Arquivo do mês: março 2013

Restos de um pesadelo, ou o coelho como representação imagética

Hoje é Páscoa e, enquanto todo mundo se concentra em ovos de chocolate e reuniões familiares, eu estou aqui pensando na representação imagética do coelho.

(Talvez seja reflexo direto de um pesadelo que interrompeu minha madrugada; não lembro direito o que sonhei, mas sei que tinha coelhos, as onipresentes galinhas rosnadoras – figura constante nos meus pesadelos -, a perseguição em um labirinto e dezenas de círios pascais.  A ideia de uma vela que arde por 40 dias ininterruptos sempre me fascinou).

O coelho é um animal que geralmente passa a impressão de ser inofensivo. Assustadiço. Frágil. Quando pequeno, me avisaram que eu não devia assustar coelhos, pois o seu coração era capaz de parar no meio da descarga violenta de emoção que representa um susto. Esta informação me deixava confuso: qual era o limite entre uma brincadeira e um susto para um coelho? Um grito podia ser considerado um susto? Uma corrida? Uma batida de mãos? O derrubar de um objeto pesado? Eu nunca soube direito como tratar coelhos e, por viver com medo de ser responsável por uma morte acidental, quando estava na presença de um, cuidava de ficar circunspecto e restringir meus movimentos ao máximo.

Em um curioso movimento de oposição, esta fragilidade do coelho não é refletida na literatura e no cinema. Para mim, as melhores representações de coelhos o situam como uma criatura misteriosa e maléfica. Lembro de que, em uma aula da Oficina Literária do escritor Assis Brasil, ele nos comentou o fato de que, na literatura, os autores gostam de se guiar pelo contraste de elementos opostos. Isto explicaria duplas como o gordo e o magro, o alto e o baixo, a loura e a morena, o burro e o inteligente. Ampliando esta ideia, não supreende que o coelho seja despido de toda a delicadeza e se torne um monstro insensível. Nada surpreende mais do que retirar a sensibilidade do coelho e o transformar em uma criatura malvada ou mais insidiosa do que imaginamos. Não se pode esquecer que o coelho não profere sons (pelo menos eu nunca ouvi): o que uma criatura silenciosa e discreta pode esconder no interior da sua carapaça inofensiva?

Eu gosto muito de três representações do coelho, duas na literatura e uma no cinema. A primeira delas é o Coelho de “Alice no País das Maravilhas”, do Lewis Carroll, este ser sempre atormentado, sempre atrasado, sempre em trânsito. É ele quem leva Alice para o País das Maravilhas e as suas aparições sempre me soaram um pouco frenéticas. No entanto, pelo fato de ter a sua rotina controlada por um impiedoso relógio, talvez o Coelho Branco seja a personagem mais coerente do livro de Lewis Carroll.

Poucas obras da literatura são mais angustiantes do que a jornada de Alice no País das Maravilhas. Nem tanto pelos elementos estranhos que ela acaba encontrando, mas por causa da sua viagem interior.  Os constantes questionamentos sobre quem Alice é, qual é o seu verdadeiro nome e por qual motivo ela é ela e não é uma outra pessoa são a moldura ideal para as perplexidades do leitor, que, além de não saber as respostas, sente a sua própria individualidade desvanecer-se dentro da obra. Borges diz que só existimos quando estamos diante de um espelho, e a experiência de uma leitura capaz de dissolver leitor, autor e personagem é perturbadora demais. Talvez estejamos todos no País das Maravilhas, tentando encontrar o retorno para casa, a saída do buraco. Muitas e muitas leituras já fizeram sobre “Alice no País das Maravilhas”, mas a mais inquietante ainda é aquela que diz que Alice morreu ao cair no poço e está indo para o Inferno. Nesta possibilidade, o fato do Coelho ter o controle do Tempo e do ritmo da narrativa não passa despercebido.

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Outra das minhas representações favoritas do coelho encontra-se no conto “Traz outro amigo também”, de Yves Robert, constante no livro “Ficção de Polpa – Vol. 2”. Neste conto, um homem contrata um detetive para encontrar o amigo imaginário que perdeu durante a sua infância, um palhaço de nome Cornelius. A perda é tão dolorosa – em última análise, perder alguém imaginário, além  de representar uma perda da inocência infantil, pode ser tão cruel quanto perder um amigo real – que o homem sente que a felicidade só poderá ser encontrada se ele voltar a estabelecer contato com este amigo imaginário. Apesar do objeto impossível da busca, o detetive acaba investigando e, no percurso, descobrirá outras infâncias perdidas.

Nesta história, o coelho aparece como a personificação do amigo que nunca deixou de confiar no outro. Ao contrário do homem obcecado por se reencontrar na infância, o coelho representa a infância tentando restabelecer contato com o adulto, o amigo interno que nunca nos abandona e está sempre à distância de um assobio. Aquele amigo capaz de retroceder para as sombras no momento em que não é necessário e reaparecer quando chamado, não interessando quanto tempo de afastamento se passe. Saber se afastar é tão importante quanto estar presente. Uma pena que as pessoas tenham desaprendido esta lição – ou acham que amizade verdadeira é algo histriônico, que demanda contato frequente e exaustivo. A verdadeira amizade é um estado de espírito, não uma presença.

Por fim, a minha terceira representação do coelho está no filme “Donnie Darko”. Um rapaz com traços de esquizofrenia começa a receber visitas de um coelho gigante e de aparência ameaçadora. As cenas do coelho espiando o sono do rapaz são especialmente marcantes. O coelho acaba salvando a vida do outro e ganha salvo conduto para explorar as discrepâncias entre ficção e realidade, enquanto questiona o sentido da vida e a finalidade da morte.

O grande mérito do filme é fazer o espectador aceitar um coelho gigante como algo natural. A voz estranhamente pacífica do coelho, ao mesmo tempo em que não interrompe a suspensão da descrença, ilude e tranquiliza quem se vê submetido a ela. É a imagem quem assusta, assim como a sensação de que cada pessoa pode ter dentro de si um coelho gigante imaginário com quem conversa em silêncio – podemos chamá-lo de consciência. A frase mais emblemática do filme, “why are you wearing that stupid man suit?“, mostra algo que a Clarice Lispector escreveu muitos anos antes: somos todos infinitos, é somente a nossa pele que delimita. E a consciência e o delírio andam em caminhos tão semelhantes que não surpreende o fato deles se confundirem.

Nas minhas três representações imagéticas do coelho, percebo que ele deixa de ser um animal inofensivo e se transforma na configuração de algo maior, seja a infância, a consciência ou a própria noção de Tempo. Chama atenção que tais variáveis escolham, como meio de expressão, uma criatura que lhes é tão oposta. Ou o meu olhar é que está equivocado, e os grandes assuntos podem estar concentrados nos menores e mais insignificantes recipientes.

Algo me diz que aqueles olhos vermelhos não podem ser tão inocentes quanto aparentam. Talvez meu inoportuno pesadelo tenha me forçado a lembrar de algo que gostaria de ter esquecido. Talvez os frágeis sejam os mais perigosos de todos.

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A literatura é um soco na parede

Às vezes, nos momentos em que perco o sono, permito-me ingressar na espiral desordenada dos pensamentos e deixo o acaso assumir as rédeas. Em dias normais, caminho placidamente por uma praia repleta de restos de conversas, fragmentos de imagens e sombras de sonhos, e estes são os dias bons. Não gosto muito dos anormais, quando a escuridão do fosso existencial me atormenta e tenta me colocar dentro de um redemoinho de medo. Estas são as noites ruins.

Nos últimos tempos, nesta hora da zona morta, tenho recordado com obsessiva frequência de uma conversa que tive com a minha amiga, a escritora Monique Revillion, no final de 2012. Estávamos conversando sobre a necessidade que os escritores possuem de, às vezes, se fecharem dentro de quartos escuros e evitarem o convívio com outros seres humanos. Achava que fosse uma sensação somente minha, porém é mais normal do que imaginava. Conversávamos sobre como a interação social é desgastante, como escrever é um ato de tamanha entrega que pode causar uma sensação de descolamento do mundo.

A Monique falava que sentia a aproximação deste momento de isolamento e, ao contrário do que se poderia esperar, ansiava logo para que ele chegasse. Eu, por minha vez, sei que estou em instante oposto, escrevendo ao invés de refletir, mas sabia que chegaria logo o meu dia de silêncio e recolhimento. Não sei qual de nós dois começou a cunhar a frase, mas chegamos à conclusão ao mesmo tempo, então é uma autoria conjunta.

A literatura é um soco na parede. Nós sabemos que somos incapazes de derrubá-la, e sabemos que os nossos dedos doerão com a intensidade de mil dores, mas, ainda assim, soqueamos.

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A frase parece incompreensível para quem não escreve: qual o sentido de soquear uma parede sabendo que somente a dor nos espera no final do gesto, sabendo que somente frustração nos aguarda na derradeira curva do caminho? Acredito que tenha a ver com a impossibilidade da tarefa; acredito que a literatura encapsula o texto perfeito atrás de um cuidadoso muro. Promete que o paraíso se esconde atrás daquela construção sólida, mas nos nega acesso ao Olimpo. Nos deixa próximos do ideal, mas nunca nos permite tocá-lo. Somos como Moisés: cheiramos, sentimos e quase tocamos a Terra Prometida que nos espera atrás do muro, mas somos impedidos de ingressar nela.

Muitas pessoas escrevem, e suas unhas às vezes raspam os tijolos. No entanto, aqueles que verdadeiramente escrevem com toda a sua alma jogam-se com ímpeto contra a parede, em uma luta inglória. Quebram todos os ossos. Enlouquecem. Respiram nas pausas e jogam-se novamente, empilhando dores. Ao final, com algumas lascas da parede entre as unhas, cobertos de reboco, escrevem o texto falho e o lançam no mundo como uma mensagem dentro de uma garrafa. Ninguém consegue tocar a literatura, somos obrigados a nos satisfazer com pequenos pedaços de perfeição, diminutas concessões..

Então, depois desta batalha feroz com a palavra, fechamo-nos para o resto da sociedade, para o convívio dos outros seres humanos, e curamos as feridas, até o dia em que, imaginando-nos novamente fortes, voltaremos a procurar a parede, voltaremos ao arremessso.

Nunca derrubaremos a parede. Mas, ainda assim, sonhamos com este dia.

O Henfil escreveu um texto que, na minha concepção, aborda muito bem este assunto. Ele se chama “Criatividade e potencialidade: a inspiração é um cachorro preto, um doberman, bem aí atrás de você”. Quem desejar ler a integralidade do texto, uma verdadeira aula sobre as vicissitudes de criar, ele está neste link: http://www.bancodeescola.com/henfil.htm .  Um parágrafo do texto sintetiza o drama do demiurgo:

“O tempo todo eu vou dando depoimentos pessoais sobre como é o processo de criar. E aí muitos mitos caem. Por exemplo: que a criatividade é uma genialidade esotérica, uma coisa que de repente brota nas pessoas, um espírito santo que baixa, em condições ultra-especiais. Eu, então, mostro através da minha experiência – e da experiência que eu pude observar em outras pessoas que criam – que criatividade é uma questão de concentração. Que sem concentração ela não acontece, e esta concentração às vezes é dolorosa, demora muito tempo e dá um trabalho danado. E o resultado dela é, em geral, o isolamento da pessoa que tem sucesso, que é isso o que significa ser exceção.”

A criatividade necessita de uma dose absurda de concentração. Quem escreve sabe do que estou falando, mas creio que em todas as áreas do conhecimento isto acontece. A única maneira de fazer algo bem feito é concentrando-se de forma total na coisa em si. Apagar todo o mundo que nos cerca, com suas diversões e tentações, e entrar dentro da meta de corpo e alma. Tanto o padeiro que faz o pão quanto o economista que analisa números necessitam de absorção completa na sua tarefa. Não existe nada que venha fácil ou ao natural, como fala o Henfil. Tudo é fruto de muito trabalho, muita perseverança, muito foco no próprio objetivo. Os outros pensam que é fácil, mas ninguém sabe o quanto de trabalho, cansaço e concentração foram necessários para criar a menor das linhas, o mais modesto dos pães, a mais singela das tabelas macroeconômicas.

E o preço a se pagar acaba sendo caro. Para a pessoa ser criativa, ela precisa estar inspirada. Para estar inspirada, ela precisa se concentrar. Para se concentrar, ela precisa dar tudo de si na sua tarefa. A consequência é que, terminado o trabalho, sentimos como se toda a energia tivesse se esvaído. A chama apaga como se nunca tivesse existido. Só queremos ficar sozinhos conosco mesmo. Ambicionamos o silêncio da não-criação. Flertamos com o vazio. Morremos e precisamos aprender a renascer.

Como Henfil, concordo que a inspiração não é algo que brota dos deuses, e sim um mecanismo exaustivamente trabalhado e burilado até a máxima perfeição, de tal forma que a sua estrutura some e as outras pessoas acham que todo esforço foi natural. Para ganhar este caráter fresco de simplicidade, o criador precisa se imolar em benefício da própria criação. Existe loucura neste gesto, mas também um extraordinário sacrifício. A parede cobra o seu tributo por proteger o inatingível, e o preço é a alma do escritor. Ninguém sai impune ao fazer uma obra literária. Ninguém sai inocente, ninguém volta ao mesmo estado de pureza inicial.

O leitor atento deve ter feito um cotejo entre as duas ideias (inspiração como um doberman e literatura como parede) e entendido o drama maior da criação: ao mesmo tempo em que o escritor precisa fugir do cachorro feroz da inspiração que está nos seus calcanhares, somente uma parede intransponível o espera no final do caminho. Não existe salvação. Talvez este sentimento de inexorabilidade, de saber que estamos em uma corrida onde o resultado que nos espera não será o mais agradável de todos, que faz os artistas em geral se recolherem depois das suas criações. A sociedade e  a família são incapazes de entenderem este movimento de molusco, de fechar-se dentro do próprio corpo e reparar nas inconstâncias da própria casca, mas, quem já esteve acossado por um cachorro infatigável, sabe que qualquer mínimo período de descanso deve ser aproveitado ao máximo, antes que a fuga impossível recomece, antes que a parede espere com seu abraço paciente e dolorido.

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Duas ansiedades

Semana passada aconteceu o Dia Internacional das Mulheres. Esta postagem deveria ter sido anterior, mas não acabei no momento em que desejava. Ainda assim, sempre é bom falar de seres humanos e, em especial, de mulheres. Não entrarei no lugar comum de elogiá-las com declarações pasteurizadas ou citar a importância que elas possuem para a própria vida humana. Inclusive penso que foi mais um dia de reflexão e luta do que propriamente de celebração.

Ao invés disso, vou falar em uma característica que une todas as mulheres que conheço: a ansiedade. Não falo no sentido ruim da palavra, ou até mesmo no sentido clínico, mas ansiedade no seu conceito mais amplo, que significa aquela sensação de instabilidade que cerca o recinto cada vez que uma mulher está presente, a ilusão de que várias mulheres simultâneas se escondem debaixo da mesma singular pele, a impressão de que elas nunca estão acomodadas ou satisfeitas. Uma ansiedade de viver, a certeza de que a pele só esconde placas tectônicas de múltiplas vontades, em constantes deslocamentos e explosões, em um terremoto cujo tremor sobe e desce – mas nunca acaba.

Esta ansiedade acabou sendo captada pela literatura. Não gosto muito em chamar de literatura feminina ou literatura feminista, sinto-me desconfortável com os rótulos que tentam aplicar em formas artísticas. Como já disse anteriormente, o único rótulo que penso ser aplicável na literatura é aquela que funciona e aquela que não funciona, e ambas usando somente o meu critério subjetivo, ou seja, é um rótulo particular. Em todo o caso, o que mais gosto na literatura escrita por mulheres é este caráter irascível e passional com que elas se entregam desde a primeira letra e arrastam até o final, como se fossem as batidas intermitentes nas teclas de um piano. Às vezes são só batidas e não música, mas, quando a melodia aflora, ela é terrível e única.

O mais interessante é constatar a presença de dois tipos de ansiedade permeando a escrita das mulheres. Uma delas foi descrita por Clarice Lispector e é uma ansiedade que se assemelha a um buraco negro. A mais absoluta inação; um mergulho repleto de angústia no silêncio da própria alma. É uma ansiedade debilitante. Nada se move, com exceção da própria pessoa, que sente os movimentos entorpecidos. A ansiedade é tão completa que a pessoa se sente como se estivesse caminhando em um deserto repleto de silêncio, de vazio, de ausência de vida. Em algum momento da vida (e, para a minha extrema vergonha, acredito ter sido em uma história do Flash), lembro que um personagem falou que o excesso absoluto de movimento leva à planitude. Se pensarmos bem, neste exato instante, nossos corpos estão em movimento insano, sangue entrando e saindo, células nascendo e morrendo, coração batendo e parando por milésimos de segundos antes de bater de novo, ar correndo e se esgueirando. Manter a concretude e manter o silêncio do espírito é uma luta contra a ansiedade do movimento desenfreado.

Mas é melhor deixar a Clarice Lispector falar, conforme o livro “Onde estivestes de noite” (1998):

“É um silêncio que não dorme: é insone: imóvel mas insone; e sem fantasmas. É terrível – sem nenhum fantasma. Inútil querer povoá-lo com a possibilidade de uma porta que se abra rangendo, de uma cortina que se abra e diga alguma coisa. Ele é vazio e sem promessa. Se ao menos houvesse o vento. Vento é ira, ira é vida. Ou neve, que é muda, mas deixa rastro – tudo embranquece, as crianças riem, os passos rangem e marcam. Há uma continuidade que é a vida. Mas este silêncio não deixa provas. Não se pode falar do silêncio como se fala da neve.”

Quando leio este trecho, sinto a ansiedade abrindo-se como a bocarra de Moby Dick e me engolfando em um novo mundo repleto de ausência. Clarice fala para não se esquecer do som da própria voz, a única coisa que a ansiedade de não-ser não lhe retirou por completo.

Clarice Lispector

Clarice Lispector

Por outro lado, surge a ansiedade frenética de Florbela Espanca, aquela sensação de ebulição e insatisfação sempre crescente. Algo tão intenso que ela sequer consegue classificar ou quantificar. Ela se sente preenchida por algo maior do que seu corpo, maior do que a própria vida. Ao contrário da angústia silenciosa de Clarice, a escritora portuguesa tenta abarcar o infinito com todas as suas asperezas, dores e glórias. É um movimento tão doloroso quanto mergulhar em um fosso branco; é o desespero de se sentir incapaz de aguentar a própria  exigência consigo mesmo. Não é uma ansiedade debilitante, é a sensação de ser um buraco negro sugando toda a matéria ao redor até a expansão alcançar todo o universo. Está na “Carta n.º 147”, da Florbela Espanca:

“O meu mundo não é como o dos outros, quero demais, exijo demais, há em mim uma sede de infinito, uma angústia constante que eu nem mesmo compreendo, pois estou longe de ser uma pessimista; sou antes uma exaltada, com uma alma intensa, violenta, atormentada, uma alma que não se sente bem onde está, que tem saudades…sei lá de quê!”

Florbela Espanca

Florbela Espanca

Não sei se é uma história real, mas contam que perguntaram para Freud como fazer para entender as mulheres e ele teria admitido a incapacidade de realizar tamanha proeza. Falam muitas coisas de Freud, nem todas são verdadeiras. Não tenho a pretensão de entender as mulheres, mal e mal consigo me compreender. No entanto, com relação àquelas que conheço, vejo que oscilam entre estes dois tipos de ansiedade, entre o fosso silencioso de Clarice Lispector e a insatisfação frenética de Florbela Espanca. Esta vontade de viver tudo ao mesmo tempo faz com que a ansiedade seja o motor feminino e, ao mesmo tempo, sua maior glória e o seu maior castigo. Os ansiosos nunca ficam satisfeitos, nunca se contentam com nada, nunca repousam sobre os louros da vitória ou choram as cicatrizes da batalha.

No entanto, toda a ansiedade se justifica pelo receio que todos temos e raramente confessamos: o medo de saber qual rosto se esconde por trás do frenesi da água agitada, medo de olhar o próprio abismo interno e ver qual sombra existe no seu interior. Medoi, este, que Clarice Lispector novamente sintetizou muito bem: “Estou com saudade de mim. Ando pouco recolhida, atendendo demais ao telefone, escrevo depressa, vivo depressa. Onde está eu? Preciso fazer um retiro espiritual e encontrar-me enfim – enfim, mas que medo – de mim mesma.”

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