Arquivo do mês: dezembro 2015

Sêneca e um objetivo para 2016

Não foi um ano fácil, esse 2015. Não elencarei todos os problemas que me afligiram, as decepções que tive, as pessoas que me decepcionaram, as pessoas que decepcionei. Foi um ano bem problemático. Imaginei que 2014 tinha sido um “terribilis anno“, mas 2015 conseguiu ultrapassá-lo em más notícias.

Ao invés de pensar nas minhas angústias, prefiro lembrar das vitórias e dos pequenos contentamentos. Em 2015, fiz uma série infindável de eventos e bate-papos, e tive a oportunidade única não só de conversar com pessoas que muito prezo como discutir assuntos e livros instigantes. Participei de várias antologias de contos, “Herdeiros de Dagon”, “Festchrift”, “Estrada para o Inferno”. Mesmo enfraquecido e abalado por circunstâncias pessoais, consegui passar na seleção para Doutorado em Escrita Criativa na PUCRS, e até agora não sei como isto aconteceu. Fiz artigos e revisei trabalhos; publiquei contos em jornais, em revistas, em sites da internet. Acompanhei os primeiros passos do meu afilhado. Fiz novas amizades. Viajei e conheci bibliotecas. Ainda estou construindo a minha biblioteca em casa, em um espaço como sempre sonhei. Ministrei um curso sobre “Literatura Inglesa Escrita por Mulheres” em Porto Alegre e em Passo Fundo. Participei de um sarau. Engoli um caroço de ameixa e, para meu espanto, sobrevivi. Tomei até um café rosa, com gosto de “Esticadinho” (aliás, foi o argumento da vendedora que me convenceu), algo que seria completamente impensável em outros tempos.

 

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Eu e um café rosa. O coração era dispensável. E, sim, ele tinha gosto de “Esticadinho”

 

No entanto, quando comecei o ano de 2015, meu propósito era muito mais ambicioso do que sobreviver a outros 365 dias. Foi Sêneca quem ditou minha meta para 2015 e, na simplicidade aparente do seu ensinamento, concedeu-me a mais complexa de todas as tarefas.

Está lá, em “Epistulae Morales ad Lucilium”, cuja tradução mais apropriada seria “Cartas Morais para Lucílio”, mas, no Brasil, ganhou o título de “Aprendendo a viver”. Nos seus últimos anos de vida, exilado e distante do poder de Roma, Sêneca dedicou-se a refletir sobre a vida na forma de cartas enviadas para seu amigo Lucílio. Aos que tiverem interesse, sugiro a leitura da integralidade das cartas (são 127), que estão disponíveis para download na internet.

A leitura de Sêneca me acalma. Sua clareza de pensamento e as palavras simples que escondem lições profundas sempre me fazem procurá-lo no final do ano, para baixar o ritmo dos últimos dias do ano. Foi assim que, no final de 2014, li uma frase de Sêneca que causou grande impacto. Explicando para Lucílio como estava se sentindo no início do exílio forçado, o filósofo escreveu: “Perguntas-me qual foi o meu progresso? Comecei a ser amigo de mim mesmo.”

Não aparenta ser uma frase complexa, mas esconde uma lição avassaladora. Quando a li, notei que não era mais meu próprio amigo. Não simpatizava mais com a pessoa que me tornara e, não raro, me considerava meu maior inimigo. Se eu me conhecesse por aí, não seria meu amigo.

Foi assim que passei 2015 inteiro tentando reativar a amizade que tive um dia comigo. Um ano tentando me admirar mais. Um ano respeitando meus limites e não puxando meu corpo além dos seus desejos. Um ano colocando o Gustavo como centro da minha amizade, encontrando pessoas que acrescentariam coisas para ele e falando sobre aquilo que o daria orgulho de me conhecer.

Não atingi ainda meu objetivo. Não sou uma pessoa fácil de fazer amigos, mesmo que seja uma amizade comigo mesmo. Meu consolo é que o próprio Sêneca disse que estava “começando” a ser seu próprio amigo. É uma atitude que vai durar toda a minha vida, mas, parafraseando Sun Tzu, “um homem que conhece a si mesmo não precisa temer o resultado de cem batalhas”. Imaginem só se ainda for seu próprio amigo!

Mas, é final de 2015, e novamente me socorro com Sêneca, meu farol para os momentos de dúvida ou de fraqueza. E está ali, em outra carta para Lucílio, o meu objetivo maior para 2016:

“I – Da economia do tempo:
Comporta-te assim, meu Lucílio, reivindica o teu direito sobre ti mesmo e o tempo que até hoje foi levado embora, foi roubado ou fugiu, recolhe e aproveita esse tempo. Convence-te de que é assim como te escrevo: certos momentos nos são tomados, outros nos são furtados e outros ainda se perdem no vento. Mas a coisa mais lamentável é perder tempo por negligência. Se pensares bem, passamos grande parte da vida agindo mal, a maior parte sem fazer nada, ou fazendo algo diferente do que se deveria fazer.
Podes me indicar alguém que dê valor ao seu tempo, valorize o seu dia, entenda que se morre diariamente? Nisso, pois, falhamos: pensamos que a morte é coisa do futuro, mas parte dela já é coisa do passado. Qualquer tempo que já passou pertence à morte.
Então, caro Lucílio, procura fazer aquilo que me escreves: aproveita todas as horas; serás menos dependente do amanhã se te lançares ao presente. Enquanto adiamos, a vida se vai. Todas as coisas, Lucílio, nos são alheias; só o tempo é nosso. A natureza deu-nos posse de uma única coisa fugaz e escorregadia, da qual qualquer um que queira pode nos privar. E é tanta a estupidez dos mortais que, por coisas insignificantes e desprezíveis, as quais certamente se podem recuperar, concordam em contrair dívidas de bom grado, mas ninguém pensa que alguém lhe deva algo ao tomar o seu tempo, quando, na verdade, ele é único, e mesmo aquele que reconhece que o recebeu não pode devolver esse tempo de quem tirou.
Talvez me perguntes o que faço para te dar esses conselhos. Eu te direi francamente: tenho consciência de que vivo de modo requintado, porém cuidadoso. Não posso dizer que não perco nada, mas posso dizer o que perco, o porquê e como; e te darei as razões pelas quais me considero miserável. No entanto, a mim acontece o que ocorre com a maioria que está na miséria não por culpa própria: todos estão prontos a desculpar, ninguém a dar a mão.
E agora? A uma pessoa para a qual basta o pouco que lhe resta, não a considero pobre. Mas é melhor que tu conserves os teus pertences, e começaras em tempo hábil. Porque, como diz um sábio ditado, é tarde para poupar quando só resta o fundo da garrafa. E o que sobra é muito pouco, é o pior. Passa bem!”

Diante dos últimos eventos que me aconteceram neste 2015, torna-se imperativo pensar sobre o tempo perdido. O único patrimônio que realmente perdemos na vida é o tempo. É tão fácil tirar tempo de alguém, forçá-lo a esperar ou retardar o desfecho das situações, que, quando vemos, o nosso instante de decisão já passou.

O alerta de Sêneca é válido: “aproveita todas as horas; serás menos dependente do amanhã se te lançares ao presente. Enquanto adiamos, a vida se vai. Todas as coisas, Lucílio, nos são alheias; só o tempo é nosso.” Portanto, para 2016, espero que vocês façam como eu e não percam mais tempo fazendo o que não querem, esperando quem não merece e postergando decisões que já deveriam ter tomado. Valorizem ao máximo o tempo, pois ele é nosso, e não tem muita paciência.

seneca_Metropolix

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Uma conversa sobre personagens, corvos e cotovelos

É semana de Natal, e todos estão pensando em festas, em temas natalinos, em presentes, em amigos secretos, em paz na Terra entre os homens de boa vontade, mas eu estou pensando no cotovelo da Anna Karenina e em Grip, o corvo de Charles Dickens que virou personagem de duas histórias clássicas.

Melhor começar de novo. Mas, em verdade vos digo, chegaremos ao cotovelo da Anna Karenina.

A unanimidade da crítica e do público aponta Dickens como autor da história de Natal mais famosa de todos os tempos: “Christmas Carol”, ou “Um conto de Natal”. Uma história tão marcante que modificou nossos hábitos natalinos e se incrustou na mentalidade ocidental. Ali estão os rudimentos do que fazemos até hoje, desde a troca de presentes até a revisão de caráter. Muitos podem imaginar que a Bíblia contém dispositivos específicos sobre o que fazemos na noite de Natal, mas não, foi a Literatura quem fez isto. E o mais engraçado é que Dickens mudou toda a nossa visão da noite de Natal por um único motivo: sobrevivência. Sim, ele queria ganhar dinheiro, muito dinheiro, e escreveu “Um conto de Natal”. Conseguiu seu objetivo e, melhor ainda, não ficou estigmatizado pela própria criação, como aconteceu com Conan Doyle e Sherlock Holmes. Impossível não lembrar a lição de Chesterton sobre Dickens: “um grande homem é aquele que faz todos se sentirem pequenos. No entanto, um homem excepcional é aquele que faz todos ao seu redor se sentirem maiores.” Um homem excepcional, eis a melhor definição para Dickens.

Não gosto de “Um conto de Natal” por um motivo talvez prosaico: simpatizo com o Sr. Scrooge antes dos três fantasmas que vão incomodá-lo. Acho divertido seu mau humor e sua sovinice. Na minha leitura, os fantasmas são um bando de chatos insuportáveis, cheios de más intenções. Considero uma história interessante e nada mais do que isto, ainda que, hoje, já a tenho resumido como “o dia em que o politicamente correto apareceu para deixar alguém culpado”. É a minha visão, e espero que ninguém concorde com ela.

Charles Dickens no seu estúdio em Gad's Hill Place

Charles Dickens no seu estúdio em Gad’s Hill Place

Para mim, a melhor história é “Natal na barca”, de Lygia Fagundes Telles. Um conto perfeito é aquele que expressa as angústias humanas com mínimas pinceladas. Quem nunca olhou um bebê no colo da mãe e teve um arrepio ao imaginá-lo morto? O diálogo travado entre a narradora e a mãe é repleto de sutilezas religiosas, e imaginar que Deus pode estar ao nosso lado, intercedendo em silêncio por caminhos misteriosos, representa muito bem o espírito natalino. O próprio cenário escolhido – uma barca – remonta ao conceito de vida como um rio por onde transitamos, conduzidos por um Caronte invisível e algo distante. Inclusive, abstraindo as alegorias e horrores que tal sugestão pode causar, seria muito mais vantajoso para as pessoas lerem, nesta data, “Natal na barca” ao invés do Evangelho, pois entenderiam melhor o sentido, mas a minha opinião deve ser a minoria da minoria.

Em 1977, Lygia Fagundes Telles foi entrevistada por Clarice Lispector. Um encontro memorável entre duas forças literárias. Ainda tenho a convicção secreta de que, um dia, seremos considerados as pessoas que viveram na época de Lygia Fagundes Telles e Marina Colasanti. A descrição sucinta da amizade de ambas, segundo Clarice, faz sorrir: “O fato dela vir ao Rio, o que me facilitaria as coisas, combina com Lygia: ela nunca dificulta nada. Conheço a Lygia desde o começo do sempre, pois não me lembro de ter sido apresentada a ela. Nós nos adoramos. As nossas conversas são francas e as mais variadas. Ora se fala em livros, ora se fala sobre maquilagem e moda, não temos preconceitos. Às vezes se fala em homens.”

Em seguida, Clarice Lispector faz um importante depoimento sobre a diferença entre escritores e escritoras: “Antes de começar a entrevista, quero lembrar que, na língua portuguesa, ao contrário de muitas outras línguas, usam-se poetas e poetisas, autor e autora. Poetisa, por exemplo, ridiculariza a mulher-poeta. Com Lygia, há o hábito de se escrever que ela é uma das melhores contistas do Brasil. Mas, do jeitinho como escrevem, parece que é só entre as mulheres escritoras que ela é boa. Erro. Lygia é também entre os homens escritores um dos escritores maiores. (…). De modo que falemos dela como ótimo autor.” O importante é escrever bem, não o gênero do autor. É evidente que mulheres possuem maior dificuldade de acesso às editoras, mas é algo que deve ser combatido junto às editoras. Nunca fui uma pessoa que escolhe livros pelo gênero, raça ou pensamento político do seu autor, sempre me guiei por este farol único que é uma boa história contada de forma ardilosa.

No meio da entrevista, Lygia Fagundes Telles descreve o seu método de criação de histórias e de personagens: “(…) um conto pode dar assim a impressão de ser um mero retrato que se vê e, em seguida, esquece. Mas ninguém vai esquecer esse conto-retrato se nesse retrato houver algo mais além da imagem estática. O retrato de uma árvore é o retrato de uma árvore. Contudo, se a gente sentir que há alguém atrás dessa árvore, que detrás dela alguma coisa está acontecendo ou vai acontecer, se a gente sentir, intuir que na aparente imobilidade está a vida palpitando no chão de insetos, ervas – então esse será um retrato inesquecível.”

Lygia Fagundes Telles

Lygia Fagundes Telles

É uma visão interessante, a ideia de que tudo precisa ter algo por trás para existir na literatura, e expressa uma conversa recente que tive em um jantar. Em uma mesa repleta de escritores, o único não-autor perguntou de onde tirávamos nossos personagens. As respostas foram as mais variadas possíveis: alguns tiram de pessoas reais, outros fazem uma fusão de pessoas. Lembrei de Turgueniev, que dizia ser impossível descrever um personagem sem que existisse uma pessoa idêntica a ele no mundo.

Contudo, a resposta que dei surpreendeu a mim mesmo. Confessei que não sabia se criava personagens inteiros, mas pedaços de pessoas. E coloco, nas tramas, os pedaços que melhor me interessam para efeitos narrativos: se preciso de um personagem que grita, trato da sua voz e talvez de um detalhe físico; se necessito de uma mulher bonita, descrevo os seus detalhes anatômicos, mas não abordo as suas imperfeições, a não ser que concedam mais charme. Para mim, personagens são pedaços, e não criaturas de carne e osso. Pode acontecer de alguma pessoa se enxergar em alguém que descrevi, mas depende mais do olho do observador ansioso para se encontrar do que da minha intenção.

Pior ainda: enquanto respondia, notei, para meu pavor, que escrevera um conto inteiro descrevendo o meu método de criação de personagens. Impressionante quando a literatura nos explica algo que a consciência própria ainda não tinha visto. É o conto que abre meu livro, e se chama “Antes da batalha”. Resumo ele da seguinte forma: na longa praia da criação, pedaços de personagens se juntam para criar um único personagem inteiro, alguém capaz de confrontar o seu criador. É um conto autobiográfico – o desejo secreto que os personagens que criei se juntem para me dar uma sova.

Mais tarde naquela mesma noite, percebi que não sou eu o errado, mas o mundo inteiro é assim. Olhamos somente detalhes das pessoas; construímos personagens com base em observações insuficientes e equivocadas. Não sei se temos a capacidade de compreender alguma pessoa de forma integral. Quando achamos que a compreendemos, ela não é mais a mesma. Como também falamos sobre Waterloo no jantar, alguns podem achar que Napoleão era um déspota, mas outros, com as mesmas informações, podem considerá-lo um salvador. Tudo depende do ângulo – ou daquilo que queremos ver por trás da árvore mencionada por Lygia Fagundes Telles.

Os personagens são somente espectros em que o autor faz incidir a sua própria vontade. Charles Dickens tinha um corvo, o Grip. Ele amava o pássaro. Divertia-se contando as suas histórias em todos os encontros literários. Era praticamente um membro da família. Ficou famosa a história de quando um amigo de Dickens, no meio de um jantar enfadonho, exclamou que o autor estava “louco por um corvo” [raven mad], expressando a paixão do outro pelo animal de estimação. A expressão correu Londres e, alguns dias depois, um jornal publicou, mencionado uma “fonte conhecida”, que Dickens estava “louco furioso” [raving mad].

Quando Grip morreu, o escritor mandou empalhá-lo (aliás, as descrições de Dickens, feitas em carta, dos últimos momentos do pássaro, que estava no “leito de morte” e ficou subitamente animado quando surrupiou e tomou o óleo de castor que o médico levara, são cômicas e tristes ao mesmo tempo). Mas, pouco antes do falecimento de Grip, Dickens resolveu transformar o corvo em um personagem de “Barnaby Rudge”, conforme admitiu em carta: “Como Barnaby é um idiota, minha ideia é fazer com que esteja sempre acompanhado de um corvo de estimação, infinitamente mais inteligente do que ele. Portanto, venho analisando o meu pássaro, e acho que posso transformá-lo em um personagem bem diferente.”

Grip virou personagem de “Barnaby Rudge”, mas não se limitou aí a sua importância para a literatura. Uma das primeiras pessoas a resenhar “Barnaby Rudge” nos Estados Unidos foi Edgar Allan Poe. Mesmo elogiando o livro, Poe criticou a fraqueza da trama e a obviedade do desenlace final. No entanto, durante a resenha, ele analisou o corvo como personagem, e lamentou que ele tivesse sido pouco desenvolvido, pois “o seu grasnido podia ser ouvido profeticamente no decorrer da trama”. Dois anos depois, ao escrever o poema “O corvo”, Poe pensou em um papagaio, mas achou colorido demais. Acabou escolhendo um corvo, e é assim que Grip, o mau humorado pássaro de Dickens, entrou sem querer em duas obras literárias.

Gerald Dickens, sucessor de Charles Dickens, com Grip, o Corvo

Gerald Dickens, sucessor de Charles Dickens, com Grip, o Corvo

Não sabemos de onde os personagens podem sair, mas é inegável que eles se escondem em qualquer lugar. Durante dois anos, Leon Tolstói sonhou em escrever a história de uma mulher sufocada pela sociedade do seu tempo, mas não achava a voz narrativa e a aparência dela. Certa vez, em uma festa na casa do general Tulubyev, o autor viu uma bela mulher de cabelos negros encaracolados e caminhar suave. Perguntou para a sua cunhada quem era, e descobriu que se chamava Maria Hartung, filha de Alexandre Pushkin.

Na mesma noite, o escritor russo estava deitado no seu estúdio quando teve um súbito devaneio e, nele, distinguiu o cotovelo nu de alguém. A imagem se abriu aos poucos e Tolstói viu uma mulher se revelando como uma flor diante do orvalho, vestida em um elegante vestido verde de baile. No entanto, apesar do clima festivo ao redor, o olhar feminino estava impregnado de tristeza. Tolstói voltou a si, mas sabia que encontrara, enfim, a sua Anna Karenina.

Quando leu a notícia de que Ana Stepanova Pirogova, que estava de caso com um vizinho seu, ao saber que ele escolhera outra mulher para casar, se jogara na frente de um trem, soube qual seria o desenlace do seu romance. Tão forte foi a impressão que Maria Hartung causou que Tolstói releu a obra de Pushkin, encontrando, no outro, a maneira de contar o romance que estava ansioso para aflorar de dentro de si. Na primeira versão do livro, como forma de homenagem, o russo decidiu colocar na família de Anna Karenina o sobrenome de Pushkin, mas isto não se manteve na revisão.

Seja em uma árvore, seja em um corvo, seja em um cotovelo, os personagens estão por aí. E todos os dias nós criamos personagens, tomando por base uma risada, um piscar de olhos, um sorriso distraído. Nunca entenderemos completo o outro, somente aquilo que seus pedaços querem dizer e, se existe algo que podemos exercitar neste período de festas (em especial perto do “tio do pavê”), é aprender não a julgar com base nas imagens que fazemos, mas a perdoar os outros por suas fraquezas. Nenhum personagem nasce forte. É o conjunto dos seus detalhes que acaba lhe dando a fortaleza necessária. Olhamos somente pedaços, nunca teremos panoramas absolutos sobre qualquer pessoa. Eis a nossa fraqueza – e eis a nossa força.

"Maria Alexandrovna Hartung" (1860), em quadro desenhado por Ivan Makarov

“Maria Alexandrovna Hartung” (1860), em quadro desenhado por Ivan Makarov

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Texto publicado na revista eletrônica da Dublinense (09/12/2015): “Quando a literatura chuta a porta da realidade”

No texto desta semana na revista eletrônica da Dublinense, abordei a complicada relação entre literatura e realidade, mas pelo ângulo daquilo que vira real por força impositiva da ficção. Abordei alguns casos – é evidente que existem muitos outros – e falei um pouco sobre pan Longinus Podbipieta, um personagem da “Trilogia” de Henryk Sienkiewicz que sempre me fascinou. Normalmente as pessoas falam de “Quo Vadis”, outro excelente livro do Sienkiewicz (tem a minha cena favorita entre todos os livros ue já li, a cena de Ursus enfrentando o touro no Anfiteatro Flávio), mas a Trilogia possui tantas nuances e detalhes históricos – como o fato de se basear em personagens subalternos da História, mas que não só existiram como, através dos seus dramas pequenos, acabaram sendo decisivos para a própria civilização ocidental. Ou, como eu gosto de dizer, “se não fossem os polacos do passado, hoje o mundo inteiro estaria falando árabe”.

Boa leitura!

 

Quando a literatura chuta a porta da realidade

Muitas pessoas falam de como a realidade afeta a literatura, mas poucos discutem o contrário: aquele momento em que a literatura sai da segurança das páginas do livro e deforma o mundo em que vivemos, passando a fazer parte indissolúvel dele.

Dois anos atrás, estava em Montevidéu quando decidi seguir o “Guía Benedetti de Montevideo”. Através de um mapa disponibilizado na internet pela fundação que leva o seu nome, um leitor de Benedetti pode seguir a trilha descrita nos livros, poemas e contos. Como grande admirador da obra deixada pelo escritor uruguaio, não era tão difícil encontrar os cenários das suas histórias; era possível inclusive, com um esforço imaginativo, ver os seus personagens interagindo no meio das pessoas, ao ponto de ser impossível saber quem estava ali e quem só morava na minha imaginação (ou na de Benedetti). Por questões de tempo, só consegui realizar dois percursos, o da Ciudad Vieja e do Centro, mas foi uma sensação extremamente prazerosa passear pelos locais descritos em livros como “Gracias por el fuego”, “Montevideanos” e “La tregua”. Também estive em lugares não mencionados no guia, mas cujas descrições remetiam a pontos existentes na cidade. Era um dia de sol discreto, e foi interessante constatar como Montevidéu estava alterada pela prosa límpida de Benedetti, sempre capaz de perceber um ângulo inusitado em meio à dureza do mundo real.

O artista Ben Heine interfere na realidade com desenhos a lápis

Toda forma de expressão artística lança sombras sobre a realidade. Eu vejo movimentos de dança quando alguém se desvia de uma pessoa na calçada; percebo Monet me espiando dentro de algum por de sol indiferente, assim como recordo de Renoir no meio de um jardim deserto; jurei ter escutado Mozart quando, atrasado, corria para um compromisso profissional. A arte caminha por aí, alterando os nossos passos, e tenho a secreta convicção de que as pessoas fecham os olhos e ouvidos para as interferências artísticas que insistem em se interpor na sua rotina. É mais cômodo viver em um mundo repleto de arestas reais ao invés de mergulhar na insanidade gerada pelas múltiplas conexões da arte no nosso dia a dia.

Às vezes, o que nos salva do desânimo gerado pela realidade, esta onda implacável que insiste em esboroar os nossos sonhos, é a imaginação. A capacidade de pensar além daquilo que os sentidos detectam. Nos seus anos de pobreza, Honoré de Balzac necessitou morar em um casebre destituído de aquecimento e de móveis. As suas refeições diárias consistiam em um pão velho embebido em água. Para se ter uma ideia, tão pobre estava Balzac na época que, ao despertar de um cochilo e ver um ladrão tentando arrombar a gaveta da sua escrivaninha, deu uma gargalhada e disse “Não tens chance alguma de encontrar dinheiro na minha escrivaninha à noite, ainda mais quando eu, o proprietário legal dela, jamais consigo encontrar dinheiro algum durante o dia!”.

A forma que ele criou para lidar com a pobreza foi buscar refúgio na sua imaginação. Para tanto, o autor de “A comédia humana” escreveu nas paredes vazias do apartamento aquilo que desejava ver. Em uma delas, escreveu “Tapeçaria Gobelin com espelho veneziano”. Acima da lareira, escreveu “Pintura de Rafael”. Na parede do quarto, “Painel de madeira pau-rosa com cômoda”. Quando lia os seus escritos, o autor saía da realidade que tentava lhe sufocar e ia para outro mundo, um local confortável criado sob medida pela sua criatividade, em um procedimento que lhe impedia de enlouquecer.

Balzac também era um rematado glutão e, durante três longos anos, quando encarava o pão velho e a água, ele pensava nos maiores banquetes e, assim, a sua imaginação substituía a realidade. Em certa ocasião, um livreiro de Paris foi visitá-lo e desistiu de publicar a sua obra por acreditar que nada decente poderia sair de ambiente tão horrível. O livreiro destacou o frio no interior do apartamento e, assim como Balzac fez, podemos supor a incrível imaginação de um homem, capaz de sobreviver aos invernos parisienses pelo truque nada fácil de criar mentalmente um aquecedor que não existia.

No filme Mais estranho que a ficção, a realidade é escrita

As pessoas sofrem graças ao excesso de realismo. Se cedessem mais espaço para as suas imaginações, boa parte do consumismo desenfreado da atualidade e da busca quase insana por respostas impossíveis deixaria de existir. Viver em um mundo exclusivamente imaginário também é garantia de dor, mas saber oscilar entre a fantasia e a realidade permite-nos suportar as nossas próprias limitações.

A literatura é uma forma de estimular nosso escapismo das verdades que preferimos não ver, muito mais do que a ideia de “simulação da realidade como forma de preparação para aflições e alegrias futuras” como pretendiam as teorias clássicas. De acordo com elas, se uma pessoa lesse um livro sobre luto, estaria mais preparada para enfrentá-lo no instante oportuno; se lesse sobre o amor, poderia estar mais cautelosa quando ele surgisse. Além de simular situações, a literatura também serviria como conforto. Não é à toa que, no seu leito de morte, o último pedido de Balzac foi “Alguém mande chamar Bianchon… ele sabe como me salvar!” Bianchon foi o médico que o escritor francês colocou em “A comédia humana”. O pedido de Balzac tanto pode ser interpretado como um delírio quanto uma forma de pedir que a literatura venha salvar a sua vida.

Contudo, existem momentos que a ficção não só se mistura com a realidade como também lhe dá uma sova. Foi o que aconteceu com a obra máxima de Henryk Sienkiewicz, a “Trilogia”, constituída por “A ferro e fogo”, “O dilúvio” e “O pequeno cavaleiro”. Lançada na forma de folhetins publicados em jornal no início do século XX, a “Trilogia” mudou a noção de pátria da Polônia e, além disso, alterou a realidade de uma maneira que repercute até hoje.

No primeiro volume, “A ferro e fogo”, que descreve a luta dos poloneses contra os cossacos, Sienkiewicz inseriu um personagem secundário que logo caiu nas graças dos leitores: pan (“senhor”) Longinus Podbipieta, um “lituano gigante, de força indomável e coração sensível”. Com dois metros de altura, pan Longinus tinha uma espada tão pesada e portentosa que somente ele era capaz de erguê-la. Era um dos soldados mais ansiosos pela guerra, pois prometera manter um voto de castidade até o dia em que repetisse a proeza de um antepassado na Batalha de Grunwald, que arrancara as cabeças de três soldados inimigos em um golpe único. As frustrações de pan Longinus relacionavam-se com a falta de disciplina dos cossacos, que nunca ficavam perfeitamente alinhados por tempo suficiente para lhe permitir o golpe decisivo. Apesar de ser um homem descomunal e temível, ele era respeitador dos amigos (que aproveitavam para zombar do voto de castidade, em especial pan Zagloba, considerado, com justiça, o “Falstaff polonês”) e tímido ao ponto de ruborizar quando falava com mulheres.

Acho curioso quando elogiam a coragem de George R. R. Martin de matar personagens adorados pelos leitores em “As crônicas de gelo e fogo”, pois Sienkiewicz agiu muito pior. Depois de fazer os leitores se apaixonarem pelo caráter misto de delicado e selvagem de pan Longinus, depois das decepções dele tentando cortar três cabeças cossacas, depois de se apaixonar por uma mulher e ir para os combates com mais vontade ainda de se livrar do incômodo voto de castidade, Henryk Sienkiewicz colocou o quarteto central do livro em uma luta impossível. No final do capítulo, o “Leão Lituano” estava cercado por inimigos e, quando os seus aliados fugiram, ainda escutaram os gritos de júbilo do companheiro no momento em que, enfim, realizou a sua promessa, momentos antes de ser assassinado.

A morte de pan Longinus caiu como uma bomba no meio da Polônia. No domingo seguinte, as igrejas se encheram de leitores. Os padres tiveram que celebrar dezenas de missas em nome do personagem; os sinos tocavam de forma ininterrupta. No intervalo de um mês inteiro, boa parte dos poloneses guardou luto pela morte honrosa de pan Longinus. Não bastando, durante alguns anos, o nome “Longinus” foi o campeão entre os recém-nascidos poloneses, e é um nome que ainda hoje aparece nas certidões de nascimento. Estes fatos aconteceram antes do advento da internet, o que deixa a façanha do escritor polonês ainda mais memorável. Também vale destacar que, ao contrário dos tempos atuais, em que se matam personagens e, depois, se encontra uma forma de ressuscitá-los, naquela época a morte representava o fim verdadeiro, sem nenhuma possibilidade de retorno.

A morte de pan Longinus

A morte de pan Longinus

A morte de um personagem pode ser sentida como a morte de alguém da família? Sienkiewicz demonstrou que a ficção pode abandonar as folhas de um livro e repercutir na realidade, alterando-a de forma indelével. Ele não fez isto somente com pan Longinus: também criou Bohun, um vilão charmoso e atormentado por um amor tão impossível pela mocinha indiferente que as mulheres da Polônia em massa se apaixonaram pelo lado errado da guerra, além da famosa história da “colubrina de Kmicic”, um canhão fictício que estava no cerco de Jasná Gora e destruído por Kmicic, descrito com tamanha riqueza de detalhes que, hoje, nas proximidades da Catedral de Czestochowa, colocaram um canhão para satisfazer os leitores que continuam indo até a cidade para ver algo que existiu somente na ficção.

Mas não são os únicos exemplos. Nas palestras que ministro sobre a relação entre literatura e terror, sempre mostro o “kit vampiro”, uma mala muito vendida na Europa do passado, contendo estacas, um revólver com balas de prata, uma Bíblia e um colar de alhos. Até cinquenta anos após a publicação de “Drácula” de Bram Stoker, quando alguém ia viajar para Europa Oriental, era costume adquirir estas malas, pois não se sabia quando um vampiro poderia aparecer.

Kit contra vampiros reais e ficcionais

Também podemos lembrar da onda de suicídios que varreu a Alemanha após a publicação de “Os sofrimentos do jovem Werther”, de Goethe, quando vários jovens se mataram por amor, influenciados pelos sentimentos descritos no livro. A literatura invade a realidade sem demonstrar escrúpulos, existindo o severo risco de, inadvertidamente, causar mortes e outros problemas.

Os exemplos de Balzac, mobiliando sua casa deserta com a força da imaginação, e de Sienkiewicz, criando um personagem que morreu dentro de um livro e foi velado na realidade, demonstram que a maior força de uma pessoa encontra-se no seu interior. Quando imaginamos, somos capazes de mudar qualquer realidade. Se existe algo que a literatura nos ensina é que não somos meros joguetes do Destino, mas escravos daquilo que pensamos, o que deixa a tarefa de criar e imaginar ainda mais vital, o oxigênio para a realidade.

 

Texto originalmente publicado no link https://medium.com/colecao-dublinense/quando-a-literatura-chuta-a-porta-da-realidade-e1f4a6e38ee4#.ikc2a6yxd

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Quando escritores se reúnem: sobre a “Antologia de Literatura Fantástica”, de Borges, Ocampo e Bioy Casares.

Foi com certa tristeza que fui informado, nessa semana, do encerramento das atividades da editora Cosac Naify. Sou (era) um dos maiores clientes dela. Adquiri inúmeros livros de autores que adoro: Tolstói, Melville, Victor Hugo, Henry James, entre outros. Também investi em autores que não conhecia e muito me surpreenderam: Rogério Teixeira, Angélica Freitas, Ronaldo Correia de Brito. Livros que não somente possuíam conteúdo primoroso, como eram verdadeiras obras de arte.

Dois anos atrás, convidado pelo amigo e escritor Antonio Xerxenesky, escrevi uma resenha sobre “Antologia de Literatura Fantástica”, seleção clássica de textos feita por Jorge Luis Borges, Silvina Ocampo e Adolfo Bioy Casares. Era um livro que, por muitos anos, tive vontade de ler, mas não existia de forma integral no Brasil. Quando recebi o convite para resenhá-lo, prontamente aceitei, e o resultado foi este texto. Como não sei o que acontecerá com as resenhas localizadas no blog da Cosac Naify, achei prudente trazê-lo para cá.

O texto parte de uma premissa simples: o que acontece quando escritores se reúnem? Quando forças criativas se localizam em um espaço reduzido? Com certeza, algo acontecerá. Seja um livro ou uma conversa instigante, mas o equilíbrio do mundo nunca mais será o mesmo. Tentei imaginar as reuniões de Borges, Bioy Casares e Ocampo, falando histórias fantásticas e as discutindo nos mínimos detalhes. O resultado de tal esforço imaginativo é este texto.

Boa leitura!

 

antologia

 

Quando escritores se reúnem
Por Gustavo Melo Czekster
29/10/2013 às 16:26

Coisas muito estranhas ocorrem nos encontros de escritores. Como lembra Ursula K. Le Guin, quando Lord Byron, Percy Shelley, Mary Shelley, John William Polidori e Claire Clarmont resolveram passar juntos o verão em um vilarejo próximo de Genebra, na Suíça, provavelmente não imaginavam que, após uma noite de tédio e um jogo perigoso, chegaria ao mundo Frankenstein, assustadora alegoria que nos mostra que todo homem é formado por pedaços de outros (ou cada escritor também é a síntese de vários). Nunca saberemos as conversas que o quinteto teve enquanto caminhava na beira do lago, as histórias urdidas pelo frigir das mais leves ideias, as faíscas criativas que surgiam nos jantares, nos coquetéis ou dentro do mais prosaico “boa noite”.

Da mesma forma, só podemos presumir os chás, o estremecer de colheres de prata em xícaras delicadas, os risos polidos e o reluzir dos olhos de Jonathan Swift, Alexander Pope, Robert Harley, Mortimer, Thomas Parnell e outros artistas que, reunidos para trocar ideias em um clube de Londres, acabaram criando um autor fictício, amálgama obsceno de demiurgos. Ele assumiu o nome de Martinus Scriblerius e passou a assombrar as obras dos seus inventores; dizem que é o verdadeiro autor de As viagens de Gulliver. No Brasil, o chá foi trocado por bebidas mais adequadas aos trópicos e, ao redor de uma mesa de bar, ao som de risadas brejeiras e de desafios impregnados de poesia, Olavo Bilac, Aluísio Azevedo, Coelho Neto e Pardal Mallet convocaram do vazio a figura de Victor Leal, o autor que escrevia aquilo que eles não podiam dizer, o supremo bode expiatório da literatura alheia. Quando escritores se encontram longe do olhar dos leitores, qualquer maravilha pode acontecer. Entre elas, até mesmo uma inocente conversa, se é que podemos usar tal adjetivo para literatos.

Quando Jorge Luis Borges, Adolfo Bioy Casares e Silvina Ocampo se encontraram para conversar em uma noite perdida do ano de 1937, abriu-se uma janela no espaço-tempo da criatividade. Como as nuvens negras precedem o alívio do relâmpago, era evidente que o mundo não escaparia ileso de tal reunião. Escritores deste tipo não conversam; eles adejam no limite da criação, na zona sem fim que cerca as impossibilidades. Nunca saberemos por quais meandros a conversa acabou chegando ao assunto que lhes apaixonava: a literatura fantástica. Nunca conheceremos as provocações, as ironias, as demonstrações de cultura com que os três autores se brindaram nesta noite eterna. Só temos acesso ao resultado: a Antologia de Literatura Fantástica, esboçada em 1937 e lançada em 1940.

Bioy Casares, Silvina Ocampo e J. L. Borges

Bioy Casares, Silvina Ocampo e J. L. Borges

No prólogo, Bioy Casares conta a origem do livro e afirma que, para organizá-la, seguiram um “critério hedônico”. Não foram escolhidas as obras exemplares de alguns escritores ou as mais famosas. Guy de Maupassant, que possui vários contos com teor sobrenatural, teve escolhido “Quem sabe?”, história que não se destaca na sua produção. O critério maior foi o prazer e a maneira com que as tramas ainda retiniam na memória dos organizadores da antologia. Por não terem feito um livro para agradar aos outros leitores, mas a si mesmos, eles acabaram chegando ao âmago do fantástico: aquilo que continua inquietando o espírito do leitor mesmo quando as palavras morrem.

Quem espera uma antologia convencional irá ficar espantado. Borges, Bioy Casares e Ocampo pretendem uma antologia de literatura, ou seja, algo que não possui uma forma exclusiva. Contos extensos cedem lugar para trechos de romances, que, por sua vez, são sucedidos por excertos de peças de teatro. Histórias de alto teor de complexidade são alternadas por fábulas quase pueris.

Por trás desta escolha, encontra-se o maior objetivo da antologia: mostrar que o inesperado desliza ao lado da rotina, apto a ser visto por qualquer pessoa que se disponha a aceitar que nada é aquilo que aparenta ser, que tudo é flutuação, tudo é instabilidade – inclusive o mundo dito “real”. Para fortalecer a ideia, algumas histórias sequer são idênticas às originais. Sofreram interferências dos organizadores, tanto na sua tradução quanto no “esmerilhamento” de detalhes, como muito bem destaca Walter Carlos Costa no ensaio que encerra o livro. Ele conta que alguns autores da antologia podem ter sido “imaginados” pelos escritores e que certas tramas são falsas atribuições. Existe um grande mérito em fazer uma antologia de literatura fantástica, mas trazer o fantástico para a forma displicentemente aleatória com que ela foi construída e inserir elementos irreais no seu meio é outra característica que deixa a leitura mais envolvente. Nunca se sabe qual será a versão do sobrenatural que espera em cada página – e nem se estamos lendo uma história “verdadeira”. Dentro do livro, o universo se torna trêmulo.

Borges, Bioy Casares e Ocampo recusam-se a ceder aos confortos do gênero literário, transitando entre autores, épocas e estilos diferentes para destacar aquele coeficiente de estranheza que os fascina e faz as histórias permanecerem assombrando as suas recordações. Escritores famosos, arqueólogos, exploradores, autores desconhecidos, dramaturgos ou filósofos, não existem diferenciações quando o assunto é o imponderável. A organização por ordem alfabética faz com que as histórias desprezem a cronologia em que surgiram, permitindo que diferentes visões da literatura fantástica travem um contato hesitante, no qual o leitor se sente numa montanha russa de espantos.

É um exercício pensar qual escritor foi o responsável pela lembrança de cada segmento, tomando por base a sua obra para tecer suposições. Ainda assim, o acúmulo de autores desconhecidos, as histórias mágicas que não encontraram a devida ressonância na sua época e os trechos descontextualizados de escritores que tocaram de forma involuntária nas fímbrias do fantástico, tudo contribui para transformar o livro em um desafio às leis da verossimilhança. Ao se aventurar pela Antologia, os leitores esquecem as linhas que separam o real do imaginário. Perseguem uma nuvem que constantemente se esquiva; quando pensam que entenderam o significado mais puro da irrealidade, a história seguinte desmorona com esta pretensão. O fantástico está sempre dois passos à frente, mandando piscadelas cúmplices para o leitor que tenta compreendê-lo, até o momento em que ele desiste e passa a aceitar as suas regras, formadas por neblina e labaredas. Passa a aceitar que pode ser um fantasma lendo um livro.

Nunca saberemos a temperatura desta noite “tão longa quanto o medo”, ou a comida que foi servida (se é que foi servida alguma), ou as bebidas degustadas. Nunca saberemos o timbre das vozes, a ordem em que a conversa se sucedeu, se era em tom de paródia ou de prepotência. O que sabemos é o seguinte: em uma determinada noite de 1937, três escritores se reuniram e, enquanto o Tempo batia nas janelas tentando entrar, enquanto o mundo rugia ao redor com seus compromissos e pressas, eles trocaram histórias sobre fantasmas arrependidos, sobre demônios que fazem contratos pela alma de artistas, sobre homens que se transformam em deuses e deuses que se arrastam pelas ruas. A realidade esmurrava portas e tentava se esgueirar por frestas, mas, dentro da improvável sala, o fantástico e o impossível rolava de boca em boca, de história em história, assumindo as mais diferentes formas no bruxuleio da lareira. Quando escritores se reúnem, o fantástico está sempre à espreita, ansioso para participar da conversa. E muitas histórias começam assim: “Em uma certa noite de 1937, três escritores se reuniram para conversar sobre literatura fantástica”. O resto é história e História.

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