueldades e certezas.

Texto originalmente publicado no link https://artrianon.com/2017/09/24/obras-inquietas-45-cao-atacando-gansos-1769-jean-baptiste-huet/

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As pessoas sempre nos decepcionam

Se decepção matasse, hoje eu cairia morto.

O último baluarte da decência e da civilização acaba de desmoronar diante dos meus olhos, confirmando a constatação a que cheguei algum tempo atrás: as pessoas sempre nos decepcionam. Algumas antes do imaginado, outras depois, mas, no final das contas, elas acabam desapontando.

Estou lendo “Heróis”, de Lucy Hughes-Hallett, um livro que trata de como a Humanidade sempre temeu – e buscou – figuras individuais que poderiam ser consideradas como “salvadores da pátria”. O problema é que a característica maior do herói é ser imprevisível, louco e desprovido de padrões morais, ou seja, como diria Brecht (mas por um outro lado), “pobre do país que precisa de heróis!”. Segundo a autora, os heróis oscilariam entre dois extremos: a fúria de Aquiles ou a esperteza de Ulisses. Usando essa base como paradigma, ela analisa Alcibíades, Catão, El Cid, Francis Drake, Wallenstein e Garibaldi.

Sempre tive como uma das minhas mais inabaláveis certezas o fato de que Catão foi um dos últimos homens de verdade que pisou no planeta, e olhem que ele viveu entre os anos de 95 a.C e 46 a.C. Nós todos, os outros humanos, não passariam de meros arremedos, de pálidas sombras da grandiosidade daquilo que Catão representou.

Catão foi o homem incorruptível. Alguém que esteve diante de todos os tipos de tentação e nunca cedeu a elas. Um roched0: incapaz de contemporizar, de buscar o caminho cômodo, de ceder um milésimo que fosse nas suas convicções. Um exemplo de decência e de integridade moral em uma época de devassidão e de valores conspurcados. Um homem que fez tremer gigantes do porte de Júlio César, Virgílio, Cícero, Pompeu e tantos outros.

Não sou somente eu quem admira Catão. Ele tem um conjunto de fãs realmente invejável. Citarei alguns: Cícero afirmou “sozinho, ele [Catão] vale mais do que cem mil outros”. Horácio, que escreveu a “Arte poética”, elogiou o seu “coração feroz”. O grande Lucano o chamou de “godlike”, em uma época que tal comparação era uma ofensa religiosa, mas ninguém foi capaz de contestá-lo. São Jerônimo afirmou que Catão possuía uma glória que não poderia ser aumentada por louvações e nem diminuída por censura. Virgílio disse que gostaria de passar a Eternidade nos Campos Elíseos ao lado de Catão. Dante Alighieri colocou todos os suicidas no círculo mais baixo do Inferno, menos Catão, que foi promovido a guardião do caminho que leva do Inferno até o Purgatório. E o florentino ainda afirmou na “Divina Comédia”: “E que homem sobre a Terra é mais merecedor de representar Deus que Catão? Nenhum, certamente.” Mais “fanboy” impossível.

Não. Catão teve um admirador ainda mais apaixonado, o filósofo francês Michel de Montaigne, que escreveu:

“Eu rastejo em lama mundana, mas não deixo de ver no alto das nuvens as incomparáveis estaturas de certos espíritos heróicos, dos quais o mais sublime era Catão, esse grande homem que foi verdadeiramente um modelo escolhido pela Natureza para mostrar o quão longe a virtude humana e a coragem podem chegar. (…). Catão era um homem diante de quem até mesmo os loucos escondiam seus defeitos.”

Catão

Imaginem um homem que não se dobra nunca. Imaginem alguém que não tenha medo de desagradar outras pessoas e cujo único compromisso é com as suas posições morais. Além disso, Catão era rabugento, mau humorado e não tolerava brincadeiras, piadas e nem distrações pueris. Segundo Plutarco, Catão deixava os grandes homens de Roma angustiados, pois a sua retidão moral os envergonhava pela impossibilidade de imitá-lo. Quando alguém via Catão no júri e era culpado, recusava-se a ser julgado e assumia logo a culpa. Por isso, ele é encarado por muitos como eternamente fadado à derrota (temos como vencer sendo sempre inflexíveis ou a vitória só pode ser atingida com contemporizações e concessões?), mas também é visto como a necessária bússola moral em uma época na qual ela fazia uma falta gigantesca.

Dispondo somente da sua voz, do conhecimento das leis e da certeza que tinha sobre a própria retidão, Catão acreditou que bastava existir um único homem correto para corrigir o mundo. Uma andorinha pode, sim, fazer verão. E tão forte era a sua crença nisso que a sociedade romana lhe temia e respeitava no que foi considerado um dos mais estranhos cultos à personalidade de todos os tempos, pois ele não era belo, não era um prodígio de inteligência, não tinha fama e nem fortuna – possuía somente a cegueira da própria moralidade, e isso bastava para aterrorizar todos.

Um louco, vocês dirão. Mas, e se Catão for o único certo e nós todos estarmos errados até hoje? Impossível não rir ao pensar que Sêneca, quase cem anos depois da morte do senador romano, imaginou Júpiter descendo até a Terra em busca de um exemplo de grandeza humana e vendo o “espetáculo de Catão… de pé, ereto, em meio às ruínas do Império.” O mesmo Sêneca que, vivendo sob a sombra de Nero, manifestou a sua admiração dizendo que “ninguém jamais viu uma transformação sequer em Catão”. Assim como as baratas resistem às bombas nucleares, somente Catão era capaz de sobreviver moralmente ao escrutínio do mais poderoso dos deuses.

Não vou contar todas as histórias de Catão. Basta saber que ele foi o único homem capaz de se contrapor a Júlio César olho a olho e não esmorecer, nem mesmo no momento da sua morte. César nunca reconheceu virtudes no inimigo; odiava-o com todas as suas forças, talvez por ver nele uma integridade moral inatingível para qualquer ser humano normal. Durante 17 anos os dois se enfrentaram nas ruas de Roma, em debates no Senado, em lutas, votações e polêmicas. Ao final, como a História sabe, Catão acabou vencido em Útica e, assim, definiu-se o destino de Roma. O episódio incrivelmente violento da sua morte demonstra a fortaleza moral e a inescapabilidade dos parâmetros morais que constituem a tônica da sua vida – após ler “Fídon” de Platão duas vezes, Catão dormiu calmamente e, quando despertou, enfiou a espada na própria barriga. Ao perceber que corriam para tentar salvá-lo, com as suas entranhas saindo pelo talho, o homem empurrou o médico que tentava suturar a ferida e rasgou de novo o próprio ventre, enchendo o quarto inteiro de sangue.

Ao lado dos demais admiradores de Catão, sempre o tive como um modelo impossível de ser alcançado. Confesso ser incapaz de guardar parâmetros morais rígidos, pois ter essa conduta é condenar-se à morte ou ao ostracismo, ainda mais na sociedade atual, na qual valores morais são prova de fraqueza ou de debilidade do espírito. Assim como Sêneca, imaginava que, se existisse uma pessoa capaz de encarar o próprio Deus (ou Júpiter ou Alá ou Shiva) no olho e constrangê-lo com a sua convicção serena do que é certo, esse homem só poderia ser Catão. Era uma das poucas certezas que eu possuía – isso até eu descobrir uma história estarrecedora, algo que manchou de forma indelével a sua imagem.

Catão também tinha um podre. Contam os historiadores – e com provas documentais ainda por cima, ou seja, nem o conforto de ser uma tentativa de enxovalhar a sua imagem me salva – que Catão estava casado com sua segunda mulher, Márcia, com quem já tivera dois filhos (e ela estava grávida do terceiro) quando foi abordado por Hortêncio, o único advogado que conseguia vencer Cícero no Senado. Esse advogado queria estreitar os laços com Catão por intermédio da junção de suas famílias, e pediu em casamento Pórcia, a filha mais velha do inflexível romano. Ele recusou, pois Pórcia estava casada com outro cidadão. Diante da insistência de Hortêncio, Catão pensou em uma solução intermediária: decidiu divorciar-se da sua mulher grávida e casá-la com o outro homem. A condição era que, tão logo os dois tivessem um filho, juntando as duas famílias pelo vínculo de sangue, Hortêncio se divorciaria e Márcia voltaria a casar com Catão. Um “troca-troca” de famílias em Roma.

O plano funcionou, mais ou menos. Márcia teve um filho com Hortêncio, mas, antes que os dois se separassem, o homem acabou falecendo e toda a sua fortuna passou para Catão, o que acabou sendo um ganho inesperado. César, sempre ciumento da fortaleza moral do seu oponente, insinuou que Catão fez tudo isso por ganância e para se apossar do dinheiro de Hortêncio, mas os romanos não acreditaram, pois ele era incapaz de um plano tão vulgar.

Catão voltou a se casar com Márcia, e a vida prosseguiu. Essa situação é analisada de forma diferente por quem se deteve sobre a vida do romano. Tertuliano considerou essa transação desprezível tanto do ponto de vista afetivo quanto do lado moral. Robert Graves disse que Catão e Hortêncio trataram Márcia como se fosse uma égua reprodutora. No entanto, o historiador Ápio considerou a atitude de Catão exemplar por colocar os interesses de Roma à frente das suas veleidades afetivas.

A maioria dos defensores da conduta de Catão em relação à Márcia afirmam que ele foi coerente com a filosofia estóica: tornar-se afeiçoado em excesso por outro ser humano é tornar-se refém do destino e propiciar o surgimento da infelicidade, algo que o homem sábio não pode fazer. Todos os relacionamentos humanos são temporários e fugazes, não precisando de investimento emocional muito intenso. Permitir que o amor se misture aos princípios morais é ter que abrir mão de um em favorecimento do outro, e isso era algo que Catão, fiel à própria natureza, jamais faria. Em última análise, o gesto dele teria sido algo de notável desprendimento, a atitude mais altruísta que se esperava de um homem preocupado com a falta de moralidade que ameaçava a sua nação: desistir da felicidade pessoal para salvar o coletivo.

Tentamos explicar a conduta implacável de Catão com a sua esposa usando uma série de racionalizações, mas elas não sobrevivem à verdade dos fatos. Catão estava tão imbuído da própria retidão moral que deixou de lado aquilo que lhe tornava humano. Sacrificou a moralidade interna do seu casamento para salvar uma duvidosa moral coletiva que pretendia impor ao povo. Catão estava completamente cego pela sua própria moralidade e, como a mariposa muito próxima da lâmpada, não era mais capaz de distinguir o certo do errado. De tão apaixonado por si mesmo e pela lisura do seu comportamento, pisou em todos que lhe amavam.

Não se pode julgar os deuses da mesma forma que os humanos, e não tenho dúvidas – assim como Lucano – de que, “quando finalmente formos libertos da escravidão, se algum dia isso acontecer, Catão será deificado, e Roma terá um deus de cujo nome não se envergonhará”. No entanto, não posso deixar de lado a frustração de ver a imagem de um dos meus ídolos desmoronar como o Colosso de Rodes sacudido por um terremoto. Afinal de contas, Catão também era humano e até mesmo ele podia cometer condutas repulsivas em prol de um bem maior.

Há alguns dias que esse assunto me incomoda, mas, pensando novamente enquanto escrevo, talvez a conduta de Catão não seja objeto de decepção, e sim de libertação. Se até mesmo Catão decepcionou, qualquer um de nós é passível de frustrar os outros em algum momento. Se isso é inevitável, então, a questão torna-se aceitar tal fato – e pensar como a decepção pode atingir o mínimo alcance. Sujeitar-se a ela e ansiar para que seja de tal ordem que possamos sobreviver ao desprezo e indiferença nos olhos alheios.

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