Arquivo do mês: setembro 2015

As estranhas pessoas que ainda são capazes de se maravilhar

Às vezes, eu me pergunto se não existem mais maravilhas no mundo que nos cerca ou se as maravilhas continuam existindo, mas nossos olhos são incapazes de apreendê-las.

Percebo um grande cinismo a se disseminar pela Humanidade, associado à arrogância: imaginamos que sabemos tudo e que nada mais pode nos surpreender. Achamos que o mundo inteiro foi devassado e explicado. Pensamos que somos o centro da realidade, em um antropocentrismo mais virulento do que aquele imaginado pelos nossos antepassados (de quem hoje debochamos).

É evidente que estamos errados.

De tão domesticado pela realidade, o olhar acabou se esquecendo do encantamento. Aquela sensação de descobrir que o mundo, apesar de tudo, é um lugar grande e cheio de instabilidades. Que a realidade é um constructo arbitrário, um fogo-fátuo. Boa parte dos nossos problemas nasce do fato de que desaprendemos a nos encantar. Existem maravilhas em todos os lugares e, se formos menos cínicos e tentarmos ver a vida da mesma forma que uma tábula rasa encara o pincel que lhe dará significado, saberemos muito a nosso respeito. Aprenderemos mais do que ficar lendo as opiniões e pensamentos alheios – voltar-se para si mesmo é um aprendizado bem mais interessante.

Percebi isto em uma cena de dois minutos do filme “Mr. Turner” (2014).  Nela, o pintor William Turner sobe as escadas de um palácio e, de repente, ingressa no meio da Exposição de Verão da Academia Real de Arte de 1832. Eis a cena:

Um pouco de contextualização histórica vem a calhar. No passado, os artistas organizavam-se através de academias, que ditavam os termos da arte do período. Apesar de muitos afirmarem que estas academias sufocavam tendências artísticas, impedindo os seus autores de exibirem artes fora dos seus critérios estéticos, também penso que existiam membros da Academia capazes de transcender o medo do novo e aceitar expressões artísticas diferentes do consagrado. Agindo assim, eles ajudavam a proteger a tradição, mas sem aderir a modismos. A arte nasce e se desenvolve em um contexto social; o sol pode ser tapado por alguns momentos, mas não para sempre, senão a arte seria algo estanque e imutável.

Nesta cena do filme, Turner entra naquilo que seria a Exposição de Verão da Academia Real de Arte, um evento que acontecia uma vez a cada estação e onde novos e antigos artistas exibiam os melhores trabalhos. Obras de arte estão espalhadas por todas as paredes, indo do chão ao teto, em uma overdose de sensações. Os artistas se encontram, conversam, trocam gracejos e se ajudam mutuamente, além de um analisar a produção do outro. Claro que também existem correntes artísticas diferentes colidindo no interior da mesma sala – e muita vaidade -, mas a arte ainda prepondera. Inclusive a sequência desta cena descreve um famoso incidente envolvendo Turner e Constable, em que Turner “depreda” a própria tela e, diante dos olhos de todos, a retifica, fazendo com que Constable se sentisse humilhado.

Vale a pena ver como a cena foi construída detalhe a detalhe, desde o fato do diretor possuir o catálogo real da Exposição de Verão da Academia passando pelo objetivo de juntar as quase 200 obras em uma tomada. Uma das minhas maiores reclamações sobre o cinema atual é que ele deixa pouco espaço para a imaginação do espectador, por causa da onipresença de efeitos especiais. Contudo, no caso do filme, a imaginação é levada ao seu paroxismo quando descobrimos que existiam 04 ou 05 salas tomadas por obras (a cena só mostra UMA sala e a antessala) e que a omissão é ainda mais rica do que aquilo que conseguimos enxergar (existem autores cujas obras não temos a mínima ideia do que representavam, uma espécie de “one hit wonder” da pintura. Fizeram um quadro, participaram de uma exposição e desapareceram, tanto o artista quanto a obra. Com quantos artistas isto aconteceu, nunca saberemos ao certo, mas podemos imaginar as obras brilhantes que espocaram uma vez no firmamento e, depois, sumiram para sempre).

Em outra postagem no blog, escrevi sobre “gabinetes de curiosidades” ou “quartos de maravilhas” ( http://wp.me/p24M2p-A5 ), e é o que vemos nesta parte do filme “Mr. Turner”. A ideia da acumulação artística me atrai. Nos tempos atuais, os museus se preocupam com o excesso visual, e as obras de arte se espalham por paredes amorfas, como se o olhar de apreensão estética não pudesse nunca ser distraído de um objeto singular.

No entanto, assim como Umberto Eco disse em “A Vertigem das Listas”, existe uma espécie de apreensão estética que só se dá pelo acúmulo, pelo exagero, pela overdose. Os olhos detectam as múltiplas imagens e tentam chegar a um fio condutor, pois faz parte da nossa natureza de seres conscientes a tentativa de encontrar lógica em um caos, seja jogando varetas, seja procurando desenhos entre as estrelas, seja analisando uma multiplicidade de quadros.

A pós-modernidade – e sua ditadura do medíocre e do medo – acabou nos tirando a ideia de que existem centenas de milhares de artistas produzindo simultaneamente, e que partilhar da mesma sala não é algo feio, mas uma forma de louvar uma outra abordagem estética, formada pelo confronto, pela luta de diferentes concepções no mesmo espaço físico.

No próprio filme, perguntam para William Turner o que ele está achando da Exposição de Verão daquele ano, e a sua resposta é uma palavra só: “CORNUCÓPIA”. Não consegui controlar as gargalhadas, eis que, com esta resposta mal educada, Turner considera todos os quadros como cópias insatisfatórias do seu estilo e, ao mesmo tempo, minimiza as obras alheias e elege a sua como a única original. Uma palavra cheia de despeito, mas – apesar dos múltiplos significados – direta ao ponto.

Entre vários “gabinetes de curiosidades” na História da Arte, gosto do pintado por Johan Georg Hainz, que passa a impressão de que as pessoas podem ser esmagadas pela arte:

Johann Georg Hainz - Gabinete de curiosidades - 1666

Johann Georg Hainz – Gabinete de curiosidades – 1666

Na sua origem, os “gabinetes de curiosidades” eram formados por colecionadores e exploradores, que adquiriam estranhezas de outras partes do mundo e juntavam em um local, com o propósito de coleção. Eles deram início aos museus de todo o mundo, que não passam de extensões da mesma ideia, um local de armazenamento de obras de arte.

O que mais estimo nesta ideia é que existiu um olhar maravilhado no início de cada “gabinete de curiosidade”. Antes de começar a juntar peças e objetos, havia um ser humano e seu desejo de se maravilhar. Pois, para se encantar com algo, não é necessário ser surpreendido, basta ter a vontade de se sentir assim. Quando alguém se abre para as impossibilidades do mundo que corre em paralelo à realidade, acaba vendo muito mais do que pode imaginar. Pode achar belo o ondular trêmulo de um lago. Pode achar singular a forma com que as formigas andam em fila (e se uma tropeçar?). Pode achar que os movimentos das “birutas” não passam de mentiras piedosas feitas pelos ventos. Pode achar que o olhar intenso de alguém vale mais do que um universo inteiro.

Não tenho medo de me maravilhar. Tudo aquilo que escrevo não passa de uma frágil tentativa de espalhar as maravilhas que vejo pelo mundo, de fazer com que os outros abram os olhos e aprendam que, por mais violenta que seja a realidade, ainda existe uma possibilidade de achar que o universo inteiro nasceu ontem, e que toda a memória humana não passa de uma doce ilusão.

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Texto novo no Literatortura (08/09/2015): “As histórias que nunca serão contadas”

Existem histórias que conto e histórias que nunca irei contar, e é assim que funciona. Não é por uma questão de proteção ou de timidez que algumas histórias jamais escreverei, mas é a sensação de que palavras não são capazes de dar conta de um sentimento. A certeza de que não sou capaz de transmitir a intensidade do sentimento me impede de sequer tentar conspurcá-lo com palavras. Mas não é algo ruim: mantenho estas histórias como pequenos tesouros, que compartilho com poucas pessoas, de forma ciumenta e possessiva.

Todos os meus textos tem fundamento em alguma experiência que passei ou que soube. Não tem nada de fantasioso neles, talvez a estrutura ou a forma com que os contei. Na minha concepção, sou o escritor mais realista que conheço: aquele que sabe que a realidade não existe e está em constante construção.

Espero que gostem.

As histórias que nunca serão contadas

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Muitas pessoas refletem sobre as histórias produzidas na literatura, mas quase ninguém trata daquelas que jamais foram escritas.

Se considerarmos que cada narrativa possui um ponto de vista e que este implica em uma escolha arbitrária do autor, podemos presumir a quantidade imensa de histórias abortadas, esquecidas e modificadas. Neste sentido, um dos melhores livros – e dos mais inquietantes – é “O Livro dos Livros Perdidos”, de Stuart Kelly, que conta a história de obras que desapareceram, nunca foram escritas ou acabaram sendo destruídas. Impossível não se arrepiar ao ler como o último exemplar das “Obras Completas” de Ésquilo foi queimado na Biblioteca de Alexandria. Ou pensar em Nikolai Gogol, que recebeu de um padre, como penitência, a ordem de destruir os manuscritos das partes II e III de “Almas Mortas”. O escritor russo queimou folha a folha. Quando acabou de matar o próprio trabalho, Gogol fez o sinal da cruz e chorou. Deixou de se alimentar. Nove dias depois, estava morto.
No melhor estilo do defendido por Sócrates no diálogo do “Fedro” de Platão, é possível considerar a escrita como uma forma de matar a memória e impedir o crescimento do livre pensamento. Escrever é fazer escolhas dolorosas entre histórias que devem ou não ser contadas, e isto depende do autor. Quando lemos um livro, jamais imaginamos as sombras e fantasmas que morreram para que ele existisse. Qualquer obra artística, assim, não passa de um cemitério de ideias mortas. Um monumento à Obra Desconhecida, aquela que nunca será lida por decisão ditatorial (e inevitável) do seu autor.
Reflito sobre este assunto por ter notado, na minha conduta, uma espécie de ética autoral. Existem histórias que escrevo e outras que não posso escrever. “Não posso” não demonstra incapacidade técnica, mas algo que reside no fundo da consciência. A certeza de que existe um limite moral e ético incapaz de ser ultrapassado. Algo completamente pessoal, que não pode ser disciplinado ou iludido. Histórias tão íntimas e que me tocam de uma forma tão significativa que, se eu colocá-las no papel, irei estragá-las. Ou – o mais perturbador – narrativas tão próximas da minha pele e tão fortes que podem me dilacerar se eu tentar passá-las adiante. É a noção inescapável de que existem situações maiores do que o homem capaz de descrevê-las.
Há histórias que escrevo e outras que nunca escreverei. Por motivos que escapam da lógica, as histórias não escritas são as melhores. São os diamantes secretos que, antes de dormir, eu retiro da caixinha e admiro em silêncio. Meus pequenos tesouros. As poucas pessoas que as escutaram – o fato de não escrevê-las não quer dizer que não possa contá-las – garantem que são ótimas. Não raro, tais ouvintes choram, dão risadas gigantescas ou ficam pensativos por um bom tempo. Existe humildade na opção de não contá-las: palavras não darão conta de todo o alcance da história (pois criar, além de ser uma questão de adotar um ponto de vista, também é se comprometer com uma visão de mundo). Existe, ainda, uma grande piedade. O sentimento quase inato de que algumas pessoas não merecem ser devassadas, ridicularizadas ou analisadas por aquilo que fazem, pois elas não merecem.
Durante minhas leituras sobre a literatura inglesa escrita por mulheres, constatei um interessante viés de crítica direcionado de forma quase exclusiva à produção feminina: as escritoras eram criticadas por colocarem demais as suas vidas no interior da obra, escrevendo “romances pessoais”. Era escandaloso que uma mulher tomasse este tipo de conduta. No caso, as autoras eram criticadas por não separarem a obra da própria vida (uma forma também de diminuir a sua qualidade literária), revelando detalhes muito íntimos para o público. Não sei se a mesma ressalva era feita em relação às obras masculinas, mas é algo que, às vezes, ainda percebo em críticas sobre obras atuais de mulheres: a necessidade de buscar um inevitável paralelo entre a ficção e a vida, em uma atitude um tanto voyeur.
A literatura nasce da observação do mundo, e exigir que uma mulher deixe de escrever sobre aquilo que lhe rodeia em benefício da “preservação dos valores” é algo muito questionável. Nenhum artista pode criar excluindo a si mesmo da obra. O que podem fazer é silenciarem sobre as experiências a serem ou não partilhadas com o público. Nos tempos atuais, em que todos precisam falar de forma abundante e ininterrupta, cultivar o silêncio torna-se uma atitude digna. Nem tudo aquilo que sentimos pode virar uma obra, e escolher é uma decisão sábia.
Ainda hoje causa uma relativa polêmica quando escritores realizam obras muito próximas da sua vida. Recordo que, quando li “O Filho Eterno”, de Cristóvão Tezza, o cerne da discussão entre meus colegas foi se o escritor não teria exposto demais a sua intimidade. O narrador falava com a voz de uma pessoa inequivocamente real. Tínhamos raiva e simpatia do autor ou do ser humano? O mesmo aconteceu ao ler “Divórcio”, de Ricardo Lísias. As conversas e debates sobre o livro centraram-se mais na vida do homem do que na qualidade estética da obra do escritor. Persistia a sensação incômoda de estarmos falando sobre livro tão íntimo. Apesar disto, em ambos os casos, esteve presente a intervenção de um criador (um demiurgo), que direcionou o olhar do leitor usando a sua figura de homem como baliza com a realidade, em uma forma de transmitir verossimilhança. Existiram cortes, acréscimos e, mais do que tudo, existiram mentiras e simulações, pois a literatura é constituída por fraturas de realidade.
Em alguns momentos, fico triste por não dividir parte das sensações e histórias que escutei ou vivenciei: o silêncio imemorial do campo em uma noite cheia de infinito e de estrelas. O mate dividido com desconhecidos no meio de estrada deserta do Uruguai. O amor puro e honesto declarado em público fazendo a plateia ver, por alucinantes segundos, através dos olhos do apaixonado. O rumor das fagulhas de sol sobre a superfície de um lago anônimo. A primeira vez que fiz uma criança séria sorrir. O vinho que tomei com um casal de mendigos na rodoviária de Cachoeira do Sul, quando a energia elétrica foi desligada. A chuva salvadora sobre o meu rosto em um dia de desespero. Uma caixa extraviada, como retornou às minhas mãos e como a deixei ir embora de novo. Estas e outras histórias não virão ao mundo, não por egoísmo, mas por eu não ser capaz de transmiti-las de forma correta. Elas pertencerão à biblioteca do meu palácio da memória, onde estão os livros não escritos que me acompanharão até a morte, e isto é algo que todos temos em comum: histórias não contadas, com seus pequenos mistérios, arestas ríspidas e delicadezas.

 

(publicado originalmente em http://literatortura.com/2015/09/as-historias-que-nunca-serao-contadas/ )

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A descoberta do eu

Brincava com o meu afilhado de nove meses este final de semana quando aconteceu um milagre. Alguém disse o seu nome na sala e ele prontamente se virou na direção de onde fora chamado.

Pode parecer quase nada, mas uma gigantesca evolução nasceu aí. É o equivalente, para um bebê, a descobrir a América ou a pisar na Lua. Um dos mais decisivos momentos da nossa vida acontece logo no início: o instante único e trepidante em que, no meio de todos os ruídos do mundo, reconhecemos um som como o nosso nome. Ali nasce o indivíduo. Ali nasce a Humanidade.

Não lembraremos nunca o segundo em que todos os sons se juntaram em torno de uma única palavra reconhecível, e muito menos saberemos por qual detalhe a palavra acabou se prendendo na nossa memória, tornando-se a maneira pela qual seremos identificados até o final da nossa vida. São memórias que acabamos perdendo. Viver é esquecer.

Eu chamo de milagre – e perdoem o meu arrepio quando penso nisto – é por que, no simples ato de conceder um nome para alguém e este bebê ver a si mesmo como alguém distinto no meio de sete bilhões de pessoas, surge a noção de ser humano. Aristóteles deve ter feito este mesmo processo. Virgínia Woolf também. Einstein. Tesla. Freud. Kafka. Eu. Você. Todos irmãos formados por uma massa indistinta de sons e apupos até o momento em que escutamos o nosso nome, percebemos que estamos ali e passamos a possuí-lo.

“Nomes têm muito poder”, já escreveu Neil Gaiman, e recordo que, nesta mesma história, ele mencionou uma das mais fortes crenças da magia – a noção de que cada pessoa possui um nome aparente, que qualquer um pode usar, e uma denominação secreta, o nome da sua alma, que não pode ser dito em nenhum momento pois, se outro ser o souber, exercerá poder completo sobre ela.

Pode parecer algo extremo, mas a noção de individualidade está fortemente ligada ao nome. Não é à toa que tantas famílias se preocupam com a sobrevivência do seu nome para as gerações futuras; é uma das questões que está na própria necessidade de possuírem filhos, pois transmitiriam o nome para outra geração.

Uma interessante questão do passado é o sobrenome da mulher após o casamento. Ela era obrigada a adotar o sobrenome do marido, perdendo o seu de solteira. Era uma maneira subreptícia de dominação feminino, pois ela passava a pertencer ao marido inclusive naquilo que tinha de mais íntimo, a forma com que se identificava. A própria construção do nome do filho (primeiro o sobrenome da mulher e, em seguida, o do pai) fazia com que o sobrenome masculino prosseguisse e o feminino virasse poeira. Atualmente, a mulher pode escolher se vai adotar ou não o sobrenome do marido. No entanto, em relação aos filhos, a construção do sobrenome feminino acrescido do masculino continua, mais por costume do que por obrigação.

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Na literatura, o nome é usado das mais variadas formas. Em “William Wilson”, de Edgar Alan Poe, o narrador partilha o mesmo nome com outro homem, o que os faz possuírem os mesmos gostos e problemas de caráter. O nome idêntico os transforma em duplos, e um deles precisa morrer para que o outro recupere a identidade. Particularmente, já gosto da forma inusitada com que o nome é construído, pois “WILLIAM WILSON”, acaso dividido em sílabas, pode ser “WILL I AM WIL SON”, o que dá uma interpretação quase edipiana para o conto.

Recentemente reli “O vasto mar de sargaços”, de Jean Rhys, onde a personagem principal troca o nome Antoinette – que possuía na Martinica – para Bertha quando chega na Inglaterra. No caso, o fator essencial para esta mudança foi o desejo do seu marido, Rochester, de viver com uma mulher de nome mais civilizado. Podemos ler como uma tentativa europeia de aculturar um habitante das Américas – o que atrairia as teorias pós-colonialistas -, mas também existe a vontade de possuir não só o corpo da mulher como também a sua alma. A troca do nome pode parecer algo pequeno no contexto da trama, mas não é coincidência que a personagem se sente enlouquecer depois de tal fato. Mais importante é a mensagem de força de Rochester que esta simples decisão autoral nos transmite: um homem que força a mulher a trocar de nome é capaz de tudo – inclusive de prendê-la na sua casa.

Também existe o nome verdadeiro que ocultamos com um falso para poder realizar atos de vingança, como se o nome novo nos permitisse qualquer coisa. Possuir outra denominação é construir uma identidade renovada. No caso, recordo de “O conde de Monte Cristo”, de Alexandre Dumas, em que Edmond Dantès assume diversos nomes falsos (lembro de Lorde Wilmore e de Simbad o Marujo) antes de se firmar como Conde de Monte Cristo.

Também lembro da uma incrível troca de nome e de personalidade em “O Dilúvio”, de Henryk Sienkwiecz, em que Babinicz era vilão e troca de nome para Kmicic, virando herói do exército polonês. Fazer a mesma personagem passar de vilão para mocinho sem perder a credibilidade é algo realmente formidável em termos de construção narrativa (P.S.: estou com a minha biblioteca em mudança, e faço citações de cabeça, pode ser que a ordem dos nomes esteja errada).

A literatura utiliza os nomes de muitas formas para criar tramas. Não costumamos muito pensar no nosso nome e no quão importante é defendê-lo. Ele simplesmente existe. Talvez por isto o simples gesto do meu afilhado de reconhecer o próprio nome tenha me deixado tão impressionado. Agora, ele sabe quem é. Sabe que é um ser de direitos e obrigações, alguém identificável e identificado, e que o seu nome poderá estar no rol de benfeitores, na lista de culpados ou até em nenhum lugar muito expressivo, pois tudo está ao alcance de qualquer criança, não existem limites para ela.

Provavelmente ele nunca desconfiará, mas saber o próprio nome representou o momento em que a sua imagem no espelho revelou como deseja ser chamada. Em silêncio, sem nenhum alarde ou confusão, o eu nasceu e iniciou a sua jornada pelo mundo. Tendo o nome como uma base sólida, a primeira e última fortaleza do indivíduo, é hora de construir o resto da personalidade. Não é à toa que a maior de todas as magias é o ser humano, a única criatura que, em constante e indeciso crescimento, precisa formar e defender o próprio nome cada vez que respira.

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Sobre Borges, que não queria ser borgeano

No dia 24 de agosto de 1899, Jorge Luis Borges veio ao mundo e nada mais foi da mesma forma.

Boa parte dos escritores se dizem seguidores ou admiradores dos contos de Borges, e a ideia de seguir a voz autoral de uma sombra é algo que não deixa de ser “borgeano” (em uma recente conversa entre escritores, brincamos que o cara só sabe que fez algo certo na vida quando vira um adjetivo, o qual será depois sumariamente cortado na revisão). Dá para imaginar os escritores querendo virar Pierre Menard e escrever as histórias que não lhes pertencem, batendo cabeças em janelas entreabertas, vivendo com a mãe até idade avançada, lutando contra o peronismo, esperando uma cegueira que nunca chega, tudo para recriar algo impossível, este conjunto de impossibilidades unido em torno de átomos e bactérias e sonhos a que convencionamos chamar de ser humano.

Escritores também são uma colcha de retalhos feita pelo seu tempo, pela sua experiência de vida, pela sociedade que lhes cercava, pelos seus medos e dúvidas, o que implica em afirmar que jamais existirá outro Borges, não nas condições em que ele existiu e floresceu. Contudo, parcela significativa dos autores que se identificam como influenciados não tem nada de Borges dentro dos seus estilos. Acham que sim, mas somente eles conseguem ver esta influência, e novamente dá para invocar o adjetivo “borgeano” para escritores que veem os fantasmas dos autores mortos a infestarem os seus textos como se fossem uma praga de ratos.

Borges, Silvina Ocampo e Bioy Casares, um “power trio” da Literatura

Eu podia lembrar Borges e falar dos labirintos, do punhal, das manchas do tigre, do tempo, do esquecimento. Mas recordo de uma entrevista assistida no canal Curta, em que Borges disse que, na verdade, só escreveu um único livro na sua vida, o primeiro, e o restante da sua obra foram desmembramentos dos temas constantes nesta obra. Em seguida, acrescentou, não com certa tristeza, que o escritor se prende a um único livro em toda a sua vida.

O primeiro livro de Jorge Luis Borges foi uma obra de poesia, “Fervor de Buenos Aires”, e, para mim, a melhor parte da obra dele está realmente nos versos dos seus poemas, em especial um dos meus favoritos, “Los justos”, presente no livro “A cifra”:

Un hombre que cultiva un jardín, como quería Voltaire.
El que agradece que en la tierra haya música.
El que descubre con placer una etimología.
Dos empleados que en un café del Sur juegan un silencioso ajedrez.
El ceramista que premedita un color y una forma.
Un tipógrafo que compone bien esta página, que tal vez no le agrada
Una mujer y un hombre que leen los tercetos finales de cierto canto.
El que acaricia a un animal dormido.
El que justifica o quiere justificar un mal que le han hecho.
El que agradece que en la tierra haya Stevenson.
El que prefiere que los otros tengan razón.
Esas personas, que se ignoran, están salvando el mundo

Meu verso favorito? “Una mujer y un hombre que leen los tercetos finales de cierto canto.” O casal está lendo a “Divina Comédia” de Dante Alighieri e a construção final de cada canto em terceto, em uma tessitura que se assemelha à construção de um labirinto feita pelo florentino. Existe algo de extremamente “borgeano” – para não dizer uma declaração implícita de amor à Literatura – em um casal se dedicar à leitura dos tercetos finais da “Divina Comédia”.

No que eles estão salvando o mundo não é possível saber, mas quem sabe da construção intrincada dos versos do clássico italiano e a sua obsessão ritmada com o número três sabe que existe um inusitado triângulo formado pelo casal e pelo livro, e isto pode mudar qualquer universo, borgeano ou não.

 

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Caminha suavemente, pois caminhas sobre meus sonhos

Há muitos anos eu procuro um livro de William Butler Yeats.

Em quase todo sebo que entro, dirijo-me de forma quase automática para os derradeiros livros e procuro este exemplar de Yeats. Não consigo encontrá-lo.

É um livro bem específico: tem capa marrom com letras douradas. Ele é antigo, ou tem uma aparência vetusta, sem estas capas chamativas que infestam as livrarias atuais. Discreto e silencioso, mas cheio de música no seu interior. Nunca chamaria a atenção de um leitor. É daqueles livros sábios, que existem sem fazer alarde e sem ser muito vendido, mas passado adiante, provavelmente em sebos ou em bibliotecas.

O exemplar que eu procuro estava na Biblioteca das Ciências Humanas da UFRGS. Eu o retirei lá, muitos anos atrás, e embrenhei-me na leitura dos poemas em inglês. Não sabia o suficiente da língua para manejar os estratagemas poéticos do escritor irlandês, e talvez por isto eu tenha mergulhado de forma ainda mais intensa nos poemas. O mesmo aconteceu quando estava aprendendo espanhol e resolvi fazer uma imersão no “Vinte poemas de amor e uma canção desesperada” do Neruda de maneira tão violenta – li cada poema mais de 50 vezes tentando entender a língua e os símbolos poéticos – que os poemas acabaram se tornando parte da minha essência. Não sei mais se eu os sonhei, se eu os escrevi ou se eu os li, estamos completamente misturados.

Não acho o livro de Yeats. O exemplar da Biblioteca da UFRGS se evadiu, e suspeito que ele fosse o último em todo o mundo. Um livro que fora feito para um único leitor, e ele acabou o perdendo. (Às vezes acho que roubei o livro, ou que o tenha queimado, pois este sumiço é muito estranho, até mesmo para mim)

William Butler Yeats

Lembro da ordem dos poemas que estão no livro. Lembro da cor da tinta das palavras. Lembro das páginas acobreadas. Lembro do ruído que o ondular das folhas fazia.

Porém, mais do que tudo, lembro do que mais gostava: Yeats era um poeta que lidava com a perda. Cada poema dele terminava com suavidade, como se o leitor desvanecesse no vazio das palavras silentes. Não era apoteótico ou irônico ou triste; era somente a perda. A noção de que tudo vem e passa e, eventualmente, acaba. Isto foi muito importante naquele momento da minha vida, e tive um excelente professor a me explicar tudo que perdi e ainda perderia. Como no caso deste poema, “Death”:

Death

Nor dread nor hope attend
A dying animal;
A man awaits his end
Dreading and hoping all;
Many times he died,
Many times rose again.
A great man in his pride
Confronting murderous men
Casts derision upon
Supersession of breath;
He knows death to the bone –
Man has created death.

Ou na tradução de Péricles Eugênio da Silva Ramos:

Morte

Medo não tem, nem esperança,
Um animal a agonizar:
Aguarda um homem o seu fim,
Tudo a temer, tudo a esperar;
Já muitas vezes morreu ele,
As muitas vezes retornando.
Em seu orgulho, um grande homem,
Homens que matam enfrentando,
Sobre a substituição da vida
Atira um menosprezo forte;
Sabe ele a morte até os ossos
– Foi o homem quem criou a morte.

Nunca esqueci a última frase: “man has created death”. É algo que surge em alguns momentos dos meus contos – a noção de que só morremos por que desistimos. A morte não precisa ser necessariamente algo físico, pode ser o final de uma ideia de mundo ou a representação de uma mudança de pensamento. Pode ser até o final de um relacionamento. Somos histórias em aberto, e cabe a cada um colocar o ponto que a encerra no seu devido lugar.

Gosto muito do início: a pessoa não tem mais medo do que vai acontecer e nem esperança de uma salvação de última hora. Está agonizando, naquele momento em que a morte ainda não aconteceu mas já é uma inevitabilidade. Neste instante final, Yeats mostra que cada homem que morre leva consigo uma parcela dos outros, uma ideia que também surge em John Donne, “A morte de cada homem diminui-me, pois eu faço parte da humanidade; eis porque nunca pergunto por quem dobram os sinos: é por mim.” Também surge em Neruda: “caminhamos sobre os cadáveres de todos que nos antecederam”.

A perda também surge em outro poema perfeito de Yeats, “When you are old”:

When you are old

When you are old and grey and full of sleep,
And nodding by the fire, take down this book,
And slowly read, and dream of the soft look
Your eyes had once, and of their shadows deep

How many loved your moments of glad grace,
And loved your beauty with love false or true,
But one man loved the pilgrim soul in you,
And loved the sorrows of your changing face;

And bending down beside the glowing bars,
Murmur, a little sadly, how Love fled
And paced upon the mountains overhead
And hid his face amid a crowd of stars.

Novamente na tradução do Péricles:

Quando fores velha

Quando já fores velha, e grisalha, e com sono,

Pega este livro: junto ao fogo, a cabecear,
Lê com calma; e com os olhos de profundas sombras
Sonha, sonha com o teu antigo e suave olhar.

Muitos amaram-te horas de alegria e graça,
Com amor sincero ou falso amaram-te a beleza;
Só um, amando-te a alma peregrina em ti,
De teu rosto a mudar amou cada tristeza.

E curvando-te junto à grade incandescente,
Murmura com amargura como o amor fugiu
E caminhou montanha acima, a subir sempre,
E o rosto em multidão de estrelas encobriu.

A perda da juventude está diretamente ligada ao amor que surgiu e desapareceu da vida da mulher. Ela teve a chance de corresponder ao amor que lhe foi direcionado, e a desperdiçou. O final, com o semblante do amor subindo a montanha e desaparecendo no meio das fugidias estrelas, passa a sensação de uma perda irreparável, amarga.

Não sei se existe uma declaração de amor mais incrível do que esta: “But one man loved the pilgrim soul in you, / And loved the sorrows of your changing face”. Amar a alma peregrina e a tristeza do rosto do outro são as verdadeiras provas pelas quais o amor atravessa, pois todas as almas são voláteis e inconstantes, e os dias de pequenas tristezas são mais frequentes do que os dias alegres. S[ó quem ama de verdade sabe o abismo de significado que Yeats descreveu em duas singelas frases.

Yeats escreveu “When you are old” para Maud Gonne. Ele era ferozmente apaixonado por ela, mas, depois de receber várias recusas, teve que vê-la se casar com outro homem. Maud acabou se divorciando – o marido tratava-a de forma abusiva, assim como a sua filha – e passou uma única e delirante noite de amor com Yeats. Ao final dela, disse que os dois não poderiam ficar juntos, arrematando com uma frase inquietante: “Poetas não devem casar nunca. O mundo deveria me agradecer por não casar contigo”. Yeats casou com outra mulher, mas as feridas deste amor por Maud Gonne nunca cicatrizaram em definitivo.

Recordo com muito carinho do “What then?”, tanto que não são poucas as ocasiões do dia a dia em que me pergunto “tá, e daí?, perguntou o fantasma de Platão”:

What then?

His chosen comrades thought at school
He must grow a famous man;
He thought the same and lived by rule,
All his twenties crammed with toil;
‘What then?’ sang Plato’s ghost, ‘what then’?

Everything he wrote was read,
After certain years he won
Sufficient money for his need,
Friends that have been friends indeed;
‘What then?’ sang Plato’s ghost, ‘what then?’

All his happier dreams came true –
A small old house, wife, daughter, son,
Ground where plum and cabbage grew,
Poets and Wits about him drew;
‘What then?’ sang Plato’s ghost, ‘what then?’

‘The work is done’, grown old he thought,
‘According to my boyish plan;
Let the fools rage, I swerved in nought,
Something to perfection brought;’
But louder sang that ghost ‘What then?’

 

Na tradução de Péricles:

E daí?
Na escola achava, cada amigo mais chegado,
que ele viria a ser um homem celebrado;
pensando o mesmo, ele viveu com esse humor,
fartando os seus vinte anos de labor;
“E daí?” “E daí?” – cantou o fantasma de Platão.

Tudo o que ele escreveu, tudo foi lido;
Depois de certos anos tinha já obtido
dinheiro suficiente para sua precisão,
e amigos que deveras foram seus amigos;
“E daí?” “E daí?” – cantou o fantasma de Platão.

Seus sonhos mais felizes realizaram-se:
uma velha casinha; esposa, filha; um filho ele houve,
e em seu quintal cresciam ameixeira e couve;
poetas e intelectuais juntavam-se-lhe à mão;
“E daí?” “E daí?” – cantou o fantasma de Platão.

“A obra está feita”, pensou ele, envelhecido,
“segundo o que em menino dei por decidido
que os tolos raivem, eu não me desviei em nada,
alguma coisa eu trouxe à perfeição”;
“E daí?” – cantou mais alto a sombra de Platão.

Em épocas que todos almejam destacar-se de alguma forma, vale a reflexão: e daí? O importante é construir uma obra, não deixar um legado, e a vida correta é a maior obra que qualquer pessoa pode desejar. O fantasma de Platão lembra a vacuidade das vitórias, a perda dos momentos (eles passarão) e o tempo inevitável que corrói a vida com o vagar de uma traça fazendo círculos concêntricos em livros.

É uma pena que não consiga mais encontrar este livro. Existe uma vontade um pouco perversa de conferir se a imaginação fecha com a realidade. Não sei mais se li realmente o livro ou se o sonhei, não garanto sequer que ele tenha existido. Pior ainda: hoje sinto que os poemas de Yeats se misturaram com os meus pensamentos e entrelaçaram-se neles como cercas vivas ao redor de um poste. Não confio mais na memória – posso estar achando que penso em Yeats e ser algo meu ou posso estar me achando extremamente original e estar copiando o poeta irlandês. Estamos confusos – eu e Yeats e o Neruda e tantos outros livros e pensamentos. O que me faz recordar outro poema dele:


Aedh wishes for the cloths of heaven

Had I the heavens’ embroidered cloths,
Enwrought with golden and silver light,
The blue and the dim and the dark cloths
Of night and light and the half light,
I would spread the cloths under your feet:
But I, being poor, have only my dreams;
I have spread my dreams under your feet;
Tread softly because you tread on my dreams.

 

De acordo com a tradução de Péricles:

Aedh deseja os tecidos dos céus

Fossem meus os tecidos bordados dos céus,
Ornamentados com luz dourada e prateada,
Os azuis e negros e pálidos tecidos
Da noite, da luz e da meia-luz,
Os estenderia sob os teus pés.
Mas eu, sendo pobre, tenho apenas os meus sonhos.
Eu estendi meus sonhos sob os teus pés
Caminha suavemente, pois caminhas sobre meus sonhos.

Um aviso final muito oportuno. Caminhe com suavidade e discrição pelo mundo, poeta, não atrapalhe os meus sonhos com os teus poemas. Por mais paradoxal que seja, a cada vez que procuro o livro perdido nos sebos, eu anseio por nunca mais encontrá-lo. Tenho sérias dúvidas se este livro algum dia existiu, assim como não tenho certeza se Yeats existiu ou mesmo se escreveu os poemas que infestam a minha memória como uma praga de gafanhotos.

Não procuro o livro para tê-lo. Procuro este exemplar em específico para saber o que de mim ainda existe dentro dos meus pensamentos – e o que pertence a outro poeta. É possível que esta seja a qualidade mais inquietante da leitura: a cada livro lido, é como se outra pessoa passasse a morar no nosso corpo e a ditar as nossas condutas. Hoje, eu sou tão Yeats quanto Gustavo, e não sei mais a sombra de quem nos persegue.

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