Arquivo do mês: janeiro 2012

Um estouro realmente pode ser um estouro

É uma experiência semântica interessante viajar pelo interior do Rio Grande do Sul. As palavras possuem outros significados, termos usados em um contexto em Porto Alegre são utilizados de forma completamente diferente em outros lugares e, não raro, dificuldades comunicacionais acabam se apresentando.

Seguindo esta diversidade linguística (para lembrar de um termo das minhas aulas de Linguística, das quais não sinto saudade alguma, posto que respeito o Saussure e o Bakthin mas continuo com medo deles), não deixa de ser memorável quando se descobre que uma palavra pode possuir o significado literal em outro local do Estado – mais literal do que o seu próprio uso cotidiano.

Eu estava em Cachoeira do Sul. Tinha passado do meio dia e entrei em um bar para almoçar. A placa, com cores e palmeiras que remetiam ao Havaí (não sei o motivo), afirmava em letras garrafais “FAÇA AQUI UMA FESTA DO ESTOURO!”. Embaixo, acrescentava que podia ser festa de formatura, casamento, baile de debutante, em suma, qualquer festa. Em dias normais, eu não entraria neste bar (sei lá, podem considerar mania, mas não gosto de placas dissociativas do conceito de comida na porta de estabelecimentos cuja principal razão de ser é justamente vender comida), mas não via nenhum lugar próximo e imaginei que ia ser uma experiência rápida: comer e ir embora.

Logo que entrei, a garçonete perguntou se eu estava na FESTA DO ESTOURO. Disse que não. Juro que não entendi a sua empolgação, pois me pareceu muito entusiasmo por um único evento. Pelo o que entendi, uma festa de aniversário estava acontecendo no andar acima.

A balbúrdia era normal para locais pequenos cheios de pessoas. Eu já tinha até esquecido do detalhe da FESTA DO ESTOURO quando um barulho inimaginável preencheu o bar inteiro. Eram dezenas de estouros, pequenos, médios, grandes, alguns gigantescos, de tremer os copos, mas todos anormais. É evidente que levei um enorme susto, mas logo descobri o motivo da eclosão da Terceira Guerra Mundial: quem estava na mencionada FESTA DO ESTOURO ganhava bombinhas e bombas para tocar no chão ou implodir em homenagem ao aniversariante. Não sei como a ideia de jerico passou pela Vigilância Sanitária ou por algum órgão burocrático competente (não parece muito saudável ou aconselhável explodir itens dentro de um bar), mas o fato é que este tipo de festa existe e me pegou de surpresa.

Depois do momento bombástico, gastei alguns minutos pensando a respeito de como tinha caído naquela armadilha, em tudo semelhante a uma pegadinha, apesar da ausência de câmeras. Cheguei à conclusão de que fora alertado desde o início sobre o que ia acontecer: afinal, era uma festa DO estouro, e não DE estouro. Em última análise, uma festa feita em homenagem ao Deus Estouro. Quando li, imaginei que era algum tipo de gíria: na minha concepção, festa do estouro seria uma grande festa. Giriazinha antiga, típica de quem parou nos anos 70, mas ainda eficaz. No entanto, no caso deste bar, festa do estouro é a celebração em que se estouram coisas. Simples assim, direto assim. E, apesar da clareza do signo, do significado e do significante, fui enganado.

Definitivamente, eu devia ter estudado mais Saussure, mais Bakthin. Mas acredito que nem eles teriam previsto esta possibilidade: estouro significando estouro.

Cachoeira do Sul está abrindo um precedente perigoso. Penso em como seria a vida em um lugar onde os signos significam exatamente o seu sentido literal. Seria um lugar sem metáforas, e a metáfora é a graxa em torno do qual se processa a civilização.

Em todo o caso, fica o aviso. Ocasionais viajantes, tomem muito cuidado em Cachoeira do Sul, pois lá as pessoas dizem exatamente o que desejam dizer.

Momento histórico para mim e para o Saussure, que aparece neste blog pela primeira e (talvez) última vez. Este quadro é famoso e representa a teoria do signo segundo Ferdinand de Saussure. No caso de ESTOURO, em Cachoeira do Sul tal palavra possui significado literal ao som e ao seu conceito intrínseco.

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Arquivado em Ferdinand de Saussure, Generalidades, Linguística

Livro: “Ficção de Polpa – volume 2”, organizado pro Samir Machado de Machado

A capa remete diretamente ao clima pulp dos contos

O problema de quase toda coletânea de contos é a irregularidade. O leitor devora o conto de um autor, adapta-se ao seu estilo, encanta-se com os cacoetes linguísticos (todos temos), embrenha-se no raciocínio construtivo que gerou o conto… e a história acaba e ele precisa começar tudo de novo com o próximo autor. Às vezes cansa este movimento irregular, esta sensação de onda. Em outras, pode dar um efeito de curiosidade: se o conto lido estava tão bom, como será que o próximo autor irá se adaptar ao tema proposto pela coletânea?

No “Ficção de Polpa – vol. 2”, a sensação de “o que vem a seguir?” suplanta a irregularidade dos contos. Aliás, foi um dos primeiros casos de coletânea que já li em que, ao final, SAUDEI justamente a irregularidade dos contos, a diversidade dos temas e a habilidade dos autores. A maneira utilizada para tratar do assunto proposto – as possibilidades eram ficção científica, contos fantásticos ou histórias de horror, ou seja, um leque bem amplo – fez com que a irregularidade virasse o principal destaque positivo. A leitura foi praticamente uma montanha-russa, oscilando momentos ágeis com instantes de reflexão. Alguns contos eu não achei tão instigantes como outros, mas forneciam a estrutura para que outras histórias se destacassem ainda mais. Mesmo não tendo gostado de alguns, entendi que eles se encaixaram na proposta e, se eu não gostei, foi por que a minha expectativa estava alterada pelo conto imediatamente anterior.

No entanto, senti uma clara distinção entre os autores escolhidos para figurar na coletânea: alguns eram escritores que utilizavam a palavra para contar a história e outros eram profissionais que trabalhavam as histórias sem atentar muito para o manejo linguístico. Enquanto os primeiros teciam histórias repletas de significados ocultos, os demais contavam histórias criativas, porém de significado único. São duas maneiras de pensar a literatura. Sempre imaginei que seriam excludentes, mas espantou constatar o quanto são complementares. Tudo dependeria da importância que o autor concede para a palavra.

Importante realçar que, como escritores, somos ensinados a pensar que cada palavra tem um lugar único dentro da história e, se a palavra não for efetiva, é por que outra deveria estar naquele trecho. Oportuno lembrar a frase de Nathaniel Hawthorne, “easy reading is damn hard writing”. Contudo, também existe um outro tipo de história na qual não se observa tanto a utilização exata das palavras, mas o objetivo principal que ela visa transmitir. Neste aspecto, foi um aprendizado importante sobre a validade das histórias em relação às palavras que as constituem.

É complicado destacar contos, por que as exclusões se tornam injustificáveis. No entanto, alguns merecem realce. “Braços longos para os adeuses”, do Juarez Guedes Cruz, é um primor. Eu já disse mais de cem vezes que, algum dia, quando crescer, quero escrever com a mesma habilidade que o Juarez. O problema é que a habilidade dele está cada vez maior. O conto nem se destaca pela história, mas pelo mundo que criou, pelas possibilidades, pela delicadeza com que aborda o tema de um amor impossível. A menção à Shakespeare na história não é ocasional: o timing da história não é o antes do amor ou o depois, mas sim o momento da decisão, da melhor forma do bardo inglês (que se destaca por colocar o centro da história na dúvida, e nunca na resolução do problema). Da mesma maneira, destaque positivo para “Sala de espera”, do Rodrigo Rosp, um conto simples, quase sem pretensões, mas que possui uma reflexão poderosa sobre as maravilhas que acontecem diante dos nossos olhos enquanto ficamos sonhando com a vida comum das celebridades. “On/off”, do Antônio Xerxenesky, também espantou, com uma história envolvente e que, quando chega ao seu final, podendo escolher entre múltiplas possibilidades de conclusão, o narrador decide não terminar o conto e deixar esta opção para o leitor. Não sei se isto existe em outros lugares da Literatura, porém admito que é uma opção arriscada: se a relação do autor com o leitor não está bem formada, a ausência de final pode ser uma grande frustação. Para mim, o jogo funcionou, os finais que imaginei são melhores do que a limitação de um único encerramento a cargo do autor.  Da mesma forma, para ficar nos escritores que conheço, gostei muito de “Emet”, conto do Rafael Bán Jacobsen, que faz uma releitura elegante da história do Golem. Impressionante como o Rafael consegue escrever com fluência, concisão e beleza, ainda mais quando a Língua Portuguesa é usada para descrever cenários e sensações de forma tão segura e límpida. Seu domínio da língua o aproxima – heresias à parte – de um Machado de Assis. Se trabalhasse mais a ironia e o duplo sentido (talvez usando um narrador intruso), suas histórias se tornariam lendárias.

Entre os escritores que eu não conhecia, várias surpresas agradáveis. “Olhos vazios”, da Luciana Thomé, me fez fechar o livro e ficar algumas horas refletindo. História poderosa e sensível, daquele tipo que, se vou descrever, acabarei estragando, pois cada detalhe é significativo. O mesmo pode ser dito de “Visitas”, do Samir Machado de Machado. Toda criança já se sentiu daquela forma: excluída, sozinha, descartável. Transformar estes sentimentos infantis em um conto é memorável, ainda mais quando a transposição é exata e sem melodramas excessivos. “Traz outro amigo também”, do Yves Robert, é outro dos grandes destaques do livro. A premissa é genial: um detetive é contratado para achar o amigo imaginário de alguém, perdido em algum lugar da sua infância. A forma encontrada para realizar a investigação é brilhante. A história prende, os personagens são bem-construídos e o leitor acaba se envolvendo. Por fim, destaco também o nonsense real de “Ressaca”, do Silvio Pilau, contando a aventura de um homem que, em estado de embriaguez, é aproveitado sexualmente por uma habitante do futuro. As implicações são inesperadas e surpreendem pelo realismo. Acabei o conto dando risada, mas com o desconforto de que aquela poderia ser uma situação real.

No saldo final da coletânea de contos, é um livro que vale a pena ser lido. Não possui grandes vôos narrativos ou inovações descritivas, mas a originalidade da sua proposta – escrever pulp fiction em épocas de comunicação em massa – é inegável. Nem toda literatura nasce com pretensão de ser eterna. É delicioso ler escritores se divertindo com as suas propostas e escrevendo histórias com o propósito único de entreter o leitor. No final das contas, é o que importa: passar um agradável tempo se distraindo com histórias criativas. Era isto que os contadores de histórias faziam na época das cavernas, e é algo que faz muita falta hoje, esta possibilidade de se maravilhar com tramas urdidas em torno de palavras.

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Sem parar

Quinze dias atrás, pela primeira vez eu fui apresentado ao meu coração.

Não que ele tenha sido extirpado do meu peito em um arremedo de ritual asteca, ou qualquer outra forma de violência que implicasse em uma separação dele do corpo para o qual dá vida (o meu). Eu fui apresentado à distância, através de um vídeo. A câmera flagrou o coração no auge do seu funcionamento, mas até esta invasão súbita na sua intimidade foi oculta, quase como se houvesse o temor de ser detectado e o coração parasse por um milionésimo de segundo de surpresa, como se estivesse em uma pegadinha.

Foi uma experiência singular. Ali estava o órgão que me permite viver, imerso em uma cavidade escura, dançando enquanto o sangue entra e sai, distribuindo o líquido da vida através de bombadas seguras, decisivas.

As enfermeiras do Instituto de Cardiologia  não entenderam o motivo do meu fascínio. Elas diziam; “Mas é só um coração…”. E eu não conseguia explicar o meu sentimento: “Mas olhem que coisa mágica! Ele está batendo, batendo, batendo no minuto que eu falo, na hora seguinte, no dia todo, enquanto eu durmo,  enquanto eu trabalho, e vai continuar batendo no mês inteiro, no decorrer do ano, até o final da minha vida!” Se isso não é magia pura, não sei mais o que pode ser.

Hoje o coração se tornou um dos termos mais batidos que se pode utilizar, para não dizer um clichê absoluto. É extremamente arriscado usar a palavra “coração” em qualquer coisa que se escreva, pois está carregado de significados derivados de um uso tão extremo. Não sei a partir de qual momento o coração virou algo meloso, romântico, mas suspeito que tem a ver com a imprescindibilidade da sua existência, o fato dele ser muito importante para a vida (quando alguém mora no nosso coração, no fundo esta pessoa tem o poder de vida e morte sobre o corpo). Mas existe ainda um pouco de mistério, pois o coração possui segredos no seu batimento infinito enquanto dura a vida, e o fato dele ser identificado com o amor também é representativo da importância do sentimento.

Da mesma forma, a imagem do coração já foi muito desgastada pela utilização contínua e implacável (quase criminosa) durante muitos anos. Chega a ser irritante colocar a palavra “coração” no Google e ver a quantidade de interpretações estilizadas, comuns e rasteiras que surgem como resultado.

Mas a magia de um coração batendo persiste. Impressiona saber a fidelidade deste órgão: faça chuva ou sol, esteja de bom ou mau humor, ele continua batendo. Se você o tratar mal, ou ser descuidado com o seu corpo, ele não para. São irrelevantes os pensamentos políticos, econômicos ou opiniões de qualquer pessoa, pois o coração não trai, não deixa de bater para manifestar a sua inconformidade, não faz greve. Seja a pessoa um Hitler ou uma Madre Teresa de Calcutá, o coração vai bater igual. Semper fidelis.

E o mais fantástico de tudo é que basta um errinho, um só, no espaço longo de uma vida repleta de batidas por minuto, para o sistema todo entrar em colapso. Um errinho. Um deslize, uma batida fora do ritmo, uma pausa inesperada, e acaba tudo. A impossibilidade de cometer erros, ou de relaxar por um breve instante, chega a ser comovente. Qiuando bate, ele não sabe se está certo ou errado, não s eimporta com nada, somente bate. Se ninguém mais confia em uma pessoa, se ela possui dúvidas sobre a sua capacidade, basta pensar que o coração possui confiança inexorável nela, uma vez que ainda está batendo.

A melhor representação de um coração, assim como um retrato quase fidedigno da sua magia, foi feita por Leonardo da Vinci:

Os desenhos de Leonardo da Vinci do coração ainda são os melhores, em especial por que, na época, ele não tinha acesso a nenhum tipo de tecnologia (somente o olho e uma mão precisa)

A visão do coração me fez pensar que, se eu tivesse uma escola (claro que em um mundo ideal, se possível sem órgãos burocráticos fiscalizando, por que minha conduta não seria pedagógica), instalaria uma máquina de ressonância e faria as crianças verem o próprio coração. Diante de tal imagem, é impossível não respeitar esta fagulha que chamamos de vida, a magia que faz um coração bater dezenas de vezes por minuto, bombeando sangue para mexer todo o corpo. Somente vendo a maravilha da vida uma pessoa pode aprender a respeitá-la. Talvez a ausência deste aprendizado humanista que faça tantas pessoas beberem antes de dirigir, que faça indivíduos baterem ou matarem outros.  Se eles soubessem a magia que estão terminando, talvez não fossem tão inconsequentes. Se soubessem o milagre que mora no fundo do outro ser humano, talvez não ousassem interrompê-lo.

Mas tudo é talvez para mim. Sorte que, para o meu coração, estas dúvidas pouco interessam, pois o importante é continuar batendo.

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As chuvas invisíveis

Estou no escritório e, da janela do sétimo andar de um prédio em Porto Alegre, vejo a chuva cair. No entanto, ela é fraca demais para se sustentar e, no intervalo que a separa até o chão, o calor raivoso evapora os pingos. Ninguém sabe que está chovendo. O máximo que as pessoas devem sentir é o bafo úmido tocando o seu rosto, uma espécie de alívio fugidio no meio do sufoco. Contudo, o mais provável é que não sintam nada, pois este é um mundo insensível, incapaz de sentir a presença fantasma da chuva.

É um fenômeno da natureza, eu sei. A “chuva invisível” é aquela que sai da nuvem normalmente mas, ao atravessar uma massa de ar seco, evapora antes de chegar no solo. Mesmo sabendo disto, é interessante ver o mundo dividido em duas partes: uma consciente da chuva, e outra que a ignora por completo. Aqui em cima, os passarinhos se refestelam nos pingos; lá embaixo, as pessoas continuam imersas nos seus problemas e vidas, suando e esperando a redenção da chuva (tão próxima, tão distante).

Boa metáfora para a epopéia humana no planeta: eterno caminhar na superfície, desconhecendo a magia que se processa há alguns metros de distância.

O sol volta a brilhar com força e a chuva retrocede, elegante. Da mesma forma discreta com que surgiu, a magia desaparece. No céu, nem um arco-íris.

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Leitura alternativa para o conto “O homem despedaçado”

Acabo de receber uma interessante possibilidade de interpretação do conto “O homem despedaçado”, que dá título (e espinha dorsal) para o livro que escrevi.

Meu amigo Matheus Scozziero – que se auto-intitula “péssimo leitor”, sabe-se lá o que significa este título – disse ter certeza que o narrador do conto estava falando consigo mesmo no espelho. Ou seja, o amigo do narrador e seu anfitrião no jantar que inicia o conto teria sido criado pelo próprio narrador (ou, em última análise, pelo espelho). A chave para o surgimento do mistério, o agente catalisador que forçou o narrador a sair da ignorância e descobrir o segredo dos homens infinitos, estaria o tempo inteiro na sua própria loucura, de ver a si mesmo diante do espelho e imaginar dois.

Olhando por este ângulo, este amigo teria sido o primeiro homem a ser despedaçado, e dele saiu uma outra pessoa, tão diferente que possibilitava a interação, diálogos e até uma convivência amistosa.

Inquieta saber que a exposição demasiada diante de espelhos pode enlouquecer uma pessoa e fragmentar a sua psiquê.

Esta possibilidade de leitura trouxe à minha recordação o quadro de Paul Delvaux, “Woman in a cave”. Em sala de aparência decadente, uma mulher vestida se contempla no espelho; a imagem refletida é dela nua, na mesma sala, mas com uma janela atrás revelando uma casa de campo espreitada por árvores (gosto de ver a árvore que se destaca, parece um general passando instruções para as suas tropas). Existe uma evidente disparidade entre a imagem revelada pelo espelho e a realidade. O espelho revela aquilo que a pessoa quer ver.

Será possível que os espelhos estejam nos mentindo o tempo inteiro?

"Woman in a cave", do Paul Delvaux: bom exemplo de que o espelho revela aquilo que queremos ver

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Pessoas são estranhas

Já dizia o The Doors: “people are strange”. Cada vez mais esta constatação parece evidente nos dias atuais. É difícil fazer parte da Humanidade, em especial quando parte dos seus elementos são muito esquisitos e possuem pensamentos que escapam de qualquer lógica.

Estou dizendo isto por causa de um estranho evento que aconteceu nesta manhã. Como ando fazendo controle de cafeína, tomo uma taça desta beberagem negra por dia. Por este motivo, e para evitar tentações cafeísticas, dirijo-me toda a manhã ao McDonald’s e compro uma taça de café. Quem já comprou sabe como é: eles colocam em uma embalagem cor de cobre, tampada, e a pessoa sai pela rua portando algo que qualquer outro exemplar da raça humana – com exceção dos cegos – verá de longe que é um líquido quente, perigoso para o contato direto com a pele.

Bem. Após comprar o café e sair do McDonald’s,  em torno de 15 metros de caminhada me separam do prédio onde trabalho. Ou seja, é uma distância curta, quase impossível de acontecer um acidente. E, no entanto, aconteceu.

Uma senhora, que estava há aproximadamente 50 metros de distância e do outro lado da rua, com o olhar fixo em mim (não pode nem dizer que surgi do nada), veio na minha direção com toda a velocidade. Eu imaginei que ela estava me enxergando e que iria desviar, mas, mesmo assim, me preparei para sair do caminho dela. Apesar de todas as cautelas, apesar dela estar me olhando, apesar de ter um enorme espaço para desviar e impedir o acidente, apesar de todas estas atenuantes, a mulher acertou o meu braço em cheio. E o café quente caiu sobre a sua roupa.

Deve ter doído. Pelo menos ela gritou bastante e fez bastante escândalo. Nenhuma gota de café me acertou, graças a Deus, por que não sou louco de ficar no caminho de um líquido escaldante.

 

Será possível alguém não olhar que estou segurando ESTA TAÇA e presumir que ela pode ser prejudicial à saúde acaso o líquido entre em contato com a pele?

 

Tirando as ameaças de processo feitas pela mulher (outro contrasenso absoluto, pois a – sou advogado, logo processos não me assustam e b – o grande gênio não sabe nem o meu nome e nem o meu endereço, ou seja, é mais fácil processar uma nuvem), fiquei pensando no que faz uma pessoa mediana atravessar a rua, acelerar o passo e se jogar de peito aberto em um copo de café quente. Isto não é um comportamento normal, típico de se esperar de alguém com o mínimo de sentido de auto-preservação. É uma atitude típica de quem deseja cometer suicídio mas permanecer vivo; esticar um barbante e tentar se enforcar pulando da mesa. Definitivamente, “people are strange”.

Outra prova desta estranheza total das pessoas é a discussão que se estabeleceu na mídia sobre a música feita por um tal de Michel Teló. Já vi mais de 20 pessoas que respeito xingando esta música e falando que ela não representa a cultura do país, que é um horror que as pessoas a escutem, que é prova de infantilidade mental e coisas do tipo. Ué. Se a música é tão ruim assim, por que as pessoas que não gostam dela simplesmente não a escutam? Vamos ao básico: suponhamos que eu esteja ouvindo rádio e a música começa. Troco de estação e, voilá, não escuto a música que me causa tamanho desgosto. É tão mais simples trocar o dial do que modificar o pensamento de um país todo… Do jeito que o assunto aparece nas conversas, parece que as pessoas estão obrigadas a escutar uma música que não gostam (comportamento característico de uma tortura), quando o mais correto seria pensar que basta não escutar a música para o problema acabar ao natural.

Parece-me uma pretensão muito grande destes “intelectuais” de dizer o que é cultura para o povo. Eu sou da época que cada povo fazia a cultura que merecia, ou que ela era o seu reflexo exato. E o Michel Teló, gostemos ou não, é o reflexo do país, que se assemelha cada vez mais a uma Nau dos Insensatos, onde todo mundo quer influir no que os outros pensam, agindo com extrema ilogicidade para impor o seu plano de vista.

Ainda bem que eu continuo exercendo a liberdade de não me auto-imolar nas ruas de Porto Alegre e continuo trocando o dial toda vez que inicia uma música que não gosto. Assim consigo ficar longe desta horda furiosa e insensata que se joga em cima de taças de café escaldante ou que são “obrigados” a ouvir uma música que não gostam.

A melhor alegoria para a sociedade brasileira atual

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Saudades do barroco

Hoje acordei pensando no barroco.

No mundo moderno, existe pouca coisa mais obsoleta do que o exagero do barroco. A modernidade chegou e trouxe consigo um ódio mal disfarçado ao  excesso, às luminescências escandalosas, aos detalhes escavados em ouro. O barroco tornou-se uma avis rara, quase um espécime em extinção, item pertencente à História e que o mundo atual encara quase como se fosse aquele tio velho que aparece nas festas de família, bebe e dá vexame. O interessante é que, mesmo relegado e desconsiderado, nunca o barroco se fez tão presente como nos dias vigentes. A diferença é que ele saiu da arte, das grandes igrejas repletas de estátuas e trabalhos em madeira, e se transferiu para o interior das pessoas, sendo emblemático deste culto à personalidade que se espalha como erva daninha no meio social. Atualmente, para aparecer na mídia, uma pessoa precisa ser barroca, necessita de detalhes chamativos, esquisitos.

Certa vez, vi uma entrevista com o Michael Jackson em que perguntaram o motivo das suas estranhezas, tais como a construção de um zoológico particular e as sessões de criogenia que afirmavam que ele fazia em casa (by the way, não adiantaram porcaria nenhuma, pois ele morreu igual). Michael Jackson respondeu que fazia aquilo por determinações da assessoria de imprensa, que pesquisava estranhezas entre o seu público e lhe passava, a fim de construir uma imagem. Como figura humana, para mim ele perdeu grande parte do interesse neste momento: eu preferia o Michael Jackson insano do que uma assessoria de imprensa que pensa este tipo de coisa. Este é o barroco da atualidade: um monte de gente pensando bobagens para que outra pessoa execute e seja cool.

Voltando ao barroco, acredito que as minhas saudades não se relacionam com a vivência do barroco, a qual não tive. Mas sinto falta da ideia de que os artistas podiam sonhar e construir obras de incalculável beleza sem ter uma enorme massa de medíocres podando as arestas da sua criatividade e os impelindo a buscar cada vez menos. É o que vejo acontecer atualmente: as pessoas soltam as comportas da criação e logo aparece alguém dizendo que é um exagero ou “barroco demais” (crítica amplamente estúpida, pois o barroco já é demais por definição, é como dizer sal salgado).

Recordo também do grande ensaio de Haroldo de Campos, “O Sequestro do Barroco na Formação da Literatura Brasileira: o caso Gregório de Mattos”. Muita gente considera o barroco como um movimento sem expressão nacional, como algo que foi importado de outras culturas. Um grande silêncio ronda o barroco. Geralmente se pensa nele como se fosse alguma coisa ruim, ou um exagero sem sentido. Eu já penso o contrário: o barroco é a forma artística que mais destaca a figura do criador e o leva a se destacar do restante da humanidade. Por este motivo, talvez, ele seja tão desconsiderado e silenciado. As pessoas têm medo daquilo que não são capazes de entender.

Faço esta reflexão por que hoje acordei lembrando de “O Reino deste Mundo”, do Alejo Carpentier. Apesar de ser outro expoente e um dos criadores do realismo fantástico, a prosa de Carpentier se destacava justamente por ser barroca. As descrições são luxuriantes como esculturas forradas a ouro. O leitor se perde em longas descrições e uma vastidão linguística impressionante, repleta de sons, de cheiros, de cores. É possível sentir vida no meio dos livros do Carpentier, uma vida real como caminhar no sol do meio dia sem protetor solar. O escritor cubano traça um panorama legendário e exuberante da história do Haiti. Não consigo entender por que tantas pessoas parecem ignorar Carpentier, mas associo secretamente a este culto minimalista que se apossou das artes  e que, na minha opinião, é somente uma reverberação de pessoas sem conteúdo tentando tilintar sinos invisíveis. É impossível ler a prosa barroca de Carpentier sem sentir uma seiva verde de vida invadindo o corpo e povoando um mundo interno até então árido.

Alejo Carpentier, encurralado por livros

Talvez a coisa mais correta a ser feita é um movimento para tirar o barroco das pessoas e transferi-lo, em segurança, para igrejas ou museus, a fim de que possamos vislumbrar as insofismáveis alturas nas quais a imaginação e a criatividade humana podem chegar se não tiverem limites.

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