Arquivo do mês: maio 2012

Dos perigos de se ter leitores

Assim como Velázquez foi capaz de surpreender os espectadores silenciosos do quadro “As Meninas” ao colocar um espelho no fundo da tela, um autor também pode refletir e desmascarar os leitores do seu livro. Para tanto, basta revelar os bastidores da recepção, não aquela feita pela crítica (posto que é de outra ordem), mas a proporcionada por leitores anônimos e outros nem tanto, escolhendo algumas situações significativas e esperando que elas se encaixem nas reações de outras pessoas.

Então, este texto é uma espécie de homenagem, uma ode à importância de se ter leitores. Só estou o divulgando no blog por que hoje recebi uma mensagem perguntando se o texto era meu ou era de algum apócrifo, pois ele estaria na internet como sendo meu. Sim, fui eu quem o escrevi e, não, não acredito que isto aconteceu comigo. Escrevi o texto no início do ano à pedido da Dublinense, minha brava editora, mas tenho certeza que não irão se importar com esta divulgação (até por que se quiserem outro, eu faço, hoc principium non siccare).

Muito obrigado aos leitores (do livro e do blog) e espero que se divirtam tanto quanto eu me diverti escrevendo.

Dos perigos de se ter leitores

Quando uma pessoa escreve um livro, ela também se torna o primeiro leitor. Poderia afirmar-se o único, não fossem as criaturas que se escondem nos fundos das gavetas e nos recônditos ocultos dos armários.
No instante em que publica o livro, porém, esta mesma pessoa passa a ser o autor: figura misteriosa, demiurgo solitário, que aspirou a fumaça invisível da inspiração, retirando a história do ar para fazer o verbo e transformá-la em papel. Contribuem para esta imagem etérea declarações como a de Jules Renard, no “Diário” (fevereiro de 1895): “A história que estou escrevendo existe, escrita na forma mais absolutamente perfeita, em algum lugar, no ar. Tudo o que preciso fazer é encontrá-la e copiá-la”. Sempre tive medo desta frase: acreditar nela é imaginar um mundo cheio de histórias soltas, vagando a esmo, aptas a invadir qualquer pessoa e se alojarem como vírus nas suas cabeças.
Todo autor, ao publicar o livro, deseja ser lido pelo maior número de leitores disponíveis. Sim, Umberto Eco, estou me afastando da tua ideia de que o autor escreve somente para o Leitor Ideal, figura criada pela sua mente com a qual ele interage em um diálogo fictício, pois a verdade é que, até hoje, só vi escritores que desejam ser lidos pela maior quantidade possível de pessoas. O problema é que o autor não sabe quem irá ler a sua obra, muito menos o tipo de leitura que nascerá da pororoca formada no encontro das suas palavras com a imaginação do leitor. E aí mora o perigo.
O leitor é livre. Ele pensa o que quiser e, não raro, lê o que não foi escrito. Ele conversa com a história, corrige os finais de que não gostou, responde as dúvidas deixadas. Ele até mesmo perdoa deslizes narrativos ou incongruências da personagem. No entanto, é implacável se o autor tenta enganá-lo ou abusa da sua confiança; nestes casos, a pena é a cessação do ato de ler e a condenação do livro ao rol dos não lidos.
Na condição de autor, sou constantemente assombrado por leituras dos mais diversos tipos. Existem pessoas que viram sombras e teceram associações que eu não escrevi (inclusive posso adiantar que são bem interessantes. Quisera eu ter escrito as versões alternativas). Houve aquela senhora que levou o livro para o seu grupo de estudos da Bíblia e, na outra semana, comprou mais 15 exemplares, um para cada integrante. A última informação que tive foi que eles estavam encontrando alusões e ecos das minhas palavras nos textos do Velho Testamento. Outra leitora afirmou ter ganhado R$ 42.000,00 na Loteria Federal utilizando uma insólita combinação de páginas do livro com frases, palavras e números de linha. Ela explicou a fórmula, mas não sei se devo torná-la pública. Outro, após ler os três contos iniciais, perguntou se eu estava louco, pois o livro não tinha nada de realidade. Considerando-se que literatura não é realidade, é consolador saber que me descolei tanto da verdade a ponto de ser considerado irreal. De todos eles, o melhor leitor foi aquele que, ao ler um conto, travou. Não entendeu nada. Achou a história um lixo. Lixo que se forçou a ler uma segunda e uma terceira vez, em cada uma delas achando o conto ainda pior. No entanto, ao dormir, sonhou. E, ao acordar, releu e entendeu. Agora anda por aí, vendo reminiscências da minha história em cada fato da sua vida. Não sei o que ele entendeu, e não sei se quero saber. A leitura dele não me pertence.
Não posso deixar de mencionar aqueles que, além de comprar o livro, fotografaram-no nas mais variadas situações: na porta da Livraria Cultura, na beira da piscina, andando de carro com a janela aberta, passeando num metrô espanhol, circulando nas ruas de Nova Iorque. É muito legal saber que o meu livro está curtindo uma vida própria, muito mais rica do que na época em que habitava as gavetas e delas cedia milimétricos espaços à fome das traças.
Certa vez, perguntaram a Jorge Luis Borges o que sentiu quando, ao lançar uma de suas primeiras obras, vendeu 17 exemplares. Ele respondeu que se sentia muito bem, porque conseguia imaginar 17 leitores lendo o seu livro, algo impossível de visualizar se fossem centenas de milhares de pessoas, uma multidão de rostos desvanecidos. Além disso, acrescentou que, com 17 leitores, poderia perfeitamente bater na porta de cada um deles, entrar para tomar chá e discutir os seus contos. É um pensamento que suaviza, mas não oculta a verdade: leitores são criaturas perigosas. Eles podem fazer o que quiserem com o livro, inclusive lê-lo. Podem pensar as mais variadas possibilidades, até mesmo nada. Podem ver teorias da conspiração onde a inverdade é a única regra. Podem mudar a sua própria vida lendo. Porém, mais do que tudo, os leitores podem sonhar além do papel. Em qualquer regime de tirania, os primeiros a serem sacrificados são os livros. Pensando melhor, talvez o objetivo não seja destruir obras literárias, e sim evitar que sonhos de papel possam colidir com a opressão. Por isto, justamente por serem perigosos, é que leitores são tão importantes. Eles podem mudar o que quiserem… e tudo começa com o simples ato de virar a página.

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Fragmentos de Eternidade – fragmento quatro

Antes de tudo, o silêncio. No entanto, mesmo nesta hora morta onde nada existe e o mundo parece trancar a respiração, a expectativa preenche o ar, eletricidade palpável, deixando a impressão de que, a qualquer momento, a calma irá se estilhaçar em dezenas de pedaços. Então, quando a tensão chega ao insuportável, a batida seca ecooa no chão, nervosa, e dezenas de batidas sincopadas a seguem em um crescente voluptuoso, como se o chão estivesse se transformando em um tambor, como se as entranhas da terra estivessem se contorcendo. As sombras irrompem do vazio com suas pernas finas encerradas por patas violentas, os músculos dançando o balé de sangue e carne, a respiração aos jatos gerando a neblina de onde se origina o mundo. Cada passo impulsiona o corpo para cima e para a frente e, por segundos, a fortaleza de carne se mantém estática no ar, neste improvável êxtase de imaginar-se beija-flor, enquanto as pernas encolhem e esticam, e logo a gravidade impulsiona o corpo contra o chão, para um novo passo, um novo voo. É questão de tempo até o coração ajustar-se, a contragosto, às batidas que agora escravizam a terra. Impossível não admirar os animais que passam, impossível não sentir vontade de juntar os próprios passos ao tropel, impossível não estremecer e sentir que uma parte de si acompanhou a cavalgada insana.

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Nova resenha no Amálgama

Saiu outra resenha que fiz no blog Amálgama (www.amalgama.blog.br), um dos baluartes da cultura no universo digital, pois sempre traz artigos interessantes e de extremo conteúdo intelectual para discussão. É uma grande honra estar colaborando com eles.

Desta vez, a resenha é sobre o livro “Pássaros na Boca”, da Samanta Schweblin. É uma jovem escritora argentina, que escreve contos duplamente fantásticos: em primeiro lugar, pelo tema de suas histórias e, em segundo lugar, pela extraordinária forma com que eles são narrados. Livro plenamente indicado, foi uma leitura muito prazerosa, do tipo que dá um gosto de “quero mais” assim que encerra.

Segue o link, pessoal:

 

http://www.amalgama.blog.br/05/2012/passaros-na-boca-samanta-schweblin/

Boa leitura.

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Livro: “O Sexo das Antas”, de Kelli Pedroso

 

Na minha opinião, um dos gêneros literários mais ingratos é a crônica. Por estar vinculada ao cotidiano e à velocidade das paixões e fúrias humanas, é um gênero que se presta ao consumo rápido, quase impensado, de leitores com pressa dispostos a colher a opinião ou ponto de vista de outra pessoa. A crônica ruim envelhece em questão de horas e se torna ultrapassada; no entanto, a crônica boa persiste na memória do leitor por mais tempo e, em alguns casos, pode acabar se tornando tão inesquecível quanto um romance de formação. Enganam-se aqueles que pensam que, pela sua aparente rapidez, a crônica seja fácil de escrever.  Talvez seja o único gênero em que a apreciação do seu conteúdo determina, na primeira e fatídica leitura, o sucesso ou insucesso da escritura. Não invejo os cronistas, pois esta vida de pinçar fatos do cotidano e se posicionar sobre eles é realmente muito intensa.

A primeira vez em que li “O Sexo das Antas”, da Kelli Pedroso, foi logo após o seu lançamento. Passada a curiosidade inicial, deixei esfriar as sensações desta primeira leitura e, agora, quase oito meses depois, retornei ao livro. Foi um retorno prazeroso.

A maioria das crônicas foi publicada no jornal Expresso Minuano, do Alegrete. Justamente por tal fato, muitas delas encontram-se imbrincadas com a realidade da época ou com notícias que estavam sendo veiculadas no momento da sua produção. Em alguns casos, talvez pela minha memória já falha, senti falta da notícia que deu origem à crônica, pois acreditei que a minha leitura e compreensão teriam ganhado novas chaves de interpretação. No entanto, até esta falta tem charme, pois crônicas feitas com base em notícias desconhecidas alcançam um estranho caráter de irrealidade à fatos ocorridos. Em especial no Brasil, país do impossível real, onde até a ficção tem pruridos quando confrontada com a realidade. Torna-se inacreditável que determinados fatos tenham acontecido ou, pior, nada de muito grave tenha decorrido de tais eventos. Contudo, se a crônica existe, os fatos existiram também (ou, pelo menos, eu assim acredito). Na crônica “Disseminação do mal”, a autora fala das pichações que foram feitas na Igreja do Rosário, em Porto Alegre. Esta notícia é o ponto de partida para a reflexão de como o mal se encontra espalhado pelo mundo nas mais diversas formas, encerrando com um desabafo, o desejo (impossível) de acabar com a maldade. A derradeira frase, contudo, descontrói a crônica, pois a autora admite a sua impotência, dizendo que, mesmo assim (ou apesar disso), continua imune ao mal que grassa pelo planeta, deixando no ar a incômoda pergunta que todos já se fizeram ao ler notícias de atrocidades ou desgraças: quando elas vão bater na minha porta?

As crônicas que mais gostei foram aquelas que se afastaram dos problemas do cotidiano e ingressaram no lirismo das situações. E a Kelli Pedroso tem muito lirismo na forma com que enxerga o mundo. Algumas das suas crônicas revelam emoções genuínas, que todos os leitores já compartilharam em algum momento, mas que possuem dificuldades para colocar no papel. Sem medo de soar piegas (e, o mais incrível, sem soar piegas, mesmo com a exploração de assuntos já tão repisados na ficção, como a morte, o desamparo, a solidão, a infância), a autora compartilha a sua vivência e sua forma de ver o mundo com o leitor. Algumas crônicas escapam do seu limite teórico e resvalam na área do conto, como, por exemplo, “Guriazinha”, onde a narradora conta uma experiência de forma tão vívida que o espaço entre sonho e realidade se torna quase indistinto. Da mesma forma, “Bananas” parte de um episódio vivenciado pela narradora – a sua predileção por bananas – e sobe de forma intensa, até um final misterioso, misto de comédia e seriedade, quando afirma ter pego o cipó para ir embora.

Um dos aspectos mais positivos do livro – e algo que está faltando na crônica moderna – é que Kelli Pedroso não desanda para a tentação do humor fácil. Nos últimos anos, toda e qualquer pessoa que se identifica como cronista pretende imitar o estilo “engraçadinho” de outros cronistas, fazendo troça com assuntos sérios ou se limitando a buscar associações fáceis de ideias. Alguém certa vez comentou que é mais difícil fazer rir do que chorar, mas, em um universo repleto de escritores metidos a atores de stand-up comedy, a reflexão e o pensamento sério, com doses de tragédia, se torna avis rara. Faz muita falta uma crônica séria e responsável, que estimule a reflexão ao invés do riso. Eu não sabia que sentia tanta falta das crônicas de um Rubem Braga ou do Fernando Sabino (do passado) até ler “O Sexo das Antas”. É evidente que, por ser jovem e ainda estar no seu livro de estreia, Kelli Pedroso tem um longo caminho a trilhar, e comparações com Rubem Braga ou Fernando Sabino só viriam a prejudicá-la na busca da voz própria. No entanto, sabendo a sua proposta desde agora, é algo interessante para ver o desenvolvimento, ainda mais em um mundo que parece cada vez mais dissociado da reflexão.

A escolha por assuntos mais sóbrios não significa dizer que o livro não possui crônicas engraçadas. Em “Presente de madrinha”, a autora descreve o presente que recebeu – um abrigo completamente amarelo – e o dia em que foi obrigada a usá-lo; as suas sensações são impagáveis, tais como se sentir como um pinto depenado, por ter cortado o cabelo alguns dias antes deste passeio. Quem nunca recebeu o presente desconfortável de um familiar querido e foi obrigado a utilizá-lo?

As crônicas são rápidas, a maioria delas não passa de duas páginas. Ao final do livro, estamos diante de uma autora que soube se posicionar, que soube conversar sobre diferentes assuntos e que não teve medo do politicamente correto ou do socialmente admissível para expor a sua opinião. É impossível escapar impune ou indiferente, pois, diante do leque de assuntos abordados, pelo menos em alguns deles a opinião da autora ou foi contrária ou foi favorável a do leitor. Claro que a Kelli Pedroso ainda tem uma longa jornada pela frente, é evidente que muito ainda precisa ser burilado no seu estilo e na construção das histórias, mas o fato de, em algumas delas, a autora ter atingido a excelência literária, ter conseguido tocar além do que as suas palavras pretendiam, é algo a ser destacado. Considerando-se a escolha dos assuntos, a abordagem mais antiquada da crônica como meio de reflexão e não forma de riso fácil, assim como a visão sensível do mundo e a ausência de medo de expor as suas opiniões, posso dizer que vale a pena esperar os próximos  trabalhos da Kelli Pedroso, pois a trajetória dela começa de forma muito alvissareira.

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O som da ausência

Há algum tempo, o clipe de uma música tem assombrado a minha memória. Não consigo esquecê-lo e, talvez, a melhor forma de exorcizar o fantasma seja colocá-lo aqui no blog e imaginar que tal pentagrama virtual o mantenha preso.

A música é End of the Line, do Travelling Willburys. Para quem não conhece, o Travelling Willburys é uma superbanda formada no final dos anos 80, que ostentava nas suas fileiras nada menos do que Bob Dylan, George Harrison, Tom Petty, Jeff Lynne e Roy Orbison. Fez poucas músicas, durou pouco tempo e, como toda constelação de astros que se reúne em um momento fugaz, deixou de existir e passou para a história. Mas vamos à música, que é o importante nesta postagem:

O que eu acho fantástico neste clipe é a capacidade que ele possui de captar a ausência de uma pessoa. A imagem da cadeira de balanço, o violão e a foto esmaecida sobre um móvel são o necessário para evocar o fantasma persistente do músico (e a própria música também não é uma espécie de fantasma? Afinal, muitos artistas já morreram e as suas músicas continuam sendo tocadas como se eles estivessem vivos, espalhando sombras de ausentes pelo mundo). A homenagem é extremamente sensível. É de arrepiar ver a cadeira de balanço mexendo ao som da música, enquanto o espectro de um homem morto acompanha os seus colegas de grupo na canção.

Nesta época em que a música se torna o espelho narcisista de cantores não tão recordáveis, é comovente ver um clipe que homenageia  a ausência. O interessante é que faz parte da natureza do ser humano estar ausente: quem nunca esteve distante, quem nunca teve vontade de estar em outro lugar? Eu diria que os momentos em que estamos presentes são a grande minoria. Perdemos formaturas, casamentos, batizados, velórios, festas de família, encontros com amigos. É impossível estar em vários lugares ao mesmo tempo, e escolher a presença em um local implica em se tornar ausente de vários outros. E eu penso naqueles que morreram, cuja ausência agora é eterna, e penso que o dolorido no morrer é justamente saber que nunca mais estaremos presentes. Por isto os espíritas, que acreditam que os espíritos ainda nos acompanham, ainda estão conosco. A sensação de solidão é a maior angústia que qualquer pessoa pode experimentar.

Outro artista que soube expressar como ninguém a solidão e a própria ausência foi Ivan Kramskoi, no quadro “Cristo no Deserto” (1872). São incríveis os artistas capazes de revelar, através de imagem ou de música, um sentimento tão íntimo e subjetivo. No quadro, vemos um Cristo fatigado, reflexivo, humano. Mas, mais do que tudo, apreendemos a sua solidão, a angústia, a ausência de pessoas com que possa dividir e mitigar o sofrimento. Desconsiderando o aspecto religioso, quem disse que até o Filho de Deus não poderia ter dúvidas e sentir solidão? Talvez isto seja o que nos aproxima da própria concepção de divindade, mais até do que uma eventual ressurreição.

“Cristo no Deserto” (1872), de Ivan Kramskoi

De qualquer jeito, o clipe dos Travelling Willburys e o quadro de Ivan Kramskoi evocam algo que aparenta estar perdido nos tempos atuais: nós temos o direito de estarmos ausentes. Nós temos o direito de sermos introspectivos. Não são os momentos de barulheira que nos aproximam do nosso âmago; já disse Shakespeare que a vida é feita de som e fúria, mas não o ser humano. Nós somos feitos de solidão e de ausências e, para ouvir a própria voz, talvez seja essencial sentar em uma pedra no meio do deserto ou observar a oscilação da cadeira de balanço vazia.

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Fragmentos de Eternidade – fragmento três

É assim que as coisas são: a divindade pode morar nos menores cantos, nos mais ocultos desvãos, nas sutis curvas do caminho. Não conseguimos ver o sublime por inteiro, mas nossos dedos resvalam no imponderável, tocam a neblina e quase conseguem sentir a sua textura. Quase. Somente isto explica que, após longos 05min42seg de música, Blackmore segura a guitarra e pensa, vou ir além, vou voar mais longe. Assume o comando do solo e inicia a subida na direção do Paraíso, alternando hard rock com Bach, em um crescente enlouquecido. Tempo é tudo, mas tudo não é tempo. Neste caso, o timing é perfeito: concentrados em chegar ao fim da música, os músicos deixam o guitarrista experimentar a liberdade, deixam ele escalar o Olimpo. Aos 06min16seg, Blackmore é todo emoção: solta das amarras da realidade, a guitarra vai a lugares onde ainda não esteve, brinca com a eternidade, flerta com o desconhecido que está do outro lado do Paraíso. Enfim, em 06min26seg, os acordes conseguem tocar, com a fímbria dos dedos, a distraída divindade, e o ouvinte sente o coração falhar um milionésimo de segundo nas suas batidas incessantes, sente que alguma coisa incomensurável aconteceu, sente que MUDOU. E, então, ainda chocada com a mesma ousadia que fez Ícaro morrer com o beijo do sol, a guitarra volta a se recolher, diminui a sua frequência, tenta recuperar a integridade, tenta se manter coesa, não enlouquecer. Enquanto isto, o silêncio e o vazio espreitam o fim da música, pois nada mais precisa ser dito.

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Diante da colina de areia

A editora Dublinense – que editou e lançou “O Homem Despedaçado” – pediu para que eu fizesse um pequeno texto falando sobre um “guilty pleasure”, para disponibilizar no Facebook. Como sei que alguns leitores não possuem perfil no Facebook, vou colocar o texto aqui no blog:

De todos os guilty pleasures que tenho (e são vários, começando pelo Rick Astley, passando por Meatloaf e terminando em filmes da Meg Ryan), o mais definidor da minha vida é Star Trek. Sim, eu sou um trekker. Não imaginei que era tão confortante fazer esta confissão assim, em público, mas é. Até que enfim posso admitir que, em situações de nervosismo extremo, levo dois dedos ao ombro e penso “um para subir”, rezando pelo teletransporte salvador. Agora posso admitir meu conhecimento ainda precário do dialeto klingon. Posso também confessar que o motivo real para adorar o chá Earl Grey é o fato dele também ser o preferido do Capitão Jean-Luc Picard. Contudo, não sou trekker o suficiente para andar por aí vestido com as roupas da Frota Estelar, apesar de saber as diferenças de cores entre os uniformes do capitão, do alferes, do imediato e do almirante. Sou um trekker recalcado, do estilo daqueles que não se identificam e surpreendem o interlocutor usando frases ou expressões retiradas do universo Star Trek. Um dos meus mais rematados pesadelos ainda é o dia em que alguma pessoa vai se aproximar e dizer que leu meu livro e que encontrou trechos, personagens e citações que existem no Star Trek. Estarei tão desmascarado quanto os bandidos do Scooby-Doo (meu Deus, mais um guilty pleasure, será que eu tenho algum pleasure normal?).

Sim. Como gosto de dizer, tudo que escrevo é verdadeiro. Não me lembro de ter escrito até hoje alguma coisa fictícia. Apesar de alguns leitores afirmarem que flerto com o absurdo, acredito que o absurdo não está devolvendo os olhares e sorrisos, pois me sinto absolutamente real – até um tanto quanto enfadonho.

E este medo do desmascaramento também é bem real. Star Trek está entranhado demais na minha formação para que possa saber o que é pensamento original e o que é a digestão criativa de algum episódio perdido nas gavetas e prateleiras da memória. Por muito tempo, esta reflexão me deixou muito preocupado, mas hoje consigo conviver em paz com o processo de assimilação imaginativa para saber que não é plágio (mas sempre fico perto da porta, caso tenha de fugir de uma horda de trekkers fanáticos dispostos a me confrontar).

O que não entrou neste texto, por causa das suas limitações de espaço, é o fato de que, por alguma anomalia genética (ou por algum estranho capricho divino, pois consigo ouvir as risadas de um demiurgo na hora em que resolveu agregar tal característica no cadinho com que me formou), não consigo fazer o sinal vulcano de “vida longa e próspera”. Nem eu, nem meus irmãos. E não foi por falta de tentativa ou treino: por muitos anos tentamos ajustar os dedos, mas eles insistem em nos desobedecer e não atingir o ângulo correto.

Começo a me consolar com a ideia de que não farei o sinal. O mundo é quem sai perdendo diante desta constatação, pois não poderei desejar “vida longa e próspera” para ninguém. Para minha raiva, quando confesso este fato para as pessoas, elas fazem o sinal com uma mão, depois com a outra, depois com as duas ao mesmo tempo. Algumas pessoas fizeram até com os dedos dos pés. A maldade humana realmente não tem limites.

Não sei o motivo, mas, quando vejo as minhas patéticas tentativas de fazer um sinal que a genética sentenciou a não realizar, só consigo lembrar de Moisés atravessando o deserto e morrendo antes de chegar à Terra Prometida. Entendo muito bem o sentimento que deve ter percorrido o corpo do patriarca ao ver a última, a derradeira colina, e saber que não poderia subi-la, não poderia ver o local que por tantos anos sonhou chegar. Toda vez que vejo meus dedos e tento contorcê-los com toda a força da mente, sendo negado e escarnecido pelos músculos, tenho plena noção de que, inobstante aquilo que algumas publicidades e livros de auto-ajuda dizem, certas coisas não podem e não devem ser feitas. A diferença é que me resigno diante desta constatação, e sinto que o não-fazer também é parte integrante da vida. E assim, como Moisés, eu olho a colina de areia representada pelos meus dedos e morro contente, feliz, sabendo que não deixo de ser o que sou por causa deste detalhe.

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