Arquivo do mês: setembro 2012

Sonho com aranhas

Esta noite sonhei com aranhas, e elas entravam pelo meu nariz, pela boca, corriam por entre os cabelos, beliscavam as orelhas, arranhavam os olhos.

Não tenho problemas com aranhas. Nem medo, nem receio, nem nada. Inclusive admiro a construção estrutural das suas teias, ainda que me intrigue – e ninguém conseguirá encontrar uma explicação capaz de me convencer – o local de onde sai a teia, existirá um novelo eterno dentro de corpos tão pequenos?

Mas eu sei por que estava pensando em aranhas. O culpado, para variar, é um livro, recentemente lançado nos Estados Unidos, chamado “This book is full of spiders”, de David Wong.

Vi o trailer dele na semana passada. Gosto desta mania americana de fazer trailers de livros com cuidado quase cinematográfico. No caso, o trailer não me chamou tanta atenção quanto o assunto do livro: a possibilidade de que parasitas invadam o corpo humano e passem a ditar as suas atitudes e pensamentos. Pode estar acontecendo agora, com você, comigo. Este é o vídeo:

Algumas considerações expostas no livro são assustadoras em muitos aspectos. Por exemplo, existe um parasita no formato de inseto que entra no corpo de um outro animal, come a sua língua e, então, substitui a língua com o próprio corpo. A criatura parasitada continua comendo e vivendo normalmente, sem saber que a língua foi substituída por outra criatura viva. Querem fotos? Vamos a elas:

O parasita instalado na boca do peixe.

Outro detalhe inquietante: existe um parasita microscópico que é responsável por metade das mortes da Humanidade desde a Idade da Pedra, descontadas as guerras e as mortes acidentais. Mais algum detalhe que devemos saber? Bem, existe um parasita cerebral que mora em mamíferos e altera de forma discreta o seu comportamento. Mais de 3 bilhões de pessoas carregam este parasita, o taxoplasma gondii, transmitido preferencialmente pelos gatos.

Não sei o conteúdo exato do livro (será lançado de forma oficial dia 02/10/2012), mas pretendo adquiri-lo. Ao que tudo indica, ele trata de um parasita no formato de aranha que, no meio do sono, invade o nosso corpo, se instala sob a língua e começa a controlar o pensamento e as vontades do hospedeiro. Seríamos controlados por este ser, e a foto que segue foi a que se cravou na minha mente e acabou se transferindo para o sonho:

Um dos mais detestáveis hábitos que as pessoas possuem é nunca assumir a sua responsabilidade, culpar os outros por aquilo que fazem. E culpar um parasita por palavras impensadas, por besteiras feitas, por eventos inoportunos é levar esta habilidade a um novo patamar de abstração.

Preocupa um pouco a ideia de que parasitas possam viver dentro do meu corpo dentro deste exato instante. O que eu falo ou penso, será eu mesmo?  Certas perguntas é melhor deixar sem resposta. Por precaução, acaso não seja eu falando agora e sim o parasita, gostaria de deixar claro que acho ele muito interessante. Estou falando do parasita, não do Gustavo. Pensando melhor, não sei mais quem está falando agora, mas isto não importa.

O sonho com aranhas e a lembrança das fotos de divulgação deste livro me trouxeram à recordação o conto de Horacio Quiroga, “O travesseiro de plumas”. Geralmente este conto é lido como uma forma de vampirismo psíquico do marido em relação à sua esposa. Ainda assim, existe um elemento de forte horror no ser que mora dentro do travesseiro e se alimenta da seiva da vida feminina. Segue o conto, é curto e passa a sensação ideal para as fotos antes exibidas:

O travesseiro de plumas

Sua lua-de-mel foi um longo estremecimento. Loura, angelical e tímida, o temperamento duro do marido gelou suas sonhadas criancices de noiva. Ela o amava muito, no entanto, às vezes, sentia um ligeiro estremecimento quando, voltando à noite juntos pela rua, olhava furtivamente para a alta estatura de Jordão, mudo havia mais de uma hora. Ele, por sua vez, a amava profundamente, sem demonstrá-lo.

Durante três meses — tinham casado no mês de abril — viveram numa felicidade especial.

Sem dúvida ela teria desejado menos severidade nesse rígido céu de amor, mais expansiva e incauta ternura; mas a impassível expressão do seu marido a reprimia sempre.

A casa em que viviam influenciava um pouco nos seus estremecimentos. A brancura do pátio silencioso — frisos, colunas e estátuas de mármore — produzia uma outonal impressão de palácio encantado. Por dentro, o brilho glacial do estuque, sem o mais leve arranhão nas altas paredes, acentuava aquela sensação de frio desagradável. Ao atravessar um quarto para outro, os passos encontravam eco na casa toda, como se um longo abandono tivesse sensibilizado sua ressonância.

Nesse estranho ninho de amor, Alicia passou todo o outono. Porém tinha terminado por abaixar um véu sobre os seus antigos sonhos, e ainda vivia dormida na casa hostil, sem querer pensar em nada até o marido chegar.

Não é incomum que emagrecesse. Teve um ligeiro ataque de gripe que se arrastou insidiosamente dias e mais dias; Alicia não melhorava nunca. Por fim uma tarde pôde sair ao jardim apoiada no braço dele. Olhava indiferente para um e outro lado. De repente Jordão, com profunda ternura, passou a mão pela sua cabeça, e Alicia em seguida se quebrou em soluços, e o abraçou. Chorou demoradamente seu discreto pavor, redobrando o choro diante da menor tentativa de carícia. Depois, os soluços foram-se acalmando, e ainda ficou um longo tempo escondido no seu ombro, quietinha, sem pronunciar uma palavra.

Foi o último dia que Alicia esteve de pé. No dia seguinte amanheceu desacordada. O médico de Jordão a examinou com toda a atenção, recomendando muita calma e repouso absolutos.

— Não sei — disse para Jordão na porta da casa, em voz ainda baixa. — Tem uma grande debilidade que não consigo explicar, e sem vômitos, nada… Se amanhã ela acordar igual a hoje, você me chama depressa.

No dia seguinte ela piorou. Houve consulta. Constatou-se uma anemia agudíssima, completamente inexplicável. Alicia não teve mais desmaios, mas ia visivelmente andando para a morte. Durante o dia todo, o quarto estava com as luzes acesas e em total silêncio. As horas se passavam sem se ouvir o mínimo barulho. Alicia dormitava. Jordão vivia quase que definitivamente na sala, também com as luzes acesas. Andava sem cessar de um extremo para outro, com incansável obstinação. O tapete abafava seus passos. Algumas vezes entrava no quarto e continuava seu mudo vaivém ao longo da cama, olhando para sua mulher cada vez que caminhava na sua direção.

Não demorou muito para Alicia passar a sofrer alucinações, confusas e flutuantes no início, e que desceram depois até o chão. A jovem, de olhos desmesuradamente abertos, não fazia senão olhar para os tapetes que se encontravam a cada lado da cama. Uma noite ela ficou repentinamente com o olhar fixo. Em seguida abriu a boca tentando gritar, e suas narinas e lábios se molharam de suor.

— Jordão! Jordão! — gritou, rígida de espanto, sem parar de olhar o tapete.

Jordão correu para o quarto, e, ao vê-lo aparecer, Alicia deu um brado de horror.

— Sou eu, Alicia, sou eu!

Alicia olhou para ele com olhar extraviado, olhou para o tapete, voltou a olhar para ele, e depois de um longo momento de estupefata confrontação, serenou. Sorriu e pegou entre as suas as mãos do marido, fazendo carícias e tremendo.

Entre suas alucinações mais obstinadas, houve um antropóide, apoiado no tapete sobre os próprios dedos, que mantinha os olhos fixos nela.

Os médicos voltaram inutilmente. Havia ali, diante deles, uma vida que se acabava, dessangrando-se dia após dia, hora após hora, sem se saber absolutamente por quê. Na última consulta, Alicia jazia em estupor, enquanto eles a pulseavam, passando de um para outro o pulso inerte. Observaram-na um longo momento em silêncio e encaminharam-se para a sala.

— Pst… — Deu de ombros, desanimado, seu médico. — É um caso sério… pouco se pode fazer…

— Era só o que me faltava! — gritou Jordão. E tamborilou bruscamente sobre a mesa.

Alicia foi-se extinguindo no seu delírio de anemia, que se fazia mais grave pe!a tarde, mas que cedia sempre nas primeiras horas da manhã. Durante o dia, sua doença não avançava, mas de manhã ela amanhecia lívida, quase em síncope. Parecia que unicamente à noite a sua vida se fosse em novas asas de sangue. Tinha sempre ao acordar a sensação de sentir-se derrubada na cama com um milhão de quilos por cima. A partir do terceiro dia esse desmoronamento não a abandonou mais. Apenas podia mexer a cabeça. Não deixou que pegassem na sua cama, nem sequer que arrumassem a almofada. Seus terrores crepusculares avançaram na forma de monstros que se arrastavam até sua cama e subiam com dificuldade pela colcha.

Perdeu depois o conhecimento. Nos dias finais, delirou sem cessar a meia-voz. As luzes continuavam fúnebres e acesas no quarto e na sala. No silêncio agônico da casa, não se ouvia mais que o delírio monótono que saía da cama, e o rumor abafado dos eternos passos de Jordão.

Alicia morreu, por fim. A empregada, que entrou depois para desfazer a cama, já vazia, olhou um momento com estranheza para a almofada.

— Senhor! — chamou ao Jordão em voz baixa. — Na almofada há manchas que parecem ser de sangue.

Jordão se aproximou rapidamente. Também se agachou. Efetivamente, sobre a fronha, de ambos os lados da cavidade que tinha deixado a cabeça de Alicia, se viam algumas manchinhas escuras.

— Parecem picadas — murmurou a empregada depois de um momento imóvel na observação.

— Aproxime-o da luz – disse Jordão.

A moça levantou a almofada, mas em seguida deixou-a cair, e ficou olhando para ele, lívida e trêmula. Sem saber por quê, Jordão percebeu que seus cabelos se eriçavam.

— O que é que há? — murmurou com voz rouca.

— Pesa muito — falou a empregada, sem parar de tremer.

Jordão levantou a almofada; pesava extraordinariamente. Saíram com ela, e sobre a mesa da sala Jordão cortou a fronha e a capa. As penas superiores voaram, e a empregada deu um grito de horror com a boca inteiramente aberta, levando as mãos crispadas às bandós. Sobre o fundo, entre as penas, mexendo devagar os pés aveludados, havia um animal monstruoso, uma bola viva e viscosa. Estava tão inchada que quase não se lhe via a boca.

Noite após noite, a partir do dia em que Alicia tinha ficado doente, ele tinha aplicado sigilosamente sua boca — sua tromba, melhor dizendo — às têmporas da mulher, chupando-lhe o sangue. A mordida era quase imperceptível. A remoção diária da almofada tinha impedido sem dúvida seu desenvolvimento, mas assim que a jovem não conseguiu mais se mexer, a sucção foi vertiginosa. Em apenas cinco dias e cinco noites, tinha esvaziado Alicia.

Esses parasitas das aves, diminutas no seu meio habitual, chegam a adquirir proporções enormes em certas condições. O sangue humano parece ser para eles particularmente favorável, e não é raro encontrá-los nas almofadas de penas.

Muito Edgar Alan Poe este conto. Nem tanto pela análise da relação do casal, mas pelo clima de mistério e horror que se cria através de uma vida que esvai sem nenhum motivo. Muitas possibilidades de interpretação surgem neste conto; o corte no seu final, com o acréscimo de um elemento quase científico, não corta a fluidez da narrativa e acaba emprestando verossimilhança para a história. No entanto, gosto de pensar que o animal insidioso escondido no travesseiro e drenando a vitalidade uma pessoa é a representação do Tempo, este senhor vetusto que nos mata e exaure um pouco a cada dia, em milimétricas gotas de veneno.

Talvez sejamos “almofada de alfinetes” de microorganismos, bactérias e parasitas. Talvez sejamos controlados por eles, mas estar no comando do próprio corpo é tão importante assim? É de se presumir que os parasitas cuidem bem dos hospedeiros, eles não fariam nenhuma loucura… a não ser que achem um parasitado melhor.

Ainda assim, mesmo com toda a racionalização, uma sensação de incômodo continua a me perturbar.

Tenho a impressão que não sonhei com as aranhas, e sim que elas sonharam comigo.

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Antônio Prado, RS

No feriado do 20 de Setembro, fomos passear em Caxias e acabamos estendendo a viagem até Antônio Prado, cidade cujo casario original dos imigrantes italianos foi declarado patrimônio nacional.

Um dos objetivos deste blog era falar de viagens e das coisas estranhas que se vê por aí. Tudo sempre é uma questão do olhar, ficcionalizar algo é ter uma visão alternativa. Não sou um fotógrafo, longe disto; tento registrar aquilo que vi e que, de alguma forma, me tocou.

Começo com uma paisagem da estrada.  Tinhamos parado para almoçar em um restaurante de comida típica italiana, o Nostra Cantina, que fica na beira da estrada, quase chegando em Antônio Prado. Não sei o que chamou minha atenção. A foto não registra o inusitado silêncio, nem o cheiro de verde que nos sobrevoava. Talvez a imobilidade do local me consternou. No entanto, também existe a possibilidade – quase insana – de que eu tenha escutado as hamadríades gritando de dentro daqueles caules. Sinto que registrei a foto para me lembrar que tudo ali convidava ao descanso e que, talvez, as estátuas sejam formadas assim: um local silencioso, o tempo parado, você senta e a pedra toma conta, devagar, devagar… muito devagar.

Na praça central de Antônio Prado, a complexa arquitetura das flores dá sustentáculo a uma casa em miniatura. Existe alguma coisa estranha nas cores destas flores, sinto que elas não aleatórias, sinto que existe uma linguagem invisível ali, traçando letras impossíveis. Também tenho a impressão de que tudo (a casa, a roda, a janela, os lambrequins) obedece a uma ordem traçada em tempos imemoriais e que não existe nada por acaso ali, naquela praça. As pessoas podem se encantar com a harmonia intrínseca do conjunto, mas, por trás deste encanto, existe um travo quase imperceptível de receio, a sensação de que estar tudo em ordem também é uma forma de desordem.

Gosto de pessoas que homenageiam o seu ganha pão. Fiquei pensando se o agente funerário colocou um crânio na frente da funerária. A casa é antiga, maldosa, e eu imagino o receio dos outros animais ao passarem por perto daquele local que exibe, como um orgulhoso troféu de guerra, o fato de ser uma casa dedicada à morte. Observei que os cachorros não se atrevem a latir perto da casa, assim como os passarinhos realizavam contorcionismos aéreos para continuarem na ilusão de que a morte não existe.

A pintura é antiga e mal feita, mas gostei do detalhe precioso do pescoço que emerge da parede. Parece tão natural que, por segundos, olho a parede pensando ver o corpo que se esconde por trás. Os olhos vazios estão cheios de morte. Da boca, escorre baba negra. Quando estão nos cercados e compartilham histórias da Morte que ronda ao redor dos humanos, as vacas devem descrever o fim desta forma: uma vaca pálida, orelhas negras, boca sombria, olhos sem esperança.

O dia é azul, mas a igreja branca não se importa. Ela desafia o céu da mesma forma que afronta as nuvens de tempestade, que ri da neblina, que se projeta do meio das árvores em uma espécie de louvor que nada mais faz do que esconder o desafio, estou aqui e não temo nada. No campanário da igreja, a cruz, os santos e o relógio sintetizam a experiência humana: sofrimento, fé e tempo. Embaixo, na rua, cinzas ajuntadas passeiam, queimando-se no sol, enquanto a igreja zomba com o peso das suas verdades.

Quando retirei esta foto, podia jurar que a igreja estava se desfazendo, virando uma nuvem. Seria uma boa explicação. Contudo, vendo a luz que se reflete no carro, pensei em raios invisíveis e silenciosos atacando o campanário da igreja, e pensei em todas as coisas que não vemos e que estão por aí, como o ar, como o silêncio, como a consciência. Eu posso ter captado o inefável e, neste caso, o fraco raio destruiu a estrutura da nuvem, que tentou um ataque tão desesperado quanto inútil.

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Evento: “FestiPoa Literária revisada e sampleada”, em 25/09/2012

Iniciar um texto pedindo desculpas antecipadas nunca é uma atitude prudente: ou o autor desqualifica o próprio texto logo no início, quando ele ainda está engatinhando, ou cria a expectativa de que declarações muito sérias serão realizadas, tão graves que necessitam de justificativas prévias ou de uma piscada de olhos do tipo “foi mal aí, pessoal”.

Em todo caso, mandarei a prudência às favas e, sim, peço desculpas antecipadas, pois falarei de autores que respeito, de obras que gosto e de pessoas cuja amizade muito me honra. Pode-se dizer que o viés crítico está prejudicado, que a dita “parcialidade” está rompida ou outras considerações que visam diminuir o alcance do texto ou minimizar seus efeitos, mas esta é a justificativa dos fracos, pois falarei aquilo que penso – e quem não estiver satisfeito que apresente o contraponto, há espaço para isto. Feita a ressalva, vamos ao que interessa.

Hoje, fui na Palavraria assistir a um evento chamado “FestiPoa Literária revisada e sampleada”, um bate papo entre o Juarez Guedes Cruz e a Leila de Souza Teixeira, com mediação da Lu Thomé, com o tema geral “Conto: espelhamentos e impossibilidades reincidentes”. Os dois possuem livros recentemente lançados, o Juarez com o “Antes que os espelhos se tornem opacos” (comentei aqui no blog, leiam em http://wp.me/p24M2p-9U) e a Leila com o “Em que coincidentemente se reincide” (já li, mas ainda não comentei, está a caminho), ambos pela Dublinense.

Acabo de escrever “bate papo”, mas na divulgação constava “debate” e, hoje, no Facebook, coloquei que estava indo assistir a uma “palestra”. A dificuldade de conceituação – é tão necessário assim classificar, oh Gustavo? – demonstra o quão instigante pode ser o tema: os espelhos já fazem a sua magia de distorção antes mesmo que tudo inicie. Discurso, palestra, bate papo, debate, apresentação, exposição, comunicação, intervenção, colóquio… alguém ainda lembra qual foi a primeira palavra, aquela que o espelho distorceu, cortou e separou em dezenas de outras iguais? Nota mental: fazer a arqueologia da palavra conversa e… vou parar com o Foucault por aqui, basta.

Quem me conhece sabe a dificuldade que tenho em ir nestes eventos. Aliás, em qualquer evento. Não é nada pessoal, mas estou sempre escrevendo. Ser afastado do labor é doloroso; sou como o coelho da Alice, atrasado, correndo contra o tempo, atormentado pelas aguilhoadas das histórias que me perseguem. Devo ser uma das pessoas que mais falta em lançamentos de livros ou coquetéis, pois constato que sou mais útil escrevendo do que incomodando algum escritor com a veleidade da minha presença física. Prefiro comprar um livro de forma anônima, ir para casa e lê-lo em paz, sem o burburinho de vozes a mexer com meus pensamentos; ainda acho a leitura, a escrita e todos os atos que envolvem livros quase um sacerdócio. A pilha de livros nos quais eu deveria colher autógrafos dos amigos e escritores que admiro é maior do que a pilha de livros a serem lidos.

Contra todas as possibilidades, acabei indo. E foi uma experiência excelente. Em grande parte graças à mediação da Lu Thomé, que deu dinamismo à conversa e fez os dois escritores saírem da zona de conforto para nos revelarem as suas “vísceras criativas”, o processo de apreensão do mundo e de escrita. Ouvindo os outros falarem, a gente sempre aprende um pouco sobre si mesmo (surpresa, surpresa, oh Gustavo, mas este não é o grande objetivo que nos leva a ouvir aquilo que outras pessoas dizem?). Para o Juarez Guedes Cruz, a literatura vem do sentimento, do desconforto com o mundo e da dor; para a Leila Teixeira, ela vem do trabalho, da reflexão sobre a ideia e do cuidado com a forma. São técnicas aparentemente opostas, mas ambas se encontram no vácuo intersticial que separa os extremos, pois o paroxismo da forma parte da necessidade de anunciar um sentimento, ao mesmo tempo em que a crueza do sentir só encontra vazão e limites na prisão ditada pela forma. Eu diria que o conto mora mesmo é no encontro desta pororoca, no estressar de águas distintas.

O próprio período de maturação dos contos varia. Pelo o que percebi nas respostas, para a Leila quase todo conto passa por um longo processo de depuração, quando as impurezas vão se revelando após sucessivas limpezas, deixando somente o essencial, o produto em perfeito estado para ser consumido. Para o Juarez, os contos possuem diferentes tempos e momentos, e a pulsão da história pode ser diretamente engarrafada nos contos, privilegiando a honestidade do vinho da inspiração em detrimento da sua perfeição estilística.

Assim como eu, ambos possuem um vasto estoque de histórias natimortas, que às vezes surgem e acabam se confirmando e, em outras ocasiões, esperam o momento certo de serem contadas. O Juarez confessou que o seu computador tem três divisões: Berçário (histórias que estão no início), Recuperação (histórias que estão sendo construídas e com um bom desenvolvimento) e UTI (histórias que estão em estágio delicado, precisando de cuidado constante para não serem excluídas de vez). Hum… receio que algumas histórias estejam na UTI por causa do tiro infelizmente certeiro dos meus comentários. Gostaria de poder mandar algumas flores para elas, ou talvez um chocolate, mas a vida é dura e, se estão lá, foi por que o crivo do autor ainda não autorizou a sua saída. A Leila disse que as histórias permanecem no computador, esperando o momento em que vão amadurecer e frutificar; são como os casulos feios esperando a borboleta rompê-los, se me permitem o clichê. Atrevo-me a dizer que, para o Juarez, o processo de construção de histórias se aproxima do ambiente asséptico de um hospital e, para a Leila, elas existem mais como a radiância das flores de um jardim. Bem, odeio discutir gêneros em literatura, mas a reflexão é válida.

Ambos disseram ser impossível sair dos contos e se entregarem aos romances, o que é uma pena para quem gostaria de ler os romances de ambos. Para alguns escritores, a inspiração funciona em uma corrida longa; para outros, ela serve melhor aos arranques, de emoção em emoção, de história em história. Outro aprendizado interessante. O Juarez disse que um conto presente em “Antes que os espelhos se tornem opacos” quase virou uma novela, mas, na hora H, ao tentar desenvolvê-la, ele viu que a história tinha se exaurido dentro do conto e não permitiria maiores acréscimos. Interessante ele dizer isto, pois também admito que o conto em questão (“Se dissesse as palavras certas”) merecia virar uma novela e a forma de conto acabou  deixando-o meio brusco, sem o desenvolvimento e o clima que um mistério merece. A Leila comentou que gosta mesmo é de ler contos, não romances, pois os acha espichados demais; a imitação de vida de um romance acabaria perdendo força por causa da sua dimensão.

A Lu Thomé viu predomínio das narrativas em primeira pessoa nos livros de ambos. Este detalhe me espantou, pois não prestei atenção. Já externei o que penso sobre o acúmulo das narrativas em primeira pessoa na literatura contemporânea em texto no blog do “Leituras do Séc. XXI” (http://leiturasdosec21.blogspot.com.br/search/label/Gustavo%20Melo%20Czekster), e o fato dos dois terem driblado esta minha desconfiança nos seus livros me fez retirar o chapéu mentalmente, pois sou muito observador neste aspecto. Mas a Leila Teixeira sintetizou muito bem o assunto, quando afirmou que a história é quem determina o narrador e não o contrário. Aliás, esta talvez seja a minha maior divergência: o narrador em primeira pessoa é confortável, boçal, preguiçoso, ele é usado até mesmo quando não é necessário. A Leila e o Juarez disseram que preferem os desafios do narrador em terceira pessoa, este ente tão adorável quanto subestimado pelos escritores. A Leila admitiu construir seus contos em torno do narrador (o ponto de onde sairá a história), deixando implícito que a história é escrava dele, e não o contrário. Preciso refletir mais sobre isto: em uma primeira e impulsiva resposta, eu concordaria, mas, pensando melhor, fraturas e fissuras surgem no meu convencimento, pois sinto que o narrador serve a história, nunca o contrário. E quem disse que a Literatura possui todas as respostas?

Mais falas e ensinamentos foram proferidos. Os dois falaram do processo criativo em si, o Juarez mostrou uma possibilidade alternativa estarrecedora com relação ao conto que deu título do seu livro (o personagem no conto acha que os espelhos estão ficando opacos, e é a visão que ele está perdendo! Ele culpa o outro pela sua deficiência, por mais impossível que seja um espelho ficar opaco! E eu não pensei nisto, puxa vida), a Leila revelou que, por mais planejado que seu livro pareça, ele não teve nenhuma espécie de pensamento consciente por trás, as histórias foram se esbarrando ao natural na passagem dos anos em que foram construídas, como se estivessem esperando um trem na estação e trocando olhares suspeitosos, cheios de cautela.

Com relação às referências de cada um, não me espantou que ambos tenham escolhido Borges e Cortázar, pois esta preferência salta nos dois livros. O Juarez acrescentou Poe e Umberto Eco, fazendo menção aos “Diários Mínimos” do último, cuja leitura sempre adorei e nunca tinha achado alguém que compartilhasse do mesmo gosto; a Leila mencionou também o Hemingway, em especial pela capacidade de esconder sentimentos por baixo de uma camada de enganador verniz, algo que ocorre muito no seu livro.

Em seguida, cada um leu um conto de sua própria autoria. Neste momento, vou ter que fazer outro parênteses: por que será que ninguém ainda teve a ideia de criar uma Biblioteca de Obras Lidas pelos Autores e colocar vídeos com a performance de cada um ao interpretar o texto? É impressionante como um conto ganha vida quando proferido em voz alta, muda TODO o seu significado. É praticamente reviver a função original da literatura, que nasceu na oralidade e só depois se transferiu para a escrita; é isto que fazia as pessoas se juntarem ao redor da fogueira, é a gênese da própria civilização.

O Juarez escolheu para ler “Projeto Parmênides”. Há muitos anos que não o ouvia lendo um dos seus contos, desde a época em que fomos colegas no grupo de criação literária, e foi um prazer reencontrar a sua leitura. Quem ainda não teve o privilégio de ouvir uma leitura do Juarez, deveria correr atrás desta oportunidade, pois é singular. Ele lê com suavidade, pontuando frases de forma inesperada, e coloca todo o sentimento possível na voz, na palavra. Sem a obrigatoriedade de analisar o conto, pude me concentrar em escutar a leitura, e percebi que o autor lê olhando as reações do público, cuidando o clima da plateia. Não foi à toa que, quando chegou ao final, a primeira reação do público foi uma interjeição de espanto, um suspiro coletivo. Na minha frente, uma senhora exclamou: “Mas escreve bem este Juarez!” Eu ousaria dizer que LÊ quase melhor do que ESCREVE.

A leitura pública mudou o meu entendimento do texto. O Juarez leu de forma irônica, brincando como se fosse um jogo de gato e rato, autor versus narrativa. A história ganhou ares de piada, uma piscadela para o leitor, desconstruindo o sentido à medida que avançou. Não ficou ruim, e sim inusitada. Quando li “Projeto Parmênides”, senti os ares de uma tragédia digna dos anfiteatros gregos, a impossibilidade de repetição de uma pessoa, algo tão Platão que me encantou – e deu um pouco de medo, pois sentimentos são irrepetíveis, e quem sabe se não estou vivendo agora o irrepetível? No entanto, a leitura do Juarez afastou o tom trágico que ele próprio disse que foi a tônica do momento de vida que passava quando o escreveu. Curioso – cada história é escrita em um determinado momento e a mesma história, lida em repetidos momentos, pode ser diferente daquela que foi originalmente construída. Daqui a alguns anos, acaso o Juarez leia a história em público novamente, talvez o sentido seja outro, oscilando da comédia para a tragédia, da ironia para a seriedade, ou talvez até retorne à intenção original. Mais “Pierre Menard, autor de Quixote” seria impossível.

A Leila escolheu “Noctiluca”. É um dos contos mais fortes do seu livro. Fez um interessante contraste com o conto do Juarez, pois também tratou do duplo, o que é uma forma de ver os espelhos. Ainda não tive o privilégio de escutá-la lendo os seus textos, mas logo acredito que terei, pois somos colegas e partilhamos o mesmo grupo de criação literária. A leitura da Leila foi igualmente pausada, dramática. Como eu faço quando leio meus textos em voz alta, ela não olhou o público, pois o que nos interessa não é a reação alheia, é o nosso confronto individual com a leitura, com a palavra. Ela não tentou encantar as frases, como o Juarez faz com habilidade, mas foi cortante, incisiva. Um estilo de leitura diferente, intenso, com uma concretude que emulou a precisão de um cirurgião operando. A diferença é que, na maca, estava o seu texto, e os ouvintes eram espectadores do processo de dissecação do autor perdendo-se nos labirintos da sua própria trama.

A leitura da Leila também foi diferente daquela que fiz. Pela primeira vez, percebi a construção intrincada de cada frase, com a sua pontuação elegante, a forma com que o assunto se desenrola quase como um novelo, trazendo o leitor para se perder no meio da trama. Não existia palavra sobrando ali e, o que a leitura não tinha de sensibilidade, tinha de beleza e aspereza, em uma sensação quase dolorosa de tão física. Quando li “aleluia”, palavra repetida algumas vezes no início, podia sentir anjos abrindo a história ao meio e gritando com vozes repletas de luzes “ALELUIA”, trazendo claridade ao conto. No entanto, da forma com que a Leila interpretou o “aleluia”, é mais como uma lanterna tímida no meio da escuridão do abismo, um vagalume distante que acende e apaga, quase indiferente na sua tristeza. Ao contrário da leitura feita pelo Juarez, aquela praticada pela Leila demonstrou que a sua história é mais atemporal e os sentimentos do autor estão espalhados atrás da forma. Creio que, daqui a alguns ou muitos anos, se ela tiver a oportunidade de ler o conto em voz alta novamente, o sentimento passado com a leitura será pouco ou nada diferente daquele que vi ontem.

São formas diferentes de ver a Literatura, mas complementares e, na minha opinião, enriquecedoras. E isto que eu tenho a teoria de que o autor só atrapalha o texto. Foi bom ver o quão errado eu penso (minto, continuo pensando, com a diferença de que, agora, acho que o autor atrapalha o texto também no sentido de dar outras viabilidades e sentidos para ele).

Foi um evento muito interessante. Forçou-me a rever alguns conceitos e suscitou reflexões. Mais do que tudo, foi uma boa oportunidade de escutar amigos escritores conversando sobre os seus livros. De tanto ler e imaginar o autor na clausura do livro, acabamos esquecendo que existe uma pessoa por trás de cada palavra e de cada momento mágico suscitado.

Não fizemos fogueiras na Palavraria, mas acredito que o Juarez e a Leila honraram com louvor os antepassados que mesmerizavam as multidões com a sua imaginação e o poder de uma boa história.

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O livro que está me queimando devagar

Estou sofrendo bullying literário.

Quem me acompanha pelo Facebook, observou que, nas últimas semanas, descobri uma rede secreta de admiradores do Guimarães Rosa. Começou como uma brincadeira: descobri que uma amiga gostava de Guimarães Rosa, e achei isto tão difícil de encontrar neste mundo repleto de leitores com gostos tão esdrúxulos e de preferências tão rasas que enviei para ela um trecho de “Grande Sertão: veredas”. Este envio fez outros leitores se manifestarem e comecei a colocar trechos diários, pequenas pérolas do Guimarães Rosa. Cada trecho, cada sequência, cada parágrafo desperta mais seguidores. Eu imaginava que éramos poucos, mas, no pequeno universo das minhas relações, espocaram pessoas que não só leram o Guimarães Rosa, como anseiam por relê-lo, mesmo que em doses homeopáticas.

Ecce liber. O livro que esta me atormentando com seu inferno de palavras.

Chegar muito perto do fogo também pode causar queimaduras. Provocar pequenas leituras de “Grande sertão: veredas” também é uma exposição perigosa a um livro. Sinto-me como uma mariposa dando beijos na lâmpada, sabendo que cada um deles pode ser o último.

Por enquanto tenho controlado a vontade de me entregar à leitura caudalosa de Guimarães Rosa, mas não sei por quanto tempo resistirei à pressão. É um sentimento bom, ainda que traga um pouco de receio embutido no seu interior. “Grande sertão: veredas” é um livro ciumento, exigindo a atenção irrestrita do leitor; impossível fazer uma leitura descompromissada, ele pede imersão absoluta; impossível não sentir o livro com cada fibra do ser, ele ressoa em lugares remotos dos sentidos; impossível ler outros livros ao mesmo tempo, a música que sai do meio das palavras é pior que o cicio hipnótico de uma sereia; impossível ler na cama, ou sentado, ou de pé, pois é uma leitura repleta de desconfortos, de curvas abruptas e enlouquecedoras. Neste mundo de sensações ligeiras e de atenção repartida entre tantas responsabilidades, jogar-se no abismo de uma nova leitura de “Grande sertão: veredas” representa mais perigos do que gostaria de imaginar.

Ainda tenho cicatrizes da única e primeira vez em que o li: eu estava na graduação da Letras da UFRGS. Uma professora – cujo nome não recordo, mas creio que era Gina – determinou que lêssemos somente o “Grande sertão: veredas” na sua disciplina. Eu comecei a ler com incrível dificuldade; a leitura não fluía, era um arrastar incessante, uma confusão de sentidos, uma linguagem quase estrangeira. Levei 3 meses para ler as primeiras 20 páginas; de repente, percebi que não devia entender aquele livro como algo lógico e ordenado, deveria me render à intenção do autor, deveria entendê-lo como música. Quando entendi isto, li o restante do livro em dois dias de puro desvario. Quando acabou, eu era o mesmo, mas tinha mudado; o livro reformulou alguma coisa na minha essência. Poderia chamar a sensação de epifania se conseguisse entender o que aconteceu.

Se eu tivesse que conceituar o que é um clássico, diria que é ler um livro e ficar com a sua recordação queimando em mil cicatrizes vivas. Ter medo de voltar à leitura e perder-se de novo dentro do labirinto do qual foi tão difícil escapar. Lembrar da sua história e sentir uma ponta de medo nascendo no mais fundo da recordação. Ter receio de se abandonar de novo àquele universo.

Está explicado um pouco da minha relutância em ler novamente algo tão perigoso. Teria que negligenciar uma quantidade impressionante de leituras. Teria que me afastar de compromissos sociais e das minhas relações pessoais. Teria que deixar de lado a profissão, meus escritos e um pouco da sanidade. “Grande sertão: veredas” vale tamanho sacrifício, mas será que este é o momento certo para realizar isto? Terei tempo e disposição suficiente? Riobaldo, Diadorim e Hermógenes me chamam para dentro do sertão que é inferno que é sertão. E está cada vez mais difícil aguentar.

Cada dia, uma frase por vez, eu fico mais próximo do fogo.

Um dia, irei me queimar.

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À procura de um livro desconhecido

“Estou à procura de um livro para ler. É um livro todo especial. Eu o imagino como a um rosto sem traços. Não lhe sei o nome nem o autor. Quem sabe, às vezes penso que estou à procura de um livro que eu mesma escreveria. Não sei. Mas faço tantas fantasias a respeito desse livro desconhecido e já tão profundamente amado. Uma das fantasias é assim. Eu o estaria lendo e de súbito, uma frase lida, com lágrimas nos olhos diria em êxtase de dor e de enfim libertação: Mas é que eu não sabia que se pode tudo, meu Deus!”

(Clarice Lispector, “A paixão segundo G.H.”)

Todo leitor procura este livro: o perfeito, aquele que contém a história desejada. Ele não tem nome e talvez não tenha autor, mas possui alma.  Fibras. Músculos. Lágrimas. É um livro de sangue, e encontrá-lo é como achar um irmão perdido.

Na biblioteca de Babel, somos andarilhos no meio do deserto das histórias. Só temos a esperança a nos guiar, uma vela fugidia, que às vezes ameaça apagar, e guia nossos passos de forma bruxuleante, oscilando entre as lombadas dos livros, debochando da busca como se soubesse da sua inutilidade.

Mesmo contra as possibilidades (pois precisaríamos de muitas vidas procurando o impossível), sonhamos com este livro. Sonhamos que a imitação de vida presente nas suas páginas grude na nossa existência e nos faça entender tudo.

Ando pelas livrarias e bibliotecas procurando este livro. Enquanto não acho o certo, me divirto com os errados. E, se nos encontrarmos entre as prateleiras, perdoe o silêncio, os olhos carcomidos pelo cansaço, os gestos lentos; estou procurando algo que não consigo encontrar.

Pode estar aqui. Ou não.

Pode estar aqui. Ou não.

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Mais criatividade, menos choro

Um dos maiores erros que as pessoas cometem é pensar que, entre escritores, pintores e artistas em geral, existem seres repletos de imaginação e saídas criativas para todas as adversidades.

Não é o que acontece.

No lugar onde deveria abundar criatividade, o que mais existe são soluções retrógradas, ideias pasteurizadas e comodismo. Onde deveria fermentar a discordância e uma saudável luta para ver quem tem a ideia mais criativa, ocorre o contrário: é o local onde as pessoas mais têm medo de expor as suas ideias. Um interessante paradoxo.

É como se a criatividade fosse uma praga, onde quem a toca deve ser segregado e, não raro, exterminado pelo bem da coletividade.

(O grupo profissional onde mais vejo pessoas versáteis e inovadoras é o ramo do Direito. Uma pessoa sem criatividade não tem como ser advogado: como negar a materialidade explícita de um delito, como improvisar contra uma confissão espontânea, como ver interpretações diferentes na letra fria e distante de um contrato? Além de imaginação vibrante, a pessoa precisa ser um gênio da retórica para convencer a si mesmo de que o mundo todo está errado e a pessoa que dizem ter agido errado, o seu cliente, é quem estava certo. Mas isto não vem ao caso, não falarei do Direito aqui).

Criatividade não precisa de muito dinheiro. Não precisa de ajuda do Governo. Não precisa de nada – precisa só de alguém disposto a dar asas para a sua liberdade.

Precisa que a pessoa não tenha medo, e talvez esta seja a lição mais difícil de todas: não ter medo da liberdade. Por que ela é um poço profundo, no qual os artistas se jogam e não sabem onde fica o limite, a explosão concreta do chão.

Criar é se abandonar. Por isto que tanta gente tem medo.

Leio na internet, no site do Neil Gaiman (www.neilgaiman.net), que ele se reuniu a outros cinco escritores. Juntos, alugaram um ônibus escolar, pintaram trechos de histórias ou frases criativas ao redor dele e saíram em turnê por uma semana, pelos escolas dos rincões dos Estados Unidos. Sim, vocês leram corretamente, saíram em turnê. Como funciona? Pelo o que entendi, durante a viagem, eles escrevem histórias; acredito que um ajude o outro, em um brainstorm coletivo e agradável. Quando o ônibus pára em uma escola à esmo, eles praticamente invadem o local, vão até a diretora da escola e pedem uma sala onde possam falar com os alunos. As aulas são canceladas, os alunos são levados até este local e os escritores contam as histórias escritas no ônibus. Encerrada a ocasião, eles embarcam no ônibus e continuam a sua jornada até outra cidade, outra escola, outros alunos.

Para quem se interessar em saber mais detalhes, segue o link: http://journal.neilgaiman.com/2012/09/in-which-i-am-unchained.html

E algumas fotos:

A lateral do ônibus, com um miniconto escrito.

Vista lateral do ônibus

Bem, vou abstrair o fato de que o Neil Gaiman é um escritor de renome internacional. Na narrativa feita no site, percebe-se que o negócio atingiu proporções um pouco épicas quando se soube que ele estava contando histórias pelo interior dos Estados Unidos, com as escolas sendo praticamente fechadas de tantas pessoas que acorriam ao local para ver a palestra.

Não é uma ideia cara, nem extremamente genial. Precisa de um grupo de escritores dispostos a se divertir e sair por aí durante uma semana (sem a estúpida necessidade mercantilista de vender livros a qualquer custo, como se fosse um bando de esfomeados, para isto as editoras devem depois fazer um “arrastão de vendas”), precisa de um ônibus alugado, precisa de um motorista. Mais do que tudo, precisa de espírito de aventura. Precisa de boa vontade.

Canso de ver escritores reclamando que o Governo não investe em livros, não investe em educação, não investe em cultura, arrecada impostos e não pensa no contribuinte. Pessoal, existem mais coisas na Terra do que o Governo Brasileiro. Existe a IMAGINAÇÃO. A CRIATIVIDADE.

Duvido muito que, se um bando de escritores se juntasse para falar com quatro ou cinco editoras, não conseguiriam patrocínio para uma empreitada deste tipo. Sinceramente, duvido que os próprios escritores não possam patrocinar a sua própria ideia, a maioria dos que vejo por aí tem plenas condições de se cotizarem, se sacrificarem um pouco em benefício de um pouco de aventura. No entanto, vejo muitos escritores em postura blasé, mais rindo e fazendo troça do público leitor do que pensando em novas estratégias. Por causa do medo do que os outros possam pensar, estamos nos esquecendo da diversão, do ato lúdico que é escrever e contar histórias, encantar com a palavra.

Ficar sentado até o Governo socorrer é esperar quase o impossível. Reclamar é muito cômodo. Fazer reuniões inúteis, esperar respostas que nunca vêm, sonhar com dinheiro fácil vindo das burras governamentais… tudo perda de tempo. Aliás, este pensamento é típico de pessoas sem imaginação e sem capacidade de sonhar, servindo mais ao sistema, alimentando a engrenagem daqueles que nunca questionam, só esperam. E a Arte tem uma função de confronto. Sem comodismo, sem preguiça. Sem medo.

Duvido muito da Arte que sai mastigada dos organismos governamentais através dos seus incentivos fiscais – como pode alguém confrontar se está sendo pago por quem não deseja confrontos?

Não é necessária muita coisa para ser criativo. Anos atrás, minha mãe precisava de dinheiro para construir a Sala Açoriana Antero de Quental, na Escola Isabel de Espanha, em Viamão. Fez rifas de prêmios, fez galetos e bailes temáticos, tudo para arrecadar verba. E conseguiu. Talvez os artistas precisam voltar a fazer galetos, com escritores cozinhando e servindo; talvez precisem voltar a vender rifas de seus originais ou vender material inédito não-aproveitado; talvez necessitem fazer promoções do tipo “auto-leilão”, paguem o valor e terão um dia inteiro com seu escritor favorito. Talvez as pessoas tenham que parar de perder tempo xingando o Governo e sair da sua zona de conforto. Voltar para as trincheiras. Voltar a sonhar.

E, quanto aos que esperam o Governo, lembro o show do Roger Waters. Na canção “Mother”, ele pergunta: “Mother, should I trust government?”. A resposta saiu no telão e vale para todo mundo que tenta sufocar a imaginação, a criatividade, o pensar livre, pois sintetiza toda uma luta contra o conformismo, contra a alienação:

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Memento mori (1)

Não esqueça da morte que espreita em cada nuvem negra, em cada rajada de vento.

Por maior a coragem e por mais violenta que seja a batalha, um dia serás esquecido, um dia estarás morto.

Quando ouvir o trovão, saiba: hoje pode ser o último dia. Quando sentir que não vai resistir aos pingos ou aos tapas do vento, saiba que não existe opção. E se submeta ao fim.

O destino ou é ser esquecido em alguma repartição pública ou ser deixado para trás em uma lata de lixo. Sem honra, sem glória, sem agradecimentos – morto. Esquecido. E o inimigo lambendo teus pedaços enquanto ri: logo, matará outro, e mais outro, e mais outro. Irmãos passarão ao teu lado e tentarão te ignorar, fazer de conta que a morte não existe. Estão errados, mas logo aprenderão sozinhos, em outra lata de lixo, abandonados em alguma esquina.

Tu nasceste para morrer e para ser esquecido. Lembre somente disto.

 

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