Arquivo da categoria: Literatura

Dois cadáveres frente a frente

Alguns dias atrás, o Canadá descriminalizou o duelo. A partir de agora, está legalmente aceito em terras canadenses o uso de duelos para arbitrar conflitos de uma maneira civilizada. Mas não nos empolguemos: na realidade, a legislação já existia. A circunstância dela não ter sido revogada em uma recente alteração legislativa no Canadá levou a concluir que os duelos ainda seriam possíveis, acaso preenchidos os requisitos legais. Mais detalhes estão nesse link: http://mundoestranho.abril.com.br/blog/contando-ninguem-acredita/com-reforma-no-codigo-penal-canada-descriminaliza-o-duelo/

Sempre senti uma forte atração por narrativas envolvendo duelos. Gosto da ideia de uma desavença entre duas pessoas ser resolvida de maneira civilizada entre somente ambas, sem envolver multidões. Em um mundo repleto de insignificâncias e de pessoas atacando e difamando pelas costas, soa quase utópica a ideia de homens e mulheres resolvendo eventuais problemas através de uma luta justa que limpe a honra com sangue.

Como não lembrar de “O duelo”, magistral conto de Tchekhov? Ou de “Duelo”, escrito por Guimarães Rosa? Também é possível citar “Os duelistas”, de Joseph Conrad – aliás, considerei o livro mais intenso do que o filme de Ridley Scott. Contudo, minha memória literária está afetivamente ligada a uma obra menor de Alexandre Dumas, “Os irmãos corsos“. Foi um livro que li quando era pequeno, e ainda me recordo a história dos irmãos gêmeos que conseguem sentir as dores e sofrimentos um do outro à distância. Quando um deles, o mais fraco e despreparado militarmente, morre em um duelo por causa de uma mulher, o outro vai vingá-lo em um novo duelo, fiel às tradições da Córsega. É uma história muito bonita, de amor de irmãos, de honra, de luto expiado pelo sangue. Esse livro vive nas prateleiras da minha memória, pois nunca mais o encontrei nas bibliotecas do mundo.

“Duelo depois de um baile de mascarados”, de Jean-Léon Gérôme

(Nesse momento abro um parênteses para lembrar o nome do pior duelista de todos os tempos, o nosso Euclides da Cunha, que pegou um militar com a sua mulher na cama e errou dois tiros, dando tempo para o homem desnudo pegar a própria pistola e matá-lo).

Entre os escritores, o maior duelista de todos foi o russo Aleksandr Pushkin, autor do incrível “Eugene Onegin” e, na minha opinião, o maior escritor russo que já existiu (e olhem que a concorrência é pesada). Gosto muito da história do duelo em que ele deixou o adversário desconcertado quando comeu cerejas sob a mira da pistola. Contei isso no texto que está no link http://wp.me/p24M2p-Ld , e aconselho que todos leiam como um modelo de comportamento digno diante da morte.

Pushkin era um homem que se irritava com facilidade. Durante a sua curta vida, ele convidou 20 desafetos para duelos – e recebeu convites para duelar de outros sete homens. Um homem bem esquentado. O primeiro adversário que convidou para duelar foi o próprio tio, quando ele tinha 17 anos: o tio roubou a mulher com quem ele estava dançando em uma festa, e isso foi o estopim para a briga, a qual não foi levada às últimas consequências, com os dois fazendo as pazes.

Grande parte das contendas do escritor russo foram evitadas por seus amigos, que negociaram essas questões de honra antes de chegarem até o final. Não surpreende que tenha morrido por causa de um dos duelos que foi impossível negociar. Detalhe interessante é que Pushkin nunca deu o primeiro tiro nos duelos de que efetivamente participou, ou seja, nunca ganhou um mísero cara e coroa para ver quem disparava primeiro.

Pushkin teve muito azar no seu último duelo, realizado contra Georges D’Anthès, que teria sido publicamente apontado como amante da esposa de Pushkin, a famosa Natalia Gontcharova. Dessa vez o escritor pegou pela frente um atirador experiente, e os dois não observaram a distância regulamentar de 25 a 30 passos de distância para o disparo, combinando somente 10 passos. O escritor foi atingido no estômago mas, antes de cair, ainda alvejou o adversário na mão. Mesmo agonizando no hospital, preocupou-se com o destino de D’Anthès, perdoando-lhe e pedindo para que o czar Nicolau não condenasse o seu adversário à morte (duelos eram proibidos na Rússia, e esse foi realizado de forma ilegal).

“Pushkin se despede do mar”, de Ivan Aivazovski

Existiu honra no comportamento de Aleksandr Pushkin. Estava com um problema com outro homem e, ao invés de fazer uma campanha de difamação ou de xingá-lo pelas costas (ou até responsabilizar a mulher pela traição, algo que somente covardes fazem), decidiu resolver a desavença frente a frente. No mundo atual, estamos tão acostumados a ver pessoas evitando os seus problemas e preferindo culpar os outros que até parece difícil de entender que a melhor maneira de resolver uma divergência é encarando a própria fonte causadora para chegar a uma resolução.

As situações seriam muito mais simples se, ao invés de perdermos tempo envolvendo outras pessoas nos nossos próprios dramas, tentássemos resolvê-los sozinhos. Mais e mais me convenço do fato de que sou o artífice do meu destino e, quanto menos gente se envolver nos meus conflitos, melhor será para todos. Nesse sentido, oportuno lembrar o pequeno conto do escritor argentino Rodolfo Walsh, cuja lição é muito atual: quando enfrentamos o nosso problema sem interferências de outras pessoas, existem somente dois cadáveres na sala – o meu e o outro. É dessa maneira que pessoas de valor resolvem seus problemas, frente a frente, confiantes nas suas habilidades e sabendo que, mesmo derrotados, ainda assim tinham razão na sua causa.

Deixo aqui o pequeno conto de Walsh, traduzido por Sérgio Molina e Rubia Prates Goldoni:

 

A cólera de um plebeu

(autor chinês anônimo)

 

O rei do T’sin mandou dizer ao príncipe do Ngan-ling: “em troca de tua terra quero dar-te outras dez vezes maiores. Peço que acates minha demanda.” O príncipe respondeu: “Faz-me o rei uma grande honra e uma oferta vantajosa. Mas recebi minha terra de meus antepassados príncipes, e desejaria conservá-la até o fim. Não posso consentir nessa troca”.

O rei se zangou muito, e o príncipe mandou T’ang Tsu em embaixada. O rei disse ao embaixador: “O príncipe não quis trocar sua terra por outras dez vezes maiores. Se teu senhor ainda conserva seu pequeno feudo, quando já arrasei grandes países, é porque até agora o considerei um homem venerável e não me ocupei dele. Mas se ele agora recusa sua própria conveniência, realmente está zombando de mim”.

T’ang Tsu respondeu: “Não é isso. O príncipe quer conservar a herdade de seus avós. Ainda que lhe oferecêsseis um território vinte vezes maior, ele igualmente o recusaria”.

O rei se enfureceu e disse a T’ang Tsu: “Sabes o que é a cólera de um rei?”. “Não”, respondeu T’ang Tsu. “São milhões de cadáveres e o sangue correndo como um rio em mil léguas à roda”, disse o rei. T’ang Tsu então perguntou: “Sabe Vossa Majestade o que é a cólera de um simples plebeu?”. Disse o rei: “É perder as insígnias de sua dignidade e partir descalço golpeando o chão com a cabeça”. “Não”, respondeu T’ang Tsu, “essa é a cólera de um homem ordinário, não a de um homem de valor. Quando um homem de valor se vê obrigado a encolerizar-se, cadáveres aqui não há mais que dois, o sangue corre a apenas cinco passos. E, no entanto, a China inteira se veste de luto. Hoje chegou esse dia”.

E se levantou, desembainhando a espada.

O rei turbou-se, saudou humildemente e disse: “Mestre, volta a sentar-te. Para que chegar a isso? Já compreendi”.

Um último detalhe: adoro o final seco desse conto, em que o rei praticamente diz “meu jovem, qual a necessidade disso, senta aí e vamos conversar.”

1 comentário

Arquivado em Aleksandr Pushkin, Duelo, Ivan Aivazovski, Jean-Léon Gérôme, Literatura, Pintura, Rodolfo Walsh

Texto publicado no jornal Zero Hora (01/07/2017): “A arte de viver no vulcão”

Ontem saiu no jornal Zero Hora um artigo que escrevi sobre os espíritos que moram no fundo dos vulcões, sobre a Margaret Atwood e o texto empolgado que ela escreveu com dicas de como os artistas deviam se comportar sob a égide de Trump, e terminei com Ezra Pound e a função da literatura, tudo para dizer algo que tenho refletido muito nos últimos tempos: quando a arte vem com uma mensagem social explícita, ela deixa o status artístico e vira panfleto. Pior ainda – dispara um tiro contra o próprio pé, pois afasta as pessoas, que se sentem ludibriadas quando querem refletir livremente sobre algo e acabam sendo sugestionadas por uma posição pessoal que o artista inseriu à força. A verdadeira arte é aquela que não só reflete a sociedade em que vivemos como é consequência de assuntos do passado e também pode ajudar as sociedades do futuro a resolver seus problemas.

Muitas pessoas de fora do Estado me pediram cópia do artigo, e resolvi colocá-lo aqui no blog para viabilizar uma discussão de maior alcance. Aproveitei para, em um plus, colocar os links que mencionei no texto: o trailer do documentário “Visita ao inferno” (2016), de Werner Herzog, e o texto “What art under Trump?” de Margaret Atwood.

Boa leitura!

 

A arte de viver no vulcão

 

No início do documentário “Visita ao inferno” (2016), de Werner Herzog (disponível na Netflix), que trata da relação quase mística entre seres humanos e vulcões, o líder da aldeia Endu, localizada na Ilha Ambryn, afirma existir espíritos que vivem em meio à lava. O calor imorredouro do fogo e a raiva das explosões de magma seriam os espíritos se retorcendo no fundo da terra e, diante das imagens hipnóticas da lava e dos seus contorcionismos preguiçosos, é difícil imaginar que não exista vida no fundo de um vulcão.

Pensar na fúria indômita de um vulcão leva-nos a lembrar um artigo escrito por Margaret Atwood tão logo Donald Trump assumiu a presidência dos Estados Unidos. Nesse texto, publicado em The Nation e intitulado “What art under Trump?” (“Qual será a arte sob Trump?”), presente no link  https://www.thenation.com/article/what-art-under-trump/ , a autora de “O conto da aia” traça um histórico sobre as ocasiões em que a arte esteve ameaçada pelo poder constituído – e de como, mesmo cerceada, ela vicejou em meio a terrenos tão pedregosos. Mencionando a postura dos artistas que se lamentavam sobre a vitória do republicano – alguém conhecido por desprezar qualquer expressão artística -, Atwood indica escritores que, em tempos de crise, souberam usar a arte para não só definir o tempo em que viviam, como lançaram luzes para o futuro. Com palavras que mal disfarçam a empolgação, a escritora diz que novas oportunidades se abrem para artistas: façam distopias, como Yevgeny Zamyatin; elaborem sátiras sofisticadas, como Jonathan Swift; criem “arte de testemunho”, como Anne Frank ou Nawal El Sadaawi. Contudo, Atwood alerta: façam arte e não política. A arte não funciona sob o espectro monocromático de qualquer mensagem política; ela existe para desconstruir o mundo ao invés de transmitir ideologias. Os artistas cujas obras sobreviveram não foram os que melhor denunciaram as mazelas sociais, mas quem soube usar a arte como pano de fundo de um anseio humano que atravessa todos os tempos, não só o imediatismo do dia seguinte.

O texto de Margaret Atwood serve como admoestação não só para os artistas que vivem sob a égide de Trump, mas para todos. Usar a arte com um propósito, seja ganhar dinheiro ou status, seja passar uma mensagem social, religiosa ou política, é a garantia de que a expressão artística pode até ser consumida pelo público, mas não digerida. Despertará fagulhas, jamais a chama duradoura de uma reflexão. Nunca isso foi tão evidente quanto nos tempos atuais, quando se percebe artistas mais preocupados em passar mensagens ideológicas – aqui no seu sentido mais amplo – do que em realizar uma obra consistente, algo que redimensione o universo alheio ao invés de desaparecer como se nunca tivesse existido.

Em “A arte da poesia”, Ezra Pound afirma que a função da literatura não é a de coagir, persuadir emocionalmente ou forçar as pessoas a aceitarem ou deixarem de aceitar outras opiniões, mas manter a clareza e o vigor de todos os pensamentos e opiniões. Usar a arte para impor uma visão de mundo é fazer com que ela não seja arte, mas uma simples chateação que logo passará. O verdadeiro artista não é aquele que denuncia a destruição da lava ou o avançar do fogo, mas quem está no fundo do vulcão, retorcendo-se com desconforto enquanto sonha com o céu coalhado de estrelas infinitas revelado pela boca da cratera.

 

Texto originalmente publicado em http://zh.clicrbs.com.br/rs/opiniao/noticia/2017/07/a-arte-de-viver-no-vulcao-9829635.html

1 comentário

Arquivado em Documentário, Ezra Pound, Margaret Atwood, Temas de crítica literária, Werner Herzog

Resenha do livro: “A arte do estilo”, de Henry James e Robert Louis Stevenson (org. Marina Bedran)

Escrevi para o Amálgama ( www.revistaamalgama.com.br ) uma resenha sobre o livro “A arte do estilo”, que reúne ensaios e a correspondência mantida entre Henry James e Robert Louis Stevenson. Um diálogo epistolar educado, repleto de argumentos inteligentes e de frases que poderiam muito bem figurar nas obras de qualquer um deles, de tão poéticas e cristalinas. Um livro que me engrandeceu como escritor e como ser humano.

Boa leitura!

Henry James e Robert Louis Stevenson: uma improvável amizade literária

 

Em um mundo cada vez mais polarizado, e em que as pessoas não só possuem opiniões imutáveis como ainda são incapazes de dialogar e provar a validade das suas crenças, usando de ironia grosseira e de violência retórica, soa até estranho imaginar que, não muitos anos atrás, dois indivíduos que pensavam diferente poderiam não só expor suas divergências em busca de pontos em comum, como inclusive se tornarem amigos. O ódio insensato direcionado contra aqueles que não comungam dos nossos ideais é uma característica da pós-modernidade, amplificada pela multidão de nomes sem rosto que grassa nas redes sociais. A simples ideia de opostos estabelecerem uma conversa respeitosa que, longe de ser uma tentativa de doutrinação é mais uma forma de fortalecimento da própria ideia por meio da sua defesa contra um adversário ardiloso e convincente, parece mais ficção científica do que uma hipotética invasão alienígena.

Contudo, por muitos anos, essa foi a tônica do comportamento civilizado: ao invés de odiar o diferente, tente entendê-lo. Nesse processo, um respeito relutante acaba surgindo, e o que era uma discussão entre duas pessoas diametralmente opostas pode se transformar em uma amizade um pouco fria, mas, ainda assim, uma forma de relacionamento que permitiria a convivência de ambas as ideias sem que uma precise eliminar a outra. É o que se depreende de “A aventura do estilo” (2017), que reúne a correspondência trocada entre o escritor nascido americano e naturalizado inglês Henry James e o escocês Robert Louis Stevenson: é só através do diálogo e da troca de experiências que qualquer sociedade pode evoluir. Ainda assim, ao término da leitura, a sensação geral foi de uma relativa tristeza por ver o quanto a sociedade atual se afasta – e com alegria selvagem – dos ideais que nortearam a conversa epistolar entre os dois escritores. Em meio ao oceano de ódio que se espalha por entre as pessoas e suas mais diversas causas e matizes ideológicos, está cada vez mais difícil encontrar diálogo e razoabilidade – sem contar uma dose de inteligência, bom humor e disposição de ouvir o outro.

Antes de prosseguir, uma breve contextualização histórico-literária: dificilmente poderiam existir dois escritores mais equidistantes do que Henry James e Robert Louis Stevenson. Autor de “Os embaixadores”, “Pelos olhos de Maisie” e do inigualável “A fera na selva”, Henry James era um escritor de emoções frias e de uma prosa elegantemente construída, retratando os dramas humanos por meio de uma lente concentrada nas classes mais abastadas; na sua obra, o conflito essencial se estabelece entre civilização e barbárie, entre emoção e razão, entre os sonhos românticos de uma Europa idealizada e os valores materiais de uma América ainda jovem e impetuosa. Essas características ajudam a explicar um pouco a frase jocosa de William Faulkner, “Henry James was one of the nicest old ladies I ever met.”.

Por sua, vez, Robert Louis Stevenson escreveu obras como “A ilha do tesouro” e “O médico e o monstro”, sendo um escritor muito mais físico e menos intelectualizado, muito mais emocional do que racional; não bastando escrever uma literatura que, na sua época, era considerada mais entretenimento do que arte (status esse que acabou sendo revisto por força dos inúmeros escritores que confessaram admirar o seu estilo, entre os quais Jorge Luis Borges, Chesterton e Ítalo Calvino), Stevenson também viveu com intensidade, viajando pelo mundo a bordo de navios e passando por uma série de aventuras que registrou parcialmente na sua vasta obra.

Ao lado do frágil e sensível James, Stevenson – mesmo padecendo de uma tuberculose persistente – era não só um poço de saúde como um espírito impregnado de vivacidade. A tradutora e organizadora de “A aventura do estilo”, Marina Bedran, descreve como foi o primeiro encontro entre os dois escritores: “após um primeiro encontro, em 1879, James diria que Stevenson lhe parecera um ‘boêmio de camisa sem colarinho e um belo de um poseur (de um modo inofensivo)’. Stevenson, por sua vez, viu em James ‘um mero habitué de clubes […] de forma alguma um homem corajoso e afeito às atividades ao ar livre’, e, se estimou desde o início a precisão da escrita jamesiana, se irritava um pouco com seus preciosismos, e achou Washington Square desagradável.”

A amizade improvável entre ambos nasceu graças a uma divergência literária. Em 1884, James publicou em “The Longman’s Magazine” um ensaio intitulado “A arte da ficção”. Nesse texto, o escritor britânico refutou uma palestra proferida pelo escritor e crítico literário Walter Besant, pretendendo ver no romance uma forma de competir com a vida, transmitindo para o leitor uma realidade postiça, mas nem por isso menos real. Para James, o melhor romance seria aquele que mais sucesso tivesse em reprisar a realidade e a vida. O dever da arte – para isso ele usa o exemplo da pintura – era ser fiel ao real, e o melhor artista era aquele que mais se adequasse a esse ideal. Mais do que expor uma história, o escritor era um artista dedicado a representar o real e a transformá-lo de dentro para fora.

Stevenson enviou um pequeno texto para a revista literária, refutando a opinião de Henry James. No título, “Um humilde protesto”, expressa todo o seu respeito perante as ideias do outro: ele reconhece que não possui a erudição e o esmero com as palavras que caracteriza James, e também sabe que é considerado um autor menor para a crítica literária de então, mas isso não lhe impediu de expressar o seu ponto de vista com tenacidade. Para o escritor escocês, a arte e a vida são conceitos que possuem alguns pontos em comum, mas não se confundem entre si. Sua defesa foi apaixonada:

“Competir com a vida, para cujo sol não podemos olhar, cujas paixões e doenças nos consomem e nos matam, competir com o sabor do vinho, a beleza da aurora, o trepidar do fogo, a amargura da morte e da separação, eis a escalada aos céus que se pretende. São trabalhos para um Hércules de casaca, armado de uma pena e de um dicionário, para retratar as paixões, armado de uma bisnaga de alvaiade para pintar o retrato do sol inclemente. Nenhuma arte é verdadeira nesse sentido, nenhuma pode ‘competir com a vida’, nem mesmo a história, construída a partir de fatos que são incontestáveis, mas que tiveram sua vivacidade e sua pungência roubadas, de modo que, mesmo quando lemos sobre uma cidade saqueada ou sobre a queda de um império, nos surpreendemos e louvamos com justeza o talento do autor, se nosso coração dispara. E, como uma última diferença, essa aceleração dos batimentos é, quase sempre, puramente prazerosa: essas reproduções fantasmagóricas da experiência, mesmo as mais fiéis, causam prazer, enquanto a própria experiência, na arena da vida, pode torturar e matar”.

Essa troca de textos públicos dá início a uma troca de cartas que pretende discutir os conceitos de arte, de literatura e de vida, estabelecendo algo que se possa chamar de estilo para um romance nos tempos de então. Na primeira carta, antes de se debruçar sobre o assunto que os fascina, Henry James reconhece as diferenças entre ambos e o valor literário do colega escritor: “É um luxo, nessa era imoral, encontrar alguém que escreve – que realmente tem familiaridade com essa arte adorável. Não seria justo bater-me com você aqui; além disso, nós mais concordamos, creio eu, do que discordamos, e ainda que haja pontos sobre os quais um espírito mais impetuoso que o meu gostaria de pelejar, não é isso o que eu desejo – quero, ao contrário, lhe agradecer por tudo o que há de feliz e de sugestivo em suas observações – notadas com tanta perspicácia e ditas com tanto brilhantismo”.

Uma leitura desses dois breves trechos permite-nos ver a graciosidade repleta de inteligência e de poesia dos escritores, e é uma pena que o tamanho diminuto dessa resenha não permita destacar mais pontos de grande beleza esgrimida entre dois homens que buscavam pontes de compreensão onde existia somente diferença. “A aventura do estilo” é um livro para ser digerido com calma, não pela complexidade das ideias contidas no seu interior, mas pela construção laboriosa dos argumentos e das reflexões de ambos os autores, que encontram na sua troca de cartas um espaço privilegiado para discutir literatura e vida. De uma relação epistolar que se estabelece com cautela e respeito mútuo, aos poucos a amizade cresce, bem como as confidências e a troca de dúvidas sobre as próprias obras.

Mais do que uma discussão estéril e egocêntrica sobre estilos literários, “A aventura do estilo” revela dois escritores no auge da sua criatividade, ambos debruçados sobre a mais antiga questão: o que é mais importante, viver ou escrever? E, se escrever não é uma possibilidade, mas uma necessidade para ambos, como a forma literária pode ser trabalhada até a perfeição sem perder a sua essência humana (posto que os dois são unânimes em admitir a impossibilidade relativa de uma obra de arte atingir a perfeição incontestável). No entanto, o grande destaque do livro é a sua fluidez e a clareza argumentativa de Henry James e Robert Louis Stevenson, dois escritores que deixaram de lado as suas divergências filosóficas e estéticas para se concentrarem naquilo que realmente importava: uma boa e saudável conversa, na qual, ao tentarmos entender a opinião do outro, acabamos fortalecendo a nossa.

 

Texto originalmente publicado no link https://www.revistaamalgama.com.br/07/2017/resenha-a-aventura-do-estilo-henry-james-robert-louis-stevenson/

Deixe um comentário

Arquivado em Amálgama, Henry James, Robert Louis Stevenson, Temas de crítica literária

Miguel Ángel Astúrias e a América Latina em carne e seiva

Ontem completamos 43 anos sem Miguel Ángel Asturias, um dos escritores que melhor soube cantar as belezas da América Latina. Fiz uma postagem no Facebook comentando o fato, e várias pessoas pediram-me para falar um pouco mais sobre esse escritor guatemalteco, então resolvi escrever algo um pouco mais dilatado aqui no blog.

Miguel Ángel Astúrias

Nós, brasileiros, conhecemos pouco sobre a obra de Ángel Astúrias. Não farei uma tabulação e nem elencarei estatísticas, mas basta observar o mundo literário local, mais preocupado com autores que vêm da Europa e dos Estados Unidos do que com a vasta literatura produzida no nosso próprio quintal. É sintomático que tantas pessoas louvem escritores que possuem uma literatura de viés mais europeu (haja vista as dezenas de palestras e homenagens a Cortázar e a Borges), deixando quase esquecido um autor que sabia escrever ao mesmo tempo em que se maravilhava pela beleza, pelas cores e pelos sabores que só existem no nosso continente.

Há alguns anos li “Homens de milho”. Era um livro muito carnal, na falta de uma palavra melhor: substancioso, forte, cheio de vida a brotar das letras. Lembro o impacto que Ángel Asturias me causou e, ao lado de Alejo Carpentier, na minha opinião são o melhor que a América Latina já produziu. Pena que quase não seja traduzido, e que boa parte das pessoas ignore não só a sua obra, mas o fato dele ter inclusive ganhado um Nobel de Literatura. 

Miguel Ángel Astúrias escreveu romances, poesias, ensaios e até se aventurou pelo teatro. Na sua obra poética, foi um adepto fervoroso do soneto, uma das mais nobres formas de escrever poesia (o que me faz lembrar de uma história contada por Affonso Romano de Sant’Anna: Manuel Bandeira, quando queria saber se a obra de algum poeta novato tinha vigor literário, pedia dois poemas de amostra, um em versos livres e o outro um soneto. Segundo ele, poeta que não sabe escrever soneto também não seria capaz de dominar a arte poética). Entre os poemas de Ángel Astúrias, gosto muito desse:

La luz corre desnuda por el río 

La luz corre desnuda por el río
huyendo sin cesar en lo movible
de la profundidad, del hondo frío
en que empieza la sombra y lo invisible.
La conoció al nacer, era rocío,
no este vano correr tras lo imposible,
imagen del humano desafío
a la divinidad. Sueño apacible
que endulza los saleros de los ojos,
mesa frugal y paz es lo que anhela
navegante, soldado y rey de antojos;
pero ¡ay! del ¡ay! del alma, no se alcanza
a volver con los remos y la vela
al puerto en que dejamos la esperanza.

Um soneto repleto de imagens poéticas fortes. Pega a metáfora do rio e a transforma em vida e depois de novo em rio com tanta naturalidade que nem parece estar conduzindo o leitor por essas águas plácidas.

A fama de Miguel Ángel Astúrias deve-se a um outro romance, “El Señor President”. O personagem nunca nominado é um retrato de tantos tiranos que conhecemos, capaz de se encaixar em qualquer cultura e espaço. Foi graças a esse romance que o guatemalteco ganhou o Nobel de Literatura, e leiam a beleza que foi o final do discurso de aceitação do prêmio (tradução minha):

“Andaimes. Escadas. Novos vocabulários. A recitação primitiva dos textos. Os rapsodistas. E, mais tarde, mais uma vez, a trajetória quebrada. A nova língua. Grandes cadeias de palavras. Pensamento descontrolado. Até chegar, mais uma vez, após as mais sangrentas batalhas lexicais, às próprias expressões. Não há regras – elas são inventadas. Depois de muita invenção, os gramáticos vêm então com suas tesouras de corte de linguagem. A América Hispânica está bem comigo, mas sem a aspereza. Gramática torna-se uma obsessão. O risco de anti-gramática. É aí que estamos agora. A busca de palavras dinâmicas. Outra magia. O poeta e o escritor da palavra ativa. Vida. Suas variações. Nada pré-fabricado. Tudo em ebulição. Não para escrever literatura. Não substitua palavras por coisas. Para procurar coisas de palavras, seres de palavras. E procure os problemas do homem, além disso. A evasão é impossível. Homem. Seus problemas. Um continente que fala, e que foi ouvido por esta Academia. Não nos peçam genealogias, escolas, tratados. Nós trazemos as probabilidades de uma palavra. Verifique-as. Elas são singulares. Singular é o movimento, o diálogo, a intriga novelística. E, o mais singular de tudo, ao longo dos tempos, nunca houve interrupção nessa criação constante.”

Toda uma teoria de construção da literatura da América Latina contida em um único discurso. A troca de histórias entre colonizados e colonizadores servindo para cimentar relações, não para desconstruir; a literatura usada como um aceno de paz, de mútua concordância e, mais do que tudo, de perdão. Ángel Astúrias levou adiante as reflexões de Ángel Rama e de Ana Pizarro, mas indo pelo viés literário, buscando uma integração pacífica por meio da literatura.

Eu lembro muito de um poema dele, “Guatemala”, que toda vez que leio dá vontade de correr para uma agência de turismo e zarpar para a Guatemala (acreditem, sou uma pessoa muito controlada). Creio que é um dos poucos casos de poema fundacional que existe, ao lado da Ilíada, mas daí é injustiça comparar – prefiro defender essa comparação falando em alguma mesa, quando não corro o risco de ser esquartejado pelas minhas palavras escritas (“verba volant, scripta manent”, blablabla).

Guatemala

Guatemala 

(Cantata)
¡Patria de las perfectas luces, tuya
la ingenua, agraria y melodiosa fiesta,
campos que cubren hoy brazos de cruces!
¡Patria de los perfectos lagos, altos
espejos que tu mano acerca al cielo
para que vea Dios tantos estragos!
¡Patria de los perfectos montes, cauda
de verdes curvas imantando auroras,
hoy por cárcel te dan tus horizontes!
¡Patria de los perfectos días, horas
de pájaros, de flores, de silencio
que ahora, ¡oh dolor!, son agonías!
¡Patria de los perfectos cielos, dueña
de tardes de oro y noches de luceros,
alba y poniente que hoy visten tus duelos!
¡Patria de los perfectos valles, tienden
de volcán a volcán verdes hamacas
que escuchan hoy llorar casas y calles!
¡Patria de los perfectos frutos, pulpa
de paraíso en cáscara de luces,
agridulces ahora por tus lutos!
¡Patria del armadillo y la luciérnaga
del pavoazul y el pájaro esmeralda,
por la que llora sin cesar el grillo!
¡Patria del monaguillo de los monos,
el atelcolilargo, los venados,
los tapires, el pájaro amarillo
y los cenzontles reales, fuego en plumas
del colibrí ligero, juego en voces
de la protesta de tus animales!
Loros de verde que a tu oído gritan
no ser del oro verde que ambicionan
los que la libertad, Patria, te quitan.
Guacamayas que son tu plusvalía
por el plumaje de oro, cielo y sangre,
proclamándote va su gritería…
¡Patria de las perfectas aves, libre
vive el quetzal y encarcelado muere,
la vida es libertad, Patria, lo sabes!
¡Patria de los perfectos mares, tuyos
de tu profundidad y ricas costas,
más salóbregos hoy por tus pesares!
¡Patria de las perfectas mieses, antes
que tuyas, júbilo del pueblo, gente
con la que ahora en el pesar te creces!
¡Patria de los perfectos goces, hechos
de sonido, color, sabor, aroma,
que ahora para quién no son atroces!
¡Patria de las perfectas mieles, llanto
salado hoy, llanto en copa de amargura,
no la apartes de mí, no me consueles!
¡Patria de las perfectas siembras, calzan
con hambre de maíz sus pies desnudos,
los que huyen hoy, tus machos y tus hembras!

Não podia concluir o texto sem voltar a esse tema que fascinou tantos escritores, desde Homero até Joyce e Borges: a volta para casa de Ulisses, que, na versão de Miguel Ángel Astúrias, foi o homem cujo corpo voltou para casa, mas o espírito continua vagando, incontrolável, pelos mares da memória. Essa imagem também é uma perfeita alegoria para a América Latina, um continente que hesita entre olhar para o futuro e cicatrizar as feridas do passado:

Ulises

Intimo amigo del ensueño, Ulises
volvía a su destino de neblina,
un como regresar de otros países
a su país. Por ser de sal marina.

Su corazón surcó la mar meñique
y el gran mar del olvido por afán,
0calafateando amores en el dique
de la sed que traía. Sed, imán.

Aguja de marear entre quimeras
y Sirenas, la ruta presentida
por la carne y el alma ya extranjeras.

Su esposa lo esperaba y son felices
en la leyenda, pero no en la vida,
porque volvió sin regresar Ulises

três Prêmios Nobel de Literatura levando um papo: Gabriela Mistral, Pablo Neruda e Miguel Ángel Asturias

 

Deixe um comentário

Arquivado em América Latina, Artigo, colonialismo literário, Miguel Ángel Astúrias, Produção Literária, Temas de crítica literária

Entrevista sobre o livro “Não há amanhã”

No dia 21 de maio, tive o privilégio de ser entrevistado pelo escritor Dilan Camargo sobre o meu livro novo, “Não há amanhã”. Além de ser um grande escritor, o Dilan é um leitor arguto, e as suas perguntas e colocações foram ótimas. Em alguns momentos senti que não fui capaz de me explicar direito, mas eu também sou meu leitor, e minhas perplexidades e dúvidas não são tão diferentes quanto as das outras pessoas.

Segue o link da primeira parte da entrevista que dei para o Dilan Camargo no programa “Autores e Livros”, em que, além de ficar evidenciada a simpatia e a inteligência do Dilan, também restaram indubitáveis outras questões, tais como:

1 – eu existo. Agora não tenho mais dúvida (ué, esse tempo inteiro espelhos podiam estar mentindo e vocês interagindo com uma voz, então é bom ver que não sou um fantasma);

2 – consegui falar quase 30 minutos sem correr o risco de ser processado por ninguém, o que deve ser um recorde pessoal;

3 – eu não posso garantir 100% de certeza em relação ao que comentei sobre meu livro. Até aparecer alguma opinião mais abalizada, valerá a minha palavra de autor;

4 – “escritores não falam, eles escrevem” (CZEKSTER, Gustavo Melo. Não há amanhã. Porto Alegre: Zouk, 2017, p. 69-74)

5 – se eu sobrevivi à leitura atenta e arguta do Dilan, e se fui interrogado diante da câmera e aguentei firme sem desandar a chorar e pedir desculpas pelo o que fiz, pouca coisa no mundo pode me assustar agora.

Eis a primeira parte.

E aqui está a segunda parte:

 

 

 

1 comentário

Arquivado em Gustavo Melo Czekster, Não há amanhã, Vídeo

“Variações de Casanova”, ou como um cavalheiro deveria responder a essa questão?

Quando estou em dor, é na escrita que acalmo minhas turbulências e pacifico o pensamento. Então, perdoem-me a divagação em momento tão impróprio, mas faz parte do meu procedimento de luto, e 2017 tem sido um ano – pelo menos para mim – bafejado pela morte, que está caminhando mais próxima do que eu gostaria. Quanto mais perto ela chega, mais eu falo da vida.

————————————————————————————————

Ontem fui assistir a um filme, “Variações de Casanova” (2014). Quem me conhece sabe da minha predileção por filmes que versam sobre assuntos literários, em especial personagens e autores, e Giacomo Casanova (1725-1798) sempre me interessou. Ele teve uma vida muito intensa. Foi uma pessoa que se descolou de tal forma da realidade que acabou virando personagem ficcional. Escreveu mais de 28 diários descrevendo as suas aventuras e proezas sexuais. Aquilo que o Marquês de Sade fazia com uma sexualidade violenta, Casanova conseguia através do dom da sedução. Tão forte era a lenda de Casanova que, por muitos anos, se acreditou que ele virou uma espécie de Judeu Errante, um homem que aparecia nas cidades, causava uma onda de seduções e ia embora, deixando no seu rastro várias donzelas grávidas.

Logo na entrada do cinema, a bilheteira me estendeu o ingresso e disse “tomara que o senhor não durma” – um comentário nada auspicioso. A sala estava relativamente vazia – além de mim, mais seis espectadores – e um fato que posso garantir é que todos os seis odiaram o filme. Antes mesmo dele acabar, três pessoas tinham ido embora, e as outras foram embora assim que a luz acendeu.

Por meu lado, gostei bastante. Não tenho essas veleidades de gostar de algo pelo simples prazer de ser do contra, mas apreciei o alto desafio a que o roteiro se propôs. Se teve sucesso em transmitir a intenção é um outro caso, mas a proposta ficcional era ambiciosa: por meio de uma colagem de ficção, história e realidade, “Variações de Casanova” apresentaria trechos do livro “Memórias de Casanova”, dos filmes “Casanova” feito por Ettora Scola e da versão de Fellini para o mesmo personagem, além de músicas das óperas de Mozart  e citações ao filme “Quero ser John Malkovich”. Tudo dentro do espaço dramático por excelência, o Teatro São Carlos, em Lisboa.

Então, é uma peça de teatro que intercala óperas, que intercala literatura, que intercala realidade, que intercala cinema… tudo misturado e em alternância. Muito pós-moderno, muito contemporâneo. Normalmente acho imposições criativas esses voos estilísticos (no estilo de “qual é a necessidade de tanta estrutura para contar uma simples história?”), para não dizer que parecem exercícios de presunção intertextual do autor, mas, dessa vez, foi algo feito com tamanha habilidade que pareceu natural. A única maneira de mostrar um personagem como Casanova, tão multifacetado entre realidade e ficção, é sendo igualmente multifacetado. Nunca vemos o personagem por completo, somente aquilo que queremos ver.

Na interpretação de John Malkovich e de outros atores – um deles é inclusive uma atriz -, Giacomo Casanova é mais do que um personagem unidimensional que só deseja transar com todas as mulheres, mas alguém usando palavras para seduzir todos, não interessa se homens ou mulheres. É um escritor por natureza – ou um mentiroso, como fazem questão de frisar. Ele está preso em um papel eterno da qual não consegue se desvencilhar: o de sedutor. É algo a que ele se submete às vezes com cansaço, como afirma no seu livro: “Se há um aspecto que possa redimir alguém por seduzir virgens ingênuas é que, dessa forma, as estará salvando de um destino pior, tratando-as de maneira mais gentil do que a maioria, como parceiras sexuais no mesmo nível, e que a partir daí elas usariam seus conhecimentos sobre os homens. Fora isso, seria realmente deselegante recusar suas carícias a uma menina que vem até sua cama para submeter-se a elas.”

Não à toa que, em algumas ocasiões, a mesma frase é repetida por diferentes Casanovas: o importante não é realizar algo sempre igual, mas as variações. Todas as seduções são diferentes entre si, não existem duas iguais, e a capacidade de variar é mais atraente do que a existência de uma fórmula fixa. Casanova está mais interessado pelas variações da sedução do que eme stabelecer um vínculo formal. Recordei de um conto do meu primeiro livro, “O homem despedaçado”, e que tem por título“Várias variantes variáveis variam com variações invariáveis”. Quanto mais tentamos variar, mais caímos em um lugar comum: a própria variação. Assim, a variação é uma armadilha pois, dentro de qualquer mínimo ato, existem múltiplas variações que o esgotam. Pensar isso ao extremo esgota o conceito de criatividade, e a transforma em uma variação presa dentro de outra, e ambas presas dentro de outra, e assim por diante. Assim, estamos eximidos do fardo de sermos sempre criativos quando aceitamos que a criatividade é somente uma pequena faceta de livre espírito enfadonhamente prevista no interior de outras.

Tão preso Casanova estava ao destino de sedutor nato que, quando a própria filha o requisitou para um caso amoroso, ele deixou a ideia de incesto de lado e cedeu à sedução. Outra ideia muito bem explorada no filme e que está na base de “Memórias de Casanova”: a noção de liberdade. Para o autor veneziano, o homem sempre tem o espírito livre e, quanto mais fiel for à sua natureza, maior será a sua capacidade de experimentar tal liberdade. Assim, não existe casamento, convenção social, religião ou governo que submeta um homem. Nas suas palavras, “vou começar com esta confissão: o que tenho feito no curso da minha vida, quer seja bom ou mal, foi feito livremente, pois sou um agente livre.” Observem que, para Casanova, não existe certo ou errado, moralidade ou ética. Somente a liberdade traça os seus limites, o que o exime de qualquer culpa. Um pensamento muito semelhante ao do Marquês de Sade, mas, nesse caso, foi usado de forma diferente.

Um filme muito c0mplexo, o que explica a dificuldade de conexão dos espectadores com a história. No palco, John Malkovich interpreta o papel de Casanova. Cai, aparentemente fulminado por um ataque cardíaco, e o drama é tão pungente que os funcionários do teatro correm procurando um médico. Na plateia, uma espectadora vai até o palco, identificando-se como médica. John Malkovich levanta-se, rindo, pois era parte da encenação. Casanova fez de conta que sofreu um ataque cardíaco e a espectadora achou que o homem John Malkovich estivesse morrendo, e essa cena ilustra o quanto os limites entre ficção e realidade estão borrados. Em seguida, o filme muda para o passado, em que o Casanova dito real (ou representado) está preso em uma casa onde as serviçais passam o dia inteiro inventando tormentos psicológicos para ele. Casanova sequer possui mais um nome: inventou tantas peles e pretextos que até o seu nome é uma mentira.

Uma das cenas mais interessantes é quando, no palco de teatro, descem inúmeros espelhos do teto, e todos os Casanovas (o Casanova  da ópera, o do teatro, o do cinema, o real) interagem com todas as Elisas von der Heck, com os espelhos multiplicando as imagens enquanto Casanova brinda, se embebeda e entra em briga corporal entre as suas várias identidades. Uma cena que diz muito sobre a capacidade de fragmentação de qualquer pessoa; estamos sempre em luta contra os outros eus que nos habitam. Nem todos nós somos Fernando pessoa, que conseguiu se dividir em vários.

Por fim, a idêntica pergunta repetida em inúmeros contextos: como um cavalheiro deveria responder a essa questão? Aliás, uma pergunta boa para inúmeras oportunidades do cotidiano em que vivemos.

Na primeira vez, na realidade, Elisa pergunta se é verdade que ele dormiu com a própria filha, e Casanova pergunta “como um cavalheiro deveria responder a essa questão?“. Presume-se que a pergunta é tão abominável que alguém educado não poderia sequer responder. Na segunda ocasião, no segmento da ópera, uma mulher pergunta a quantidade de conquistas amorosas de Casanova, e ele responde com a mesma pergunta, mas o seu sorriso é de vitória, como se a resposta não importasse – ou o valor apontado, 1.003, estivesse defasado.

Na terceira vez, a médica do mundo real que foi socorrer o ator aproveita um momento de interlúdio da peça e pergunta para John Malkovich se é ele é gay ou não. Quando vem a resposta, “como um cavalheiro deveria responder a essa questão?”, percebe-se que o ator desconversou habilmente para não fechar a questão com uma resposta definitiva. Na derradeira ocasião em que Casanova é confrontado, dessa vez durante a peça de teatro, a atriz que interpreta uma criada pergunta se é verdade que John Malkovich (o homem) dormiu com mais de 1.000 mulheres. Quando ele dá a resposta, a mulher sente-se seduzida pela sua discrição, e os dois arranjam um encontro somente com olhares. Responder perguntas com outras perguntas é uma estratégia muito inteligente, e ver a maneira com que a mesma resposta pode ser ressignificada dependendo da intenção do falante foi algo instrutivo.

Não é um filme fácil, e tem uma proposta arrojada, à medida que Casanova se encontra com suas diferentes facetas em inúmeras representações artísticas. Falando em termos de roteiro, é um prodígio juntar tantas expressões de arte sob a mesma batuta e fazer cada uma funcionar em uníssono com as outras. Existem algumas falhas, é claro, mas nada que comprometa o projeto criativo exposto nas duas horas de filme. No meio da história, um momento de desconstrução, quando uma amiga de John Malkovich – para quem ele pediu que produzisse um filme chamado “Variações de Casanova”, em um momento metacinematográfico – vai visitá-lo no camarim e diz que não está gostando de nada, pois não entende o que está acontecendo, e essa foi a reação dos espectadores no meu mundo real. Creio inclusive ter escutado um aplauso tímido quando, na tela, a atriz externou o que estavam pensando na minha realidade de espectador de cinema.

Como eu gosto de filmes que escapam do convencional em termos de roteiro, achei interessante “Variações de Casanova” por demonstrar a tese do meu primeiro livro de contos: cada homem é formado por inúmeros homens que existiram ou não chegaram a surgir. Até mesmo Casanova, o mestre de todos os sedutores, um homem aprisionado pela sua própria fama. Isso explica outra frase recorrente dita por Casanova nos mais diferentes sotaques e acepções: “Eu preciso de variações, eu exijo variações”. É o que nos deixa vivos – a certeza de que sempre podemos fazer algo costumeiro de uma forma alternativa.

 

1 comentário

Arquivado em Casanova, Cinema, Impressões, Literatura, Produção Literária, Variações de Casanova

A felicidade de viver no mesmo mundo em que Tolstói esteve

Cansados dos homens medíocres que nos rodeiam e de seus pensamentos mesquinhos, ínfimos, ridículos? Também estou. Pois bem, então vamos falar de quando lendas caminhavam pela Terra.

Estou lendo a autobiografia de Constantino Stanislavski, “Minha vida na arte”, e quase não consigo sair da cadeira, de tão eletrizante a leitura. Em primeiro lugar pelo estilo: Stanislavski elenca fatos e maravilhas em um ritmo fluido que deixa impossível não mergulhar nas suas vicissitudes, seguindo uma trajetória que atravessou dois séculos e mudou a História do Teatro. Ele é o criador do Sistema Stanislavski de interpretação que, em um resumo grosseiro, afirma que o ator deve interpretar um personagem através de ações físicas que refletem o espírito do papel, usando a sua própria imaginação e vida para ficar o mais próximo possível da verdade, não da representação. O sistema explica os procedimentos de imersão dos atores não só no texto da peça, mas na época, na sociedade, na vida do autor da peça, na sua própria vida, em tudo.

Em segundo lugar, Stanislavski conheceu algumas das maiores mentes da sua época. Entre os homens e mulheres com quem conviveu, pode-se listar Ivan Turgueniev, Leon Tolstói, Anton Tchekhov, Isadora Duncan, Máximo Gorki, Henrik Ibsen, As suas indiscrições e comentários sobre essas fascinantes pessoas estão dispostas de forma tão natural que as risadas surgem de maneira natural, incontida.

Constantino Stanislavski

No entanto, o encontro com Leon Tolstói foi especialmente marcante, tanto que há alguns dias só consigo pensar nele.

Logo no início, o momento em que Constantino Stanislavski pela primeira vez esteve diante do autor de “Guerra e Paz”:

“Um dia, andava tudo ali em polvorosa, quando surge à porta, de repente, a figura imponente de um homem vestido de camponês. Aquele velho de longas barbas brancas, botas de feltro, blusa cinzenta e cinto de couro, entra na sala de jantar, onde o recebem dando gritos de alegria. Custei um pouco a perceber que era Leon Tostói em pessoa: fotografia nenhuma, retrato nenhum poderia representar exatamente a expressão daquele rosto, e sobretudo daqueles olhos, a um tempo agudos e penetrantes, doces e risonhos! Quando Tolstói fixava o olhar em alguém, ficava imóvel, concentrado, como se tentasse aspirar na alma do outro tudo que nela havia de bom ou de mau. Depois, os olhos de Tolstói escondiam-se sob as sobrancelhas, como o sol por trás das nuvens. E se acaso respondia ao gracejo de uma criança, um riso encantador iluminava-lhe a fisionomia. E os olhos, emergindo das espessas sobrancelhas, rebrilhavam de alegria. Às observações de qualquer pessoa, Tolstói reagia imediatamente. E esse entusiasmo, essa vivacidade juvenil, acendia-lhe no olhar centenas de gênio.

(…)

Quando lhe fomos apresentados, ele segurou na sua a mão de cada um de nós, apoiando longamente o olhar no nosso. Eu tive a perfeita impressão de estar sendo atravessado por uma seta.

Esse encontro inesperado desnorteou-me, a ponto de tirar-me a consciência do que se passava em mim e em torno a mim. E quem sabe em que conta os russos tinham Leon Nicolaevitch, disso não se espantará.

Enquanto ele vivia, dizíamos ‘que felicidade viver na época de Tolstói!’. E quando nos sentíamos tristes, impressionados pela maldade dos homens, a ideia de existir lá longe, em Iasnaia-Poliana, um Tolstói, nos consolava e nos reanimava.”

Qual homem ou mulher atual de quem podemos dizer o mesmo, “que felicidade viver na época de Fulano ou Beltrana!” A nossa decadência mede-se pela incapacidade de escolhermos modelos de conduta. Tolstói funcionava não só como um escritor, mas era o farol e baluarte ético da sua época e de todo um país. Quanta responsabilidade estava sobre os seus ombros! Claro que existem revisões atuais do papel de Tolstói, mas ninguém viveu a época com a mesma intensidade que Stanislavski, e o fato dele reconhecer que, mais do que um escritor, a aura de Tolstói impunha-se sobre o ambiente e caía como um manto protetivo sobre o país diz muito a respeito da fraqueza moral que assola os países da atualidade, que trocaram modelos de vida pelos grasnados enganosos da publicidade.

Também gosto de ver a percepção de Stanislavski: Tolstói observava o mundo com tamanha intensidade que parecia atravessá-lo através do olhar. É algo que falo sobre a criação literária. O importante nem é escrever ou o domínio das técnicas, mas saber observar o mundo com intensidade, percebendo que tudo tem um significado e, se determos os sentidos por tempo suficiente, é possível extrair uma história de qualquer coisa.

Leon Tolstói

No jantar daquela noite, o encenador russo continuou passando vergonha. Na cabeceira da mesa, o anfitrião perguntou qual era a peça que seria representada em Toula, e Stanislavski esqueceu por completo o nome. Alguém avisou que era um trabalho de Ostrovski, que Tolstói confessou não conhecer, pedindo para que lhe contassem o enredo. De novo Stanislavski bloqueou diante do olhar quente do grande escritor, sendo incapaz de resumir o enredo da peça que seria encenada. Tolstói se divertiu bastante com as atrapalhações do convidado.

No meio do jantar, o maior autor russo pediu para que Stanislavski tirasse “O poder das trevas” da censura, encenando-a em Moscou. A solicitação foi recebida com tamanho entusiasmo que, ali mesmo, na sala de jantar, a trupe de Stanislavski distribuiu entre si os papéis da peça, fazendo um ensaio geral diante de Tolstói.

No calor do momento, os atores perceberam que o final do quarto ato interrompia a ação justo no seu ponto culminante e, aproveitando a presença de Leon Tolstói no recinto, pediram para que ele “corrigisse” aquele problema. Na mesma hora se calaram, percebendo a loucura do que estavam pedindo. Tolstói riu e respondeu:

– Bom… Expliquem-me por escrito como acham que devo fazer a ligação das cenas no quarto ato, que eu torno a escrever a peça de acordo com as suas indicações.

Ao perceber a perturbação que essa frase gerou no ambiente – quem eles pensavam que eram para corrigir justo Tolstói? – o escritor russo os tranquilizou:

– Acreditem, vocês me prestariam um grande favor. Vocês são especialistas.

Ainda assim, o desconforto continuou, e a peça – após ser liberada pela censura – foi encenada com o defeito no quarto ato. Muitos anos se passaram até o dia em que Constantino Stanislavski recebeu uma carta de Leon Tolstói pedindo uma reunião. Foi ao encontro do escritor na sua casa em Moscou. Para seu espanto, mal tinha entrado e Tolstói anunciou que assistira várias encenações de “O poder das trevas” e, sim, o quarto ato estava irremediavelmente errado. Ele precisava corrigir aquilo o quanto antes, pois o assunto era angustiante, e precisava da ajuda de Stanislavski.

Os dois estavam conversando, e deixarei Stanislavski assumir o controle da narrativa para compartilhar com o leitor a cena que se sucedeu:

Conversamos longamente. Encontrava-se por acaso na sala vizinha a mulher de Tolstói, Sofia Andreevna, que, como todos sabem, era ciumentíssima. Que estaria ela pensando daquele idiota, que se atrevia a criticar a peça e aconselhar o seu genial marido a modificá-la? Que desaforo! Que audácia inaudita! Tanto mais que ela não sabia o que se passara dantes, em Toula.

Não podendo mais conter-se, a senhora Tolstói precipita-se na saleta, dá-me um tapa e um valente empurrão. E ninguém sabe o que aconteceria se a filha do casal, Maria Lvovna, não entrasse e não procurasse acalmar a mãe. Quanto a Leon Tolstói, nem sequer se mexera, não saíra do seu lugar, nem dissera uma palavra em minha defesa. Limitara-se a puxar, o tempo todo, pela barba. Sofia Andreevna acabou indo embora. E ele, vendo-me ali de pé, envergonhado, sorriu amavelmente e disse-me:

– Não faça caso. Ela é mesmo muito nervosa.

Depois acrescentou, mudando de assunto:

– Vamos lá! Onde é mesmo que estávamos?”

Tolstói e Sofia

Esse pequeno drama familiar mascara o motivo pelo qual Leon Tolstói se tornou um dos maiores escritores que existiu no mundo: a capacidade de reconhecer que podia errar, e estar sempre disposto a aprender com quem entende mais. A reação de Sofia Andreevna foi um pouco extremada, mas, para o escritor, não importavam a mulher, o encenador, os conselhos pedidos, mas somente o fato de que a peça de teatro tinha um intolerável defeito que lhe comprometia por completo.

Existiu uma época em que pessoas de grande espírito como Tolstói andaram por esse mesmo chão que hoje tocamos. Pessoas dispostas a observar as virtudes e vícios do mundo e despi-lo com um olhar penetrante; pessoas dispostas a corrigirem seus erros a qualquer custo.

Que felicidade viver no mesmo mundo em que outrora Leon Tolstói esteve.

Deixe um comentário

Arquivado em Constantino Stanislavski, Leon Tolstói, Literatura, Minha vida na arte