Arquivo do mês: julho 2012

Não invadam o meu hexágono

Se eu pudesse sintetizar uma lição de vida que sigo, seria esta: não entrem no meu hexágono.

Para os neófitos que nunca jogaram RPG – Role Playing Games, hexágono é o espaço corporal e mental que um personagem ocupa no espaço do jogo. Com base nesta medida, todos os detalhes do jogo são medidos em hexágonos: alcance de armas, limite das magias, dados de movimento, estratégias. Por muitos anos, o meu grupo de RPG – não os nominarei, mas eles sabem quem são, até por que mantemos o sonho de jogar novamente – considerou o hexágono a mais perfeita forma da Geometria. Aberto para os seis lados possíveis, simples, facilmente imaginável, a medida exata da ocupação de um espaço por qualquer pessoa.

A única maneira de invadir o hexágono ocupado por outra pessoa ou objeto seria através de um empurrão ou um ato de violência. Duas pessoas só ocupariam o mesmo hexágono em uma conjunção física – sim, exatamente o que vocês estão imaginando. Neste momento, a autorização para compartilhar um hexágono seria o mais íntimo ato que dois seres humanos podem dividir. Aliás, seria uma interessante forma de convidar alguém para um ato sexual: “vamos dividir um hexágono?”.

Eu mantenho esta regra de ouro em boa parte das minhas relações. Não permito que muitas pessoas cheguem próximas do meu hexágono. Evito situações em que esbarrões ou empurrões possam acontecer, evito ao máximo que pessoas se aproximem perigosamente dos limites do hexágono, pois, se isto acontecer, terei que sustentar o impacto – e um de nós cairá. Não autorizo que os hexágonos representados por outras pessoas ou outros problemas invadam a minha esfera mais do que o normalmente permissível. Mantenho distâncias regulamentares e confortáveis de quase todas as pessoas, conhecidas ou desconhecidas. Talvez este seja o segredo da calma e do bom viver: saber respeitar os limites do seu hexágono e dos alheios.

Nos tempos atuais, o que mais vejo são pessoas invadindo outros hexágonos. Vejo esbarrões, empurrões, o velho e bom “escudaço” (deixo para a imaginação preencher a imagem de uma invasão de hexágono com um escudo), pessoas deslocando-se de forma caótica como se estivessem em uma mesa de bilhar. E as invasões continuam, enquanto pessoas ficam mais curiosas com as vidas alheias do que com as suas, vivendo os dramas dos outros como se fossem atores principais de algo que não lhes diz respeito, opinando sobre fatos que ocorrem nos outros hexágonos.

Neste momento, eu me recordo do imperador romano Marco Aurélio, estoico de carteirinha, e a sábia afirmativa que fez na sua obra “Meditações”:

Sê como o promontório contra o qual as ondas quebram e voltam a quebrar; mantém-se firme até que, por fim, as águas tumultuosas à sua volta se rendem e vão descansar.

Dentro do meu hexágono, eu devo ser inquebrável, indevassável. As ondas devem bater e quebrar, pois elas passarão, e eu continuarei. Nos limites do meu espaço, nada pode tocar, nada pode constranger, nada pode ferir. Meu hexágono é sagrado, o templo no qual tenho salvaguarda e guarida. Manter a integridade do hexágono, este é o grande desafio dos dias atuais; impedir que outras pessoas tentem entrar onde não são convocadas. Não é mesmo, Marco Aurélio?

Um homem pode estar junto de uma límpida fonte de água doce e cumulá-la de palavras injuriosas; mas ela continua a jorrar água fresca e sã; ele pode mesmo conspurcá-la com imundícies e porcarias, mas ela dissolve-as logo e lava-as rapidamente, ficando sem mácula. Como é que havemos de ser, nós próprios, senhores de uma tal fonte perene? Salvaguardando o direito de sermos senhores de nós mesmos em todas as horas do dia.

Manter o hexágono limpo e intacto é uma luta constante. Existem muitas maneiras insidiosas de tentar invadi-lo. A vigilância deve ser perene. Não digo que, às vezes, não falho. Às vezes, as pessoas entram, mesmo sem autorização, e acabam me derrubando. Mas o segredo é se reerguer, desenhar o novo hexágono e levantar todas as barreiras novamente. Os romanos construíam fortalezas pela noite e as derrubavam pela manhã; o mesmo ocorre com os hexágonos. Ser derrubado e retirado do prumo só faz com que um novo e mais forte hexágono seja criado. A arte da esquiva, do bloqueio e do aparar (as três defesas possíveis em um RPG) deve ser exercida e treinada ao máximo. Da mesma forma, a atenção para não incindir em velhos erros, em velhas estratégias de cerco que já tiveram sucesso. E retorno ao Marco Aurélio:

A arte de viver é mais como uma luta do que como uma dança, na medida em que também exige uma postura de firmeza e de alerta contra qualquer investida inesperada.

Serei um pouco radical, mas gostaria de ver uma religião considerando o Hexágono como a única divindade, ensinando as pessoas a se manterem nos limites do seu espaço corporal e mental, pensando em como evoluir por meio da auto-observação ao invés da observação alheia. Temos uma tendência a buscar respostas nos hexágonos alheios, mas, como sempre, a solução está dentro do parco limite das seis linhas por onde nos deslocamos e onde passaremos boa parte das nossas vidas.

Marco Aurélio.

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Livro: “A cor que caiu do espaço”, de H. P. Lovecraft

Reler Lovecraft é reencontrar as paragens sombrias de Arkham, as árvores distorcidas que se assemelham a gritos de dor vegetal,  o olor fétido de morte que se espraia pelos campos, os sussurros dos personagens ambíguos e incrédulos que logo terão que se deparar com o horror no seu estágio mais puro.

Reler Lovecraft é enlouquecer mais um pouco.

Recentemente, eu reli um dos contos mais famosos de Lovecraft, “A cor que caiu do espaço”, lançado de forma autônoma pela editora Hedra. No volume, além do conto, estão três ensaios: “A confissão de um cético”, “Notas sobre uma não entidade” e “Notas sobre ficção interplanetária”. No segundo ensaio, que ocorre de ser a autobiografia do Lovecraft, ele confessa que “A cor que caiu do espaço” é um dos seus contos favoritos, ao lado de “A música de Erich Zann”. Relendo o conto, posso entender perfeitamente o motivo desta escolha.

Todos os requisitos para uma boa história de terror se fazem presentes. Em primeiro lugar, o narrador é um homem de formação científica e, por isto mesmo, um rematado cético. Ele é quem conta a história que escutou de outro habitante dos campos que cercam Arkham, o qual, por sua vez, relata as desventuras de uma família – os Gardner. Esta superposição de narradores visa justamente conceder verossimilhança para a trama fantástica que será contada (afinal, um narrador cético está prestes a desvelar algo maravilhoso diante dos olhos incrédulos do leitor e convencê-lo de que tais fatos sejam verdadeiros, mas sempre deixando a dúvida pairando no ar). Ao caminhar pelos campos onde será instalada uma represa, o engenheiro se deparar com um círculo de terra cinzenta, esfarelada, onde nada cresce e até a Natureza parece se afastar do local com medo. Ao tentar entender por que se sentiu tão inquieto, o narrador investiga a história da antiga família que morava no local e chega até uma testemunha ocular – Ammi Pierce – que lhe conta a história.

Em certa noite do passado, um meteoro caiu nas terras de Nahum Gardner. Este objeto vindo do espaço possuía estranhas propriedades cromáticas, e é um grande mérito do autor tentar explicar cores que os olhos humanos jamais viram. Os cientistas investigaram o meteoro, em especial o fato dele latejar e parecer sangrar. No entanto, logo o meteoro desapareceu, atingido por uma ampla sucessão de raios em uma tempestade. A partir deste momento, inicia o drama da família Gardner, pois o ser vindo do passado consume matéria orgânica e não tardará a consumir os espíritos e corpos dos habitantes do local.

Neste conto, Lovecraft abandonou a temática do horror e abordou a ficção científica, em especial o estranhamento causado pela chegada de elementos alienígenas que não seguem as leis naturais do nosso planeta. No entanto, se a história pudesse ser sintetizada desta forma, seria uma grande injustiça, pois Lovecraft conduz os personagens pelo drama com extrema perícia. Ele constrói a cena de tal forma que a história se torna visível, em um crescendo de sensações que vão do estranhamento até o mais absoluto medo. Contribui para este efeito sufocante o fato da criatura que se esconde na propriedade dos Gardner jamais ser vista, somente as consequências dos seus atos geram repercussões; os poucos momentos em que a criatura surge são na forma de visões distantes ou no canto do olho do protagonista e, por isto mesmo, não são confiáveis, são como sombras em um espelho. Quando o narrador, depois do ser desconhecido lançar-se de volta ao espaço em uma explosão de luzes, vira e vê uma silhueta furtiva ocultando-se no poço é impossível evitar o arrepio.

Em muitos aspectos, “A cor que caiu do espaço” é um conto exemplar. No entanto, uma característica bem determinada da época em que Lovecraft escreveu aparece no livro e, lendo com olhos pós-modernos, torna-se um pouco cansativa. São as falas literalmente transcritas, imitando o linguajar caipira do personagem, repleta de erros de grafia. Apesar da intenção ser o contrário, as falas acabam soando falsas e destoadas da verossimilhança. Ainda bem que são poucos os momentos em que tal fato ocorre, o que não gera grandes problemas para o desenvolvimento da leitura. Recordo que, em outros contos de Lovecraft nos quais esta opção narrativa aparece em mais diálogos, a leitura se tornava muito mais maçante. Ou seja, até na parte chata o conto se salvou.

Gosto muito da capacidade que o Lovecraft tem de “esticar” a frase e a ideia, levando-a até o seu limite sem parecer que esteja “enrolando” o leitor. Como possui um excelente domínio da palavra e controla a história com mão de ferro, Lovecraft faz o que deseja com as frases, alongando-as para ampliar o suspense. Alguns podem achar isto chato, mas eu considero fascinante, até por que as ideias são sempre novas e nunca se repetem. É preciso habilidade para fazer isto.

Com relação aos três ensaios, eles são bem interessantes. “A confissão de um cético” e “Notas sobre uma não entidade” são praticamente ensaios biográficos. Em ambos, Lovecraft identifica como sua maior característica o ceticismo, assim como destaca que o seu afastamento da religião ocorreu por não conter todas as respostas e pretender imposições ao invés de discussões. Ele próprio destaca que, ao contrário do que muita gente poderia pensar sobre as suas histórias de horror, a sua vida é muito simples, e ele não apresenta nenhuma circunstância psicológica adversa, posto que amava e era amado pelos seus pais, sempre teve amigos e uma vida social intensa e não gostava muito de viajar. Com isto, Lovecraft investe diretamente contra a teoria (descabida) de que um escritor que lida com o sobrenatural e o terror possui uma vida psicológica problemática. Destaque especial para a narrativa do que Lovecraft fazia durante a sua infância, os passeios que dava pela vizinhança em busca de elementos estranhos, mágicos, assustadores. Vista pelos olhos de Lovecraft, Providence adquire novas possibilidades repletas de mistérios. Vou transcrever um trecho do ensaio:

Nas ruas pacatas da minha cidade natal, onde portas coloniais dotadas de claraboias, janelas com pequenas vidraças e graciosos coruchéus georgianos ainda mantinham vivo o glamour do século XVIII, por vezes eu sentia uma magia difícil de explicar. O pôr do sol acima dos telhados da cidade, visto a partir de locais privilegiados na grande colina, instilava-me emoções pungentes.

Esta descrição do autor americano confirma uma das minhas teorias principais sobre o ato de escrever: antes de mais nada, escrever é observar com outros olhos a mesma realidade. A escrita está na imaginação, a qual se sobrepõe sobre o real. No caso de Lovecraft, a sua verve criativa se expressava pelo extremo do horror, a ebulição negra que se escondia por trás de uma aparência de normalidade.

O ensaio “Notas sobre ficção interplanetária” é uma “Poética” para o gênero da ficção científica. Lovecraft se insurge contra as pulp fictions, que insistiam em flagrar repetições de dramas humanos em outros planetas, e discorre sobre o fato de que uma ficção científica só pode ter este nome se levarmos em consideração que outros planetas possuem outras formas de vida e outros sistemas de geografia, política e economia. São considerações muito relevantes, ainda mais por que Lovecraft insiste em frisar que uma história de cunho fantástico, para ser verossímil, precisa ser muito forte na descrição das paisagens e nos fenômenos narrados, uma vez que o leitor precisa vivenciar o espanto dos personagens como se fosse seu. A ênfase do conto sempre deve ser a anormalidade central em si, jamais os personagens e seus dramas comezinhos, os quais serão inseridos no contexto do anormal. Novamente cito Lovecraft, pois a lição é de extrema importância:

Tudo o que um conto maravilhoso almeja é pintar, de maneira séria, o retrato convincente de um determinado sentimento humano. No momento em que se tenta fazer qualquer outra coisa, o conto torna-se barato, pueril e irrelevante. Logo, um autor fantástico deve perceber que a ênfase diz respeito à insinuação sutil – a pistas e pinceladas discretas relativas a detalhes associativos que expressem diferentes tonalidades de sentimento e componham a vaga ilusão da estranha realidade do elemento irreal – e não a listas inócuas de acontecimentos fantásticos sem nenhuma substância ou relevância senão como nuvens de cor e simbolismo.

O ensaio representa um bom encerramento para o livro. Primeiro, Lovecraft dá a lição, revelando um conto perfeito; no final, explica como a magia foi feita. Pode-se pensar que esta explicação posterior estragaria o conto, revelando uma fórmula encontrada pelo escritor para iludir os leitores, mas a marca da habilidade de um escritor é quando revela as engrenagens do próprio texto e, ainda assim, a história se sustenta sozinha sem a sua intervenção. Da mesma forma que ocorre em “A filosofia da composição”, de Edgar Alan Poe, Lovecraft revela a sua Poética insana no momento em que se debruça sobre os próprios medos e os torna universais. Revelar os segredos que guiam a sua escrita é acrescentar somente um pouco de técnica nas suas visões do horror que caminha entre nós, entremeado no cotidiano, espiando de cada buraco de esgoto.

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Analisando estatísticas – parte 3

Uau, desta vez foi rápido. Levou um mês e dois dias para completar mais 1000 acessos. No total, o blog “O Homem Despedaçado” tem incríveis TRÊS MIL acessos. Quando iniciei, pensava que, se tivesse 500 visualizações, seria até demais. Minha expectativa foi seis vezes superada. Meus agradecimentos a todos os leitores, involuntários ou não.

Duvido muito que a minha família tenha ingressado 3000 vezes no blog para aumentar a minha moral. Ainda assim, credito a eles 1/3 deste número de acessos. Isto quer dizer que 2000 outras pessoas acessaram o blog. Isto é incrível. Ou, como eu pensei hoje de manhã quando vi a marca virando para os três mil acessos (não canso de dizer este número, mas perdoem a minha surpresa): vocês estão loucos, leitores. O que estão fazendo aqui, lendo sobre o estoicismo, sobre as minhas caminhadas em Teutônia, sobre as vigas da biblioteca do Montaigne, sobre a morte do Pacúvio, sobre o livro do Juarez Guedes Cruz? Vocês estão na contramão do que eu ouço todo mundo falando, de que a Humanidade está burra, que as pessoas só entram na internet para ler fofocas ou assistir vídeos inócuos. Vocês me provaram que o mundo está errado. Ainda há esperança.

Gostaria de dizer que estes 3000 acessos (de novo) se devem às imagens que eu coloco nas postagens. Nem isto: até hoje, somente OITO acessos se deram em razão das imagens. Sim, leitores, vocês entram para ler. Estão na contramão dos tempos. Por outro lado, eu escolho muito mal as imagens que coloco, pois não geram interesse algum. Prometo corrigir logo este problema e colocar imagens trepidantes nas minhas postagens, ainda que me desanime um pouco que as pessoas entrem para ver figurinhas ao invés de ler os textos que dão sentido ao blog. Refletirei sobre o assunto.

A cada 1000 acessos, eu abro a caixa de Pandora das estatísticas e revelo um pouco dos bastidores para vocês, leitores. Vamos a elas:

– Anaxímenes e Anaxágoras despencaram no ranking de acessos. Pelo visto, a moda de filósofos gregos passou. No lugar deles, despontou um cavalo azarão correndo com energia insuspeitada: George R. R. Martin. O autor de “A Guerra dos Tronos” veio com tudo nestes últimos 1000 acessos. Graças a ele, 322 pessoas entraram no blog. Devem ter lido a minha crítica ao livro, que é bem contrária ao incensamento feito pela mídia, e devem ter me odiado. Admito que assisti esta arrancada do George R. R. Martin, atropelando os filósofos gregos, com uma certa angústia. O mesmo mundo que me deu esperança ao adorar filósofos pré-socráticos também a retirou rapidinho. Bem vindo à realidade, Gustavo.

– Neste mês, nada me espantou tanto quanto 03 acessos. Eles chegaram ao meu blog através da expressão “o homem despedaçado”. É o título do meu livro! E o nome do blog. Sei lá o motivo, mas isto me emocionou. (e me fez pensar que eu deveria ter colocado um link no blog remetendo à compra do meu próprio livro. Se eu soubesse como se faz, garanto que já teria feito).

– As duas postagens sobre o Juarez Guedes Cruz também foram muito lidas. Nada menos do que 128 acessos se devem a elas. Quatro pessoas inclusive mandaram emails pessoais querendo saber como adquirir o livro. Quando a leitura de uma resenha desperta a curiosidade de um eventual leitor, quer dizer que ela foi bem realizada.

– Pela primeira vez fui xingado por um desconhecido, na postagem sobre o filme “Drive”. Ou, pelo menos, acho que ele me xingou (entendi o “gosta” como “bosta”, parece estar mais próximo da intenção do leitor). Até que demorou muito para que eu fosse xingado.

– A postagem sobre o Rocky Balboa foi outro recorde de visualizações. O Rocky tem mais fãs do que se imagina. Escrever sobre ele foi revelar muitos fãs que se escondiam, com medo de serem ridicularizados. Pois bem, 218 acessos querem dizer que os fãs do Rocky não estão sozinhos no mundo. E assumi algumas “encomendas” de textos também: na próxima semana, a minha versão do Rambo virá à tona. Em seguida, verei o que posso dizer que ainda não foi dito sobre o Darth Vader e farei um ser imóvel como o Jabba the Hut ganhar uma agitada vida interior. Garanto que será divertido.

– A minha reclamação sobre o pouco número de seguidores do blog, realizada na última análise de estatísticas, fez ele duplicar. Agora, tenho 09 honrados seguidores. Ou, melhor dizendo, seguidoras. Somente mulheres se cadastraram para seguir o meu blog, o que demonstra que elas são o maior público leitor da atualidade (ou os homens estão mais preocupados em ficar fazendo outras coisas do que lerem, o que é lastimável). Obrigado pela confiança, gurias.

– Dois blogues acrescentaram o meu blog na sua lista de referências. Para minha extrema vergonha, eu adoraria acrescentar os blogues do pessoal na minha lista de referências, a qual, se vocês notaram, inexiste. Isto porque eu não sei como fazer. Mas prometo consertar esta lamentável omissão, até por que são dois blogues ótimos, que merecem ser visitados (pelo menos eu o faço com certa frequência). Um é o blog mantido pela querida Betina Mariante Cardoso, o Casa Editorial Luminara (http://www.editorialluminara.blogspot.com.br/). A Betina sempre alimenta o blog com postagens muito legais sobre as oficinas e promoções culturais feitas pela Luminara. Aproveitem que estão lá e olhem o outro blog dela, o Serendipity in Cucina (http://serendipityincucina.blogspot.com.br/), onde a Betina fala da cozinha, das maravilhas que ela faz para degustar e da vida. O outro blog é o do meu colega de colégio e amigo Anderson Cerva, o Plena Poesia (http://www.plenapoesia.blogspot.com), que está repleto de poesias de excelente qualidade,  ideais para ler em um final do dia e dar uma descansada das atribulações modernas. Eu não sabia que o Anderson era um poeta de mão cheia e sensibilidade incrível, e muito me honra que tenha tido a companhia dele nos períodos aúreos da nossa juventude (falando assim, parece que tenho 100 anos, mas foi a pouco tempo atrás). Diga-me com quem andas e te direi quem és: caminhando com blogues deste naipe, a gente até se sente importante.

– Como já é tradicional, vou listar os termos de busca mais estranhos que chegaram ao blog. Da mesma forma que das outras vezes, apareceu de tudo: “rocky balboa foi um personagem real?” (sabe como é, a interpretação vibrante do Stallone nos deixa em dúvida se não existiu o Garanhão Italiano, se ele não foi até a Rússia lutar, se não casou com a Adrian, se não lutou pelas ruas para defender o filho e se não voltou recentemente aos ringues), “o silencio está cantando” (não sei o que quer dizer isto, mas gostaria de saber), “existe algum lugar sem regras” (algum anarquista está procurando um pouso seguro), “porque as pessoas sao estranhas” (esta é a pergunta de um milhão de dólares, meu amigo, me avisa se encontrares a resposta) e, por fim, a minha busca diabólica do mês (notaram que sempre tem uma?), “imagem de corpos sendo despedaçado por demônios” (acredito que não deixam entrar com câmeras fotográficas no Inferno. E como é que meu blog atrai este tipo de busca? O que eu escrevi que pode fazer esta associação? Senhor Google, ainda espero respostas).

Com 3000 acessos, o negócio ficou sério. O exército está ficando cada vez maior. E cresce muito rápido também. A felicidade é grande por saber que estou sendo lido e, apesar do silêncio das manifestações (pouquíssimos comentários até agora), atribuo mais à timidez do que indiferença. Até por que algumas pessoas falaram comigo no Facebook e outras mandaram e-mails comentando temas do blog. Então, meu pequeno e fiel bando de leitores loucos, vamos seguir lendo e vamos seguir nos divertindo. Há tempos não encerro uma postagem com um clichezão, então lá vai: o show tem que continuar.

Agora, rumo aos quatro mil.

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Preparando o último pensamento

Uma das mais antigas dúvidas dos homens é saber o momento da morte. É uma curiosidade inútil. Quando a hora chegar, morreremos de qualquer jeito.

Mais importante seria refletir sobre o último pensamento que teremos antes de morrer. O que passará pela nossa cabeça antes do desligamento das funções vitais? Teremos tempo de saber que a morte é inevitável? Recordo que, na Revolução Francesa, era costume do carrasco decapitar as pessoas e pegar a cabeça arrancada, virando-a para o corpo ensanguentado. A consciência sobrevive alguns momentos mesmo com a cabeça fora do corpo (13 longos segundos, de acordo com o bendito Google). Sabe Deus como as pessoas conheciam este detalhe na Revolução Francesa (não imagino que alguém tivesse perguntado para uma cabeça o que ela estava vendo, assim como não imagino a cabeça sendo replantada e a pessoa respondendo perguntas dos curiosos). No entanto, era uma grande crueldade arrancar a cabeça de alguém e depois exibi-la para o próprio corpo do qual ela foi alijada. Mais uma para o rol de bestialidades humanas.

Teremos tempo para pensar, antes da dor assumir o leme ou antes do corpo desligar em um gesto piedoso? Os filmes tratam de um momento em que o tempo pára e a pessoa vê a vida toda passar diante dos seus olhos, como se um balanço geral da existência fosse realizado; desde o Livro da Morte dos egípcios se pensa nisto. Porém, não temos maneira de saber se é real. Acho mais provável que, da mesma forma com que a vida foi ligada, a morte desliga os plugues do ser. Por este motivo, acho mais relevante pensar no segundo imediatamente anterior, no último pensamento antes do fim.

Os estoicos afirmam que, quando repassamos pela mente as imagens da própria morte, ela nunca nos pegará de surpresa. Por estarmos bem preparados, teríamos liberdade para viver sem medo. Pensando fixamente na morte, estaríamos treinando para o instante em que a verdadeira vai chegar e transformar o treino em jogo. Ainda para os estoicos, tão importante quanto a forma como alguém vive é a maneira com que esta pessoa morre.

Por muito tempo, eu pensei em qual seria a frase ideal para encerrar a minha vida, aquela que colocaria um ponto final adequado. Tive que criar alguns critérios. Ela precisaria ser curta – não sei quanto tempo terei e qual o grau de consciência que serei capaz de manter. Tem que ser marcante – frases insossas, do tipo “o ônibus vai parar” ou “esqueci de telefonar para fulano!”, não servem. Precisaria ser definitiva. Não gosto muito da ideia de um plágio intelectual, do estilo “Mais luz!” (Goethe), “todo o meu reino por mais um minuto de vida” (Rainha Elizabeth I), “rasga os meus versos, crê na eternidade” (Bocage). Este estilo de frase soaria ensaiado e falso. Seria bonito para os outros lerem, mas não me definiria.

Depois de várias eliminatórias e indagações, somente uma frase se manteve na minha cabeça como a ideal. É inacreditável que, depois de tantos anos de leitura, a única sentença que eu gostaria de ser o meu último pensamento tenha sido escrita pelo roteirista e desenhista de quadrinhos Frank Miller. É a frase que eu mais lembro e, em situações onde eu imagino que a morte esteja próxima, ela salta na minha recordação com força.

A frase está em “Batman – O Cavaleiro das Trevas”. Logo na primeira página. Bruce Wayne está dirigindo um carro de Fórmula Um em chamas. Ele está prestes a atravessar a linha de chegada e o carro queima cada vez mais intensamente. Olha o fim da corrida (da vida?) e pensa: “Seria uma boa morte… mas não o bastante.”

Não é uma frase especial. Nem tão inesquecível assim. Posso citar outras muito mais famosas e brilhantes . No entanto, esta sentença foi aquela que a minha recordação fixou para ser a última. Não fui eu quem a escolhi; acredito que ela tenha me escolhido. No meio do oceano das frases soltas que trafegam entre livros, esta aderiu na minha cabeça e cresceu como um cancro, firmando os seus dentes na seiva da alma.

Devo admitir que é uma sensação bem estranha: saber que já tenho o último pensamento. Seria algo lúgubre, mas os estoicos afirmam que só quem se prepara para a morte todos os dias pode usufruir dos prazeres de estar vivo. E o pior é que funciona – atravessando as ruas sempre perigosas de Porto Alegre, passando por grupos cobiçosos de bandidinhos drogados, vendo carros tão próximos de me acertarem em velocidade insana, tudo o que acorre na minha cabeça é “Seria uma boa morte…”. Estas reticências são realmente mágicas, são o espaço ideal de confirmação ou não da frase que lhes antecede. Passado o momento de perigo, com o consequente alívio, o complemento surge: “… mas não o bastante”.  O dia em que eu não concluir a frase será o meu último na Terra. O dia em que a boa morte me encontrou.

Portanto, uma coisa posso garantir: não sei o que vai acontecer na minha vida nos próximos anos. Tudo o que sei é qual será o último pensamento. Sabendo qual será a luz que guiará o abandonar final das minhas funções vitais, agora posso me concentrar em viver o melhor que posso para estar à altura da frase.

“A Vida e a Morte”, por Gustav Klimt. Gosto da divisão nítida do quadro e o espaço discreto que separa o morto do lamento dos vivos.

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Livro: “Antes que os espelhos se tornem opacos”, de Juarez Guedes Cruz

Uma das mais duras lições que um leitor dos livros do Juarez Guedes Cruz aprende é que não existe nada por acaso. Nem mesmo o marcador de páginas utilizado escapa impune da sensação de fazer parte de uma trama cósmica que envolve literatura, sentimentos e fatos ordinários vistos com extremo lirismo. Por este motivo, a leitura precisa ser atenta. Vive-se com a constante sensação de que basta uma piscadela ou uma leve desatenção para que o elemento principal da história se perca. O novo livro, “Antes que os espelhos se tornem opacos”, lançado pela Dublinense, leva esta impressão ao máximo. Assim que encerrei a última frase, minha primeira vontade foi reiniciá-lo e tentar rastrear todos os detalhes que escaparam da primeira leitura (e acredito que tenham sido vários). No entanto, não realizei este movimento inexorável de me tornar o leitor infatigável e eterno de um único livro, pois sei que uma das intenções do autor é justamente esta: deixar o seu livro tão instável e trêmulo que cada leitura nova o encontrará como se tivesse acabado de desabrochar de dentro do computador.

Em recente discussão em um grupo de apreciadores da boa literatura, conversamos sobre qual o ramo ou o estilo literário em que o Juarez se encaixaria. Eu defendi a tese de que Juarez Guedes Cruz está abrindo um novo estilo, que seria a literatura intertextual. Toda literatura é intertextual, mas os autores se esforçam para esconder as suas influências, como se fosse vergonhoso admiti-las. Na minha opinião, o que diferencia o Juarez de outros escritores é justamente o fato de que ele aceita ser uma criatura intertextual, uma colcha de retalhos formada por múltiplas vozes narrativas e, não só isso, ele gosta de se esconder ou se revelar por trás desta névoa discursiva. A chegada do terceiro livro forneceu novos argumentos para defender o meu ponto de vista.

Antes de mais nada, algumas palavras sobre intertextualidade. Existem pessoas muito sábias que abordaram este conceito. Existem livros inteiros sobre o assunto. Este é um dos conceitos basilares da própria Literatura Comparada, algo que, admito, dá um certo medo na hora de tratar assunto tão importante. O que posso dizer – e não será nenhuma novidade ou revelação bombástica, e sim uma breve explanação para quem não sabe os rudimentos da ideia – é que a intertextualidade é a capacidade de que os textos possuem de dialogar com outros textos, revelando as sombras de autores (ou “influências”, para usar um termo carregado de sentidos literários). Seria um processo digestivo: os autores lêem outras obras e, no momento de escrever a sua obra, de forma consciente ou não, acabam transferindo estes influxos para o próprio trabalho. Claro que estou minimizando o conceito e que existem dezenas de outros assuntos ligados à intertextualidade, mas é um bom início.

Muitos escritores lidam com a intertextualidade. Posso citar os nomes de dois escritores atuais que gosto muito e que também utilizam jogos intertextuais, Enrique Vila-Matas e Antonio Xerxenesky. No entanto, o que diferencia o Juarez Guedes Cruz é que ele convive de forma pacífica com as suas influências. Era de se esperar que, em um movimento freudiano (sim, hoje estou vivendo perigosamente; minha casa não tardará a ser cercada por teóricos da Literatura Comparada e psicanalistas com tochas e forcados), ele tentasse “matar o pai”, acabar com a sombra nefasta que se prorroga na sua obra. Contudo, o autor não dá importância para as suas fontes de referência. Inclusive presta homenagens aos artistas que admira a cada curva e esquina do livro. Um leitor desavisado poderia imaginar que os autores e obras mencionados por Juarez são as suas únicas influências. No entanto, me interessam mais as sombras que ele escondeu atrás das que foram escancaradamente reveladas, pois, por trás da urdidura de ficcionistas e ficções que sustenta os contos de “Antes que os espelhos se tornem opacos”, existe uma outra rede subterrânea de autores, cautelosamente espalhados e que costumam aparecer através de ecos de frases já lidas ou situações repetidas.

Aliás, “repetição” é uma das palavras chaves do livro, articulada de várias formas. Faz parte da natureza humana uma inevitável tendência de repetição dos dramas: em “Projeto Parmênides”, o narrador clona a mulher amada para burlar a morte, mas se esquece que nem mesmo um clone pode reprisar a personalidade de outra pessoa, ou aquele brilho singular de olhos. “Terrenos baldios” possui a repetição de um mesmo gesto em três tempos diferentes e com três motivações distintas; até mesmo os gestos repetidos podem variar no seu conteúdo (por sinal, a referência a “O Aleph” de Borges na localização do ponto da escada em que o momento mágico ocorre é um ótimo exemplo de homenagem quase despretensiosa plantada no texto). “Conto para incomodar Heráclito” (um dos meus favoritos) brinca justamente com a impossibilidade de repetição; é difícil lê-lo sem recordar a tarefa impossível a que se propõe Pierre Menard, pois a repetição de um ato sempre será um ato novo, por mais idêntico que se pareça com aquele que lhe originou.

Outra palavra chave para decifrar o livro seria “identidade”. Um dos problemas de enfrentar a intertextualidade é sentir a própria voz dissipar no meio das vozes alheias. O escritor é uma voz ficcional acorrentada à necessidade de gerar verossimilhança ou é um ser dotado de vontade própria e carnalidade? O autor enfrenta esta questão e, como não poderia deixar de ser, não consegue respondê-la. Deixando a prudência de lado, o próprio Juarez Guedes Cruz invade os contos. Em “Estender-se a Limites Incomuns”, a narrativa tranquila de um casal que começa a se conhecer é interrompida pela intervenção quase física do próprio autor, que pergunta se vale a pena contar esta história ou qualquer uma, situando a literatura como uma forma de memória ou, até mesmo, a maneira ideal de atingir a imortalidade de um sentimento. Em “Cento e Vinte”, após contar trechos desordenados de histórias como se estivesse ensaiando um conto, o autor novamente ingressa na história para se angustiar sobre a futilidade da literatura quando comparada à morte de crianças ao redor do mundo. A busca por identidade pode ser sintetizada em uma frase exemplar, presente no conto “O Manifesto Tyler” (outro dos meus favoritos, com a visão destrutiva da realidade que ele propõe), cujas implicações inquietantes percorrem o livro em uma corrente elétrica: “Desfaça-se, então, quando eu disser dez, do estranhíssimo costume e do incômodo compromisso de ser alguém”.

A busca pela identidade acaba levando ao duplo, ao simulacro, ao fantasmagórico. Em “Pietà”, o homem moribundo na cama reprisa a escultura da Pietà, sonhando que está morrendo ao mesmo tempo em que revive um episódio repleto de vida. Sente-se uma forte influência de Cortázar neste conto, assim como o reflexo distante de “Um sonho dentro de um sonho”, do Edgar Alan Poe. Por sua vez, a relação entre dois irmãos em “Um poema e sua ausência” mistura as identidades de ambos, jogando com o tempo da própria narrativa. O conto que melhor exemplifica esta busca pelo duplo ainda é “Antes que os espelhos se tornem opacos”. Pena que a referência inicial à Cortázar tira boa parte do clímax do conto para quem conhecia o original. Acaso tivesse sido omitida a referência, talvez o conto fosse mais eficaz, uma vez que ele se despega facilmente da inspiração e possui vida própria apesar da repetição (ela novamente) das situações. Inclusive “Continuidade dos parques” de Julio Cortázar é muito diferente, pois trata de uma relação entre ficção e realidade, enquanto que, no conto do Juarez Guedes Cruz, a circulariedade proposta aborda a repetição de temas e situações no âmbito de uma família. Lembrou-me mais Horacio Quiroga do que Cortázar, inclusive, por causa do suicídio vinculado à alguma forma genética ainda desconhecida.  O mesmo esvaziamento de sentido ocorreu em “Ruínas”, com uma referência direta ao conto “As ruínas circulares”, de Borges: eu preferiria que não existisse esta menção no início, deixando-a cifrada nas entrelinhas. Até por que, novamente, o conto se despegou – e muito – da história homenageada e virou algo inédito.

Para dar conta das histórias, Juarez também tenta compartimentalizá-las, isolar o sentimento, dissecá-lo. Consequência necessária desta atitude é o surgimento de contos com subdivisões numéricas. Assim, existem doze maneiras de conquistar Virgínia (“Doze Passos para Chegar à Alma de Virgínia”), dez postulados para o caos universal (“O Manifesto Tyler”), cento e vinte crianças que morrem por minuto (“Cento e Vinte”), três possibilidades para a morte de um personagem (“Três versões sobre a morte de Antonino Wallace”) e outros. Seria interessante abordar a necessidade de dividir algo para entendê-lo, se seria um reflexo pós-moderno ou a simples angústia do autor de transcrever um sentimento por meio da palavra sempre insuficiente. No entanto, não é momento para este tipo de indagação, que merece um tratamento distinto e um estudo aprofundado próprio. A obra do Juarez Guedes Cruz desperta tantas inquietudes que a vontade de dialogar com o texto é muito forte.

Um último, porém necessário, parênteses deve ser aberto em relação ao conto “Três versões sobre a morte de Antonino Wallace”. Da mesma forma que “Mil Noites e Uma” (que tratei anteriormente no blog), este pequeno conto é um verdadeiro primor de estilo e técnica, sem contar que também é uma teoria literária. Para ser verossímil, uma experiência precisa ser integralmente vivenciada pelo autor? Questão difícil de responder. A menção a Flaubert, covarde que não levou a proposta de experimentar a morte às últimas consequências (pois então ele morreria e seria incapaz de narrar), é extremamente oportuna e, eu diria, uma espécie de ironia velada ao realismo. O conto fornece três opções para a morte do personagem, mas todas se relacionam com a literatura e a invasão da ficção no real. No fundo, este é o ideal de todo artista, ver a irrealidade tomar espaço dentro do mundo concreto. Tantas implicações possui este conto na sua forma de ver a literatura – e tantas lições os escritores podem retirar da história de Antonino Wallace – que ainda não consegui meditar profundamente sobre o assunto (e já li este conto algumas vezes). Sem contar que possui o melhor início de conto que li nos últimos anos: “Não deixa de ser intrigante que, pouco depois de cumprir cinquenta e oito anos, Antonino Wallace tenha sido vitimado por um infarto do miocárdio enquanto lia o livro L’infarto cardiaco, do doutor Alberto Harte”. Grande e instigante início para uma história que vincula literatura e mistério.

Terminada a leitura de “Antes que os espelhos se tornem opacos”, o saldo final foi extremamente positivo. Não é todo dia que se lê uma obra repleta de considerações filosóficas, temas cotidianos abordados sobre outra ótica e um extremo lirismo. O terceiro livro do Juarez Guedes Cruz atendeu todas as necessidades dos seus leitores. E deixou-os na expectativa do próximo livro, o que é algo egoísta de exigir de alguém que acabou de lançar uma obra nova. Mas este é o problema de ler um livro cheio de respostas: continuamos esperando as perguntas, continuamos tentando entender este terrível incômodo de ser alguém – e o Juarez Guedes Cruz parece saber a resposta.

Em tempo: o marcador de páginas que utilizei durante a leitura tem a propaganda de um livro, “Antropofagia Hoje? Oswald de Andrade em cena”. Ainda estou tentando entender as implicações deste marcador com o livro do Juarez Guedes Cruz – seria um indicativo de que o Juarez é, além de tudo, um canibal de outros escritores? Aí está um assunto interessante para ser refletido.

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É assim que a idade chega

A melhor maneira de se locomover em Porto Alegre, nos dias de chuva, é através de lotação ou de ônibus. Eles não atrasam, não se alongam inventando percursos e os motoristas possuem uma insuspeitada capacidade de se desviar dos outros veículos e seguir em frente. Pena que poucas pessoas saibam deste detalhe, e as ruas continuam entupidas de carros.

Hoje, no momento de descer da lotação, eu disse para o motorista que queria descer na Escadinha. Para quem não sabe (e, pelo visto, é um monte de gente), a Escadinha é o nome que dão para a escada que fica logo abaixo do Viaduto próximo à Santa Casa. Dotade de três degraus, ela chega em algo que foi uma pequena fonte e, atualmente, é só uma maneira de atravancar o caminho.

O motorista era um senhor de idade. Virou-se para mim, os olhos arregalados, e falou que há muito tempo ninguém pedia para ele parar na Escadinha. Aquele nome foi usado por muitos anos, mas, nos tempos atuais, tinha caído em completo desuso. Perguntei para ele como as pessoas comunicavam a sua intenção de descer naquele local, e ele me disse que os passageiros agora grunhiam algo ou apontavam. O local que se chamava Escadinha tinha virado um dedo apontado e um resmungo (não, não vou falar em Linguística novamente, e a teoria de que todas as línguas tendem à simplificação cada vez maior dos signos, em um processo de compressão inexorável, o qual – na minha imaginação – sempre acaba com os homens voltando a serem macacos e escalando árvores com uma sequência de sons e gestos rudimentares).

Não pretendo dizer que esta situação me fez pensar na velhice, pois o assunto passou longe da minha cabeça, até por que a velhice ainda está longe no horizonte (não tanto quanto já esteve, mas a sua sombra ainda é isto – uma sombra). Eu pensei que é assim que a idade deve chegar: com nomes que desaparecem, com lugares não mais recordados, com o esmaecimento de pessoas e situações. O Tempo possui uma incrível capacidade de apagar tudo, mas a memória se mantém. Eu ainda recordo da primeira vez em que alguém disse que era melhor descer na Escadinha e contornar a Santa Casa, e lembro que pensei “Escadinha… aí está um nome lógico”. Recentemente, este lugar já passou para a arqueologia dos lugares não mais mencionados, destinado a se apagar na vertigem do mundo moderno. O motorista ainda recorda, mas, daqui a alguns anos, só eu saberei o que era a Escadinha. Pois a idade chega e, tal como a maré, leva consigo tudo.

Não é tão difícil entender o motivo das pessoas identificarem lugares com nomes de lojas não mais existentes, ou trocar nomes de ruas por nomes de um passado distante. Meu pai ainda chama o ponto de encontro entre a praça da Alfândega e a rua da Ladeira de “Largo dos Medeiros”. Talvez  seja o nome oficial, mas ele me explicou que era naquele local que os Medeiros se encontravam. Tenho uma vaga ideia de quem sejam alguns Medeiros, mas não todos. Além disso, por que eles precisavam se encontrar na rua e não na sua casa? Retornarei uma hora aos livros de História com esta dúvida. Os marcadores de lugares que meu pai passa alternam locais não mais existentes com outros que ainda sobrevivem, fazendo um mapa muito diferente daquele da realidade, uma cidade em que passado e presente se misturam de tal forma que os limites das ruas se tornam indefiníveis.

Um dos primeiros sintomas de que a idade está chegando deve ser este: viver em um mundo paralelo, oscilando entre diferentes épocas do tempo. Um mundo onde a Escadinha ainda existe. Um mundo no qual as pessoas colocam nomes nos lugares, ao invés de identificá-los com grunhidos. Pensando por este ângulo, talvez o advento da idade e a possibilidade de viver mais no sonho do que no mundo atual não seja algo tão ruim.

Gustave Klimt, “As Três idades”. E todas elas vivem dentro de um mesmo corpo. Isto é algo admirável.

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Escrever ou morrer. Simples assim.

Muitos anos atrás, eu fiquei brabo com o Juarez Guedes Cruz.

É quase impossível ficar brabo com o Juarez, um dos seres humanos mais sensíveis e educados do mundo, mas eu fiquei. Isto por que, no momento de fazer a seleção de contos que incluiria em “A cronologia dos gestos”, seu primeiro livro, ele excluiu aquele que eu considerava o seu maior conto: “Mil Noites e Uma”. Recordo que, na época, eu lhe disse que era imperativa a inclusão deste conto, mesmo que acabasse se tornando inevitável a exclusão de outro conto (o que também seria uma experiência dolorida). No entanto, Juarez ouviu as minhas reclamações e admoestações com seu sorriso educado. Esfíngico, eu acrescentaria.

Bem, “A cronologia dos gestos” foi lançado, e eu o considerei um dos melhores livros que já li. Não só eu considerei: o Juarez ganhou um Açorianos com ele. De certa forma, ainda bem que não me escutou, sabe-se lá o estrago que a inclusão deste conto e a exclusão de outro poderia acarretar na trajetória vitoriosa do livro.

Anos depois, o Juarez se redimiu comigo. Ao fazer a seleção de contos para “Alguns procedimentos para ocultar feridas”, seu segundo livro, ele incluiu “Mil Noites e Uma”. Claro que não fez isto por minha causa, e sim por que o conto devia estar batendo na sua memória, ansioso para vir ao mundo e se revelar para as centenas de leitores que o desconheciam. Gosto de imaginar que o autor acabou sendo movido por uma necessidade muito mais premente: o conto deveria existir por que a história dele é muito maior do que a sua construção em palavras pode presumir. “Mil Noites e Uma” é maior do que o seu autor. O que está expresso em “Mil Noites e Uma” é o próprio drama da literatura: escrever e contar para não morrer.

A história é simples e, quando isto acontece, em especial com o Juarez Guedes Cruz, ela é ainda mais fluida e enganosa. Dois bandidos foram capturados por um inimigo chamado Esfinge. Os dois conversam, e sua linguagem é intercalada por gírias, xingões e aquela pretensa cultura que duas figuras vindas da cultura popular tentam emprestar ao discurso para torná-lo mais respeitoso. Um deles diz que o Esfinge os libertará se eles criarem uma frase bacana. Com o intuito de salvarem as próprias vidas, els tentam elaborar frases legais, e acabam criando clássicos consagrados pela Literatura, elencando sentenças de Dante, de Shakespeare, de Camões, de Kafka.

Muitas pessoas se espantam quando eu digo que este é um dos melhores contos que já li, colocando-o no mesmo patamar de Borges, de Cortázar, de Hemingway, entre outros. Eu próprio me espanto em constatar que os anos passam e a recordação deste conto continua latente na minha cabeça.

Após muito ler e reler a história, acredito que sei a resposta. Ela inicia pelo título. Vou deixar de lado a referência – óbvia – ao drama de Scheherazade, obrigada a criar uma história por dia para o sultão e, assim, prorrogar a própria vida. Vou concentrar a análise em outro tópico. O Juarez poderia ter escolhido como título a versão brasileira do clássico, colocando no conto o título “Mil e Uma Noites”. No entanto, o autor optou pela versão consagrada por Sir Richard Burton, intitulando o conto de “Mil Noites e Uma”. Nada é por acaso. “Mil e Uma Noites” passa uma idéia de que o espaço de tempo que Scheherazade teve que encantar o sultão foi determinado, durando exatamente 1001 noites. No entanto, com a simples mudança de duas palavras e a transformação em “Mil Noites e Uma”, este marcador temporal deixa de existir. A duração do suplício criativo de Scheherazade passa ao infinito: mil noites e MAIS uma, mil noites e uma e MAIS uma, mil noites e duas e MAIS uma. Scheherazade ainda está contando história atrás de história, e assim passará por toda a Eternidade; podemos ouvir a sua voz de areia por trás de todos os livros que lemos. Da mesma forma que o Esfinge continuará pressionando bandidinhos incautos a lhe deleitarem criando frases bonitas pelo resto do Tempo, pois a Literatura é imortal. Sempre existirão histórias para serem contadas, Scheherazade nunca morrerá, pois descobriu o segredo da vida eterna – viver dentro da história alheia.

Em seguida, causa encantamento e estranheza o desnível abrupto da linguagem dos bandidos. A sua fala é popular, entremeada de expressões simplórias como “tá ligado”, “se achando o fodão”,  “só tu pra nos meter numa porra dessas”. No entanto, às vezes afloram estruturas semânticas de alta complexidade que, como uma pororoca, colidem energicamente contra a linguagem popular. Nas mãos de um escritor inábil, o diálogo soaria falso, inverossímil. No entanto, Juarez faz o milagre de soar verdadeiro por um interessante jogo com as palavras. Os bandidos falam a língua das ruas e, de repente, eles criam expressões e frases de clássicos da Literatura. Logo após esta epifania, ao invés de retornarem rapidamente à linguagem popular, eles fazem uma transição sutil. O discurso erudito que acabou de se apossar do corpo dos personagens é atenuado e enfraquecido, até virar a linguagem popular novamente. Graças à forma segura com que a transição entre linguagens acontece, os bandidos parecem o que são: dois homens em uma situação limite, pressionados e necessitando usar o máximo de imaginação possível para escapar da morte.

E, agora, chegamos ao ponto chave do conto. Uma frase que o Juarez gosta de citar vem de um samba popular (da mesma forma que os personagens de “Mil Noites e Uma”, o Juarez oscila entre o erudito e o popular): “samba é que nem passarinho, está no ar para quem quiser pegar”.  Se levarmos esta sentença às últimas consequências, podemos presumir que as frases emblemáticas dos grandes clássicos da Literatura (e, por que não, as histórias completas, os poemas, tudo) estão no ar, vibrando em uma onda quase imperceptível para a grande maioria das pessoas, mas possível de ser captada por quem estiver na sintonia certa. Todos podem ser Kafka, Cervantes, Camões, Dante, Shakespeare. O único requisito para se tornar estes escritores é ouvir a sintonia das histórias invisíveis que cercam o mundo em uma rede.

(Uma pequena pausa: recentemente, tomei conhecimento da existência de uma teoria quântica que pretende explicar o mundo dizendo que somos todos um único organismo, e que carregamos os genes de todos os humanos que nos antecederam e nos sucederão. Antes de prosseguir, devo realçar que achei uma grande bobagem. Isto sem contar que os meus pruridos teóricos se viram escandalizados ao ver esta teoria sendo aplicada na área literária com resultados praticamente criminosos. No entanto, como eu disse, com o Juarez, nada acontece por acaso. E esta teoria lembra muito a ideia defendida por Platão, de que cada homem possui no seu interior o conhecimento de tudo e, quando aprendemos algo, estamos simplesmente recordando algo que já sabíamos).

No caso do conto, a sintonia com a Literatura é atingida por meio do medo da morte. O Esfinge coloca os dois bandidos em uma encruzilhada: ou eles criam ou eles morrem. E, meus amigos, quem está com o pescoço na reta, sentindo a morte dobrando o corredor e ouvindo a lâmina da foice rasgando a parede, faz qualquer coisa… até mesmo escrever os maiores clássicos da Literatura. O ato de criar envolve uma pulsão de morte. Tal como Scheherazade, escrevemos para não morrer. E, quanto mais forte for esta pulsão, mais urgente será a literatura, mais verdadeira e mais entranhada no sangue. Não digo que somente moribundos escreveriam obras literárias dignas de relevo, longe disto. Digo que as apostas do jogo são altas. Não existe maneira de se esconder. É tudo ou nada: ou a pessoa escreve com os colhões na mão e a faca imaginária no pescoço ou não escreverá nada. A entrega deve ser completa. O mergulho na dor também. Não existe possibilidade de que este movimento se dê por metade, assim como o Esfinge não poderia deixar os bandidos meio mortos ou meio vivos. É ganhar ou perder, criar ou morrer. Simples assim.

Não poderia encerrar a minha análise sem revelar um dos segredos que o Juarez escondeu dentro do conto (se foi intencional ou não, é irrelevante). Quem é o Esfinge? Tinha uma certa esfinge famosa que atormentava os viajantes de Tebas. E qual era a frase dela? “Decifra-me ou te devoro”. Para não serem mortos, os bandidos precisam criar frases de vigor literário. Não seria de todo impossível que o Esfinge seja a própria Literatura, materializada em forma humana para exigir tributos criativos dos incautos. Da mesma forma, não seria impossível imaginar que o sultão de “Mil Noites e Uma” também fosse uma visão da Literatura, escolhendo as histórias que merecem sobreviver, contadas pela primeira escritora.

Estes são os motivos que me levam a admirar “Mil Noites e Uma”, conto exemplar de Juarez Guedes Cruz presente no livro “Alguns procedimentos para ocultar feridas”. Nem tanto pelo o que ele diz, mas pela lição de vida e pela maldição que encerra. Como a mariposa apaixonada pela morte, eu insisto em retornar a este conto e, cada vez que o releio, ele insiste em me fazer lembrar o que é escrever. Insiste em mostrar que a Literatura está vagando pelo ar e que, se eu for incapaz de senti-la, a morte é o único destino aceitável. Portanto, escrevo. Portanto, escrevemos. Estamos sentados ao lado de Scheherazade nas almofadas do sultão, contando história atrás de história e rezando para que elas continuem mantendo viva a chama do seu interesse.

Juarez Guedes Cruz, grandessíssimo cronópio.

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