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Eu me recuso a aceitar o fim do homem – o discurso de Faulkner

Revisando algumas anotações antigas, acabei me deparando novamente com essa preciosidade que é o discurso de aceitação do Nobel de Literatura de 1949 proferido por William Faulkner. Palavras tão sensatas que merecem ser relidas e inscritas a ferro na memória, ainda mais nos tempos em que vivemos (tradução de Yuri Vieira):

“Senhoras e senhores, sinto que este prêmio não foi concedido a mim enquanto homem, mas a meu trabalho — o trabalho de uma vida na angústia e no sofrimento do espírito humano, não pela glória e menos ainda para obter lucro, mas para criar dos materiais do espírito humano algo que não existia antes. Assim, este prêmio está tão somente sob minha custódia. Não será difícil encontrar, para sua parte financeira, um destino condizente com o propósito e significado de sua origem. Mas eu gostaria de fazer o mesmo com esta aclamação também, utilizando este momento como o pináculo a partir do qual eu possa ser ouvido pelos jovens homens e mulheres já dedicados à mesma agonia e faina, entre os quais já está aquele que um dia estará aqui onde eu estou.

“Nossa tragédia, hoje, é um geral e universal temor físico suportado há tanto tempo que podemos mesmo tocá-lo. Não há mais problemas do espírito. Há somente a questão: quando irão me explodir? Por causa disto, o jovem ou a jovem que hoje escreve tem esquecido os problemas do coração humano em conflito consigo mesmo, os quais por si só fazem a boa literatura, uma vez que apenas sobre isso vale a pena escrever, apenas isso vale a angústia e o sofrimento.

“Ele, o jovem, deve aprendê-los novamente. Ele deve ensinar a si mesmo que o mais fundamental dentre todas as coisas é estar apreensivo; e, tendo ensinado isto a si mesmo, esquecê-lo para sempre, não deixando espaço em seu trabalho senão para as velhas verdades e truísmos do coração, as velhas verdades universais sem as quais qualquer estória torna-se efêmera e condenada — amor e honra e piedade e orgulho e compaixão e sacrifício. Antes que assim o faça, ele labora sob uma maldição. Ele escreve não sobre amor mas sobre luxúria, sobre derrotas em que ninguém perde nada de valor, sobre vitórias sem esperança e, o pior de tudo, sem piedade e compaixão. Sua atribulação não aflige ossos universais, não deixa cicatrizes. Ele escreve não a partir do coração mas das glândulas.

“Até que reaprenda estas coisas, ele irá escrever como se compartisse e observasse o fim do homem. Eu me recuso a aceitar o fim do homem. É bastante cômodo dizer que o homem é imortal simplesmente porque ele irá subsistir: que quando o último tilintar do destino tiver soado e se esvaecido da última rocha inútil suspensa estática no último vermelho e moribundo entardecer, que mesmo então haverá ainda mais um som: sua fraca e inexaurível voz, ainda a falar. Eu me recuso a aceitar isto. Creio que o homem não irá meramente perdurar: ele triunfará. Ele é imortal, não porque dentre as criaturas tem ele uma voz inexaurível, mas porque ele tem uma alma, um espírito capaz de compaixão e sacrifício e resistência. O dever do poeta, do escritor, é escrever sobre essas coisas. É seu privilégio ajudar o homem a resistir erguendo seu coração, recordando-o a coragem e honra e esperança e orgulho e compaixão e piedade e sacrifício que têm sido a glória do seu passado. A voz do poeta necessita ser não meramente o registro e testemunho do homem; ela pode ser uma das escoras, o pilar para ajudá-lo a subsistir e prevalecer.”

Impressionante que essas palavras tenham já 68 anos de idade, pois continuam atuais. É algo que observo na produção literária atual: ótimos escritores, repletos de técnicas arrojadas e de perfeição estilística, mas vazios de compaixão. Escrever não é denunciar as agruras sociais ou criar jogos vazios com leitores. Escrever é comunicar-se com a angústia que um leitor sequer sabe que possui.

O movimento descrito por Faulkner é aquilo que transforma o verdadeiro escritor em alguém que possui medo do que escreve: ele nunca sabe qual demônio interno estará cutucando sempre com uma vara curta demais, e desconhece o que pode saltar dessa caixa de Pandora que se esconde dentro de cada folha em branco. Aproximar-se demais do mal é concordar com ele, pois, quando escrevemos, estamos em todos os lugares, no certo e no errado, no bom e no ruim, na escuridão e na luz. Escrever não é só mergulhar nos sentimentos de si próprio e dos outros, é também entendê-los – e ser possuído da mais absoluta piedade, e não existe nada mais complexo e difícil do que perdoar o outro.

Enquanto não tivermos piedade, não seremos humanos completos. Sem tocarmos nas verdades universais – os demônios que nos acordam no meio da noite com seus cicios repletos de possibilidades e falsas lisonjas – não estamos escrevendo de verdade, e por isso tantos escritores enchem páginas e mais páginas brincando, tergiversando, escandalizando, mentindo, tudo para evitar o terrível medo que é perder o controle e se transformar no próprio texto.

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Arquivado em Discurso, William Faulkner

Dizer as palavras que realmente importam

Quando era bem mais novo, e estava ainda começando no Direito, eu assistia a uma série de televisão que passava na Fox Brasil, “The Practice” (“O Desafio” na versão em português). Era o seriado que melhor expressava as realidades, dores e pequenas alegrias do Direito. Um grupo de advogados jovens querendo mostrar serviço, às vezes agindo de forma atabalhoada, em outras sendo brilhantes e perdendo as lutas, usando todos os métodos possíveis para que seus clientes ganhassem as disputas jurídicas. Mais ou menos como a vida de qualquer advogado que sai da faculdade e, com fogo nos olhos, tenta subjugar o mundo.

Existia um aspecto de construção do roteiro que era muito bem realizado. No início de cada episódio, o espectador era apresentado para uma série de imagens cortadas: um corpo; uma pegada; uma faca coberta de sangue; uma janela com a cortina esvoaçando. Alguém era acusado pelo crime e o restante do episódio eram os advogados pegando essas cenas e tentando construir uma narrativa verossímil que lançasse dúvidas sobre a culpa do seu cliente e permitisse que ele fosse libertado. É assim que a vida real nos apresenta toda situação – um aglomerado disforme de elementos díspares para o qual tentamos encontrar um fio condutor que forneça algum sentido.

No final do episódio, vinha A VERDADE (era como eu chamava o momento): após a condenação ou libertação do cliente, os espectadores enfim sabiam a verdade dos fatos, e podiam comparar com a narrativa fictícia criada pelos advogados para provar a sua tese. Era decepcionante quando eles faziam o espectador acreditar que o cliente era inocente, mas, na verdade, era culpado. No entanto, o pior momento era quando víamos um inocente condenado por um crime que não cometeu simplesmente por que não conseguiram contar com suficiente verossimilhança a verdade que ele insistia em dizer.

Se hoje recordo desse seriado é por causa de uma cena que marcou a minha vida, tanto que, passados mais de 15 anos, ainda a recordo em detalhes.

No episódio, os advogados receberam um caso aparentemente não tão complexo, e se entregaram a ele com fúria para conseguir libertar o cliente, pois acreditavam na sua inocência. Estavam com uma energia desproporcional para a situação – afobados demais – e estabeleceram uma série de conflitos secundários: brigaram com o juiz, com o promotor do caso, entre si, com todo mundo. Realizaram uma série de incidentes infundados, audiências paralelas e petições cansativas que foram desgastando a paciência do Poder Judiciário, aquilo que hoje chamaríamos carinhosamente de “chicanas jurídicas”. Batiam de forma insistente na mesma tecla, “dúvida provável”: se existir uma sombra de dúvida sobre a culpabilidade de alguém, por menor que seja, deve-se inocentar tal pessoa.

Eles conseguiram montar uma história verossímil, e todas as provas acabaram ficando a seu favor, tanto que consideravam certa a vitória. No entanto, o cliente foi condenado.

Ao final do episódio, um dos advogados chefes do escritório está em um banco do Forum, exaurido, derrotado, a cabeça entre as mãos. Um jurado do caso passa por ele e, mesmo sendo proibidas as comunicações durante e após o julgamento, o advogado não resiste e interpela o outro: se as provas estavam todas a favor, se a narrativa era verossímil, se tudo apontava para a “dúvida provável” do homem em julgamento, por que diabos ele foi condenado?

O jurado olha o causídico de cima a baixo: “vocês nunca disseram que ele era inocente, doutor”. E se afastou, enquanto o advogado contemplava-o fixamente. Em seguida, no momento A VERDADE, ficava demonstrado que o condenado era inocente mesmo.

A ausência de uma palavra só definiu o destino de um homem.

Às vezes, estamos tão envolvidos com uma situação que esquecemos de dizer as palavras mais importantes. Tão concentrados em analisar situações, construir justificativas e torpedear argumentos alheios que deixamos de lado a verdade contidas nas palavras mais simples. Esquecemos o essencial, iludidos pela ilusão e pelas possibilidades.

Ontem estava relendo o “Decálogo do Perfeito Contista”, do Horacio Quiroga – uma série de ensinamentos a que sempre retorno em busca de respostas não literárias, mas para a vida – e a regra VI é preciosa:

“Se queres expressar com exatidão esta circunstância – ‘Desde o rio soprava um vento frio’ -, não há na língua dos homens mais palavras do que estas para expressá-la. Uma vez senhor de tuas palavras, não te preocupa em avaliar se são consoantes ou dissonantes.”

“Palavras, palavras, palavras”, disse Hamlet de Shakespeare, arremessando longe um livro. “Palavras, palavras e mais palavras ainda”, disse Lorde Harry de Oscar Wilde, suspirando de enfado. Quem pode dizer a respeito de si próprio que é “senhor de suas palavras”?

Acabamos nos perdendo em um emaranhado tão grande de palavras que esquecemos de dizer aquelas que realmente importam. Usamos eufemismos, metonímias, metáforas, e deixamos de lado a expressão que se  encaixa com exatidão no que pensamos.

O resultado é idêntico ao de julgamento no “The Practice”: tanto desejamos dizer algo que falamos tudo, menos a palavra decisiva.

Um dos meus poemas favoritos de Aleksandr Pushkin, “O prosador e o poeta” (tradução de Boris Schnaiderman e Nelson Ascher), afirma que, enquanto o primeiro se esmera na busca dos temas, o segundo se encarrega de transformar as palavras em flechas certeiras na direção do leitor:

O PROSADOR E O POETA

Por que te inquietas, prosador?
Escolhe os temas e, ao que for,
eu darei gume, alada rima,
e farei dele flecha exímia
que, após deixar a corda tesa
do arco dobrado servilmente,
voará certeira até que a presa,
nosso inimigo, se lamente!

Hoje vivemos uma época em que, mais importante do que a precisão da palavra brandida como flecha, o essencial é usarmos palavras como se fossem tiros de metralhadora. Muita dispersão, pouco foco. Muita força e impetuosidade, pouca clareza e direção.

Também estamos em um mundo no qual as pessoas se esquecem de dizer ou mostrar que são inocentes, e nos perdemos em distrações, detalhes, informações contraditórias ou – o pior – palavras vazias de vontade. Adorno escreveu que existem músicas que não são músicas, aquelas feitas sem nenhuma emoção e que ocupam o espaço do silêncio (aliás, por que tememos tanto o silêncio?), por exemplo, a música que toca em estabelecimentos comerciais ou dentro de elevadores.

Pois também existem palavras repetidas à exaustão, geralmente ditas sem qualquer reflexão sobre o seu conteúdo – discursos vazios, cansados, sem nenhuma vontade que não seja a de marcar uma pálida posição.

Enquanto isso, assim como em “Procura da Poesia” do Drummond, as palavras continuam esperando que alguém vá buscá-las no seu reino, paralisadas, mas sem desespero. Esquecemos de dizer as palavras que importam e, por causa desse silêncio, somos forçados a conviver com o precipício das verdades não-ditas na época certa.

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Livro: “A vida e as aventuras de Nicholas Nickleby”, de Charles Dickens

Escrevi uma resenha para o Amálgama sobre “A vida e as aventuras de Nicholas Nickleby”, de Charles Dickens, um romance do início da trajetória literária do escritor inglês. Há mais de 60 anos que o mercado brasileiro não via uma nova tradução dessa obra, e foi quase como descobrir um Dickens desconhecido: mais jovem, mais arrojado, mais irônico, mais feroz, ansioso para escrever e tentar mudar o mundo.

No texto, pergunto se, em épocas como as que vivemos, nos quais um livro de 908 páginas em letra miúda é considerado chato, longo, pesado e anacrônico, ainda vale a pena ler Dickens e, olha, não só vale como é uma leitura mais atual e empolgante do que a de muita livro badalado por aí.

 

Atualidade de Dickens

No material de divulgação que acompanha “A vida e as aventuras de Nicholas Nickleby”, do escritor inglês Charles Dickens, encontra-se uma informação cronológica relevante: há mais de 60 anos que o mercado brasileiro não tinha uma nova tradução dessa obra. Em comparação com outros livros do escritor, tais como “Grandes esperanças”, “As aventuras do Sr. Pickwick”, “David Copperfield” e “Oliver Twist”, ou mesmo o onipresente “Conto de Natal”, lembrança inevitável em cada final de ano, impossível não notar que “A vida e as aventuras de Nicholas Nickleby” ocupa uma posição periférica no interesse editorial do país, o que deixa a iniciativa da editora Amarilys ainda mais meritória. Entre os muitos motivos que podem ser alegados para tal fato, estão desde a extensão do livro (908 páginas de linhas simples) até a trama difusa e com muitos conflitos simultâneos, típica de uma obra literária que nasceu como folhetim publicado em jornal, seguindo os humores e veleidades do público à medida que ia sendo publicada.

Resumido de uma maneira muito reducionista, “A vida e as aventuras de Nicholas Nickleby” conta a história de um ano na vida do rapaz cujo nome se encontra no título, sendo que começa com a morte do seu pai e a ida para Londres com o intuito de ganhar dinheiro para sustentar a sua família. No coração do Império Britânico, Nicholas conhecerá uma vasta gama de personagens (em torno de 56), todos com interesses próprios, deparando-se com a hipocrisia das relações sociais, com a selvageria que se esconde dentro dos ternos da civilização, com pequenos lapsos de bondade em meio aos pântanos da crueldade, e – podemos dizer que esse é o mote principal do romance – terá que se transformar em um adulto não por uma questão natural, mas para sobreviver. A obra mostra a fase em que o rapaz se transformou em um homem, e o quanto isso foi afetado pela sociedade que o cercava, deixando o seu coração ingênuo não insensível, mas mais resistente.

O próprio resumo não revela uma história de demasiadas complexidades, e é possível que alguns leitores tenham suspirado pensando que é um livro igual a outros já lidos, com a diferença de que “A vida e as aventuras de Nicholas Nickleby” é grande, pesado e paquidérmico, um anacronismo para os tempos em que vivemos. Pensando por esse ângulo, poderíamos perguntar: em pleno século XXI, que se notabiliza por um mercado amante de textos rápidos e diretos, que existe toda uma disposição de agradar ao leitor ou leitora fazendo com que a sua atenção não se disperse com a multiplicidade de tramas ou de personagens, que um livro pode ser tachado de difícil simplesmente por usar um pouco mais de vocábulos do que a média, ainda existe espaço para apreciarmos Charles Dickens? Podemos ampliar a pergunta e incluir Leon Tolstói, Marcel Proust, Honoré de Balzac ou outros escritores de escrita mais vagarosa, com uma construção de trama mais intrincada e que abusavam de descrições e de diálogos – eles ainda são capazes de nos cativar, ou a nossa mente foi devorada por um mundo repleto de distrações em alta velocidade, que insistem em nos tirar de dentro do livro para outras tarefas consideradas mais “divertidas”?

A única maneira de saber é testando, e ler esse livro de Dickens, originalmente escrito em 1838 e recebido agora pelo público brasileiro quase como um original redescoberto no fundo de uma gaveta, foi uma experiência mais prazerosa do que imaginei. Em primeiro lugar, por que Charles Dickens é engraçado. Existe uma constante graça na forma com que ele se dirige ao leitor, em um misto de enfado e de espirituosidade, tanto que Woody Allen sempre afirmou que aprendeu a escrever diálogos com Dickens e com Dostoiévski. Isso é algo que se perde um pouco em uma leitura apressada ou em uma tradução malfeita (o que não é o caso). Ultrapassada a estranheza inicial de um texto cujas ideias se esticam um pouco além da planura de pensamentos a que a literatura contemporânea nos condenou, quando mergulhamos nos meandros da narrativa e na beleza das imagens evocadas por palavras, percebe-se uma vistosa ironia que subjaz ao narrado e que realiza com ele uma relação de espelhamento. O autor parece estar falando sério, toda a sua disposição é no sentido de uma narrativa circunspecta, mas a forma com que ele dispõe as palavras faz com que a ironia surja, invencível, e o leitor sorri sem saber o motivo. Não foram poucas as ocasiões em que me surpreendi rindo, seja pelo grotesco da situação contida em breves traços, seja por uma reflexão ferina colocada em meio a uma descrição que se pretendia isenta, e é singular que um texto de 180 anos de idade seja mais engraçado do que muitos arremedos de comédias atuais. Isso só demonstra que, para fazer humor, o mais importante é ter cultura geral, algo que faz falta em tempos de imediatismo e de memes preguiçosos.

Em segundo lugar, Charles Dickens é um escritor que se posiciona em relação ao que imagina estar errado na sociedade, e não estou dizendo que “A vida e as aventuras de Nicholas Nickleby” é panfletário. Existe uma confusão frequente nos tempos atuais, em que mesmo metáforas ou outras figuras de linguagem são interpretadas de maneira rasa, no sentido de que todo escritor precisa colocar uma reflexão pessoal na sua obra, ou seja, deve exibir uma posição de forma clara. A riqueza da literatura é justamente a sua capacidade de permitir ao leitor escolher ou ponderar sobre condutas e/ou pensamentos dos personagens, ao invés de ler um texto em que o autor tenta “doutriná-lo” de forma grosseira. Dickens executa essa tarefa de forma magistral: mesmo abusando da ironia, ele não mostra os personagens de forma binária (herói e vilão, mocinho e mocinha), mas como um prisma repleto de nuances. Não só se entende a situação da maneira mais ampla possível como inclusive podemos formar um convencimento a respeito dos motivos de cada personagem. Quando o tio de Nicholas aceita o sobrinho como funcionário da sua empresa que “providenciava empréstimos para pessoas necessitadas” – as descrições de Dickens nos permitem ver Ralph Nickleby como um homem que se aproveitava das fraquezas financeiras alheias para auferir lucros por meio de juros abusivos, sem com isso estar agindo contra a lei, apesar de todo seu comportamento ser típico de um agiota -, podemos entender o motivo pelo qual o tio, sentindo culpa por ter se afastado do irmão, recebe o familiar na sua empresa. No entanto, podemos igualmente entender como, tão logo esse fato acontece, Ralph Nickleby tem medo do sobrinho tomar os seus clientes, passando a sabotá-lo com o intuito de lhe afastar e, assim, ficar com a consciência limpa de que “tentou ajudar”. Não existe nada de inesperado nesse fato, e nada mais humano do que fazer de conta que está ajudando alguém para aplacar a própria consciência culpada.

Em terceiro lugar, a leitura de “A vida e as aventuras de Nicholas Nickleby” é revigorante pela atualidade dos assuntos tratados por Dickens. Imaginem um mundo em que os trabalhadores estão tendo a sua mão de obra substituída por máquinas, em que escolas viraram fábricas de arrecadar dinheiro despreocupadas com a educação transmitida aos alunos, em que políticos e empresários do mercado financeiro convencem o povo a financiar causas inúteis para se locupletar indevidamente, e fica difícil imaginar que isso acontecia na Inglaterra do século XIX e não no Brasil do século XXI. No prefácio, Dickens reforça a sua intenção de capturar um retrato da sociedade em que vivia, e disse que entrevistou diretores de escola, agiotas e outros profissionais para construir os personagens descritos no romance com a maior fidedignidade possível. Menciona o seu contentamento por ver vários diretores de escola irritados ao se imaginarem descritos como o Sr. Squeers, um dos personagens mais abjetos que criou, e revela que a sua intenção maior era forçar uma mudança do sistema educacional do país por meio de um livro que funcionasse também como constatação e denúncia. Nesse sentido, Dickens falhou: “A vida e as aventuras de Nicholas Nickleby” vai além de um objetivo imediato, pois é uma obra literária que atravessou os anos mantendo frescor quase juvenil. Realmente serviu para mudar o sistema educacional da Inglaterra ainda durante o período de vida de Dickens, mas também pode ser aplicada para muitas situações atuais, desvendando os mecanismos que regem as relações humanas. Assim, a descrição que o escritor inglês fez do surgimento de um projeto de lei inócuo (a criação da “Companhia Panificadora Metropolitana Unida de Melhoria dos Pãezinhos e Muffins Quentes e de Entregas Pontuais”, que, como o próprio nome indica, parece ser uma brincadeira, mas é levada a sério) por políticos inescrupulosos que pensavam mais em seus ganhos é praticamente uma aula de como funciona o populismo.

Em todos os sentidos, a leitura de “A vida e as aventuras de Nicholas Nickleby” demonstra que a força literária de Charles Dickens se mantém, mesmo depois de 180 anos do seu lançamento. Para os leitores dispostos a se aventurarem por uma obra muito bem escrita – e quase desconhecida no Brasil –, escrita por um expoente da literatura ocidental, existe a possibilidade de ler um texto que encanta pelo seu misto de fluidez e beleza. Para os leitores dispostos a conhecerem mais da natureza humana e a escaparem de reflexões superficiais, eis um livro sedutor pela forma com que concede um sopro de vida para personagens e que conduz a novos pensamentos. Quem está disposto a se divertir com um interlocutor inteligente e provocador como Charles Dickens, pode considerar esse livro como a oportunidade de experimentar aquilo que a literatura tem de melhor: a suspensão da realidade por alguns momentos e o mergulho em um universo repleto de elegância e perversidade, de medos e glórias, de risadas e lágrimas. A única certeza garantida ao leitor é que, ao final do livro, ele entenderá aquilo que Chesterton afirmou sobre Dickens: ele era um homem grande não por deixar os leitores pequenos, mas por transformá-los em pessoas maiores.

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Arquivado em Amálgama, Artigo, Charles Dickens, Produção Literária

O Mal que mora no meio das boas intenções

Uma das grandes ingenuidades atuais é imaginar que, se alguém denuncia e descreve a existência do Mal, irá evitar que ele ocorra no futuro.

O uso errado da denúncia como força catártica e explosiva – apesar do alívio momentâneo – realiza justamente o contrário: acaba propagando o Mal. Dando ideias para outras pessoas que, se não fosse a denúncia realizada de maneira impensada, jamais teriam chegado sozinhas a tais conclusões. Como uma avalanche, a boa intenção perde a sua intenção inicial e acaba se transformando em inspiração descontrolada para novas maldades.  O Mal fomentando um Mal muito maior.

Não digo que não seja importante denunciar. Sim, precisamos saber o que acontece no mundo, precisamos compartilhar nossos receios e medos. No entanto, existe uma forma de fazer isso, e ela passa longe da ironia ferina, dos palavrões, das frases impensadas que acabam ensinando o caminho do Mal para aquele que nunca tinha pensado naquilo antes. Todos brincam com a frase de Hemingway, “write drunk, edit sober“, mas nunca imaginaram que ela pode ser uma metáfora para “viva loucamente, reflita com calma”. Mais adequado o ensinamento expresso por Horacio Quiroga na nona norma do “Decálogo do perfeito contista”: “não escreva sob o império da emoção. Deixe-a morrer, e então a evoque. Se és capaz então de revivê-la como foi, atingiste na arte a metade do caminho”. O que mais existe hoje são pessoas que escrevem com a emoção à flor da pele, sem desconfiar de que correm dois riscos: ou fazer algo ridiculamente piegas ou, de forma inadvertida, glorificar o Mal e passá-lo adiante.

Muitos anos atrás, fui contratado para defender um rapaz que cometeu um crime bobo: recém-saído dos 18 anos, com a intenção de impressionar uma moça com quem estava saindo, decidiu pegar a bolsa de uma mulher que estava fechando a garagem da sua casa. Até hoje interrogo-me o que o levou a cometer tamanha insanidade, pois era um rapaz humilde, com pais afetuosos (ele era arrimo de família), e tinha pela frente um futuro, senão glorioso, muito digno.

O roubo deu errado, como era de se esperar. Ele arrancou a bolsa das mãos da proprietária, dobrou a esquina e teve o azar de encontrar um policial à paisana que, ao ouvir os gritos da mulher assaltada, sacou a arma e desferiu um tiro no joelho do outro. Pelo resto da vida o rapaz iria mancar.

(Não existe crime “bobo”. O crime é crime ou não é. Não existe nada correto ou romântico em assaltar alguém. O policial à paisana agiu com desproporção, mas, no calor do momento, quem pode julgá-lo? Sei que muitas pessoas podem ler esse relato e imaginar que o rapaz teve o que merecia ou xingar a fúria com que ele foi tratado pelo sistema, mas, no mundo dos fatos, as coisas simplesmente são, e ninguém pode saber como agiria até passar por isso, assim como ninguém está livre de ter a sua vida inteira determinada por um único segundo de idiotice).

O rapaz foi preso e eu acabei contratado para defendê-lo. Os pais oscilavam: o homem estava desapontado com o filho, a mulher encontrava argumentos para justificá-lo. Tudo muito clichê. Não parecia tão improvável vencer o processo, conseguindo uma pena pequena e justa para que ele nunca mais cometesse aquele equívoco, até por que já tinha sido punido com o tiro no joelho. Seria algo terapêutico e – assim esperava – um “turning point” na vida do menino. Eu o orientei a ser sincero e a dizer a verdade, esperando que, com a confissão espontânea e por ser primário, a pena fosse reduzida ao mínimo legal.

Em resumo, deu tudo errado. O rapaz seguiu minhas instruções, mas pegou pela frente uma juíza extremamente rigorosa, a qual acreditava que o menor dos crimes tinha que ser punido com rigor exemplar. Ela o condenou à máxima pena possível, e a ser cumprida no Presídio Central por, no mínimo, longos 3 anos antes de passar para outro lugar. Entrei com recurso para a segunda instância e, um ano depois, peguei um desembargador que, em um acórdão de 15 páginas, ficou 12 falando sobre a classe política do Brasil e que o país estava deteriorado moralmente por causa da criminalidade para, no final, manter a sentença abusiva. Entrei com recurso para Brasília, nem chegou a ser julgado. Entrei com todos os recursos possíveis, e perdi todos.

No meio do cumprimento da pena, o rapaz morreu. Pegou tuberculose no Presídio, foi para o hospital e teve uma infecção generalizada que nunca ficou bem explicada. A essa altura do campeonato, eu não era mais o seu advogado. Os pais tentaram contratar outros profissionais, e eles viram o óbvio: todos os recursos tinham sido tentados, mas, às vezes, simplesmente não conseguimos ganhar.

Não existe explicação lógica para isso; talvez seja azar ou uma conjunção de fatores, como na queda de um avião. Nem dá para culpar a cegueira dos juízes ou a minha inaptidão técnica, pois ninguém pode ser responsabilizado, todo mundo agiu dentro dos seus papéis. Existem vidas que não deveriam ter sido, e isso é o que mais nos assombra: algumas pessoas vem ao mundo, mas era melhor que não tivessem vindo. Eis algo que não podemos dizer em voz alta, apesar de ser um medo que nos espreita a cada vez que estamos no quarto escuro: eu devia estar aqui no mundo ou não? Estou na lista do que sobrevivem ou naquela dos que serão expurgados?

Enfim, tudo isso para contar que esse caso ainda me assombra. Tive muitos depois, muitas vitórias e derrotas, mas continuo recordando desse, talvez por um detalhe quase insignificante no contexto. Eu costumava visitar o rapaz no Presídio Central: ele estava com medo, e frequentemente pedia a minha presença lá, para saber que ainda estávamos lutando para libertá-lo. Nas primeiras visitas que fiz, o rapaz chorava, implorava por Deus e pela mãe, esticava a minha permanência lá, soluçava, fazia promessas para todos os santos possíveis e imaginários. Eu sentia muita pena; tentava acalmá-lo e passar segurança, mas via um menino magro, fraco e que a vida estava esmagando com dureza desproporcional (um lado meu, envergonhado, também agradecia por não estar nessa situação, pois reconhecia – com espanto – que não era tão difícil imaginar que eu próprio podia estar no lugar do rapaz, na posição involuntária de dejeto e pária social).

Na última visita que fiz ao rapaz, não foi mais ele quem entrou no parlatório. O jovem assustado e medroso de antes tinha virado uma criatura sombria, de olhos vazios que me evitavam, sondando o ambiente. Estava com o rosto marcado por feridas, os dedos pareciam garras e até a sua voz tinha mudado, era algo mais calculado, mais frio. Ele perguntou como estava a sua situação jurídica e eu expliquei. Ao final, o rapaz perguntou sobre a aplicação de alguns artigos jurídicos, eu respondi e ele falou “doutor, pensei muito no que aconteceu, falei com meus amigos, e agora sei onde errei. Na próxima vez, quando eu sair daqui, não vou errar de novo, sei como acertar…”. Olhei para o rapaz e implorei, “cara, não pensa ‘na próxima vez’, pensa que tu nunca mais vais fazer isso, não que vais voltar a fazer, pensa nos teus pais, eles são velhinhos” e ele sorriu – hoje sei que estava rindo da minha inocência – e disse “claro, doutor, claro”. Muito tempo em contato com o Mal puro o tinha transformado em uma criatura amarga e feita de puro ódio. Não voltamos a nos encontrar.

O Mal possui uma incrível capacidade de propagação, e age por acumulação: quanto mais Mal compartilhado, mais ele se acomoda como sedimento no espírito alheio. Viver em meio ao Mal aumenta a possibilidade de se tornar como ele.

Estar em contato com a maldade humana e não saber lidar com as suas consequências é algo perigoso. Leio muitos textos que possuem uma origem boa, decente, mas que soam mais como propaganda para fertilizar outras mentes nas quais a maldade ainda está inativa. Pois o Mal também fascina: toda pessoa que denuncia algo mal consegue esconder a sua admiração relutante pelas atitudes ou pela coragem do outro, e não existe recurso mais enganoso do que as palavras. Elas nos convencem de que estamos fazendo o certo, mas, sem querer, é o contrário.

Por isso me impressiono com a ingenuidade de quem pensa que, denunciando algo, está impedindo que aconteça. Uma denúncia mal feita, realizada sob o império da emoção, acaba virando propaganda. As pessoas pensam que escrever algo é alertar os outros, mas esquecem que existe uma pequena diferença entre admiração e nojo. Não duvido que muitos leem as denúncias mal formuladas nas redes sociais e pensam “ah, agora que sei onde tal pessoa errou, vou fazer certo”. Assim como Deus, o Mal também possui desígnios misteriosos e, às vezes, o melhor lugar para achá-lo é no meio de uma “boa” intenção.

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Um artista não pode perder a humanidade

Alguns dias atrás, assisti na Netflix ao filme “Margot e o casamento” (2007). Em geral, narrativas sobre famílias disfuncionais reunidas à contragosto por um evento naturalmente estressante (como um casamento ou um funeral), sendo obrigadas a conviver sob o mesmo teto e com uma explosão prestes a ocorrer graças à mais insignificante fagulha, não me interessam muito. Parecem muito previsíveis na sua tentativa de soarem surpreendentes. Mas assisto por causa dos diálogos e pelo aspecto da construção de personagens.

Entre os filmes com essa temática, apreciei bastante “Margot e o casamento”, em especial por que os diálogos eram abruptamente cortados no seu ponto mais tenso, impedindo de ver o que aconteceu depois de frases tão agressivas ou carinhosas. Foi um mecanismo muito apropriado para demonstrar a tensão existente entre os personagens, que, mesmo rindo e se abraçando, escondiam um inferno de intenções, desejos e fúrias por trás desses gestos. Colocarei aqui o trailer para quem se interessar:

No entanto, o que mais me perturbou no filme foi uma questão tangenciada pelo diretor. O personagem de Margot, interpretado por Nicole Kidman, é uma escritora de relativo sucesso, mas incapaz de se relacionar com as outras pessoas. Cortante, brusca e auto-destrutiva, Margot está casada com um homem que lhe ama, mas o trai com outro que visivelmente não quer nada além de sexo. O filho dela convive em meio às mais absurdas violências verbais e psicológicas, tudo por que a mulher não lhe mente ou atenua nada. No esforço de prepará-lo para a vida, Margot é aquela que mais se esforça para destruí-lo.

Não bastando, a obra literária de Margot é calcada no seu círculo pessoal e, assim, ela utiliza as situações familiares como força criativa, mesmo que ao custo de expô-las – e, no caso da irmã, terminar um relacionamento. Não se sabe o quanto ela não é um fator desestabilizador da própria família para depois poder criar uma história em cima, aproveitando-se das situações como um abutre farejando uma carcaça próxima. Em uma cena emblemática, logo após brigar com o namorado e se refugiar com Margot em um quarto de motel, a irmã vê a escritora ocupada em registrar fatos no seu diário e a impede, dizendo que aquilo é íntimo e dolorido demais para virar literatura.

Sempre me perturba um pouco a ausência de limites éticos no ato de criar uma obra artística. Recordo de uma pintura de Edvard Munch, “Morte no quarto da doente” (1896), em que o artista retrata o suspiro final da sua própria irmã, em um quarto repleto de familiares. O quanto o pintor viveu da dor da situação e o quanto ele estava artisticamente analisando a cena? Não estaria Munch, no mais recôndito da sua consciência, pensando nas cores que usaria para retratar a cena, ou na melhor perspectiva, ou no estremecer da lágrima no olho da sua mãe? Estaria ele sendo cruel, sendo realista com o seu fazer artístico, sendo um crápula ou usando uma estratégia diversiva para fugir da dor? Essas questões sempre me deixam incomodado, e prefiro pensar que existem histórias e cenas que a decência humana nos impede de contar – mas nem todos comungam dessa opinião.

“Morte no quarto da doente” (1896), Edvard Munch

A conduta de Margot e a sua relação complicada com as pessoas suscitaram-me um questionamento: pode um escritor – ou qualquer artista – ser desumano?

Parece uma pergunta ilógica, mas não é. Todas as pessoas esperam que o artista toque naquilo que nos transforma em humanos, a emoção secreta que sequer conseguimos nomear e para a qual a obra de arte serve como porta de entrada. Se sairão anjos ou demônios por essa porta, não temos como saber, mas o objetivo maior da arte é nos aproximar daquilo que temos de mais sagrado ou profano. Esperam que somente humanidade saia do artista, ou aquilo que enlevará o espírito, e, por isso, imaginam-no como alguém capaz de tocar as mais profundas cordas do ser humano. Nesse cenário, imaginar que um artista possa ser desumano soa como um contrasenso: pode alguém desprovido do mínimo senso de humanidade representar adequadamente o humano?

No filme, todas as condutas de Margot apontam não somente para o fato dela ser desprezível, mas de ser alguém pouco conectado aos anseios, medos e sonhos de outros indivíduos. O seu egoísmo é tão grande que ela não trata ninguém de forma decente, encarando todos como possíveis obstáculos a lhe separarem da felicidade. Ela é uma escritora reconhecida pelo aspecto humano da sua obra – apesar de não ter empatia nenhuma ou senso de observação que nos autorize a imaginá-la como uma artista capaz de se conectar a um público.

Não entendo como um artista pode existir sem ser humano. Se a arte é um produto humano, seja como artista ou seja na forma de uma apreensão diferenciada do mundo, tal variável não pode ser desconsiderada. Inclusive vou um pouco mais longe e digo que artista de verdade não é aquele que possui a melhor técnica ou o assunto mais adequado para abordar, mas aquele que consegue articular melhor a sua humanidade de forma a tocar na dos outros. Na minha visão, a arte só existe como forma máxima de expressão do humano, o que me deixa um pouco decepcionado com os tempos atuais, em que ela deixou esse caráter imanente e passou a ser aquilo que o autor diz que é arte, por mais conceitual e vago que seja.

Não faz muito tempo eu comentei que, antes de ser artista, qualquer pessoa deveria se afundar nos estudos sobre a natureza humana e sobre todos os assuntos possíveis do conhecimento. Nenhum assunto pode existir somente sob uma ótica, tudo é um prisma multifacetado, um mosaico de peças que não combinam. A arte não é só fazer uma obra e colocar algum conceito nela, mas uma tentativa tênue de chegar ao infinito usando um meio físico. Os grandes artistas são aqueles que mergulharam tão fundo no seu oceano interior que conseguiram fazer-nos ver o nosso reflexo nele.

Quando penso em artista completo, tanto pelos defeitos quanto pelas virtudes, o único nome que me ocorre é o de Leon Tolstói. O escritor russo foi cheio de falhas e de posicionamentos morais controvertidos, mas, em relação à sua arte, ele tentou ir além de si mesmo. Sempre tentou abandonar o que era e revelar o espelho cujo reflexo fazemos de conta que não existe. Sua versatilidade temática é impressionante. Querem conhecer as paisagens russas e os dramas dos camponeses? Leiam os contos de Tolstói. Querem discutir a instabilidade dos relacionamentos humanos e as hipocrisias sociais? Leiam “Ana Karênina”. Querem saber como é morrer, as pequenas misérias que norteiam as nossas existências e a fragilidade da vida? Leiam “A morte de Ivan Ilitch”. Querem saber como um mundo inteiro pode existir dentro do nosso mundo? Leiam “Guerra e Paz”. Para Tolstói, a arte sempre foi tudo ou nada, e ele se desnudava por completo dentro da obra. Os leitores reconhecem o seu esforço, tanto que continuo vendo a habilidade com que ele construiu as suas tramas até hoje, em um domínio técnico invejável, sem esquecer a piedade com que encarava o seu semelhante.

Leon Tolstói

E aqui chego naquilo que, para mim, diferencia um artista medíocre de alguém inesquecível: a piedade. Os artistas completos cujos nomes lembro – Auguste Rodin, Camille Claudel, Fernando Pessoa, Leon Tolstói, Jane Austen, Fiódor Dostoiévski, Dickens, Diego Velázquez, Joseph William Turner, Artemisia Gentileschi, Mozart, Beethoven, Tchaikovsky – foram pessoas que usaram a sua arte não com o propósito de fazer sucesso ou conseguir sustento material, mas para tocar o humano nas pessoas que sequer conheciam. Para fazer isso, eles não só entenderam o passado e o futuro dos indivíduos, como viram as suas pequenezes e foram capazes de perdoá-los, pois nós não sabemos muito bem o que estamos fazendo e precisamos que alguém nos segure a mão e diga que tudo vai acabar bem no final da nossa história.

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Sempre esperamos uma mensagem de amor

Ontem assisti a uma montagem de “Yerma”, peça teatral escrita por Federico Garcia Lorca em 1936, e que revela uma incrível atualidade com questões que ainda afligem a Humanidade, como casais que não conseguem ter filhos, a pressão da família para que as mulheres engravidem, as fofocas constituintes de qualquer grupo social, os abortos e a liberdade feminina de dispor sobre o próprio corpo.

Sempre que vou assistir a uma adaptação de alguma obra literária, passo os dias anteriores e posteriores fazendo uma breve imersão no escritor e, assim, acabo redescobrindo algumas preciosidades que julgava esquecidas, bem como anotações de cenas e ideias de histórias futuras. É o Gustavo do passado deixando lembretes e migalhas para aquele que ainda virá.

Lendo a “Obra poética completa de Federico Garcia Lorca”, achei um papel com essa anotação: “Na fila do supermercado, uma moça contava para a outra a angústia que era esperar a mensagem do WhatsApp do rapaz que gostava”.

O poema foi escrito muito antes da criação destas inovações tecnológicas que, no fundo, não servem para esconder a grande verdade: sempre estamos esperando uma mensagem de amor, não interessa a forma ou o mecanismo, mas sempre esperamos.

Eis o poema que tal cena me recordou:

El poeta pide a su amor que le escriba

Amor de mis entrañas, viva muerte,
en vano espero tu palabra escrita
y pienso, con la flor que se marchita,
que si vivo sin mí quiero perderte.

El aire es inmortal. La piedra inerte
ni conoce la sombra ni la evita.
Corazón interior no necesita
la miel helada que la luna vierte.

Pero yo te sufrí. Rasgué mis venas,
tigre y paloma, sobre tu cintura
en duelo de mordiscos y azucenas.

Llena pues de palabras mi locura
o déjame vivir en mi serena
noche del alma para siempre oscura.

Mulher de vestido azul lendo carta – Johannes Vermeer

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Sobre as pessoas que são ilhas

Juro que não pretendia falar sobre a palestra do escritor cubano Leonardo Padura ontem no Fronteiras do Pensamento 2017.  Comentar a fala alheia me soa meio redundante, para não dizer chato. Além disso, existem reflexões que são melhores de manter para nós mesmos – às vezes, tenho a sensação de que escrever algo mais estraga do que ajuda.

No entanto, quando alguns amigos escutaram a minha opinião sobre a fala do escritor (assim como a analogia que vi traçada dentro das suas palavras, se voluntária ou não é outra questão), pediram para que eu escrevesse. Meu pai, que não é homem de pedir textos, escutou o meu resumo da conferência e disse “tu devia escrever isso, é muito importante”. Não é sempre que escuto isso dele e, assim, só me resta obedecer.

Espero também que a organização do Fronteiras do Pensamento não queira me matar, pois Padura ainda dará a mesma conferência em São Paulo nessa semana e estou dando spoilers. Se os 200 e tantos leitores desse blog ouvirem falar que ninjas ou que a SWAT me raptaram, saibam que foi por uma causa nobre.

Uma retrospectiva. Dois anos atrás, eu palestrei para a SPPA – Sociedade Psicanalítica de Porto Alegre  (outro agrupamento de pessoas que é espantoso que ainda não tenha me caçado como se faz com um tigre fugido do circo) sobre “O homem que amava cachorros”, de Leonardo Padura. Isso foi inclusive registrado em vídeo, e está aqui o link (perdoem minha verve, esqueci que estava sendo filmado e me entusiasmei um pouco, tanto que derrubei a água mineral sobre a mesa):

No momento das perguntas, alguém indagou por qual motivo Leonardo Padura não saía de Cuba. Por que não fugia, aproveitando-se de alguma viagem, e tentava se estabelecer em outro país, onde poderia começar vida nova, pois teria a sua carreira de escritor consolidada.

Se bem recordo, não fui capaz de responder essa questão de forma satisfatória, mas ela ficou ribombando na memória. Existem as opiniões mais diferentes sobre Cuba: alguns acham a ilha linda e um modelo de justiça social, outros a consideram um antro comunista. Não tenho opinião formada sobre o assunto, e ele não me interessa muito – não acho correto julgar sem ver e sem saber todas as nuances e, para mim, algo pode ser simultaneamente bom e mau. Foi estranho constatar que a posição de Padura de continuar morando em Cuba era vista tanto como uma declaração de que o regime comunista era ótimo quanto como uma demonstração de fraqueza do escritor, incapaz de escapar das “garras totalitárias”.

Ontem ele respondeu a dúvida, mas o fez de maneira tão discreta que periga ter passado em branco: para Padura, a literatura não é uma nação, mas a literatura é o escritor. A nação está dentro dele e, por extensão, dentro de cada pessoa.

É uma subversão do que estamos acostumados a imaginar: para Padura, a literatura não é o espelho da pátria (um abraço para Machado de Assis e para Joaquim Nabuco), mas uma experiência individual, assim como o próprio país. Cuba não é um espaço geográfico claramente delimitado, mas um universo interno ao escritor, repleto de personagens, situações, cores, cheiros, passado, presente e memória. Não é a Cuba real que ele aborda, mas o simulacro quase exato que existe somente dentro de si mesmo. Assim, para Padura, Cuba nunca sairá do seu interior, e o autor é incapaz de escapar do país real que corresponde à literatura que lhe habita – não pode abandonar o espaço físico onde cresceu e viveu, pois ele retroalimenta a literatura que forma a sua essência, a sua nação interna.

Estamos tão acostumados a ver a nação como um conjunto de indivíduos em prol de um objetivo comum e unidos pelo mesmo território que nunca paramos para pensar que ela existe somente no nosso interior, na visão que temos sobre a realidade circundante. Para escritores isso é mais evidente: não é o país real que eles abordam nas obras, mas a sua visão de país e de identidade nacional, algo que já passou por um filtro interno. Isso explicaria o motivo de algumas pessoas só verem o lado ruim dos países e outros só enxergarem benesses – a nação que os habita é uma diferente da do outro.

Para estabelecer essa analogia, a fala de Leonardo Padura foi sobre ILHAS, e tinha por título o verso de um poeta cujo nome me escapou: “A maldita circunstância da água por todos os lados”. A palestra tratou sobre as vicissitudes e estranhezas de morar em um país cercado por fronteiras líquidas. Abordou ainda as múltiplas maneiras através das quais os cubanos se relacionavam com as fronteiras que lhe prendiam em um lugar distante de outras terras, e as formas encontradas para rompê-las.

À medida que a fala transcorria, percebi que Padura não estava mais falando de Cuba como nação, mas de indivíduos como ilhas à solta no mundo. Não seria cada pessoa uma ilha, uma nação fechada em si, e as suas relações com o ambiente ao redor e com outras pessoas não constituiriam tentativas de escapar da solidão interna das nossas ilhas?

Nesse sentido, “a maldita circunstância de estar cercado de água por todos os lados” tem a ver com a solidão, o sentimento inexorável que cada ser humano sente por estar preso dentro da sua pele, dentro da sua individualidade. Seríamos ilhas desgarradas pelo mar do mundo, tentando nos relacionar e entender outros seres, o que explicaria o fato de algumas pessoas pensarem tão diferentes entre si – e nos permitiria compreendê-las não como formadas por opiniões, mas como ilhas com códices e vivências próprias.

Para um escritor – e aqui a reflexão é minha -, essa realidade é ainda mais desgastante. Se os outros são ilhas inconscientes tentando se ajustar por meio de acordos e tratados, nós somos territórios instáveis que preservam muito a sua independência. Devemos obediência irrestrita à nossa nação interna, e ela é caprichosa e possessiva (segundo Stendhal na sua biografia sobre Napoleão, o pequeno corso não era um homem, mas a representação do desejo da sua nação, por mais enlouquecedor que isso pareça – ser a voz de uma coletividade inteira). Estamos mapeando os limites e abismos da ilha que nos constitui, estabelecendo toda a mitologia que nos forma, e essa tarefa afasta os demais que – como já me disseram inúmeras vezes – não nos entendem. Falamos muito, mas dizemos pouco.

Quando mencionou o “Malecón”, o muro de 60 centímetros que separa Havana do mar, o escritor falou da relação dos “havaneros” com o muro: enquanto parte deles sentava e olhava para o interior da cidade, outros preferiam contemplar o oceano. Da mesma forma, alguns aproveitavam para conversar sentados no muro, enquanto outros passeavam e ainda outros praticavam o “dolce far niente”. Em alguns momentos, as imagens poéticas usadas evocavam o muro como um espaço físico que dividia as pessoas entre aquelas que preferiam contemplar a si mesmas e as outras que sonhavam com as realidades além do mar.

Ao abordar as maneiras encontradas pelos cubanos de saírem da ilha, que iam desde a fuga pura e simples até o pedido de asilo em outros países, Padura tratou da necessidade de pedir licença para morar em outro país e do esforço de compreendê-lo, das autorizações que precisamos solicitar para entrar em outros lugares. Retomando a analogia, o mesmo acontece com qualquer relacionamento: somos ilhas tentando traçar canais de comunicação e pedindo permissões para ingressar nos territórios alheios, conseguindo não a paz absoluta ou a dominação plena, mas uma relação de trocas e desvantagens mútuas.

A nossa angústia é nunca saber se a solidão será integralmente preenchida pela ilha do outro, se a ilha alheia não é mais compatível do que aquela que julgávamos ser perfeita. Chamou minha atenção o seu silêncio sobre a mais evidente das formas de sair de Cuba: a morte.

Foi com certa exasperação que o escritor disse que não podia sair da ilha, pois a sua essência estava ligada à Cuba que lhe habita. Ninguém pode sair de si mesmo. A ilha física é um detalhe que às vezes coincide ou não com a sua visão literária da Cuba, aquela que ele habita e da qual saem todas as suas histórias. Recordei o poema de Hilda Hilst: “Para onde vão os trens, meu pai? Para Mahal, Tamí, para Camirí, espaços no mapa, e depois o pai ria: também para lugar algum meu filho, tu podes ir e ainda que se mova o trem, tu não te moves de ti.” Mesmo que estejamos distantes de onde nascemos ou acompanhados por outras pessoas, a triste realidade é que nunca conseguimos sair da solidão da nossa ilha interna. Foi o que ficou de mais fundo das palavras de Leonardo Padura: é irrerlevante se ele mora ou não em Cuba, ou a sua opinião sobre política. O que realmente importa é que as pessoas estão sempre sozinhas e insatisfeitas, e encontrar felicidades para povoar a nossa ilha interna deveria ser o único objetivo válido de vida.

Um último comentário: foi tão bonito o que Padura falou sobre Cuba, bem como as suas citações de Alejo Carpentier, que fiquei muito tentado a conhecer o lugar. Eis a força maior da literatura – sedução.

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