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Um artista não pode perder a humanidade

Alguns dias atrás, assisti na Netflix ao filme “Margot e o casamento” (2007). Em geral, narrativas sobre famílias disfuncionais reunidas à contragosto por um evento naturalmente estressante (como um casamento ou um funeral), sendo obrigadas a conviver sob o mesmo teto e com uma explosão prestes a ocorrer graças à mais insignificante fagulha, não me interessam muito. Parecem muito previsíveis na sua tentativa de soarem surpreendentes. Mas assisto por causa dos diálogos e pelo aspecto da construção de personagens.

Entre os filmes com essa temática, apreciei bastante “Margot e o casamento”, em especial por que os diálogos eram abruptamente cortados no seu ponto mais tenso, impedindo de ver o que aconteceu depois de frases tão agressivas ou carinhosas. Foi um mecanismo muito apropriado para demonstrar a tensão existente entre os personagens, que, mesmo rindo e se abraçando, escondiam um inferno de intenções, desejos e fúrias por trás desses gestos. Colocarei aqui o trailer para quem se interessar:

No entanto, o que mais me perturbou no filme foi uma questão tangenciada pelo diretor. O personagem de Margot, interpretado por Nicole Kidman, é uma escritora de relativo sucesso, mas incapaz de se relacionar com as outras pessoas. Cortante, brusca e auto-destrutiva, Margot está casada com um homem que lhe ama, mas o trai com outro que visivelmente não quer nada além de sexo. O filho dela convive em meio às mais absurdas violências verbais e psicológicas, tudo por que a mulher não lhe mente ou atenua nada. No esforço de prepará-lo para a vida, Margot é aquela que mais se esforça para destruí-lo.

Não bastando, a obra literária de Margot é calcada no seu círculo pessoal e, assim, ela utiliza as situações familiares como força criativa, mesmo que ao custo de expô-las – e, no caso da irmã, terminar um relacionamento. Não se sabe o quanto ela não é um fator desestabilizador da própria família para depois poder criar uma história em cima, aproveitando-se das situações como um abutre farejando uma carcaça próxima. Em uma cena emblemática, logo após brigar com o namorado e se refugiar com Margot em um quarto de motel, a irmã vê a escritora ocupada em registrar fatos no seu diário e a impede, dizendo que aquilo é íntimo e dolorido demais para virar literatura.

Sempre me perturba um pouco a ausência de limites éticos no ato de criar uma obra artística. Recordo de uma pintura de Edvard Munch, “Morte no quarto da doente” (1896), em que o artista retrata o suspiro final da sua própria irmã, em um quarto repleto de familiares. O quanto o pintor viveu da dor da situação e o quanto ele estava artisticamente analisando a cena? Não estaria Munch, no mais recôndito da sua consciência, pensando nas cores que usaria para retratar a cena, ou na melhor perspectiva, ou no estremecer da lágrima no olho da sua mãe? Estaria ele sendo cruel, sendo realista com o seu fazer artístico, sendo um crápula ou usando uma estratégia diversiva para fugir da dor? Essas questões sempre me deixam incomodado, e prefiro pensar que existem histórias e cenas que a decência humana nos impede de contar – mas nem todos comungam dessa opinião.

“Morte no quarto da doente” (1896), Edvard Munch

A conduta de Margot e a sua relação complicada com as pessoas suscitaram-me um questionamento: pode um escritor – ou qualquer artista – ser desumano?

Parece uma pergunta ilógica, mas não é. Todas as pessoas esperam que o artista toque naquilo que nos transforma em humanos, a emoção secreta que sequer conseguimos nomear e para a qual a obra de arte serve como porta de entrada. Se sairão anjos ou demônios por essa porta, não temos como saber, mas o objetivo maior da arte é nos aproximar daquilo que temos de mais sagrado ou profano. Esperam que somente humanidade saia do artista, ou aquilo que enlevará o espírito, e, por isso, imaginam-no como alguém capaz de tocar as mais profundas cordas do ser humano. Nesse cenário, imaginar que um artista possa ser desumano soa como um contrasenso: pode alguém desprovido do mínimo senso de humanidade representar adequadamente o humano?

No filme, todas as condutas de Margot apontam não somente para o fato dela ser desprezível, mas de ser alguém pouco conectado aos anseios, medos e sonhos de outros indivíduos. O seu egoísmo é tão grande que ela não trata ninguém de forma decente, encarando todos como possíveis obstáculos a lhe separarem da felicidade. Ela é uma escritora reconhecida pelo aspecto humano da sua obra – apesar de não ter empatia nenhuma ou senso de observação que nos autorize a imaginá-la como uma artista capaz de se conectar a um público.

Não entendo como um artista pode existir sem ser humano. Se a arte é um produto humano, seja como artista ou seja na forma de uma apreensão diferenciada do mundo, tal variável não pode ser desconsiderada. Inclusive vou um pouco mais longe e digo que artista de verdade não é aquele que possui a melhor técnica ou o assunto mais adequado para abordar, mas aquele que consegue articular melhor a sua humanidade de forma a tocar na dos outros. Na minha visão, a arte só existe como forma máxima de expressão do humano, o que me deixa um pouco decepcionado com os tempos atuais, em que ela deixou esse caráter imanente e passou a ser aquilo que o autor diz que é arte, por mais conceitual e vago que seja.

Não faz muito tempo eu comentei que, antes de ser artista, qualquer pessoa deveria se afundar nos estudos sobre a natureza humana e sobre todos os assuntos possíveis do conhecimento. Nenhum assunto pode existir somente sob uma ótica, tudo é um prisma multifacetado, um mosaico de peças que não combinam. A arte não é só fazer uma obra e colocar algum conceito nela, mas uma tentativa tênue de chegar ao infinito usando um meio físico. Os grandes artistas são aqueles que mergulharam tão fundo no seu oceano interior que conseguiram fazer-nos ver o nosso reflexo nele.

Quando penso em artista completo, tanto pelos defeitos quanto pelas virtudes, o único nome que me ocorre é o de Leon Tolstói. O escritor russo foi cheio de falhas e de posicionamentos morais controvertidos, mas, em relação à sua arte, ele tentou ir além de si mesmo. Sempre tentou abandonar o que era e revelar o espelho cujo reflexo fazemos de conta que não existe. Sua versatilidade temática é impressionante. Querem conhecer as paisagens russas e os dramas dos camponeses? Leiam os contos de Tolstói. Querem discutir a instabilidade dos relacionamentos humanos e as hipocrisias sociais? Leiam “Ana Karênina”. Querem saber como é morrer, as pequenas misérias que norteiam as nossas existências e a fragilidade da vida? Leiam “A morte de Ivan Ilitch”. Querem saber como um mundo inteiro pode existir dentro do nosso mundo? Leiam “Guerra e Paz”. Para Tolstói, a arte sempre foi tudo ou nada, e ele se desnudava por completo dentro da obra. Os leitores reconhecem o seu esforço, tanto que continuo vendo a habilidade com que ele construiu as suas tramas até hoje, em um domínio técnico invejável, sem esquecer a piedade com que encarava o seu semelhante.

Leon Tolstói

E aqui chego naquilo que, para mim, diferencia um artista medíocre de alguém inesquecível: a piedade. Os artistas completos cujos nomes lembro – Auguste Rodin, Camille Claudel, Fernando Pessoa, Leon Tolstói, Jane Austen, Fiódor Dostoiévski, Dickens, Diego Velázquez, Joseph William Turner, Artemisia Gentileschi, Mozart, Beethoven, Tchaikovsky – foram pessoas que usaram a sua arte não com o propósito de fazer sucesso ou conseguir sustento material, mas para tocar o humano nas pessoas que sequer conheciam. Para fazer isso, eles não só entenderam o passado e o futuro dos indivíduos, como viram as suas pequenezes e foram capazes de perdoá-los, pois nós não sabemos muito bem o que estamos fazendo e precisamos que alguém nos segure a mão e diga que tudo vai acabar bem no final da nossa história.

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Sempre esperamos uma mensagem de amor

Ontem assisti a uma montagem de “Yerma”, peça teatral escrita por Federico Garcia Lorca em 1936, e que revela uma incrível atualidade com questões que ainda afligem a Humanidade, como casais que não conseguem ter filhos, a pressão da família para que as mulheres engravidem, as fofocas constituintes de qualquer grupo social, os abortos e a liberdade feminina de dispor sobre o próprio corpo.

Sempre que vou assistir a uma adaptação de alguma obra literária, passo os dias anteriores e posteriores fazendo uma breve imersão no escritor e, assim, acabo redescobrindo algumas preciosidades que julgava esquecidas, bem como anotações de cenas e ideias de histórias futuras. É o Gustavo do passado deixando lembretes e migalhas para aquele que ainda virá.

Lendo a “Obra poética completa de Federico Garcia Lorca”, achei um papel com essa anotação: “Na fila do supermercado, uma moça contava para a outra a angústia que era esperar a mensagem do WhatsApp do rapaz que gostava”.

O poema foi escrito muito antes da criação destas inovações tecnológicas que, no fundo, não servem para esconder a grande verdade: sempre estamos esperando uma mensagem de amor, não interessa a forma ou o mecanismo, mas sempre esperamos.

Eis o poema que tal cena me recordou:

El poeta pide a su amor que le escriba

Amor de mis entrañas, viva muerte,
en vano espero tu palabra escrita
y pienso, con la flor que se marchita,
que si vivo sin mí quiero perderte.

El aire es inmortal. La piedra inerte
ni conoce la sombra ni la evita.
Corazón interior no necesita
la miel helada que la luna vierte.

Pero yo te sufrí. Rasgué mis venas,
tigre y paloma, sobre tu cintura
en duelo de mordiscos y azucenas.

Llena pues de palabras mi locura
o déjame vivir en mi serena
noche del alma para siempre oscura.

Mulher de vestido azul lendo carta – Johannes Vermeer

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Sobre as pessoas que são ilhas

Juro que não pretendia falar sobre a palestra do escritor cubano Leonardo Padura ontem no Fronteiras do Pensamento 2017.  Comentar a fala alheia me soa meio redundante, para não dizer chato. Além disso, existem reflexões que são melhores de manter para nós mesmos – às vezes, tenho a sensação de que escrever algo mais estraga do que ajuda.

No entanto, quando alguns amigos escutaram a minha opinião sobre a fala do escritor (assim como a analogia que vi traçada dentro das suas palavras, se voluntária ou não é outra questão), pediram para que eu escrevesse. Meu pai, que não é homem de pedir textos, escutou o meu resumo da conferência e disse “tu devia escrever isso, é muito importante”. Não é sempre que escuto isso dele e, assim, só me resta obedecer.

Espero também que a organização do Fronteiras do Pensamento não queira me matar, pois Padura ainda dará a mesma conferência em São Paulo nessa semana e estou dando spoilers. Se os 200 e tantos leitores desse blog ouvirem falar que ninjas ou que a SWAT me raptaram, saibam que foi por uma causa nobre.

Uma retrospectiva. Dois anos atrás, eu palestrei para a SPPA – Sociedade Psicanalítica de Porto Alegre  (outro agrupamento de pessoas que é espantoso que ainda não tenha me caçado como se faz com um tigre fugido do circo) sobre “O homem que amava cachorros”, de Leonardo Padura. Isso foi inclusive registrado em vídeo, e está aqui o link (perdoem minha verve, esqueci que estava sendo filmado e me entusiasmei um pouco, tanto que derrubei a água mineral sobre a mesa):

No momento das perguntas, alguém indagou por qual motivo Leonardo Padura não saía de Cuba. Por que não fugia, aproveitando-se de alguma viagem, e tentava se estabelecer em outro país, onde poderia começar vida nova, pois teria a sua carreira de escritor consolidada.

Se bem recordo, não fui capaz de responder essa questão de forma satisfatória, mas ela ficou ribombando na memória. Existem as opiniões mais diferentes sobre Cuba: alguns acham a ilha linda e um modelo de justiça social, outros a consideram um antro comunista. Não tenho opinião formada sobre o assunto, e ele não me interessa muito – não acho correto julgar sem ver e sem saber todas as nuances e, para mim, algo pode ser simultaneamente bom e mau. Foi estranho constatar que a posição de Padura de continuar morando em Cuba era vista tanto como uma declaração de que o regime comunista era ótimo quanto como uma demonstração de fraqueza do escritor, incapaz de escapar das “garras totalitárias”.

Ontem ele respondeu a dúvida, mas o fez de maneira tão discreta que periga ter passado em branco: para Padura, a literatura não é uma nação, mas a literatura é o escritor. A nação está dentro dele e, por extensão, dentro de cada pessoa.

É uma subversão do que estamos acostumados a imaginar: para Padura, a literatura não é o espelho da pátria (um abraço para Machado de Assis e para Joaquim Nabuco), mas uma experiência individual, assim como o próprio país. Cuba não é um espaço geográfico claramente delimitado, mas um universo interno ao escritor, repleto de personagens, situações, cores, cheiros, passado, presente e memória. Não é a Cuba real que ele aborda, mas o simulacro quase exato que existe somente dentro de si mesmo. Assim, para Padura, Cuba nunca sairá do seu interior, e o autor é incapaz de escapar do país real que corresponde à literatura que lhe habita – não pode abandonar o espaço físico onde cresceu e viveu, pois ele retroalimenta a literatura que forma a sua essência, a sua nação interna.

Estamos tão acostumados a ver a nação como um conjunto de indivíduos em prol de um objetivo comum e unidos pelo mesmo território que nunca paramos para pensar que ela existe somente no nosso interior, na visão que temos sobre a realidade circundante. Para escritores isso é mais evidente: não é o país real que eles abordam nas obras, mas a sua visão de país e de identidade nacional, algo que já passou por um filtro interno. Isso explicaria o motivo de algumas pessoas só verem o lado ruim dos países e outros só enxergarem benesses – a nação que os habita é uma diferente da do outro.

Para estabelecer essa analogia, a fala de Leonardo Padura foi sobre ILHAS, e tinha por título o verso de um poeta cujo nome me escapou: “A maldita circunstância da água por todos os lados”. A palestra tratou sobre as vicissitudes e estranhezas de morar em um país cercado por fronteiras líquidas. Abordou ainda as múltiplas maneiras através das quais os cubanos se relacionavam com as fronteiras que lhe prendiam em um lugar distante de outras terras, e as formas encontradas para rompê-las.

À medida que a fala transcorria, percebi que Padura não estava mais falando de Cuba como nação, mas de indivíduos como ilhas à solta no mundo. Não seria cada pessoa uma ilha, uma nação fechada em si, e as suas relações com o ambiente ao redor e com outras pessoas não constituiriam tentativas de escapar da solidão interna das nossas ilhas?

Nesse sentido, “a maldita circunstância de estar cercado de água por todos os lados” tem a ver com a solidão, o sentimento inexorável que cada ser humano sente por estar preso dentro da sua pele, dentro da sua individualidade. Seríamos ilhas desgarradas pelo mar do mundo, tentando nos relacionar e entender outros seres, o que explicaria o fato de algumas pessoas pensarem tão diferentes entre si – e nos permitiria compreendê-las não como formadas por opiniões, mas como ilhas com códices e vivências próprias.

Para um escritor – e aqui a reflexão é minha -, essa realidade é ainda mais desgastante. Se os outros são ilhas inconscientes tentando se ajustar por meio de acordos e tratados, nós somos territórios instáveis que preservam muito a sua independência. Devemos obediência irrestrita à nossa nação interna, e ela é caprichosa e possessiva (segundo Stendhal na sua biografia sobre Napoleão, o pequeno corso não era um homem, mas a representação do desejo da sua nação, por mais enlouquecedor que isso pareça – ser a voz de uma coletividade inteira). Estamos mapeando os limites e abismos da ilha que nos constitui, estabelecendo toda a mitologia que nos forma, e essa tarefa afasta os demais que – como já me disseram inúmeras vezes – não nos entendem. Falamos muito, mas dizemos pouco.

Quando mencionou o “Malecón”, o muro de 60 centímetros que separa Havana do mar, o escritor falou da relação dos “havaneros” com o muro: enquanto parte deles sentava e olhava para o interior da cidade, outros preferiam contemplar o oceano. Da mesma forma, alguns aproveitavam para conversar sentados no muro, enquanto outros passeavam e ainda outros praticavam o “dolce far niente”. Em alguns momentos, as imagens poéticas usadas evocavam o muro como um espaço físico que dividia as pessoas entre aquelas que preferiam contemplar a si mesmas e as outras que sonhavam com as realidades além do mar.

Ao abordar as maneiras encontradas pelos cubanos de saírem da ilha, que iam desde a fuga pura e simples até o pedido de asilo em outros países, Padura tratou da necessidade de pedir licença para morar em outro país e do esforço de compreendê-lo, das autorizações que precisamos solicitar para entrar em outros lugares. Retomando a analogia, o mesmo acontece com qualquer relacionamento: somos ilhas tentando traçar canais de comunicação e pedindo permissões para ingressar nos territórios alheios, conseguindo não a paz absoluta ou a dominação plena, mas uma relação de trocas e desvantagens mútuas.

A nossa angústia é nunca saber se a solidão será integralmente preenchida pela ilha do outro, se a ilha alheia não é mais compatível do que aquela que julgávamos ser perfeita. Chamou minha atenção o seu silêncio sobre a mais evidente das formas de sair de Cuba: a morte.

Foi com certa exasperação que o escritor disse que não podia sair da ilha, pois a sua essência estava ligada à Cuba que lhe habita. Ninguém pode sair de si mesmo. A ilha física é um detalhe que às vezes coincide ou não com a sua visão literária da Cuba, aquela que ele habita e da qual saem todas as suas histórias. Recordei o poema de Hilda Hilst: “Para onde vão os trens, meu pai? Para Mahal, Tamí, para Camirí, espaços no mapa, e depois o pai ria: também para lugar algum meu filho, tu podes ir e ainda que se mova o trem, tu não te moves de ti.” Mesmo que estejamos distantes de onde nascemos ou acompanhados por outras pessoas, a triste realidade é que nunca conseguimos sair da solidão da nossa ilha interna. Foi o que ficou de mais fundo das palavras de Leonardo Padura: é irrerlevante se ele mora ou não em Cuba, ou a sua opinião sobre política. O que realmente importa é que as pessoas estão sempre sozinhas e insatisfeitas, e encontrar felicidades para povoar a nossa ilha interna deveria ser o único objetivo válido de vida.

Um último comentário: foi tão bonito o que Padura falou sobre Cuba, bem como as suas citações de Alejo Carpentier, que fiquei muito tentado a conhecer o lugar. Eis a força maior da literatura – sedução.

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O sonho do arco-íris e o persistente cheiro de sangue humano

Às vezes perguntam-me o segredo de escrever bem – como se existisse algum segredo nisso, e como se escrever fosse algo mensurável – e eu respondo com o sábio conselho da minha orientadora de Mestrado e professora Léa Masina: ler e decorar um poema em jejum, assim que acordar.

Por alguns anos consegui fazer essa “dieta” com moderado sucesso, mas, nos últimos tempos, percebo que os poemas outrora decorados estão sumindo. Um lado meu lastima que as leituras posteriores estejam apagando os poemas memorizados com tamanho afinco, mas outro lado exulta, pois não quer dizer que os poemas estejam sumindo, mas que estão se mesclando ao meu estilo. Não são poucas as ocasiões em que escrevo frases e sinto fantasmas de palavras que não são minhas, mas de Drummond, de Camões, de Shakespeare, de Petrarca. Estão todos dentro do texto, meus antigos amigos.

Eles surgem nas horas mais inesperadas, e abrem passagem aos trambolhões. Percebi um fenômeno muito interessante: a persistência das imagens poéticas. Assim como o marisco que gruda no rochedo e luta contra a onda, as imagens poéticas marcantes continuam vivas dentro da minha memória, revolvendo-se e surgindo quando o “gatilho” é acionado. Esses dias alguém me comentou “Raimundo”, e eu respondi automaticamente com o verso de Drummond, “mundo mundo, se eu me chamasse Raimundo, seria uma rima, não uma solução”. Outra pessoa comentou que seu filho escrevia ótimos poemas mas nunca mostrou para ninguém, e eu mencionei o “Tabacaria”, de Fernando Pessoa, “o mundo é para quem nasce para o conquistar, mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda, ainda que não more nela”. Uma escritora falou da sua dificuldade de escrever poemas e eu sugeri, sem pensar, “Penetra surdamente no mundo das palavras. Lá estão os poemas que esperam ser escritos. Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário”, e só depois notei que estava citando Drummond e a “Procura da poesia”.

As imagens poéticas não seguem a métrica original, como se pode ver por esses exemplos. Estão sintetizadas, cortadas, reduzidas àquilo que mais me impactou, em uma forma selvagem que lembra não somente os autores originais mas também as minhas reflexões sobre o assunto – e a de outros escritores. Quando deixada sem controle, a memória é mais feroz do que um tigre acuado.

Ao contrário de alguns colegas, que forçam a recordação para que ela traga à tona os poemas escondidos debaixo da sua camada de gelo, eu me resignei. Deixo a memória solta para fazer a associação que bem entender, e não me esforço em lembrar o desinteressante, mas prefiro destacar aquilo que me marcou. As imagens poéticas estão por todos os lados a me atormentar, podendo surgir quando menos se espera.

Não faz muito tempo assisti a um documentário, “The truth is in the stars”, uma série de entrevistas que William Shatner – o eterno Capitão Kirk da Enterprise – fez com uma série de físicos e artistas para ver o quanto Star Trek influenciou as suas vidas, indo de Ben Stiller até Stephen Hawking. Entre as entrevistas, ele passeou por Cambridge, a faculdade que, desde o seu surgimento em 1208, viu passarem pelos seus pátios Isaac Newton, Charles Darwin e o próprio Stephen Hawking.

Enquanto estava lá, Shatner contou a história do chinês Xu Zhi Mo que, em 1928, estudando em Cambridge, escreveu um poema que se tornou muito famoso na China, mesclando a visão oriental de mundo com as formas poéticas ocidentais. Ele costumava sentar em um banco debaixo de uma árvore, na frente do lago que corta a Universidade, e escreveu o poema “On Leaving Cambridge” desse ponto de vista.

On Leaving Cambridge

Softly I am leaving,
Just as softly as I came;
I softly wave goodbye
To the clouds in the western sky.

The golden willows by the riverside
Are young brides in the setting sun;
Their glittering reflections on the shimmering river
Keep undulating in my heart.

The green tape grass rooted in the soft mud
Sways leisurely in the water;
I am willing to be such a waterweed
In the gentle flow of the River Cam.

That pool in the shade of elm trees
Holds not clear spring water, but a rainbow
Crumpled in the midst of duckweeds,
Where rainbow-like dreams settle.

To seek a dream? Go punting with a long pole,
Upstream to where green grass is greener,
With the punt laden with starlight,
And sing out loud in its radiance.

Yet now I cannot sing out loud,
Peace is my farewell music;
Even crickets are now silent for me,
For Cambridge this evening is silent.

Quietly I am leaving,
Just as quietly as I came;
Gently waving my sleeve,
I am not taking away a single cloud.

Tão famoso ficou esse poema que o governo chinês mandou encravá-lo em uma rocha, a qual foi colocada em Cambridge, próxima ao banco onde Xu Zhi Mo se sentou e teve a sua inspiração. Hoje é um ponto famoso de visita, e é muito legal ver quando algo sai da literatura e invade a realidade.

“On Leaving Cambridge”, de Xu Zhi Mo

Desde o momento em que soube essa história e li o poema, encantei-me por uma imagem: a água que está debaixo da sombra dos olmos que se projetam sobre o rio e contém, no seu interior, os sonhos do arco-íris. Tão poderosa essa construção que não consegui mais olhar as cenas filmadas em Cambridge sem imaginar como seriam os sonhos do arco-íris escondidos pelos multifacetados cristas de água que ondulam, sábios, na corrente tão enganadoramente pacífica.

Coincidência ou não, na mesma época em que assisti a esse documentário, estava lendo “Conversas com Francis Bacon”, escrito por Franck Maubert, reunindo algumas das conversas mantidas pelo jornalista com o pintor sobre arte, sobre literatura e sobre o mundo. Admiro muito a carnalidade quase obscena das obras de Francis Bacon – é o tipo de quadro que não entendo o motivo pelo qual me fascina, mas não consigo afastar os olhos. Uma explicação possível, quase indiferente, é dada pelo próprio artista: ele tenta pintar a carne fora do corpo que lhe confina, ou seja, a carne é algo que se despeja para fora do limite corporal. Essa ideia é absolutamente fascinante: quem nos garante que o corpo não é uma prisão, e a carne seria algo ansioso para explodir e se libertar da sua materialidade constrangedora?

Irritei-me um pouco com a tentativa explícita de Maubert de ver as influências da fotografia, do cinema e de outros pintores sobre o trabalho de Francis Bacon, quando o artista afirma diversas vezes que a sua fonte maior de inspiração eram as imagens presentes nos poemas de Shakespeare, de Racine, de Dante, de Yeats, de T. S. Eliot. Por que é tão difícil acreditar que a literatura pode ser fonte de criação para outras formas de expressão artística? O fato dela não possuir imagens não quer dizer que somente imagens podem inspirar outras.

“Estudo para um retrato” (1952), Francis Bacon

Nas ocasiões em que citou a literatura como meio de inspiração, o pintor menciona a inquietação que alguns textos geravam na calma do seu espírito, tão forte que a única maneira encontrada para expiar o sentimento era através da pintura. Da mesma forma que acontece comigo, Francis Bacon não lembrava os poemas completos, mas as imagens poéticas evocadas pela memória, tão poderosas que tinham sobrevivido à erosão da memória e do tempo, e assim citou de cabeça versos de Yeats e de Eliot.

Foi numa dessas recordações que Francis Bacon mencionou um verso de Ésquilo nas “Eumênides”, algo tão impactante que cravara os dentes na sua personalidade e acabara se transformando quase em um credo pessoal. O verso era “O cheiro do sangue humano não desgruda seus olhos de mim”.

No entanto, esse verso não existe. Como o jornalista fez questão de destacar em uma nota de rodapé, apesar de ter sido citada pelo pintor por inúmeras vezes dessa maneira, o verso constante na obra de Ésquilo era “O cheiro do sangue humano me sorri”. Mauteck levanta a hipótese de que Bacon tenha se apossado desse verso das “Eumênides”, deixando de ser do dramaturgo grego e passando a ser propriedade sua. Era uma criação nova, cheia de vida e de ferocidade, engendrada por uma memória que não só recordava, mas era igualmente uma força inventora dotada de mecanismos próprios.

Foi algo que acabou me trazendo um consolo: não esqueci aquilo que levei tantos anos para saber, mas estou digerindo os poemas de muitos autores inesquecíveis e, no meio dessa confusão, existem estrelas – imagens poéticas – que reluzem com raiva indômita, aparecendo nos momentos mais inesperados. Tantas pessoas reclamam da falta de memória, mas eu acredito que a minha, em um processo de sobrevivência, está se canibalizando. A memória escolhe os temas e eu dou gume, alada rima, fazendo deles flechas exímias que, após lançadas, voarão certeiras até que a presa, nosso inimigo, se lamente. Nada como acabar um texto invocando a sombra de Aleksandr Pushkin – ou a minha, já não sei mais quem está falando aqui dentro.

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A literatura como um farol

A produção do Fronteiras do Pensamento 2017 pediu para que eu escrevesse um ensaio sobre a obra do escritor cubano Leonardo Padura. Mas, como nada na vida é simples, pediram para que tentasse conectar o texto ao tema do Fronteiras desse ano, que, em uma síntese, seria “Num mundo onde as divisas são sutis e o impacto das culturas é real, o pensamento nos aproxima na tarefa de resgatar e fortalecer valores. O que nos define como civilização? Buscar o que nos conecta, o que nos concretiza como ‘nós’, é um dos grandes desafios atuais.”  Disseram que, se eu não conseguisse, tudo bem – algo que, claro, é a senha para eu tentar até o último suspiro literário. There’s no mountain high enough.

O resultado foi esse texto, “A literatura como um farol”. Escrevi no início do ano, mas tenho lembrado dele cada vez com mais frequência, em especial nos dias que estamos vivendo. Quando estivermos em dúvida sobre algo, ou nos sentindo desesperados e sozinhos demais, é necessário buscar tranquilidade na Arte, que serve como porto seguro para nossas agruras. A beleza e o horror estão criptografados na Arte, assim como nossos dilemas éticos e questões existenciais. Está tudo ali, em silêncio, à espera de ser decifrado por quem realmente se interessa em descobrir respostas que vão além do imediatismo.

Os que tiverem interesse no libreto completo do Fronteiras do Pensamento 2017, está aqui o link: http://www.fronteiras.com/produtos-culturais/produto/libreto-leonardo-padura 

Na segunda feira próxima, assistirei a palestra do Padura.

Boa leitura.

 

A literatura como um farol

“O farol de Bell Rock”, 1819, William Turner

Vamos pensar em um farol. Sozinho, ele luta contra a inexorabilidade furiosa das ondas que se arremessam, tentando arrastá-lo para o seu coração molhado no fundo do oceano, onde moram os fantasmas dos náufragos. Ainda assim, ele resiste ao cerco raivoso, a luz servindo de guia para as embarcações em meio ao escuro e às tempestades. Um farol sinaliza não somente o perigo de rochedos, mas o sonho de uma terra segura em que possamos descansar das agruras do mundo.

Em um livro lançado em Portugal no ano de 1968 e com coordenação de Urbano Tavares Rodrigues, perguntaram para seis escritores franceses, “Que pode a literatura?”, que se tornou seu título. Entre os escolhidos para responder essa singela – e traiçoeira – pergunta, estavam Jean-Paul Sartre, Yves Berger, Jean Ricardou e Simone de Beauvoir. O mundo atravessava momentos conturbados, em que valores eram rediscutidos à medida que os estudantes espalhavam-se pelas ruas da França lutando pelo direito de mudarem aquilo que julgavam errado. Era um período de crise e, como Urbano Tavares Rodrigues anuncia na introdução, é importante determinar se, nesse contexto problemático, estando sob ataque da crítica e da ciência, a literatura ainda teria, nos dias de então, um poder real e efetivo e, se acaso existisse esse poder, “a forma que ele se reveste, se se traduz em negação, contestação, transformação ou manifestação de impotência”. Uma dúvida que, sem muitas alterações, poderíamos aplicar nos dias atuais: a literatura é capaz de mudar o mundo e se, acaso sim, poderia salvá-lo, destruí-lo ou somente manifestar a sua impotência diante dos dilemas humanos?

Entre as respostas, a mais perturbadora e otimista foi a de Simone de Beauvoir. Após interrogar-se se a literatura ainda fazia sentido em um mundo no qual a informação possuía fácil acesso, em que o livro de um sociólogo sobre as favelas que cercam a Cidade do México era analisado de forma idêntica às descrições feitas por Balzac em “A Comédia Humana” – e estávamos antes do advento da internet, quando a informação não só se tornaria abundante como veloz -, a escritora francesa diz que, sim, a literatura fazia sentido, pois não se arvora na condição de ser verdadeira, mas pretende ser uma forma alternativa de se posicionar diante da realidade: “É este o milagre da literatura, o que a distingue da informação: é uma outra verdade que se torna minha sem deixar de ser outra. Abdico do meu ‘eu’ em favor de quem fala e, no entanto, continuo a ser eu própria. (…). A obra literária existe, na minha opinião, sempre que o escritor é capaz de manifestar e de impor uma verdade: a da sua relação com o mundo, a do meu mundo. Mas é preciso levar em conta o significado destas palavras: ter qualquer coisa para dizer não é mesmo que ter um objeto que se leve na mala e se ponha em cima da mesa, procurando descrevê-lo em seguida por palavras.”

Semelhante ao acontecido na década de 60, atravessamos outro período de turbulência. Os valores que imaginávamos intocados, como as noções de democracia e de liberdade civil, estão sob constante readequação. As fronteiras se diluíram; assoberbados pela fome e pela guerra, os povos se deslocam sem respeitar limites físicos, tornando inevitável o choque entre diferentes culturas. As instituições são questionadas, e tudo o que nos deixava seguros hoje paira sobre o clima da incerteza. Assim, torna-se imperativo retomarmos a pergunta: o que pode a literatura para manter esse equilíbrio precário que coloca em dúvida o próprio conceito de civilização?

Oportuno retornarmos à imagem do farol, mas pelo ângulo contrário. Imagine-se sobre o convés de uma embarcação, atacado pelos antigos deuses das águas, que esboroam as madeiras, ansiosos para saborear o seu último hálito. Imagine o vento fustigando a sua cara com centenas de cortes gelados, o rugido de um mundo que se contorce ao redor, o descontrole de vagar pela noite infinita onde as nuvens se unem às águas com o propósito de lhe engolir vivo. Estremecido de medo, você enxerga a luz solitária sobre a água, um bruxuleio tímido que aos poucos se firma no horizonte e lhe diz: calma, tudo vai acabar bem. Aproxime-se com cautela e, em breve, o pesadelo será passado. Toda a lógica indica que aquela luz é um farol, mas, para quem está dentro do barco enfrentando a tempestade, ela se chama Esperança.

Em tempos de crise moral e ética, é na Arte que devemos buscar aquilo que perdemos. É nela que encontramos o Humano, não a criatura multifacetada e repleta de agonia imposta pela pós-modernidade, mas o ser solitário que tenta chegar à sua essência para entender o mundo que lhe cerca. A Arte é o farol que nos conduz no silêncio da existência. É ela que tem a capacidade de fornecer a resposta para aquilo que sequer conseguimos transformar em pergunta.

Entre as artes, a Literatura ocupa um papel de relevo ao mostrar caminhos diferentes dentro da realidade, trazendo novas reflexões para dentro da vida singular que cada um ocupa. A melhor maneira de entendermos o outro é tentando enxergar o mundo através do seu ponto de vista. A Literatura é o exercício de alteridade por excelência, pois, quando lemos um livro, por um intervalo de tempo delirante, deixamos de sermos nós mesmos e nos transformamos em Gregor Samsa, em Aquiles, em Jane Eyre, em um axolote. Quanto mais lemos, maior a capacidade de entendermos os dilemas do outro e, quanto maior a compreensão, maior a tolerância e o respeito a quem nos é diferente.

É o caso do escritor cubano Leonardo Padura. A sua obra constitui um microcosmo dos séculos XX e XXI; o leitor que se debruçar sobre os seus romances, aprenderá mais sobre política, economia, sociologia e relações humanas do que qualquer busca no Google. Terá a vantagem de caminhar por uma Cuba mais real do que aquela que conhecemos: um cenário quente, de desilusões prolongadas, de desencanto e de alegrias que insistem em se esconder nos cantos das esquinas. Conhecerá um povo que sorri apesar das agruras, que sobrevive com dignidade e que possui dramas não muito distantes dos que atormentam pessoas em outros lugares do mundo. Ao contrário do que se pensa, o acesso amplo à informação é inútil se não acompanhado do toque humano de saber articular tais dados na forma de um pensamento coerente. Quando Simone de Beauvoir expressou o seu receio que o excesso de informação tornasse a literatura obsoleta, antecipou algo que Leonardo Padura demonstra nos seus romances: as informações e a pesquisa detalhada dos assuntos só possuem algum sentido quando são depuradas pelo olhar aguçado de um homem sobre o seu tempo.

Para descrever a sociedade em que vive, e fazer com que a sua obra tenha um alcance universal, Leonardo Padura escreve romances policiais, tidos por muitos como uma espécie de subgênero literário (por mais questionado que seja esse conceito). Autor da série de novelas policiais “Estações Havana”, formada por quatro livros (“Passado perfeito”, “Ventos de Quaresma”, “Máscaras” e “Paisagens de Outono”), o autor cubano criou o detetive Mario Conde, um policial atormentado por questões pessoais e que resolve crimes enquanto Cuba vive as primeiras crises do final do socialismo castrista. É um tempo de mudanças sociais e políticas e, em meio a essas incertezas que afetam o cotidiano de milhares de pessoas, Mario Conde atravessa as ruas de Havana em busca de respostas para os crimes, precisando lidar com os mais variados e ricos personagens, que dissimulam, mentem e, às vezes, até falam a verdade.

Dificilmente existe gênero literário que melhor represente a literatura como forma artística do que o romance policial. Reduzido aos seus elementos mais básicos, ele é a caçada de um criminoso realizada por outra pessoa que dispõe a mais perigosa das armas: a criatividade de unir pontos díspares em uma rede lógica de causa e efeito. Seres humanos criativos são algo a ser temido em qualquer tempo e lugar, e o romance policial faz com que os seus leitores tracem ligações e imaginem cenários que expandem as possibilidades da criatividade ao infinito.

Em um ensaio sobre o conto policial, Jorge Luis Borges, após afirmar que a literatura é algo que tende ao caótico, acaba encontrando organização dentro da história policial, “que está salvando a ordem em uma época de desordem.” Poucas sensações são mais tranquilizadoras do que juntar pistas ao lado de um detetive ficcional e trazer algum conforto e segurança ao mundo. Chesterton afirmou que o verdadeiro inimigo da história policial é o escritor, que esconde pistas com o desejo de que elas sejam encontradas. Nesse caso, Leonardo Padura é o melhor adversário que um leitor pode encontrar, pois, além de tentar encontrar sentido para uma Cuba que espelha as perplexidades de todo um século, constrói o caos de um crime dentro de um caos social maior, e faz com que o leitor se torne cúmplice na tarefa de juntar os pedaços de um mundo semi-destruído com o objetivo de dar alguma ordem que, se não for a ideal, ao menos seja satisfatória.

Retomando a pergunta motivadora desse texto, o que pode a literatura? Talvez a resposta seja outra questão: o que a literatura não pode fazer nos tempos em que vivemos? Existiria assunto tão insondável que não possa ser trazido para dentro da arena ficcional a fim de ser analisado sob todos os prismas possíveis? Com o passar do tempo, criou-se a ilusão de que surgirá alguém capaz de nos salvar, um ente iluminado que, com inteligência, guiará a nossa embarcação para longe da crise, mas, parafraseando Brecht, pobre da nação que precisa de heróis! O melhor é buscar o conforto da literatura para achar as respostas tão ansiadas, confiantes de que, como um farol em meio ao mar bravio, ela será capaz de nos conduzir quando nos sentirmos perdidos e sozinhos. Nesse cenário, a obra de Leonardo Padura continuará dialogando com os dilemas da nossa época, mostrando para o leitor que uma das grandes funções da literatura, afinal de contas, é mostrar quem realmente somos.

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Resenha do livro “Urubus em círculos cada vez mais próximos”, de Cesar Cardoso

Escrevi para o Homo Literatus (www.homoliteratus.com) uma resenha sobre o livro “Urubus em círculos cada vez mais próximos”, do Cesar Cardoso. Uma 0obra formada exclusivamente por minicontos, levando ao máximo a tensão narrativa e usando para isso o mínimo de palavras e descrições. O conto no seu estágio mais bruto, mais selvagem. Não é algo que eu aprecie muito escrever – nos tempos atuais o miniconto se aproxima muito das fábulas moralizantes -, mas admiro quem sabe fazer. Se o Cesar não teve sucesso em todos (algo impossível para qualquer escritor que se aventura pelo contos), conseguiu fazer alguns inesquecíveis. Recomendo a leitura, mas, conforme a resenha, devagar, para que cada conto atinja o leitor com a sua máxima força, sem ser atenuado ou obliterado pelo próximo.

Boa leitura.

 

As pequenas impossibilidades de Cesar Cardoso

 

 

Pela sua própria natureza, o conto possui como característica o fato de ser curto. No entanto, essa brevidade não implica em dar um tratamento superficial à história. Ao contrário, o conto bem sucedido é aquele que, por trás de uma aparência simples e quase descuidada, esconde um universo de terríveis possibilidades no seu interior. Dessa maneira, não importa se o conto tem uma, duas ou quinze páginas, desde que a história aparente – aquela que se encontra diante dos olhos do leitor – seja a fachada de uma série de histórias ocultas que se revolvem no seu interior, inquietas como as cobras de uma Medusa, ansiosas para serem desvendadas ao mesmo tempo em que escapam do leitor arguto como a neblina foge entre nossos dedos.

Na orelha do livro “Urubus em círculos cada vez mais próximos”, de Cesar Cardoso, encontra-se que o autor “leva ao extremo a máxima de Cortázar de que no conto o escritor deve vencer por nocaute”. Segundo o autor e teórico argentino, conto perfeito é aquele em que o leitor chega ao final da narrativa com a sensação de atordoamento, de que alguma parte muito importante da sua vida foi indelevelmente modificada. Para ficar com outra metáfora que se refere ao conto, desta vez de Hemingway, essa modalidade narrativa é como um iceberg: olhamos somente a ponta, mas, abaixo dela, está um enorme mistério, uma massa gigantesca de segredos oculta nas sombras do oceano.

Entre as narrativas curtas, poucas são mais cruéis do que os minicontos. Neles, a tensão narrativa é concentrada ao máximo; um piscar de olhos do leitor, uma distração, e o efeito inteiro se perde, transformando-se em confusão ou indiferença. O livro de Cesar Cardoso reúne 91 minicontos, a maioria com extensão de uma página, alguns chegando a duas. Não se confunda brevidade narrativa com conflitos insossos: grande parte das histórias são diretas, viscerais, furiosas. É um livro feito para submergir o leitor em um mundo de impossibilidades possíveis, forçando-o a redefinir os padrões do que considera como realidade e ensinando-o a questionar o status quo imposto pelos padrões sociais do que é verdadeiro ou não. Mais importante do que ser real é ser verossímil e, dentro do livro, as impossibilidades de Cesar erguem aos poucos um muro ficcional repleto de surpresas e de reviravoltas. Serve como exemplo o miniconto seguinte:

“Os bravos soldados do fogo

Acordei com a sirene. O barulho veio aumentando e eu esperei que fosse diminuindo. Mas não. Parou à minha porta. Levantei rápido da cama e corri para abrir a porta da frente, já dando de cara com os bombeiros carregando as mangueiras, gritando ordens, cercando o quintal e procurando, procurando. Eu também não encontrava nenhum sinal de fogo. Mas não tive tempo de alertá-los, eles já acionavam os hidrantes e encharcavam a casa toda. A princípio, não entendi aquele procedimento e até me aborreci. Mas eles foram gentis e pacientes e me fizeram ver que, por mais que a gente não perceba e mesmo não encontre, há sempre um incêndio.”

Observa-se aqui uma série de constantes que se repetirá em outras narrativas curtas contidas em “Urubus em círculos cada vez mais próximos”: a estranheza de uma situação que escapa do normal, a surpresa nas últimas linhas do conto (o mencionado “soco que leva ao nocaute” de Cortázar) e, mais importante do que tudo, a passividade do narrador diante do fantástico. Não existe oposição, luta ou questionamento; ao contrário, o narrador se entrega ao absurdo e considera-o como parte da anormalidade de um dia-a-dia que luta contra os próprios limites impostos pelo real.

Tal circunstância permite ao escritor tecer as mais inventivas ficções, confiante em uma credibilidade inicial a ser concedida pelo leitor e que não se desvanecerá até o final do miniconto. Assim, Cesar Cardoso escreve sobre ursinhos de pelúcia abusadores, sobre um condenado à morte cuja pena nunca é integralmente cumprida, sobre um hospital que vende ingressos para que as pessoas acompanhem cirurgias, sobre alguém que todos os dias procura o próprio obituário nos jornais, sobre vizinhos que entram nos sonhos um do outro, sobre um automóvel que sonha na garagem com o homem que irá destruí-lo. Cada miniconto escancara uma porta sombria, revelando pesadelos que se escondem nas ranhuras do cotidiano brutal imposto pela rotina.

Existem histórias que não entregam facilmente as suas chaves de compreensão, levando o leitor a reler a narrativa em busca do significado que permaneceu oculto nas entrelinhas. Alguns minicontos emulam as obras de Escher e “A circularidade dos parques”, conto de Cortázar, com uma narrativa circular em que o narrador persegue a si mesmo, como no caso seguinte:

“O dia pela frente

O homem com o pijama listrado abriu os olhos, se espreguiçou e ficou ainda alguns minutos na cama, talvez pensando no dia que teria pela frente. Então se levantou, calçou as sandálias e foi até a janela ver se aquele barulho era mesmo de chuva.

Abriu a janela mas só conseguiu ver o quarto, onde o homem de pijama listrado abria a janela para ver se aquele barulho era mesmo de chuva.”

No entanto, é justamente esse desejo de surpreender que acaba deixando o livro um pouco previsível pelo seu viés oposto: o de buscar uma reviravolta ao final de cada história. Tal circunstância faz com que as narrativas curtas se tornem assemelhadas, impedindo que parte dos minicontos fique marcada na memória do leitor. Enquanto que, em algumas histórias, o momento final não só é “evidente e imprevisível” – para ficar em outra metáfora do conto perfeito, essa feita por Ricardo Piglia -, em outras o final soa forçado e gratuito, com uma tentativa de surpreender o leitor que não funciona tão bem. Quando se tornam visíveis as cordas narrativas que controlam a história, o leitor percebe o rompimento da suspensão da descrença sem a qual não existe o pacto ficcional – através do qual o leitor dá um crédito para as mentiras do autor desde que elas não sejam óbvias ou infiéis à verossimilhança interna -, e ver a interferência direta de um autor em busca de uma surpresa causa o efeito contrário, que é deixar a história previsível.  Ou seja: em determinado momento do livro, o leitor sabe que seu destino é ser surpreendido e, portanto, deixa de se surpreender.

A melhor forma de ler “Urubus em círculos cada vez mais próximos” é lentamente, algo que vai contra a ideia de brevidade extrema do miniconto, mas que, para um leitor que não se dedica a devorar com sofreguidão uma obra, mas se esforça para tentar decodificar e lembrar cada narrativa, é o ideal. Ler muitos minicontos em sequência faz com que o efeito de um acabe enfraquecendo o do outro, e assim por diante. No entanto, ler a obra com vagar, refletindo cada miniconto e tentando vislumbrar as possibilidades contidas por trás de uma forma enganosamente simples, pode ser recompensador de muitas maneiras diferentes. O livro de Cesar Cardoso recompensa o leitor lento com uma série de pequenos pesadelos que, apesar de estarem contidos dentro da ficção, podem ser mais reais e presentes do que esse mundo absurdo em que vivemos.

Texto originalmente publicado no link http://homoliteratus.com/as-pequenas-impossibilidades-de-cesar-cardoso/

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Os que não cheiram a medo

Sempre que me falam de arte ou de literatura contemporânea, eu digo que não me considero contemporâneo, pois não tenho “cheiro de medo”. Quase todos me olham com incompreensão. Melhor dizendo: todos me olham com incompreensão. Na realidade, estou brincando com uma pequena história contada pelo Juan Gelman e relatada pelo Eduardo Galeano em “O livro dos abraços”:

“A arte e o tempo
Quem são os meus contemporâneos? — pergunta-se Juan Gelman. Juan diz que às vezes encontra homens que têm cheiro de medo, em Buenos Aires, em Paris ou em qualquer lugar, e sente que estes homens não são seus contemporâneos. Mas existe um chinês que há milhares de anos escreveu um poema, sobre um pastor de cabras que está longe, muito longe da mulher amada e mesmo assim pode escutar, no meio da noite, no meio da neve, o rumor do pente em seus cabelos; e lendo esse poema remoto, Juan comprova que sim, que eles sim, que esse poeta, esse pastor e essa mulher, esses são seus contemporâneos.”

Irrito-me com o “cheiro de medo” que sinto sair dos livros, das pinturas, das fotos, do politicamente correto. Irrito-me também com o escândalo fácil, com a polêmica estéril, com a vacuidade mental. Alguns anos atrás, assistindo ao ensaio de uma peça de teatro, depois da vigésima vez  que a atriz principal sugeriu tirar a própria roupa para “escandalizar a plateia”, eu propus que, ao invés de tirar, ela acrescentasse roupas – isso sim seria revolucionário. Não faz muito, ao comentar o texto de um autor contemporâneo, afirmei ter sentido o fedor do medo na hora em que ele hesitou antes que o seu personagem principal abusasse da filha (era a solução lógica, e colocar um Deus ex-machina para policiar a narrativa foi uma solução covarde). Esses daí não são meus contemporâneos.

Em compensação, às vezes encontro contemporâneos que viveram em outras épocas, e com eles sinto não somente respeito, mas também identificação. Não nas suas temáticas, e sim no espírito de se arrojarem sem medo contra as fileiras do correto, do óbvio, do clichê, do pensamento amedrontado.

Nos últimos tempos, é absoluto o meu fascínio por Octave Tassaert (1800-1874). Assim como no poema de Fernando Pessoa, ele foi aquele que perdeu todas as lutas em que entrou. A começar, na sua carreira de pintor. Mesmo com um trabalho consistente e sério, os temas sociais ou eróticos que escolhia para as suas obras faziam com que os críticos mantivessem silêncio sobre elas, fingindo que não existiam. Nunca ganhou um prêmio sequer.

Octave Tassaert – “Os abandonados”

Como não conseguia se sustentar com as pinturas, Tassaert assumiu a profissão de ilustrador para os periódicos franceses. Passou anos comendo o pão que o diabo amassou, mas nunca deixou de pintar, esperando o reconhecimento do público e da crítica. Ao invés de mudar, esperou o mundo mudar. E não é que aconteceu? Os críticos do Salão de Arte do ano de 1855 saudaram as suas obras, reconhecendo valor estético nelas. Alexandre Dumas Filho comprou alguns dos quadros. Tassaert tornou-se 0 símbolo de uma nova época e de uma nova visão artística.

Longe de ficar satisfeito com essa conquista, Tassaert entrou em depressão. Passara muito tempo esperando o reconhecimento, e ele chegava somente agora, no final da sua vida, depois de muitas provações, necessidades e sofrimento. Agora que era inútil, pois ele estava quase cego.

Octave Tassaert – “Uma família desafortunada ou a suicida”

Em 1863, o pintor vendeu todos os seus quadros para um marchand, livrando-se deles. Estava adoentado e com a vista muito fraca, e não podia mais pintar, motivo pelo qual se tornou um alcoólatra. Existem alguns relatos de pessoas que viram o pintor se arrastando pelas ruas, a sombra pálida de um artista. Em 1865 começou a escrever poesia, mas suas obras acabaram se perdendo com o tempo.

Para não dizerem que esse blog não trata de assuntos importantes, um alerta sobre as vantagens do sexo seguro vindo diretamente de mais de 150 anos atrás, antes mesmo de existirem camisinhas:

Octave Tassaert – “A amante cautelosa”

Estava praticamente cego e pobre quando, em 1874, cerrou-se no seu quarto e cometeu suicídio, asfixiando-se com dióxido de carbono.

Nos anos seguintes, Gauguin e Van Gogh manifestaram a sua admiração por Tassaert. Van Gogh, em carta enviada para Theo em janeiro de 1886, disse que Tassaert pintava de maneira “maravilhosamente audaciosa”, com uma “perfeita representação do corpo feminino”, cujas mulheres ostentavam semblantes “com expressões apaixonadas”.

Octave Tassaert tornou-se famoso pelos seus quadros que demonstravam a voluptuosidade da vida e a própria paixão. A obra mais representativa é “A mulher amaldiçoada”,  uma ode à liberdade feminina e ao prazer sem limites:

Octave Tassaert – “A mulher amaldiçoada”

Mesmo fazendo uma arte depreciada pela crítica, Octave Tassaert passou anos insistindo na mesma tecla até que viu seus esforços reconhecidos. Ele esperou o mundo entrar na sua verdade, não tentou se ajustar ao discurso artístico dos demais da sua época. Infelizmente não tinha mais vontade de lutar e de aproveitar os louros da glória, então acabou se deprimindo. Perdeu a visão e a vida, mas nunca perdeu a sua arte de vista – nunca deixou de ser honesto e sincero consigo mesmo. Nunca sentiu medo. Nunca precisou fazer concessões para ser aceito.

É isso o que desejo dizer quando sinto o “cheiro do medo” nos meus contemporâneos, e não me identifico com eles. Não sei qual o momento em que todos passaram não a suscitar opiniões alheias, mas a temê-las. Buscar o conforto comodista ao invés de manifestar uma visão de mundo. Torna-se cada vez mais importante a frase de Frank Miller em “Demolidor – o homem sem medo”: “um homem sem esperança é um homem sem medo”. Então, deixai a esperança de felicidade, ó vós que desejais serem contemporâneos.

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