Arquivo do mês: fevereiro 2017

A biblioteca em um poema de Yeats

Sempre que me sinto triste ou acuado, é em W. B. Yeats que busco forças. Não sei explicar o poder que as palavras dele possuem, mas me acalmam quando estou agitado e me perturbam quando estou tranquilo.

Hoje recordei dessa beleza de poema, “Where my books go”. Para mim, sempre foi a representação perfeita de uma biblioteca, local onde os livros se encontram e as palavras abrem suas asas e se esticam livremente entre as suas iguais. Mas, a maturidade chegou na minha vida, e assim percebi que o poema vai muito além dos seus propósitos: ele é uma definição de Paraíso. O local onde os livros estão é o local em que meu espírito triste vai encontrar conforto.

Além disso, Yeats sintetizou aquele que deveria ser o maior propósito de um escritor: emendar sentimentos quebrados por meio das suas palavras. Trazer luz para uma pessoa envolta por sensações sombrias. Cantar esperanças quando o mundo sufoca ao redor.

Dentro de uma biblioteca – ou em qualquer lugar onde exista um livro -, a Morte não entra. O local para onde os livros vão é para dentro do leitor, onde cantam para ele no silêncio da noite.

Yeats, sempre inspirador.

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pppppp

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Livro: “Mário de Andrade – Exílio no Rio”, de Moacir Werneck de Castro

Escrevi para o Homo Literatus ( http://homoliteratus.com/ ) uma resenha sobre o livro “Mário de Andrade – Exílio no Rio”, do jornalista Moacir Werneck de Castro, que trata do período muito intenso que o Mario viveu fora de São Paulo.

Um livro tão bem escrito – e com personagens tão fascinantes – que nem parece verdade, mas ficção.

Boa leitura.

 

Mário de Andrade no Rio: o escritor como personagem da própria história

Ao final da leitura de “Mário de Andrade – Exílio no Rio”, uma dúvida: o livro é a biografia de um escritor relatando o período que ele viveu fora da sua cidade natal ou a versão romanceada de fatos reais? Tão prazerosa era a leitura, tão bem construídos os dramas e personagens que, em determinados momentos, foi possível acompanhar as aventuras e desventuras de Mário de Andrade como se estivesse lendo um romance em que ele era reticente personagem, uma tora de madeira a se deslocar em meio a um oceano de nomes, de fatos e de correntes artísticas que insistiam em mudar o seu percurso – e sobre os quais o poeta soube aproveitar o que era interessante e descartar o supérfluo.

Mário de Andrade em sua casa no Rio de Janeiro (1938).

Mário de Andrade em sua casa no Rio de Janeiro (1938).

Para criar essa sensação de ler um misto de reportagem e romance, ajudou muito o fato de Moacir Werneck de Castro (1915-2010) ter sido um jornalista de grande apuro técnico, além de possuir um forte engajamento político, atuando tanto na função de escritor quanto como editor e tradutor. No período que considera ser “de juventude”, estabeleceu amizade com Mário de Andrade, tornando-se seu confessor por meio de conversas e longas cartas (as quais se encontram reproduzidas na última parte do livro, demonstrando todo o carinho e respeito que o escritor lhe dedicava). Graças a essas condições pessoais, quando decidiu escrever sobre os assim chamados “anos de exílio” de Mário de Andrade – o período de tempo em que, frustrado, o escritor saiu de São Paulo e mudou-se para o Rio de Janeiro – a sua intenção manifesta era transmitir toda a efervescência que marcava a cena cultural carioca, com Mário de Andrade transitando maravilhado e um tanto entontecido em meio ao cenário. A construção do livro em segmentos curtos e parágrafos de redação clara e objetiva transformam a leitura em um caleidoscópio de informações não somente sobre o escritor, mas igualmente sobre a política, a economia, a sociedade e a cena cultural de uma época decisiva para os rumos nacionais.

Ao mesmo tempo, Moacir Werneck de Castro pretendia transformar as suas memórias sobre Mário de Andrade em um documento histórico, tanto que buscou fontes bibliográficas para explicar acontecimentos e esclarecer algumas lacunas. O resultado é uma prosa encantadora e informativa, que descreve detalhes do passado de forma natural, usando uma linguagem próxima do coloquial sem soar forçada:

“A Taberna da Glória, a poucos passos do edifício da rua Santo Amaro, era o ponto de Mário de Andrade, que lá ia de noite tomar chope com os amigos, todos mais jovens. Além do grupo da Revista Acadêmica, costumavam aparecer Guilherme Figueiredo, Dante Viggiani, Otávio Dias Leite, Henrique Carstens e Pedro Nava, o mais próximo a ele em idade, e outros.

Mesa alegre, de conversa variada e muita discussão. Quando a roda era mais íntima, vinham à baila problemas pessoais da moçada, e então ele era o conselheiro fraterno. Não raro se largava em confissões sobre a sua natureza de escritor e artista, mas sempre escudado no pudor de revelar o que chamava sua ‘verdade interior’.”

Conforme se percebe pelo trecho acima, é possível ver Mário de Andrade em meio a uma mesa de artistas, tomando chope e trocando confidências sobre a sua vida, ainda que tais confissões sempre tenham mantido um aspecto reservado. Esse detalhe sobre Mário de Andrade é o que mais chama a atenção do autor: ele era uma esfinge ansiosa para ser revelada, mas que prezava o seu mistério. Mesmo cercado por pessoas, mesmo escrevendo críticas literárias e crônicas para os jornais, mesmo proferindo conferências, mesmo se envolvendo em contendas artísticas, existia uma parte do escritor que era intocada pelo público, algo íntimo e preservado a duras penas.

Por este motivo, é grande a tentação do jornalista de transpor o fosso da objetividade e aventurar-se no terreno insondável dos pensamentos mais secretos de Mário de Andrade. Pela amizade que unia ambos, é um movimento compreensível, mas os adeptos de uma biografia mais ponderada e documental podem se sentir enganados pelo grande número de ocasiões em que Moacir Werneck de Castro tenta adivinhar os pensamentos do escritor que se dizia ser “trezentos não, trezentos e cinquenta!”, como demonstra o trecho:

“Recusava-se a aceitar uma literatura e uma arte que, dando desmedida ênfase ao social, tendiam, por leviandade de uns ou falta de talento de outros, a cair na demagogia, e que justificavam, em nome do caráter supostamente revolucionário dos fins, o desprezo pelos meios próprios à obra de arte, ou seja, o domínio do artefazer. A batalha da crítica realça um traço importante da sua personalidade: o apego à ‘lealdade interior’ que o fazia desdenhar facilidades oportunísticas e acomodações. Arriscava-se a ficar sozinho, ou quase; expunha-se à incompreensão quando afirmava: ‘Tudo é possível neste mundo vasto, mas também é incontestável que somente na solidão encontraremos o caminho de nós mesmos.”

É difícil entender o que são pensamentos pessoais do jornalista a respeito do seu objeto de análise ou o que era efetivamente pensado por Mário de Andrade. Da mesma forma, é difícil para Moacir Werneck de Castro esconder a sua amizade ao tratar de assuntos então delicados, como a assim descrita “pansexualidade” de Mário de Andrade – para não dizer homossexualidade. Nesse momento, o jornalista deixa a posição neutra e tece uma série de defesas do escritor enquanto ataca os seus detratores, em especial Oswald de Andrade.

Ainda assim, tal circunstância não prejudica a leitura; ao contrário, deixa o livro mais interessante. Por meio da descrição das palavras e das atitudes do escritor em meio a um período conturbado na vida dele, cercado por uma efervescente cena cultural com quem mantinha uma relação misto de fascínio e de horror, o jornalista realiza uma série de reflexões sobre o fazer artístico que, graças às suas fontes documentais e às dezenas de entrevistas que realizou, se não são fidedignas, chegam bem próximo da realidade.

É possível que a pós-modernidade, com a sua ênfase dada ao documentalmente provado e ao realismo sem licenças criativas, considere “Mário de Andrade – Exílio no Rio” como uma obra ficcional baseada em fatos reais, ao molde dos alertas inseridos no início dos filmes que pretendem contar fatos efetivamente acontecidos. No entanto, se o leitor aceitar o jogo do autor e se concentrar no andamento da história ao invés de colocar em dúvida cada frase, acabará descobrindo um Mário de Andrade diferente da imagem pintada pelos livros escolares ou pela História da Literatura. Verá o escritor como um personagem ultrapassando um importante rito de passagem na sua vida e na sua arte, envolvido em questões mundanas enquanto se interroga sobre o alcance efetivo da sua obra poética. Porém, mais do que tudo, verá que, por trás da aura literária, existia um homem frágil e indeciso para quem a poesia era mais forte do que o próprio corpo.

Texto originalmente publicado no link http://homoliteratus.com/mario-de-andrade-no-rio-o-escritor-como-personagem-da-propria-historia/

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A arte como antecipação do pós-humano em Hopper e Stalenhag

Eu me recordo que, quando escutei a primeira vez o termo “pós-humano”, dei uma gargalhada e disse “mas o que é isso? Os humanos viraram obsoletos e vamos começar a discutir os eventos pós-advento da Humanidade? Já largamos os pontos, gurizada?”.

Pois era isso mesmo, mas um pouco diferente.

O pós-humano é uma corrente de pensamento nascida na ficção científica e no avanço tecnológico, espelhando as preocupações com uma série de circunstâncias que extrapolariam o limite humano, como, por exemplo, robôs, computadores que pensam, casas e carros inteligentes, e por aí vai.

Continuei acompanhando o assunto, mantendo uma respeitosa distância. Hoje sei que o pós-humano se espalha entre nós: tudo que melhora o alcance dos sentidos humanos ou amplia as suas capacidades já pode ser considerado pós-humano, e então vemos óculos com informações digitais, próteses que permitem a amputados terem vida normal e até mesmo substâncias que melhoram o rendimento físico de alguém.

Pós-humano não quer dizer que os humanos deixaram de existir, mas sim que eles coexistem em um ambiente onde existem seres melhores, com habilidades ampliadas e menos falíveis.

A literatura há tempos faz simulações de como seria um mundo pós-humano. Dois dos meus livros prediletos tratam justamente sobre as possibilidades desse cenário. Em “Eu, robô”, do Isaac Asimov (por favor, não vejam o filme, é horrível), as Três Leis da Robótica servem de mote para uma série de atritos entre homens e máquinas. Do ponto de vista jurídico, é muito interessante ver como uma norma, quando usada de acordo com o sentido estrito da lei, pode se tornar não só anti-ética e imoral, como assassina. Por sua vez, em “Crônicas marcianas”, do Ray Bradbury, o homem é o câncer do universo: sai da Terra, mas leva os seus problemas e mesquinhezas por onde quer que vá.

Outro campo que trata do mundo pós-humano é o das artes gráficas e, quando vi essa série de desenhos do artista sueco Simon Stalenhag, não contive o encantamento. Ele imagina um local do planeta Terra após a invasão (e derrota) alienígena. Um lugar com carcaças abandonadas, com mistérios a serem explicados, com robôs e humanos patrulhando estradas, com dejetos de guerra empilhados por todos os cantos.

Lembra muito os quadros de Edward Hopper. Dá para sentir a solidão, o fustigar da chuva gelada nos nossos rostos, o barulho de sirenes distantes, a morte a assombrar as estradas. Humanos e pós-humanos lutando juntos pela sobrevivência, e inaugurando um novo tempo em que ser humano será o princípio para ser algo a mais.

É interessante pensar no trabalho de Hopper como antecipação do pós-humano. Ainda mais por que tal ideia sequer era mencionada na época em que o pintor americano viveu, quando, no máximo, falava-se em “cyberpunk”. Os cenários quase vazios, o isolamento dos seres humanos concentrados nas suas próprias preocupações, o silêncio que sai do quadro e invade o mundo do espectador, todos esses elementos evocam o sentimento pós-humano: a ideia de que existem dois tipos de pessoas no mundo, um melhorado por meios artificiais, outro ligado às tradições. O homem se tornou obsoleto e, assim, está cansado e sozinho no planeta.

Edward Hopper, Sol em Prospect street, Gloucester Massachussets (1934)

Edward Hopper, Sol em Prospect street, Gloucester Massachussets (1934)

 

Edward Hopper, "Excursão na filosofia" (1959)

Edward Hopper, “Excursão na filosofia” (1959)

 

Edward Hopper, "Tarde em Cape Cod" (1939(

Edward Hopper, “Tarde em Cape Cod” (1939(

Descobri sobre o trabalho de Simon Stalenhag no link http://dangerousminds.net/comments/dreamy_sci-fi_paintings_show_the_world_after_an_alien_invasion

A julgar pela reportagem, a obra do artista  imagina uma Suécia dos anos 80/90 onde um experimento atômico deu muito errado, sendo sucedido por uma invasão de “misteriosas criaturas” (ainda não se sabe se são alienígenas). É uma distopia, evidentemente, mas também suscita questões do pós-humano. Se a evolução tecnológica é inevitável, melhor não lutarmos contra a perda de algumas das características que constituem a nossa Humanidade, mas tentar imaginar um tempo em que a igualdade deixará de existir e seremos todos diferentes uns dos outros, tanto em espírito quanto em corpo.

Ah, uma última observação. Não faz muito me comentaram que existe uma teoria pós-humana também da literatura. Mantenho a opinião que então proferi: a julgar pela qualidade do material humano das obras literárias contemporâneas, o ideal seria pensarmos em uma teoria PRÉ-humana, pois estamos involuindo ao invés de avançarmos….

Deixo abaixo alguns desenhos de Simon Stalenhag para vocês viajarem nesse mundo tão distante, tão possível:

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Crônicas de um ano inteiro: “Um mundo de chorões”

No meu texto dessa semana no “Crônicas de um ano inteiro”, eu falei sobre o desagradável costume de reclamarmos de tudo – e o quanto essa conduta nos impede de resolver os problemas, transformando o mundo em um lugar repleto de chorões sem iniciativa.

Os leitores atentos perceberão a minha auto-referência jocosa ao conto “Um mundo de moscas”, que está no livro “O homem despedaçado” (aliás, seria legal pensar em um “Um mundo de moscas choronas”, em que cada mosca que forma o homem representa uma reclamação chorona) e, ao final, uma desconstrução brincalhona com o “Tabacaria”, do Fernando Pessoa. Também coloquei uma frase de Chesterton e duas de Francis Bacon (ah, e também o Edgar Allan Poe), então, fica o registro, para que não chamem minhas brincadeiras intertextuais de plágios.

Boa leitura.

 

Um mundo de chorões

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Não faz muito tempo, li uma entrevista do criador do Facebook, Mark Zuckenberg, na qual ele afirmou que estávamos usando de forma errada as redes sociais. Elas não foram concebidas para espalhar discursos de ódio ou mensagens raivosas, mas para ajudar as pessoas a criar novos laços entre si. Era para ser uma rede social no sentido de solidária, não um local que espelhasse as piores facetas humanas. Por segundos, imaginei a extensão do fracasso desse pobre homem: criou um produto com uma finalidade nobre e, que droga!, todo mundo entendeu errado. Mark ficou rico, mas por que nenhum de nós leu com cuidado as letrinhas pequenas que explicavam o verdadeiro motivo da criação de uma rede social.

Para mim, o maior problema da rede social nem é a disseminação de discursos de ódio, mentiras ou insultos. Os seres humanos sempre foram assim, a diferença atual é só a velocidade e alcance dessas informações. O mais desagradável em uma rede social é ver o quanto somos chorões e reclamões. Por Tutatis, estamos sempre chorando de tudo: se o dia está quente, reclamamos; se está frio, protestamos. Xingamos a chuva e resmungamos sobre a seca. Reclamamos da derrota do nosso time e dos roubos que cometem os árbitros – e políticos, e donos de empresa, e jornalistas, e quitandeiros, hoje usamos “ladrão” para qualquer situação, é uma palavra tão desgastada que quase soa como sinônimo de sucesso. Reclamamos de quando acordamos cedo e de quando estão fazendo obras nas proximidades das nossas casas. Reclamamos que o meteoro não veio e que o mundo ainda existe do jeito que está. Reclamamos da morte de inocentes e do alarido de crianças. Reclamamos do troco que veio errado, do ar condicionado do cinema, do filme indicado para o Oscar (e dos que não foram). Reclamamos de tudo e de todos.

O esporte nacional por excelência é a reclamação. O culpado é sempre o outro. Afinal, do alto da minha perfeição, posso julgar as condutas alheias com dureza e punir quem não se comporta como desejo. Aqueles que seguem as regras da minha consciência, bom, nem merecem um elogio, pois estão fazendo só a sua obrigação. Por sua vez, quem for diferente do que penso, será punido com uma exemplar reclamação. As redes sociais transformaram-se em um grande SAC do universo.

Se a reclamação ainda fosse direcionada para uma melhora geral das condutas alheias ou até mesmo para uma necessária auto reflexão sobre os próprios atos de quem reclamou, seria algo saudável. No entanto, ela é um insidioso vício, pois visa a reclamar pelo simples prazer de ouvir a própria voz protestando. Não é uma reclamação que serve de início para um debate saudável, mas um protesto que só serve para ecoar no vazio. Logo será esquecido e, amanhã, faremos uma nova reclamação, e assim irão os dias, uma reclamação grudada na outra até o final dos tempos.

Outra desagradável consequência das redes sociais é a quantidade de pessoas que, não bastando reclamarem o dia todo, pensam em disfarçar as suas opiniões atrás de uma roupagem irônica, pseudo auto-depreciativa ou até mesmo engraçada. O resultado disso é a rede social ter se transformado em um lamentável arremedo de stand up comedy com um palhaço que enuncia uma piada ruim atrás da outra, resmungando de tudo e de todos enquanto debocha da plateia, que aplaude de forma educada e distraída. Se existe algo que deveria ser ensinado nos colégios é a arte de fazer uma ironia eficaz e corrosiva de tal maneira que rimos, sem saber se somos elogiados ou insultados. As pessoas deviam ler mais Chesterton e Thackeray antes de saírem por aí fazendo ironias; não existe nada mais lamentável do que uma ironia feita por alguém que se pretende ser culto e “descolado”.

Nosso culto à reclamação fácil nos transformou em uma nação de poltrões. Ninguém resolve mais diretamente os seus problemas: preferimos nos afastar e reclamar nas redes sociais. Distante dos conflitos, com a garantia de um afastamento físico, somos os mais corajosos seres que já pisaram na Terra, os senhores da justiça, os arautos do correto. Pensamos em cuidadosas ironias, travestindo nossa covardia em reclamações lindas – colocamos até fotos! Se tivermos a habilidade suficiente, quem sabe não transformamos nossa reclamação em um meme? Covardia gera covardia, e ela se espalha como ondas em um lago, colidindo ou se juntando com outras reclamações, até se transformar em um tsunami ou em um maëlstrom. Estamos afogados em um oceano de reclamações. Sempre chamou minha atenção aquelas pessoas que olham algo que lhes repugna escrito na rede social e chamam seus “amigos” para se juntarem à discussão e agredir o autor do comentário. Para mim, é o equivalente virtual de chamar os amigos no recreio para bater no coleguinha que se comporta diferente.

Tão enfadonha é essa cultura da reclamação impensada que provavelmente alguns leitores estão agora pensando ,“olha aí o cara, fez um texto reclamando de quem reclama, mas que cara de pau”. Eu poderia responder dizendo que sempre coloquei o pronome “nós” nesse texto para me incluir na coletividade e dizer que também reclamo, ou seja, estou fazendo uma auto-crítica, mas seria muito fácil escapar das consequências do que escrevi dessa forma engraçadinha. A realidade é que esse texto constata um grave defeito de nossas personalidades: não enfrentamos mais os problemas. Não queremos mais acertar o mundo. Não queremos mudar. Nós só queremos reclamar, e achar mais amiguinhos que reclamem conosco, e mergulhar fundo no poço de nossa miséria.  Reclamar é um vício debilitante e paralisante, pois não muda a situação, só ajuda a compartilhar nossas covardia e fraqueza com o resto das pessoas. Está na hora de descermos da mansarda e encararmos o mundo como heróis reais, não como aqueles que olham a vida passar – e ficam reclamando ao invés de agirem.

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Obras Inquietas – 21. “Retrato de Varya Adoratskaya” (1914), Nicolai Fechin

Na minha coluna da semana no “Obras Inquietas”, escrevi sobre um quadro de Nicolai Fechin, “Retrato de Varya Adoratskaya” (1914).

Existem poucos detalhes sobre esse quadro. Alguns dizem que Varya Adoratskaya era vizinha de Fechin durante os 4 anos que ele dedicou-se de forma quase exclusiva à pintura de retratos. O rosto de espanto da menina revela uma ponta de medo; sobre a mesa, restos de bonecas e de um chá da tarde mostram melancolia. No meu texto, falei sobre o dia em que perdemos a inocência, mas o quadro também possui um momento histórico interessante: 1914 foi o ano em que iniciou a Primeira Guerra Mundial e, em 1917, viria a Revolução Russa. As cores vivas da pintura também são a despedida de uma forma inocente de ver o mundo.

Boa leitura.

“Retrato de Varya Adoratskaya” (1914), Nicolai Fechin

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Existiu uma época em que o mundo era um local incrível: cheio de novidades, de luzes, de sons estranhos que tentávamos transformar em imagens, de sabores esdrúxulos que agradavam ou repudiavam ao paladar. Todos nós passamos por essa época. Não sabíamos então, mas era o melhor dos tempos. Precisávamos desbravar territórios novos, mapear locais ainda desconhecidos, e cada dia era um novo dia, cheio de aventuras e de descobertas. Não sabíamos o que era segunda feira ou álcool; desconhecíamos o conceito de responsabilidade, de dor, de noites repletas de angústia. A morte era uma ideia inexistente e, assim, todos éramos imortais. Contudo, aos poucos, o universo que circulava ao nosso redor começou a se firmar. Passamos a reconhecer rostos, lugares, vozes amigáveis, gritos ríspidos. Não demorou muito para a fome nos pressionar, para a solidão visitar nossos dias, para o terror habitar as trevas do quarto. O mundo foi diminuindo de tamanho, e deixou de ser mágico para se transformar em um local repleto de perigos e de instabilidades. Os confortos diminuíram, enquanto que os desesperos começavam a projetar suas sombras sobre as nossas vidas. Tudo que é maravilhoso um dia morre. Fechar os olhos hoje não serve para criar outra realidade quando voltarmos a abri-los; estamos presos a um destino que brinca conosco como se fossemos lambaris em um açude, e nunca escaparemos. A única constante da vida é estar vivo. E assim vamos até o dia em que a tristeza ensombra nossos olhos pela primeira vez e é quando, mesmo sem saber, que a experiência de ser humano começa, pois viver não passa de se arrastar de uma dor até outra até o conforto final. Por isso, nenhum de nós esquecerá o anônimo e terrível dia em que, enfim, a inocência morre – o dia em que o medo nasce.

Texto originalmente publicado no link https://artrianon.com/2017/02/19/obras-inquietas-21-retrato-de-varya-adoratskaya-1914-nicolai-fechin/

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Crônicas de um ano inteiro: “Nós que vamos morrer te saudamos”

No meu texto dessa semana no “Crônicas de um ano inteiro”, tratei de seres que sabem que vão morrer e o seu comportamento antes do fim, mas termino com um sonho – e com uma esperança.

Boa leitura.

 

Nós que vamos morrer te saudamos

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Aparece com frequência em entrevistas, em piadas ou em filmes: se soubesse que vai morrer, o quê você faria? As respostas são as mais amplas possíveis, desde uma viagem há muito sonhada até a realização de algum antigo sonho.  Contudo, tratamos isso sempre em abstrato, no campo das ideias, que é o lugar por excelência no qual podemos ser corretos e insinceros, arrancando aplausos admirados da consciência. Desconhecemos a hora em que iremos morrer, e isso nos enche de arrogância para imaginar um final digno para essa suposição. Estamos vivos e – de forma convencida – nos achamos imortais, pelo menos até que a morte nos contradiga.

No entanto, existem seres que, nesse exato momento, sabem que vão morrer. Foram desenganados ou padecem de enfermidades incuráveis. Estão em hospitais, em casas, esperando. Ignoram o momento exato em que deixarão o mundo, mas tem a noção de que esse instante se aproxima com passos céleres. No que pensam aqueles que, por uma ironia do Destino, sabem que a última respiração se aproxima? Terão medo, desespero, ou a tão almejada paz de espírito? O Tempo é um amigo ou inimigo – os segundos que escoam pela ampulheta são preciosos ou meros desperdícios?

Um dos princípios mais antigos da Filosofia é que devemos viver cada dia como se fosse o último, pois, em alguma ocasião, infelizmente estaremos certos. Quando entravam nos anfiteatros romanos, os gladiadores saudavam César: “Ave Caesar Imperator, morituri te salutant”, ou “Salve César, nós que vamos morrer te saudamos”. Existia sabedoria nessa frase. Nem todos os gladiadores morreriam: os que passassem por tal dia, tinham saudado a morte de forma pretérita; os que sobreviviam, sentiam-se como se tivessem renascido. É medida de prudência iniciar cada dia imaginando que vamos morrer hoje, pois talvez seja o que nos faça viver com mais afinco, impedindo-nos de gastar tempo com o supérfluo, de silenciar palavras que deveriam ser ditas, de ocultar sentimentos que deveriam ser demonstrados. Não precisamos estar na frente de César para admitir que, se a Morte quiser, hoje ela nos pega.

Tenho conhecido muitos seres prestes a morrer. Estou cansado de ver a morte vicejar ao meu redor. Perdoem-me se não falo de política, de economia, ou se não falo sobre cafés que chegam gelados, sobre produtos vendidos com defeito, sobre partidas de futebol. Eu gostaria de pensar nisso, de perder tempo criticando o mundo que se atreve a ignorar os meus pensamentos – que são os melhores, acreditem, sei o que é melhor para todos com base no mais excelente juiz de todos, que sou eu mesmo -, mas a morte me rodeia com seu hálito frio e bate na janela do quarto toda noite, lembrando que caminha por aí. No passado, recordo que morriam duas ou três pessoas próximas por ano; nos últimos tempos, a cada ano que passa, as mortes de conhecidos, remotos ou próximos, somam algumas dezenas. Meu pai tem uma frase quando alguém morre, “estão chamando a minha turma”, e, nos últimos tempos, parece que cada vez chegam mais perto.

Pensar sobre a morte não significa que eu a tema, só quer dizer que, diante de tantas variáveis no mundo – inclusive o fato de todos nós podermos não mais existir amanhã -, perder tempo discutindo irrelevâncias não me atrai. Prefiro aproveitar mais o dia que pode ser o meu último. Não faz muito tempo, li que nunca se produziu tanta informação na Humanidade como nos tempos atuais, mas a questão é o que selecionamos como informação a nos ocupar. Às vezes, penso que existe um grande Ministério da Desinformação que, aos moldes do preconizado em “1984” do George Orwell, esforça-se em fazer as pessoas se distraírem com picuinhas ao invés de colocar o dedo nas grandes questões. Só isso explica o fato de, a cada dia, elegerem uma polêmica inconsequente, um meme engraçado, uma reportagem lacrimosa, para, então, quando todos falarem de algo desimportante, conseguirmos silenciar as angústias que continuam ribombando nas nossas cabeças.

Por isso, sempre retorno ao que realmente importa e, nesse momento, está na minha dolorida consciência de que existem seres que sabem que vão morrer. Não lutam, não se desesperam, não negociam termos com a Morte – simplesmente esperam ela bater em casa e vir levá-los embora. Não são as minhas palavras que irão deter o avançar inexorável do inevitável, e nem ao menos servirão de consolo (“Palavras, palavras, palavras!”, e Hamlet joga o livro longe).

As únicas alternativas que tenho é um sonho e uma esperança. O sonho é que a morte seja como um fechar de olhos aqui e um abrir de novo na Eternidade. Sem dor, sem peso, sem nada a atormentar. A esperança é mais um desejo: dizem que, quando os aviões acertaram as Torres Gêmeas em Nova York, em setembro de 2001, muitas pessoas ficaram isoladas pelo fogo na Torre B. Elas viram a Torre A ceder ao próprio peso e desmoronar e, nesse momento, ilhadas, souberam qual era o seu destino inapelável: morrer em alguns minutos. Pegaram seus celulares e ligaram para os parentes que lhes eram queridos e, quando não conseguiam falar com eles, deixavam mensagens. Em todas elas, uma única palavra era onipresente: amor. Antes de morrer, somos preenchidos pelo amor, e essa é a única esperança que posso desejar para os seres que se encontram nesta encruzilhada da sua existência – que se sintam tomados pelo amor daqueles que tiveram o privilégio de conviver com eles. Que saúdem a morte sabendo que foram amados.

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Obras Inquietas – 20. “Os síndicos da guilda de ourives de Amsterdam” (1627), Thomas de Keyser

Na minha coluna da semana passada do “Obras Inquietas”, eu abordei uma pintura de Thomas de Keyser, “Os síndicos da guilda de ourives de Amsterdam” (1627). Falei sobre a sensação de estar sendo constantemente vigiado e julgado por olhos invisíveis, que são os da sociedade.

No mesmo período, muitos pintores fizeram grupos de homens olhando interrogativamente para o espectador da obra, como se soubessem de algum segredo não revelado. Eu poderia ter escolhido o famoso quadro de Rembrandt, “A guilda dos tecelões” (1662). Mas gosto do quadro de Thomas de Keyser por dois motivos: a mão impaciente do homem sentado na extremidade direita e o olhar enviesado do síndico inclinado sobre ele. Existe uma grande ironia nessa pintura; os homens parecem prestes a estourar em gargalhadas.

Boa leitura!

“Os síndicos da guilda de ourives de Amsterdam” (1627), de Thomas de Keyser

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Estamos sendo observados. Mesmo que não conseguimos ver, eles estão lá. Não importa o local ou o tempo, sempre existe alguém a nos analisar, a medir nossos passos e atitudes, a nos recriminar em silêncio distante. Nunca estamos certos. Nunca seremos livres. Os olhos invisíveis nos perseguem; não conseguimos nos esconder da sua suave recriminação, da expressão de desalento, das risadas indiscretas dos lábios ocultos por sombras e barbas. Olhe a mão do homem à direita: ela oscila, irônica, dando a dimensão da sua incapacidade. Com a expressão concentrada de quem nasceu para julgar e condenar, os homens não se impressionam com as nossas maiores glórias e nem se atemorizam com nossos crimes mais grotescos. Para esses olhos incansáveis, somos fracassos ambulantes, seres mesquinhos que fazem tudo errado, tudo. Todos carregamos alguma culpa, algum pecado, algum segredo que não ousamos confessar nem para o travesseiro nas trevas, mas eles – os homens – sabem disso. Não só sabem como estão disfarçadamente escarnecendo dos nossos esforços. Não precisam dizer a sua opinião: a maneira com que nos olham revela um misto de pena e de desesperança. Quando viramos as costas, as suas risadinhas e os cicios nos deixam desconfortáveis; viramos para encará-los, e o escárnio se transfere para outro ponto, incessante. Passamos a vida inteira sonhando em sermos dignos e respeitados por esses homens, mas eles sabem de antemão que nunca conseguiremos. Pois somos humanos e, por definição, estamos condenados a sermos falhos, insuficientes. Inadequados. Viver em sociedade é isso: ter uma sombra invisível a pairar sobre as nossas cabeças, julgando todos os nossos movimentos, rindo em silêncio das nossas angústias – e torcendo pela nossa queda.

Texto originalmente publicado no link https://artrianon.com/2017/02/11/obras-inquietas-20-os-sindicos-da-guilda-de-ourives-de-amsterdam-1627-thomas-de-keyser/

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