Arquivo do mês: março 2015

Apontamentos sobre “O som e a fúria”, de Faulkner

William Faulkner

William Faulkner

 

A mais difícil experiência no ato de escrever um livro é encontrar a voz da narrativa, aquela sensação de desconforto interno que leva uma pessoa a abandonar a vida cotidiana para se enfurnar nos campos da fantasia. William Faulkner necessitou ser recusado três vezes por editoras para se refugiar no silêncio da própria literatura e escrever “O som e a fúria”, lançado em 1929 e considerado por muitos críticos como o ponto alto da sua obra. Nas palavras dele, “Quando comecei o livro, não tinha nenhum plano. Eu nem sequer estava escrevendo um livro. De repente, parecia que uma porta se havia fechado, em silêncio e para sempre, entre mim e os endereços dos editores, e eu disse a mim mesmo: ‘Agora posso escrever. Agora posso simplesmente escrever”. Mesmo elogiado pela crítica, o livro passou despercebido pelos leitores até 1931, quando, após lançar o seu sexto romance, “Santuário”, o público enfim descobriu “O som e a fúria”.
O título do livro é uma citação de Macbeth, de Shakespeare: “[Life is] A tale told by an idiot, full of sound and fury, signifying nothing” (“[A vida é] uma história contada por um idiota, cheia de som e fúria, sem sentido algum”). Curiosamente, em uma entrevista feita alguns anos depois, Faulkner confessou que o título saíra do seu inconsciente e que, embora recordasse que era uma expressão de Shakespeare, não lembrava o inteiro teor da frase, ficando impressionado em ver como ela fechou bem com o conteúdo do romance. “O som e a fúria” pode ser lido como uma alegoria da vida humana e do caos que rege as relações sociais, pois todos os seus personagens se deslocam como bolas em uma mesa de bilhar, escapando-se e batendo-se com violência, gerando novos confrontos.
Graças a este romance, Faulkner é considerado um dos criadores da técnica literária chamada de “fluxo de consciência”, sendo colocado ao lado de Dorothy Richardson. Por intermédio desta técnica, o autor ingressa nos pensamentos do narrador, deixando a consciência – e o seu caráter errático – assumirem as rédeas narrativas, permitindo-se digressões, irrelevâncias, distrações, becos que não levam a lugar algum e, no meio disto tudo, a maneira mais honesta de contar a história, trazendo o leitor para dentro daquilo que pensa o narrador. Ao contrário do monólogo interior, que possui uma forma mais organizada em frases e até mesmo parágrafos, o fluxo de consciência, por ser algo que tenta reprisar o pensamento humano em tempo real, quase não possui pontuação (vírgula, pontos, dois pontos, travessões). Ao expressar as vontades, desejos e visões de um personagem, o fluxo de consciência demanda uma leitura atenta e dificultosa, pois não se sabe se ele está vendo, sentindo ou imaginando aquilo que transmite para o leitor, em uma constante confusão entre a fronteira da realidade com a da fantasia.
Um escritor inábil com a palavra transformaria o fluxo de consciência em uma experiência torturante para o leitor mais cartesiano, acostumado a histórias com princípio, meio e fim, com frases que seguem uma ordem lógica dentro do espaço da narrativa e do seu tempo. No entanto, para dar conta daquilo que pretendia transmitir, Faulkner usa o fluxo de consciência para mostrar quatro visões de mundo sobre as mesmas situações, e cada uma delas revela um prisma diferente, em um movimento análogo ao de uma sinfonia, em que diferentes instrumentos musicais, com diferentes andamentos, conseguem não só se tornar audíveis como criarem pedaços de uma obra nova e poderosa. Individualmente considerados, os quatro capítulos mostram histórias quase comuns. No entanto, quando sobrepostos, eles se entrelaçam na memória do leitor, criando um livro que se faz não dentro das suas páginas, mas por meio da leitura. O esfacelamento moral da família revela-se com mais dor e intensidade através do fluxo de consciência, pois o leitor assiste, na primeira fila, as mentiras e podridões que se inserem no meio dos sentimentos familiares e os destroem de forma implacável. Ler “o som e a fúria” é mergulhar em um abismo do mais negro piche, onde os pontos de luz são estrelas falsas e a angústia aumenta a cada segundo. Não é um livro fácil, mas, quando se entende a sua linguagem, ele se torna incomparável.
Com o intuito de demonstrar a deterioração econômica e psicológica de uma família do Sul dos Estados Unidos, Faulkner erigiu uma tragédia de contornos épicos, utilizando uma estrutura entrecortada, repleta de desníveis de linguagem, contada por narradores inconfiáveis e com deslocamentos no tempo e no espaço. Quatro personagens principais destacam-se, todos membros da família Compson: Benjy, Caddy, Quentin e Jason.
Subvertendo os conceitos do leitor, o primeiro capítulo é narrado por Benjy, personagem que possui certo grau de autismo, o qual pontua a sua narrativa por um total desconhecimento do tempo e do espaço em que está inserido. É um início espinhoso, de percurso árduo para o leitor acostumado à verossimilhança gerada por um narrador, mas se revela proveitoso quando o leitor descobre que precisa deixar o racionalismo e partir para uma leitura sensorial, em uma experiência quase primitiva. São setenta páginas em que o leitor é convidado a abandonar a racionalidade e a mergulhar em um mundo sem regras. Algumas informações são apresentadas, mas de forma tão distorcida que quase não fazem sentido: Benjy tinha outro nome antes (Maury) e ele foi castrado por conta d eum mal entendido sexual. Ao mesmo tempo, Benjy recorda um dia em específico do passado e uma cena envolvendo Caddy, a personagem principal de “o som e a fúria” e a única que não será escutada, que, ao subir numa árvore, revela as suas roupas de baixo sujas de lama. Esta cena é desconstruída para o leitor e, ainda que não aparente ter sentido, ela é um dos centros em torno do qual a família Compson – da qual Benjy faz parte – irá se auto-destruir em raiva, dor e medo.
O segundo capítulo é narrado por Quentin e, apesar de ser dotado de mais clareza, revela-se igualmente árduo à medida que o personagem oscila entre a fantasia e a realidade, em um jogo que confunde e que atrai o leitor. Destinando para a irmã Caddy um amor incestuoso, ele precipita a tragédia da família, cometendo suicídio após o casamento da irmã com outro homem. A filha bastarda de Caddy recebe o nome de Quentin em sua homenagem, deixando entrever quem seria o verdadeiro pai, em uma suposição feita pelos personagens que serve como ponto de tensão quase insuportável para a trama. À exemplo do que acontece com Capitu e Bentinho em “Dom Casmurro”, de Machado de Assis, não se tem certeza absoluta da traição de Caddy e se a filha dela realmente seria de Quentin ou se foi uma homenagem feita pela irmã saudosa. O personagem de Caddy transmite uma enorme ambiguidade de sentimentos e de atitudes, o que, combinado com a sua promiscuidade, gera uma série de divergências e de conflitos por conta da ausência de diálogo.
O terceiro capítulo apresenta um personagem amargo e cruel, Jason Compson, irmão também apaixonado por Caddy e furioso pelo suicídio de Quentin – em quem a família depositava suas esperanças financeiras de um futuro melhor -, passando a transferir todo esta gama de sentimentos danosos para Quentin, a filha de Caddy. A narrativa ganha aspereza, e a decadência da família se acentua; de tão ocupado com o ódio que queima a sua essência, Jason deixa a economia da família se deteriorar, imerso em uma vingança que nunca termina. É um dos capítulos mais intensos que já foi escrito: é possível sentir o ódio e a raiva muda de Jason espalhando-se como sombras por dentro do livro, no intuito de se vingar a qualquer custo, mesmo que perca a sanidade ou a própria vida. Por conta de suas maldades, seria cômodo considerar Jason um vilão, mas Faulkner nega esta possibilidade, considerando-o mais como o fruto de um sistema social combalido e o reflexo de uma moral desgastada. A construção realista deste capítulo e o foco narrativo concentrado na secura de sentimentos de Jason faz com que as suas maldades se tornem, não só naturais, mas também inevitáveis. O homem que acaricia pode ser o mesmo que soqueia, e até mesmo nos gestos de carinho existe um resíduo de violência inata à natureza humana, não tão distante dos animais como gosta de pensar.
O derradeiro capítulo é narrado por Dilsey, a escrava negra cuja retidão de valores estabelece um grande contraste com a deterioração moral da família para a qual entrega sua devoção irrestrita. É o único capítulo que não é narrado em primeira pessoa, o que demonstra que o seu narrador não faz parte do círculo de destruição que cerca a família Compson. A personagem se entristece pelo destino da família para quem trabalhava, vendo as consequências dos atos deles e pedindo piedade. É o capítulo mais centrado da trama, pois Dilsey acompanhou o declínio psicológico, financeiro e humano dos seus antigos patrões, tão preocupados em se destruírem que acabaram se esquecendo de viver.
Cada um dos quatro capítulos se passa em um determinado dia. É neste intervalo de tempo reduzido que um fato ocorre, e o mergulho nele faz com que os pensamentos do narrador escolhido como foco narrativo se descontrolem, alternando passado e presente. O fato vira uma caixa de Pandora, abrindo sucessivos horrores, culpas e recordações repletas de amargura. Faulkner mexe com as estruturas rígidas do Tempo, revelando que todos os tempos moram no presente. Ninguém é capaz de se esconder das escolhas que fez, que constantemente cobram o seu preço. As sombras do passado se refletem em cada passo atual e, por sermos incapazes de mudar aquilo que fizemos, precisamos aprender a viver com os erros que cometemos, ainda que eles continuem nos vergastando com as consequências dos erros que cometemos. É uma visão pessimista – não é à toa que muitos viram um caráter existencialista em “O som e a fúria”. Se não podemos mudar o passado e se ele afeta o presente, deturpando nossas escolhas, cada escolha do presente vai destruir o nosso futuro, inobstante a opção que se escolha. No caso da família Compson, bastou um único fato para definir todo o futuro e condená-los à danação em vida.
Os diferentes narradores compõem o mosaico da destruição psicológica de um grupo de seres humanos, desvelando a mesquinhez das suas condições. Da mesma forma que um rochedo esboroa acaso atingido por incessantes ondas, Faulkner destaca a fraqueza dos homens diante das rodas do Destino, assim como revela a beleza da condição humana, uma beleza cortante e singular, dotada da capacidade de criar os mais nobres sentimentos e, ao mesmo tempo, destruí-los com toda a sua força, com toda a sua fúria.

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Cecília Meireles e como virar uma eternidade

Existe algo de imenso em uma pessoa que consegue manter a calma no meio de um oceano bravio de acontecimentos. A pessoa que controla o seu centro e não deixa o mundo lhe destroçar com dentes raivosos que gotejam fúria. A pessoa que sobrevive aos ataques incessantes do dia a dia e consegue ver a inutilidade tanto de ser atacado quanto de se defender.

Alguém que consegue ser um rochedo que as ondas tentam despedaçar.

Com o passar dos anos, acostumei-me a ser uma pessoa sob frequente ataque. E não estou falando somente por causa dos meus textos neste blog ou outros textos críticos que realizei, os quais são xingados com relativa frequência: os ataques são em todas as áreas possíveis, inclusive as mais íntimas. Vivo em um mundo de constantes atritos e mal entendidos, deslizando por sombras de palavras ditas ou não-ditas e por medos alheios. Toda hora sou alvo de suspeitas e de maledicências (e de distorções, muitas pessoas distorcem o que faço) e, se falo aqui sobre este assunto, é por que estou realizando uma forte reflexão sobre aqueles que me rodeiam e vou amputar relações gangrenadas – cortar o mal pela raiz.

Não é algo ruim, é algo necessário. Para rever expectativas e perspectivas na vida, precisamos passar por constantes renovações. Reinventar a roda de vez em quando. Todos os dias, a vida acorda e tenta nos levar ao desespero, usando da vertigem e de um cotidiano feérico, impedindo-nos de refletir com calma sobre os fatos que nos rodeiam. Neste momento, lembro de uma opinião de Freud sobre Dostoiévski que tem assombrado minhas últimas semanas. Para Freud, Dostoiévski era um escritor imoral, pois a pessoa verdadeiramente moral é aquela que vê a tentação na sua frente e tem a força de espírito suficiente para evitá-la. No entanto, no caso de Dostoiévski, os personagens dele cediam à tentação e só depois buscavam a expiação da culpa e do remorso. Ceder à tentação é imoral. Na analogia de Freud, era como Ivan, o Terrível matando pessoas de forma indiscriminada e, depois, indo rezar para pedir desculpas. O verdadeiro teste da moralidade acontece antes de ceder à tentação.

Se eu não for capaz de refletir sobre a vida que me cerca, como saberei se não estou cedendo à tentação e me tornando uma pessoa imoral? Como saberei se não estou agindo errado ou sendo injusto? Momentos de revisão de relação sociais são muito importantes, justamente para higienizar a vida e evitar a repetição de erros antigos.

"Rochedo na beira do mar", Caspar David Friedrich

“Rochedo na beira do mar”, Caspar David Friedrich

No entanto, tenho um segredo. É um mantra, para ser exato. Não acredito em auto ajuda, mas confio nessa força de catarata da literatura. Quando sinto-me perdido no meio de mares nunca dantes navegados, ou quando, no meio da vida a jornada, encontro-me no meio de selva tenebrosa sem achar o caminho correto, vou para a poesia. Não tenho boa memória para versos; prefiro senti-los. Quando eles surgem, vêm misturados entre si, mas a sensação é sempre única. Às vezes, sinto-me formado por frases aleatórias de grandes autores e fragmentos de poesias que, certo dia, invadiram a minha memória, e não sei mais se sou uma pessoa de carne e pele e ossos e vontade, ou se não passo de um aglomerado de livros semoventes.

Nos momentos de confusão, quando não sei mais quem sou e o que devo fazer, eu preciso reencontrar o meu centro, e ele está dentro de uma poesia da Cecília Meireles:

 

Cântico II
Não sejas o de hoje.
Não suspires por ontens…
não queiras ser o de amanhã.
Faze-te sem limites no tempo.
Vê a tua vida em todas as origens.
Em todas as existências.
Em todas as mortes.
E sabes que serás assim para sempre.
Não queiras marcar a tua passagem.
Ela prossegue:
É a passagem que se continua.
É a tua eternidade.
És tu.

 

Não sei explicar o que me encanta nesta poesia. Talvez seja a ideia de que todo homem é uma criatura formada por Tempo e por Espaço, e Cecília destroi esta certeza quando diz que estamos vivendo todos os tempos em simultâneo. Pode ser o contraste de uma existência única que se repete em várias vidas e mortes. Gosto muito de imaginar-me sem limites, de perder as amarras que me prendem em qualquer situação. Ou, ainda, pode ser a ideia de que não precisamos marcar a nossa passagem, e sim a passagem é que precisa deixar marcas.

No entanto, o que mais gosto é saber que tu – e, por consequência, eu – somos duas eternidades caminhando lado a lado, e isso ninguém pode tirar de qualquer pessoa: a capacidade de reencontrar o próprio caminho no meio da jornada.

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Ortega y Gasset e a vida como um magnífico repertório de possibilidades

Recebo uma foto do meu afilhado, do alto dos seus quatro meses de existência, e o seu olhar azul me dilacera.

Está tudo ali: curiosidade, encanto, ironia, tranquilidade, amor. Ele não conhece ainda os nomes dos sentimentos, mas já sabe senti-los. Na forma com que encara a câmera – e o mundo que lhe cerca – existe uma grande verdade: Arthur é um pequeno ser dotado de um amplo leque de possibilidades. Ele tem o infinito diante de si; não tem prisões, não tem amarras, não tem medos. Pode ser aquilo que quiser. No momento em que ainda conhece e se ambienta com a realidade, ele é uma tábua em branco esperando para escrever o seu próprio destino.

Existe algo mágico em ser uma criatura cheia de possibilidades. Acordar todo o dia e pensar que podemos mudar de rumo a qualquer momento, sem maiores dúvidas ou dores. Talvez consigamos distinguir isto com mais clareza nas crianças: a ideia estarrecedora de que elas podem ser o que quiserem, princesas ou vilãs, herois ou mentecaptos, vítimas ou agressores.

Pergunto-me se somente crianças tem esta capacidade de reinventarem seu destino a cada manhã. A sensação de que perdi o momento novamente é avassaladora, assim como a ideia de que as responsabilidades enrolaram seus tentáculos ao meu redor e me prenderam em um círculo vicioso, regrando a minha vida com normas desconhecidas diante das quais me submeto.

No entanto, lembro de Ortega y Gasset e me sinto melhor. Foi ele quem disse, em “A Rebelião das Massas”, que “a nossa vida, como um repertório de possibilidades, é magnífica, exuberante e superior a todas as outras vidas historicamente conhecidas. (…). É mais vida que todas as vidas, e por isso mesmo mais problemática. Não pode orientar-se no pretérito. Tem de inventar o seu próprio destino.”

Pessoas que se orientam pelo passado são incapazes de mudar o destino. Temos a ilusão de que a nossa vida deixou de ter possibilidades para adquirir certezas e prisões, mas nos iludimos: sempre existe a possibilidade de mudar. No jardim dos caminhos que se bifurcam, não podemos ser como o cavalo, que olha só a estrada na sua frente, e sim como o lince, dotado de visão periférica e análise rápida de situações.

Gosto muito da ideia de nossa vida ser maior do que todas as vidas. Quando olho a riqueza do meu dia a dia e os encantamentos que insistem em se suceder, percebo que minha vida é maior do que eu mesmo. Não é possível que tantos eventos e pensamentos caibam dentro da minha consciência, mas – e isto é incrível – cabem, ainda que transbordem para as vidas alheias. Ser uma criatura cheia de possibilidades implica em dizer que sempre podemos começar de novo, e talvez esta seja a parte mais repugnante da morte: não é somente um indivíduo que morre, mas sim todo o universo de possibilidades que ele continha. Já diz o Talmude que, quem salva uma vida, salva o mundo todo, e o mesmo pode ser dito da morte: quando alguém morre, todo um mundo morre com ele.

homens amarrados

Prossegue Ortega y Gasset: “Circunstâncias e decisão são os dois elementos radicais de que se compõe a vida. A circunstância – as possibilidades – é o que da nossa vida nos é dado e imposto. Isso constitui o que chamamos o mundo. A vida não elege o seu mundo, mas viver é encontrar-se, imediatamente, em um mundo determinado e insubstituível: neste de agora. O nosso mundo é a dimensão de fatalidade que integra a nossa vida.”

No olhar límpido do meu afilhado, encontra-se a verdade incômoda que preferimos esquecer: somos os únicos senhores do nosso destino. Ninguém tem poder absoluto sobre a nossa vida. Podemos imaginar que o passado nos prende, ou então alguma sensação de lealdade, ou ainda filhos, empregos, dívidas, responsabilidades, mas só existe um motivo pelo qual não mudamos: a covardia. Mudar é algo que tem consequências, dores, angústias. Acreditamos viver em um local de fatalidade, onde cada decisão encaixa na outra como a peça de um dominó, mas estamos errados: o mundo é um local cheio de possibilidades para quem não possui receio de redesenhar os seus passos. Ou, como disse Nietzsche, “somos todos vulcões esperando a hora da erupção”.

O próprio Ortega y Gasset reconhece o paradoxo de seremos pessoas livres, mas obrigadas a decidir a todo momento, quando diz “surpreendente condição a da nossa vida! Viver é sentir-se fatalmente forçado a exercitar a liberdade, a decidir o que vamos ser neste mundo. Nem um só instante se deixa descansar a nossa atividade de decisão. Inclusive quando desesperados nos abandonamos ao que queira vir, e decidimos não decidir”.

Diante do olhar fixo e repleto de possibilidades de uma criança, não acredito que nenhuma discussão seja capaz de se sustentar. Em um mundo repleto de ferozes debates políticos, econômicos, acadêmicos, sociológicos e de todos os tipos, estamos esquecendo da maior de todas as belezas: que temos todas as possibilidades do mundo dentro de nossos corpos, inclusive a de mudar a qualquer momento. Que a vida é um amontoado incessante de maravilhas. Que podemos ter sempre o mesmo olhar de encanto sobre as coisas, não interessa quantas vezes elas ocorram, não interessa o quanto a rotina seja esmagadora e precisa. Só existe um fator que define cada pessoa, e é novamente Ortega y Gasset quem resolve a charada ao escrever “É, pois, falso dizer que na vida ‘decidem as circunstâncias’. Pelo contrário: as circunstâncias são o dilema, sempre novo, ante o qual temos de nos decidir. Mas quem decide mesmo é o nosso caráter.”

Diante das circunstâncias que a vida nos apresenta, o importante é manter o caráter intacto, pois ele é o único elemento que permanecerá – e o único através do qual decidiremos. Em frente ao olhar inocente do meu (ainda) silencioso afilhado, anseio para que ele tenha a nobreza de pegar as possibilidades que eu somente antevejo e transformar em força motriz da sua vida. Anseio para que ele não se entregue e saiba que vai cair muitas vezes, mas nunca pode perder a maravilha e a surpresa que é acordar todo dia em um mundo novo. Espero que ele não seja uma pessoa que se perde em longas discussões tentando mudar os outros, e faça o mais difícil: mude a si mesmo, sem perder a serenidade. Quem muda a si mesmo, muda todo o mundo.

Lembro novamente Nietzsche, quando diz que “grande, no homem, é ele ser uma ponte e não um objetivo: o que pode ser amado, no homem, é ser ele uma passagem e um declínio.” O fator que define a grandeza do homem é ele ter todas as possibilidades dentro de si – é a sua maior decepção é imaginar que a vida já acabou e as possibilidades se perderam. Somos todos passagens e, por não termos verdades categóricas, estamos no meio do mundo das possibilidades. Quem diz isto não sou eu: é a tranquilidade do olhar do meu afilhado, com a sua certeza irônica de que a vida é um brinquedo do qual eu ainda não entendi as regras.

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Texto novo no Literatortura (07/03/2015): “O Dia Internacional do Homem (versão 2015)”

Saiu um texto meu no site do Literatortura (www.literatortura.com).

 

Na quarta feira desta semana, de repente, do nada, descobri-me misógino.

Um amigo perguntou-me se um texto que andava pelo Facebook, “O Dia Internacional do Homem”, me pertencia. Ao ler o texto, descobri que, sim, fui eu quem o escrevi, em 1999, numa disciplina da Faculdade de Letras. Exatamente, isto aconteceu 16 anos atrás. O meu original está desaparecido, só tenho a versão escaneada, e tenho uma boa ideia de quem fez isto tentando me constranger.

No entanto, não apontarei o dedo. Não irei ficar me lamuriando. Sinto como se tivessem tirado uma foto vergonhosa minha e espalhado pela internet, mas não adianta reclamar. O melhor a fazer é acabar com o meu texto do passado; enfrentar o Gustavo de 22 anos dentro do território dele, nas quatro linhas do papel. Desconstruir o meu próprio argumento.

O resultado foi o texto que publiquei no Literatportura. Uma reflexão sobre textos que não morrem, sobre a Literatura escolher a maldade ao invés da coisa certa, sobre resiliência e, mais do que tudo, sobre a capacidade de mudar uma ideia. De ser capaz de evoluir. E também é um forma de homenagear as mulheres _ vocês em especial também, leitoras deste blog – com um poema da Florbela Espanca que acho muito bonito e pungente.

Aqui está o link do texto: http://literatortura.com/?p=23017

O conteúdo integral foi este:

O Dia Internacional do Homem (versão 2015)

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Na semana passada, descobri que um escrito meu retornara à vida. A capacidade de resiliência dos textos não cansa de me espantar. Eles se recusam a morrer. Basta surgirem no mundo para encontrar caminhos escusos para sobreviver, alguns no underground literário, outros na forma de memória, e ainda aqueles que se escondem no fundo das gavetas. Textos nunca desistem e, se forem bons, eles encontrarão o seu lugar ao sol.

Não é o caso do texto meu que voltou ao mundo dos leitores. O momento do seu ressurgimento é péssimo: no meio de uma série de discussões sobre o papel da mulher e sobre a violência psicológica e física as quais elas são submetidas, aparece algo em que faço troça destas discussões. Aos que desejavam me constranger, não nego a autoria; nunca neguei meus textos, e não pretendo começar agora. Aos que pensavam ser capazes de me agredir com meu próprio trabalho, lamento, mas erraram o alvo. No máximo, me causou um bocejo. O título do texto é “O Dia Internacional do Homem” e, se alguém teve a infelicidade de lê-lo por aí, como aconteceu comigo, saiba que foi resultado de uma aula da disciplina de Escrita Criativa a qual assisti, em 1999, na Faculdade de Letras da UFRGS.

Não adianta dizer que o texto é lido fora do seu contexto de produção; eu era um aluno irônico (creio que ainda sou) e, quando escrevi tais linhas, estava ironizando não só as mulheres, mas a própria estrutura da aula. Existe toda uma linguagem cifrada por trás do texto questionando os métodos de ensino, mas não perderei tempo explicando as minhas reais intenções. O texto existe, e assim ele é lido, como se eu tivesse escrito ontem.

Também não vou reclamar da injustiça: dos mais de 20 textos que produzi na disciplina, repercute justamente o meu momento mais desprezível. É uma pena que a Dona Literatura, esta senhora caprichosa que caminha por entre bibliotecas sussurrando nomes perdidos, escolheu tal texto para sobreviver, ao invés daquele em que descrevi meu irmão com tamanha energia que metade das minhas colegas de aula queriam conhecê-lo (quem não gostaria de conhecer um ciborgue ruivo que foi abduzido por alienígenas em Tramandaí?), ou o texto em que provei a comunicação dos lagos mundiais, contando como o monstro do Lago Ness podia aparecer no lago próximo ao Campus do Vale da UFRGS, ou o texto em que expliquei como os alunos diplomados da UFRGS viravam os cachorros que assombravam o Restaurante Universitário. Nenhum destes permaneceu, mas o texto em que faço troça das mulheres voltou ao mundo, atestando uma das grandes questões do nosso tempo: para falar mal de alguém, sempre existe espaço. Agora, quando se faz algo interessante e inovador, o mundo não dá muita atenção.

Ao invés de lamentar, pretendo refletir sobre as ideias do Gustavo de 16 anos atrás. Para matar um texto, somente outro; para deter uma força, somente outra equivalente em estado antagônico. Não vou cometer o erro de elencar os argumentos irônicos de então e confrontá-los com a minha opinião atual, pois estaria reafirmando o passado, e essa não é a minha intenção.

Causa certo desapontamento ver o quão pouco a visão da sociedade em relação à mulher mudou nestes últimos dezesseis anos. As mesmas ironias e piadas que então realizei continuam sendo feitas como se fossem originais, mas são acachapantes clichês. O jogo literário estabelecido, em que ironizei o aumento do poder das mulheres e levei às raias do exagero, revela-se uma agressão às avessas: buscando a risada fácil, tornei-me virulento, e isso não é nada diferente dos ditos comediantes atuais, que confundem ironia com violência. Sim, como diz o título, transformei o homem em vítima de um complô feminino. De forma intencional, inverti o ponto de vista e passei a considerar a mulher como opressora, passando por cima de todos os elementos em contrário, imerso na cegueira dos que desejam provar a sua ideia a qualquer custo. É desagradável ver como um rapaz de 22 anos consegue distorcer argumentos para criar algo aparentemente sólido. Somente o humor garantiu a permanência da obra; as risadas são constrangidas, mas reverberam das paredes do texto. O Gustavo de 16 anos atrás ainda morde, mas não é mais o mesmo.

Não mudamos tanto assim. Se um texto discriminatório de 16 anos de idade, escrito numa disciplina da faculdade, consegue encontrar leitores dispostos a espalhá-lo, ainda que ao arrepio do próprio autor, é de se perguntar o que existe de errado na nossa sociedade, que reedita argumentos de forma cíclica sem desejar uma mudança de paradigmas. Isso só demonstra uma coisa: homens não deveriam falar ou escrever sobre questões femininas. Simplesmente não temos como entender. Qualquer julgamento masculino, seja favorável ou desfavorável, está errado de antemão, pois o risco de minimizar algo é gigantesco. A única atitude que podemos tomar é permitir a livre expressão – e modificar as nossas atitudes. Tentar se colocar no lugar do outro. Parar de insistir em argumentos defasados que sobrevivem desde nossos antepassados e dar espaço para novas discussões. Ainda assim, é importante manter esperanças: se o Gustavo de 2015 conseguiu ver os erros do posicionamento do Gustavo de 1999, é possível mudar, sim. Mas será algo lento, com avanços e recuos, uma pessoa de cada vez.

Quis a coincidência que meu texto discriminatório de 16 anos atrás tenha ressuscitado de forma maliciosa há quinze dias, e outra coincidência diga que este texto em resposta a mim mesmo virá ao mundo na véspera do Dia Internacional da Mulher. Percebo que muitas mulheres são insatisfeitas com o estabelecimento de um dia em sua homenagem, e não insultarei ninguém falando palavras genéricas ou bonitas. Melhor do que falar é agir. As mulheres do meu círculo mais íntimo serão cumprimentadas, não pelo dia em si, mas por receberem sempre a minha admiração irrestrita. Enquanto isto, para cumprimentar as minhas leitoras e – em especial – as colegas do site Literatortura, que sempre foram tão agradáveis e gentis comigo mesmo quando eu sou, bom, eu mesmo, deixo uma poesia da Florbela Espanca que retrata as mulheres muito melhor do que qualquer outra pessoa conseguiria:

 

A mulher

I

Um ente de paixão e sacrifício,
De sofrimento cheio, eis a mulher!
Esmaga o coração dentro do peito,
E nem te doas coração, sequer!

Sê forte, corajoso, não fraquejes
Na luta: sê em Vênus sempre Marte;
Sempre o mundo é vil e infame e os homens
Se te sentem gemer hão-de pisar-te!

Se à vezes tu fraquejas, pobrezinho,
Essa brancura ideal de puro arminho
Eles deixam pra sempre maculada;

E gritam então vis: “Olhem, vejam
É aquela a infame!” e apedrejam
a pobrezita, a triste, a desgraçada!

II

Ó Mulher! Como é fraca e como és forte!
Como sabes ser doce e desgraçada!
Como sabes fingir quando em teu peito
A tua alma se estorce amargurada!

Quantas morrem saudosas duma imagem
Adorada que amaram doidamente!
Quantas e quantas almas endoidecem
Enquanto a boca ri alegremente!

Quanta paixão e amor às vezes têm
Sem nunca o confessarem a ninguém
Doces almas de dor e sofrimento!

Paixão que faria a felicidade
Dum rei; amor de sonho e de saudade,
Que se esvai e que foge num lamento!

 

Agora, por favor, deixem o Gustavo de 1999 no local em que ele estava: no passado. Somente eu tenho autorização para lidar com ele.

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Artemísia Gentileschi ou a arte como instrumento de vingança

Nos últimos tempos, não foram poucas as pessoas que me mandaram a mesma imagem de uma camiseta ou de um cartaz, com os seguintes dizeres: “Tome cuidado ao namorar um(a) escritor(a). Se ele(a) não gostar de algo que você fez, irá puni-lo(a) na sua obra”. Existem muitas variações, mas a intenção geral da frase é esta mesmo – uma ameaça velada, apesar de possuir um certo humor.

Não acho bobagem tal receio. Existem muitos casos de escritores que desconsideraram a elegância e usaram a sua obra como um grande instrumento de vingança contra pessoas ou situações injustas. Não há agressão mais violenta ou carícia mais insidiosa do que a feita através de palavras. A literatura anda muito perto do ser humano que a produz, e é natural que a vida acabe se misturando com trechos da ficção e que exista um trânsito de pessoas para dentro da arte. Assim, a tentação de se vingar ou de encontrar alguma forma de justiça através da escrita é grande, e não condeno os escritores que seguiram por este caminho.

No entanto, para decepção (ou alívio) geral, não tenho por hábito fazer isto. Para ser bem sincero, acho enfadonho e simples demais. Quando escrevo, utilizo pessoas ou situações reais, mas faço uma fusão e uma distorção tão grande que somente eu sou capaz de ver a nascente do meu rio Nilo criativo, o ponto de onde se originou a história. Não se preocupem, vocês não estão sendo filmados ou vigiados comigo, e não tenho esta pretensão de me vingar por meio do que escrevo. Deixo a literatura para o que realmente importa, seja espelhos fragmentados, seja porcos que dilatam.

Apesar de tudo, dificilmente vai existir no mundo uma artista que usou melhor a arte para se vingar do que Artemísia Gentileschi (1593-1656). Na semana em que se comemora o Dia Internacional da Mulher, é oportuno lembrar de uma mulher incrível que, apesar de uma série de dissabores e agressões, perpetrou a maior de todas as vinganças: transformar a sua ignomínia em algo eterno, para que ninguém nunca mais esqueça.

Artemísia Gentileschi possuía um talento natural para a pintura, e seu pai começou a lhe dar aulas. Não era costume que mulheres recebessem educação artística nesta época, mas o pai de Artemísia teve que ceder ao seu talento, que se destacava entre os demais filhos, apesar dela ser sistematicamente humilhada e sofrer coação psicológica.

Quando tinha 17 anos, Artemísia foi violentada pelo assistente do atelier, Agostino Tassi. Ocorreu ainda a participação nunca esclarecida de outro assistente do atelier, Cosimo Quorlis. Nesta época, Artemísia pintou o seu primeiro quadro famoso, “Susana e os anciões”, em que se vê uma mulher jovem sendo acossada por dois velhos sátiros:

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Nesta pintura, é possível observar algumas das características marcantes da obra futura de Artemísia Gentileschi: as mulheres como ponto central do conflito transmitido no quadro, a sua vida representada como uma visão histórica ou bíblica de algum fato, a própria pintora colocando o seu semblante nas feições femininas.

Na época em que foi violentada, uma mulher precisava casar virgem como atestado de pureza. Iludida por Agostino Tassi, que prometeu casar-se com ela para, assim, “recuperar a sua honra”, Artemísia estabeleceu um relacionamento com ele durante nove meses.

Ao perceber que o homem estava mentindo, Artemísia tomou uma atitude inesperada: com o apoio do pai, resolveu processar o seu agressor. Se hoje a justiça já possui um viés masculino, só é possível imaginar o quão preconceituosa deveria ser na época. O processo levou oito meses. A honra da pintora foi enxovalhada perante toda a cidade, que passou a conhecê-la como uma mulher impura. Ela teve que se submeter a um exame ginecológico para provar que não era mais virgem e, não bastando, teve que concordar com ser torturada para ver se estava falando a verdade. Mesmo assim, Artemísia nunca esmoreceu. Ao final, Agostino Tassi foi condenado, não pelo estupro, e sim por estar conspirando para matar o pai de Artemísia e roubar seus quadros. Recebeu a pena de um ano de prisão, que não cumpriu sequer um dia.

Desonrada e humilhada, a pintora saiu da cidade e seu pai arrumou-lhe um casamento com um pintor modesto. Em Florença, o talento de Artemísia Gentileschi foi reconhecido pela corte, permitindo-lhe pintar com mais liberdade. É nesta época que, aos 19 anos, pintou “Judith e Holofernes”, colocando-se novamente no quadro em que arranca a cabeça de um homem violento:

 

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Em seguida, pintou a continuação do quadro, em que Judith e a serva carregam a cabeça de Holofernes:

 

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Foi nesta época que Artemísia Gentileschi, ao contrário da imensa maioria de pintores que faziam naturezas mortas ou cenas bíblicas, começou a pintar nus femininos, geralmente enfocando a si mesma. Também estabeleceu uma longa troca de cartas com Galileu Galilei, que a admirava, e, entre estas cartas, encontra-se uma bela declaração de liberdade: “Enquanto viver, eu vou ter controle sobre a minha existência” (“As long as I live, I will have control over my being”). Abaixo, no quadro “Danaë”, a pintora expõe o próprio corpo nu sem medo, em uma atitude aberta para os olhares dos espectadores:

 

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Por causa do seu passado trágico, Artemísia questionava o sistema de opressão que se estabelecia sobre as mulheres, transferindo esta inconformidade para a arte. Mesmo possuindo um bom padrão de vida em Florença, mesmo sendo respeitada pela corte, mesmo sendo uma mulher sedutora e com muitos amantes e mecenas, quando lhe solicitaram um quadro da Virgem Maria com o Menino Jesus, ela não se submeteu ao bom senso da sociedade de então e fez uma obra de extrema rebeldia, “A Virgem amamentando o menino”:

 

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Uma das grandes virtudes do artista é a capacidade de se revoltar contra o status quo, e é necessário ter coragem para tomar tal atitude. Colocar a Virgem Maria em um contexto de amamentação foi algo que chocou a sociedade da época (o que demonstra que certas discussões de 500 anos atrás continuam repercutindo na sociedade atual), e Artemísia deixou Florença, indo para Roma e, a seguir, para Nápoles, onde passou seus últimos anos de vida. Ninguém sabe ao certo como ela morreu, mas o que se sabe era que a pintora foi uma negociante hábil das suas obras, uma mulher de negócios e que, ao mesmo tempo, ensinou as suas filhas a pintarem.

Ainda assim, nunca esqueceu a agressão de que fora vítima e nunca perdeu a oportunidade de lembrar da sua mágoa e da ofensa que lhe tinham cometido, como demonstra um de seus últimos quadros conhecidos, “Corisca e o sátiro”:

 

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Em uma de suas últimas cartas para um mecenas, Artemísia Gentileschi escreveu: “Você encontrará em mim a alma de um César dentro de um corpo de mulher”. A capacidade de transformar a dor e o sofrimento em arte, longe de ser uma vingança, é uma forma de expiação dos medos e de catarse. Pintando, Artemísia conseguia resignificar o seu mundo. Ao colocar mulheres fortes dentro dos seus quadros, a pintora italiana atingiu a vingança perfeita: passar para a História da Arte como a primeira mulher aceita na Academia de Belas Artes de Florença, ao lado de nomes como Michelangelo e Vasari, tornando-se ainda uma das mais importantes pintoras do período barroco.

A vingança, quando usada só para machucar, é vazia e fútil. Contudo, quando utilizada como combustível criativo, ela possui a capacidade de despertar a reflexão. Pessoas que usam caminhos artísticos para se vingarem ou humilharem outras pessoas não estão fazendo arte, e sim mostrando infantilidade. Nos momentos em que sinto raiva ou fúria se apossarem das minhas palavras, respiro fundo e lembro de Artemísia Gentileschi, uma mulher que teve problemas muito mais sérios do que os meus – e transformou a escória da Humanidade em algo memorável.

Muito melhor do que se vingar é tentar ser uma pessoa melhor.

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