Arquivo do mês: dezembro 2016

Sobre o outro que mora dentro do espelho

Sou um homem afortunado, pois recebo muito material interessante sobre arte. Até mesmo sobre dança, estilo artístico que admiro, mas sobre o qual sinto-me o mais absoluto leigo, limitando minhas opiniões ao velho e bom impressionismo: “gostei” ou “não gostei”.

Contudo, as pessoas sabem que o mais importante é a ideia que dá ânimo à arte, e um dos assuntos que me encanta – assim como fascinou dezenas de outros artistas – é o espelho. No caso, a minha linha de interesse mais específico é como o espelho é usado para colocar o espectador dentro da obra de arte, trazendo-o para dentro do “crime” por assim dizer, transformand0-lhe em cúmplice e partícipe. Rastreio obras de arte que possuem essa ideia como mote e, se quiserem um exemplo, eis o clássico “As meninas”, do Velázquez:

"As meninas", Velázquez

“As meninas”, Velázquez

Por saberem do meu interesse, acabaram me enviando esse vídeo, chamado de “O Espelho”, uma coreografia de Alexandre Desplat:

Dentro de cada pessoa existem várias pessoas, foi o que escrevi no conto “O homem despedaçado”. Não só aqueles que já fomos ou que um dia seremos, mas também todas as possibilidades que jamais seguimos e todos os sonhos (e pesadelos) que já acalentamos. Cada ser humano é um palimpsesto de muitos outros humanos, e não seria tão surpreendente se, em alguns pedaços, não acabamos nos encontrando e nos transformando em outros.

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Como se fazia um livro – em 1925

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Não faz muito tempo que recuperaram esse vídeo da Oxford University contando como se fazia um livro em 1925. É impressionante ver o quanto existe de manufatura e de engenho humano na produção de cada mínimo exemplar que chegava às mãos dos leitores. Oportuno lembrar que é bem no período entre as guerras mundiais.

Hoje, os procedimentos são muito mais mecânicos do que manufaturados, mas ainda assim é encantador perceber o quanto um livro se compõe não só de histórias, mas também do trabalho e dos sonhos de muita gente.

 

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Texto publicado na revista eletrônica da Dublinense (28/12/2016): “A minha Lista de Restos de Leitura de 2016”

Na minha última coluna desse ano no Medium da Dublinense, resolvi não fazer uma lista de melhores livros que li no decorrer de 2016 ou dar sugestões de leitura para as férias. Ah, vocês estão cheios dessas listas. Ao invés, resolvi falar sobre algumas das lições mais estranhas que as leituras de 2016 me proporcionaram, ou os blocos de conhecimento inútil que foram agregados ao meu ser.

Começo falando de Imogene Wolcott e a assustadora arte de fazer perguntas incessantes para qualquer pessoa; a seguir, falo de como Elias Canetti me transformou em uma pessoa comum ao contar o que fazemos quando passeamos em cemitérios; passo pelo lindo panegírico fúnebre feito por Emile Zola para Guy de Maupassant; falo de Benedetto Marcello, e de como um elemento estranho – no caso, um urso – acrescentado em uma lista pode enlouquecer um leitor; e termino com Aldous Huxley me ensinando a ver a verdadeira lua, não essa que olhamos toda noite, tudo para desejar um feliz 2017 para todos e todas.

Boa leitura!

 

A minha Lista de Restos de Leitura de 2016

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Por maior que seja a tentação, não acabarei 2016 fazendo uma longa lista de lamentações, chorando por pessoas mortas ou vilipendiando tudo que acontece de errado no país e no mundo. Falta-me competência (e vontade) para tanto, o mundo tem pessoas mais dignas de realizar tais tarefas. Não irei me juntar a este caudaloso rio de lágrimas, de desesperos e de dentes cerrados. É melhor encerrar outro ciclo de translação da Terra parafraseando as palavras finais de Puck em “Sonho de uma noite de verão”, de Shakespeare: “Se vos causamos enfado por sermos sombras, ousado plano sugiro: é pensar que estivestes a sonhar; foi tudo mera visão no correr dessa sessão. Senhoras e cavalheiros, não vos mostreis zombeteiros; se me quiserdes perdoar, melhor coisa irei vos dar. Puck eu sou, honesto e bravo; se eu puder fugir do agravo da língua má da serpente, vereis que Puck não mente. Liberto, assim, dos apodos, eu digo boa noite a todos.” Ainda é melhor acabar o ano arrancando um inesperado sorriso ao invés de mais sofrimentos e misérias.

Portanto, irei compartilhar algumas considerações sobre as leituras mais inusitadas feitas no decorrer desse vistoso ano de 2016. Se acaso pudesse colocar nome a esta elencação, escolheria “Os livros que li para contar para vocês”, mas, como toda lista, seria um nome insuficiente, posto que não leio nada para satisfazer ninguém (sem contar que parece muito com o nome de alguma canção de Roberto Carlos). Chamar a lista de “leituras bizarras de 2016” seria igualmente insultuoso, posto que existem alguns autores ótimos nessa lista e, se lembro algo dos livros, é por que eles me tocaram de formas estranhas. Por outro lado, não posso considerar como os “melhores livros de 2016”, uma vez que não foram.

Na falta de um nome adequado, o melhor é a forma mais prosaica possível, como “Lista de Restos de Leitura de 2016”. Toda leitura deixa um resíduo na cabeça do seu leitor e, infelizmente, nem sempre os livros resultam em bons restos: alguns deixam pedaços de histórias, outros o fantasma de uma risada abortada, e outros ainda despertam inquietações que dormiam tranquilas na nossa cabeça até despertarem graças a uma frase incômoda. A leitura nunca é inocente, sempre deixa um rastro.

Aqui está a pequena lista de miscelâneas que grudaram na minha memória em livros lidos em 2016 e que – possivelmente – jamais lerei de novo. Tempus fugit. Restos que passaram a fazer parte do meu muro de leituras, assim como as asas abandonadas de um mosquito se juntam, sem querer, ao cimento de uma construção.

 

* Como conversar em qualquer situação, com Imogene B. Wolcott:

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Por caminhos misteriosos, e que por si só mereciam um texto próprio, chegou às minhas mãos um exemplar de “What to talk about – the clever question”, de Imogene B. Wolcott. O propósito do livro, manifesto já no seu título, é impedir que as conversas acabem por falta de assunto. Então, a autora propõe uma série de questões para os mais diferentes interlocutores, imaginando situações em que a conversa corra o risco de acabar.

No início do livro, a regra de ouro: “Esqueça-se de quem você é e se concentre somente na pessoa com quem está conversando.” Wolcott acredita que as habilidades sociais são aprimoradas através da conversação e, para tanto, o silêncio jamais pode acontecer. O interlocutor deve enfrentar o silêncio como se fosse um inimigo, e preencher todos os lapsos da conversa com mais e mais sons. Na minha opinião, levando-se tal dica às últimas consequências, o resultado seria mais aterrorizante do que o imaginado – uma conversa que nunca termina. Não poderíamos deixar o interlocutor se afastar ou encerrar o assunto, pois seria uma derrota e, assim, teríamos que estar sempre criando mais e mais assuntos.

A parte mais engraçada do livro são justamente as sugestões de perguntas. Por exemplo, quando conversar com um farmacêutico (todas as traduções são minhas): “você vende remédios para as pessoas doentes ficarem bem ou para prevenir eventuais doenças?” ou “o que você faria se um homem entrasse na farmácia para comprar tabletes de uma solução de mercúrio?”. Imagino um farmacêutico sendo submetido a uma série de questões estapafúrdias, precisando atender outras pessoas enquanto alguém ansioso para testar seus dotes sociais não o deixa se afastar. O mesmo pode ser dito quanto às sugestões de perguntas para engenheiros: “Por que aço é usado para reforçar concreto?”. Parece o tipo de conversa casual que uma pessoa pode ter com outra…

Um destaque especial vai para as conversas que não se ligam à profissão dos interlocutores, cuja lista de perguntas é assustadora: “você é feliz?”; “você já amou alguém e, se sim, com qual intensidade?”; “qual é o futuro da Palestina?”; “você prefere viver por muito tempo, mas infeliz, ou viver pouco e ser feliz?”. Perguntas quase impossíveis de serem respondidas e, imaginem, com um interlocutor que nunca vai cansar de perguntar.

O inferno não são os outros, podem ser as perguntas dos outros. Foi o que ficou da leitura de “What to talk about”, de Imogene B. Wolcott. Além da sensação incômoda de que existem pessoas que, sem saber, seguem os preceitos desse livro, e nunca deixam o silêncio em paz.

* Como caminhar no cemitério, com Elias Canetti:

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É frustrante descobrir que aquilo que pensávamos ser uma característica particular nossa, na verdade, é algo compartilhado por boa parte da Humanidade, algo tão óbvio que ninguém conversa sobre o assunto. Nesses casos, é possível escutar o estrépito impassível do castelo de cartas das nossas ilusões ao desmoronar.

Precisou Elias Canetti surgir do interior de uma livraria para derrubar minha presunção. No livro “Sobre a morte”, após uma série de aforismos e reflexões sobre assunto tão funesto, um texto curto: “Sobre os sentimentos gerados pela visita a cemitérios”. Nele, o escritor búlgaro fala sobre sermos atraídos pelos cemitérios das cidades que visitamos, e de como eles passam a sensação de estarem nos esperando, não importa o quão pequeno ou distante. No meio do texto, Canetti fala sobre passeios em cemitérios, de como calculamos os anos de vida de cada nome inscrito na lápide e tentamos adivinhar como foi a sua morte, quanto tempo durou o seu casamento, quantos anos de vida cada pessoa partilhou com um eventual filho, como eram as dinâmicas familiares (pessoas enterradas com sogras, irmãos, pais).

Achei que somente eu fazia isso, entrelaçando histórias e pessoas mortas, sempre motivado por lápides indiferentes. No entanto, Elias Canetti confidencia o mesmo vício, a ideia de existir histórias enterradas que continuam se oferecendo aos nossos olhos, repletas de mistérios e inquietudes incapazes de ser sufocadas pela terra.

Consolei-me pensando que talvez eu e Elias Canetti partilhássemos a mesma característica tétrica, o que seria uma ótima companhia. No entanto, conversando sobre esse assunto em uma mesa de bar (também conversamos sobre passeios em cemitérios em mesas de bar), os presentes me disseram que tinham a mesma atitude quando caminhavam em lugares de repouso final. Ainda acharam divertido que eu pensasse ser o único a acalentar tal pensamento.

Hoje sei que todas as pessoas fazem isso quando caminham em um cemitério. Não é um detalhe especial meu. Contudo, cresce minha inconformidade. Vocês podiam ter a decência de me comentar isso antes, e não me deixar passar vergonha na frente de Elias Canetti.

* Da importância de ter um amigo escritor para fazer um panegírico decente, com Emile Zola:

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Em “Tagarelice espirituosa – as cartas de Maupassant”, de Brigite Hervot, encontra-se transcrito o panegírico que Emile Zola fez em honra a Guy de Maupassant por ocasião do seu funeral em 07 de julho de 1893. É uma peça poderosa, um discurso que enaltece tanto o amigo perdido quanto saúda seus dotes literários. Transcreverei trechos:

“Amei muito Maupassant porque ele tinha de verdade nosso sangue latino, e porque pertencia à família das grandes honestidades literárias. De fato, não se deve limitar a arte: é preciso aceitar os complicados, os refinados e os obscuros; mas parece-me que esses são apenas o deboche ou, se quiserem, o deleite de um momento, e que devemos sempre voltar aos simples e aos caros, como voltamos ao pão cotidiano que alimenta sem nunca enjoar. A saúde está aí, nesse banho de sol, nessa onda que nos envolve por todos os lados. Talvez a página de Maupassant que admiramos tenha lhe causado um esforço. O que importa se esse cansaço não aparece, se fiamos reconfortados pela naturalidade perfeita, pelo tranquilo vigor que dela transbordam! Saímos dessa página revigorados, com a alegria moral e física que um passeio sob a plena luz do dia nos dá.”

E Zola ainda fornece uma noção do que é ser realmente imortal: não escrever muitas obras, mas fazer cada página como se fosse a mais importante de todas. Uma lição que vale para qualquer obra e para qualquer realização humana.

“Sem dúvida, Maupassant, que em 15 anos publicou quase vinte volumes, podia viver e triplicar esse número e encher só ele uma estante de biblioteca. Mas posso dizer isso? Às vezes, invade-me uma melancolia diante das grandes produções de nossa época. Sim, são longas e conscienciosas tarefas, muitos livros acumulados, um belo exemplo de obstinação pelo trabalho. Entretanto, são também bagagens muito pesadas para a glória, e a memória dos homens não gosta de carregar tal peso. Dessas grandes obras cíclicas nunca restou mais do que algumas páginas. Quem sabe se a imortalidade não é antes uma novela ou trezentas páginas, a fábula ou o conto que os alunos dos séculos futuros transmitirão como o exemplo inatacável a perfeição clássica?”

Escritores fazem os melhores panegíricos. O problema agora é achar o autor ideal para escrever o meu. Ninguém disse que seria uma tarefa fácil.

* Sobre como bagunçar a cabeça de um leitor, com Benedetto Marcello:

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Algumas leituras chegam com pretensão de seriedade, mas logo revelam a sua natureza pândega. Bom exemplo é “O teatro à moda”, de Benedetto Marcello, um panfleto publicado em Veneza em 1720 e que continha uma série de descrições sobre as peças teatrais e as óperas, assim como a função desempenhada por cada um dos seus funcionários.

Logo no início do panfleto, uma admoestação: o primeiro capítulo se chama “Do escritor do livro ao seu próprio autor”. Benedetto Marcello divide a autoria em duas pessoas, um sendo o escritor do livro – responsável pela escritura – e o outro seria o seu autor, encarregado das ideias que deram origem aos escritos. Uma pessoa conversa com a outra, repleta de ironia sutil: “Eu só poderia endereçar esse livro a vós; afinal, ele já era de sua propriedade antes mesmo que eu o terminasse.” Ao final do capítulo, uma despedida afetuosa e sarcástica: “Enquanto isso, ó meu amigo fiel, recebei de bom grado este meu presente como algo dado por alguém que sem vós não pode viver, e estejais saudável, se não quiserdes me ver doente. Adeus.”

Porém, o capítulo que mais chamou minha atenção foi destinado ao advogado do teatro:

“O advogado do teatro deixará que o empresário faça os ensaios em sua casa. Fará os contratos dos cantores, dos instrumentistas, dos operários de cena, dos figurantes, do urso e do libretista. Ele também servirá de juiz para decidir quais balés e quais intermezzi devem ser utilizados. Também intervirá para aplacar as brigas entre cantores e empresário por causa de dinheiro. A cada récita, deixará entrar de graça vários amigos para garantir os aplausos etc. etc. etc.”

Como leitores atentos, vocês devem ter percebido o grande mistério desse texto, e não está no final, com o advogado arrumando uma plateia de amigos para aplaudir o espetáculo. Está no “urso” que se insinuou entre os funcionários da peça teatral e exige um contrato somente seu. Esse “urso” não aparece em mais nenhum momento do livro; não tem uma explicação, uma nota de rodapé, uma errata, nada. Simplesmente está ali, e a sua presença traz o imponderável e o impossível para dentro de um manual de regras teatrais.

É difícil não pensar o quão fácil é enlouquecer um leitor, agregando em uma lista um elemento dissonante. É igualmente difícil não pensar no seu oposto: e se todos os livros já escritos no mundo possuem pequenos buracos negros de incompreensão no seu interior, estabelecidos por um autor que esconde um mistério no melhor lugar, diante dos nossos olhos insensíveis ao maravilhoso? E se os “ursos” estiverem espalhados nos livros e obras de arte por aí, e ninguém nunca prestou atenção?

Talvez eu releia toda a minha biblioteca sob essa nova ótica. Tão fácil enlouquecer um leitor, tão fácil.

* Como enxergar a verdadeira lua, com Aldous Huxley:

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Quem leu as obras de Aldous Huxley sabe que, a cada dez ou vinte páginas, ele suspende o fluxo da narrativa e se dedica a descrever a lua de forma apaixonada. É algo que lhe fascina, e o sinal do excelente autor é a sua capacidade de escrever o mesmo assunto de tantas formas diferentes que sempre soa como algo novo.

Foi assim que, por um exercício de criação literária, dediquei algum tempo de leitura a contemplar a lua enquanto lia em voz alta a descrição que Huxley lhe fizera. Receio ter perdido a inocência, pois não posso mais olhar tal corpo celeste sem que as imagens do escritor acorram à minha mente. Não consigo mais ver a minha lua, mas a de Huxley:

“A lua é uma pedra; mas é uma pedra altamente numinosa. Ou, para ser mais preciso, ela é uma pedra sobre a qual e pela qual os homens e mulheres têm sentimentos numinosos. Assim, existe um luar suave que pode nos dar uma paz que ultrapassa o entendimento. Há um luar que inspira uma espécie de pavor. Há um luar frio e austero que fala à alma sobre a sua solidão e seu isolamento desesperado, sua insignificância ou sua imundície. Há um luar amoroso propiciando o amor – amor não apenas por um indivíduo, mas por vezes até pelo universo inteiro. Mas a lua brilha na superfície do corpo tanto quanto, através das janelas dos olhos, no interior da mente. Ela afeta a alma diretamente; mas pode afetar também por caminhos obscuros e tortuosos – por meio do sangue.”

A lua mudou. Ainda é a mesma, mas, desde que li as descrições de Huxley, ela não é mais um frio satélite natural que orbita em torno da Terra. Ela é carne e palavras, dor e pulsão. Se existe algo que a arte pode fazer – e nos assusta – é isso: mostrar a verdadeira face dos objetos e coisas que estão ao redor. A arte é o maior enigma do mundo, cristalizado por Jorge Luis Borges em um dos seus contos: “olhei todos os espelhos do mundo e nenhum me refletiu de volta”. Afinal, nenhum cego pode se sentir refletido.

 

Pensando nas obras estranhas que li no decorrer do ano de 2016 e que deixaram marcas, elas são mais numerosas do que posso imaginar, e não cabem nos estreitos limites de uma lista. Mas posso garantir algo para 2017: as estranhezas virão à tona. Quando menos esperarmos (e eu estou incluso em tal lista, pois, como meu primeiro leitor, sou o primeiro a me chocar), a memória irá ressuscitar um conhecimento que estava morto e enterrado, o qual passará a assombrar as nossas leituras na forma imorredoura de um texto. Assim somos nós: ressuscitadores de fantasmas, magos necromantes juntando pedaços de livros mortos com a mesma habilidade de Victor Frankenstein.

Assim, feliz 2017 para todos, e o meu desejo: olhem a lua, enlouqueçam lendo, façam perguntas impossíveis, caminhem em cemitérios e, se tudo o mais falhar, tenham sempre à mão um escritor decente para fazer o seu panegírico.

(Texto originalmente publicado no link https://medium.com/colecao-dublinense/a-minha-lista-de-restos-de-leitura-de-2016-7d8c2b9db55#.8fabbk6vd )

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Obras Inquietas – 13. “Giaele e Sisara” (1640), de Ottavio Vannini

No “Obras Inquietas” dessa semana, “Giaele e Sisara”, um quadro de Ottavio Vannini, e a mulher que vira mãe, amante e assassina nas mãos de um Deus. Aquela que mata por nós.

Boa leitura!

“Giaele e Sisara” (1640), Ottavio Vannini

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Bendita sois vós, a mulher que tomou a decisão impossível em nosso nome. Bendito o momento em que o general inimigo, fugindo da derrota, entrou na sua barraca e pediu pouso, certo de que não seria reconhecido. Bendito o instante em que sorriste o melhor sorriso e convidaste o verdugo a apear as sandálias cansadas e a remover o pó dos músculos machucados com um óleo repleto de fragrâncias. Bendito o momento em que ele pediu uma ânfora de água e você lhe ofereceu o melhor leite que possuía, tirando-o da boca dos teus filhos; louvado seja o instante em que acariciou a barba dura e selvagem do homem e convidou-lhe a partilhar do teu leito, a ultrajar as tuas carnes, a relaxar das angústias e medos descarregando-os no interior do teu corpo. Agradecemos a Javé por deixares o homem repousar na cama que era tua e do teu marido, esperando que os ventos do sonho o levassem para outras paragens mais tranquilas. Erguemos graças ao Senhor assim como tu levantaste, com dificuldade e doçura, o pesado martelo, enquanto mirava o prego na têmpora do assassino. Nunca saberemos o que ele sonhava, mas rezamos para que a morte tenha lhe encontrado em meio a um pesadelo e o transformado em terror infinito. Agradecemos, também, ao prego que, na infinita sabedoria com que Javé lhe deu forma, não cedeu enquanto se enfiava nas carnes macias do facínora, prendendo-se, caprichoso e definitivo, na cama que suportava o seu corpo ainda enlanguescido. Nunca saberemos em qual segundo você concebeu esse plano, se pensava em matar o homem desde quando o viu ou se decidiu no calor do momento; nunca saberemos se teve medo ou se estava preenchida pelo desejo de vingança de Javé. Nunca saberemos o que se passou na sua cabeça, Giaele, mas sempre serás lembrada como a mais bendita das mulheres: aquela que foi mãe, em seguida a amante e, por fim, a assassina. O prego que Javé usou para trazer justiça ao mundo.

 

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Crônicas de um ano inteiro: “A diversão e o Senhor da Dança”

No meu texto dessa semana no “Crônicas de um ano inteiro”, eu falei sobre a dificuldade de achar diversão genuína nos tempos atuais. Como uma das minhas maiores diversões é escrever, tracei um paralelo entre esse assunto e uma pergunta feita por Aldous Huxley, a história vivenciada por um amigo e “Hellblazer”, a revista em quadrinhos que trata das aventuras (melhor dizer desventuras) de John Constantine, o melhor personagem já criado. Se existisse um prêmio para equiparações absurdas, eu já tinha vencido.

Boa leitura!

A diversão e o Senhor da Dança

Joyful women having fun after hard work

No início, eu achava que acontecia somente comigo e, assim, não comentava em voz alta, imaginando que poderia sofrer deboches ou incompreensão. No entanto, outras pessoas que não se conheciam acabaram me comentando o mesmo assunto, todas de idades diferentes, e foi inevitável concluir que é algo que se espalha cada vez mais pela nossa sociedade: está difícil encontrar lugares para se divertir.

Um dos motivos de orgulho para a pós-modernidade é justamente dispor de lugares para todas as tribos e tendências. Nas grandes cidades, a multiplicidade de interesses faz com que os grupos se organizem em torno de pontos onde podem encontrar seus semelhantes e partilhar de diversões conjuntas. Ainda assim, mesmo no âmago desses lugares, cresce o desconforto. Eu posso ir a uma convenção de fãs de quadrinhos e, apesar de gostar do que vejo e escuto, não relaxar o suficiente para me divertir. Posso estar em uma festa de metaleiros em um bar, escutando música pesada, ou apreciando uma feira medieval em um parque da cidade e, ainda assim, não conseguirei chegar naquele estado de espírito de alguém que realmente se diverte em um local. Sim, eu soltarei muitas risadas e estarei integrado ao ambiente, mas, por dentro, a diversão buscada sempre parece insatisfatória.

Em um dos seus provocantes ensaios de “Música na noite”, Aldous Huxley coloca o dedo na ferida: quem de nós ainda se diverte hoje realmente em um lugar de diversão? Um leitor apressado responderia que sim, ele se diverte muito quando sai à noite. No entanto, aprofundando a questão, veríamos que, com exceção de alguns raros momentos da nossa vida, raramente nos divertimos de verdade, e ainda menos quando saímos à noite. Os locais de diversão atuais não são feitos para folguedos: eles servem para entorpecer com drogas lícitas ou ilícitas. Ao mesmo tempo em que anseiam pela nossa chegada, assim que estamos lá dentro, esforçam-nos para nos fazer consumir e sair o mais rápido possível para que outro corpo repleto de dinheiro novo venha ocupar o nosso lugar. Seus ambientes escuros impedem-nos de ver o que está acontecendo com clareza; a música em volume altíssimo não nos deixa conversar com as outras pessoas, e precisamos nos comunicar aos berros, o que deixa a garganta seca e necessitada de mais líquido, uma maneira nada sutil de nos fazer consumir mais e mais.

Muitos anos atrás, um amigo meu teve um surto em um bar noturno e precisou sair às pressas. Ele não tinha consumido álcool, não se drogara e é uma das mentes mais racionais que conheço, mas contou-nos que, quando estava no meio do lugar, no auge da festa, olhou ao redor e só viu gente morta. Quando rimos e comentamos que tinha sido algum truque de luz, ele enfatizou, com pavor genuíno, que as pessoas estavam vivas por fora, mas mortas por dentro. Desde essa narrativa, não tem ocasião que eu não saia à noite e, observando o mundo ao redor, não perceba que meu amigo tinha razão. Percebo uma infinitude de sorrisos falsos, gente bêbada até o ponto de esquecer o próprio nome, músicas suadas e trepidantes, pessoas bem vestidas escondendo angústias e medos, em especial o pior deles: não ser capaz de se divertir naquela noite. Gastar dinheiro e voltar fracassado para casa. E assim bebem, se drogam, pulam e esperam, achando que a diversão em breve chegará à festa e dará algum sentido para ela.

Em uma das melhores histórias de “Hellblazer”, John Constantine está em um bar na noite de Natal, deprimido, quando percebe a chegada de um homem sorridente e vestido com roupas antigas, além de ostentar uma anacrônica coroa de flores na cabeça. Os dois conversam, e Constantine descobre que aquele é o Senhor da Dança, uma divindade pagã que existe desde o início dos tempos, e teve o seu nome e existência “apagados” pelas religiões que lhe sucederam, mais preocupadas em retirar a diversão dos seres humanos e mergulhá-los em culpa do que em deixá-los gozar a alegria de estar vivo. Esse Deus antigo anda pelos bares do mundo, e basta ele estar no recinto para que as pessoas finalmente se divirtam de verdade, sem que tal diversão envolva maneiras de se agredir, se entorpecer e se machucar, seja com gestos ou com palavras.

Faz muita falta o Senhor da Dança nas festas atuais. A diversão tornou-se uma mercadoria e, como tal, possui um preço a ser pago, e não é barato. Não é à toa que os locais de diversão abrem e fecham com rapidez, pois, tão logo o verniz legal que lhe emprestaram torna-se batido, a sua natureza de depósito indiferente de corpos repletos de dinheiro a ser gasto torna-se evidente. Por isso, percebo um movimento contrário: as pessoas não saem mais para se divertir em locais específicos, mas criam a diversão nas suas próprias casas, onde conseguem modular a altura do som, escolhem a comida ideal para a ocasião e se divertem conversando e trocando ideias.

Ainda existem muitas pessoas que saem à noite, mas elas são cada vez mais novas e a diversão é cada vez mais difícil de achar. Chega um tempo em que menos é mais, e não saímos mais para ver e sermos vistos, mas preferimos ficar com quem nos conhece. As ocasiões em que mais me diverti nos últimos tempos teve conversa inteligente, comida apropriada, bebida bem escolhida e muita risada e espirituosidade, o que mostra outro pensamento de Huxley: a verdadeira diversão está dentro de nós e nas companhias que escolhemos. Quando enfim entendemos isso, sabemos que o Senhor da Dança não espera em algum local indefinido para nos divertir, mas sempre esteve dentro de nós, ansioso para conversar e abrir garrafas de champanhe enquanto a noite se arrasta entre as estrelas, lânguida.

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Texto publicado na revista eletrônica da Dublinense (22/12/2016): “Estamos em guerra”

Na minha coluna dessa semana no Medium da Dublinense, a constatação inevitável: estamos – e sempre estaremos – em guerra pela cultura.

Após um início sombrio, com a constatação de derrotas em vários fronts culturais, eu conto a história do escriba que, no século VII a. C., enganou Assurbanipal, rei da Assíria, em solidariedade a um outro escriba invisível; falo de Michelangelo pintando a Capela Sistina e brigando com o Papa Júlio II, o “Papa Guerreiro”; falo de Adorno e da assustadora música que não escutamos; conto do quadro de José de Ribera que escandalizou e fascinou a Espanha no século XV ao mostrar um homem amamentando e, após emular Churchill, termino como uma boa luta deveria sempre terminar: em cima de um púlpito, com John Ruskin fazendo um violento discurso contra os moradores da pacata Rusholme em defesa da biblioteca pública – e que virou uma defesa pela cultura, tudo para dizer que não nos rendemos e, enquanto existir um mísero púlpito, um diminuto texto, um microfone, nós vamos falar sobre cultura, sim, e o mundo terá que nos escutar.

Boa leitura!

 

Estamos em guerra

Dizem que a cultura está sob ataque. Todos os dias chegam reportes desanimados dos fronts de batalha: são livrarias fechando, substituídas por conglomerados amorfos que empurram modas literárias goela abaixo; são orquestras tendo as suas atividades encerradas, enquanto as outras suspendem a respiração, com medo de que sejam as próximas a entrar na fila do abate; são museus tendo o seu acesso restrito a horários incompatíveis com o dia a dia de uma cidade; são peças de teatro com as temporadas canceladas por falta de público; são bate papos literários realizados para as moscas; são exposições de arte desertas, à espera de um público que nem sabe que elas existem e menos ainda sobre a sua relevância. Para quem lê tantos relatos de derrota, impossível não desanimar ao ver os bárbaros cercando a civilização com os seus archotes e forcados. Para quem produz cultura, então, o cenário é tão desalentador que não surpreende que muitos estejam desistindo de tamanha utopia e voltando às engrenagens impiedosas da rotina de consumir e ser consumido.

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Gostaria de dizer que a cultura está sofrendo ataques somente em um local, permitindo restringir o alcance de uma eventual derrota, mas é um movimento mundial. Os reportes chegam de todos os lugares: monumentos destruídos, obras vandalizadas, livros censurados, músicas ridicularizadas. No afã de sobreviver, a arte vulgarizou-se; deixou de falar do humano para tratar de si mesma. Fechou-se em uma bolha, e o resultado está aí – a cultura tornou-se supérflua. Se ela é algo que só existe para satisfazer o próprio ego das obras e dos artistas, para que perder tempo e dinheiro consumindo algo que não nos diz respeito? Sempre é bom realizar um mea culpa e, se a cultura está sob ataque, é por causa das nossas decisões equivocadas e da nossa maneira indelicada e insensível de encará-la. Tornamos não somente a cultura supérflua, mas também cedemos ao conforto de imaginar que estávamos seguros. Nunca estivemos e, infelizmente, como mostra a situação ao nosso redor, jamais estaremos.

Nunca foi fácil tratar com cultura. Com exceção de poucos períodos luminosos em que as artes foram vistas como fundamento essencial do ser humano, a cultura sempre foi o primeiro objeto que jogávamos fora do navio assim que víamos a primeira sombra de água intrometer-se na proa. Sempre tivemos que fazer concessões para que a cultura fosse adiante, seja ao capital, ao poder ou à religião.

Na Assíria, em meados do século VII, um escriba escreveu uma nota à margem de um texto literário destinado a ser lido ao rei Assurbanipal por outro escriba: “Quem quer que você seja, escriba que lerá esse texto, não esconda nada do rei, meu senhor, para que os deuses Bel e Nabu falem com bondade de você para o rei.” Uma pequena nota de rodapé em um texto e uma indiscrição cometida contra Assurbanipal, mas também um comunicado secreto entre dois artistas da arte da palavra. A cultura só sobrevive quando todos nos ajudarmos, mesmo que seja enganando o próprio rei a que obedecemos, e diante dos seus olhos.

Somos herdeiros deste escriba anônimo. Estamos todos deixando mensagens criptografadas para serem lidas por algum anônimo do futuro que irá nos entender e, talvez, salvar a própria vida quando estiver diante da nossa arte. Não podemos ser irresponsáveis.

Para que a cultura sobreviva, devemos não só nos ajudar, mas propagá-la em cada mísero front que nos derem. Temos a possibilidade de um discurso? Vamos falar então. Temos a possibilidade de um texto? Iremos escrever sobre o assunto. Um prêmio, uma honraria, uma festa? Iremos falar a verdade incômoda – de que existimos e somos importantes. Nunca mais nossos adversários dormirão em paz enquanto tivermos um púlpito que nos escute. Lutaremos lado a lado nas trincheiras, sob a sombra das flechas ou das balas de canhão, e iremos cantando para a luta.

Quem mexe com cultura nunca consegue dormir tranquilo, sendo atormentado pela insegurança de saber se fez um bom trabalho, ou pelas dificuldades inerentes de se sustentar em um mundo que não nos dá muito valor (e no qual somos facilmente descartados), ou pela incerteza das obras de arte que disputam espaço na memória do artista, ansiosas por uma liberdade que o seu corpo cansado não é capaz de proporcionar a contento. Não ajuda nada para a tranquilidade do artista saber que, a qualquer momento, uma canetada indiferente dos órgãos de governo pode transformar a sua obra inteira em algo obsoleto, proibido ou até mesmo queimável. A única garantia de sobrevivência é se o público clamar em defesa ao artista, mas a plateia é volúvel, instável e facilmente dispersa. Além disso, existem muitas atrações simultâneas no meio do anfiteatro, e nunca sabemos se os polegares estão em riste para nós ou para o espetáculo ao lado.

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Ainda assim, e contra todos os prognósticos, lutamos a luta impossível. Não faz muito tempo, li “Michelangelo: uma vida épica”, biografia do pintor escrita por Martin Gayford. Michelangelo passou a vida inteira lutando por sua arte. Chega um momento em que o leitor se pergunta se valeu a pena o pintor brigar tanto pelo direito de se expressar livremente, se não seria melhor desistir.

Para pintar o teto da capela Sistina, Michelangelo teve brigas e discussões homéricas com o papa Júlio II, o “Papa Guerreiro”, que tentava impor as suas visões comuns de arte para o pintor. O papa não queria intimidar o artista, mas costumava visitar a obra vestido de armadura e portando uma espada, o que já era uma forma de passar o recado. Michelangelo não lhe deixava sequer ver a obra, mantendo-a sempre tapada, para evitar a curiosidade e as opiniões do mecenas.

Como o papa Júlio II tinha muitas dificuldades de comunicação verbal com Michelangelo, decidiu enviar-lhe cartas contendo sugestões de afrescos, ao que o artista respondia de forma furibunda, considerando inaceitável esse tipo de intromissão. Em certo momento, o papa acabou capitulando – literalmente deixou nas mãos de Deus – e, nas palavras de Michelangelo, “enfim deixou-me fazer o que eu gostaria”. Tais fatos aconteceram há quase 250 anos, e a Capela Sistina continua lá com seus afrescos, enquanto os dois homens viraram História, e eis outro destino da cultura: permanecer como solitário farol a guiar o humano enquanto o mundo estiver mergulhado nas trevas.

Sintoma maior da fragilidade dos nossos tempos é que mesmo as pessoas que fazem cultura não sabem o que é cultura. Buscam o aplauso indiferente, a risada distraída, o bater nas costas enganoso ou os confortos ilusórios do dinheiro e da fama ao invés de fazer uma obra cultural honesta. Fazer cultura é se dissipar dentro da obra, e não buscar atingir o público pelo escândalo planejado ou pela ruptura de padrões que, de tão velhos, já existem mais como recordação do que como verdade imutável. “Hum, Fulana tirou a roupa, preciso me escandalizar”; “hum, Beltrano se machucou no palco, preciso ficar horrorizado”. Até mesmo a ruptura de padrões pode ser um clichê e, quando mal feita, traz mais escárnio para a produção cultural do que a auxilia.

Em um de seus textos, “O fetichismo na música e a regressão da audição”, Theodor W. Adorno fala sobre algo muito assustador: a ideia de que existem músicas feitas para não ouvirmos. Estão por aí, espalhadas pelo mundo, dentro de elevadores, lojas de departamentos, supermercados, e nós escutamos, mas não ouvimos. No entanto, atrás destas obras, existe também um artista, que criou uma música sem alma e com o propósito de passar no fundo da nossa vida sem causar nenhuma impressão. São músicas zumbis, sem vida e que, apesar disso, existem. Mais preocupante é parte dessas músicas estarem fagocitando músicas dotadas de alma, como sonatas de Mozart ou sinfonias de Beethoven, tudo para transformá-las em algo sem alma e sem destino. O mesmo acontece com a cultura: ela está sendo destruída por que não se tenta a ousadia de pular em um abismo rezando pra que exista um rio ao seu final, mas para reeditar fórmulas ditas de sucesso. Viramos grandes ventríloquos e, por causa disso, não surpreende que sejamos considerados descartáveis.

A cultura vai muito além de expor uma obra, também tem a função de subverter, ironizar, brincar e destruir os padrões existentes, que necessitam se amoldar a ela, e não o contrário. Em 1629, quando o pintor José de Ribera tornou público o quadro que lhe fora encomendado pelo Duque de Alcalá, a sociedade espanhola se horrorizou: era um homem dando o peito para um bebê mamar, ladeado por outro homem. Aquilo era obsceno, ultrajante, nojento, impossível, irreal. As críticas e ofensas se empilhavam, e o pintor correu risco até de ser linchado.

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No entanto, José de Ribera disse o título do seu quadro, “Retrato de Magdalena Ventura”, e tudo passou a fazer sentido. Magdalena Ventura era a “Mulher Barbada”, atração maior de um circo que se apresentava nas cidades espanholas da época. Era natural que estivesse amamentando o filho. Atrás dela, estava o seu marido. O quadro tinha uma explicação bem plausível, não era uma maneira de fazer escândalo no seio de um país católico.

O público se acalmou, mas até hoje o quadro causa um misto de fascínio e de repulsa. Observamos Magdalena Ventura, e a vasta barba e a careca nos levam a concluir que ela é um homem amamentando o seu filho, mas o realmente fascinante no quadro é o duplo formado pelo casal idêntico, que conseguiu insinuar tanto uma revisão da forma com que se observava a mulher na sociedade de então como também insinua uma relação homossexual. Eis o próprio conceito de cultura: usar a força centrípeta da sociedade contra ela mesmo – e demoli-la de dentro para fora.

Sempre lutamos pela cultura e, ainda assim, ela está sob ataque cerrado desde que os donos do poder reconheceram o seu potencial danoso de modificar a realidade. No entanto, não é necessário se acovardar ou desistir. Estamos muito bem acompanhados nesse front de batalha, não tanto pelos outros que compartilham do nosso tempo de vida, mas por aqueles que vieram e os outros que ainda virão. Caem os soldados, mas a guerra nunca para.

Ao melhor estilo do discurso de Churchill para insuflar os ingleses na Segunda Guerra Mundial, devemos defender a nossa terra, não interessa qual seja o custo; devemos lutar nos celeiros, nos campos, nas ruas das cidades, e nunca vamos nos render. Precisamos pegar o exemplo de John Ruskin, o crítico de arte inglês que primeiro viu o valor artístico dos pré-rafaelitas. Em 1864, ele foi convidado a palestrar na pequena localidade de Rusholme, localizada perto de Manchester. Entre tantos assuntos que poderia escolher, decidiu fazer o discurso chamado “Of Kings’ Treasuries”, com o objetivo de convencer os moradores do local a construir uma biblioteca pública. A plateia era formada por não mais do que quarenta pessoas.

Era uma intenção nobre, e as palavras de Ruskin no início falam da importância de uma biblioteca pública, mesmo modesta, não tanto para os indivíduos quanto para a própria moral do país. No entanto, em determinado momento, o crítico perdeu o controle e investiu contra a mentalidade farisaica da época, tudo em defesa da cultura e da arte.

Infelizmente para vocês, as traduções de “Of King’s Treasuries” nesse texto são minhas, e feitas do original. Após atacar as pessoas de Rusholme que “desprezavam a Ciência, desprezavam a Natureza e desprezavam a Arte”, Ruskin colocou o dedo direto na ferida: “Os senhores desprezam a Arte! ‘Como?’, decerto retrucarão. ‘Não temos exposições de arte com milhas de extensão? Não pagamos milhares de libras por simples pinturas? Não temos mais escolas e instituições de Arte do que jamais qualquer nação já teve?’ Sim, é verdade, mas os senhores fazem isso por causa do comércio. Os senhores seriam contentes em vender quadros assim como vendem carvão, e porcelana como se fosse ferro; os senhores tirariam o pão da boca de todas as nações, se pudessem; como não podem, seu ideal de vida é postar-se nas avenidas, como se fossem aprendizes de Ludgate, e berrar para todos os passantes? ‘O que lhes falta? Nós vendemos!’.”

Ao final da palestra, John Ruskin disse que os cidadãos influentes de Rusholme eram moralmente analfabetos, pois desprezavam a compaixão e não se importavam com os seus semelhantes, e isso somente uma biblioteca poderia mudar. No meio da sua argumentação em defesa da biblioteca, uma frase memorável: “Está nas vossas mãos ver, em uma poça de água, a lama do fundo ou o reflexo da imagem do céu ao alto.” A biblioteca pública de Rusholme perdura até os dias atuais; um homem – e uma palestra – podem fazer diferença, mesmo que suas palavras sejam ofensivas e cruéis.

Comecei esse texto dizendo que a cultura está sob ataque, mas foi uma visão otimista. Na realidade, a cultura está em guerra. Como sempre esteve. Cabe a cada um de nós esquecer a lama que está no fundo de tudo e mostrar que não somos músicas vazias de sentido, mas as estrelas do firmamento refletidos na superfície mansa da poça.

Então, bem vindos à guerra que nunca acaba.

Texto originalmente publicado no link https://medium.com/colecao-dublinense/estamos-em-guerra-1cde89b7605b#.8odqv3cv5

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Crônicas de um ano inteiro: “O desaparecimento do Natal”

No meu texto dessa semana no “Crônicas de um ano inteiro”, falei de uma teoria que desenvolvi recentemente e que coloca todos vocês dentro de um delírio meu, mas também falei dos Natais de outrora e quem são os responsáveis por deixar cada ano pior do que o anterior.

Boa leitura!

O desaparecimento do Natal

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Uma das teorias mais engraçadas que criei nos últimos tempos saiu de uma recente conversa de mesa de bar. Uma moça comentou que tinha saudade da época em que o final do ano sempre trazia consigo uma profecia de final de mundo, pois discutir teorias estapafúrdias era garantia de diversão. Eu argumentei que ela estava errada: nem toda profecia de fim de mundo é falsa, algumas podem ser verdadeiras. Prova maior disso é que o mundo acabou mesmo em 2012, no ano da profecia maia. Diante do silêncio geral, eu disse que, sim, o meteoro viera nos dizimar conforme o previsto, e estávamos vendo, na abóbada celeste, a sua aproximação repleta de ferocidade e destruição. A vida que eles achavam que ainda existia era, na verdade, um delírio meu no segundo exato que precedia a destruição do planeta. Nesse espaço diminuto de tempo, eu criei um mundo inteiro em que o meteoro não existia, e coloquei vocês dentro do meu delírio, mas não se preocupem: em breve, não mais existiremos. Afinal, se a fonte do delírio morrer, vocês também acabarão.

Não foram poucos os que me olharam com desconfiança, e alguns até mesmo contemplaram o céu. Estávamos sentados em uma mesa na rua, e o globo lunar distante podia revelar a sua verdadeira face de meteoro a qualquer instante. Segundos depois, todos riram, e a sensação incômoda se desfez. No entanto, ainda tenho dúvidas se estava brincando ou se não tinha visto a realidade de ser um sonhador em um mundo repleto de ilusões que caminham.

Comento isso hoje por que vejo muitas pessoas reclamando que 2016 foi o pior ano de todos os tempos. Como prova, argumentam as pessoas que faleceram em 2016 (David Bowie, Prince, Leonard Cohen, Harper Lee, Alan Rickman, Muhammad Ali, Fidel Castro), as tragédias (a queda do vôo da Chapecoense, os atentados terroristas na França, a delicada questão humanitária na Síria), as convulsões políticas (Dilma Rousseff sofreu impeachment no Brasil, as manifestações no país, a “PEC da Morte”, Trump venceu as eleições nos EUA)… tudo é justificativa para que muita gente esteja ansiosa pelo término de 2016.

As redes sociais possuem uma ferramenta que mostra o que estava acontecendo no mesmo dia em outros anos do passado. Para meu espanto, quando estávamos em 2015, dizíamos que aquele era o pior ano de todos. Em 2014, idêntica ladainha sobre ser o pior dos tempos. O mesmo em 2013. Parece evidente que, a cada fim de ano, temos a tendência de considerá-lo o pior de toda a História da Humanidade. Depois de passarmos incólumes por ele, cuspimos no mesmo prato que foi saboreado durante 365 dias, com a esperança de que o futuro vai nos trazer iguarias melhores.

Pergunto-me se são os anos que estão ficando piores à medida que passam ou nós que estamos nos tornando mais brutalizados, mais selvagens, e, nesse caso, nunca mais teremos ano bom. Estava lembrando como era o Natal em outros anos. Para começar, o mês inteiro de dezembro era um período repleto de alegrias; tínhamos genuíno prazer em arrumar nossas casas. Era sagrado que, na época natalina, minha família resolvesse repintar a casa inteira e ajeitar aquilo que estava estragado. Tínhamos menos dinheiro naquela época, mas não era obstáculo, sempre dávamos um jeito. Não contratávamos pintores ou marceneiros; fazíamos tudo com as nossas mãos de criança ou adolescente, e nunca existiu demérito nisso.

Também tínhamos o hábito de iluminar a casa com luzes de Natal. Colocávamos em todas as janelas uma série de luzinhas piscantes. Uma competição saudável se estabelecia entre vizinhos, todos em busca da iluminação mais espetacular para as janelas da sua casa. Não bastando, fazíamos pesquisa de mercado: andávamos pelas ruas da cidade procurando novas ideias de iluminação, caminhando entre casas e prédios que brilhavam como estrelas.

Nas televisões, a programação era destinada ao Natal e aos melhores filmes do ano (que passavam à noite). Todos os filmes clichês frequentavam as telas, e não perdíamos nenhum, para entrar no clima. Por todos os lados da cidade, abundavam músicas festivas. Sim, existiu um dia em que o CD natalino da Simone foi o ápice do ano. Hoje fazemos piadas e memes sobre tudo (acabo de ver um meme ridicularizando a morte do embaixador russo na Turquia), mas as risadas atuais são mais esgares de desespero do que um produto genuíno da alegria. Rimos dos outros para que eles não riam de nós.

Na noite de Natal, tínhamos até Papai Noel. Sinto falta do Papai Noel, ele era a nossa âncora de normalidade em um mundo estranho que o esperava um ano inteiro. O atestado maior de que eu me tornara um adulto foi quando encarnei o Papai Noel em uma das festas da família. Ganhávamos muito menos presentes e fazíamos amigos secretos divertidos, sem piadas grosseiras ou humilhantes. Não passávamos o tempo todo dizendo que o ano fora ruim, mas olhávamos para a frente com alegria: o próximo ano seria melhor. E estávamos passando por Plano Cruzado, por Guerra Fria, por racionamento de alimentos, por ditadura, por muitos problemas e medos.

A pós-modernidade chegou e desconstruiu tudo. O Papai Noel é uma criação capitalista. O amigo secreto é uma ostentação impregnada de injustiça. A troca de presentes é um gesto de discriminação, pois alguns ganharão presentes melhores do que os outros. As luzes chamam a atenção dos bandidos e são bregas. Arrumar a casa para um período do ano é ilusório, o melhor é estar sempre comprando coisas novas ao invés de consertar as existentes. As televisões passam besteiróis americanos repletos de escatologia e de piadas duvidosas. O próprio caráter religioso do Natal se perdeu, e não menciono o aspecto católico, mas a ideia de termos uma noite de paz universal, de sorrisos e de alívio. Uma noite inteira para fazer valer um ano de privações. Hoje, o Natal se transformou em um longo banquete, em que se come de tudo e se bebe qualquer líquido que possua álcool, enquanto xingamos o ano (ou a política ou o futebol ou a economia ou alguma celebridade) e nos entorpecemos lentamente.

Não sou uma pessoa nostálgica, muito menos acho que as pessoas deveriam retornar a esses valores do passado. Só sinto uma certa tristeza ao imaginar os Natais de outrora, repletos de risadas, de pessoas bem humoradas e de comidas simples, em comparação com os de hoje, em que um grupo de estranhos sentam ao redor de uma mesa com seus celulares e se dedicam a falar mal de algo. Não merecemos mais ter Natal; não nos comportamos direito no decorrer do ano, e sequer temos a humildade de reconhecer o quão errado agimos. Ao menos eu experimentei alguns Natais de verdade no decorrer da minha vida, e isso é um consolo.

A cada ano, pensamos que a vida se torna pior, mais bruta, mais violenta, mais selvagem. Contudo, não devemos culpar o ano; os culpados somos somente nós. Se pensamos que 2016 foi um péssimo ano, não é culpa do Tempo, essa variável que permeia o Universo, mas as nossas próprias condutas que estão transformando cada ano no pior de todos os tempos.

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