Arquivo do mês: setembro 2016

Obras Inquietas – 01: “O Jardim da Morte” (1896), de Hugo Simberg

Antes de começar, uma breve explicação: a Aline Pascholati, do Artrianon – https://artrianon.com/ – me convidou para escrever uma coluna sobre arte. Não sei nada de arte, não tenho conhecimentos teóricos o suficiente, mas notei que as obras que ficam na minha memória são aquelas que, de uma forma ou de outra, me transmitem inquietude, desconforto, inadequação. Toda obra de arte desperta isto, mas algumas me tocam de um jeito diferente e acabam se tornando mais memoráveis, e a razão disto nem eu sei direito, mas espero descobrir. Por isso, o nome da coluna é “Obras Inquietas”, e nela mostrarei pinturas, esculturas, fotografias, músicas, danças, quadrinhos, objetos e até livros que me deixaram inquieto, ao passo que, em pequenos textos, tentarei desconstruir meus receios.

O homem é pequeno, ainda que a ambição seja grande. Pretendo chegar a 1000 obras (ou seja, 1000 inquietudes), mas o que eu conseguir fazer – e tiver forças – estará ótimo. E quem quiser contribuir com as próprias perplexidades, sinta-se livre para me indicar autores e obras que vou agregando os desconfortos de vocês aos meus.

Talvez mil seja uma estimativa modesta, afinal de contas.

Espero que gostem. No primeiro texto, “O Jardim da Morte”, do pintor finlandês Hugo Simberg.

 

01. “O Jardim da Morte” (1896), de Hugo Simberg

 

Hugo Simberg, "O Jardim da Morte"

Hugo Simberg, “O Jardim da Morte”

 

No Jardim da Morte, jaz a Vida. A Morte cuida bem das vidas que trouxe ao mundo. Jardineira hábil, apara arestas, rega as plantas ainda no seu início, permite que elas se desenvolvam e até mesmo frutifiquem. No entanto, também possui caprichos: se achar que alguma planta não se desenvolve da maneira esperada, ela a corta sem piedade e parte para outra semente, outra vida para chamar de sua. Ela possui seu próprio Tempo, e sua Vontade é soberana e sem motivo algum que não seja o de ter uma flor mais bonita do que as dos outros canteiros. “Seja uma boa plantinha”, sussurra a Morte com sua voz cheia de dentes ossudos, e a Vida estremece diante do olhar da Ceifadora. A Morte caminha pelo jardim, cumprimentando as outras Mortes que cuidam das respectivas plantinhas. Às vezes, para perto de um canteiro e conversa com a irmã sobre adubos, estimulantes, pragas e venenos, contemplando com olhos distraídos a vida que se desenrola, lenta, valente, trêmula, no solo nem sempre favorável da existência. Apesar do medo de estar sempre diante do olhar atento de várias versões de uma única Morte, a Vida cresce, passando de semente para muda ainda instável, dela para o viço cheio de alegria verde da adolescência e, a seguir, a maturidade repleta de experiência que contempla com destemor o vento a sacudir as vidas próximas, a chuva que dá alívio e aterroriza, o calor tíbio e o frio hesitante que insistem em lhe dobrar, até o momento em que tudo que a planta consegue pensar é quando os dedos sem alma, que tanto sonharam belezas e glórias para ela, virão enfim colhê-la, depositando um beijo frio nas pétalas cansadas.  No Jardim da Morte, a Vida espera o momento da colheita.

 

Texto originalmente publicado em https://artrianon.com/2016/09/29/obras-inquietas-01-o-jardim-da-morte-1896-de-hugo-simberg/

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Arquivado em Arte, Crônicas, Hugo Simberg, Impressões, Obras Inquietas, Produção Literária

Texto publicado na revista eletrônica da Dublinense (29/09/2016): “Aqueles que não podem morrer em paz”

Na minha coluna no Medium da Dublinense dessa semana, eu falei sobre algumas pessoas que não conseguiram terminar tudo o que planejavam em vida e, por isso, tiveram que voltar dos mortos para encerrar a sua lista de tarefas. Às vezes, a morte não é um descanso, mas um leve obstáculo para terminar as nossas obrigações.

Aproveito para reclamar da concorrência desleal que os escritores mortos fazem com os vivos no caso dos livros espíritas (poxa, como vamos competir com Olavo Bilac? Os espíritos não precisam trabalhar, comer, respirar, podem passar o dia inteiro escrevendo, e isso é muito injusto); falo de Arthur Conan Doyle e do seu engenhoso plano para ou provar a existência do Espiritismo ou impedir que obras espúrias surgissem em seu nome depois da morte; conto de como Dante Alighieri morreu e só então notou que não tinha mandado o final da “Divina Comédia” para o seu patrono, e a forma que ele encontrou para terminar o livro, e encerro contando a história de Simonetta Vespucci, a Musa Persistente, que, mesmo depois de morrer, continuou incomodando Sandro Botticelli, tudo para dizer que nem a morte salva os procrastinadores da sua lista de tarefas por fazer.

Boa leitura!

 

Aqueles que não podem morrer em paz

 

Não faz muito tempo, eu disse que a melhor parte de ir para o mundo dos mortos será parar de escrever. Não me interpretem mal, não tenho problemas com a literatura e nem penso em morrer tão cedo, mas imagino a morte como um espaço sem necessidade de escritores, um grande silêncio em que as histórias que ficam se esboroando como ondas nas paredes do meu crânio enfim encontrarão o seu término. Um lugar em que as histórias serão felizes, cada uma do seu jeito, sem mais precisar de um veículo humano e falho a carregá-las por aí como uma bagagem excedente. Pois a minha memória é formada por histórias que vivi, que escrevi, que sonhei e que ainda não tive tempo de escrever, e todas elas ficam se batendo na caixa craniana como carrinhos em um parque de diversão.

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É evidente que a vida logo tratou de desmentir meu idílio impregnado de utopia, pois, passeando por uma livraria, acabei me deparando com a prateleira de livros espíritas e várias obras ditadas por escritores diretamente do além. Não vou entrar no mérito da justiça ou não de tal agir dos colegas mortos: eles tiveram seu tempo na Terra, e me parece injusto que estejam estabelecendo uma concorrência predatória do além-túmulo, onde não precisam comer, respirar ou trabalhar, podendo passar o dia a escrever e a burilar o estilo. Isso sem contar que eles podem pedir dicas literárias para outros escritores mortos, o que deixa a competição ainda mais desanimadora. Quando vi a prateleira, logo imaginei uma mesa no outro lado da existência tomada por escritores a redigir furiosamente nas suas máquinas, sendo assessorados por um time de notáveis como Machado de Assis, Olavo Bilac, Guimarães Rosa… E sem ganhar nada, só pelo prazer genuíno de escrever sem dar atenção para críticos ou veleidades do mercado. Se já é difícil escrever no mundo atual (e ter leitores mais ainda), imaginem este tipo de concorrência vinda do além.

Eu não quero continuar escrevendo por toda a Eternidade. Por favor, depois que eu morrer, não me chamem. O que eu tinha para escrever, farei em vida, não pretendo ficar o resto dos Tempos azucrinando a paciência alheia.

Talvez eu faça como Arthur Conan Doyle. Nos seus últimos anos de vida, o criador do detetive Sherlock Holmes fascinou-se pelo espiritismo, em especial depois do falecimento da sua esposa, filhos, netos e até mesmo cunhados. Estava em profunda depressão, e foi o Espiritismo que acabou lhe dando forças. Conan Doyle passou a frequentar sessões espíritas com assiduidade, tornando-se um dos seus maiores defensores. Escreveu livros e textos sobre o assunto.

A sua briga com o mágico Harry Houdini, com quem mantinha uma forte amizade, acabou se tornando épica. Houdini não acreditava no Espiritismo, dizendo que os sons, luzes, batidas e eventos estranhos ocorridos nas sessões espíritas eram truques bem elaborados. Conan Doyle discordava e, tentando convencer o amigo, costumava levá-lo a sessões espíritas, mas Houdini aproveitava essa ocasião para tentar expor a religião ainda nascente como uma farsa. A amizade acabou com brigas e reclamações mútuas quando o escritor inglês afirmou que o mágico não fazia truques, mas tinha mediunidade em grau moderado. Ou seja: Houdini era aquilo que combatia, e não queria que os outros soubessem.

Arthur Conan Doyle e Harry Houdini

Arthur Conan Doyle e Harry Houdini

No meio de toda essa defesa do Espiritismo e pregações públicas pela sua validade, chegou um momento em que Conan Doyle constatou que também iria morrer. Neste caso, se o Espiritismo fosse uma farsa como diziam, o mercado seria inundado de obras falsas atribuídas a ele, que sequer poderia negar, posto que estava morto e era um defensor ardoroso de tal prática religiosa. Ao mesmo tempo, o escritor pensou em unir o útil ao agradável e usar a própria morte como uma maneira de provar a existência em definitivo do Espiritismo.

Conan Doyle bolou um plano intrincado, ao melhor estilo dos desenvolvidos por Moriarty. Ele chamou três amigos de confiança e deu para eles uma palavra chave que somente ele e os três conheceriam. Após a sua morte, tais pessoas deveriam ir nas sessões espíritas e, se algum espírito se identificasse como Conan Doyle, deveria fornecer a senha. Acaso dissesse a palavra secreta, ali estaria a alma do escritor pronta a contar as suas peripécias no outro lado da vida.

Até hoje não se sabe qual seria a palavra chave. Depois da morte de Conan Doyle, seus amigos andaram por sessões espíritas procurando-o, mas nenhum dos médiuns informou a senha correta.  Muitos problemas podem ter ocorrido, desde Conan Doyle estar falando a palavra chave na sessão espírita errada até ele ter esquecido dita palavra, não se sabe o que resta da memória depois que morremos. Conan Doyle tentou enganar a Morte e provar a existência do Espiritismo, mas acabou conseguindo – por via indireta – o silêncio eterno, eis que ninguém lança obras se identificando como o famoso criador do detetive residente no número 221B da Baker Street, pois não foram oficialmente chanceladas pela palavra chave apta a demonstrar a autoria.

Mesma sorte não teve Dante Alighieri. A morte acabou surpreendendo o escritor florentino antes da hora, deixando-o com um grave problema a resolver: a “Divina Comédia” estava concluída, mas ninguém sabia. Dante terminou a sua obra máxima e morreu antes de anunciar tal fato ao mundo, o que deixaria a “Divina Comédia” no rol das grandes obras literárias que nunca foram finalizadas. Isso não era nada justo.

Para um escritor, é terrível a ideia de ser interrompido no meio do ato de escrever uma história. Só consigo imaginar o pavor de Dante Alighieri que, depois de quase 20 anos dedicado à escritura incessante da “Divina Comédia”, depois de arquitetar 100 cantos, milhares de versos hendecassílabos em terceto e elaborar toda uma história que fizesse sentido e tivesse personagens inesquecíveis, é surpreendido pela malária em uma das estradas próximas a Ravena e morre, deixando inconcluso o trabalho para o qual tanto se dedicou.

É Boccaccio quem conta a história de como Dante Alighieri deu um jeito de colocar o ponto final na “Divina Comédia”. À medida que a obra chegava ao final, talvez com medo que algum incidente acontecesse com suas anotações, Dante passou a enviar os cantos encerrados para o seu patrono, Cangrande della Scala. Foi assim que o homem recebeu toda a obra, com exceção dos últimos 13 cantos do “Paraíso”, que Dante morreu antes de enviar.

Imaginou-se que a obra tinha sido definitivamente perdida pela morte prematura do seu autor. Os filhos e discípulos de Dante procuraram os cantos restantes entre os papéis que o florentino deixara para trás, sem achar nada, e ficaram “enraivecidos porque Deus não lhe permitira viver no mundo o bastante para ter a oportunidade de concluir o pouco que faltava de sua obra”.

Dante não podia sossegar enquanto não terminasse a sua obra máxima e resolveu se atribuir o papel de “deus ex-machina” do próprio livro. Em uma noite, Jacopo, terceiro filho de Dante, sonhou que o pai entrava no seu quarto, vestido com uma bata branca e com a pele ostentando uma leve luminescência. Segundo o depoimento dado a Boccaccio, Jacopo perguntou ao pai se ele ainda estava vivo – uma pergunta típica de quem é pego de surpresa no meio da noite – e Dante respondeu, em tom exasperado, que estava sim, na vida verdadeira, não a nossa. Isso lá é pergunta que se faça para um fantasma?

Em seguida, o filho do escritor perguntou se ele conseguira terminar a “Divina Comédia”. Dante sorriu: “sim, eu a terminei”. Levou Jacopo até o seu antigo quarto de dormir, colocou a mão em um ponto da parede e disse “aqui está o que vocês procuram há tanto tempo”. Quando o jovem acordou, chamou seus irmãos e eles quebraram a parede, descobrindo um nicho com os 13 cantos finais do livro envoltos em um pano que começava a mofar. Mais um pouco e a “Divina Comédia” teria sido perdida de vez.

Boccaccio encerra a narrativa com uma frase admoestatória: “Assim, o trabalho de tantos anos de Dante Alighieri foi concluído”. Mesmo morto, o maior escritor italiano não conseguiu descansar sem concluir a sua obra mais importante, e encontrou uma maneira de deixar os Campos Elíseos para vir terminar com a história que outrora começara. O dever maior de Dante não era com a vida ou com a morte, mas com a narrativa, e ele não podia deixá-la incompleta.

Existe algo de vaidade aí: alguém vencer a Morte por um motivo tão egoísta quanto provar a existência do Espiritismo ou concluir um livro. É preocupante imaginarmos que existem pessoas determinadas a não morrerem enquanto não terminarem com as tarefas que deixaram inconclusas, mas também existem pessoas que não se permitem morrer enquanto não virarem lendas.

Esse foi o caso de Simonetta Vespucci, a musa – ou, dependendo do ângulo, maldição – do pintor renascentista Sandro Botticelli. Não vou entrar nas invejáveis credenciais pessoais dela, que foi prima de Américo Vespúcio e amante de Juliano de Médici. O que realmente a transformou em alguém inesquecível foi o fato de que, mesmo tendo só 23 anos quando morreu de tuberculose, o fantasma de Simonetta Vespucci nunca mais parou de atormentar Botticelli.

Antes, um parênteses: aos 16 anos, ela foi escolhida, pelos nobres e artistas da época,  como a mulher mais bonita de todo o Renascimento. Transformou-se na musa dos maiores pintores de então: quadros foram feitos usando-a como modelo, assim como esculturas. Juliano de Médici, em um torneio de justa, entrou na arena ostentando um banner com uma imagem de Simonetta como Palas Atena. Ao vencer o torneio, ordenou que a mulher fosse coroada como “A Rainha da Beleza”.

Simonetta Vespucci

Simonetta Vespucci

Botticelli a conheceu e, como não podia deixar de ser diante de beleza tão inspiradora, apaixonou-se perdidamente. Nunca concretizou de forma física este amor, pois Simonetta era amante de um Médici, e não era nada prudente envolver-se com tal família. Ainda assim, Botticelli inspirou-se nela para começar uma série imensa de pinturas cujas personagens femininas tinham os traços de Simonetta Vespucci, sempre nos mais variados cenários mitológicos. Basta colocar o olho em uma obra do pintor de Florença e veremos algum traço da mulher a nos contemplar mais de 500 anos atrás.

Contudo, a musa do Renascimento morreu de tuberculose, ainda jovem. Outras mulheres assumiram o posto de mais bela da época, tornando-se seu modelo de beleza, mas não para Botticelli, pois a imagem de Simonetta continuou a lhe perseguir. O pintor passou a ser assombrado pela recordação da outra, que, de tão persistente, ele só conseguia exorcizar fazendo aquilo que melhor sabia: pintando.

Foi assim que as figuras femininas de “A primavera” (1482) e “O nascimento de Vênus” (1483), algumas das obras mais famosas de Botticelli, ostentam efígies de Simonetta Vespucci, a musa persistente. Se hoje conhecemos os traços fisionômicos dela, isso se deve graças à precisão do pintor que, para afastar o fantasma da bela mulher, desenhava-a de forma compulsiva.

Existem críticos que consideram tal insistência uma lenda ou uma limitação técnica do pintor de Florença, mas não se pode olvidar que todas as mulheres que ele retratou possuíam traços que remetem a uma única mulher. Tão grande se tornara a sua obsessão que, ao morrer, Sandro Botticelli pediu para ser enterrado aos pés da tumba de Simonetta Vespucci, na Igreja de Todos os Santos, em Florença. A mulher venceu a morte para que um do maiores artistas do período imprimisse o seu rosto à tinta e névoa em meio aos seus quadros.

Muitas pessoas evitam falar da morte ou possuem verdadeiro terror dela. Desculpem o spoiler, mas, no final da vida, sempre morremos, com exceção daquelas pessoas que conseguem burlar a Morte usando imaginação e criatividade, tudo para não deixar a sua passagem pelo planeta desaparecer em vão. Para não termos que deixar assuntos pendentes para depois da morte, nada mais oportuno do que aproveitarmos bem a vida e todas as suas possibilidades. Portanto, se alguém quer escrever uma “Divina Comédia”, faça de uma vez; se quer ser a musa inesquecível de alguém, lute para chegar a tal status, faça com que a graça seja maior do que a beleza; se alguém quer evitar o mau uso do seu nome e da sua reputação, tomem providências agora. Não deixem para outro dia o que se pode fazer hoje, pois, um dia, será realmente o último, e deixar tarefas, palavras ou sentimentos incompletos é algo abominável.

Texto originalmente publicado no link https://medium.com/colecao-dublinense/aqueles-que-n%C3%A3o-podem-morrer-em-paz-6193e161ff8b#.51wcfk4y3

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Arquivado em Arte, Arthur Conan Doyle, Dante Alighieri, Sandro Botticelli, Simonetta Vespucci

Texto publicado na revista eletrônica da Dublinense (15/09/2016): “Precisamos de mais dúvidas”

Na minha coluna dessa semana no Medium da Dublinense, eu falei de como é bom ter mais dúvidas do que certezas em meio a um mundo que privilegia respostas.

Aproveitei para contar algumas histórias, como a da Igreja dos Jacobinos, em Toulouse, na França, que, atrás do relicário com os restos mortais de São Tomás de Aquino, esconde um segredo de várias gerações; também falo da incrível história real de Kcymaerxthaere, uma realidade alternativa que está sendo construída debaixo da nossa – e agora adquiriu vida própria e descontrole, espalhando-se em silêncio pelo mundo; termino contando a história de um escritor que não sabemos ainda se existiu ou não, François Villon, o qual, na sua curta vida, por ser um péssimo ladrão e um assassino sanguinário, passou tanto tempo na prisão que acabou escrevendo a sua obra inteira nos intervalos das torturas, obra que se encontra na origem de boa parte das escolas literárias posteriores, do maneirismo ao classicismo, tudo para concluir que o mistério é muito mais excitante do que encontrar respostas para tudo.

Boa leitura!

 

Precisamos de mais dúvidas

 

Não deixa de ser um sintoma dos nossos tempos o fato das pessoas preferirem a certeza relativa das respostas ao delírio repleto de loucura que caracteriza as perguntas. Mais do que buscar explicações, deveríamos ir atrás do mistério, daquilo que não vemos e, ainda assim, existe. As perguntas são desafiadoras, enquanto que as respostas são carregadas de conformismo e placidez. Perguntas são leões famintos correndo atrás de gazelas; respostas não passam de paquidermes se dourando ao sol à espera da comida entrar na própria boca.

Estamos ansiosos demais por respostas. A internet nos deixou acostumados a buscar explicações para tudo, outras versões, contrapontos, análises minuciosas, vídeos, gráficos, diagramas. É frequente ver, em palestras, pessoas digitando nos celulares em busca de novas informações sobre o que acabei de falar, quando era tão mais simples perguntar. Nem sempre é bom ter acesso à sabedoria, ao conhecimento. Também existe magia em não saber algo – tentar desvendar algo nos leva a outros níveis de reflexão.

No centro de Toulouse, na França, está localizada a Igreja dos Jacobinos. Construída no início do século XIII, também foi usada como sala de aula, ginásio de esportes, alojamento de soldados e museu. Somente após a I Guerra Mundial ela voltou a ser empregada como igreja e, entre os seus tesouros, encontra-se o relicário contendo os restos de São Tomás de Aquino, um dos santos-filósofos mais importantes da Igreja Católica.

No entanto, pouca gente sabe que, debaixo de um pilar duplo da Igreja dos Jacobinos, alguns metros atrás do relicário de São Tomás de Aquino, esconde-se uma pergunta que jamais será respondida: um homem esmagado. Só conseguimos ver as mãos de gesso e os pés sobrepostos, não seu rosto ou características do corpo. É bem possível que sequer corresponda a um corpo, talvez seja uma estranha homenagem deixada no interior da igreja pelo seu construtor ou pelos pedreiros.

Pilar na Igreja dos Jacobinos, em Toulouse, França

Pilar na Igreja dos Jacobinos, em Toulouse, França

Por muitos anos, tentou-se buscar uma resposta para o homem esmagado pelos dois pilares. Não existe nenhum documento registrando o motivo, e não se sabe sequer se os responsáveis pela construção da Igreja dos Jacobinos tinham conhecimento da escultura deixada com discrição diante dos seus olhos. O homem esmagado não possui nenhuma explicação e, por isso mesmo, possui todos os motivos do mundo para estar ali.

Também existe ironia em um enigma insondável estar tão próximo de são Tomás de Aquino, o homem que desvendou justamente o mistério da Santíssima Trindade, o responsável pela frase que constitui a base de qualquer método científico: “Dê-me, Senhor, agudeza para entender, capacidade para reter, método e faculdade para aprender, sutileza para interpretar, graça e abundância para falar, acerto ao começar, direção ao progredir e perfeição ao concluir.”

Não precisamos responder uma dúvida. Podemos acalentá-la, deixá-la crescer, espalhar-se de forma exponencial e ser o germe para novas e excitantes questões. Se não existissem pessoas capazes de preservar mistérios como faziam as vestais na Roma Antiga, não existiria a arte, essa trabalhosa maneira de plantar inquietações nos espíritos alheios. Não foram poucas as vezes em que, ao tentar respondermos algo, a dúvida de origem acabou sendo o início de uma revolução.

Da mesma forma que o homem esmagado de Toulouse, as pessoas nem suspeitam que, neste exato momento, existe um mundo paralelo sendo esculpido dentro do mundo em que vivemos. A intenção desta realidade alternativa é clara: um dia, ela pretende substituir o nosso universo. Dentro da velha Terra onde moramos, encontra-se um mundo inteiro sendo gestado, ansioso para vir à tona e nos destruir.

Esse outro local chama-se Kcymaerxthaere e, assim como o nosso, está repleto de histórias. Elas são tão fortes que acabam transbordando para a nossa realidade. No momento em que escrevo este texto, existem 59 pontos de intersecção de Kcymaerxthaere com o nosso mundo, todos representados por placas relativas a eventos, estátuas, locais históricos, batalhas, grandes derrotas, que aconteceram nesse universo paralelo.

Aqui na Terra, caminha entre os humanos Eames Demetrios, que é o elo de ligação entre os dois mundos, registrando no nosso planeta os eventos acontecidos em Kcymaerxthaere. Elas assumem a forma de placas, que estão em locais tão díspares quanto uma colina na Islândia, um terreno baldio em Singapura, um jardim no Japão e uma praça na Espanha. Essa última placa fica em Madrid, na Plaza de La Luna, e conta a história do evento que se sucedeu no mundo paralelo, e que transcrevo aqui:

““Hoy la llamamos la Plaza de la Luna pero su nombre original era Plaza de las Lunas, debido a que el resplandor de éstas demarcaban los límites de la plaza. En los tiempos de Kcymaerxthaere, cada 257 órbitas de nuestra luna visible, convergían en este lugar, eclipsándose, las 29 lunas visibles de las 29 dimensiones alternativas (cada una simbolizando los 29 infinitos negativos de cualquier xthaere), todas ellas en su plenitud (algunas eran más grandes que nuestro planeta), reunidas en este espacio. Esta conjunción de fuerzas puede ser la causa o La consecuencia de que esta Plaza sea un portal insólito de incalculable valor, una puerta aparentemente pacífica hacia La umbraesfera, la conexión entre todas las sombras, la oscuridad y las penumbras de este planeta que llamamosTierra.

Esta plaza era antaño peligrosa, ya que las distintas series dimensionales de sombras encadenaban sus zonas más oscuras, formando una ruta de viaje poderosa en la umbraesfera, que era transitada por los viajeros más audaces para evitar las ywrengs (fronteras del tiempo). Fueaquí, en la Plaza de lasLunas, donde Nobunaga-Ventreven, recién llegado de los gwomes de liquen, em el que denominamos Soria, siguió La ruta más veloz a Segoleno, un sitio tan inaccesible como remoto, pero que, una vez que se llega, el viajero se encuentra paradójicamente cerca de cualquier otro punto del universo. Allí, tuvo lugar el encuentro con Eliana Mei-Ning, La mujer de la voz inconcebiblemente bella, dejando su huella em La Batalla de Some Times (Algunos Tiempos), donde Kmpass, el Urgende Dios de la Direccionabilidad, fue derrotado cuanto intentó destruir toda La complejidad del mundo. Es función y deber de la Plaza de la Luna preservar la riqueza de Kcymaerxthaere, por ello celebramos aquí cada año lineal la gloria y el claroscuro que define al Festival de las Lunas Restadas.”

Placa de Kcymaerxthaere, em Víddaflakk

Placa de Kcymaerxthaere, em Víddaflakk

Soa incrível que um mundo esteja surgindo do interior do nosso, mas esse não é o detalhe mais interessante. Kcymaerxthaere é uma realidade alternativa criada através de narrativas e, como todos sabem, as histórias são incontroláveis, rebeldes, violentas. Elas se encontram e estabelecem relações novas e, assim, talvez não seja tão surpreendente o fato do mundo paralelo ter escapado do controle do seu criador. Algumas placas que surgiram no mundo dizem respeito a histórias inéditas. O mundo alternativo, em um canibalismo criativo, agora se dedica a criar as suas próprias narrativas, sem controle algum – selvagem.

Ninguém sabe exatamente como isso está acontecendo, mas Kcymaerxthaere cresce em ritmo acelerado e, em breve, a tendência é que comece a substituir pequenos trechos da nossa realidade. É o legítimo caso em que fazer perguntas pode acabar nos levando a respostas indesejadas. Melhor ficar na ingenuidade da ignorância.

Assim como existem lugares com mistérios feitos de pedra e realidades alternativas que espreitam nossos passos, também existem algumas pessoas que não são realmente reais. Vale perguntar o que transforma uma pessoa em real: o fato dela ter CPF, endereço, família, amigos, um nome? Todos são elementos muito circunstanciais para afirmar que, no mundo, só existem seres humanos reais. É claro que alguns homens e mulheres inventados estão caminhando por aí, misturados a seres de carne e osso como eu e – acredito – parte significativa de vocês.

François Villon (1431 – 1463) foi um escritor que, mesmo tendo deixado obra, ninguém sabe se chegou a existir. Na tradição de Shakespeare e Homero, é uma daquelas pessoas que deixaram obras mais vistosas do que uma vida real. No entanto, a peculiaridade que o diferencia de outros escritores de existência duvidosa é ainda mais frágil – ninguém sabe ao certo se Villon realmente existiu. Temos evidências circunstanciais – um registro de matrícula em um colégio, uma sentença de trabalhos forçados, menções em cartas -, mas são tantos nomes diferentes considerados como variações do seu que também podem se referir a outras pessoas que não sejam esse poeta francês.

A própria vida de François Villon é incrível demais para ser verdadeira. A ausência de detalhes é tão significativa que a tentação de imaginá-lo como ser ficcional torna-se mais verossímil do que aceitá-lo como ser humano. Para começar, Villon passou toda a vida sob as graças de alguns dos mais influentes e poderosos nobres da França, tais como Guillaume de Villon e o duque de Orléans, que não só perdoavam as suas desfaçatezes como ainda lhe conseguiram dinheiro e posição social na corte. Ao mesmo tempo, Villon era um rematado criminoso, e quando uso essa expressão é no sentido dele ter sido um poeta que realmente gostava da vida ilícita. Nos seus primeiros anos de vida, ele fundou um grupo de delinquentes juvenis especializados em roubar viajantes desavisados. Depois começou a carreira individual de assaltante, passou a planejar roubos cada vez mais intrincados e, enfim, tornou-se um assassino frio e calculista.

François Villon

François Villon

De forma paradoxal, o poeta não era um criminoso muito esperto, e foi preso várias vezes. Passava mais tempo em masmorras e calabouços do que solto. Também existem evidências de que ele não só tenha sofrido violências nas prisões, como também experimentou todas as torturas possíveis e imagináveis que então existiam. Villon era o legítimo “bad boy” da sua época, muito antes de outros escritores mais badalados reivindicarem tal posição, considerando-se “malditos”. Assim, como passava muito tempo entre a corte e a prisão, François Villon aproveitava os momentos de ócio na cadeia para escrever poesias, e a sua obra nasceu dentro dos cárceres franceses, nos intervalos de torturas e audiências com juízes.

Em determinada ocasião, François Villon foi inclusive condenado à morte, e escreveu uma das suas poesias mais famosas, “A Balada dos Enforcados”, planejando-a usar como seu epitáfio. Esse poema tanto é provido de extremo lirismo e inquietude sobre o fim quanto de um humor irônico muito incomum para o período. Contudo, a pena de morte acabou sendo comutada para dez anos de banimento. Quando saiu da prisão, a lenda nasceu, pois o poeta sumiu e nunca mais foi visto. A partir de então, Villon se multiplicou: foi visto em brigas em tavernas; roubou nobres em um jogo de cartas; engraçou-se com uma mulher casada e com a filha dela – ao mesmo tempo; teve filhos e começou uma carreira respeitável como alfaiate (ou padeiro, há divergências também nesse ponto); esteve por trás de todas as artimanhas políticas do período; viajou para a Inglaterra como agente secreto do trono francês.

Como desapareceu sem deixar vestígios, o poeta acabou se transformando em um fantasma e, com o passar dos anos, suas evidências físicas cessaram de existir, mas a obra sobrevive. Os poemas de François Villon notabilizam-se por oscilar da linguagem mais vulgar às construções mais eruditas; conseguem opor, dentro de uma sequência de versos, o mais sublime nível de consciência humana às necessidades mais toscas. Não suficiente, estão na origem de quase todas as escolas literárias posteriores, desde o maneirismo até o classicismo. Entre os seus poemas, destaca-se a “Balada das Coisas sem Importância”, que muitas pessoas conhecem de forma quase instintiva mesmo sem nunca terem a lido, o que demonstra que Villon não precisa mais ser um homem, somente uma voz poética a bradar do meio do nosso DNA:

Conheço se há moscas no leite,

Conheço pela roupa o homem,

Conheço o tédio e o deleite,

Conheço a fartura e a fome,

Conheço a mulher pelo enfeite,

Conheço o princípio e o fim,

Conheço pela chama o azeite,

Conheço tudo, menos a mim.

Conheço o gibão pela gola,

Conheço o rico pelo anel,

Conheço o fiel pela sacola,

Conheço a monja pelo véu,

Conheço o porco pela tripa,

Conheço o irmão pelo latim,

Conheço o vinho pela pipa,

Conheço tudo, menos a mim.

Conheço a mula e o cavalo,

Conheço o carro e a carreta,

Conheço a galinha e o galo,

Conheço o sino e a sineta,

Conheço a flor pelo talo,

Conheço Abel e Caim,

Conheço o pote e o gargalo,

Conheço tudo, menos a mim.

Ofertório

Príncipe, conheço tudo em suma,

Conheço o branco e o carmim,

E a morte que o fim consuma.

Conheço tudo, menos a mim.

 

Não sabemos se François Villon algum dia existiu. Aliás, é muita presunção imaginar que uma obra poética precisa sair de um homem – quem nos assegura que uma poesia não pode sair do nada, das estrelas, do roçar dos ramos de uma árvore? É realmente imprescindível um aparato humano, com sua fortaleza de instável carne, a sustentar um texto com a sua sombra de uma origem baseada na sua biografia? Contudo, muitas pessoas tentaram responder ao seu mistério, sem perceber que a existência de um homem mais atrapalha a obra do que a auxilia. É melhor imaginar a literatura como algo puro, desvinculado das veleidades e idiossincrasias de uma única pessoa.; melhor imaginar que a arte brota do chão ao invés de sair de uma pessoa desprezível ou criminosa, alguém indigno de ter criado poemas que mais se assemelham a mentiras e ironias do que algo capaz de elevar o espírito.

As melhores perguntas são aquelas que não conseguimos responder. Na época em que vivemos, o mundo se desespera para ter mais informações, mais certezas. Eu sigo o contrafluxo: procuro a pergunta que não se rende. A resposta impossível. O mistério escondido na neblina. A instabilidade da dúvida. Não tenho as respostas – sequer sou capaz de me entender, o que dirá entender os outros -, mas sei que a pergunta em torno da qual meu espírito se originou continua a animar minha existência com seu fogo frio.

Texto originalmente publicado no link https://medium.com/colecao-dublinense/precisamos-de-mais-d%C3%BAvidas-a15252edd17d#.rpxyp9q8e

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Texto publicado na revista eletrônica da Dublinense (01/09/2016): “Uma ode aos insensatos”

Na minha coluna dessa semana no Medium da Dublinense, eu falo das pessoas insensatas, aquelas que sempre tentam abocanhar mais do que o tamanho da própria boca.

Mas, como também sou um insensato, aproveito para contar a história do “Requiem para um Jovem Poeta”, feito pelo compositor alemão Bernd Alois Zimmermann em 1969, uma obra portentosa que costurava uma multiplicidade de músicas e mais as vozes dos poetas e personalidades do início do século XX, necessitando de uma orquestra completa, de um narrador, de um solo soprano, de um barítono, de três coros, de uma orquestra de instrumentistas de jazz e outra de instrumentos eletrônicos — todos tocando simultaneamente.

Também aproveito para falar dos mapas impossíveis de Jorge Luis Borges e de Umberto Eco, e termino contando a saga do poeta Alexander Pope, esse ser pretensioso e ousado que passou a vida toda perseguindo o Grande Épico Inglês e, quando finalmente conseguiu esboçá-lo…. bom, sem spoilers.

Boa leitura!

 

Uma ode aos insensatos

 

Eu admiro as pessoas insensatas. Aquelas que não possuem noção nenhuma, seja de razão ou de ridículo, e estabelecem objetivos muito além das próprias capacidades. Elas estão por todos os lugares, desde o jovem imberbe que deseja conquistar o coração de uma atriz de cinema até a moça que sonha em ganhar não só o Nobel da Literatura, mas também o Oscar, o Grammy e o Pulitzer. Em geral, as pessoas insensatas são jovens, e ainda não tiveram o necessário choque de realidade que somente a vida proporciona, e com requintes de crueldade, pois cada opção que tomamos necessariamente deixa um rastro de sonhos e de possibilidades destruídas no seu rastro.

Santos Dumont, um insensato

Santos Dumont, um insensato

As pessoas insensatas não raro tentam abocanhar mais do que a capacidade da sua própria boca. São vorazes, insatisfeitas, chegam às raias da insanidade. Elas são admiráveis, não pela tarefa de Hércules a que se dedicam, mas por imaginarem o impossível e tentarem realizá-lo. Um ditado que gosto muito: “Mirar a lua, acertar as estrelas”. Mesmo quando se erra o objetivo maior, pode-se acertar outros secundários. Ninguém acorda pensando em ser uma pessoa medíocre; todos sonham ser maiores do que são. Deixar o próprio nome gravado em pedra, não rabiscado na areia.

Sempre que vejo algum projeto grandiloquente fadado à impossibilidade de ser concretizado (ao menos em um mundo real), recordo da tarefa extraordinária a que se propôs o compositor alemão Bernd Alois Zimmermann. Em 1969, ele decidiu fazer a obra musical que definiria toda a sua geração, os nascidos entre 1920 e 1970 na Alemanha Ocidental. Algumas pessoas acordam pensando no que comerão no almoço, outras querendo mudar o mundo, e a intenção declarada do compositor era concentrar um mundo polifônico e multifacetado dentro de uma única música.

Com tal objetivo em mente, Zimmermann compôs o “Requiem para um Jovem Poeta” (Requiem für einen jungen Dichter), uma obra de dimensões portentosas. Para se ter uma ideia, o Requiem necessitava de uma orquestra completa, de um narrador, de um solo soprano, de um barítono, de três coros, de uma orquestra de instrumentistas de jazz e outra de instrumentos eletrônicos – todos tocando simultaneamente. Pela sua ousadia estilística, a obra foi considerada uma “polifonia”, mesclando partes do século XX tão díspares quanto as linhas iniciais de “Hey Jude”, dos Beatles, com trechos de “Tristão”, de Richard Wagner, das sinfonias de Beethoven, de Milhaud (“A criação do mundo”) e de Oliver Messiaen (“A ascensão”), sem esquecer a onipresença do jazz, que a tudo acompanha, e mais as batidas eletrônicas fornecendo o necessário compasso.

Requiem para um jovem poeta

Requiem para um jovem poeta

Se no aspecto musical o “Requiem para um Jovem Poeta” era complexo, a letra era ainda mais ambiciosa. No princípio, Zimmermann pretendia inserir somente textos escritos por poetas que cometeram suicídio, tanto que os primeiros a aparecerem são Vladimir Maiakóvski, Eugene Essenin e Konrad Bayer. No entanto, com a evolução da ideia, o compositor decidiu incluir as vozes do seu tempo e, assim, surgiram falas de Churchill, de Chamberlain, de Stalin, de von Ribbentrop, de Goebbels, de Mao Tsé-Tung e de Hitler. Trechos de Albert Camus, de Ezra Pound, de Schwitters e de Sandor Weores tornaram-se parte da música, assim como o monólogo de Molly Bloom conforme escrito por James Joyce em “Ulisses” sucede um discurso do Papa João Paulo XXIII, que, por sua vez, é antecedido por uma página de “Investigações filosóficas” de Wittgenstein. Toda esta multiplicidade de ideias é coordenada pelo grande tema do “Requiem para um Jovem Poeta”, providenciado por um verso de Konrad Bayer: “O que podemos esperar? Não há nada que nos aguarde, a não ser a morte.”

Para uma ideia tão megalomaníaca, a interpretação era essencial. Sequer existia um lugar apropriado para comportar múltiplas orquestras em palcos diferentes e, para executar a contento a sua obra, o compositor alemão sugeriu a construção de um espaço esférico, através do qual o público poderia circular livremente durante a performance, recebendo os estímulos acústicos e óticos vindos de todos os lados.

Ao final da partitura do “Requiem”, Bernd Alois Zimmermann sofreu um grave esgotamento mental e foi internado às pressas em uma clínica para doenças nervosas, na qual permaneceu alguns meses. Ao sair, entregou-se para uma nova obra, mas a pressão era grande demais e ele cometeu suicídio em 1970. Alguns acreditam que isso aconteceu em razão dele ainda sofrer o impacto da exposição a armas químicas durante a Segunda Guerra Mundial, outros pensam que um quadro de depressão severa que o afligiu por muito tempo foi decisivo, mas não foram poucos os que culparam a composição de uma obra tão ambiciosa quanto o “Requiem para um Jovem Poeta”.

A intenção inglória de Zimmermann – representar toda a sua geração – era gigantesca demais para um discurso único. Não surpreende que seja enlouquecedor, mas a intensidade do desafio é singular: o compositor não teve medo de soar pomposo, ridículo ou grandiloquente. Ao contrário, ele tentou atingir os píncaros da arte, mesmo correndo o risco de se quebrar no processo.

De certa maneira, a intenção de Zimmermann lembra muito um famoso conto de Jorge Luiz Borges, “O rigor da ciência”, presente no livro “O fazedor” e que, por suas parcas dimensões, pode ser transcrito aqui:

“…Naquele Império, a Arte da Cartografia atingiu uma tal Perfeição que o Mapa duma só Província ocupava toda uma Cidade, e o Mapa do Império, toda uma Província. Com o tempo, esses Mapas Desmedidos não satisfizeram e os Colégios de Cartógrafos levantaram um Mapa do Império que tinha o Tamanho do Império e coincidia ponto por ponto com ele. Menos Apegadas ao Estudo da Cartografia, as Gerações Seguintes entenderam que esse extenso Mapa era Inútil e não sem Impiedade o entregaram às Inclemências do Sol e dos Invernos. Nos Desertos do Oeste subsistem despedaçadas Ruínas do Mapa, habitadas por Animais e por Mendigos. Em todo País não resta outra relíquia das Disciplinas Geográficas. (Suárez Miranda: Viagens de Varões Prudentes, livro quarto, cap. XIV, 1658.)”

Esse pequeno texto borgeano foi ampliado por Umberto Eco em “O segundo diário mínimo”, com o título “Da impossibilidade de construir a carta do Império em escala um por um”. Na ampliação da ideia de Borges, fica claro o seguinte: no momento exato em que se pretende fazer algo muito gigantesco, o objeto buscado já se torna inalcançável, pois traçar um limite é considerar que exista algo que excede dito alcance. Por mais amplo que seja o desejo de fazer algo inesquecível, assim que ele é traçado, já se torna comum e, em breve, ultrapassável. Estamos em uma corrida que nunca ganharemos, metidos em um eterno paradoxo de Zenão: nunca vamos ganhar da tartaruga.

Mas o que não nos impede de ser ousados, como Alexander Pope. Desde seus sete anos de idade, o poeta inglês começou a fazer versos com uma facilidade que encantava e desconcertava os membros da sua família, o que o levou a afirmar “Eu ciciava aos borbotões, por que borbotões vinham.”

Quando tinha 13 anos de idade, Pope foi expulso de Tyword School. Motivo: escreveu uma sátira extremamente devastadora sobre um professor. Quando tinha 14 anos, escreveu uma peça ampliando temas da “Ilíada” de Homero, e cooptou seus vizinhos e o o jardineiro da casa para interpretar dita peça. Quando tinha 15 anos, Samuel Johnson, seu futuro biógrafo, disse que Alexander Pope já escrevera panegíricos de todos os reis da Europa, além de um poema épico, uma tragédia e uma comédia.

Quando tinha 16 anos, Pope decidiu escrever o Grande Épico Inglês.

Não era uma ideia tão original. Boa parte dos escritores ingleses eram fascinados pela ideia de escrever o Grande Épico Inglês, uma obra que, ao estilo da “Eneida”, de Virgílio, de “Dom Quixote”, de Cervantes, e de “Os Lusíadas”, de Camões , servisse de base para toda a produção literária da Inglaterra, juntando economia, política, sociologia, comércio, história e literatura em uma única narrativa. Muitos escritores gigantes tentaram chegar a esse Éden, entre os quais Coleridge e Milton. Assim, no auge dos seus 16 anos, Alexander Pope decidiu fazer aquilo que outros monstros da literatura universal tinham tentado sem sucesso.

O poeta inglês escreveu “Alcânder”, obra na qual, segundo o depoimento que deixou no seu diário, pretendia “reunir todas as belezas dos grandes escritores épicos numa só peça. Havia o estilo de Milton numa parte, o de Cowley em outra, aqui o estilo de Spenser imitado, e ali o de Estácio, aqui Homero e Virgílio, e ali Ovídio e Cláudio.” Não chegou até nossos tempos: os originais de “Alcânder” foram queimados pelo bispo de Rochester, Francis Atterbury, que considerou a obra do jovem poeta muito sediciosa e correndo o risco de gerar consequências políticas indesejáveis.

Alexander Pope

Alexander Pope

Quando tinha 19 anos, Pope tentou novamente escrever o Grande Épico Inglês, dessa feita tratando das reformas agrárias feitas pelos irmãos Graco na Roma Antiga. Não temos conhecimento dessa obra, pois foi o próprio autor quem a destruiu, para se lançar em um novo projeto com a qual pretendia atingir o Nirvana da literatura inglesa: “A Tolíada”.

O trabalho foi concluído quando Alexander Pope tinha 40 anos de idade. O poeta já era um escritor calejado, e fez uma obra que se precavia antecipadamente das críticas. Em suma, jogou bonito para encantar a plateia. Logo no início, ele se referiu a “Margites”, a famosa comédia criada por Homero e que não chegou viva aos nossos tempos (a não ser em citações descuidadas feitas por Aristóteles na sua “Arte poética”), querendo mostrar que a sua obra se filiava a essa tradição satírica.

O problema de “A Tolíada” – e que a levou a ser reprovada por todos os críticos sem exceção – foi justamente o fato de Pope fazer uma sátira tratando de escritores, rabiscadores, poetas, críticos e editores que o haviam atacado alguma vez. Mesmo anunciando que era uma sátira, ou seja, que não devia ser lida a sério, o fenômeno contrário aconteceu: os críticos acharam que ele dava o nome de sátira para poder dizer o que pensava de forma impune. Lendo hoje o trabalho de Pope, percebe-se que, além de atacar toda a sociedade literária do seu período, ele ainda investiu contra a própria cultura da qual era contemporâneo.

No fim da vida, Alexander Pope tentou uma última vez atingir o Grande Épico Inglês. Em uma longa carta enviada para o seu editor, anunciou a escritura de um épico ao qual dera o título provisório de “Bruto”. Não suficiente, mandou uma descrição detalhada da história: “Bruto” se passaria 66 anos após a queda de Tróia. Bruto seria o neto de Enéias, e que possuiria uma forma extremamente peculiar de conceber a sociedade, considerando-a mais justa e equânime.

Não tendo muito espaço para desenvolver suas ideias de liberdade, Bruto resolve juntar um grupo de troianos sobreviventes e se refugiar na terra indicada por um oráculo egípcio, “um lugar de clima igualmente livre da frágil delicadeza e suavidade dos climas meridionais e da ferocidade e selvageria do Norte”, uma ilha que, de acordo com as indicações geográficas, só poderia ser a Inglaterra. Não escapará, aos leitores atentos, a circunstância dessa história ser semelhante a outro famoso épico, “Eneida”, de Virgílio, que deu origem à fundação mitológica de Roma.

Após contar todas as peripécias da viagem, que incluem batalhas contra criaturas fantásticas, sonhos em que Bruto recebeu conselhos de Hércules, encontros com criaturas muito semelhantes aos anjos caídos de “O paraíso perdido” de Milton, chegada nas Ilhas Afortunadas (um local mágico que quase consegue reter os soldados fugidos) e o encontro com um filho de Ulisses em Lisboa, os troianos enfim chegam na Inglaterra e estabelecem contatos com os druidas, os quais imploram para que os recém chegados destruam dois gigantes, Goguemagogue e Corineu. Um grupo é montado para enfrentar os gigantes, e cada homem escolhido integrá-lo possui uma característica que o destaca, como “o velho e cauteloso companheiro”, “o soldado que só pensa na pilhagem”, “o herói cruel e sanguinário”, “o guerreiro regido pelos impulsos”.

Pope tinha essa ideia perfeitamente delineada, pronta para se transformar no Grande Épico Inglês e – imperioso admitir – é uma história que reúne todos os elementos dignos de figurarem em um épico inesquecível.

Era o momento perfeito para atingir o seu sonho e, assim, Alexander Pope enfim começou a realizar o seu sonho… e morreu, vitimado pela febre. Além de todo o esboço da história, deixou somente as primeiras oito linhas, que prometiam ser memoráveis:

“O chefe paciente, que depois de muito labor chegou

Às praias da Bretanha e trouxe com ele deuses generosos

Artes, armas e honra a seus filhos antigos;

Filha da memória! Lembrança de um

Tempo passado; e eu com a glória dos bretões me animei

Eu, longe de cuidado mesquinho ou de canção menor,

Arrebatei para a montanha sagrada da baía imaculada,

O poeta do meu país, para recordar sua fama.”

A vida tem dessas coisas, já diria a música. Quanto mais insensato o ser humano, quanto maior a sua ambição, mais curta se torna a sua vida, e a morte sempre chega para todos, atalhando projetos. Assim como Zimmermann criou um Requiem de proporções gigantescas ou como Pope passou a vida inteira tentando escrever um único e decisivo livro, chegando a ele somente na véspera da morte, não é o produto final que acaba nos definindo, mas o percurso que realizamos caçando a sombra da perfeição inatingível.

Então, sejamos insensatos, sim, tenhamos projetos grandiloquentes e inalcançáveis, pois é a única maneira que temos de sair da caixa das pessoas comuns, aquela em que a sociedade insiste em nos encaixar desde que nascemos. Aos insensatos pertence tanto a glória das vitórias únicas quanto a fragorosa derrota dos que caem lutando, e existe honra em lutar contra aquilo que Camus disse ser a nossa maior tentação: não ser nada.

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