Não me considero seguidor da obra de nenhum escritor. Por alguns anos, acompanhei todos os lançamentos de Neil Gaiman, mas, mesmo ainda gostando do seu estilo e inventividade, nos últimos anos ele não despertou mais tanto o desejo de lê-lo com urgência igual à que experimentava no passado; pode ser deixado para depois, e isso me desqualifica como seguidor fanático de Gaiman, mas não como seu admirador. Todos os escritores possuem altos e baixos; seria impensável imaginar que alguém consiga manter a mesma energia narrativa anos a fio, livro atrás de livro, sem apresentar momentos ruins e outros excepcionais. Isto sem contar quando analisamos as flutuações no interior de cada obra – sempre acontecem, assim como na vida -, aqueles momentos em que o escritor foi displicente para transmitir uma cena ou impressão, intercalados com momentos realmente inesquecíveis. Se Tolstói padecia disso, quem somos nós para apregoarmos nossa perfeição? Ou então personagens inverossímeis ao lado de outros que parecem respirar de dentro das páginas do livro.

Mesmo não me considerando um fã absoluto de Julian Barnes, percebo – com o necessário espanto – que não só possuo vários livros dele como ainda os adquiro assim que vejo em algum sebo ou livraria. É um procedimento automático, quase instintivo, mas possível de ser qualificado com algo próximo não de fanatismo, mas de respeito e de apreciação. Posso declarar, assim, que gosto de Barnes por causa da sua mistura de história e de ficção, pelas suas reflexões sobre a perenidade da arte, pelo seu estranho senso de humor, pela estrutura das suas obras. Não é o meu escritor favorito, mas é um autor que gosto de ler.

Foi nesse espírito acolhedor que li “O ruído do tempo”, publicado no Brasil em 2017. Ou melhor, terminei de ler: comecei em 2017, mas só consegui encerrar em 2019 (a vida de leitor, repleta de percalços e de livros que entram no caminho exigindo leituras rápidas, não é fácil). Não é o melhor livro que li de Barnes: os contos de “História do mundo em 10 capítulos e meio” e “Arthur & George” são os meus favoritos. Ainda assim, a leitura me atraiu graças ao vigor com que a história foi contada.

Em “O ruído do tempo”, Julian Barnes conta a história do compositor russo Dmitri Shostakovich, que foi perseguido de várias formas – e cerceado – pelo regime soviético, desde a violência implícita e sempre onipresente de Stálin até os mecanismos sutis de dominação de Kruschév. O livro se concentra em três momentos decisivos da vida de Shostakovich (“No hall”, No avião” e “No carro”), e em torno deles é urdida uma série de pensamentos sobre os momentos que os antecederam e os imediatamente posteriores. Dentro de cada capítulo, inúmeras pequenas divisões contam histórias, apresentam reflexões, relembram fatos do passado e permitem que Shostakovich se mostre por inteiro. No aspecto de construção de personagem, é um livro impressionante: Shostakovich emerge diante do leitor, mostrando suas contradições, seus pequenos atos de valentia, suas vaidades e suas covardias. No entanto, o estado de espírito que caracterizaria o compositor é o mais humano de todos: a indecisão. Ele não sabe se está fazendo o certo ou o errado, se manipula ou é manipulado, e nem ao menos se está sendo feliz ou se a felicidade é um simulacro que engendrou para si mesmo. É um pessimista rematado que compõe músicas, e sempre espera o pior para elas e para si, mas, mesmo assim, luta pelo seu direito de fazê-las. Não foi um contestador nato e nem um revolucionário, mas um artista que desejava fazer arte. Shostakovich é um produto do tempo em que viveu, uma tora jogada em um oceano tempestuoso, uma folha manobrada pelos ventos da História. A sua tensão é transmitida ao leitor, assim como a crescente capacidade de se anular e sempre procurar a sobrevivência, ainda que a custo da integridade dos seus valores pessoais.

É um livro que apresenta inúmeras reflexões, mas as principais são sobre o poder e a permanência da arte. Não se pode esquecer que, na época em que é produzida, o artista não sabe se a sua arte sobreviverá ao julgamento dos tempos ou não. Ele só tem a esperança de que isto acontecerá. E, quando submetido a condições de pressão política e econômica, tendo que pensar não somente na sua arte, mas nos críticos, na família e na sua sobrevivência, é muito difícil manter os ideais artísticos sem capitular. A arte é feita para tempos de guerra, mas também é feita por homens e mulheres falhos, frágeis e inseguros, quando não vaidosos e insensíveis.

Shostakovich atravessou tempos muito perigosos e violentos da União Soviética guiado pelo desejo de apresentar a sua arte ao mundo. Para escapar do controle político e para não enlouquecer, usou uma estratégia muito interessante: a ironia. Dentro da própria obra, ele colocava os mecanismos que não só a questionavam como ainda pretendiam criticar o Poder. No entanto, quase no final da sua vida, Shostakovich pergunta-se se usou a tática certa, pois, quando uma ironia colocada no interior de uma obra não é compreendida, então ela aparenta ser uma propaganda daquilo que se pretendia atacar. Confesso que dei risada dessa conclusão, mas é um risco inerente a qualquer pessoa que se dedica à arte da ironia: não ser compreendido e ter o veneno virando contra si próprio.

Realizando um equívoco atrás de outro, entremeados por alguns acertos e contando ainda com a ajuda da sorte, Shostakovich consegue firmar o seu nome como o principal compositor da União Soviética, mesmo sendo contra o regime político do país. Eis a grande ironia para cima de um rematado irônico: ser o porta-voz daquilo que mais deplora. Apesar disso, o personagem faz uma defesa apaixonada da arte:

“A arte pertence a todos e a ninguém. A arte pertence a todos os tempos e a nenhum tempo. A arte pertence aos que criam e aos que desfrutam. A arte não pertence ao Povo ou ao Partido, assim como nunca pertenceu à aristocracia e aos patronos. A arte é o sussurro da história, ouvido acima do ruído do tempo. A arte não existe em benefício da arte; existe em benefício do povo. Mas qual povo, e quem o define? Sempre pensara que a própria arte era antiaristocrática. Compunha, como os difamadores afirmavam, para uma elite burguesa cosmopolita? Não. Escrevia, como os difamadores desejavam, para o mineiro de Donbass, cansado de trabalhar e precisando de um estímulo? Não. Compunha músicas para todos e para ninguém. Compunha para aqueles que melhor apreciavam a música quem escrevia, independentemente de origem social. Compunha para os ouvidos que conseguiam ouvir. E sabia, portanto, que todas as definições verdadeiras de arte são circulares, e todas as definições falsas dão à arte uma função específica.”

Essas reflexões sobre arte estão em meio a uma série de histórias deliciosas sobre a vida e sobre os relacionamentos de Shostakovich, tanto os pessoais quanto os profissionais e – em especial – as suas conversas repletas de dubiedades com o Poder. Como fez em outros livros, Julian Barnes pega uma personalidade histórica e lhe concede substância e humanidade. Ao mesmo tempo em que mostra a importância dos seres humanos no contexto de um período histórico, ele aproveita para trazer à tona questões atemporais e que se perpetuam em outras épocas e tempos. No caso de “O ruído do tempo”, o ruído que acaba sendo deixado pelo livro são as suas reflexões sobre a música, sobre a força e a necessidade da arte e sobre a importância de seguir adiante, sempre lutando, perdendo algumas vezes, ganhando outras, mas não esmorecer no propósito duro de trazer arte para um mundo que tanto a admira quanto a teme, que tanto deseja consumi-la para se engrandecer quanto sonha em novas formas de destruí-la.

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