Arquivo do mês: janeiro 2017

Texto publicado na revista eletrônica da Dublinense (27/01/2017): “Em defesa da imperfeição”

Na minha coluna dessa semana no Medium da Dublinense, eu falei da busca eterna por perfeição – e por que saber conviver com as imperfeições é mais legal.

Aproveitei para falar de um conto de Emile Zola, que primeiro me irritou e depois me fascinou; também tratei de Leonardo da Vinci e da sua dica para os artistas que estiverem divididos entre fazer uma obra perfeita ou sustentar aos seus filhos; comentei sobre Murilo Rubião e a sua luta implacável com as palavras, tudo para terminar falando de Balzac e a sua visão de que a verdadeira perfeição não é aquela que buscamos para mostrar para os outros, mas a que precisamos ter perante nós mesmos.

Boa leitura!

 

Em defesa da imperfeição

 

Começarei admitindo o óbvio: não somos perfeitos. Ninguém é, e ainda bem. Os que acreditam ter chegado lá logo descobrem que falta um detalhe, uma aresta a ser ajustada, um ponto que não ficou bem esclarecido. A busca insana pela perfeição faz com que sejamos juízes não da proposta do outro, mas do quão adequada ela é diante dos nossos padrões de excelência.

Existem pessoas que, não bastando desejar a perfeição, também procuram encontrá-la em meio a esse vasto mundo. Dessa maneira, se esmeram em buscar a mulher ideal, o prato de comida indescritível, a experiência sublime. Agindo assim, acabam esquecendo de ver a perfeição que existe no ajuste quase milimétrico de imperfeições, em como o errado pode ser belo.

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Eu gosto das imperfeições. Prefiro alguém falho e capaz de cometer erros do que aquelas pessoas que acertam tudo. Quem comete erros tentou pisar além das suas próprias pernas; foi ousado e, por isso, ao atravessar limites, acabou se equivocando. Em compensação, as pessoas perfeitas pisam sempre fora da grama, obedecem regras e regulamentos, não possuem nada de arrojado ou de perturbador. São seres de plástico.

Nos últimos tempos, uma modalidade de crítica às obras artísticas tornou-se verificar o quão próximo ela chegou da perfeição. Os auto-intitulados críticos procuram problemas de construção, equívocos do narrador, deslizes gramaticais ou de forma, para então decretarem a imperfeição da obra. O pior é lermos textos e reportagens condenando ao limbo alguma obra por ela ser imperfeita, como se a perfeição fosse uma qualidade a ser buscada pelo artista. Ao contrário: o verdadeiro artista é aquele que rompe e redefine os critérios de perfeição. Quanto mais vejo, leio ou escuto obras de arte, mais me encantam os problemas do que as qualidades.

Claro que é necessário equacionar as virtudes técnicas com as imperfeições de tal maneira que elas encontrem a necessária harmonia, e talvez esse seja o ponto que devemos buscar. Não considero imperfeito um conto de 60 páginas ou uma pintura realizada com rabiscos ou uma música com linhas melódicas simplórias. Mas vejo problemas se as 60 páginas do conto forem repletas de clichês ou os rabiscos não representarem nada no conjunto da pintura ou as linhas melódicas simplórias atrapalharem os trechos musicais relevantes.

Às vezes, a perfeição é questão mais de ajuste do observador do que da obra em si. Não faz muito tempo, li um conto de Emile Zola, “A inundação”, que me deixou irritado. Esse sentimento acontecia por achar a trama óbvia, repleta de clichês e de um sentimentalismo tão piegas que por várias vezes eu me perguntava “Zola, o que houve com você, meu amigo?”. Estava resignado a considerar tal conto como uma obra menor quando, alguns dias depois da leitura, entendi tudo. A verdadeira história não era a descrição das desgraças advindas após uma inundação, mas uma delicada e contundente visão de Deus. O mesmo Deus que dera a vida e a felicidade por anos a uma família podia retirá-la em minutos sem que isso implicasse em injustiça divina, como vemos tantas pessoas reclamando por aí. A verdadeira injustiça era a felicidade, e não a morte. O conto saiu do ostracismo para a glória não por que foi ajustado para ser perfeito, mas por que o seu leitor mudou. Aquilo que é feio hoje pode ser o belo amanhã.

De todos os artistas, o mais obcecado com a perfeição foi Leonardo da Vinci. No “Tratado da Pintura”, ele alertou os pintores de que só deveriam mostrar as suas obras ao público quando elas estivessem absolutamente perfeitas. Até esse momento, as obras deviam ser trabalhadas e buriladas, extraindo qualquer imperfeição, por menor que fosse. As palavras de da Vinci são duras:

“Lembro-te, pintor, que, se teu próprio julgamento ou a advertência de outrem o fazem descobrir algum erro em tua obra, tu deverás corrigi-la a fim de que, ao tornares pública essa obra, não divulgues ao mesmo tempo a tua insuficiência. E não procures desculpar-te diante de ti mesmo, persuadindo-se de que vais reparar a vergonha em tua próxima obra, pois a pintura não morre a partir do momento em que nasce, como a música, mas será, durante muito tempo, a  maior prova da tua ignorância.”

As pinturas de Leonardo da Vinci que chegaram ao nosso conhecimento foram poucas. Provavelmente por causa do seu rigor estético, que o levava a buscar imperfeições de forma obsessiva até só deixar a obra surgir quando estivesse ajustada, o autor legou ao mundo pinturas inesquecíveis, como “A Dama com Arminho”, “A Última Ceia” e a incensada “Mona Lisa”.

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Nesse mesmo tratado sobre a pintura, Leonardo da Vinci se depara com um dilema que muitos artistas enfrentam até hoje. Para ganhar dinheiro e se sustentar, o artista não pode ficar anos dependurado sobre as eventuais imperfeições da sua obra, pois precisa produzir. Assim, acaba deixando de lado a perfeição do fazer artístico em detrimento do sustento de si e da sua família. Novamente o multi-talentoso da Vinci é cruel na sua resposta:

“E se tu desculpaste [as imperfeições das obras] dizendo que tens de dar de comer a teus filhos, [digo que] eles precisam de pouca coisa para viver; sobretudo, faz com que o alimento deles seja a excelência, pois é uma riqueza fiel que só nos abandona com a morte. (…).”

Entre a perfeição da obra e o conforto material, para da Vinci o mais importante é a obra. É ela quem determina o seu grau de especificidade, e cabe ao artista a tarefa de deixá-la o mais próxima possível da perfeição da sua ideia. No entanto, aquilo que é perfeito hoje pode não ser mais amanhã, e o artista mergulha em um universo tão implacável que, em determinado momento, não está mais fazendo a obra, mas se liberando dela. Não é mais uma questão de deixá-la perfeita, mas de eliminar os seus muitos problemas.

Seria muito bom se cada pessoa vivesse com esse ideal inatingível em mente: atingir o máximo de perfeição e irreprovabilidade nas suas atitudes diárias. Leio muitas pessoas comentando que, se pudessem refazer determinado ato, fariam diferente, mas raras são as que dizem que fariam tudo igual. Agir de forma a não se arrepender depois ou agir que cada ato seja o mais próximo possível da nossa intenção, sem subterfúgios ou máscaras, parece ser um bom plano de vida, uma vez que só viveremos uma vez e não é possível ficar remendando burradas sob pena de nunca se avançar.

Na literatura, existem vários casos de escritores que buscaram a perfeição, como Otto Lara Resende, que escreveu e depois reescreveu toda a sua obra. No entanto, o mais emblemático deles é Murilo Rubião. Durante toda a sua vida, o escritor mineiro fez somente 32 contos, os quais passou a vida inteira reescrevendo e acertando eventuais problemas. Não à toa, em entrevista dada por ocasião do lançamento de “O convidado”, Murilo Rubião disse:

“Sempre aceitei a literatura como maldição. Poucos momentos de real satisfação ela me deu. Somente quando estou criando uma história sinto prazer. (…) A literatura é feita com muito esforço. Muito mais esforço do que talento: é brigar com a palavra todo dia, é revirar a história, elaborar e reelaborar, ir para frente e voltar, enfim, mesmo numa obra reduzida, é preciso enorme capacidade de trabalho e tremenda pertinácia. Fazer literatura é quase um trabalho braçal.”

Murilo Rubião também não se importava com o tempo que cada trabalho levaria para ficar pronto: o conto “O convidado” foi escrito e trabalhado durante 26 anos. A busca da perfeição estilística não é contada de forma cronológica e, em tempos cada vez mais rápidos, com o grau de atenção da pós-modernidade implorando por impulsos curtos e que não demandam muita reflexão, considero meritória qualquer pessoa que dedica parte do seu tempo de vida para buscar um ideal tão intangível e etéreo quanto a perfeição.

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Às vezes, no silêncio dos meus pensamentos, tento pensar como Murilo Rubião se sentia. Ele era um homem prisioneiro de sua obsessão, mas ambicionar ser melhor pode ser considerado como algo prejudicial? Por muitas vezes, quando vejo amigos reescrevendo obsessivamente os mesmos livros, brinco dizendo “não vai dar uma de Murilo Rubião, hein”, mas existe um limite que podemos atingir na busca do ideal de perfeição estética. A questão é saber quando chegamos nele. Estamos fazendo o nosso melhor mesmo ou ainda podemos ser mais eficazes? Estamos em uma relação perfeita ou outra pode ser mais feliz? Estamos no auge do contentamento ou o auge ainda pode estar por acontecer? São essas dúvidas que nos movem.

Em outra ocasião, Murilo Rubião confessou que o seu maior problema eram as palavras: “As palavras atrapalham-me a memória, e o coração, impotente, clama por uma linguagem que não me ocorre.” Um escritor atormentado pela busca da palavra correta segue o ideal de Flaubert, “le mot juste” (a palavra exata). Mas mesmo Flaubert sabia que, se não chegasse até ela, deveria usar a mais apropriada para o momento, pois sempre existe o espectro de uma palavra que poderia entrar no lugar de qualquer uma em todo texto.

Honoré de Balzac escreveu uma novela sobre a busca pela perfeição que norteia o trabalho artístico e, por que não dizer, a experiência humana, pois sempre buscamos algo melhor. Em “A obra prima ignorada”, Balzac fala através de um pintor obcecado em fazer a obra de arte perfeita, um retrato que deseja executar e que será o mais importante da sua vida.

Durante dez anos, Frenhofer trabalha de maneira incessante no quadro, tentando extrair o máximo de beleza e de graciosidade, em um movimento que chega às raias da insanidade diante de tudo o que ele pretende colocar na imagem. Os dois aprendizes com quem o mestre conversa percebem que a busca pela perfeição no quadro serve mais para esconder as falhas da vida do artista e os seus defeitos de caráter. Pintar uma obra prima era a chance que Frenhofer tinha de impressionar as demais pessoas e deixar a sua marca na existência.

Balzac mostra que perfeição não era buscada pelo artista para satisfação própria, mas para o deslumbramento dos outros. Por isso entendo que a imperfeição é algo subestimado. Existe perfeição mesmo na arte de ser imperfeito. Desistir de viver e de comer em busca da perfeição, como defende Leonardo da Vinci, ou passar anos vivendo as mesmas histórias em busca de um ideal intangível que só a morte é capaz de dar um basta, como Murilo Rubião, ou desejar ardentemente a aprovação dos outros, como diz Balzac, são todas facetas cruéis da vontade de sermos seres humanos melhores.

Quanto mais nos detemos no detalhe, mais esquecemos que a verdadeira perfeição é ser fiel consigo mesmo, e, neste contexto, a imperfeição é o que nos diferencia desta multidão que tenta impor seus padrões. Buscar a perfeição é um ideal a ser sempre buscado, mas é possível que a verdadeira arte para quem não possui tal obsessão seja mesmo conviver com nossas pequenas e deliciosas imperfeições.

Texto publicado no link https://medium.com/colecao-dublinense/em-defesa-da-imperfei%C3%A7%C3%A3o-e597be6c7892#.9pysat4u3

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Crônicas de um ano inteiro: “Pobres homens ricos”

No meu texto dessa semana no “Crônicas de um ano inteiro”, eu falei sobre a prisão de Eike Batista, sobre um texto que escrevi e pelo qual fui ameaçado de processo (sim, a vida é divertida), sobre minhas dúvidas em relação ao motivo dos corruptos roubarem tanto dinheiro, sobre as obras de arte destruídas em São Paulo por João Dória, sobre Pompeia e sobre Virgílio, terminando com Bansky, tudo para dizer que, se a pessoa não tiver uma formação humanística, todo o dinheiro do mundo não vai suprir o seu vazio interno.

Ah, o texto que mencionei na crônica está aqui, e eu estava errado, pois escrevi cinco anos atrás: https://homemdespedacado.wordpress.com/2012/03/19/eu-tenho-pena-do-eike-batista/

Boa leitura.

Pobres homens ricos

"Cave painting", Bansky

“Cave painting”, Bansky

Hoje pela manhã, o empresário Eike Batista deixou a condição de foragido e entregou-se à polícia. Ato contínuo, muitas pessoas comemoraram tal acontecimento, e algumas – com a necessária dose de maldade – perguntaram se ele iria para a prisão comum, pois não possui diploma de curso superior e nenhuma das condições que levam à segregação especial. Algumas dessas pessoas, inclusive, se consideram as mais democráticas e defensoras dos direitos humanos, o que não deixa de ser estranho: se tivessem visitado uma cadeia ao invés de ler a respeito, saberiam que não se deseja tal destino nem ao pior inimigo. Na nossa sede por justiça, deixamos ela se aproximar muito do conceito de vingança e da reparação punitiva dos crimes. Nesse contexto, não surpreende que eu vi muita gente comemorando um soco desferido contra um neonazista: ainda estamos vivendo na “Lei de Talião”, olho por olho, dente por dente. Não evoluímos tanto assim depois de 3.000 anos de “civilização”.

A prisão do empresário me fez lembrar um texto que escrevi quatro anos atrás, intitulado “Eu tenho pena de Eike Batista”. Pensei nesse texto por ter sido a primeira vez que recebi uma ameaça de processo: um advogado mandou uma “notificação extrajudicial” para que eu retirasse esse texto do meio virtual ou “sofreria as penas da lei cível e criminal”. Até hoje não sei se era sério ou não. Também recordo que dei gostosas risadas, posto que sou igualmente advogado, e uma das poucas coisas que sei fazer é ficar no limite exato entre calúnia e opinião. Não tinha cometido crime algum; a ameaça era um blefe. Esse papo de “sofrer as penas da lei cível e criminal” pode assustar grande parte das pessoas, mas, para mim, é tão vazio quanto dizer que o céu é azul, pois estamos sempre sofrendo as consequências da lei cível e criminal assim que respiramos, oras. Não retirei o texto do meu blog, e ele continua por aí na internet. Como era de se esperar, não fui processado.

Nesse texto, comentei uma entrevista em que Eike Batista mencionou que o seu filho, Thor Batista, completara o colégio sem nunca ter lido um livro. Isso foi falado com orgulho tanto pelo pai quanto pelo filho, em uma demonstração de que, para a pessoa se tornar (na época) bilionária, ela não precisava de leitura. Cultura era supérflua; o importante era a educação e o dinheiro. Ao final, afirmei ter pena de Eike Batista, pois do que adiantava um homem possuir uma quantia impressionante de dinheiro se não tinha nenhuma formação humanística, inclusive para saber gastá-lo? A vida é muito mais do que iates, aviões particulares e carros de luxo. Ter dinheiro e não ter conhecimento é como a primeira epístola aos Coríntios de São Paulo: falasse eu a língua dos homens e dos anjos, se não tivesse amor, seria como o metal que soa ou como o sino que retine.

Se existe algo que me intriga na corrupção do país, além das quantidades impressionantes que foram desviadas de forma tão simplória, é o que os corruptos pretendiam fazer com tamanhas quantidades de dinheiro. Cem milhões, duzentos milhões, quinhentos milhões de reais… parecem-me quantias tão elevadas que dificilmente seriam gastas em uma vida. A maioria dos corruptos são homens, e estão em uma idade provecta. Qual o sentido de tanto dinheiro desviado? Uma hora acabam as joias, os relógios, os imóveis, as viagens, os bens de consumo, e fica o quê? O vazio de não ter a maior de todas as posses, o conteúdo humanístico. Eles também nunca serão felizes. Acham que o dinheiro desviado é capaz de trazer felicidade, mas, coitados, nem sabem direito o que é ser feliz. Ainda estão na fase de confundir realização pessoal com acumulação de dinheiro. Nem o Tio Patinhas pensava assim ao mergulhar na sua caixa forte.

Quinze dias atrás, em outra atroz falta de formação humanística, o prefeito de São Paulo, João Dória, mandou apagar as obras de arte ostentadas nos muros da cidade, chamadas de “pichações”, um conceito carregado de carga pejorativa e que deixa entrever uma ideia tanto de ilegalidade quanto de subalternidade, o que valeria uma discussão em outro momento (como a palavra com que denominamos algo pode ser decisiva também para o destino desse objeto).

Acaso Dória tivesse uma formação humanística não voltada para o dinheiro ou para o sucesso, como grande parte das pessoas do Brasil, saberia que muros pintados também são arte. Pompeia e Herculano estão repletas de murais mostrando cenas do cotidiano que estariam perdidas para sempre se não fossem esses anônimos artistas. Da mesma forma, o grande poeta Virgílio costumava escrever poemas desaforados nos muros da Roma antiga. Um pouco mais de informação histórica sobre o que é uma obra de arte teria sido decisivo para João Dória entender o enorme crime que cometeu, pois quem mata a arte mata um mundo inteiro. Ao limpar a cidade, realizou um genocídio artístico.

Em 2008, Bansky fez uma obra de arte em um muro na Leake Street, em Londres. Ela se chama “Cave painting”, e mostra um funcionário da Prefeitura apagando, de forma plácida, os desenhos feitos em uma caverna pré-histórica. Esse é o risco de dar poder para quem privilegia o dinheiro ao invés do ser humano: ver obras de arte e o passado desaparecerem sob uma borracha insensível. Eike Batista, os políticos corruptos, João Dória – toda uma geração de homens que encheram as suas contas bancárias e perderam o mais importante: a alegria de se maravilhar com um bom livro, uma pintura arrojada, uma pichação que parece viva. Todos eles, pobres homens ricos.

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Crônicas de um ano inteiro: “Não devemos ser Sherlock Holmes”

No meu texto dessa semana no “Crônicas de um ano inteiro”, eu falei sobre a minha luta implacável contra o mais ardiloso dos inimigos: a ficção.

Falei ainda dos métodos que uso para impedir que a imaginação me sufoque, assim como da minha necessidade de ficar o mais próximo possível do fato objetivo, mas também falei da “pós-verdade”, do mundo de detetives em que estamos vivendo, da morte do Teori Zavascki, de teorias da conspiração que envolvem até Walt Disney e de que é melhor ser São Tomé ao invés de Sherlock Holmes.

Boa leitura.

Não devemos ser Sherlock Holmes

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Há mais de duas décadas que enfrento o meu mais implacável inimigo: a ficção.

Ainda lembro o dia em que percebi que não era mais capaz de distinguir o real do imaginado. Para mim, imaginar e viver era a mesma coisa e, acreditem, era como uma droga: a menina não gostava de mim no mundo real? Pois na minha cabeça vivíamos um relacionamento cheio de altos e baixos, mas de pontos deliciosamente picantes. Eu não tinha conseguido o trabalho desejado? Pois então imaginava todos os percalços dele com tamanha intensidade que era um alívio não tê-lo conseguido. A ficção entrava como um substituto da realidade, um refúgio no qual poderia me esconder, uma vida alternativa repleta de alegrias. E não existem beijos como os que troquei na minha imaginação, assim como não há lugares melhores para trabalhar ou para viajar.

A ficção fornecia tudo aquilo que o mundo negava, e era melhor do que a realidade. Tão forte era a imaginação que contagiava os outros. Além disso, consegui apagar trechos inteiros da minha vida. Às vezes, acontece algo que me faz pensar “eu já passei por isso antes” e logo lembro um fato que sepultei cuidadosamente com camadas e mais camadas de ficção. Muitos eu condenei ao limbo da insignificância por causa de pensamentos encadeados com fatos mínimos, nos quais a ficção entrava com doses generosas de suposições, fazendo com que eu odiasse pessoas sem nenhum motivo real.

Quando notei isso, comecei o processo de desintoxicação. Em primeiro lugar, prendi a ficção nos textos que escrevo. Hoje, ao invés de devanear com impossibilidades, escrevo sobre elas. Em seguida, tornei-me um descrente, e não deixa de ser estranho que um escritor declare não se permitir sonhar em voz alta ou no interior da sua cabeça. Por último, passei a aceitar somente a primazia do fato: acredito naquilo que está ao alcance dos meus sentidos. Recuso-me a deixar a imaginação influir na experiência. É por isso que não adianta me atacarem com indiretas, com ironias mordazes, com tiradas cruéis. Mantenho-me restrito ao fato, apesar da ficção ficar toda hora me tentando com seus lábios de serpente e sua voz cálida.

É interessante que, após um longo e dificultoso processo de retomada da realidade, eu esteja progressivamente mais concentrado no mundo, enquanto as pessoas ao redor estão fazendo o movimento contrário, adentrando cada vez mais no confortável espaço da ficção. Estou cercado de pessoas contando histórias dotadas de alto potencial imaginativo, com severas quebras de verossimilhança e, o pior, acreditando piamente nas criações. A ficção também invadiu os meios de comunicação: os jornais e noticiários estão repletos de suposições, as quais corroboram ou negam imaginações dos seus ouvintes, que tentam responder mostrando a sua versão dos fatos. O resultado é que estamos vivendo mais em ficções criadas pelas nossas mentes do que em um mundo objetivo no qual escutamos os fatos antes de decidirmos. No afã de sermos os primeiros a descobrir as grandes histórias que andam por aí, nos tornamos péssimos ficcionistas contando mentiras com fatos quebrados, com inverdades criadas por outras pessoas, com dados parciais.

No final do ano passado, o Dicionário Oxford escolheu como palavra do ano “pós-verdade” –  a noção de que os fatos objetivos são menos importantes do que as nossas crenças pessoais. Mais vale disfarçar um pensamento nosso dentro de uma moldura séria do que procurar a verdade dos fatos. Vejo vários sites especializados em fomentar a ficção alheia, e pessoas compartilhando as notícias deles como se fossem a base da sua elaborada teoria da conspiração. São notícias tão mal fabricadas que me espanta ver pessoas que considero inteligentes as difundindo. Aliás, eis uma mercadoria em falta no mundo atual: uma fonte de notícias dotada de credibilidade, alguém que, antes de divulgar, preocupa-se em investigar muito bem o fato.

Comento isso por que, na semana passada, li as mais variadas e incríveis teorias sobre a queda do avião em que estava Teori Zavascki, ministro do STF. Com grande dose de excitação, muitas pessoas se transformaram em detetives, juntando provas a esmo e tecendo acusações. Com a imaginativa mente de quem assistiu a muitos seriados de investigação, todos juntavam evidências que confortassem as suas teses, ligando-as de maneira inverossímil, a tal ponto que, se hoje alguém disser a verdade, ninguém mais irá acreditar. Ela se transformará em outra teoria da conspiração.

Antes de tudo, eu sou um ficcionista, e teorias da conspiração me agradam demais. Se tiver uma ligando a CIA, a Aeronáutica, o Trump, o Temer, o Moro e o Walt Disney, então, contem comigo. O problema é que, em uma época repleta de detetives, as pessoas esqueceram-se da primeira personagem que usou e abusou do conceito de “pós-verdade”: Sherlock Holmes.

O detetive criado por Conan Doyle era alguém que sempre tinha uma teoria para os crimes – e usava de todos os meios para mostrar que a sua visão era correta. Holmes costumava desaparecer no meio das suas investigações para surgir na hora decisiva com uma prova irrefutável que dava razão para a sua teoria. O detetive perfeito em quem as pessoas se escoram para desvendar os segredos do mundo era um forte adepto da “pós-verdade”, alguém que omitia informações, escondia dados e realizava investigações paralelas para provar o seu ponto de vista.

Existem muitos perigos em agir assim. Quanto mais a ficção invadir a realidade, menos seremos capazes de ver o fato, e as injustiças acabarão se multiplicando. Logo estaremos envolvidos em uma cadeia de ficções geradas por outras pessoas, e elas são como a Hidra de Lerna, matamos uma e surgem sete no seu lugar. Portanto, não devemos ser como Sherlock Holmes, um homem ansioso para demonstrar a sua ideia a qualquer custo. O melhor é termos São Tomé como guia, e só acreditarmos no que está diante dos nossos olhos.

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Obras Inquietas – 17. “Esqueleto e marinheiro” (2004), Marianna Gautner

Nessa semana, no “Obras Inquietas” lá no Artrianon, eu tratei de “Esqueleto e marinheiro” (2004), de uma artista que admiro muito, Marianna Gautner.

Aproveitei para falar da chegada inoportuna da Morte e do medo que toda mãe possui cada vez que seu filho se abandona ao sono, mas também falei um pouco de estoicismo, pedindo ajuda para Fernando Pessoa e para um dos meus filósofos prediletos, Epicteto.

Boa leitura.

17. “Esqueleto e marinheiro” (2004), Marianna Gautner

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Toda vez que você entra no quarto, eu estou lá, nas trevas, no canto escuro onde até a luz tem medo de entrar. Consegue sentir a minha presença? Em silêncio, espreito a vida do seu filho, essa pequena alma que carrega consigo um cadáver; sonho com o sabor doce da sua última respiração, anseio pelo olhar de súplica que ele lançará assim que ver meus lábios mortos se aproximando para um beijo. Eu nasci quando ele veio ao mundo. Você tem medo dos segredos que a noite esconde; receia uma respiração entrecortada, se apavora ao imaginar um sufocamento, teme que, em um segundo, o vômito entre pelo local errado e acabe com a vida antes mesmo dela começar. Mulher tola: acha que pode me vencer. Pensa que seu filho poderá sobreviver à morte quando, na verdade, estou escolhendo o melhor momento para acabar com a existência deste corpinho que dormita no berço. Seu filho é pequeno e frágil, ao passo que eu sou paciente, implacável – e infinita. Você não vai conseguir protegê-lo para sempre e, um dia, eu irei pegá-lo, seja no berço, seja na rua, seja na cama; seja na saúde ou na doença, na alegria ou na pobreza, o certo é que chegará o dia em que irei levar o seu filho para o Reino dos Mortos. Nesse dia, o último dele, sorverei a alma que me foi tantas vezes negada e deliciar-me-ei com o seu pranto, Pietà desastrada que fracassou em salvá-lo. Você não pode fazer nada por seu filho, mulher, pois a morte espreita esse cadáver adiado que procria desde que ele respirou pela primeira vez. Então, desista. Pare de espiar, pare de ter medo, pare de me enfrentar. Só não o matei até agora por mera vontade, pois essa criança já estava morta a partir do instante em que nasceu. No canto do quarto, eu espreito o seu medo, enquanto escolho a hora em que, enfim, matarei o seu filho.

 

Texto originalmente publicado em https://artrianon.com/2017/01/21/obras-inquietas-17-esqueleto-e-marinheiro-2004-marianna-gautner/

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Texto publicado na revista eletrônica da Dublinense (20/01/2017): “Como ter um ótimo relacionamento com as críticas”

Na minha coluna da semana passada no Medium da Dublinense, eu falei de como ter uma convivência pacífica com críticas.

Mas aproveitei o embalo para falar sobre as críticas e ameaças que recebo (que não fazem nem cosquinhas perto das críticas que eu mesmo me faço); falei da leitora que ameaçou me jogar um coquetel molotov por causa do filme “Jane Eyre”; contei de H. G. Wells, que recebeu uma crítica tão devastadora que acabou se apaixonando pela mulher que a escreveu, Rebecca West; falei de Saverio Bettinelli, jesuíta do século XVIII que resolveu criticar “A Divina Comédia” pela ótica de Virgílio, coitado, tendo que aguentar o Inferno enquanto ouvia 13 mil versos ruins de um Florentino preguiçoso, e termino com Flannery O’Connor respondendo uma carta de leitores que pediram que ela explicasse o conto “É difícil encontrar um homem bom”, tudo para dizer que críticas podem ser mais saudáveis e divertidas do que imaginamos.

Boa leitura!

Como ter um ótimo relacionamento com as críticas

Sou uma pessoa sem receio de críticas. Afinal, a minha autocrítica é tão severa que o mais contundente comentário exterior não faz nem cócegas nas admoestações que já dirijo internamente contra mim. Não raro concordo com as eventuais críticas dirigidas aos meus textos ou condutas, e ainda acrescento novos elementos para validar mais o ponto negativo apontado. Ao contrário do que se pode imaginar, não é um pensamento masoquista ou um desprezo às minhas próprias capacidades, mas uma estratégia de sobrevivência: preciso acreditar que meus textos estão eivados de problemas, pois isso me impede de abaixar a guarda; preciso crer que cada texto não é um produto acabado, mas uma obra em constante formação; preciso confiar que posso melhorar, pois pensar assim impede a acomodação. Assim, cada palavra precisa ser pensada, cada ideia precisa ter o seu alcance milimetricamente delimitado, cada ironia precisa encontrar o exato tom entre ácido e doce. E em nenhum momento posso revelar o cuidadoso andaime do meu pensamento, não posso deixar que os leitores vejam as arestas que escapam por trás do pano; tenho que fazê-los caminhar pela catedral do texto admirando somente os vitrais e a curvatura da abóbada sem que notem o elaborado trabalho que ergueu uma ideia a partir do vazio.

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Conheço muitas pessoas que se atordoam com críticas. Pessoas que choram, se prendem em um mutismo orgulhoso, que se desesperam ao não se saberem integralmente amadas. Mesmo respeitando a sua maneira de encarar as críticas, entendo que ninguém pode ter tamanha força sobre a minha pessoa. Sei de antemão que não sou perfeito, e sequer almejo dita perfeição; gosto das minhas incongruências, elas são divertidas, e até mesmo os erros são interessantes.

Escrever é perigoso nos tempos atuais. Uma palavra proferida com distração pode repercutir como a pedra arremessada em um lago e levantar um tsunami. Para quem escreve muito, então, o perigo mora em cada frase. A frequência aumenta a chance de equívoco, assim como permite o surgimento de mais críticas e comentários desabonadores. Nas últimas semanas, as caixas de comentários nos meus textos foram preenchidas por xingões e críticas. Isso sem contar as mensagens deixadas no meu perfil no Facebook e – o auge da vontade de criticar – as críticas que surgiram nos meus painéis de imagens no Pinterest. “Não leia os comentários”, dizem vozes prudentes na internet, mas eu não tenho medo da opinião alheia e ela não me desanima. Se os críticos soubessem o quanto concordo com as vituperações e insultos direcionados aos meus textos perceberiam que estou ao lado deles, e não contra. As críticas sobre as quais vale a pena refletir, eu respondo; as que não passam de impropérios vazios, eu descarto.

O que não me impede de achar boa parte das críticas engraçada. O texto mais “polêmico” que escrevi é simultaneamente o mais inocente: uma resenha sobre o filme “Jane Eyre” (2011). Uma vez a cada dois ou três meses, esse texto é acessado centenas de vezes durante um dia inteiro, e os insultos se acotovelam no meu e-mail. Eu chamo essa ocasião de “Dia Oficial de Odiar o Gustavo”. Boa parte são xingões quase recreativos, direcionados à minha mãe, à minha eventual descendência e sobre a minha sexualidade; outros me atribuem características, chamando-me de “machista”, “misógino”, “niilista”, “misantropo”, “complexado”, “insensível” e por aí segue. Já reli o texto algumas vezes e não entendo o que ele faz para despertar tamanho ódio. A pessoa precisa preencher um cadastro no blog para poder realizar um comentário, e sempre me encanta imaginar o tempo que alguém perdeu para ter a honra de me insultar. Poderiam ter escrito textos inteiros em resposta ao meu, nesse mesmo intervalo levado para arquitetar insultos que me deixassem com vontade de chorar em posição fetal, mas cada um sabe a melhor forma de desperdiçar energia criativa.

Foi por causa desse texto que recebi uma incrível ameaça de morte. Uma leitora, “Anônima”, deixou um comentário no qual, após os insultos de praxe, disse que sonhava com o dia em que eu estivesse dando uma palestra e, em certo momento, ela levantaria e me jogaria um coquetel molotov, vendo-me explodir em chamas. Era a época dos protestos de rua, pouco antes da Copa do Mundo, e o clima instável deu ideias incendiárias para a minha leitora. Ainda assim, achei a ameaça genial e fantasiei como seria o momento em que uma mulher levantasse na plateia, jogando a garrafa cheia de querosene e com um pavio aceso na minha direção, enquanto gritava “Por Jane Eyre!”. Achei uma morte poética.

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Claro que nem toda crítica precisa acabar com um coquetel molotov. Algumas podem acabar com algo mais mortífero, como um relacionamento amoroso. Foi o que aconteceu com H. G. Wells e Rebecca West. Em 1912, a mulher – que logo se tornaria uma grande escritora feminista – escreveu uma longa crítica no jornal contra “Marriage”, de autoria de Wells, extrapolando os limites da obra literária e inclusive chamando o escritor de “a solteirona dos romancistas”. O mundo literário inteiro divertiu-se com aquele ataque virulento, menos H. G. Wells, que considerou tão interessantes os argumentos expostos na crítica que convidou Rebecca para jantar. Esse jantar evoluiu para uma relação que, entre idas e vindas (Wells era casado e tinha 26 anos a mais), se estendeu por 10 anos, inclusive gerando um filho, Andrew.

É improvável que, nos tempos atuais, algum criticado tenha tanto espírito esportivo a ponto de marcar um encontro com o seu crítico. Apesar desse pensamento binário, as críticas podem ser devastadoras e violentas, mas contém um núcleo de opinião que merece ser debatido. Contudo, nos tempos em que vivemos, as pessoas consideram a crítica como um ataque aos atributos de personalidade, quando, na realidade, elas são um alerta até amistoso sobre os defeitos alheios.

Também não são poucas as críticas que são praticamente convites para duelos, nos quais, se eu aceitar a provocação que me foi dirigida, teremos um embate. São críticos que pretendem atingir o reconhecimento por meio da validação tácita do criticado, que entra na arena com os olhos cheios de sangue, atraindo também atenção para o esquálido argumentador no canto oposto. Não perco tempo aceitando duelos com pessoas que não me despertam medo; sempre procuro cachorros maiores do que eu.

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Quanto maior a obra, mais intensa precisa ser a crítica para chamar atenção. No caso de “A Divina Comédia”, de Dante Alighieri, o crítico perfeito surgiu mais de 200 anos depois da morte do autor. Em 1757, o jesuíta Saverio Bettinelli, amigo de Voltaire e de Rousseau, decidiu escrever um livro falando sobre o classicismo como forma de arte e repudiando os valores estéticos da Idade Média. Para atingir esse objetivo, resolveu escrever uma crítica sobre “A Divina Comédia”, mas falando do ponto de vista de Virgílio, o poeta que serviu de guia para o escritor florentino.

O livro se chamou “Cartas virgilianas” ou “Cartas de Virgílio” (tenho somente a tradução para o inglês), em que Virgílio “discute o seu relacionamento” com Dante, atacando de forma violenta “A Divina Comédia”, como percebemos pelos trechos abaixo, narrados por um Virgílio exercendo o seu “direito de resposta”:

“Mas versos belíssimos, que de quando em quando encontrava, davam-me um tal prazer que quase os perdoava… oh, que pecado, gritei, que tão belos trechos restem condenados em meio a tanta obscuridade e extravagância! Oh, que imenso esforço foi para nós arrastar-nos por cem cantos e catorze mil versos, por inúmeros círculos e buracos, entre mil abismos e precipícios com Dante, que estremecia a cada temor, dormia a cada trecho e, mal despertava, já começava a me incomodar, a mim, a seu duque e ao condutor, com demandas o mais estranhas possíveis! (…) Mil grotescas disposições e tormentos não dão certamente um grande crédito a tal Inferno, nem à imaginação do poeta. Todos, além disso, mostram-se sempre falantes e loquacíssimos em meio aos tormentos ou à beatitude, e nunca se cansam de nos contar as suas estranhas aventuras, de digladiar dúvidas teológicas ou de pedir notícias de mil toscanos amigos ou inimigos, e sei lá mais o quê…  Seria isso um poema, uma obra divina? Poema tecido de prédicas, de diálogos, de perguntas, poema sem ações ou só com ações de quedas, de passagens, de subidas, de idas e de voltas, e que só faz piorar quanto mais se segue adiante? Catorze mil versos de sermões assim, quem poderia lê-los sem desmaiar de cansaço ou de sono? Nada faltou a Dante, senão bom gosto e discernimento na arte. (…) E destes territórios inteiros temos cerca de uma centena, se bem os contei, entre os cinco mil que formam todo o poema. Os versos sozinhos, ademais, ora sentenciosos, ora delicados, ora plangentes, ora magníficos e sem defeito, ousaria dizer que chegam a mil. Portanto, restam treze mil versos defeituosos e ruins.”

Esse livro de Saverio Bettinelli teve inesperado sucesso na época em que foi lançado, e foi inclusive elogiado por Rousseau. Não serviu para tirar o mérito de “A Divina Comédia”, mas mostrou que mesmo uma obra literária admirada por todos não estava imune a eventuais discordâncias. Considero meritória uma crítica que, ao invés de partir para a agressão gratuita contra o outro lado, ou desejar a sua morte, escreve um livro inteiro para desancá-lo, usando de muita graça e persuasão.

Nos meus anos de vida, nunca recebi uma crítica que me desanimasse ou me deixasse em pânico. Sempre as considerei mais engraçadas do que danosas. Minha autoestima não é muito elevada, não por causa de críticas alheias, e sim por causa dos meus patamares irreais de exigência. As críticas sempre me pareceram benéficas e amigáveis demais, mesmo quando faziam planos para acabar com a minha vida.

Nunca passei por uma sensação como a experimentada por Flannery O´Connor. Em 1961, um professor de inglês mandou uma carta para a escritora americana, afirmando que, durante um ano, seus noventa alunos e mais três professores tinham lido e esmiuçado o conto “É difícil encontrar um homem bom” em busca de um sentido único, que esclarecesse toda a história. Era uma carta polida e cuidadosa, em que o professor explicou todas as discussões surgidas em sala de aula, elencando hipóteses de interpretação para a história, com o intuito de esclarecer uma dúvida aparentemente singela: em qual momento o conto deixava de ser real e se tornava um devaneio do narrador?

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Flannery O’Connor

A intenção do professor era conseguir uma explicação definitiva vindo da pessoa responsável pelo conto, ou seja, a sua autora. A resposta de Flannery O’Connor foi dura, apesar de educada;

“Prezado professor:

A interpretação dos seus noventa alunos e três professores é fantástica, e está muito longe das minhas intenções. Se a interpretação fosse válida, o conto seria pouco mais que uma brincadeira, e só teria interesse para a psicologia da anormalidade. Eu não estou interessada na psicologia da anormalidade.”

Após uma breve digressão sobre o sentido dos personagens, em especial o Desajustado e a avó de Bailey, a escritora arremata a carta criticando a maneira com que seus leitores tentavam entender a história:

“O significado de uma história deve crescer na medida em que o leitor reflete sobre ele, mas não pode ser captado em uma única interpretação. Se os professores costumam tratar uma história como se fosse um caso de investigação para o qual qualquer resposta é crível desde que seja aceitável, acho que os alunos nunca vão aprender a gostar de ficção. Muita interpretação certamente é pior que pouca, e não há teoria que supra a falta de sensibilidade.

Não pretendo ser antipática. É que estou em estado de choque.

Flannery O’Connor.”

Não existe nada que irrite mais um escritor do que ser obrigado a explicar a sua própria história e fechá-la em uma única camada de entendimento, impedindo o surgimento de outras interpretações. Flannery O’Connor ficou chocada ao perceber que os leitores tentavam chegar a uma moral da história unívoca, quando a riqueza dela era ser o oposto. Foi uma das poucas ocasiões em que um escritor saiu da posição de vidraça, virando pedra para agredir os seus leitores.

Se existe algo inevitável na vida, é ser criticado. Respiramos, logo seremos criticados. O que fazemos com as opiniões desabonadoras é a verdadeira questão. Podemos nos encolher de medo imaginando que, a qualquer momento, alguém nos jogará um coquetel molotov; podemos convidar quem nos critica para jantar e entender melhor o seu ponto de vista; também existe a viabilidade de pegar a crítica e disfarçá-la, colocando uma obra literária ao seu redor, ou podemos inverter a gangorra e criticar aqueles que se imaginam além de qualquer ataque. O importante é respeitar as críticas, tentar aprender o que despertou a fúria do outro e, se for o caso, se as ofensas forem vazias, descartá-las sem perdão. Assim como nem sempre estamos certos, os críticos igualmente podem estar errados, e, no final do dia, “os cães ladram, mas a caravana passa”.

 

Texto originalmente publicado em https://medium.com/colecao-dublinense/como-ter-um-%C3%B3timo-relacionamento-com-as-cr%C3%ADticas-d31d2cbba88b#.ndc1ulyf3

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Arquivado em Charlotte Brontë, Crítica, Dante Alighieri, Flannery O'Connor, Generalidades, Saverio Bettinelli

Beethoven por Wagner: o mundo dentro de um homem

Estou lendo o discurso que Richard Wagner fez em homenagem a Beethoven, presente no livro “Beethoven”, e a sua teoria (ousada) de que toda a obra do outro é uma constante redescoberta da bondade que existe no âmago de todo ser humano: quando o músico começava as suas composições, a visão pessimista e desencantada sobre a Humanidade era inevitável, mas a música ia se abrindo como rompantes luminosos em meio a uma tempestade, até que, enfim, Beethoven cedia e percebia que, sim, o ser humano é bom, e que vai dar tudo certo, sim sim sim.

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Tirando a parte do nacionalismo alemão que prepondera em trechos do texto (falta-me conhecimento para tanto, mas parece que Wagner foi um pouco mal interpretado nesse assunto, pois ele distingue “sentimento alemão” de “espírito alemão”, e a bagunça entre os dois conceitos que levou ao surgimento do nacionalismo), em um parágrafo, Wagner tenta imaginar o colega músico preso dentro dos seus próprios ritmos e sons:

“Um músico que ensurdece! É possível imaginar um pintor que ficasse cego? Mas conhecemos o vidente que fica cego. Tirésias, para o qual o mundo da aparência se fechou, e que começa a perceber com o seu olho interior o fundo de toda aparência – a ele se assemelha agora o músico que ensurdeceu, o qual, não podendo mais ser perturbado pelos ruídos da vida, ouve somente as harmonias de seu interior, e é unicamente de sua profundeza que ele fala a um mundo que nada mais tem a lhe dizer. Eis agora o gênio livre de tudo que é exterior a si, inteiramente em casa, consigo e em si. Quem outrora viu Beethoven com os olhos de Tirésias, que maravilha deve ter descoberto: um mundo caminhando entre os homens.”

Na versão de Wagner, é comovente imaginar Beethoven andando por aí preso no seu mundo repleto de melodia, isolado na involuntária concha acústica que a surdez lhe proporcionou. É ainda mais emocionante imaginar que, mesmo preso dentro do próprio mundo, ele ainda achava que o ser humano tinha esperança, que a alegria iria triunfar, que somos todos bons. É um louvável exercício de fé na Humanidade. Algo que os tempos atuais insistem em contradizer a cada minuto, com todos ao nosso redor mostrando que o ser humano é ruim, que só possui intenções cruéis, que seus objetivos são nefastos.

E se, como Beethoven, acreditássemos que existem nesgas de luz no meio das trevas, e que vale a pena tentar ampliá-las através do nosso trabalho? Pois lidar com arte é justamente a tentativa de trazer coerência para o mundo despedaçado e cacofônico que nos cerca.

Ser um mundo inteiro para alguém e para si mesmo: eis um objetivo de vida aceitável.

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Crônicas de um ano inteiro: “Feminicídio é ódio, e não amor”

No meu texto dessa semana no “Crônicas de um ano inteiro”, escrevi sobre o feminicídio. Na semana passada, por uma estranha coincidência, me contaram três feminicídios acontecidos recentemente, o que me levou a ler mais sobre o assunto e a perceber o quanto um crime de ódio é tratado como um caso de amor fracassado. Também me fez recordar um que testemunhei acontecer, e que é contado no texto.

Para acabar com o feminicídio, urgente é acabar com a visão do Romantismo, e isso passa pela mudança do discurso.

Boa leitura.

Feminicídio é ódio, e não amor

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Não estou acostumado a acompanhar noticiários e reportagens durante a semana, pois, no meu tempo livre, dou ênfase para a leitura de livros. No entanto, em meio ao clipping de notícias, chamou minha atenção o crescimento exponencial do feminicídio, ou o assassinato de mulheres pelo fato de serem mulheres. Acredito que isso sempre existiu em vastas quantidades, a diferença é que está sendo mais divulgado agora. Não bastando perceber um crescimento das manchetes, ainda escutei mais três relatos que sequer tinham surgido nas notícias, contando detalhes assustadores de outros feminicídios cometidos recentemente. Ou seja, não é um fenômeno isolado, mas um vírus cruel que se espalha, voraz, pela sociedade.

Em todos os casos que escutei, após matar a mulher, o homem cometeu suicídio. É uma subversão do ideal romântico de “morrer por amor” e, pensando no livro de Isaiah Berlin sobre as consequências nefastas que o Romantismo legou para o mundo, além do culto ao eu e ao hedonismo egoísta, poderíamos listar igualmente o feminicídio. No caso dele, o homem não mata por amor, mas por que não deseja que a mulher ame mais ninguém. Eis a suprema exibição de egocentrismo: sem a presença do homem, o mundo não pode continuar existindo para a mulher. Ainda assim, uma leitura breve nas notícias chega aos mesmos lugares comuns que tentam explicar a tragédia: “ele era ciumento”, “ele era agressivo”, “ele estava tentando voltar” e dezenas de outras expressões que, de forma educada e – espero – inconsciente, tentam atribuir um motivo lógico para o feminicídio aproximando-o de um gesto de amor tresloucado quando, na verdade, não há mais amor em tal ato.

Não existe uma explicação lógica para o feminicídio. Tentar encontrá-la é diminuir a gravidade do ato. Temos uma tendência cartesiana de achar um motivo para tudo, o que é uma forma de nos tranquilizar e dizer que não faríamos aquilo. No entanto, um feminicídio é um ato de ódio cometido contra uma mulher, e é preocupante que se tente diminuir este fato dizendo que foi um gesto de ciúme ou um desvario amoroso encerrado em tragédia.

Ainda somos escravos de uma visão romântica do mundo. Acreditamos em amores impossíveis, que os sentimentos nem sempre surgem na hora certa e precisam ser “estimulados” por meio da insistência, que as histórias possuem finais felizes e, se não chegamos lá, é porque ainda não terminou. Pior ainda, acreditamos que o amor move os seres humanos, e é pensando assim que tentamos considerar tudo de acordo com os seus termos.  Então, seguindo a imprensa, os feminicídios viram tragédias de um amor que não deu certo, com uma espécie de alerta implícito para “tomem cuidado com quem vocês se relacionam”, como se fosse tão possível prever o ódio quanto seria adivinhar a existência do amor.

Lendo as manchetes, percebe-se ainda a tentativa de classificar o feminicídio como o gesto cometido por um homem que amava demais. Eis algo inexistente: não existe como mensurar um sentimento. Ninguém ama demais ou de forma insuficiente, cada um o faz da forma que percebe o amor. Pode acontecer dele andar tão perto do ódio que os dois se tornam inseparáveis para quem é objeto de interesse e, neste caso, por imaginar – sempre seguindo essa visão que nos foi imposta pelo Romantismo – que é um amor desesperado, a mulher acaba cedendo, para, um dia, perceber que era ódio e tentar se afastar de uma relação viciosa.

Deveria existir um cuidado linguístico maior ao se tratar do feminicídio. Não acredito em programas governamentais para debelar tais práticas ou na denúncia sistemática deste crime como forma de prevenção, mas creio firmemente na força das palavras e que, diante de uma fogueira, elas podem servir tanto como água quanto como gasolina. Observando a forma com que nos referimos ao feminicídio, vejo admiração incontida: Fulano amava tanto que demonstrou tal sentimento matando a mulher amada. Ou: só ama de verdade quem mata o objeto do seu amor e, em seguida, se mata. Não pode ser uma coincidência que quase todos os homens se suicidam depois de cometerem o assassinato.  Estão entregando a sua vida ao Deus do Amor quando, na verdade, nunca amaram.

Eu estive perto de um feminicídio, e sei o quanto palavras são perigosas. Muitos anos atrás, um cliente começou a se referir com raiva à sua mulher, imaginando que ela tivesse um caso. As reclamações pontuais logo viraram discursos impregnados de perdigotos e de xingões, não só sobre a sua esposa, mas contra todas as mulheres. Eu era jovem (não que isso justifique algo, somente a minha inexperiência) e achei que fossem desabafos soltos ao vento, tanto que não me importei, não denunciei e inclusive brinquei algumas vezes sobre o assunto.

Quando o senhor F. matou a sua mulher, atirando nela dentro de um ônibus, eu percebi que todos os sinais do crime sendo premeditado estavam o tempo inteiro na minha frente. Não sei se poderia ter evitado tamanha desgraça, pois ainda não sabia o mal que se esconde no coração dos homens, mas, por algum tempo, perguntei-me o quanto a minha passividade diante das ameaças do senhor F. não serviu de chancela silenciosa para a sua conduta e se as minhas brincadeiras inconsequentes também não ajudaram a lhe dar mais convicção. Desde então, sou muito cauteloso com o que falo e com o que escuto, pois nunca se sabe qual é a extensão do fosso da alma de qualquer ser humano.

Devemos deixar de considerar como “ato romântico que deu errado” um crime de ódio. Também é essencial que tenhamos muita atenção sobre as palavras que proferimos ou que estão ao nosso redor. Podemos ser a gota involuntária que faltava para encher o copo de uma pessoa, assim como podemos escutar a tragédia antes dela acontecer. No entanto, mais do que tudo, o importante seria deixarmos de lado as fantasias românticas que cercam inclusive os discursos ao nosso redor e passar a atacar o feminicídio como aquilo que ele é: um imperdoável crime de ódio.

 

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