Arquivo do mês: março 2016

Texto publicado no Literatortura (31/03/2016): “Quantas Capelas Sistinas destruímos por dia?”

Na minha coluna dessa semana no Literatortura, falei de um assunto que me desperta constante fascinação: como as pessoas falam coisas e não sabem direito o que estão dizendo. Lutar com palavras é a luta mais vã, dizia Drummond, e Neil Gaiman acrescenta que palavras possuem poder, mas, ainda assim, as pessoas insistem em usar palavras cujo alcance completo são incapazes de entender. Uma palavra mal usada é tão perversa quanto uma faca.

Boa leitura!

Quantas Capelas Sistinas destruímos por dia?

Se tivéssemos a capacidade de colocar problemas na mira de um microscópio de altíssima resolução, como cientistas, e fossemos capazes de ver o que se esconde na raiz das nossas aflições, provavelmente nos decepcionaríamos ao ver o quanto as preocupações possuem origens mínimas. Aquilo que vemos hoje como um elefante de guerra da época de Aníbal pode não passar de um minúsculo rato que, por jogo de sombras e espelhos, tornou-se muito maior do que a realidade.

Na base de todos os nossos problemas sociais – a violência, a corrupção, o descaso com os outros e a ignorância – encontra-se uma circunstância ínfima, e é incrível que possa crescer até virar uma avalanche: falamos palavras que não entendemos direito. Pior ainda, somos capazes de discursar por horas e preenchermos livros inteiros sem saber direito o que estamos fazendo. Sofremos de um grave problema conceitual.

Antes de mais nada, observem o pronome pessoal que utilizo: “nós”. Eu estou incluído entre estas pessoas. Não tenho certeza de que possuo algum tipo de razão, nem mesmo quando escrevo estas palavras. Duas semanas atrás, alguém me comentou que achava um gesto de extrema coragem escrever e tornar públicas as minhas palavras, ao que acrescentei “não é coragem, é loucura”. Olhem ao redor: o mundo está cheio de gente escrevendo. Alguns possuem maior habilidade, outros não, mas o fato é que passamos boa parte do dia escrevendo, lendo e transformando pensamentos em imagens, palavras, sons. Neste contexto, sou somente mais uma pessoa cheia de palavras a escorrer em telas de computador e papéis. O que talvez me diferencie são meus constantes questionamentos. Parto do princípio não de estar sempre correto quando escrevo, mas de errar o mínimo possível. Sou como o enxadrista sábio: não busco a vitória, mas tenho como objetivo não perder a partida.

Esta dificuldade conceitual está em todos os lugares, só não somos capazes de enxergar. Espalha-se por todos os cantos, e é algo tão insidioso que, quando vemos, já aconteceu e é tarde demais para voltar atrás.

Nesta semana, li o necrológio que a revista VEJA fez sobre o jogador de futebol Johann Cruyff. No início do texto, o repórter traça um paralelo entre a habilidade de Cruyff e o momento em que Picasso inaugurou o cubismo ao desmontar corpos femininos em Les Demoiselles d’Avignon. Não suficiente, disse que a inovação trazida pelo jogador holandês para o futebol foi como o momento em que Bob Dylan pegou a guitarra elétrica para tocar Like a Rolling Stone, rompendo com o folk e começando novos caminhos para a música. As duas comparações foram feitas com o intuito de demonstrar que Cruyff foi um jogador tão genial que elevou o futebol à categoria de arte.

Não. Lamento informar, mas futebol não é arte. Na realidade, é um esporte e, como muitos esportes, às vezes o seu ideal de perfeição o aproxima da noção de arte, da impressão de que aquilo está além dos limites humanos. Importante lembrar que os gregos antigos costumavam ir aos estádios e centros de treinamento para ver corpos se exercitando, e muito dos ideais estéticos que possuímos hoje nasceu dos esportes. No entanto, por mais incrível jogador que tenha sido, Johann Cruyff foi um esportista, e não um artista.

Pode parecer uma discussão pequena, mas esconde uma série de questões relevantes. Se considerarmos que o futebol é algo em que determinados futebolistas podem se transformar em artistas, por que não alcançamos o mesmo direito aos demais esportes? Ao atletismo, à natação, ao levantamento de peso? Em pensando assim, o número de artistas cresceria velozmente ao redor do mundo. A propósito, quais seriam os critérios capazes de definir o que é um bom esportista e diferenciá-lo de um artista? Concordo que o futebol pode ser usado como instrumento de arte, que o digam os textos de Nelson Rodrigues, mas não como arte em si mesma.

Podemos ir além: por qual motivo circunscreveríamos ao esporte a possibilidade de alguém virar um artista? Um professor, um advogado, um engenheiro, qualquer pessoa é capaz de ser um artista na sua área de atuação. Pensando assim, a palavra “artista” e a sua origem, “arte”, tornar-se-iam usuais, sendo usadas de maneira tão indiferente que, não raro, seriam aplicadas para qualquer pessoa que fizesse uma atitude correta. “Fulano é um artista, pois hoje correu e pegou o ônibus”. Eis o risco de vulgarizar as ideias e desconhecer o conceito das palavras: em um mundo onde qualquer pessoa é artista, ninguém mais é artista de verdade.

Usei o exemplo do futebol, pois está recheado de metáforas e de analogias inflamadas. No seu afã de elogiar – e de conduzir o louvor ao paroxismo -, os repórteres usam palavras a rodo, gerando expectativas injustas sobre determinados esportistas. Em alguns momentos, aproximam a experiência de uma simples partida de futebol a algo que está além do bem do mal, a uma experiência semi-religiosa em que Deus vem à Terra para ser adorado enquanto marca gols e dribla zagueiros,  à contenda entre dois exércitos selvagens (não estranho o clima belicoso que cerca as partidas de futebol atual, pois o discurso usado ao redor delas é de extrema violência). Se usarmos palavras, podemos mudar o mundo. No entanto, se usarmos palavras a esmo e sem atentar para a sua verdadeira noção, podemos acabar com a Humanidade em não mais do que dois ou três discursos desastrados.

Eu tinha falado sobre o meu desgosto com as pessoas que atualmente usam as palavras “heroi”, para quem faz qualquer coisa certa, e “genial”, para quem atinge a excelência em uma tarefa que realizou. Se vamos para conceituação clássica, “herois” são pessoas muito maiores do que quem agiu de forma correta. O verdadeiro heroi é aquele homem ou mulher que, mais do que acertar, também consegue se recuperar dos seus erros. Ele é um somatório de atitudes certas e erradas. Aquiles foi um herói, mas era um psicopata. Heitor era um heroi, mas igualmente uma vítima da sua criação militar. Ulisses fez dezenas de burradas no seu caminho para Ítaca, e é um heroi, não pelo tanto que acertou, mas pela habilidade de conviver com os próprios erros.

Da mesma forma, dizer que Fulano é “genial” tira toda a força da palavra. As pessoas “geniais” são aquelas tão inovadoras e espantosas que não possuem mais classificação possível que os distinga do resto do gênero humano. Não sei se a Humanidade conheceu até hoje 10 ou 12 pessoas geniais, e alcançar tal adjetivo para qualquer um, longe de elogiá-lo, é fazer uma ironia bem perversa. Leonardo da Vinci foi uma pessoa genial, cuja vida e obra ainda repercutem no nosso mundo. Assim, chamar um domador de cavalos qualquer de “genial” é como compará-lo a Leonardo da Vinci, e isto é quase uma ofensa pelo exagero despropositado.

A utilização errada das palavras – ou com propósitos mal intencionados –  me faz lembrar do mais virulento crítico de Michelangelo. Pietro Aretino era um nobre da região de Arezzo que foi expulso de Roma e se instalou em Veneza, onde era sustentado pelos ricos. Ele se jactava de ser o maior crítico de arte que já existiu, além de poeta. Fazia jornalismo panfletário, no qual comentava obras de arte de forma espirituosa e cáustica. Dava a si mesmo o título de “Secretário do Universo” e de “Flagelo dos Príncipes”, demonstrando bem o medo que os poderosos tinham dos seus comentários. Foi amigo de Ticiano, de Rafael e de Jacopo Sansovino, de Vasari e de Salviati, além de ser conselheiro de jovens artistas que buscavam a sua proteção para iniciar no mundo das artes.

"Pietro Aretino", por Ticiano

“Pietro Aretino”, por Ticiano

Até o momento em que soube de Michelangelo pintando o teto da Capela Sistina. Detalhe interessante é que, por ter sido expulso de Roma, Aretino nunca vira o trabalho de Michelangelo, mas somente ouvira opiniões, entre as quais a de Vasari, que lhe enviara uma carta em que chamou o artista de “o Deus próprio da escultura”. Observem o exagero das palavras e da comparação fascinada de Vasari, em geral um homem comedido.

Tudo o que o crítico conseguiu pensar é em si mesmo: no quanto o seu nome estaria inscrito para sempre na História da Arte se as suas ideias servissem de inspiração para Michelangelo. Estava enciumado da atenção que Michelangelo recebia dos outros artistas por conta de uma pintura que jamais poderia enxergar em razão do seu exílio; neste momento, Ticiano já visitara a Capela Sistina e dissera que o colega não só era o maior artista vivo, como deveria servir de paradigma para todos os pintores e poetas que lhe sucederiam.

Por este motivo, em um gesto ousado, Aretino tentou colocar a sua assinatura invisível na obra que não lhe pertencia. Mandou uma longa correspondência, intitulada “Carta ao divino Michelangelo”, com o propósito manifesto de louvar o artista e tentar seduzi-lo através da vaidade. No meio da carta, colocou a sua visão do final dos tempos – o “Juízo Final” – e sugeriu, de forma discreta, que Michelangelo devia adotá-la como modelo para a sua pintura. Em determinados momentos, falou sobre o poder das suas críticas de arte e o quanto ele é temido, deixando sempre um leve tom ameaçador para que Michelangelo saiba o que poderia acontecer se não seguisse as suas ideias. Ao final, o crítico sugeriu uma série de imagens que podiam ser adotadas na obra ainda em fase de realização, bem como as alegorias que deveriam aparecer na imagem. Concluiu dizendo que eram somente sugestões, mas Michelangelo não devia descartá-las, pela óbvia experiência de Pietro Aretino no assunto artístico. Em suma: pretendeu ensinar para Michelangelo o que era arte de verdade.

Dois meses depois, em novembro de 1537, o pintor toscano respondeu a carta. De forma que podemos entender como irônica, Michelangelo lamentou que a carta original tenha chegado depois da conclusão do “Juízo Final”. Em uma estocada deliciosa, diz que, se Deus fosse começar o Juízo Final naquele dia mesmo, com certeza iria se inspirar nas palavras e imagens idealizadas por Aretino, tão perfeita a descrição. Se é para puxar o saco, Michelangelo faria com classe.

Contudo, o artista cometeu um erro, pois prometeu fazer qualquer coisa para agradar ao crítico, o qual, em carta imediatamente enviada como resposta, pediu de presente um desenho qualquer, até um rascunho, qualquer papelzinho mínimo contendo uma imagem e que Michelangelo pretendesse jogar no fogo.

O pintor nunca respondeu – ele tinha o teto inteiro da capela Sistina para se ocupar – e isto atraiu a animosidade de Pietro Aretino. A mesma paixão e subserviência antes demonstrada na carta metamorfoseou-se em ódio. Foi assim que, em 1545, oito anos depois, aproveitando-se das discussões religiosas na Europa, Aretino fez um texto atacando frontalmente o “Juízo Final” exposto no teto da Capela Sistina, argumentando que eram pinturas imorais por conter nus, ou seja, tais imagens jamais poderiam fazer parte de uma igreja.

A campanha de Aretino foi forte, e tinha um único objetivo: se Michelangelo não seguira as suas ideias sobre o “Juízo Final”, a obra inteira deveria ser destruída. Os adjetivos outrora usados na carta – divino, magnífico, magistral, genial – foram substituídos por outros menos nobres – torpe, insignificante, vulgar, trabalho infeliz. Afirma que o teto da Capela Sistina inteiro é uma obra derivada de um homem “impiedoso” (Michelangelo não professava a fé católica como se esperava), além de ser licenciosa e possuir total falta de decoro. Continua afirmando que Michelangelo era um artista excelente, mas aquela pintura deveria ser destruída pelo bem da religião católica.

Apesar de todo o veneno destilado por Pietro Aretino, a obra sobreviveu à campanha difamatória e, se conseguimos hoje enxergá-la e nos admirar com o gênio de Michelangelo, foi por que as palavras insensatas dirigidas contra o afresco não foram levadas em consideração. Entretanto, existiram anos a convicção artística da Igreja Católica balançou, e não foram poucos os momentos em que a obra de Michelangelo correu risco de ser destruída por “fogo amigo” de religiosos, e as palavras de Aretino voltaram à tona, e em todas as ocasiões a pintura conseguiu sobreviver, mas sempre em uma luta ingrata contra a inveja do homem outrora preterido.

"O Juízo Final", de Michelangelo

“O Juízo Final”, de Michelangelo

Sobre este episódio que envolveu um crítico de arte e um dos mais completos artistas que já existiu, fica uma dolorosa lição. Quantas vezes não usamos as palavras de forma criminosa, tentando demolir os outros, sem atentar para a força das nossas opiniões? Um elogio falso pode esconder a vontade nada disfarçada de subjugar o outro; quando não pensamos no alcance real das palavras que dizemos, podemos não estar ajudando, mas atrapalhando. Recordo ainda o caso de uma amiga que colocava várias fotos na internet, sendo sempre elogiada pela sua beleza, até o dia em que um rapaz a recusou por achá-la feia e ela nunca mais se recuperou. Quem foi pior, o rapaz que disse o que pensava ou as pessoas que lhe inflaram o ego com elogios vazios? Sempre fiquei em dúvida.

Por pouco Aretino não destruiu a Capela Sistina com as suas opiniões repletas de vaidade e orgulho (vale lembrar que, por muitos anos, as partes consideradas “obscenas” da obra de Michelangelo foram tapadas para não ferir susceptibilidades religiosas). Podemos destruir várias capelas Sistinas por dia se não atentarmos para as palavras que usamos sobre aquilo que sentimos. Se está com vontade de dizer “eu te amo”, diga sentindo de verdade ou então não diga, pois mentir sobre isto é imperdoável. Se pretende dizer “eu te odeio”, que não seja por um motivo pueril como política ou futebol, mas diga com vontade de odiar e por questões intransponíveis. Se tiver a intenção de chamar alguém de “amigo”, reserve estas palavras para os verdadeiros amigos, não para pessoas que sequer conhece.

No momento em que usamos palavras cujo sentido foi esvaziado, podemos estar destruindo as aspirações de alguém. Ao chamarmos de “heroi” uma pessoa que não entra na ideia de heroísmo, de “artista” alguém que não faz arte ou de “genial” quem teve um único lance de sorte ou de habilidade, estamos não elogiando, mas criando uma bolha conceitual que pode explodir a qualquer momento – e até se virar contra nós. Coloquemo-nos dentro de um microscópio e perceberemos que grande parte dos nossos problemas e preocupações poderão ser evitados se simplesmente falarmos as palavras certas ao invés de criarmos ilusões discursivas.

Texto originalmente publicado em http://literatortura.com/2016/03/quantas-capelas-sistinas-destruimos-por-dia/

Anúncios

Deixe um comentário

Arquivado em Arte, Futebol, Literatortura, Michelangelo, Palavra, Pietro Aretino

Texto publicado na revista eletrônica da Dublinense (30/03/2016): “Os leitores improváveis”

Na minha coluna dessa semana no Medium da Dublinense, começo com uma revelação esdrúxula: existe um grupo de leituras sobre o meu livro, e o pessoal deste bravo clube está empacado a seis meses tentando me entender. Mas, em seguida, tratei de um tipo de leitores que quase não são abordados: os leitores que não deveriam existir, os improváveis. Aqueles que jamais imaginei que, um dia, iriam ler meu livro. Ou os que leram sem querer um livro que não gostavam. Ou que foram forçados a ler um livro. Ou que foram subestimados por lerem.

Boa leitura!

 

Os leitores improváveis

Não faz muito tempo, contaram-me uma história tão incrível que só pode ser realidade. De passagem por uma cidade do interior do Rio Grande do Sul, uma amiga parou na livraria com o objetivo de comprar um presente para seu sobrinho. Em um canto, quatro senhoras conversavam tomando chá, e ela reconheceu, sobre a mesa, o meu livro. Perguntou para a dona da livraria o que aquelas senhoras estavam fazendo, e foi informada de que eram aposentadas decididas a começar um clube de leitura. No entanto, há seis meses estavam “empacadas” no primeiro livro. Não conseguiam seguir adiante. E a obra escolhida para iniciar o grupo – e empacá-lo – era justamente “O homem despedaçado”.

Claro que a minha amiga se divertiu horrores contando esta história: “tinha que ser tu, Gustavo”. Disse ter pensado em revelar que conhecia o autor, mas teve receio das reações, pois as mulheres poderiam ficar tímidas ou retraídas. Ela me informou o nome da cidade e o da livraria, e se não os divulgo é por que prefiro manter a sacralidade do mistério. Não desejo que alguém vá atrapalhar ou dar dicas para as quatro senhoras na sua jornada rumo ao interior do meu livro. Elas que encontrem o seu caminho – ou que desistam de encontrá-lo.

Contudo, cada vez que recordo desta história, sinto forte vontade de intervir. Sair de Porto Alegre, dirigir-me até a outra cidade e, anônimo, assistir a uma distância confortável as discussões do grupo de senhoras. Fazer de conta que o assunto não me interessa, apagar quem sou, voltar a ser leitor do meu próprio livro – afinal, fui o primeiro, e li antes de todos os outros. Ver o que elas estão achando, aquilo que dificulta o seu caminho.

Em um momento de mais amplo delírio, penso inclusive em romper a isenção e sentar-me junto à mesa, identificar-me como o autor da obra, colher as opiniões diretamente, sem intermediários, sem vozes virtuais, sem falsos elogios, sem críticas gratuitas – só um homem e suas quatro leitoras que não lhe entendem. Seria o sublime Deus ex-machina: o autor que desce dos céus para explicar a sua criação e salvá-la.

No entanto, por maior que seja a vontade, não farei isto. Existem aspectos da relação do autor com os seus leitores que não devem ser rompidos, e um deles é o direito à incompreensão. O leitor tem o direito de se inquietar com um livro que lhe desafia e o qual ele não se sente preparado para entender. É um percurso que cada pessoa deve fazer sozinha com o livro escolhido, e que o autor, longe de ajudar, só atrapalharia.

Pensar sobre esta história me fez recordar uma categoria de leitores quase ignorada: os improváveis. Aqueles que leem obras incompatíveis com o seu grau de conhecimento do mundo, que estão lendo no momento errado ou que um autor jamais imaginou a sua existência no momento em que estava escrevendo.

Imaginar leitores improváveis atrai os estereótipos ligados à leitura. Em geral, quem se entrega à degustação de um livro é visto como uma pessoa inteligente, introspectiva, fechada, não raro feia (ou desprovida de atrativos), que prefere se refugiar em um mundo ficcional ao invés de lidar com as agruras do mundo dito verdadeiro.

Como todo estereótipo, ter esta imagem de um (ou uma) leitor(a) é limitador. Impossível não recordar as fotos icônicas de Marilyn Monroe lendo James Joyce, William Faulkner, Heinrich Heine. Nas biografias escritas a respeito da atriz, consta que as suas fotos favoritas eram aquelas em que aparecia lendo, pois, mais do que atuar (fotografar também é uma forma de representação), estava mostrando uma faceta da sua personalidade.

Marilyn Monroe lendo

Marilyn Monroe lendo

Marilyn Monroe era uma grande leitora. Dizia que seus livros eram a melhor companhia nas noites de insônia. A sua biblioteca pessoal era formada por mais de 500 exemplares e, a julgar pelas anotações e frases sublinhadas, os biógrafos acreditam que ela leu em torno de 338 livros. A atriz americana tinha como ídolos pessoais Saul Bellow e Carl Sandburg. Entre seus melhores amigos, estavam Truman Capote e Isak Dinesen. Foi casada com Arthur Miller.

Ainda assim, quando saíram as fotos, não foram poucas as pessoas que consideraram impossível que uma mulher bonita, atriz de cinema, alguém acostumada a conhecer celebridades e presidentes, fosse também uma leitora que prezasse a solidão que mora dentro de um livro. Parecia errado que uma mulher pudesse ser bonita, bem sucedida e, não bastando, inteligente. Não entrava no estereótipo. Uma série de reportagens ironizou as fotos: alguns jornalistas sugeriram a sabatina de Marilyn Monroe por escritores e críticos literários, pretendendo mostrar que as fotos eram o seu desejo de escapar da imagem de “loura burra”.

A atriz nunca deu atenção para tais comentários inoportunos. Quem lê de verdade sabe que não precisa ficar dando provas da sua leitura. O máximo que Marilyn fez foi responder a tais ataques com uma foto igualmente célebre, na qual cedeu de forma irônica aos estereótipos em que tentavam encaixá-la, posando imersa na leitura de um livro, o qual se encontrava de cabeça para baixo.

marilyn reading upside down

Ninguém imaginava que Marilyn Monroe pudesse ser uma leitora voraz, e este é um tipo de leitor improvável: aquele que as nossas visões estereotipadas do mundo dizem que determinado livro não foi feito para ele.

É a mesma sensação que temos ao ver o quadro de Emil Filla, “O leitor de Dostoiévski” (1907). Sobre a cadeira, o leitor jaz, derrotado, exaurido. A obra de Dostoiévski não serviu somente para lhe abrir novos questionamentos, mas representou uma exaustão física comparável a que Temístocles deve ter sentido após correr a primeira maratona. Todo o quadro revela o cansaço de alguém que leu – com dificuldade – algo muito maior do que podia; o tubarão que tentou engolir uma baleia. Na parede, o crucifixo é uma recordação dostoievskiana de que mesmo Deus se mantém indiferente quando o assunto é a leitura. Mas também pode ser uma ironia: venha a mim e serás acalentado, ainda mais depois de ler este russo intenso.

"Um leitor de dostoievski", Emil Filla

“Um leitor de Dostoievski”, Emil Filla

Outra categoria de leitores improváveis são os que estão lendo no momento errado. Na época do atentado terrorista contra as Torres Gêmeas em setembro de 2001, recordo de uma foto. Nela, um homem lia um romance enquanto o avião investia ameaçadoramente contra o prédio. Não sei até hoje se era uma foto real ou uma falsificação, mas passa um estado de espírito que surge em outras pinturas e fotos: a pessoa que está lendo enquanto o mundo ao seu redor prepara-se para modificar. O leitor que não testemunha a História, mas está entregue à ficção de um livro no momento em que ela acontece.

Um caso engraçado na História da Arte – e que por si só merecia um estudo apartado – diz respeito a Torquato Tasso, autor do monumental “Jerusalém Libertada”, um épico realmente incrível. Em quase todos os quadros que ele aparece, Torquato está lendo a própria obra. Da mesma forma, em quase todos os quadros, a sua plateia está entediada ou cochilando ou rezando silenciosamente para estar o mais longe possível dali. Não suficiente, os semblantes do público revelam desprezo, sono, fome, indiferença, cansaço e até mesmo desespero. Parecem dizer “pelo amor de Deus, alguém cale este homem, libertem logo Jerusalém e nos deixem em paz!”.

No quadro de Francesco Podesti, dois homens conversam descuidadamente no canto da tela enquanto Torquato Tasso lê em voz alta para uma plateia distraída; no quadro de Domenico Morelli, Eleonora luta contra o sono ouvindo o autor; no quadro de Luigi Mussini, a mesma Eleonora ergue os olhos para o céu em súplica enquanto Torquato lê na sua frente; na pintura de Karl Ferdinand Sohn, o autor está distraidamente lendo em um jardim e Eleonora se afasta com cautela dele, para não ser obrigada a escutá-lo; em outro quadro de Morelli, não só Eleonora enfrenta o sono, como a criada ao seu lado já está dormindo, embalada pelas palavras de Torquato Tasso; na pintura de Elie-Honoré Montagny, imerso em tédio, o Duque de Ferrara é flagrado fazendo um impaciente movimento de mão para uma figura que está atrás do escritor, o qual lê em voz alta. A julgar pelas representações de Torquato Tasso, suas leituras públicas deviam ser a melhor maneira de combater a insônia.

"Toruqato Tasso lendo o seu poema para corte", de Francesco Podesti

“Torquato Tasso lendo o seu poema para corte”, de Francesco Podesti

"Toquato Tasso lendo seu poema para Eleonora", de Domenico Morelli

“Torquato Tasso lendo seu poema para Eleonora”, de Domenico Morelli

"Torquato Tasso lendo um poema para Eleonora", de Luigi Mussini

“Torquato Tasso lendo um poema para Eleonora”, de Luigi Mussini

Se considerarmos que a leitura em voz alta também pode ter leitores improváveis, Torquato Tasso está lendo para o pior tipo: que está ali somente de corpo, e não de espírito. O leitor improvável que lê por circunstâncias alheias à sua vontade. O leitor que está na hora e no local errado e, mesmo assim, está lendo.

Outro exemplo de pessoa “lendo sem querer ler” seria Nanette, a esposa de Diderot. Em carta escrita em 1781, o iluminista francês descreveu o método que usava para “curar” Nanette, para quem os únicos livros aptos a serem lidos deveriam conter lições edificantes do ponto de vista espiritual, ou seja, auto ajuda. Diderot resolve ministrar-lhe uma dieta diária constituída pela leitura de literatura vulgar: “Tornei-me seu Leitor. Administro-lhe três pitadas de ‘Gil Blas’ todos os dias: uma pela manhã, outra após o jantar e uma à noite. Quando terminarmos ‘Gil Blas’, passaremos para ‘O diabo sobre duas varas’, ‘O celibatário de Salamanca’ e outras obras estimulantes da mesma categoria. Alguns anos e umas poucas centenas dessas leituras completarão a cura. Se tivesse certeza do sucesso, não deveria queixar-me do trabalho. O que me diverte é que ela recebe todos que a visitam repetindo-lhes o que acabei de ler para ela, de tal forma que a conversação duplica o efeito do remédio. Já falei dos romances como produções frívolas, mas descobri finalmente que eles são bons para a depressão.” Não chegou até nós o que Nanette pensava sobre receber estas doses diárias de literatura de má qualidade, mas não resta dúvida de que Diderot acreditava que a melhor forma de resolver o politicamente correto que infestava a sua esposa era através da leitura.

Conta Alberto Manguel em “Uma História da Leitura” que, na “Lista de preços das prostitutas de Veneza” de 1536 – um catálogo das melhores e piores madames profissionais da cidade na época – aparece uma mulher, Lucrezia Squarcia, “que se diz amante da poesia” e que trazia sempre consigo “um libreto de Petrarca, um Virgílio e às vezes até um Homero”. Interessante imaginar o tipo de cliente que procura uma prostituta cujo diferencial erótico seja ler literatura clássica, mas com certeza não era assim que Petrarca, Virgílio e Homero imaginaram que, um dia, seriam lidos: como preliminares sexuais, ou mesmo como o ato em si.

Assim chegamos ao último tipo de leitor improvável: aquele que o autor jamais imaginou que iria ler o seu livro. O invisível. O inesperado, que pega o livro e pensa “eu vou ler isso daí”, mesmo sem saber se irá gostar. Não foram poucas as ocasiões em que alguém se aproximou e disse ter lido meu livro, e meu primeiro pensamento – quase um grito de agonia – foi “mas não era para você ter lido!”. Não foi você quem imaginei ser meu futuro leitor.

Umberto Eco afirma que todo autor escreve para um único leitor, a quem chama de Leitor Ideal, uma figura idealizada com quem o escritor conversa imaginariamente quando está redigindo o seu trabalho, o interlocutor perfeito. Nunca encontraremos este Leitor Ideal. Mas, às vezes, ele se revela, e neste instante recordo de uma história contada pelo escritor José Francisco Botelho: certa feita, ele caminhava por uma rua de Bagé à noite quando passou um carro velozmente ao seu lado. Do banco do carona, uma moça de feições esmaecidas colocou a cabeça para fora e gritou “Árvore que falava aramaico!”, que é o título do seu livro. O carro seguiu seu caminho, e o escritor nunca soube quem era a misteriosa leitora que o reconhecera não pelo nome, mas pela sua obra. Se eu pretendesse representar um encontro com o Leitor Ideal seria assim: uma pessoa que estamos fadadas a jamais encontrar, mas que está sempre por perto, onde menos esperamos. Como o leitor improvável.

Na relação literária, o escritor é quem possui menos direitos. Tão logo lançada a obra em meio a este mundo repleto de livrarias selvagens e bibliotecas famintas, ela deixa de pertencer ao seu criador. E, agonia das agonias, encontrará os mais diferentes tipos de leitores pelo seu caminho, que farão de tudo com o livro e pensarão o que bem entenderem sobre ele. Não sei o que as quatro leitoras que desbravam o meu livro nos últimos seis meses estão pensando, e nem se pensam aquilo que eu gostaria que pensassem, ou a emoção que tentei passar com a história. Contudo, sei que elas estão tendo dificuldades para entender meu livro, e não posso sequer lançar uma boia de resgate para ajudá-las a nadar no meio deste mar furioso a que chamam de literatura. Só me resta ficar na torcida por estas leitoras que, sem querer, entraram na teia de palavras que teci com tanto carinho.

 

Texto originalmente publicado em https://medium.com/colecao-dublinense/os-leitores-improv%C3%A1veis-dd8edd407b36#.dl2sa4glw

Deixe um comentário

Arquivado em Alberto Manguel, Emil Filla, José Francisco Botelho, Leitor, Marilyn Monroe, O Homem Despedaçado, Torquato Tasso

Resenha do livro “Poesia Reunida”, de Adélia Prado

O Amálgama (www.revistaamalgama.com.br) pediu para que eu resenhasse “Poesia Reunida”, da escritora mineira Adélia Prado, um volume que reúne toda a sua obra poética. Foi um grande prazer realizar uma releitura da Adélia, descobrir poemas que não conhecia e lembrar de outros que já tinha lido. Foi um dos poucos livros de poesia que, assim que se aproximava ao final, dava vontade de começar a lê-lo de novo, como se algo muito importante tivesse sido perdido e estivesse ali, ao alcance dos olhos, ansioso para ser subjugado e acalentado.

Nem preciso dizer que recomendo muito a leitura do livro. Adélia Prado é da estirpe de poetas cuja leitura faz o mundo se tornar um lugar melhor.

Boa leitura!

 

A poesia indesmanchável de Adélia Prado

 

É relativamente fácil achar bons poetas; o complicado mesmo é encontrar os excepcionais, aqueles que lemos com a sensação de que a nossa visão de mundo está modificando no momento exato da leitura. Quando estamos diante de um poeta verdadeiro, alguém que se entrega à sua subjetividade com técnica, usando cada palavra como se fosse a mais preciosa joia, sentimo-nos como barro sendo manuseado por mãos sábias; a cada verso, sentimos que uma breve pressão foi aplicada na nossa personalidade, e algo se modificou de forma eterna; a cada poema, sentimos que ele sempre esteve dentro de nós, mas não tínhamos a capacidade de transformá-lo em carne e palavras.

A poesia existe para nos aproximar do divino, e tal conceito independe de religião, fama ou bens materiais, mas está vinculado àquele algo maior que almejamos em silêncio. Neste sentido, “Poesia reunida”, de Adélia Prado (Editora Record), mais do que uma compilação de todo o material já produzido pela escritora mineira, é uma apologia ao fazer poético. Não é um livro que explode em epifanias ou que possui pontos da mais plácida calma. Ao contrário, a reunião dos poemas de Adélia Prado revela a consistência dos seus temas ao longo dos tempos, a tranquilidade com que utiliza a palavra para construir imagens, a sabedoria do poetar sem pressa.

Adélia Prado

Adélia Prado

Por reunir todos os livros publicados por Adélia Prado, o tamanho de “Poesia reunida” pode assustar leitores incautos. No entanto, entre as 543 páginas que constituem o exemplar, um pouco mais de 80 são dedicadas a um extenso levantamento bibliográfico e a três textos, um escrito por Carlos Drummond de Andrade, outro por Affonso Romano de Sant’Anna e o terceiro por Alberto Mussa. Os textos ajudam a deixar a obra de Adélia Prado ainda mais prazerosa, pois abordam características comuns dos seus poemas. De Drummond, optou-se por trecho da crônica que ele escreveu para o Jornal do Brasil, onde revelou as suas primeiras – e maravilhadas – impressões sobre a obra da escritora mineira até então desconhecida. Affonso Romano de Sant’Anna relata o que sentiu quando leu os originais de Adélia. Nas suas palavras: “Não aguentei e telefonei para Drummond: Mestre, acaba de aparecer uma poetisa no interior de Minas. E isto eu dizia como um astrônomo no observatório nacional, feliz com uma nova possibilidade de vida fora de mim, do que conhecia, do que lia.” Alberto Mussa optou por um texto inédito, descrevendo cada livro de Adélia e apresentando algumas de suas chaves de escritura para deixar mais completa a fruição dos poemas.

Ainda assim, quando nos deparamos com a obra de Adélia Prado, vemos as pouco mais de 460 páginas de poesia se sucederem com prazer crescente. Não é um livro cansativo; afastamos o olhar dele não para refletir, mas para deixar que o encantamento gerado pelo poema – ainda de leitura fresca – continue mais alguns segundos na memória. Se existe um mérito em uma obra poética de tamanha envergadura é este: lemos os poemas não como se eles fossem uma sucessão de palavras em formato de versos, mas como se estivessem respirando na nossa frente. É possível sentir cada palavra com a mesma emoção original que a gerou. A poesia flui do livro assim como saiu da poeta – sem dificuldades, sem sobressaltos, com o avançar inexorável de uma catarata. O mundo torna-se uma grande poesia, vertido pelas palavras elegantemente exatas de Adélia Prado, e o leitor se torna parte delas, tanto da poesia quanto da poeta.

Ao analisar a obra reunida de qualquer escritor (e vale aqui lembrar que é “Poesia Reunida” ao invés de “completa” por que Adélia Prado ainda se encontra produzindo poemas, com a velocidade que o seu fazer poético autoriza, sem se curvar à fome crescente dos leitores e do mercado editorial), alguns temas acabam se destacando. Em primeiro lugar, analisando as epígrafes e citações contidas no interior dos poemas, é possível notar a forte influência que a Bíblia deixou sobre a poeta mineira. Mas não toda a Bíblia, e sim as frases mais repletas de beleza e os livros mais poéticos, em especial o “Cântico dos Cânticos”, assumidamente a obra mais literária do texto sagrado. Dito desta forma, poderia sinalizar que a obra de Adélia Prado possui um forte cunho religioso, mas escapa deste rótulo no momento em que articula temas bíblicos no meio do cotidiano. Além disso, muitas de suas poesias aproveitam mais o ritmo dos textos da Bíblia, em uma toada que lembra a estrutura da oração, como no poema “A boca”:

“Se olho atentamente a erva no pedregulho

uma voz me admoesta: mulher! mulher!

como se me dissesse: Moisés! Moisés!

Tenho missão tão grave sobre os ombros

e quero só vadiar.

Um nome para mim seria A BOCA

ou a SARÇA ARDENTE E A MULHER CONFUSA

ou ainda e melhor A BOBA GRAVE.

Gosto tanto de feijão com arroz!

Meu pai e minha mãe que se privaram

da metade do prato para me engordar

sofreram menos que eu.

Pecaram exatos pecados,

voz nenhuma os perseguiu.

Quantos sacos de arroz já consumi?

Ó Deus, cujo reino é um festim,

a mesa dissoluta me seduz,

tem piedade de mim.”

O poema acima revela outra característica da produção de Adélia Prado: as memórias da infância. As preocupações simples da época de criança, as recordações quase tácteis, os cheiros, sons e cores são revividos através dos poemas, mas sem o ranço de saudosismo. A poeta traz a infância para dentro da sua obra não a título de nostalgia ou melancolia, mas como uma sucessão de momentos luminosos que continuam a residir na mulher já adulta – e que nunca serão perdidos, posto que se tornaram parte da sua essência. Em geral, quando nos recordamos do passado, tendemos a imaginá-lo como algo perfeito. No entanto, em uma abordagem criativa para a sua infância, Adélia a trata como um espaço de dúvidas, incertezas, medos e alegrias, sem idealizações. Apesar da sua voz autoral manter uma certa reminiscência da voz infantil (possível perceber no poema “A boca”, em que a voz do poema oscila da fase adulta para a criança temerosa da reação dos pais), não é por tratar deste período da vida como uma fase de confrontos, mas como espaço para constante maravilhamento.

Alberto Mussa destaca a forte tensão sexual existente na poesia de Adélia, algo não declarado de forma explícita, mas que percorre os seus versos como uma voltagem invisível. Grande parte desta sensação de voluptuosidade surge das suas descrições repletas de sentidos e da forma faminta com que trata do corpo masculino e feminino. São poemas de relativa intensidade, escritos com palavras quentes, e parte do calor se transmite através da leitura. Em épocas de erotismo desbragado (e mal feito), é interessante ver como um poema pode ser sexualmente excitante sem usar nenhum estratagema fácil. Exemplo é o poema “Ofício parvo”, no qual se sente uma atmosfera sexual sem, no entanto, existir nenhuma cena que leve a tal conclusão, a não ser a imaginação forte do leitor:

“Quero limpar a boca e as entranhas

do sonho que me sujou

mais que se em vigília

as mesmas podres coisas me sujassem.

O tentador me cobra sem descanso

uma prova de fé.

Virgem, Porta do Céu, em meu favor,

pisa com teu pé de menina

a cabeça de cobra que ele tem,

me livra da tentação

de sofrer mais do que Deus.”

Lendo o conjunto da obra de Adélia Prado até agora, também merece realce a força que ela dá para a mulher no interior dos seus poemas. Não quer dizer que sejam trabalhos feministas, mas poemas repletos de temas femininos articulados de maneira universal. Ao invés de realizar denúncias ou descrever situações de machismo, a poeta aborda o feminino com coragem e força poética, mostrando dúvidas, como em “Mural”:

“Recolhe do ninho os ovos

a mulher

nem jovem nem velha,

em estado de perfeito uso.

Não vem do sol indeciso

a claridade expandindo-se,

é dela que nasce a luz

de natureza velada,

seu próprio gosto

em ter uma família,

amar a aprazível rotina.

Ela não sabe que sabe,

a rotina perfeita é Deus:

as galinhas porão seus ovos,

ela porá sua saia,

a árvore a seu tempo

dará suas flores rosadas.

A mulher não sabe que reza:

que nada mude, Senhor.”

Nas entrevistas, Adélia Prado afirma que o seu tema preferencial é o cotidiano. Ser capaz de ver os temas universais que se escondem no meio do habitual é a característica principal de qualquer grande poeta. Afirmou Percy Bysshe Shelley no clássico ensaio “Em defesa da poesia”: “a poesia ergue o véu de beleza oculta do mundo, e torna familiar objetos como se não fossem familiares; reproduz tudo o que representa e as interpretações revestidas nesta luz Elísia permanecem, desde então, nas mentes daqueles que, uma vez, as contemplaram como memoriais daquele conteúdo, gentil e exaltado, que se estende sobre todos os pensamentos e ações com as quais coexistem.” Neste sentido, Adélia Prazo produziu uma obra que, mais do que revelar a beleza do mundo, também agregou novas cores nele. E ninguém melhor do que ela própria para se definir, em um verso do poema “Branca de Neve”: “sou curva, mista e quebrada, sou humana.”

Ao buscar o Deus indiferente que reside em cada mínimo objeto, a poeta ergueu um memorial poético em honra ao ser humano. Talvez por causa disto, a surpresa de Adélia Prado no dia seguinte ao lançamento bem-sucedido do seu primeiro livro – o medo de que a sua poesia tenha morrido – revela-se engraçado, conforme ela confessa no poema “Fluência”, quando o despertar do dia seguinte a faz procurar a voz poética, saber se ela ainda existe, se a poeta não morreu no momento em que o livro nasceu:

“Eu fiz um livro, mas oh, meu Deus,

não perdi a poesia.

Hoje depois da festa,

quando me levantei para fazer café,

uma densa neblina acinzentava os pastos,

as casas, as pessoas com embrulho de pão.

O fio indesmanchável da vida tecia seu curso.

Persistindo, a necessidade dos relógios,

dos descongestionantes nasais.

Meu livro sobre a mesa contraponteava exato

com os pardais, os urinóis pela metade,

o antigo e intenso desejar de um verso.

O relógio bateu sem assustar os farelos sobre a mesa.

Como antes, graças a Deus.”

 

Resenha originalmente publicada no link http://www.revistaamalgama.com.br/03/2016/a-poesia-indesmanchavel-de-adelia-prado/

6 Comentários

Arquivado em Adélia Prado, Amálgama, Literatura, Percy Bysshe Shelley, Poesia, resenha

Texto publicado no Literatortura (25/03/2016): “Em caso de incêndio, salvem o fogo e o ar”

Na minha coluna dessa semana no Literatortura, falei de um tipo de pessoa que toda hora aparece no meu caminho e confidencia o desejo que possui de começar a vida novamente.

Sinto-me um pouco chateado, pois jamais tive tal desejo. A vida que tenho, mesmo que repleta de problemas, preocupações e uma série quase infinita de erros e mal entendidos, está de ótimo tamanho. Acho extraordinariamente divertido tudo o que faço, desde escrever textos até processar gente como advogado por este mundo afora, ainda que admita estar me sentindo cada vez mais cansado: meu corpo não anda dando conta de tanta coisa que escrevo. Não consigo mais ver um mísero filme sem uma apoteose intertextual e interdisciplinar sacudir o meu espírito. Mas, enquanto for divertido, continuarei tal trajetória de autodestruição. Até dar com a cabeça na parede tem um lado divertido.

Boa leitura!

 

Em caso de incêndio, salvem o fogo e o ar

 

Hopper01

Não são poucas as pessoas que sonham com o recomeço.

Uma simples olhada nas redes sociais ou uma atenção mais detalhada nos diálogos que infestam o nosso cotidiano e veremos uma grande ânsia por reiniciar a vida, o momento definitivo em que possamos enterrar aquilo que fomos para, enfim, começar de novo, mudar, adquirirmos uma nova identidade. Deixar para trás tudo o que nos preocupa, nos enfastia, nos amarra com tentáculos invisíveis, toda a teia em que nos envolvemos desde o início da existência, para passar a viver com mais sabedoria, tendo a experiência do passado a nos auxiliar, mas sem abrir mão de tentar um outro futuro,

Temos esta ilusão. Sonhamos com aquele dia – sempre o seguinte, e em seguida o outro – em que enterraremos de vez o nosso passado e começaremos, então, a viver de verdade. Imaginamos este futuro alternativo com tanta força que ele chega a doer. Fazemos listas de erros e acertos, tentando nos ajustar para a chegada do novo eu, evitar que ele caia nas mesmas armadilhas que nos embaraçaram por tanto tempo. Pensamos nas pessoas que gostaríamos de conhecer melhor, nos amores que poderíamos tentar, nos empregos que tentaríamos, nas viagens a serem realizadas, nas experiências incandescentes que nos esperam.

Desculpem o pessimismo, mas lamento informar que isto não vai acontecer.

Existir não é um jogo em que, cansados das regras, podemos pedir um tempo, sentar na beira do gramado e recomeçar a partida como se nada tivesse acontecido. Disse Shakespeare que a vida é um palco, e nós somos meros atores; só o Destino sabe se seremos coadjuvantes, figurantes ou principais, e ele sequer tem a decência de nos informar previamente por quanto tempo ficaremos sob a ribalta. Pior ainda: integramos a peça no meio. Não sabemos se estamos em uma comédia ou uma tragédia. Não nos deram o roteiro; inclusive ignoramos se existe algum. Não conhecemos os nossos companheiros de interpretação, e sentimos que eles estão tão perdidos quanto nós. Podemos escolher se seremos os mocinhos ou vilões, e ter tamanho poder faz com que oscilamos de um papel para outro, buscando algo que nos conforte. Aliás, sequer sabemos o motivo de estar no palco! Simplesmente aparecemos, e a plateia inexistente espera que façamos algo: se é desonroso ou heroico, nem mesmo nós sabemos. A vida é uma peça de teatro que não tem como dar certo.

Não acredito que um recomeço pleno seja possível, e nem sei se gostaríamos de reiniciar a vida no meio da sua jornada. Posso não me sentir confortável com todos os aspectos do meu ser, mas eles fazem um contraponto interessante com aqueles que gosto. Ter a pretensão de começar de novo implicaria em apagar todo o indivíduo que levei anos para formar, tanto nas características positivas quanto nas negativas, e eu não gostaria de abdicar das partes que gosto a meu respeito em benefício da dúvida daquilo que pode vir. É uma aposta muito arriscada; em time que está empatando, se reza para acabar de uma vez a partida.

Um dos temas mais comuns da literatura é o recomeço, sendo que não raro ele conduz à redenção: os crimes da vida passada são apagados pelas boas ações da nova existência. São as artes que dizem que podemos mudar de vida a qualquer momento; assim como sereias, elas tentam nos afastar da resignação do caminho único a que já nascemos previamente condenados, gerando sonhos inéditos. As artes foram a maneira encontrada para suavizar uma vida áspera e cruel. Seja apreciando-a, seja concretizando-a, as artes abrem novas possibilidades para uma vida que, como os gregos antigos diziam no teatro e nunca escutamos direito, estava escrita desde antes de nascermos.

Entre todos os livros que tratam de personagens que começaram novas vidas, recordo em especial de três, mas em todos recomeços existiram problemas. Não cabe a ninguém ter duas vidas no espaço de uma. Não interessa o quanto desejamos nos enganar, sempre possuiremos uma vida só. Em “Os Miseráveis”, de Victor Hugo, Jean Valjean é um homem pobre que rouba um pão para alimentar a sua família; acaba sendo preso e, em uma tentativa de fuga, é novamente capturado, permanecendo 19 anos preso – sim, por causa de um pão. Se desejam procurar Justiça, não tentem o Poder Judiciário. Ao sair da cadeia, ele tenta começar vida nova, mas o passado insiste em assombrar na figura do inspetor Javert. A figura obcecada de Javert é um lembrete para Valjean que, não importando quanto tempo passe, dentro da sua pele ainda mora o mesmo bandido que permaneceu 19 anos recolhido a uma prisão. Uma curiosa metáfora para a nossa capacidade somente relativa de reiniciar a vida; não importa o quanto desejamos mudar, no fundo ainda seremos o mesmo. As atitudes mudam, mas a essência do ser humano não.

Ao contrário, em “Grandes Esperanças”, de Charles Dickens, a mudança de vida de Pip acontece por causa do amor. Apaixonado por Estela, ele amaldiçoa a sua pobreza e luta para sair desta condição e, assim, merecer a estima da mulher amada. Para ele, se tiver mais educação, mais cultura e mais dinheiro será mais fácil fazer com que Estela aceite o amor que os une. O seu desejo de recomeçar a vida está ligado às visões de outra pessoa, e isto é mais frequente do que imaginamos: quase todo desejo de reiniciar a vida não parte de uma necessidade interna imperiosa, mas para nos adequarmos a outra pessoa. Conhecemos inúmeras pessoas que fizeram tal movimento: deixar a própria vontade de lado para se adequar aos desejos de outrem. Está no cerne de todos os relacionamentos que fracassam. Quando Pip enriquece graças a uma herança, os seus problemas mudam de esfera, e a chance de virar uma nova pessoa digna do amor da mulher precisa ser constantemente recordada, pois o dinheiro não traz a mudança pretendida, mas aumenta a carga de responsabilidades e infortúnios.

De todos, o menos clássico dos livros que recordo é o mais aterrador sobre a impossibilidade de reiniciarmos a vida de forma plena, pois sempre estaremos presos na bigorna de quem outrora fomos. Em “Não matem as flores” de J.M. Simmel, o advogado Charles Duhamel é dado como morto em um acidente de avião. Infeliz com a vida luxuosa que levava, ele resolve recomeçar. Adota um outro nome, pega um emprego modesto, conhece uma mulher simples por quem se apaixona e sente-se feliz e confortável na nova existência. No entanto, o passado volta a procurá-lo na figura da esposa da outra vida que, movida por despeito, insiste em dizer que ele continuava vivo, e faz uma longa busca até o momento em que Charles Duhamel precisa se conformar com a ideia de que nenhuma pessoa pode viver duas vidas. O personagem é punido pela ousadia de realizar o sonho que conforta as nossas noites insones.

Eu não admiro as pessoas que sonham em recomeçar (posto que é impossível apagar a existência anterior), mas as capazes de mudar partes da sua personalidade. Aquelas que aprendem com os erros e constatam que, do jeito que vai determinada situação, não pode continuar. Nenhuma mudança necessita ser brusca, como imaginaram Valjean, Pip e Duhamel. Elas podem ser graduais. Se não somos capazes de começar tudo de novo, podemos reiniciar partes da vida. Começar um novo emprego. Uma relação não danosa. Um livro novo. Ser menos sério e mais brincalhão. Qualquer coisa. Não começar tudo de novo, mas uma mudança de perspectiva sobre uma parte do que somos.

Não sou uma pessoa refratária a mudanças de aspectos da minha personalidade. Estou constantemente aprendendo com meus erros e tentando retificá-los, algumas vezes com sucesso, em outras não. Não perco tempo sonhando que um Deus ex-machina ou o gênio de uma lâmpada mágica será capaz de zerar a minha existência e perdoar todos os erros que cometi até hoje. Ao invés de ter este pensamento viciado que entorpece tantas pessoas e as permite seguir sonhando impossibilidades (e, pior ainda, faz com que elas vivam na ilusão de que a sua vida pode mudar a qualquer momento), prefiro ir mudando aos poucos.

Uma história famosa: no início do século XX, em pleno auge do movimento surrealista, os artistas de tal escola artística cogitaram em incendiar o Louvre. Para eles, não existiam mais obras de arte, pois a fotografia tinha acabado com o sentido de produzir pinturas. Um repórter decidiu provocar Jean Cocteau, perguntando o que o escritor francês salvaria do museu acaso tivesse que escolher somente um item. A resposta foi imediata: “O fogo!”.

Anos depois, outro repórter engraçadinho resolveu confrontar Salvador Dalí com a mesma pergunta: acaso incendiassem o Museu do Prado, e ele pudesse salvar um único item, o que seria? O pintor espanhol – provavelmente conhecendo a resposta de Cocteau – respondeu “O ar”. Em seguida, acrescentou “mas só o ar que existe dentro do quadro ‘As meninas’, de Velázquez”.

Lembro destas duas histórias quando me perguntam se eu gostaria de mudar de vida ou ter a existência de outra pessoa. Não, muito obrigado. Estou plenamente satisfeito com as minhas falhas, contradições e problemas. Ninguém sabe o cheiro do ar que respiro. Ninguém sabe a intensidade da chama que me anima. Posso mudar as paredes do meu museu interno – esta catedral de memória e sensações construída de pele, cinzas e sonhos – ou posso mudar a ordem dos quadros, mas nunca modificar a essência do que sou, nunca mexer no fogo que me sustenta e no ar que me preenche. Saber que não sou a pessoa que sonha em ser outra, mas alguém que está em constante revisão e aperfeiçoamento, é o que me faz acordar todo dia.

2 Comentários

Arquivado em Charles Dickens, Generalidades, Jean Cocteau, Literatortura, Salvador Dali, Victor Hugo, Vida

Texto publicado na revista eletrônica da Dublinense (22/03/2016): “Quando os olhos nos enganam”

No texto dessa semana que publiquei no Medium da Dublinense, falei de como os olhos podem nos enganar. Sou uma pessoa extremamente cautelosa com aquilo que vejo; coloco tudo sob suspeita, pois não sei se o que estou vendo é real ou se estou desejando muito ver algo que não está ali. Minha mente me prega peças diárias e, se eu não ficar adstrito àquilo que consigo ver mesmo, sem nenhuma ponderação em cima, posso acabar gerando uma série de mal entendidos. Aliás, boa parte dos problemas do Brasil, e talvez do mundo, decorram do fato de que as pessoas não sabem enxergar sem ver uma série de coisas que não existe ali: um sorriso vira um convite; um piscar de olhos, uma promessa; um virar de cabeças, um interesse. Temos que nos cuidar para não entender errado aquilo que nos rodeia.

Boa leitura!

Quando os olhos nos enganam

Nem tudo o que enxergamos é verdade, e a visão é o sentido mais fácil de ser enganado. Olhamos não aquilo que é, mas aquilo que desejamos ver. A realidade não passa de uma distorção diária, em que o meu mundo é diferente do teu, e os nossos são diferentes de todos os outros.

Passei por uma experiência destas no domingo passado: próximo ao Monumento ao Expedicionário no Parque Farroupilha, em Porto Alegre, um grupo de pessoas gritava palavras de ordem e protestava, erguendo bandeiras desanimadas e faixas. No final da noite, li que uma manifestação com 5.000 intelectuais portoalegrenses tinha acontecido no Parque. Com todo o respeito à minha cidade, não sei se o número de intelectuais dela chegaria a encher uma Kombi; no Brasil inteiro, é provável que enchessem um ônibus. O termo mais apropriado seria “agentes de cultura”, mas as pessoas normalmente confundem conceitos, o que também é um tipo de cegueira seletiva.

O incontestável é que, no horário da dita manifestação, não percebi as alegadas 5.000 almas no Parque Farroupilha. Talvez 100 pessoas estivessem ali. Foi o que vi, com esses olhos verdes que a terra um dia há de comer.

No entanto, não desconfio da contagem que chegou a 5.000 pessoas. Desconfio dos meus olhos. Teria eu eliminado 4.900 pessoas regularmente presentes na manifestação? O meu olhar distraído teria captado somente um punhado de pessoas onde deveriam estar centenas? Muitas pessoas se refugiam naquilo que viram para apregoar a verdade, mas, e se a verdade estiver mentindo e modificando a visão? Só quem já lidou com testemunhas sabe o quanto uma história pode modificar, que não há uma narrativa única. Inclusive existe um livro muito interessante de Raymond Queneau, “Exercícios de estilo”, em que ele conta a mesma história de 99 maneiras diferentes. Apesar dos experimentalismos que o escritor francês faz com a linguagem, existe uma lição aí: coloque um bode dentro de uma sala com 99 pessoas e poucas irão realmente ver um bode. É possível que enxerguem desde Satã até um unicórnio que deu errado, mas não a dura realidade.

1 lqehHnRvIy2qkCw_m3bGPw

A luta entre imaginação e ficção é mais antiga do que imaginamos. Quando vemos pessoas discutindo números, corpos e presenças em uma passeata, reprisamos uma discussão ancestral, entre o que os outros viram e aquilo que nós enxergamos. Uma discussão repleta de valores e considerações pessoais, para não dizer preconceitos.

O curioso é que, no passado, consideravam os pintores como os grandes responsáveis pela adulteração da realidade. O objetivo do pintor da Antiguidade clássica não era retratar aquilo que via, mas fazer a sua obra tornar-se tão real quanto o mundo. Existiam disputas sobre qual pintor era mais capacitado para representar a realidade. Plínio, o Velho conta que, por alguns anos, Zêuxis foi considerado o pintor mais hábil do mundo, pois desenhara um cacho de uvas tão real que os pássaros se arremessavam contra a parede tentando bicá-las. Acabou sendo derrotado pro Parrásio, que desenhou uma cortina tão precisa que Zêuxis tentou abrir, imaginando que a obra se escondesse atrás dela. Também podemos lembrar o caso de Apeles de Cós, que desenhou um cavalo tão verdadeiro que outro cavalo o reconheceu como um semelhante. Os pintores retratavam aquilo que viam, forçando as pessoas a questionarem as suas próprias visões sobre o que seria real e imaginado.

Quando surgiu a fotografia, foi unânime o alívio: tinha acabado o reinado mentiroso dos pintores. Com a sua capacidade de retratar o real, a fotografia era incorruptível, imutável, verdadeira. Ninguém mais poderia ditar aquilo que seria ou não real. Não foi à toa que Edgar Allan Poe saudou a fotografia – a qual chamava de “fotogenia”, do grego “pintar com o sol” – como “a mais importante e extraordinária façanha da ciência moderna”. Paul Valéry elogiou a capacidade da fotografia de ressuscitar e até mesmo rejuvenescer a nossa visão sobre um determinado fato.

Recordo que, alguns anos atrás, em viagem no interior do interior da Serra gaúcha, acabei chegando em um armazém que possuía fotos antigas ostentando pessoas em poses estranhamente falsas. Existia algo perturbador naquelas fotos, algo difícil de captar a olho nu.  Perguntei para o dono do local o que era aquilo – raras pessoas prestam atenção nas paredes dos locais onde estão fazendo compras – e ele explicou: no passado, era difícil para qualquer pessoa possuir uma máquina fotográfica. Assim, quando alguém morria, para preservar o semblante e a memória do defunto, deixavam o cadáver insepulto até que o fotógrafo estivesse passando pelo lugar, quando o morto era vestido com suas melhores roupas e tirava fotos com os familiares. Era a única prova da existência de alguém no nosso planeta. Sabia disto em fotos antigas de vitorianos ou em instantâneos tirados no Velho Oeste americano, e foi espantoso ver que, mesmo no mais inóspito lugar do Rio Grande do Sul, a fotografia era considerada como instrumento apto de nos assegurar um mundo real.

O mórbido costume vitoriano de preservar a memória dos mortos

O mórbido costume vitoriano de preservar a memória dos mortos

Apesar de ser o meio mais seguro de separar aquilo que era real do que não era, a fotografia foi atacada por um dos maiores expoentes do realismo. Em setembro de 1862, Honoré de Balzac mandou uma carta para a revista Le Boulevard defendendo os artistas contra a ditadura da fotografia, pois, para ele, a arte também significava em uma recusa de copiar a realidade vigente para transformá-la em outra possibilidade. Ao escolher a sua visão do real, o artista ajudava outras pessoas a abrirem a mente para novas viabilidades, escapando do cotidiano.

Foi uma carta furibunda: em determinados momentos, Balzac ridicularizou os fãs da fotografia, chamando-os de “tolos que pretendem a reprodução exata da natureza”. Em uma provável tentativa de afastar interessados pela fotografia, Balzac desenvolveu a teoria de que “toda fotografia é um crime espectral”: a cada foto que tiramos, um pouco da camada espectral que rodeia o nosso ser seria roubada, o que nos força a concluir que a fotografia é algo que nos mata aos poucos, um assassinato em andamento. Tal teoria nunca ficou provada, mas, a julgar pela quantidade de fotos que tiramos nos dias atuais, dificilmente chegaríamos aos 20 anos de idade acaso dito “crime espectral” acontecesse.

Graças à noção de que a fotografia representa o real, não são poucas as pessoas que acreditam que fotos não mentem, e saem por aí passando imagens adiante para provar os seus argumentos. No entanto, cada vez mais esta ideia é contestada pela tecnologia. Nos tempos em que vivemos, fotos são cada vez menos verdadeiras. As possibilidades de manipulação da realidade contida nelas é inesgotável. Certa vez, um amigo publicitário me disse que existiam poucas obras mais ficcionais do que a revista Playboy. Não seria espantoso, assim, que me mostrassem uma foto com 5.000 pessoas no Parque Farroupilha no domingo, e novamente eu seria forçado a questionar a minha visão, e o corte longitudinal na realidade que ela aplicou. Chegamos ao ponto reverso: hoje, uma pintura é considerada mais real do que uma fotografia. Pelo menos, ela não pode ser manipulada ao bel prazer de quem a utiliza, e contém uma única visão da realidade.

Ainda assim, temos uma necessidade quase infinita de separar o joio do trigo, mostrar o que é realidade e o que é ficção. Todo leitor sonha que a sua história favorita tenha existido mesmo no mundo, o que explica os ardorosos fãs procurando a entrada de Hogwarts no metrô de Londres. Por muitos anos após a leitura de “Operação Cavalo de Troia”, de J. J. Benitez, achei que fosse um livro real. Ele era construído com tantos dados científicos, tantas notas de rodapé e tantas explicações de várias áreas diferentes que não podia ser ficção. Inverossímil seria imaginar que uma obra tão verdadeira fosse falsa. Tínhamos grupos de discussão no colégio sobre “Operação Cavalo de Troia”, e sempre acreditamos que a história do cientista que volta no Tempo e presencia a crucificação de Cristo era real. As descrições médicas dos efeitos corporais sofridos por Jesus Cristo durante o seu suplício ainda frequentam a minha memória. O que estragou tal sensação foi o próprio autor, que começou a lançar livros em sequência com a mesma temática e logo vimos que era mentira: uma viagem no Tempo era possível, mas várias já era abuso da nossa boa vontade.

Também existem livros que eu gostaria muito que fossem reais, mas não são. Para ficar nas minhas leituras de adolescência, adoraria que “Médico de Homens e de Almas”, de Taylor Caldwell, fosse verdade. Imaginar os diálogos de Lucas com filósofos da sua época sempre me fascinou. Também queria muito que “Agosto”, de Rubem Fonseca, tivesse um pé (ou os dois) em uma história real. Ajudaria a explicar melhor o agosto de 1954 ou, pelo menos, daria um sentido mais imanente para o mês em que o Brasil enlouqueceu (um dos meses em que o Brasil enlouqueceu, eles andam se tornando frequentes). Na minha visão de mundo, contudo, os dois são tão reais que realmente existiram. Não interessa o que os historiadores digam, para mim as obras aconteceram e se incorporaram na realidade.

Fotografia e arte unidas para enganar o olho, dos artistas Joe e Max

A adulteração da realidade também pode ser o embrião de ideias perigosas. No início do século XVIII, na Alemanha, um crítico literário chamado Johann Herder saiu-se com uma ideia inusitada: Shakespeare não era inglês, na verdade ele era alemão. O seu apreço por temas nórdicos, a forma com que construía as suas histórias, o respeito que tinha pelos símbolos germânicos, tudo isso representava o desejo oculto de Shakespeare ser alemão, e foi um acidente que tivesse nascido na Inglaterra.

Esta ideia foi seriamente discutida na época, mas logo caiu em esquecimento (ou assim imaginamos, pois as teorias mais estapafúrdias não deixam de existir, elas só circulam anônimas pelo mundo). No entanto, em 1940, ressurgiu com força, desta vez com o crítico de teatro Wolfgang Keller que, em discurso dirigido à Sociedade Shakespeariana da Alemanha, perguntou se ainda podiam considerar Shakespeare como filho do solo inglês ou se seria mais adequado transformá-lo em escritor alemão.

Para provar a sua teoria, Keller apresentou uma série de argumentos: a Alemanha teria sido o primeiro país europeu a traduzir Shakespeare e, por causa de tal atitude, ao reconhecer seu valor antes dos próprios ingleses, os alemães teriam reivindicado seus direitos sobre o dramaturgo. Além disso, ele acrescentou que, depois de dois séculos abordando criticamente a obra de Shakespeare, analisando-a, interpretando-a e lendo-a nas suas faculdades, era mais crível para um alemão imaginar que Shakespeare fosse um autor alemão ao invés de inglês, com quem ele não tinha sequer relação temática. As peças que possuíam temas ingleses eram como se um escritor alemão fantasiasse a realidade de um país distante.

Por fim, o argumento mais perigoso de todos: a Inglaterra da época do bardo era muito semelhante ao Terceiro Reich. Assim, Shakespeare estava tratando não de temas da sua época, mas de assuntos ligados ao Terceiro Reich, só que se passando em outra era. Para embasar tal teoria, Keller afirmou que “o sentido da vida dos isabelinos era heróico, militar, jovem e buscava o progresso, utilizando-se de ações e aventuras”, como acontecia nas peças de Shakespeare. A conclusão bombástica: a Inglaterra só produzira um Shakespeare por que, ao contrário da Alemanha, tivera sucesso em viver 300 anos sem judeus. Por conseguinte, os judeus eram os verdadeiros responsáveis por Shakespeare não ser alemão.

Pode parecer um discurso ilógico, mas diz muito a respeito da nossa vontade de distorcer a realidade. Quando Keller defendeu que Shakespeare não devia mais ser inglês, e sim alemão, ele pretendia não só roubar um escritor para o seu país, mas todo um sistema cultural. Por trás da loucura de tal pretensão, escondiam-se argumentos defendíveis ou, no mínimo, ousados. Diante do olhar de Keller, era evidente que Shakespeare só podia ser alemão, e o fato dele ter nascido e vivido em outro local era um mero detalhe. Fazer tamanha elucubração mental sobre a realidade mostra que, se quisermos, podemos acreditar em qualquer coisa – até mesmo no imponderável.

É provável que eu nunca saiba quantas pessoas estavam realmente reunidas no domingo no Parque Farroupilha. Mas também não podemos confiar em fotografias e nem mesmo na literatura, pois quem nos garante que Machado de Assis não sofreu um processo de absorção por parte da literatura brasileira, sendo, talvez, um paraguaio? E todo mundo está nos mentindo até hoje? Não temos certeza de quase nada, e gostamos de mentir uns para os outros que basta nos seguirem e chegarão à verdade.

Para mim, a melhor versão da realidade ainda foi dada por Borges: quando abro os olhos, o mundo nasce comigo. Quando caminho, aquilo que olho se forma com rapidez diante dos meus olhos. Atrás de mim, existe um grande vazio que, quando me viro, se constrói instantaneamente. Quando eu morrer, o mundo inteiro morrerá comigo. Estamos sempre construindo e desconstruindo a realidade, e sempre de acordo com a nossa conveniência. Assim, na ótica do escritor argentino, vivemos em um mundo cuja realidade não existe, mas que se encontra em constante e laboriosa construção, passando pelo mais enganoso dos filtros: a nossa vontade de ver algo, seja 100 pessoas, seja 5.000 intelectuais. Não existe, assim, o real; existe aquilo que eu desejo ser verdade.

 

Texto originalmente publicado em https://medium.com/colecao-dublinense/quando-os-olhos-nos-enganam-8ed2ea2a2ed1#.de9yrllt4

Deixe um comentário

Arquivado em Dublinense, Fotografia, Generalidades, Honoré de Balzac, Johann Herder, Jorge Luis Borges, Literatura, Olho, realidade, Rubem Fonseca, Taylor Caldwell, Visão, Wolfgang Keller

Texto publicado na revista eletrônica da Dublinense (15/03/2016): “Como ser um artista – ou uma pessoa – fenomenal”

Na minha coluna no Medium da Dublinense desta semana, falei daquela que considero a mais nobre das características humanas, o que separa a pessoa ótima da fenomenal: a compaixão.

Um agradecimento especial aos leitores que divulgaram tanto este texto que ele entrou na chamada de capa do Medium Brasil. É bom ver que não estou sozinho ao imaginar que o mundo é um local bem melhor se tivermos um pouco mais de compaixão.

Boa leitura!

 

Como ser um artista – ou uma pessoa – fenomenal

Se algum dia me perguntassem qual a característica que separa um ótimo artista do fenomenal, eu responderia ser a compaixão. Não importa a técnica, não importa a verossimilhança e aparência de verdade, não importa o aspecto social ou mesmo o componente humano exposto nas vísceras da obra, mas o essencial mesmo em um artista é a compaixão, esta capacidade que uma pessoa possui de entrar na pele da outra e transformar a dor dela na sua.

Um artista fenomenal não precisa perdoar os seus semelhantes ou doutriná-los paternalmente sobre onde eles erraram. Não necessita agir bonito e muito menos ser agradável com o seu público. Ao contrário, ele só precisa mostrar que não estamos sozinhos no meio deste mar insensato de gente que encheu, enche e ainda encherá o planeta. Não interessa o quão profunda e difícil de explicar seja a nossa dor, o quão indevassável seja o nosso abismo interno, não precisamos virar para trás para saber que o artista nos compreende e, com a sua mão invisível pousada sobre o nosso ombro, está nos acompanhando, como se fosse Virgílio a guiar Dante pelo Inferno. Vocês nunca caminharão sozinhos, é o que promete este homem ou mulher que, através da arte, se dispôs a perder tempo andando ao nosso lado, segurando o lampião do bom senso enquanto nos conduz por entre as agruras da condição humana.

1 5uRcQfRKg_RQQlUSM2AkHQ

A compaixão não é condição essencial somente para os artistas, mas para todos. As melhores pessoas que conhecemos provavelmente não são aquelas que possuem mais dinheiro, bens materiais e inteligência, mas as mais dotadas de compaixão. É indispensável uma grande observação do ser humano para saber que, por mais diferente que ele seja de nós mesmos, ainda assim possui a sua própria dose de verdade, que pode ser articulada das mais diferentes maneiras, algumas inclusive grosseiras, outras diáfanas e sutis. Os artistas fenomenais não são somente os que observam o mundo, mas aqueles que sabem usar esta observação para transformar em obra e, assim, mostrar a sua compaixão pelas características que nos constituem como indivíduos, entre elas, o direito à expressão e ao livre pensamento.

Nos últimos dias, tornou-se um hábito enfadonho – às vezes divertido – receber pregações políticas e econômicas nas minhas caixas de e-mail. Reflexos do tempo em que vivemos. Algumas pessoas cobram posições, e inclusive afirmam que um dos deveres da arte é estar inserida na sociedade do seu tempo para modificá-la. Acho um argumento risível: o dever do artista é modificar a sociedade ATRAVÉS da sua arte, e não fazer proselitismo vulgar. Para o artista, a arte vem antes da sociedade (apesar dos sociólogos e parte da teoria crítica – lembro aqui de Antonio Candido – dizerem o contrário).

Para mim, é um silogismo básico: sou um ser humano, por conseguinte sou um ser político; assim sendo, todos os meus textos são políticos. Se os outros não possuem capacidade de ver isto, não é problema meu, mas da leitura distorcida que fazem. Uso com frequência duas figuras literárias para responder tais questões, não interessando o seu grau de virulência. A primeira é Sheherazade, de “Mil e Uma Noites”: se ela ficasse o tempo inteiro tentando convencer o sultão a não matá-la, não interessa a justeza dos seus argumentos, teria morrido no primeiro dia. Foi através da arte de contar histórias que ela prorrogou a vida, não por causa da ponderação e da lógica da sua causa. A segunda é Jesus Cristo, e aqui trato o Novo Testamento como texto literário, não religioso, uma das formas mais interessantes de ler tal obra: quando Pilatos pediu para que ele dissesse o que era Verdade, Jesus – mesmo adorando um púlpito para contar parábolas e fazer sermões – preferiu ficar calado. Pois não existe uma Verdade única e, em assim sendo, por sermos pessoas diferentes, cada uma possui a sua noção sobre ela.

No entanto, ainda que existam muitas verdades, a compaixão é única. Sempre foi e sempre será. Foi a compaixão pelos seres humanos que fez Anton Tchekhov escrever alguns dos seus contos mais lancinantes, como “Angústia” e “O beijo”; o mesmo sentimento guiou os passos de Fabiano e – como esquecer? – de Baleia pelo Sertão em “Vidas Secas”, do Graciliano Ramos; a compaixão por todos que passam a vida esperando algo indefinido, correndo o risco de perder aquilo que está ao lado, norteia “A Fera na Selva”, do Henry James; o farol que ilumina os poemas de Neruda, de Alfonsina Storni e de Florbela Espanca é a sensação cálida de transmitir para o outro não a possibilidade de redenção, mas o de estar próximo, prestes a amparar o braço do leitor quando ele cambalear, permitindo-lhe que siga em frente com suas virtudes e pecadilhos.

Baleia, em desenho do Deus Dará

Baleia, em desenho do Deus Dará

Podemos transferir isto para outras formas de arte: as expressões repletas de sentimentos das esculturas de Antonio Caneva, ou as cores cortantes de Van Gogh, ou a catedral musical laboriosamente erguida por Johann Sebastian Bach (e, no melhor estilo dos acampamentos romanos, derrubada a cada final da composição, para depois ser reerguida de forma diferente) mostram que os artistas fenomenais não buscam só a recompensa estética de concluir uma obra conforme sua visão, mas aquilo que está por trás, a essência de cada ser humano. É por encontrá-la que o único sentimento possível é a compaixão, e neste momento volto a citar este extraordinário personagem esférico a quem deram o nome de Jesus Cristo, e as palavras no suspiro lamentoso que antecedeu seus últimos momentos: “Pai, perdoai-lhes, eles não sabem o que fazem”. Nenhum de nós sabe direito o que está fazendo, e o artista fenomenal consegue ver os seres desengonçados e perdidos que se escondem por trás da nossa capa de segurança.

Em um ensaio presente no livro “A arte da poesia”, chamado de “O artista sério”, Ezra Pound inicia afirmando que, no passado, a preocupação era saber se as artes podiam ser uma benção ou uma atitude criminosa, e, por sua vez, em 1913, estavam preocupados em saber se as artes deviam ser morais, se deviam ou não conter um ensinamento para e sobre a sociedade em que estão inseridas.

Em um primeiro momento, ele afirma que as artes, tais como a literatura e a poesia, são também uma ciência, cujo assunto é o homem, a Humanidade e o indivíduo: “com as artes, aprendemos que o homem é cheio de caprichos, que um homem difere do outro. Que os homens diferem entre si como as folhas das árvores. Que não se parecem uns aos outros como se fossem botões feitos em uma máquina”. Saber que os homens sentem e pensam diferente é a melhor forma de entender o que acontece no nosso mundo, mas cumpre à arte respeitar o divergente, mas mostrar as consequências do agir desta forma. Dentro da extraordinária compaixão que move um artista fora de série, está o medo sobre o que o outro pode experimentar se persistir naquele caminho.

Em seguida, Ezra Pound diz que o importante é o artista ser verdadeiro consigo mesmo, pois, em tendo compaixão de si, ao entender como funcionam as nuances que o levam a sentir medo ou alegria, será capaz de se solidarizar com o outro. O verdadeiro artista não pensa na sociedade, nos ganhos pessoais ou na fama, mas pensa em como pode se conhecer melhor e, em tal processo, acaba ajudando outras pessoas:

“Quando um artista falseia o seu informe sobre a natureza do homem, sobre sua própria natureza, sobre a natureza de seu ideal de perfeição, sobre a natureza de seu ideal disto, daquilo ou daquiloutro, de deus, se é que deus existe, da força vital, da natureza do bem e do mal, se é que existem o bem e o mal, da força com que ele acredita ou deixa de acreditar nisto, naquilo ou naquiloutro, do grau com que sofre ou se alegra; quando o artista falseia seus informes sobre esses assuntos ou sobre outro qualquer, de modo a poder conformar-se ao gosto de sua época, às exigências de um soberano, às conveniências de um código preconcebido, esse artista está mentindo. Se mente por deliberado propósito de mentir, por descuido, preguiça, covardia ou por qualquer outra espécie de negligência, mesmo assim está mentindo, e deveria ser punido ou desprezado na medida da gravidade de sua ofensa.”

O dever de qualquer pessoa é ser verdadeira consigo mesma e, desta maneira, por conhecer a sua verdade particular, não tem necessidade de sair por aí espalhando seus pensamentos como se fossem a única visão de mundo existente. Muita presunção nossa imaginar que sabemos aquilo que é melhor para o outro se não somos nem ao menos capaz de entendê-lo! A pessoa não precisa sair por aí falando, fazendo desabafos pungentes em redes sociais ou cooptando pessoas para o que ela pensa, pois ela simplesmente SERÁ aquilo que pensa, sem a necessidade de discursar para provar a sua visão de mundo, e os outros que se ajustem às próprias verdades desde que respeitem a minha.

1 SPp4vtDMBW06sUinE_qK6g

Nos últimos tempos, tenho recordado muito de um pequeno conto de Aleksandr Kuprin (1870-1938), escritor russo quase desconhecido, mas de vida agitada: foi estivador, repórter, sacristão, pescador, artista de teatro, operário e militar. O conto está na “Nova Antologia do Conto Russo”, lançado pela Editora 34, e se chama “O inquérito”.

Nesta curta história, o subtenente Kozlovski – um homem jovem, bem apessoado e de excelentes condições financeiras – recebe a incumbência de julgar um soldado que teria roubado um par de botas do seu companheiro. No curso da investigação, Kozlovski descobre que não existem provas contundentes para condenar o acusado, mas resolve pegar o seu depoimento. Percebe que Baigúzin – o pretenso ladrão – é um tártaro pobre e, pior ainda, possui em torno de 12 anos, passa fome e está vestido de forma precária para atravessar o inverno russo. Existia toda uma diferença social entre ser russo e ser tártaro na época. No decorrer do interrogatório, sente crescer uma identificação com o acusado, pois ambos se encontram no ponto inescapável de possuírem cada qual a sua mãe. É a figura da mãe que estabelece o laço entre os dois, e é um sentimento mútuo tão forte que o outro acaba confessando o crime. Com tal concordância sobre o delito, Kozlovski é obrigado a determinar a sua punição: cem chibatadas.

O subtenente passa a noite acordado, em um misto de vergonha e desespero, imaginando o que o outro estava sentindo ao saber da inevitável dor que lhe aguardava. Pergunta para outros soldados se não existe alguma punição alternativa, e se depara com a indiferença alheia. No dia seguinte, toda a companhia se reúne para assistir a punição de Baigúzin e, entre eles, um soldado especialmente grosseiro, que menciona, com crueldade, que as chibatadas atuais são fracas, que na juventude dele, sim, eram violentas. Envergonhado, Kozlovski escuta a sua sentença impiedosa sobre Baigúzin ser lida em voz alta e, em seguida, ser executada. Ele sente cada chibatada como se fosse em si mesmo; quando chega na décima chibatada, e eram cem, a sua agonia parece nunca terminar. Os dois personagens estão sendo punidos, um por ter dado a ordem, e o outro por sofrer as consequências dela.

Ao chegar na última chibatada, Baigúzin está desmaiado e, quando é carregado para longe do pátio, o soldado que assistia a tudo com prazer reclama que a punição foi muito frágil, que ele teria chicoteado de maneira muito mais cruel. É o estopim para Kozlovski brigar aos gritos com este soldado, ordenando que ele se calasse, e ser removido do pátio aos arrastos pelos seus colegas, que temiam uma briga.

Muitas questões levantam-se desta história, quase todas de maneira sutil, e podemos ler a narrativa de inúmeras formas. No entanto, outra característica muito interessante da arte é a sua capacidade de condensar todos os dramas humanos em uma única cena. Pois o drama de Kozlovski é um microcosmo das nossas questões existenciais: quando nos solidarizamos com o outro, sentimos a mesma dor dele, somos solidários com a sua agonia e partícipes involuntários das suas vitórias. É mais fácil não entrarmos na pele e nos sentimentos das demais pessoas, pois isto nos machuca também. Ter compaixão pelo outro não é desmerecê-lo, mas, ao contrário, é reforçar o nosso estatuto como seres humanos. A mão que agride também acaba se machucando, conforme Kozlovski percebe, no seu duplo papel de ser executor e vítima ao mesmo tempo.

O maior medo que temos é de sentir compaixão pelo outro. Por isso, as pessoas fenomenais – e, entre elas, os artistas – são aquelas que não possuem medo de sentir a dor de outro indivíduo, que são capazes de compreendê-lo e entrar na sua pele, no seu sistema de valores. É um procedimento doloroso, o que explica o fato de, nos dias em que vivemos, existirem pouquíssimas pessoas a quem possamos considerar como fenomenais. Ainda assim, as poucas que existem fazem a Humanidade inteira ser justificada. São os nossos Trinta e Seis Homens Justos, de acordo com a simbologia judaica: as pessoas que carregam a nossa cruz.

Deixe um comentário

Arquivado em Anton Tchekóv, Compaixão, Dublinense, Generalidades, Graciliano Ramos, Literatura

Texto publicado no Literatortura (17/03/2016): “Ainda sou livre?”

Na minha coluna no Literatortura dessa semana, tratei de um assunto que anda bem delicado nos tempos em que vivemos:  a escravidão imposta pelas opiniões dos outros. Estou farto de ver as pessoas compartilhando as mesmas piadas, as mesmas ironias e os mesmos textos no Facebook. Parece que o privilégio de refletir por si só tem sido alcançado a pouca gente na atualidade. Acredito que esta seja a forma mais sublime de preguiça, pois, a pretexto de concordância, passa-se adiante as ideias de outro sem que tenhamos que refletir e colocar elas com as nossas próprias palavras, o que é bem difícil.

Mas também falei do que importa: de Cecília Meirelles, de um documentário sobre escravidão, de Shakespeare, de Beethoven, de Max Ernst. De The Killers e de São Tomé enfiando os dedos no peito de Jesus. Ah, e da Virgem Maria dando umas palmadas no Menino Jesus.

Boa leitura!

 

Ainda sou livre?

existencialismo

Nos últimos tempos, vem acontecendo com relativa frequência. Desperto no meio da noite, saindo de algum sonho anônimo que se esconde nas brumas do quarto, e a primeira pergunta que surge na minha cabeça – triunfal, destruidora, inquietante – é “ainda sou livre?”. Preferia acordar com uma pergunta mais gentil, como “Are we human or are we dancer?” de “Human”, do The Killers, mas ninguém controla os próprios pensamentos e, assim, a dúvida que esmaga a minha tranquilidade é se posso me considerar alguém genuinamente livre.

Não é uma simples indagação, mas algo que exige uma resposta enérgica, uma tomada de decisão enfática; sinto a pergunta cravada no meu espírito como se fosse uma lança. Durante um tempo que considero eterno (não deve passar de alguns milionésimos de segundos), permaneço indeciso, e odeio passar por este sentimento, pois não sei: sou livre ainda? Posso responder com absoluta segurança de que ainda sonho os meus sonhos, não os que pertencem a outras pessoas? Continuo a trilhar o caminho desejado, não existindo outros a guiarem os meus passos com sussurros ofídicos que sou incapaz de ouvir? A dúvida se espalha e, quando consigo responder, não é com um “sim” inquestionável, mas com um “por enquanto”. Sim, por enquanto, ainda sou livre.

Toda hora vejo pessoas apregoando orgulhosamente a sua liberdade de ir e vir, de pensar, de se manifestar. Invejo quem possui tamanha segurança, pois eu, cada vez que escrevo um mísero texto, sento não só comigo, mas com centenas de outras vozes que punem, cortam, debatem, gracejam, se apavoram, rezam, recriminam e algumas até soltam gargalhadas histéricas. Eu evito escutá-las, pois, se desse atenção para o que dizem, estaria fadado a não escrever – precisaria agradar não só gregos e troianos, mas provavelmente toda a Antiguidade clássica, quiçá também até o mais insignificante dos feudos da Baixa Idade Média. Cada texto que faço é um exercício de liberdade, a certeza um tanto titubeante de que ainda sou livre. Minhas palavras não são só ideias, são meu estatuto de liberdade. Quando sentar com medo do que pretendo escrever, ou cedendo à ponderação das vozes sociais que tentam me escravizar, neste dia irei preferir o silêncio.

Assistindo a um documentário sobre escravidão, um detalhe quase ínfimo na narrativa me fez refletir: tiraram a liberdade de muitos homens e mulheres, sim, mas também existiram crianças nascidas dentro do regime escravo. No caso delas, e algumas passaram o espaço de uma vida inteira em tal condição, a liberdade nunca chegou a existir como conceito. Liberdade, cuja melhor definição pertence à literatura, nas palavras de Cecília Meirelles no “Romanceiro da Inconfidência”: “…Liberdade, essa palavra que o sonho humano alimenta, que não há ninguém que explique e ninguém que não entenda…”. Para tais crianças, era normal ser punido, destratado, humilhado e ter que se submeter a outras vontades, pois desconheciam a noção de livre arbítrio. O entrevistado não levou adiante a reflexão, mas o incômodo não cessa: o que seria melhor, conhecer a liberdade, e depois perdê-la, ou nunca chegar a conhecê-la? Existe uma maneira, agora, de ter certeza absoluta de que não somos os escravos dos pensamentos e reflexões de algum desconhecido? Podemos assegurar mesmo que não somos marionetes?

Nos últimos tempos, não são poucos aqueles que tentam nos escravizar. Somos muito bons em criar novas formas de submissão. Existem escravidões para todos os gostos: as imposições sociais do que é beleza física; a necessidade absoluta de buscar a felicidade em tudo o que fizemos (precisamos mesmo ser felizes? Ou a felicidade é um comodismo?); o repúdio à solidão, como se fosse um crime ser solitário; para as mulheres, o destino previamente traçado de que devem casar e constituir prole, pois este seria o sentido da vida; para os homens, a determinação constante de que não podem sentir, não podem abaixar a guarda, não podem permitir a insegurança. Interessante perceber que boa parte destas escravidões a que nos submetemos alegremente estão nas raízes de todos os nossos males: a busca da beleza física leva à exclusão dos que estão fora dos padrões; almejar a felicidade pessoal a qualquer custo nos permite pisotear os outros para atingir tal objetivo, no melhor estilo de Maquiavel; a condenação da solidão leva-nos a estabelecer relações indesejadas para não termos que ficar sozinhos; o destino inflexível das mulheres está na origem do aborto e do feminicídio; a prisão da imagem a que os homens são submetidos desde o nascimento justifica a sua violência e descaso pelo semelhantes. A longo prazo, as nossas escravidões são todas destrutivas, por mais bonitas que pareçam à primeira vista.

Existe ainda a escravidão do mercado, a do consumismo e a do status social, as quais são tão espertas que disfarçam as suas correntes alegando serem condições essenciais do viver em sociedade. São escravidões insidiosas, pois não conseguimos vê-las, de tão misturadas que se encontram com as nossas vidas.

No entanto, a pior forma de escravidão – e a mais invisível de todas – é a que estamos vivendo agora, e encontra-se no cerne da pergunta que me assombra. Ainda sou livre para ter a minha própria voz, o meu próprio pensamento, sem ninguém interferir nele? Quando eu falo, estou expondo a minha opinião ou vomitando ideias de outras pessoas, que, por sua vez, deglutem conceitos de desconhecidos, em um movimento perpétuo onde não estamos mais pensando, e sim servindo de caixa de ressonância para que outros fantasmas falem por nossa boca?

É um movimento interessante, acompanhar a nossa escravidão intelectual por ideias já formatadas, e a maneira através da qual acompanhamos, de forma quase bovina, pensamentos que não nos pertencem. Neste sentido, sempre achei o botão “compartilhar” do Facebook algo de extrema ironia, pois percebo indivíduos de diferentes matizes ideológicas compartilhando os mesmos textos escritos por outras pessoas, e cada uma delas destaca a parte que melhor lhes apraz, sem levar em conta todo o conteúdo. Quem “compartilha” algo, está comungando de todo um sistema de valores alheio e, melhor ainda, sequer precisa construir a sua ideia com as próprias palavras. Que maravilha é poder deixar outra pessoa falar o que está dentro da nossa cabeça sem que seja necessário sentar e refletir a respeito! O difícil mesmo é entender o outro, ver uma obra de arte, ler um livro, assistir a um espetáculo, escutar um concerto, e conseguir usar as nossas palavras para dizer o que realmente ficou, como resíduo, na nossa personalidade.

Só quem se submete à experiência pode ver o real: é muito fácil compartilhar textos sobre “Romeu e Julieta” dizendo que o amor é lindo, o complicado mesmo é ver a encenação e perceber que Romeu e Julieta são dois jovens chatos e prepotentes que consideraram o seu amor mais forte do que tudo; ou escutar a Sétima Sinfonia de Beethoven e notar como os temas da melodia se constroem com notas discretas, que tentam ascender, mas fracassam, desmoronando como um castelo de cartas, e voltam a se erguer, e desmoronam de novo, até o instante de êxtase em que os temas se juntam em uma apoteose quase carnal de cordas, sopros e fúria para apregoar a própria existência.

Eu poderia escrever um belo texto a respeito, mas seriam os meus pensamentos, e não os dos leitores; talvez encontre repercussão, mas preferiria que eles viessem comparar as suas opiniões com as minhas, que fizessem o mesmo percurso que atravessei sozinho. Não cabe a mim ensinar, mas discutir possibilidades e ângulos, sem excluir as dos outros. Nos tempos atuais, mais do que nunca precisamos fazer como São Tomé: ver (sentir) para crer. Afundar os dedos dentro do corpo de Jesus, refestelando-se entre as suas costelas gosmentas de sangue divino, e dizer “ah, bom, agora sim eu acredito!”.

O que me faz lembrar de um dos artistas mais livres que o mundo já teve, não por coincidência um surrealista, movimento que pregava a ideia – ou seja, a liberdade – acima da imagem. Max Ernst foi alguém que nunca se submeteu a nada, e sempre seguiu o que pensava ser o certo de acordo com as suas próprias concepções de vida. Estava pouco se importando com a escravidão das ideias, preferia libertá-las. Não queria ser compartilhado, mas discutido.

Uma das obras dele que considero mais divertidas é “Virgem abençoada castigando o Menino Jesus diante de três testemunhas: André Breton, Paul Éluard e o artista” (1926). Podemos considerar como uma cena doméstica – qual mãe nunca castigou o filho, seja com gestos ou com palavras? -, mas a diferença é que a mãe em questão tem uma auréola sobre a cabeça e está punindo a provável travessura daquele que, no futuro, se auto-intitularia “O Filho de Deus” (o qual, em um detalhe delicioso, deixou cair a sua auréola de cima da cabeça). Não é qualquer palmada, mas palmadas decisivas, dadas pelo ser humano na própria divindade. É o mundano dando uns tapas no celestial.

Max Ernst - “Virgem abençoada castigando o Menino Jesus diante de três testemunhas: André Breton, Paul Éluard e o artista” (1926)

Max Ernst – “Virgem abençoada castigando o Menino Jesus diante de três testemunhas: André Breton, Paul Éluard e o artista” (1926)

Na janela, como elemento destoante, três artistas surrealistas observam a cena (entre eles o próprio artista), mas parecem mais discutir entre si do que se preocupar com a sova que o Menino Jesus vai levar de uma mãe irritada. A famosa indiferença dos intelectuais diante das tragédias próximas. Cada um terá a sua própria visão da cena – todos olham para pontos diferentes -, mas nunca abarcarão a realidade concreta, onde a Virgem Maria teve que exercer as suas prerrogativas de mãe para colocar o filho nos eixos morais dos quais ele estava se desviando. É divertido imaginar, assim como Ernst fez, o quanto situações do cotidiano não se tornaram decisivas para o futuro flagelo de Jesus. O quanto uma simples surra dada por uma mãe não pode estar vinculada a uma crucificação – ou ao surgimento da noção de divindade.

Em certa ocasião, um jornalista pediu para Max Ernst dizer o que estava na sua obra, e essa foi a resposta:

“Minhas reflexões, minhas impaciências, minhas dúvidas, minhas crenças, minhas alucinações, meus amores, minhas raivas, minhas transgressões, minhas contradições, minhas negativas de se submeter à disciplina, inclusive a que eu mesmo determino, as visitas esporádicas da minha irmã Perturbación, a mulher de uma centena de cabeças, sendo que nada disto é favorável a um trabalho calmo e sereno. Tal como o meu comportamento, minha obra não é harmoniosa no sentido dos pintores clássicos. Sediciosa, desigual, contraditória, é inaceitável para os especialistas em arte, cultura, comportamento, lógica e mesmo da moralidade. Tem, no entanto, o dom de fascinar os meus cúmplices, os poetas, os patafísicos e alguns analfabetos”.

Em um mundo no qual se privilegia o pensamento dos outros, os clichês argumentativos alheios e a preguiça de chegar a conclusões sozinho, é consolador imaginar um artista que não tenta doutrinar, mas gentilmente permite aos outros pensarem o que bem entender das suas pinturas. A resposta de Max Ernst, ainda que repleta de ironia, revela que a obra possui todas as fraquezas do artista no seu interior – mas não consegue contê-lo por completo, pois somos seres repletos de contradições. Podemos criar algo que não gostamos. Podemos concordar com alguém que nos é contrário. Podemos amar a quem nos tem a mais absoluta indiferença.

Assim como os três surrealistas da pintura de Max Ernst, podemos também calmamente discutir uma cena sem tomar partido dela. Quem disse que precisamos ter decisões tomadas sobre tudo? Não passa de outro tipo de escravidão, a ideia de que sempre devemos ter opiniões próprias sobre qualquer assunto. O importante é lutarmos pela nossa liberdade de pensamento a cada dia, não nos expressando até o infinito, desde o futebol até o voo das andorinhas no inverno, mas evitando a escravidão fornecida pelos pensamentos alheios, os quais são extremamente hábeis em sufocar a nossa originalidade.

É a única maneira de sermos verdadeiros livres: deixar a preguiça de lado e pensarmos por nós mesmos. Passarmos pelas experiências e nos posicionarmos, sempre buscando o diálogo, com a consciência de que não sabemos tudo; afinal, a Virgem Maria pode estar sendo justa ou injusta quando dá umas lambadas heréticas no Menino Jesus. Assim, quando a voz da noite interromper os teus sonhos com a pergunta inefável, “ainda sou livre?”, poderás responder com a tranquilidade que tanto ambiciono, posto que ainda tenho dúvidas: sim, sou livre, não por que outros me disseram, mas por que posso pensar sozinho.

1 comentário

Arquivado em Arte, Cecília Meireles, Generalidades, Liberdade, Literatortura, Literatura, Max Ernst