Arquivo do mês: janeiro 2015

As histórias que caminham entre nós

Um dos maiores engodos que as pessoas acreditam é que literatura se faz com palavras, ou com livros, ou com criatividade. Nada disso importa muito. Para escrever, o essencial é estar atento. As histórias infestam o mundo; caminham impunes por aí, respiram o nosso ar, oferecem-se aos nossos olhos. São a argamassa que sustenta a realidade. Sem elas, o mundo seria um caótico parque de diversões, com pessoas sem sentido se esbarrando.

Escrever é como pescar: com a necessária dose de paciência e fé, a ponta da linha irá encontrar o peixe certo. O bom pescador é aquele que respeita seu oponente invisível, sabe que ele faz parte do seu ciclo de vida e que, um dia, as meadas das vidas que separam homem e peixe acabariam se cruzando em um anzol.

Tenho um grande respeito pelas histórias. Sei que, no momento correto, elas irão se revelar. Sairão dos lugares em que se escondem durante o dia ou das sombras de onde sussurram nas longas noites. É só esperar.

No restaurante em que almoço (assunto inclusive de outra postagem, aqui: http://wp.me/p24M2p-1J ), no passado existia uma galeria de quadros com dedicatórias deixadas em livros. Dedicatórias perdidas no tempo, trazendo sentimentos e boas recordações. O papel nunca esquece do que sentimos.

Ocorreu um incêndio no início de 2014. Boa parte do restaurante foi consumida pelas chamas, inclusive uma vasta prateleira de livros. Contudo, sobreviveram alguns exemplares, que continuam a adornar as paredes (talvez lembrando dos gritos quentes dos que morreram nas chamas, mas eles persistem em silêncio, só os livros sabem aquilo que assombra os seus sonhos). Também restaram alguns poucos quadros com dedicatórias, que debocham da Morte e do Tempo.

Entre eles, está a dedicatória abaixo. Desculpem a pouca nitidez da foto. Mesmo diante da câmera, a dedicatória insiste em se ocultar, esquivando-se de olhares intrusos.

 

Poema Marzana

 

Sei que está difícil ver e, por este motivo, transcrevi os termos da dedicatória, preservando o vocabulário do passado:


 

“Scena de um lar
(Leonel Alencar)

Meia-noite!… E Zezinho ainda fora!…
Como me amava e era pontual,
Quando christão! Porém, Senhor, que vale
Amor de esposa? Elle é atheu agora!…

– Assim falava a esposa de outr’ora
Honrado carvoeiro. E ao maternal
Regaço o filho aperta… Ó Deus, que mal?!…
E só… a dôr transborda; a triste chora!…

A um rude empurrão a porta cede
Entra o marido… E com turvo olhar
A esposa chorosa fixa e mede.

– Quem ousa, pois, aqui me censurar?!…
E a pobre mãe, num tom todo carinho:
– Este, senhor… e mostra-lhe o filhinho!

À Luiza
Com muita meiguice e carinho, offereço esta pálida lembrança

Tua Ercina.
3/8/925.”

 


Dentro do quadro, adornando a parede indiferente, encontra-se presa uma história. Assim como Excalibur dentro da rocha, ela espera o momento de libertar-se e correr pelo mundo.

Aproximem o olhar: vocês não conseguem ver as histórias, revoluteando como serpentes no meio das palavras? Estão inquietas.

Podemos começar pelo poema. Por qual motivo ele foi escolhido para adornar a frente de um livro? Pressupomos que uma dedicatória tem a dupla função de explicar a destinatária para si mesma e fazer com que ela lembre da emissora da mensagem. No entanto, o poema não parece ser muito animador. Uma mãe espera a chegada do marido atrasado. Apresenta uma intrincada alegoria religiosa, contrapondo a pontualidade de um cristão com o atraso de um ateísta. A esposa se culpa pelo atraso, abraça o filho, sente dor e tristeza. Quando o marido entra rudemente no poema, abrindo a porta com violência (ela “cede”), está sendo esperado pelos olhos turvos e chorosos da esposa. Tonitroante, pergunta “quem ousa lhe censurar?” – ele também se sente culpado e inverte a lógica da situação, agredindo a mulher antes de qualquer pergunta. No final do poema, a “pobre mãe” – não entendo o motivo deste “pobre”, pois não foi ela quem se atrasou – fala, plena de carinho, que era o filhinho quem estava a censurar o atraso do pai. O diminutivo de “filho” pretende ser calmante.

Muitas lições saem desta “scena de um lar”. É um poema inegavelmente machista. Em alguns momentos, inclusive, aproxima-se da história de uma quase agressão. A mulher fragilizada e com uma criança no colo faz um grande contraste com a figura soturna do pai de família. Em tudo a mulher é submissa e chorosa; por sua vez, o homem tem razão mesmo quando está errado. A forma com que a mulher oferece o filho para acalmar a raiva implícita nas atitudes do marido lembra o sacrifício de Isaac por Abraão. Dentro de um lar, o importante é manter a unidade da família, por isso era “o filhinho” quem estava censurando o atraso do pai, jamais a mulher.

Não há amor ou redenção neste poema; é uma história de medo. Por qual motivo alguém dedicaria um poema deste tipo para outra pessoa? Sabendo que a destinatária é uma mulher, talvez seja uma forma de subjugar a sua vontade, dizer implicitamente que o marido sempre terá razão e somente o filho poderá servir-lhe de justificativa. Seguindo tal ideia, seria um aviso, uma antecipação do futuro. Pode ser uma ironia muito bem construída, sobre como lidar com os problemas de ter um marido. Pode ainda ser um alerta do que significa a vida de casado, sempre precisando de uma justificativa.

Os detalhes ficam mais interessantes quando, ao pesquisar, não encontro nenhuma referência deste poeta, LEONEL ALENCAR. Pressupondo-se que ele exista, o fato de ter justo este poema lembrado fica ainda mais singular. O poema é mal feito. Existem poucas rimas, dispostas de forma errática. Na época da sua produção (1925), o verso livre não era tão habitual, as pessoas ainda se prendiam às formas clássicas. O uso da pontuação é esdrúxulo, existe um abuso de reticências e de sinais de exclamação, indicando imperícia ao escrever. Falta coerência para a cena narrada, que se desvia para a dicotomia religião / ateísmo. O verdadeiro poeta sabe que escrever poesia não é só colocar palavras e sentimentos soltos na forma de versos. A conclusão é uma só: seja lá quem escreveu este poema, não era um poeta.

O poema está escondendo uma mensagem. A pessoa que o escreveu – e neste momento penso que foi a mesma pessoa quem fez a dedicatória – quis transmitir algo que mais ninguém entendesse, só a destinatária. Criou um poema, criou um escritor obscuro, criou algumas rimas e disfarçou dentro de uma dedicatória, sabendo que a outra mulher leria e entenderia. Uma mensagem oculta transmitida diante dos olhos de toda a sociedade. Truque de mágica usando palavras. E o cerne da lição – infelizmente perdido para sempre, pois somente as duas mulheres sabiam – encontra-se no ponto exato que não faz sentido na cena do poema, a estranha alusão a cristãos e ateístas. Existe aí um código misterioso, algo que nenhuma pessoa é capaz de penetrar. Um código perdido.

Todo poema, de uma forma ou de outra, trata de amor. Ou melhor : toda literatura. O poema de “Leonel Alencar” não apresenta justamente amor, e é na omissão que as verdades aparecem. Pois, na dedicatória final, na derradeira linha, na penúltima palavra, o amor acaba desabrochando na sua plenitude, quando a mulher escreve “TUA Ercina.” Três míseras letras, mas com uma gama gigantesca de significados e possibilidades, pois é o verdadeiro centro da dedicatória. Ercina criou um poema, criou um autor desconhecido, criou uma cena (mal escrita) em um lar, criou uma série de evasivas e segredos, tudo para acariciar Luíza com uma única palavra. Um TUA. Uma promessa. Algo que sempre faria Luíza lembrar e algo que Ercina jamais conseguiria esquecer.

Um sentimento inteiro dentro de uma ÚNICA palavra. Aí está a verdadeira poesia.

As histórias têm poder. Não existe fogo capaz de destruí-las, não existe voz capaz de silenciá-las. Há quase 90 anos, Ercina forjou uma inocente dedicatória e passou a mensagem desejada para Luíza. Não sei se era um amor escondido, uma amizade que pretendia se tornar algo a mais, uma espécie de aviso sobre o homem com quem Luíza ia se casar. Não sei nem ao menos se a história que percebo é verdadeira, mas isto importa? Não sabemos de nada, e aí mora a melhor parte da história – os seus silêncios.

Hoje, a dedicatória adorna a parede de um restaurante, esperando que outras pessoas extraiam uma das histórias que dormitam no seu interior. Esperando que eu a escutasse.

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Flaubert e o desespero como estado natural

Poucos escritores se entregaram de forma tão intensa ao sofrimento de criar quanto Flaubert. Estou relendo “Cartas Exemplares de Gustave Flaubert”, publicado em 1993 pela Imago Editora, e deparo-me com um filme de terror descrito em detalhes quase milimétricos. Flaubert esmiuça a sua rotina. Descreve os hábitos, a busca pela palavra correta, o desenvolvimento agonizante de cada página de “Madame Bovary” e de outras obras.

Identifico-me com o seu constante sentimento de inadequação social. Flaubert sente dores musculares e constante vontade de vomitar. Em um misto de atração e asco, ele se aproxima diariamente da sua mesa de trabalho e sabe que somente a frustração o espera. Posso escutar seus passos pesados, repletos de cansaço. Hoje nós sabemos que ele estava realizando uma obra digna de entrar para o rol dos grandes escritos da Humanidade, mas o autor desconhece o alcance do seu livro na época em que o cria. Flaubert não sabe se está escrevendo bem ou mal. Elogios são tendenciosos. Críticas são violentas. O autor escreve a obra que gostaria de ler, mas está previamente sentenciado a nunca lê-la sem ver as suas incômodas engrenagens. É a sua maior agonia. Ele não sabe o valor do que escreveu – e, mesmo depois de publicado, nunca terá certeza absoluta.

O escritor é como Tântalo: está com água até o pescoço em um rio, mas, se tenta mergulhar, a água escoa e foge da garganta sedenta; ao alcance da sua mão, um galho cheio de frutos se oferece, tentador, mas os frutos deslizam entre os dedos sem conseguirem ser agarrados pelo homem faminto. A obra perfeita está ao alcance, mas insiste em se esconder e, mesmo que fosse agarrada, seus espinhos não dariam nenhum conforto ao autor.

Gustave-Flaubert2

Mas o pior são as dúvidas a respeito de si mesmo. A necessidade de se fechar dentro do próprio corpo e escutar aquilo que roça a alma, o desconforto que dá sentido ao mundo. Flaubert confessa o que mais teme: não saber se aquilo que coloca no papel é o seu ápice ou somente um amontoado de palavras estéreis.  Não saber o limite da própria capacidade de escrever.

Merece destaque trecho a carta enviada a Louise Colet, em 01 de fevereiro de 1852:

“Eu sou um homem-pena. Sinto através dela, por causa dela, em relação a ela e muito mais com ela. Você verá a partir do próximo inverno uma mudança aparente. Eu passarei três invernos usando alguns escarpins. Depois entrarei de novo na minha toca onde estourarei obscuro ou ilustre, manuscrito ou impresso. Há no entanto, no fundo, algo que me atormenta, é o não-conhecimento da minha medida. Este homem que se diz tão calmo está cheio de dúvidas sobre si próprio. Ele gostaria de saber até que altura ele pode subir e o poder exato de seus músculos. Mas pedir isto é ser muito ambicioso, pois o conhecimento preciso de sua forma não é senão o gênio.”

 

Apesar de tanto sofrimento no ato de escrever, Flaubert sabe que não tem a opção de desistir. Só lhe resta continuar, uma palavra de cada vez, mirando sempre o mais simples dos desejos: sentir-se satisfeito com aquilo que saiu da sua imaginação. No entanto, a satisfação é um sentimento ilusório. Ela se esconde e some, assemelhando-se à captura de uma névoa. Pelo menos é o que Flaubert descreve em carta enviada a Ernest Feydeau em 05 de agosto de 1897:

 

“Sim, a literatura me aborrece a um grau supremo! Mas não é por minha culpa; ela se tornou para mim uma sífilis constitutiva; não há como livrar-se. Estou embrutecido de arte e de estética e para mim é impossível viver um dia sem arranhar esta chaga incurável, que me devora.

Eu ainda não (se você quer saber minha opinião íntima e franca) escrevi nada que me satisfaça plenamente. Há em mim, e muito nítido, parece-me, um ideal (com o perdão da palavra), um ideal de estilo, cuja busca me faz arquejar sem trégua. Assim o desespero é meu estado normal. Preciso de uma violenta distração para sair dele.”

 

Nas cartas de Gustave Flaubert, é visível o seu desespero. O texto é a grande baleia branca que não consegue subjugar. Persegue o estilo sem tréguas, mas ele insiste em estar sempre inacessível, debochando dos seus esforços. Para alguém que considerava o estilo como algo que morava dentro das palavras, sendo a alma e a carne de qualquer obra, ser incapaz de encontrá-lo é como ser um fantasma à procura do próprio corpo.

Flaubert foi um homem imerso em dúvidas, que desconhecia os seus limites e vivia em constante desespero. Nestas circunstâncias, como poderia ter escrito uma obra tão sólida e consistente? É estranho imaginar que, de alguém tão fragilizado e instável, pudesse aflorar escritos que atravessam os tempos, mantendo a sua atualidade. Talvez quem tenha a melhor explicação seja Henry James, quando diz:

 

“Flaubert estava condenado, porque, de sua vocação, ele não sentia nada, exceto a dificuldade. Sentia-se imensamente responsável perante a tarefa e os triunfos em jogo, mas era o último a saber porquê… O que o sustenta é a raiva e o hábito do esforço; o mero amor pelas letras, sem falar no amor pela vida, parece tê-lo abandonado bem cedo. Algumas passagens, na sua correspondência, nos levam a indagar se não foi mesmo ódio aquilo que o sustentou, mais do que qualquer outra coisa.” 

 

O ódio como força motriz. Um ódio maior do que a própria vida e do que a vocação de escrever. Nem sempre a literatura nasce de sentimentos bonitos e da vontade de deixar um legado para o mundo. Às vezes, ela é feita de desespero, de dor e de muita raiva.

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Tchékhov e a importância de falar sobre torta de frutas

* Em primeiro lugar, um agradecimento especial às três adolescentes que me encontraram anteontem no shopping, tiveram a coragem de se aproximar, perguntar se eu era mesmo Gustavo Chester – como se existisse outra possibilidade de eu ser eu sem ser eu mesmo – e, após se identificarem como leitoras assíduas deste blog e tirarem fotos minhas (o horror, o horror), terem contado que fizeram um trabalho escolar com base na postagem que escrevi sobre “O Jardim das Delícias”, do Hieronymus Bosch ( http://wp.me/p24M2p-kr ). Desculpem a falta de jeito, mas eu tinha certeza de que era uma pegadinha muito bem urdida. Sendo sincero, aliás, ainda tenho dúvidas. Além disso, não era minha intenção que este blog tivesse leitores, não de carne e osso. Às vezes eu realmente esqueço que vocês existem, e fico pensando que os comentários e visualizações das postagens são o WordPress querendo me fazer um agradinho. Bom, vocês existem mesmo – como se houvesse outra possibilidade de existir. Obrigado pela leitura, pessoal.

 

O encontro que descrevi acima acabou tendo uma consequência inesperada. Uma das moças disse que o mais interessante do meu blog era que eu não falava de nada da atualidade. No primeiro momento, minha reação foi de pasmo: como assim, não falo nada atual? Estarei sendo tão anacrônico e distante da realidade? Fui reler algumas postagens e percebi, à contragosto, que a moça tinha razão. O mundo está se despedaçando em guerras e terrorismo, o Brasil sendo goleado na Copa do Mundo, grandes escritores morrendo, o país sacudido por protestos, escândalos e políticas, e eu estou falando de pinturas, de livros, do conceito grego de democracia, de heroísmos, de robôs e de mais uma série de assuntos que não guardam relação com o que acontece ao redor do planeta.

Em alguns lugares, me chamam de alienado. Em outros, de selenita. Como podem ver, as pessoas me chamam de muitas coisas.

Para variar, acabei achando as respostas no meio dos mestres. Sendo mais exato, em um delicioso livro escrito por Máximo Górki, chamado de “Três russos e como me tornei um escritor”, em que ele descreve os seus encontros com Leonid Andrêiev, Liév Tolstói e Anton Tchékhov, trazendo observações do convívio com estes escritores. Bom, nem é muito prudente refletir sobre a quantidade absurda de talento literário reunido sob o mesmo teto e interagindo entre si, mas podemos desejar ser a mosca que presenciou o encontro destes monstros sagrados.

Aconteceu que, de certa feita, Tchékhov estava sentado na sua casa quando aconteceu esta cena, testemunhada por Górki:

 

“Um dia, recebeu a visita de três senhoras suntuosamente vestidas. Depois de terem enchido a sala com o ruído de suas saias de seda e com o odor de perfumes capitosos, sentaram-se com cerimônia em frente ao dono da casa, e, afetando grande interesse por assuntos políticos, passaram a fazer ‘perguntas inteligentes’:
 
– Anton Pavlovitch! Por qual modo terminará a guerra?
 
Anton Pavlovitch tossiu ligeiramente, refletiu e respondeu com doçura, em um tom sério e afável:
 
– Provavelmente pela paz …
 
– Naturalmente!… Mas quem será o vencedor? Os gregos ou os turcos?
 
– Parece-me que serão vencedores os mais fortes.
 
– E na sua opinião, quais são os mais fortes? – perguntavam com insistência as senhoras.
 
– Os mais bem nutridos e os mais instruídos.
 
– Oh, como é espirituoso! – exclamou uma das visitantes.
 
– E de quem gosta mais, dos gregos ou dos turcos? – perguntou uma das outras senhoras.
 
Anton Pavlovitch mirou-a gentilmente e respondeu com um amável e doce sorriso:
 
– Gosto de torta de frutas … a senhora gosta?
 
– Muito! –  exclamou vivamente a dama.
 
– Vem um perfume tão bom dessas tortas! – confirmou enfaticamente uma outra das visitantes.
 
E todas três se puseram a falar com animação, dando provas, nessa questão de torta de frutas, de uma admirável erudição e de um perfeito conhecimento do assunto. Estavam evidentemente encantadas por não terem mais de puxar pela inteligência e de fingir interesse por turcos e gregos, nos quais, até antes do encontro com Tchékhov, sem dúvida nunca haviam pensado. 
 
E ao partirem, prometeram com alegria a Anton Pavlovitch:
 
– Nós lhe mandaremos uma torta de frutas.
 
– Linda conversação!.. –  disse eu, quando partiram.
 
Anton Pavlovitch riu docemente e acrescentou:
 
– É necessário que cada um fale a sua língua…”

1torta de frutas

 

Com esta história, Górki desde o início – quando diz que as três senhoras começaram a falar de “assuntos inteligentes” com Tchékhov – mostra como o escritor se sentia quando confrontado com os problemas mundanos das outras pessoas. Tudo bem que a guerra é um problema sério, mas seremos nós as pessoas que irão mudá-lo? Ficar o dia inteiro pensando em guerra e refletindo sobre ela tem o poder de evitá-la? Seria muito mais apropriado falar de assuntos que realmente dominamos antes de sair por aí despejando opiniões sobre aquilo que não entendemos. Como Tchékhov mostra, falar de uma torta de frutas é uma das maneiras de mudar a realidade do mundo. Não é escapismo ou alienação, é dar a verdadeira importância para os assuntos que conhecemos – e imaginar que eles podem afetar os pensamentos sobre a guerra.

A habilidade com que Tchékhov desvia o assunto, indo para os detalhes da torta de frutas e escapando da guerra, permite entrever que ele sabia o que era importante na sua realidade. Fazer uma torta de frutas perfeita é muito mais intrincado do que saber táticas de guerra. E o fato de ganhar uma torta de presente é um golpe de mestre que somente pessoas muito sensíveis e hábeis são capazes de realizar. Toda a cena foi construída para que Tchékhov não se incomodasse discutindo um assunto enfadonho – e ainda ganhou um presente ao seu final.

De certa forma, é como penso. Tenho opinião formada sobre os assuntos do cotidiano e as agruras da sociedade contemporânea. É uma opção minha não apresentá-la nos textos, pois realmente acredito que é mais relevante falar do que sei ao invés de expor versões parciais daquilo que não entendo direito. Não quero que ninguém me siga (eu disse para as três moças que eu nem mesmo me leria, existem livros bem melhores para se ler por aí), e quero que venham me contar daquilo que sabem, não me apresentem uma enxurrada de informações enviesadas contendo opiniões de outras pessoas que não sabem também o que estão falando. Hoje o mundo virou um grande lugar de distribuição de informações, em que as pessoas xingam aquilo que discordam e mostram como trunfos os textos que apoiam seus pontos de vista.

Quero falar de tortas de frutas. E ganhar algumas também, se não for muito difícil.

Tchékhov e Górki.

Tchékhov e Górki.

Aliás, Tchékhov – eis um homem que sabia o que era importante. Ainda seguindo Górki, quando Tchékhov estava no seu leito de morte, em julho de 1904, ele se virou para o médico e disse calmamente em alemão, “Ich sterbe” (Estou morrendo). Recusou o oxigênio que queriam colocar sobre o seu nariz e apontou para uma garrafa de champanhe. Tomou uma taça e disse “faz muito tempo que não bebo champanhe”. A seguir, virou-se na cama e morreu em paz.

Eis um escritor capaz de encarar a morte no olho e DESVIAR o assunto, conseguindo uma última taça de champanhe antes de morrer. Não ficou tecendo loas ou maldições à morte, mas aproveitou o seu último momento na Terra para matar a saudade de uma taça de bom champanhe. E tenho certeza de que foi o champanhe mais delicioso de todos os tempos – assim como a torta de frutas que ele ganhou de presente deve ter sido única.

Chamem-me de alienado, mas ainda prefiro tomar uma taça de champanhe com a Morte ao invés de perder tempo falando sobre assuntos que não entendo.

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Homenagem aos heróis desconhecidos

Há alguns anos a mesma história me assombra. Imaginei que fossem um ou dois anos, e descobri que já se passaram incríveis 11 anos. O fato de ainda recordar de tantos detalhes é um tributo para a permanência das verdadeiras sagas, um motivo pelo qual ainda falamos da “Ilíada”, da “Eneida”, do “Gilgamesh”, do “Vedas”, da “Mil e Uma Noites”.  Nós gostamos de heróis. Queríamos ser heróis – mas a grande, a imensa maioria, nunca será. Então, só nos resta admirar os verdadeiros.

A história que constantemente lembro é a de um menino de 14 anos, de nome Lucas Vezzaro. Pelas fotos, aparenta ser um rapaz normal, um pouco gordinho, com aquela expressão adolescente que não sabe se fica com a brejeirice da infância ou adota a circunspecção de um adulto. Pois Lucas Vezzaro entrou em um ônibus escolar como menino e, ao sair, era um herói. Ou melhor: seu corpo foi resgatado e, antes mesmo de sair da água onde se afogou, ele já tinha escrito o seu nome na galeria das pessoas inacreditáveis.

Não vou enfastiá-los usando truques literários para deixar os fatos mais épicos ou trágicos. A beleza da história está justamente na sua verdade, no evento puro: diante de uma decisão rápida entre vida ou morte, um menino optou por transcender os seus limites. Nunca saberemos o que pensou ou se teve um vislumbre do que poderia lhe acontecer; não saberemos se teve dúvidas ou se estava tão confiante que ignorou os riscos. Só sabemos as consequências do que Lucas fez. Aos que se interessarem, os dois links abaixo tratam bem do assunto.

http://veja.abril.com.br/290904/p_044.html

http://zh.clicrbs.com.br/rs/noticias/noticia/2014/09/familias-de-criancas-mortas-em-tragedia-de-erechim-tentam-lidar-com-separacao-4603091.html

Na “Arte Poética”, Aristóteles define o herói trágico como um ser de origem nobre, que luta contra um destino pré-existente e sofre um castigo desproporcional como resultado de suas próprias ações, não em decorrência dos acontecimentos. Mesmo assim, o herói é a base de toda a peça, e é a sua conduta que determinará o surgimento da catarse e da epifania, quando o público identifica-se com os seus dilemas. As pessoas experimentam estes sentimentos por não serem heroicos o suficiente para lidar com eles na vida real. Usam a encenação como uma forma de expiar o pecado de ser humano e, por conseguinte, mesquinho e falível, o que transformaria o teatro (ou qualquer forma de encenação) em um jeito de evitarmos o fantasma das nossas próprias covardias, imaginando que somos heroicos.

Visto por este ângulo, há quem acredite que a encenação não passa de uma covardia e a melhor forma de garantir que nunca seremos heroicos, pois já temos toda a catarse necessária ao assistir os dramas alheios. Pode ser. O inegável é que todo mundo gosta de ser o herói na historinha da própria vida.

heroi

A palavra “herói” hoje está desgastada. Fornecem este epíteto para qualquer pessoa, desde o homem que, contra todas as possibilidades, chegou ao trabalho no horário correto quanto para a mulher que conseguiu uma promoção. As palavras, assim como os sentimentos, são enfraquecidas pelo seu uso constante, impensado. Uma pessoa que diz amar alguém a qualquer momento não sente mais o que está dizendo; alguém constantemente chamado de “herói” não pensa mais nas suas condutas.

O herói sempre foi um louco e, como tal, a morte acaba sendo o seu destino. Tem medo, mas a loucura do herói é  acreditar que a sua vida não é mais importante do que a do outro. Ele faz a atitude certa, e não se importa com as consequências. O que é a atitude certa? Ora, todo mundo sabe qual é – a mais difícil de ser tomada. O não virar as costas. O não silenciar. O não coadunar com o delito alheio. O ir contra a maré.

Se hoje recordo deste assunto, é graças a um fato que presenciei. Estava dentro da lotação. Na rua, uma senhora idosa caminhava com evidente dificuldade e, ao pisar em algum buraco na calçada, caiu. Na frente dela, estavam dois fiscais de trânsito, que não deram atenção para o tombo que aconteceu diante dos seus olhos, mais ocupados com os veículos que trafegavam na via. O motorista parou a lotação e, durante alguns segundos, pareceu esperar algum passageiro, mas, na verdade, estava em um conflito. Quando tomou a decisão, assemelhava-se a um homem enfurecido: desligou o motor, abriu a porta do veículo e saiu para a calçada, interrompendo o fluxo de veículos para ajudar a senhora a se levantar. Os fiscais de trânsito disseram algo e o homem respondeu com raiva, terminando de ajudar a senhora. Em seguida, a encaminhou gentilmente até a lotação, esperou que ela se sentasse e continuamos a viagem. No nosso caminho, estava o Hospital de Pronto Socorro, e foi lá que o motorista a deixou. Não cobrou nada pela viagem.

Os heróis estão por aí, nós é que não conseguimos enxergá-los, imersos no lodaçal de atitudes desprezíveis que constitui o cotidiano. Eles não esperam agradecimentos ou louvores, contentando-se em fazer a coisa certa. No momento em que Lucas Vezzaro saiu da água do rio e viu o ônibus afundando, no instante em que o motorista da lotação se debateu entre continuar a jornada ou auxiliar uma pessoa machucada, nestes segundos fatídicos uma vida inteira se passou, e eles tomaram a decisão certa. Foram contra o comodismo e contra a própria lógica dos fatos, tudo para aplacar a sua consciência. Isto por que um herói nunca dorme, pois não sabe de antemão o dia em que salvará o mundo de alguém.

O que traz à tona o ponto mais perturbador nestas histórias: uma pessoa saberá o momento em que será colocada à prova? E, quando chegar o momento de decidir pela coisa certa ou se transformar em um pusilânime, como irá reagir? A vida não passa de uma grande espera pelos poucos segundos em que nosso destino será traçado, se seremos heróis ou covardes. Espero sinceramente que vocês tomem a decisão mais apropriada – e depois sobrevivam às consequências.

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Perante um milhão de universos

Diziam os romanos que as ruas são sábias. Se for uma realidade, chama minha atenção que a mesma frase foi duas vezes escrita em um muro de Porto Alegre, e duas vezes apagada. Ainda assim, ela insiste em reaparecer, como é o caso da sua terceira ressurreição. Qual verdade desagradável a frase esconde eu não sei, mas é inegável que existe algum órgão público que se preocupa ao ponto de mandar tapá-la duas vezes, enquanto deixa intocados os outros muros inscritos da cidade.

A frase sempre surge, tão gloriosa como se fosse a primeira vez, e lança a sua acusação para o mundo: “Atores sois vós”. Não eu, a frase, e muito menos quem escreveu, a única pessoa que se exclui desta realidade.

Vocês, nós, o resto do mundo, somos atores interpretando uma peça.

 

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Não é uma ideia nova. Shakespeare escreveu que “o mundo inteiro é um palco e todos os homens e mulheres não passam de meros atores, que entram e saem de cena, e a seu tempo cada um representa diversos papéis”. Chaplin falou que a vida é uma peça de teatro que não permite ensaios e que termina sem aplausos. São visões melancólicas, e ambas se concentram na fugacidade da existência, na peça em que somos atores involuntários e necessários.

Prefiro pensar no otimismo da frase escrita no muro. Se sou um ator, se entrei no palco e devo participar da peça, é imprescindível fazer a melhor de todas as atuações. Ser tão convicente que vou acreditar na minha interpretação do mundo.

O que me faz lembrar de Walt Whitman. Um escritor terrífico: sempre que o leio, sinto-me esmagado, como se quase todos os meus escritos do passado e do futuro estivessem ali, escondidos, ansiosos para cravarem as suas unhas nas minhas palavras. Não me sinto nada especial após ler Whitman: se continuo escrevendo, é por que sei que viverei à sombra do que outro escritor pensou.

Pois Walt Whitman escreveu um poema, “Ó meu eu! Ó vida!”, que faz parte do “Folhas da Relva”, resumindo a sua fraqueza humana e chegando a uma dúvida inquietante:

“Ó meu eu! Ó vida! Das questões tão recorrentes,
Dos trens infinitos dos que não têm fé, das cidades cheias de tolos,
Ó eu mesmo para sempre censurando a mim mesmo (pois quem é mais tolo do que eu e quem é mais sem fé?)
De olhos que em vão suplicam pela luz, do meio dos objetos, das lutas sempre renovadas,
Dos pobres resultados de tudo, das laboriosas e sórdidas multidões que vejo em minha volta,
Dos vazios e inúteis anos dos demais, sendo que também faço parte dos demais,
A questão, ó meu eu, tão triste, tão recorrente — O que há de bom em meio a tudo isso? Ó meu eu, ó vida?”

Whitman pergunta-se o que há de bom em uma vida tão previsível, rodeado por multidões indiferentes a se esbarrarem nas suas próprias encenações, sofrendo dúvidas e autocensuras constantes, arrastando-se por um tempo que, na alegria, passa rápido e na infelicidade costuma se prolongar. Pode existir algo de bom neste cenário?

O próprio autor sente que, sem querer, esbarrou na grande questão: qual o sentido? Vale a pena? Tanto que o próximo poema do livro se intitula “Resposta”, uma tentativa de acalmar o espírito e ver que existe um propósito:

“Que tu estás aqui – que a vida existe

Que a poderosa peça continua e tu podes contribuir com um verso.”

Melhor do que imaginar que somos atores interpretando uma peça, talvez o mais importante seja pensarmos na qualidade da apresentação, se os versos que estamos falando e nossas atitudes são dignas. Um verso bem colocado tem o seu valor na grande engrenagem de qualquer peça de teatro. A vida não deve ser tão inconsequente para que possamos sair por aí desperdiçando falas. Whitman sempre defendeu a Arte acima de tudo, inclusive acima da Vida e de Deus: contribuir com um verso poderoso dentro da peça é melhor do que enchê-la de falas vazias.

Se existe uma mensagem construtiva que se pode ter no início deste 2015, e em todos os anos da nossa vida, está dentro da “Canção de mim mesmo”, poema que também faz parte do “Folhas da Relva”, e é um singelo verso:

“Deixe que a sua alma esteja tranquila e íntegra perante um milhão de universos.”

Um milhão de universos não parece uma quantia tão grande quando se tem uma alma tranquila. Basta contribuir com um único verso bom.

 

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Arquivado em Literatura, Walt Whitman