Não me perguntem o motivo, mas hoje estava lembrando de alguns detalhes das últimas semanas de vida de Alexandre Dumas, o pai.

Conta Alexandre Dumas, o filho, que, certa vez, foi visitar o pai na casa que ele ocupava em Paris. Na época o escritor já estava velho e adoentado, precisando de atenção médica. Ao abrir a porta do lugar, viu o pai sentado na sua cadeira favorita e, no seu colo, estava Adah Menken, atriz e poeta, nua, cavalgando o homem “com louvável fogosidade”, conforme Alexandre Dumas, o filho, conseguiu atestar. Enquanto isso acontecia, o autor que imaginavam doente estava escrevendo com rapidez. Detalhe interessante: depois Dumas pai afirmou que estava pesquisando sobre cavaleiros no circo, uma profissão que Adah Menken tivera no passado. Tudo se justifica para uma pesquisa histórica.

Alexandre Dumas, o pai, na icônica foto de Nadar

Alexandre Dumas pai era um homem voluptuoso, que se entregava com intensidade aos prazeres da vida: alguns anos atrás comprei o seu livro de receitas, “Grande Dicionário de Culinária”, que, além de receitas, possui comentários deliciosos das suas brigas e discussões com cozinheiras por toda a França. Era um homem que amava comer, amava as mulheres e amava escrever. Não foi à toa que Alexandre Dumas filho escreveu, em uma carta para George Sand: “Por que é que ele nunca escreveu uma linha entediante? Porque isso o teria deixado entediado. Ele está por inteiro em suas palavras. Teve a sorte de ter podido escrever mais do que qualquer um, de ter tido sempre necessidade de escrever para dar vida a si próprio e a tantos outros! E de só escrever aquilo que o divertia”. “Escrever para dar vida a si próprio” e “escrever aquilo que nos diverte”: duas ideias que podem ser aplicadas não somente para escrever, mas também para que qualquer ato do cotidiano valha a pena.

Segunda história: Alexandre Dumas pai já estava em Puys, na casa do filho. Desde a chegada ele anunciara: “vim aqui para morrer”. Passava os dias acamado, olhando o mar pela janela do melhor quarto da casa. Nessa época contratou uma secretária, uma mulher pequena e tímida que tinha duas funções: comer doces com Alexandre Dumas pai e ouvir as suas histórias. Passava o dia inteiro contando histórias para a moça. Mas ela precisava dormir e, assim, Dumas contratou uma secretária noturna para escutar as histórias. Quando a sua mente começou a titubear, o escritor lia os próprios livros e, em seguida, confuso, improvisava versões alternativas. Não era capaz de parar de escrever nem se quisesse, e as histórias brotavam ao natural, mas mesmo aquilo que é bonito pode conter desespero no seu interior.

(Alexandre Dumas pai não é o único caso de escritor que foi atormentado por histórias até o último segundo de vida. Existem escritores que simplesmente não conseguem parar, e para quem a literatura torna-se um espasmo de agonia, uma corrida contra o tempo – afinal, existem mais histórias no mundo do que grãos de areia em um deserto).

A última frase supostamente dita por Alexandre Dumas pai também é famosa: “Nunca saberei como isso termina!”. Ninguém sabe o que seria “isso”, mas a suspeita mais forte é que fosse alguma história.

Em uma carta para Charles Marchal, Alexandre Dumas filho fala um detalhe assustador: alguns dias antes de morrer, o pai foi assombrado pelo mesmo pesadelo. Estava subindo uma montanha que se tornava cada vez maior, cada vez mais íngreme. As pedras em que se apoiava eram os seus livros. No entanto, bastava se segurar e elas afundavam como se estivessem em uma duna. Arrastando-se montanha acima em busca de um cume a que nunca chegaria, Alexandre Dumas sentia-se cada vez mais cansado e impotente. Estava sendo derrotado: as histórias eram maiores do que o homem. A verdadeira escolha da literatura não é o escrever, mas sim o que conseguimos escrever no espaço curto de uma vida.

Atualmente, Alexandre Dumas pai está enterrado no Panteão de Paris, local reservado para os grandes escritores e filósofos da França (um dos locais do mundo que eu mais gostaria de conhecer). Ladeando o seu túmulo, temos Victor Hugo e Émile Zola; um pouco mais à frente, Voltaire. Com certeza as noites do Panteão devem ser animadas, com Alexandre Dumas pai despejando histórias para os demais escritores nunca dormirem em paz.

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