Arquivo do mês: março 2012

Resenha de “O Homem Despedaçado” no Cadernos de Não Ficção #4

Saiu uma interessante resenha de “O Homem Despedaçado” na Cadernos de Não Ficção #4, feita por ninguém menos que o grande escritor gaúcho Antonio Xerxenesky, autor de “Areia nos Dentes” e “A página assombrada por fantasmas”.

 

Vale muito a leitura. Nem tanto somente pela resenha (que está na página 70), mas de todos os artigos. Tem sido difícil achar bom material de crítica literária, em especial por causa da extensão quase inifinita da internet, que dilui o bom material em meio ao péssimo. A Cadernos de Não Ficção surge neste cenário como garantia de qualidade e seriedade. Gostei muito (em especial por que sou louco pela literatura argentina, por Borges, por Cortázar, por Tomás Eloy Martinez, por Alan Pauls).

 

Boa leitura.

 

http://issuu.com/naoeditora/docs/cadernos4

 

 

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Nós, os tijolos do Roger Waters

Muitas coisas podem ser ditas a respeito de “The Wall”, álbum clássico do Pink Floyd que atravessa os anos com as suas mensagens pacifistas e existenciais. Nos últimos dias, li várias opiniões sobre este álbum, que vão desde os pós-modernos que criticam a vacuidade das músicas, chamando-as de sonolentas e pouco imaginativas, até aqueles que endeusam o álbum, considerando-o quase como um Evangelho, ou um sopro de voz divina.

Parece-me um pouco de pretensão dizer como os outros devem se sentir quando lêem um livro, ouvem uma música, apreciam um quadro. A experiência artística tem um pouco de objetividade e racionalismo, e muita subjetividade. Uma das coisas que o Direito me ensinou é que todo mundo possui a sua própria verdade e, desta forma, amplificando o conceito, todo mundo possui a sua própria forma de experimentar a arte. O máximo que posso dizer é como eu me sinto, como é a relação que eu tenho com um livro, com uma música, com uma pintura.

E o que posso dizer é que estive no show do “The Wall” ontem, no dia 25 de março de 2012. Presenciei, in loco, a exposição sensorial completa do show: a construção do muro diante dos olhos da plateia, as mensagens que se alternavam no telão em forma de palavras, desenhos e fotos, o som que partia de todos os lados do estádio, as figuras ameaçadoras sobrevoando a plateia ou encarando o público com olhos hostis do palco. Não existe DVD ou Blu-Ray capaz de conter tamanha explosão de sentidos, o som que parece se confundir com os corpos, os gritos (da música? do público? meus?) que assolavam o local, o entorpecimento causado por imagens fortes e vídeos de altíssima carga emotiva.

Roger Waters

O que pretendo falar é o “The Wall” como conceito, como ideia, como articulação criativa. Na minha opinião, não é a música ou os integrantes da banda que transformam o álbum em algo lendário, e sim a sua visão de mundo, o microcosmo contido dentro de cada música e como elas se articulam entre si, em um mosaico intertextual.

Eu já fui em muitos shows. Não tantos quanto gostaria, mas mais do que imaginei ir quando era novo. Já vi músicos talentosíssimos, com dedos capazes de pegar um instrumento e tirar o máximo deles. Já vi músicas hábeis, vibrantes, instigantes, dissonantes. Já vi telões espetaculares e outros nem tanto, mas cujas perfomances compensavam a ausência de imagens. No entanto, o que realmente se destacou no show do Roger Waters foi a intertextualidade vibrante de cada música entre si, dialogando com outras formas artísticas (o que seria uma ponte com a interdisciplinariedade), e a forma como elas levantam um muro de conceitos, revelando que todo homem se oculta atrás de uma parede de sonhos perdidos, de aspirações irrealizadas, de fraquezas mal-disfarçadas. O homem é o muro.

Neste momento, pausa para destacar as inúmeras alusões que uma ideia tão simples como “tijolo” pode conter. No show do “The Wall”, um tijolo pode não significar nada, mas muitos tijolos podem fazer um muro. Um tijolo pode ser tão concreto que parece indevassável, mas muitos tijolos são fracos como uma palha ao vento. Às vezes, a música diz que nós somos somente um tijolo no muro; em outras, ela apregoa que somos tão indestrutíveis quanto os tijolos de um muro. Todos os tijolos são iguais, mas cada um deles é diferente. Um conjunto de tijolos pode mudar tudo, pode consolidar uma situação existente; mas, um conjunto de tijolos também pode ser derrubado mais facilmente do que somente um tijolo (“together we stand; divided, we fall”).

Associando este conceito com as músicas, e estas com as imagens, o show acaba mostrando a fragilidade humana. Quando o muro é erguido, separando a plateia dos músicos, a sensação é de choque. Como podemos ver um show em que a banda se esconde, em que a música se protege? Mas logo o muro começa a romper. E, quando ele cai ao final, cada espectador sente que o muro que nos isola uns dos outros também desmoronou. O sentimento geral é que olhamos dentro do abismo e, no fundo, vimos um espelho negro. Mas conseguimos emergir, por que isto é da natureza humana.

O exército totalitário avança no muro

Mas até mesmo tijolos podem ter sentimentos. No caso de “The Wall”, tijolos possuem carne e também possuem mães. Ponto alto do show a interpretação de “Mother”, em que Roger Waters buscou um vídeo seu no passado, cantando a mesma música, e oscila passado e presente em imagens preto e branco. Grande sacada, passa toda a atmosfera de que nós somos ecos do próprio passado. Faz-me recordar uma frase de Martin Amis, que disse que, à medida que envelhecemos, nasce um continente novo no nosso interior, que seria o passado.

Outro grande momento do show é “Comfortably Numb”, que é, sem sombra de dúvida, uma das grandes letras da história do rock. Para mim, o trecho em que o cantor fala “my hands felt just like two baloons” é a descrição mais patética e desordenada de um estado de catatonia. Interessante que, somente assistindo o show, se entende que as duas vozes dialogando podem ser interpretadas como uma conversa entre fantasia e realidade, entre devaneio e verdade, entre vida e morte. Assisti várias filmagens e este detalhe me passou despercebido em todas, o que demonstra a minha tese de que este é um show para entender quando visto ao vivo. O próprio fato de uma das vozes ficar pairando, etérea, sobre a outra, separadas pelo muro, demonstra que o diálogo travado naquele segmento do show diz muito mais do que somente palavras.

A interpretação vigorosa de “Run Like Hell” também me surpreendeu, em especial pela violência quase catártica conferida à música, com Roger Waters disparando uma metralhadora na multidão (sons assustadoramente reais, algumas pessoas chegaram a se abaixar), o “porco voador” repleto de mensagens provocadoras deslizando sobre a plateia (não surpreende que uma vez ele tenha “fugido”, o porco viaja de um extremo ao outro do palco), as inscrições no muro gritando “you better RUN!”.

O professor e as crianças

Entre os vídeos postados no muro, um deles se destacou: a imagem da criança na escola que presencia o retorno do pai militar para casa, ao som da arrepiante “Bring the Boys Back Home” (não cantada, mas urrada com raiva juvenil por Roger Waters). É difícil captar emoção genuína com um olho eletrônico, mas foi o que aconteceu. O rosto da criança passa por uma rápida mutação, que começa na incredulidade ao ver o pai entrar na sala, passa para o espanto, modifica para a alegria e acaba no choro. Tudo em menos de 20 segundos, mas em uma eternidade de sentimentos. Quase todo mundo na plateia se emocionou.

Existem dezenas de momentos como este no show. No entanto, o que eu mais gostei foi que, inobstante o avanço tecnológico, inobstante a fartura de referências visuais, o que realmente prende a atenção das pessoas é a música e a história nela contida. História universal e, ao mesmo tempo, individual, de um homem fragmentado que junta os seus pedaços em um muro. Um homem que corrompe e distorce a natureza humana, mas sem perder a fragilidade. Algo que vale a pena ser contado, pois uma boa história nunca envelhece.

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Suspensão momentânea da descrença

Entro na lotação, sento e, quando ergo os meus olhos, vejo o seguinte cartaz:

Primeiro pensamento, que chamo de PENSAMENTO ABSURDO: “como foi que treinaram um canguru para fazer um filme?”. O segundo pensamento vem a galope e, por isto, eu o chamo de PENSAMENTO CONCRETO: “Cadê o canguru?”. Em seguida, a razão começa a espalhar os seus tentáculos no PENSAMENTO CONSCIENTE: “Só um pouquinho! Cangurus não filmam e, se filmassem, não seriam colocados dentro de uma lotação!”. Por fim, a razão se espalha e toma conta do meu corpo, à medida que o tranquilizador PENSAMENTO NORMAL se estabelece: “Ah, é a propaganda de uma empresa que faz segurança dos meios de transporte coletivo! Capaz que iam colocar um canguru para filmar as pessoas, no mínimo isto deve ofender alguma norma ambiental”.

Em um curto espaço de tempo, trafeguei do absurdo para a racionalidade. No entanto, sempre permanece um rescaldo do percurso imaginativo, pois fiquei com a desagradável sensação de que, se escolheram um canguru para colocar na imagem e utilizaram o verbo “pode” expressando uma possibilidade ainda que pequena de ocorrência, algum motivo deve existir. O cartaz não pode representar uma mensagem anódina, uma vez que não existem símbolos inocentes (não acredito que voltei a citar Bakthin de forma indireta, pois ele afirma que não existem palavras inocentes, ou seja, todas as palavras são carregadas de ideologia e de uma dose de verdade. Desculpem, mas continuo sem acreditar que estou citando Bakthin. Se eu precisasse de algum sinal de que o fim do mundo se aproxima, neste momento as luzes de emergência estariam piscando).

Em todo o caso, este percurso mental é a mesma atitude que se toma quando se lê um livro. É um fenômeno que foi descrito por Samuel Taylor Coleridge, que chamou de “willing suspension of disbelief” (suspensão momentânea da descrença). Pode ser sintetizado da seguinte forma: se um escritor consegue colocar interesse humano e um semblante de verdade em uma história fantástica, o leitor vai suspender  os seus julgamentos pessoais sobre a implausibilidade da narrativa e se concentrar na verossimilhança interna do jogo fantástico proposto pelo escritor.

Eu acho este conceito apaixonante. Na minha acepção, ele significa dizer que a ficção pode ter um estatuto de verdade próprio, independente da realidade que vivenciamos. Além de ser uma imitação da vida, se a suspensão momentânea da descrença for bem sucedida, o autor pode criar um simulacro de vida dentro do ambiente mais improvável. A arte pode mudar o mundo e, para isto, o artista precisa somente ser fiel ao objeto artístico.

No meu universo, não parece tão improvável que cangurus possam filmar pessoas. Sentado na lotação, eu realmente acreditei no desenho contido na placa, eu realmente acreditei que não seria impossível ver um canguru me filmando. E a frase abaixo do cartaz, dizendo que eu “posso” estar sendo filmado, me deixou com a convicção de que, um dia, ao entrar na lotação, eu finalmente encontrarei o canguru filmmaker. Ainda não tive esta sorte, mas, enquanto manter a descrença em estado de suspensão, esta realidade ainda é possível, qualquer realidade é possível.

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Eu tenho pena do Eike Batista

Cena urbana: no meu caminho para o escritório hoje, no meio dos carros, buzinas, fumaças e agitação, um mendigo estava placidamente deitado ao sol na confluência de vias que levam ao túnel da Conceição, o indefectível cachorro deitado nas proximidades espanando suas pulgas. Como Diógenes, o Cínico, ali devia estar um homem feliz. A própria ideia é um clichê absoluto, mas parecia ser um homem pobre e feliz. Detalhe interessante é que ele segurava um livro e estava lendo, curtindo o sol do início da manhã, o carrinho cheio de papel esquecido sobre o gramado.

Dentro da lotação, o motorista falava sobre o Eike Batista, o homem que tem 17 bilhões de reais, um dos seres humanos mais ricos do planeta. O motorista falava o quanto admirava a figura do Eike Batista e mencionou que o filho dele tinha atropelado e matado um ciclista dois dias atrás. Com uma certa inveja na voz, mencionou que a família deste ciclista morto iria ganhar um belo dinheiro de indenização. Na cabeça do motorista, um cara que ganha 17 bilhões de reais pode comprar qualquer coisa, até vida, e não seria espantoso que pagasse alguns milhões para livrar o filho da cadeia. Entretanto, não vou dizer para ele que, no belo Brasil, não é necessário muito dinheiro para um inquérito sumir ou ser arquivado, ou a mídia dizer que a culpa é do ciclista (sim, já disseram nos jornais de hoje), ou a família do morto silenciar rapidamente as suas preces e declarações. O motorista da lotação não sabe, mas não chegariam a algumas centenas de milhares de reais para tudo desaparecer – até a figura do ciclista. No final das contas, é bem barato.

Eu me recordo que, há questão de seis meses, li uma notícia na internet em que o filho do Eike, um cara de nome Thor Batista e de aparência nórdica, mencionava com orgulho que “nunca tinha aberto um livro na vida”. Lembro que, na época, esta declaração me chocou mais do que notícias de chacinas ou genocídios. Pensei que esta mácula na personalidade de um homem, de qualquer homem, era motivo de vergonha, e não de satisfação. Pensei que, se tal fato ocorresse comigo e eu nunca tivesse pego um livro, esconderia esta informação por toda a Eternidade. No entanto, a maior prova de que o cara nunca leu um livro é dizer tamanha bobagem em um veículo de mídia e achar que está agradando e, por este motivo, me apiedei do coitado. Sabe Deus como a sua vida deve ser chata, como os seus amigos devem lhe explicar piadas, como as comédias americanas devem ser difíceis para ele decodificar, como ele está condenado a ter belas mulheres, todos os artigos da sociedade de consumo, todos os rapapés de celebridades, e, ao mesmo tempo, não entender nada. Todo o dinheiro do mundo não compra a leitura de um único livro.

Talvez o fato dele não ler livros explique este acidente. Um homem que leu Dostoiévski, que saboreou Tchekhóv, que se perdeu nos labirintos de Borges, que desceu ao Inferno e subiu ao Paraíso com Dante, que atravessou o sertão com Guimarães Rosa, um homem deste quilate sabe o valor da vida. E sabe que a vida está além de qualquer componente monetário. E sabe que, depois de ter matado um homem, nada mais vai ser igual. E nem mesmo 17 bilhões de reais podem pagar uma respiração da pessoa morta.

Mas estes são os valores que a sociedade aprecia. E talvez este cara , o Thor Batista, sofra menos as consequências do seu ato por não ter lido: quem menos sabe, sofre menos. O que sei é que, neste exato momento, tenho muita pena do Eike Batista. Ganhou 17 BILHÕES de reais e não entendeu nada. Filipe II da Macedônia tinha conquistado dois países quando nasceu Alexandre; ainda assim, a primeira coisa que ele fez foi chamar Aristóteles para dar aulas para o seu filho. Ele sabia que Alexandre só seria alguém de valor se tivesse cultura e a História acabou confirmando esta sensação, atribuindo para Alexandre a alcunha de “O Grande”. Hoje, os pais ganham fortunas, enchem os filhos de mimos e comodismos e não mandam sequer eles lerem um livro. Um mísero livro.

Vale a pena ter uma quantidade enorme de dinheiro e não ter comprado um livro para o filho ler? Na minha opinião, não. Era melhor dar uma metralhadora para um chimpanzé do que legar uma fortuna para alguém tão perigoso. Este cara, o Eike, conseguiu ganhar 17 bilhões de reais e tem uma existência miserável, correndo atrás de mais e mais dinheiro, em um círculo vicioso que está condenado a não conseguir escapar. Tudo para o próprio filho servir de motivo de chacota secreta entre as mesmas pessoas que o idolatram, pois – podem me dizer o que quiserem – deve ser o inferno na Terra ficar próximo de alguém inculto e que se orgulha deste estado (eu imagino a pobre coitada que irá se casar com alguém assim e ser sentenciada a uma vida fútil, insossa e sem objetivos de crescimento pessoal). Pobre homem, pobre homem rico.

Retorno ao mendigo deitado na grama e lendo um livro. Ali está um homem de valor. Vale muito mais do que 17 bilhões. Seu nome nunca estará em nenhuma lista, talvez ele passe fome, frio ou outras necessidades, mas tem um livro na mão e, na pior das hipóteses, tem esperança. Na contabilidade da vida, vale muito mais ler um único livro do que não ler nenhum – independente da conta bancária.

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Filme: “Apollo 18”

A capa do filme promete... mas, se são aranhas, como deixam pegadas?

Não consigo definir se gosto ou não destes pretensos “filmes-documentários” que andam frequentando os cinemas atualmente. Às vezes eles funcionam, mas, na maioria das vezes, eles querem tanto parecer verdade que soam falsos, piegas e simplórios. Mas, pergunto eu, a vida não é assim também, a história contada por um tolo, repleta de clichês e de burrices?  Pois é.

Estou falando deste assunto por que assisti o filme “Apollo 18“, um “filme-documentário” que conta a história da Apollo 18, pretensa/verdadeira missão lunar que teria ocorrido nos anos 70. As viagens lunares se encerraram com a Apollo 17 e, em tese, não teria existido uma Apollo 18. O filme fantasia a última missão das naves Apollo e o que teria sido encontrado na Lua, realizando suposições sobre o motivo pelo qual não existiram mais pousos neste satélite.

A história chega a ser chata de tão enfadonha: grupo de homens vai para um lugar e se depara com criaturas misteriosas (somente vislumbradas) que os matam de forma impiedosa. Se tivesse sido feito com um grupo de jovens em uma estrada deserta, teria a mesma estrutura e seria mais fiel ao clichê. “A Bruxa de Blair” é um exemplo de “filme-documentário” que funcionou, na minha opinião.

O que realmente me incomodou – e muito – foi a “forçada de barra” para transformar o filme em algo cult, tecendo uma nova conspiração escondida pelo governo. Para isto, colocaram imagens dos discursos de Kennedy completamente dissociadas do restante do filme e criaram um site na internet onde esta teoria estaria exposta. Tudo ficou parecendo artificial e bobo. Os caras tinham que ter coragem para assumir que estavam fazendo uma obra de ficção ou, então, não cortar o ritmo tentando impor um site na internet (no início e no fim, vai que o espectador não tenha entendido), assim como colocando este discurso do Kennedy e, de forma bizarra, tecendo considerações sobre o destino “oficial” atribuído a cada um dos mortos na missão.

Existe um sério problema de narrador: as câmeras tiveram as imagens arranjadas, foi incluído um discurso do presidente americano da época e existiu uma suposta “denúncia” sobre o destino oficial atribuído pelo governo americano para estas mortes. Muito bem, quem contou isto? Quem colocou denúncias e imagens contrastantes? Quem colocou o site com as supostas denúncias? Quem selecionou as pretensas imagens e as colocou em ordem? Bem, é um narrador que tentou se esconder de forma muito inábil e, como um mágico cujo coelho cai da manga no meio do truque, ficaram evidentes estas falhas narrativas. O pior é que, diante de um narrador tão desajeitado, o filme acabou não sendo nem uma obra de ficção e nem um documentário. Ficou na metade do caminho dos dois e conseguiu a proeza de fracassar por igual nos dois lados. O narrador acabou trazendo desconfiança para as duas vertentes do filme, pois não se pode dizer com certeza que as imagens não foram manipuladas e, ao mesmo tempo, não se pode considerar como somente ficção algo que se tentou dar uma enorme aparência de verdade.

Na Grécia antiga, Aristóteles já falava sobre isto. Na “Arte Poética”, ele fala que é dever do poeta criar a representação de vida, a imitação, e nunca a própria vida. Se a imitação tiver verossimilhança interna, ela terá o seu pequeno estatuto de verdade, trazendo confiança e certeza para o leitor/espectador. No entanto, quando falha a verossimilhança, a imitação de vida vira um pastiche, fracassando redondamente em um dos postulados de qualquer ato artístico.

Não posso dizer que o filme foi uma experiência de todo desagradável, mas o resultado final foi decepção. Poderia ter ficado bem melhor se existisse algum narrador visível estabelecendo o caráter de ficção da obra. No entanto, da forma com que foi construído o filme, ele tentou forçar a situação, transformar-se em um movimento da internet e dos meios de mídia, e fracassou. A sua pretensão foi muito maior do que conseguiu realizar, e fica o lembrete: quem tudo quer, nada consegue.

P.S. talvez irrelevante – adoro quando colocam som no meio do vácuo no espaço. Isto sim seria matéria de um filme de terror, mais do que as aranhas que moram em pedras e deixam pegadas.

 

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Reflexões sobre “Antes da batalha”

Na semana passada, deixaram uma mensagem junto ao meu perfil no Facebook. O leitor – Humberto – traçou uma série de elogios a “O Homem Despedaçado”, mas chamou a minha atenção o interesse que ele possui pelo primeiro conto do livro, “À espera da batalha”. Com relação a este conto, após seguir o tradicional percurso de identificação de pessoas inventadas que figuram nas suas páginas (e mencionar outros que também poderiam estar na ilha) e destacar a figura do criador/autor e sua (ir)responsabilidade no ato de inventar, Humberto perguntou de qual batalha eu estava falando.

Nenhuma e todas, caro leitor. Na concepção do livro, eu afirmo que só existem dois momentos reais: aquele que antecede a batalha e aquele que a sucede. A batalha em si não existe: o que determina ela são os instantes imediatamente anteriores e os posteriores. Quando leio livros de História e das grandes batalhas do passado, observo que as batalhas são decididas antes de iniciarem e os gestos magnânimos ou desprezíveis acontecem depois. A batalha em si é uma confusão indeterminada, em que é difícil saber quem está ganhando ou perdendo, quem está em vantagem ou quem está acuado. Da mesma forma, os gestos heróicos e os comezinhos se dissipam no calor do momento, e todos os envolvidos agem praticamente por impulso de sobrevivência. Ou seja, sem reflexão, sem admiração, sem dúvidas. E os contos moram na dúvida, esta criação humana, não no instinto.

No entanto, existem outras interpretações possíveis. Aquela que eu mais gosto diz que a batalha é o meu livro de contos. Por este motivo, “Antes da batalha” e “Depois da batalha” estão separados do conjunto dos demais contos. Já me disseram que estes dois contos, como os pilares de um templo, também representam a vida e a morte. No primeiro conto, eu falo de um criador que fornece a vida de modo irresponsável, quase criminoso, subjugando as suas criações até ser desafiado por algo criado pelas próprias criaturas. Sair do ventre materno ou da caneta de um escritor também é lutar pela existência. No último conto, eu falo de um artista que retira a vida da sua criação, um ser misto Odin e Deus, um demiurgo punidor que, da mesma forma que uma Valquíria, leva os guerreiros para o descanso final após uma merecida celebração. Todo autor acaba o livro matando os personagens com o ponto final. São duas possibilidades de ver a vida e a morte.

Para terminar, menciono uma frase de William Faulkner, constante no livro “O som e a fúria” e que significa exatamente o que eu penso sobre batalhas:

Porque jamais se ganha batalha alguma, ele disse. Nenhuma batalha sequer é lutada. O campo revela ao homem apenas sua própria loucura e desespero, e a vitória é uma ilusão de filósofos e néscios.

Obrigado pela leitura, Humberto.

Este quadro, parte da pintura "A batalha de Avaí" de Pedro Américo, mostra o instante imediatamente anterior ao tiro que o General Osório vai levar na boca. No meio desta confusão, em que não se distinguem amigos ou inimigos, o artista deixa a dúvida: Osório foi atingido por um amigo ou por um inimigo? O ângulo da pintura permite deixar a confusão, pois um soldado de Osório poderia atingi-lo sem querer, da mesma forma que o inimigo mirando na sua frente.

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Livro: “As crônicas de gelo e fogo – Vol. 01: A guerra dos tronos”, de George R.R. Martin

Depois de tanto ouvir comentários elogiosos sobre a série “Crônicas de gelo e fogo”, escrita por George R.R. Martin, resolvi começar a ler este portento (nem me atrevo a calcular o número total de páginas para não desanimar) pelo volume 01, intitulado “A guerra dos tronos”.

Destaco que, além dos comentários elogiosos que ouvi vindo de pessoas acima de qualquer suspeita literária, também chamou a minha atenção a quantidade enorme de pessoas que vi carregando o livro pelas ruas ou lendo-o nos ônibus. Para fazer tanta gente ler um livro de vistosas 617 páginas, no mínimo eu devia esperar uma obra instigante.

Após o término da leitura, a minha sensação é de que todas estas pessoas me enganaram. Só posso ter sido vítima de alguma complexa trama internacional que pretendeu incutir a leitura deste livro na minha cabeça, trama esta que inclui dezenas de anônimos postados pelas ruas com exemplares do livro e chegou até a produção de uma série de TV pela HBO (a qual eu não vi).

Não percebi nada de especial no livro. É um romance estilo old school, enorme, caudaloso, repleto de personagens e subtramas a serem exploradas, mas somente isto. Balzac e Proust fizeram “romanções” deste tipo com muito mais qualidade e vivacidade. Cortázar fala que, se a literatura fosse uma luta de boxe, um conto ganha por nocaute e um romance ganha por pontos. No caso de “A guerra dos tronos”, a luta deve começar no ringue e prosseguir por toda a cidade com dois lutadores se estapeando e soqueando até muito depois dos limites da exaustão.

Contudo, a melhor definição foi firmada pela minha esposa, que disse que “As crônicas de gelo e fogo” constituem em um novo ramo literário, chamado “literatura obesa”. A história é realmente gordurosa, fibrosa, preenchendo os sentidos com muitas informações e pouco conteúdo, quase como um sanduíche do McDonald’s. Muito interessante esta definição, que mostra a obesidade se espalhando por todos os ramos sociais, incluindo as artes. Vou desenvolver mais este assunto no futuro.

Em alguns momentos, o livro ficou irritantemente mal-escrito, com um abuso impressionante de clichês, deuses ex-machina, descrições genéricas e a sensação de que o autor comprou um prato de espaguete e está espichando cada fiozinho para alimentar centenas de pessoas. Na minha opinião, quase todos os personagens são planos e óbvios (a menina revoltada, a orfã abusada, o princípe malvado, a rainha conspiradora, o rei bonachão, o nobre de consciência limpa), transformando o elenco que surge no livro em uma sucessão de arquétipos literários/cinematográficos. Os próprios conflitos surgidos no livro demandam soluções simplórias. Como a HBO deve ter constatado, este é o legítimo caso de livro que pode virar um filme melhor ainda se for condensado em algumas cenas.

Entretanto, continuo destacando a quantidade de pessoas que elogiaram o livro nas redes sociais, pessoas que eu considero excelentes leitores. Pensando melhor, grande parte dos elogios deve ter surgido do fato de que a HBO iniciou uma série tratando deste livro. Contudo, pensar assim é praticamente dizer que, se uma rede de televisão selecionou um livro para ser filmado, ele atingiu o Olimpo da Literatura. O fato que passa pela minha cabeça é uma sensação de “colonialismo literário”. Suspeito que estas pessoas que elogiaram o livro viram seus congêneres americanos elogiando e simplesmente transplantaram os elogios para o Brasil, gerando uma série de leitores interessados por um material que, acaso tivesse sido lançado aqui, estaria condenado aos fundos das prateleiras dos sebos. Vale a pena refletir sobre esta dúvida: o quanto ainda não somos dependentes da “metrópole”. Este percurso foi feito pelo Silviano Santiago, pelo Roberto Schwarz e por tantos outros, mas a discussão continua atual.

Mas nem tudo é desgraça. Se eu pudesse salientar alguma coisa no livro, destacaria que, em uma trama tão caudalosa e que atira para tantos lados, é impossível não se identificar com a história de parte das dezenas de personagens e desejar ver o que vai acontecer com eles. Eu me interessei pelo destino de alguns, em especial vilões. Minha mulher – que leu toda a série até o momento e está cheia de spoilers – disse que é melhor eu nem me interessar muito, pois a mortandade de personagens é grande. Talvez o mais surpreendente seja o anão, responsável pelas grandes tiradas cômicas do livro em razão da sua perspicácia, mas me deixa um pouco desconfortável o clichê de “personagem deficiente que troça da própria deficiência e utiliza a inteligência como maior arma”.

Também é importante deixar claro que, em um livro desta magnitude, talvez a proposta seja realmente ler, ler, ler, e se perder nas intrincadas curvas e labirintos da história. Talvez o grande objetivo do George R.R. Martin seja um romance que fale sobre TUDO, ao contrário do sonho de Flaubert, que era realizar um romance sobre nada. Também existe a possibilidade de todas as pessoas serem grandes clichês ambulantes e que todas as histórias já foram escritas, cabendo ao seres humanos realizar um grande revival de dramas requentados… pode ser.

Reconheço o mérito existente em uma história sem grandes pretensões além do desejo de pegar um novelo de tramas e deslindá-las devagar, ao longo de nove volumes. Entretanto, sei que é um livro que lerei desta vez e não terei grande interesse em retornar a lê-lo, ao mesmo tempo que sinto que lembrarei genericamente das tramas e dos personagens. Ao contrário do que imaginava, esta perspectiva não me entristece, pois sei que é um livro para ser consumido e que pouco acrescentará para a mninha biblioteca interna – além de gordura literária. Qualquer tipo de leitura vale a pena – até a insípida.

Um último detalhe. Chama a atenção que, apesar de ter visto um sem-número de pessoas comentando e lendo o livro um da série, não vi ninguém comentando ou lendo o volume 2 e os subsequentes. Duas possibilidades: ou a overdose de leitura do volume um exauriu os leitores ou o financiamento invisível das hordas que me convenceram a ler “A Guerra dos Tronos” acabou.

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