Arquivo do mês: outubro 2016

Texto publicado na revista eletrônica da Dublinense (31/10/2016): “Lições que a Literatura me ensinou na última semana”

Na minha coluna da semana passada no Medium da Dublinense (pois somos humanos e também nos atrasamos, oras), eu falei de três belas lições que a literatura me proporcionou nos últimos tempos (além da frase que une T. S. Eliot, neblina, Montaigne e granadas).

Na primeira lição, “viver para ser o último texto de alguém”, trato da estranha situação de descobrir que meu texto foi a última leitura de uma pessoa e que escrever é se comprometer, não dá para ser irresponsável, lembrando do Flaubert. Na segunda, “O importante é começar bem”, falo de como iniciar bem é a chave de sucesso de um texto ou de uma relação, citando dois começos que gosto muito, um do Dickens e outro do Pepetela. Na terceira lição, “transformar um ano horrível em limonada”, falo de 1772, o pior ano da vida do Marquês de Sade, que começou com uma orgia dando muito errado, passou por um julgamento em que o Marquês foi substituído por um quadro e terminou com ele sendo queimado em praça pública, e como o escritor ressuscitou e libertou a sua bestialidade no mundo.

Essas coisas lindas que os livros nos ensinam.

Boa leitura!

 

Lições que a literatura me ensinou na última semana

 

livro-aberto

No passado, no Programa do Silvio Santos – que durava todo o domingo, das 10 da manhã às 22 horas – existia um intermezzo chamado de “A Semana”. Era um breve noticiário apresentando de forma ligeira os fatos mais importantes no país e no mundo. Creio que durava um minuto, no máximo cinco. Se bem me lembro, era uma peça de propaganda do governo, e sempre me maravilhava como podia caber tanta coisa em uma semana tão parada como a minha.

Mas, nesta última semana que, no entremeio das minhas leituras, aprendi com T. S. Eliot que tentar destruir Montaigne é tão inútil quanto jogar uma granada no meio de uma neblina, também tive uma série de experiências ligadas à literatura, muito mais interessantes do que discutir prêmios Nobel ou falar mal de livros alheios por esporte. Literatura é vida, está por todos os lados, e livros são pálidos espectros deste longo cadinho de histórias em que estamos chafurdando.

 

I – Viver para ser o último texto de alguém

Quis o destino que um texto meu virasse o último que uma pessoa leu em vida. Não entrarei em detalhes particulares, somente no conteúdo narrado: um leitor pegou texto que escrevi e levou para o seu pai hospitalizado. O homem passaria por uma cirurgia, mas estava alegre e confiante. Leu o texto, comentou algumas passagens e riu de outras. Poucas horas depois, foi para sala de cirurgia, da qual não saiu com vida. Não era para ele ter morrido, não havia nenhum indicativo de que isso aconteceria, a cirurgia era rotineira. No entanto, uma conjunção de fatores levou a tal resultado; a morte não respeita a lógica e muito menos a decência. Apesar de triste, o leitor entrou em contato para agradecer pelo que escrevi e dizer que a última recordação do pai seria das suas risadas ao ler minhas palavras.

Tive sensações díspares ao escutar este depoimento. Em primeiro lugar, me senti culpado, pois não lembrava o texto que tinha escrito. Foi como qualquer outro: feito em meio às rotinas do dia, com gosto de café e atormentado pela sensação de não ter escrito aquilo que desejava. Contudo, em momento posterior, senti uma estranha honra por participar de memória tão definitiva: o leitor podia ter escolhido Paulo Coelho, Martha Medeiros, Dickens, Cervantes, tanta gente, mas não, coube ao meu modesto texto a honra de ser o último nesta corrida de revezamento, fui eu – e não outro – quem atravessou a linha de chegada segurando a mão do pai do leitor. Eu sou humano, e humanos possuem vaidades.

Tais impressões foram eclipsadas e o terror surgiu quando percebi a gigantesca responsabilidade que é escrever um texto. Palavras têm poder, disse Neil Gaiman, e textos são um conjunto de palavras. Na sua acepção clássica, texto significa “tecido”, ou seja, uma delicada junção de ideias, palavras, sons e seres humanos em busca da criação de algo. Textos não são leves, divertidos, amigáveis; são entidades cruéis que se apossam de almas alheias e podem elevá-las ou destruí-las.

Não foram poucas as vezes que vi escritores fazendo textos como quem amarra sapatos ou escova os dentes. Também não foram poucos que me contaram ter escrito algo sem muita vontade de escrever, só para marcar presença ou para ter status. Entretanto, os verdadeiros escritores que conheço não são aqueles que publicam livros, mas os que se torturam pelo seu comprometimento com o texto. Pois, no final do dia, isso é o que fica: escrever é comprometer-se. Cada texto pode ser o último de alguém, autor ou leitor. É necessário ter responsabilidade com aquilo que se escreve.

Gustave Flaubert era uma pessoa atormentada pelo o que escrevia. “Madame Bovary” bateu nele até cansar. Nas suas cartas, Flaubert comenta noites a fio que passou acordado, girando na cama, pensando exaustivamente em um determinado parágrafo ou uma passagem que parecia frágil. Admite também ter chorado muitas vezes por imaginar insolúvel alguma frase de “Madame Bovary” e ter realizado longas caminhadas tentando resolver seus dilemas ficcionais como se a sua vida dependesse disso. Flaubert estava comprometido com um ideal estético de perfeição, mas seu amor maior era ao texto e à sua responsabilidade como autor.

Nos tempos atuais, existe a impressão de que texto comprometido é aquele que serve a uma causa ou denuncia alguma situação, mas é uma visão primária. Todo texto possui um grau de comprometimento. Não imagino alguém se sentando para escrever algo sem estar ligado a uma visão de mundo, ainda que ela seja tão mínima quanto ganhar dinheiro, defender uma posição política ou apregoar uma religião (necessidades financeiras, políticas e religiões passam, o texto continua).

Em uma sociedade que escreve cada vez mais, seja no Facebook, no Twitter, no mundo acadêmico ou outro lugar, é imprescindível pensar na responsabilidade dos nossos textos. Eles podem salvar, mas também podem matar, trazer sofrimento, destruir. Nunca saberemos quem irá lê-lo e qual momento irá escolher para realizar tal ato. Podemos ser a pedra que derrubará alguém em um precipício moral e psíquico, e isso vale para qualquer “textão” (um aumentativo estranho, textos não são maiores ou menores, eles são do jeito que precisam ser).

Eu teria mudado algo que escrevi se soubesse que seriam as últimas palavras lidas por alguém? Provavelmente não. Contudo, não gostaria que o último livro que lerei durante a minha vida seja uma prosa estéril, vaidosa, sem nada que me acrescente. Quero que ela seja espetacular. Quero chegar ao outro lado da existência contando para todos o livro maravilhoso que li, e talvez resenhá-lo para os anjos ou demônios. Quero que ele seja o mais importante de todos, pois vai encerrar a minha longa carreira de leitor.

Estava falando de literatura, mas também gostaria que a última pessoa que eu encontrasse na vida me deixasse bem. Não quero morrer pensando nos dramas de algum ator de novela que não conheço ou com os ouvidos repercutindo planilhas econômicas. O mundo seria um lugar bem mais interessante se, ao invés de nos matarmos por causas ou por ideias, sejamos somente comprometidos a ser o melhor livro que uma pessoa irá ler na sua passagem pela Terra.

 

II – O importante é começar bem

Não existem começos bonitos, só na literatura. Quem veio ao mundo – e acredito que vocês, leitores, passaram por esta experiência uma única vez na vida – sabe que nascemos de forma atabalhoada, sem entender muito bem onde estão pés e mãos, imersos em sangue e com várias pessoas contemplando a nossa nudez, nos apertando, dando tapas e enchendo o mundo de luz. Não é à toa que nascemos chorando – como podemos rir neste cenário?

era-uma-vez

Começar um livro é uma arte e, como toda experiência artística, necessita prática e árduo esforço para fazer o difícil soar fácil. Li em uma reportagem que, entre os livros ficcionais mais vendidos na história do mundo, o primeiro lugar, com estratosféricos 200 milhões de cópias, é “Um conto de duas cidades”, do Charles Dickens. Também é um dos meus inícios favoritos de romance, uma locomotiva a impulsionar o leitor para o restante da história:

“Aquele foi o melhor dos tempos, foi o pior dos tempos; aquela foi a idade da sabedoria, foi a idade da insensatez, foi a época da crença, a época da descrença, foi a estação da Luz, a estação das Trevas, a primavera da esperança, o inverno do desespero; tínhamos tudo diante de nós, tínhamos nada diante de nós, íamos todos direto para o Paraíso, íamos todos direto no sentido contrário – em suma, o período era em tal medida semelhante ao presente que algumas de suas mais ruidosas autoridades insistiram em seu recebimento, para o bem ou para o mal, apenas no grau superlativo de comparação.”

É um início que funciona bem em língua portuguesa, e é ainda mais magnífico no original.Pela sua qualidade, não impressiona que tantas pessoas tenham lido “Um conto de duas cidades”, do Dickens, e imagino quantos leitores não compraram o livro justamente depois de terem percebido um início tão promissor. Mais inusitado é que, neste simples parágrafo, Dickens tenha descrito toda a Revolução Industrial na Inglaterra, mas fez com tanta vivacidade e brilho que nem parece estar descrevendo aquilo que contou, e sim a época em que estamos vivendo – ou qualquer tempo da História, imerso no mais absoluto caos que somente conseguimos entender em retrospectiva.

Existem muitos começos ótimos. O que marca um começo de livro é a capacidade de situar o leitor desde o início daquilo que lhe espera, mostrar cenário, personagem e narrador. Não tem uma fórmula exata, muito menos uma receita fácil. Alguns livros conseguem inclusive se sustentar sem um bom início, mas são exceções. Assim como na vida, a primeira impressão determina muito do nosso olhar. Ter uma boa apresentação, tratar bem os outros, mostrar os rudimentos de um senso de humor e deixar bem claro quem é desde o início evita muitas das decisões equivocadas que acabamos tomando. Seja em um relacionamento, seja em um livro, os problemas apresentados no começo são os mesmos que continuarão até o final.

Mas um começo de algo também pode ser uma declaração de princípios. Entre os inícios de livros, um que chamou a minha atenção foi o de “A geração da utopia”, de Pepetela:

“Portanto, só os ciclos eram eternos.

(na prova oral de Aptidão à Faculdade de Letras, em Lisboa, o examinador fez uma pergunta ao futuro escritor. Este respondeu hesitantemente, iniciando com um portanto. De onde é o senhor?, perguntou o professor, ao que o escritor respondeu de Angola. Logo vi que não sabia falar português; então desconhece que a palavra portanto só se utiliza como conclusão dum raciocínio? Assim mesmo, para pôr o examinando à vontade. Daí a raiva do autor que jurou um dia havia de escrever um livro iniciando por essa palavra. Promessa cumprida. E depois deste parênteses, revelador de saudável rancor de trinta anos, esconde-se definitiva e prudentemente o autor).”

E é verdade. O autor some depois deste início e a narrativa ficcional volta para o narrador, com quem permanecerá até o final do livro. Interessante o dilema do Pepetela: ele acreditou que poderia começar uma sentença com “portanto”, mas tal palavra se refere a alguma frase anterior, como o professor bem apontou (apesar da grosseria). Ele prometeu provar a sua tese e, ao melhor estilo de Alexandre o Grande cortando o nó górdio, encerrou a questão colocando uma interpolação pessoal no seu livro. Portanto, não se pode mais dizer que não existe uma obra literária que tenha começado com um “portanto”.

Um bom começo é a chave para uma ótima relação com o livro ou com qualquer pessoa. Mas, às vezes, um bom começo também é mostrar a língua para o leitor, pagar promessas e mostrar alguma personalidade. O importante mesmo é começar de algum jeito.

 

III – Transformar um ano horrível em limonada

O ano de 1772 começou bem para o Marquês de Sade. Depois de ser processado pela flagelação da mendiga Rose Keller em 1768 e passar um breve período encarcerado, o Marquês de Sade voltou a frequentar os círculos aristocráticos, graças à capacidade de apagar memórias realizada pelo dinheiro da sua esposa. Para a sociedade, ele era probo e devoto, investidor financeiro de paróquias, com patente militar e, como a sua filha acabara de nascer, um exemplar homem de família. Claro que, ao mesmo tempo, as pedras do castelo de La Coste, na Provence, contavam histórias bem mais escabrosas sobre este esteio da sociedade francesa: uma sucessão de orgias nababescas, maus-tratos e gritos que se perdiam na noite.

limonada-selvagem

O Marquês poderia ficar nesta vida dupla para sempre. Contudo, no dia 27 de junho, uma orgia secreta em Marselha escapou do controle. Quatro prostitutas procuraram a polícia com uma denúncia: tinham sido flageladas, espancadas e sodomizadas pelo Marquês de Sade e por seu criado, Latour. Mas o pior da denúncia – e que mais indignou a sociedade – foi um detalhe sórdido. O Marquês convencera as quatro mulheres a comerem bombons de anis contaminados com cantáridas para “fazê-las peidar” e melhorar a relação sexual. No entanto, o excesso do consumo acabara por envenená-las e, por pouco, não as levou à morte.

A Justiça processou o Marquês e seu criado, que apresentaram defesas. No entanto, o crime era tão severo que os dois processados resolveram fugir do país antes da condenação, que acreditavam ser certa. Imaginavam que, se não estivessem mais lá, o processo se encerraria de forma natural.

Contudo, a raiva popular era muito grande. A Justiça precisava ser feita de alguma forma. Foi assim que a Justiça criou a figura do “julgamento por contumácia”, ou julgamento apesar da ausência física dos acusados. Mandaram fazer pinturas do Marquês e do seu criado e prosseguiram com as acusações e xingões como se eles continuassem lá. O julgamento não podia parar.

Nervoso, o Marquês continuou acompanhando o julgamento à distância, inclusive pagando a melhor defesa possível para a sua pintura. Há quem diga que ele tinha se apaixonado pela imagem do seu retrato, mas é mais possível que fosse uma questão de vaidade. O Marquês de Sade não queria perder o julgamento. Mesmo ausente, ele precisava defender o seu nome e seu rosto, apesar de quem estar no banco dos réus ser somente uma imagem.

Não temos conhecimento dos autos do processo, mas depoimentos da época dizem que as pessoas realmente acreditavam estar processando o verdadeiro Marquês de Sade, não um simulacro. Falavam com o quadro como se ele fosse capaz de responder; acusavam-no, insultavam-no, odiavam-no, e a imagem nada respondia. Na Itália, fugindo da lei, o Marquês de Sade recebia notícias do julgamento da sua pintura e se angustiava, pois não adiantava nada responder para as paredes do castelo onde estava residia. As orgias não eram mais tão satisfatórias.

No dia 07 de dezembro, o Marquês de Sade e Latour perderam o processo. Como não estavam presentes, foram condenados à “morte por contumácia”, ou seja, uma morte simbólica. Em uma grande festa popular, as suas pinturas foram levadas até o centro da praça de Marselha, onde se procedeu à “queima das efígies”. As representações dos dois condenados arderam em chamas enquanto a cidade comemorava como se realmente tivesse extirpado o Marquês do mundo.

O Marquês de Sade nunca se recuperou da derrota judicial. Somente sua imagem tinha sido queimada, mas ele mudou. O demônio, que até então tinha se mostrado de forma breve e oculta, revelou-se na sua plenitude sombria aos olhos do mundo. Ele se considerava um morto-vivo e, como toda pessoa que morreu e voltou do mundo dos mortos, nada mais lhe assustava, pois não tinha mais algo a perder. Perseguido pela Justiça, ele continuou realizando orgias em que a morte e a dor andavam lado a lado, sendo encarcerado diversas vezes. Também passou a se dedicar mais à literatura, escrevendo “120 dias de Sodoma”, “Aline e Valcour” e “Os infortúnios da virtude” (este último em incríveis 16 dias).

Quando as pessoas me comentam que 2016 foi um “annus horribilis”, penso no Marquês de Sade e o seu fatídico 1772. O período em que ele se viu odiado, escarnecido, humilhado e, enfim, queimado vivo em praça pública. E ainda precisou assistir tudo sem conseguir se defender. Isto sim que é ter um ano horrível, inclusive para os padrões sádicos. Contudo, ao invés de choramingar, o Marquês pegou a sua raiva e considerou-se libertado dos laços que o ligavam à Humanidade. Transformou a sua chateação em algo produtivo: histórias e livros para infestar o mundo. Ao queimarmos o Marquês, libertamos o demônio, e ele carregava consigo um incômodo espelho.

1772, o ano em que o Marquês de Sade morreu. 1772, o ano em que ele perdeu a pele e assumiu a sua verdadeira natureza de sangue, tinta e terror.O Marquês de Sade nunca mentiu a respeito do que éramos. Tenho a íntima convicção de que o Marquês de Sade foi um dos poucos homens verdadeiros que já pisou no planeta. Os outros não passam de simulacros sorridentes, de imagens sorrindo em uma praça pública enquanto outras pinturas falsas xingam com suas moralidades questionáveis e seus padrões éticos distorcidos.

 

Portanto – e aqui ele está sendo corretamente empregado, Pepetela -, o que a literatura me ensinou nesta semana é que devo viver cada dia como se estivesse lendo meu último texto e que, se terminar pode ser ruim, um bom começo é também é um auspício de que coisas boas lhe sucederão. E, enquanto todos reclamam das vicissitudes do ano que se aproxima do final, o melhor é seguir o exemplo do Marquês de Sade e começar, enfim, a viver. Muitas vidas cabem dentro de uma única semana quando abrimos os olhos para aquilo que importa.

 

Texto originalmente publicado no link https://medium.com/colecao-dublinense/li%C3%A7%C3%B5es-que-a-literatura-me-ensinou-na-%C3%BAltima-semana-a91f7304cbf3#.p7ro9j8u5

Deixe um comentário

Arquivado em Charles Dickens, Começos, Comprometimento, Gustave Flaubert, Literatura, Madame Bovary, Marquês de Sade, Pepetela

Obras Inquietas – 05: “O questionador da esfinge” (1863), de Elihu Vedder

No quinto texto da minha coluna sobre arte, “Obras Inquietas”, eu falo de “O questionador da esfinge”, um quadro de Elihu Vedder. Um viajante que faz uma pergunta temível para a esfinge, a pergunta que todos faremos um dia.

Interessante a trajetória de Elihu Vedder. Foi um pré-rafaelita que acabou se fascinando em retratar mitos e fantasias, mas o rótulo é posterior ao seu fascínio: ele pintava antes mesmo de ser assim considerado. Interessava-se em especial por esfinges e, nos seus quadros, existem micro-histórias em desenvolvimento. O espectador flagra um evento no seu meio ou fim, como se surpreendesse voyeuristicamente uma trama em pleno andamento.

No texto, participações especiais – e não-creditadas – do “Ozymandias”, de Shelley, de “O imortal” e “O livro da areia”, de Borges, do próprio Elihu Vedder em uma meta-aparição, de Sófocles conversando com Gilgamesh, entre outros amigos que chamei para festejar no deserto.

Boa leitura!

“O questionador da esfinge” (1863), Elihu Vedder

 

o-questionador-da-esfinge-elihu-vedder

 

A caminhada se estende por muitos anos. Os pés do viajante ressentem-se de feridas mal saradas, de pedras sorrateiras, das terras quentes de muitos países. Ele andou por tanto tempo que esqueceu quem era; trocou suas memórias familiares por um punhado de tâmaras na última parada. Escreveu o nome na areia algumas vezes, tentando lembrar-se, até que letras viraram riscos e, enfim, seu nome perdeu-se em meio ao silêncio do deserto. Tão inúmeros foram os ventos que afligiram a pele do viajante que não sabe mais se areia bate no seu corpo ou sai dele, se não é uma estátua de pó caminhando na tempestade, se é homem ou sonho de um outro ser. Tudo chega ao fim, e hoje é o último dia da jornada, pois ele encontrou a esfinge. A mesma obsessão do seu Deus distante.Em meio a um reino morto, ela espia ruínas com a curiosidade indiferente de quem se sabe eterna. Distante, a canção das estrelas vem encontrar sua morte aos pés da esfinge. Observa o pequeno homem com a inexorabilidade da pedra; outros já estiveram ali. O criador dela nunca esteve, mas sempre a sonhou. O viajante ajoelha e a pergunta tão temida sai em uma rajada de medo, a saliva da língua estrangeira misturando-se aos grãos de areia que infestam a sua alma desde que começou a caminhar. É a pergunta da criação, o motivo de tudo, de toda a dor, sofrimento, angústia. A esfinge continua impassível, mas o homem escuta a pedra ciciar algo. Aproxima-se e coloca o ouvido perto da estátua. A boca de pedra parece sorrir quando murmura a sentença impossível com o som rasgante de pedregulhos raspando, “diga-me teu nome e direi quem és”. O recém-chegado leva a mão à boca para ocultar o grito de horror: a resposta estava o tempo inteiro dentro de si e, agora, encontrava-se vagando à solta por entre as dunas, lambida pelo sol que espalha sua raiva sobre o mundo inteiro. Mergulhada na areia, a esfinge sonhada por tantos anos, perseguida com tanta obsessão pelo pintor, pelo viajante, por todos nós, espera a próxima alma que irá estraçalhar.

Texto originalmente publicado no link https://artrianon.com/2016/10/27/obras-inquietas-05-o-questionador-da-esfinge-1863-de-elihu-vedder/

Deixe um comentário

Arquivado em Arte, Crônicas, Elihu Vedder, Impressões, O questionador da esfinge, Obras Inquietas, Pintura, Produção Literária

Texto publicado na revista eletrônica da Dublinense (21/10/2016): “Somos todos óbvios”

Na minha coluna dessa semana no Medium da Dublinense, eu falei sobre as pessoas que ficam o tempo inteiro procurando originalidade em si e nos outros.

Como também não sou nada inovador, contei da frase genial que esculpi por horas e desmoronou em dois minutos e meio; falei de Chesterton elogiando os anônimos que tiveram as primeiras ideias relevantes do mundo e do que eu faria se ganhasse na Megasena acumulada; como não podia deixar de ser, lancei minha costumeira diatribe contra as pessoas que misturam frutas em saladas sérias (o que há de errado com vocês, hein?); lancei conjecturas sobre quem criou o “Romeu e Julieta”, também conhecido como “queijo e goiabada”; mencionei o conceito de obra de arte para Aristóteles, Adorno, Heidegger e para a minha avó; contei de T. S. Eliot analisando críticas feitas sobre Shakespeare e surpreendendo-se ao notar que, para Shakespeare, o próprio Shakespeare nunca foi alguém original; falei de uma história que estava escrevendo, inspirado por relatos lacrimosos de futebolistas no Esporte Espetacular, e de como Arthur Schnitzler detonou minha ideia cem anos antes de eu tê-la; aliás, logo a seguir, falei de Freud xingando educadamente Schnitzler pelo mesmo motivo que eu, e termino contando de como Salvador Dalí entrou em um concurso com os maiores pintores da sua época, e de como ele se inspirou com a imagem de uma modelo nua sem retratá-la, tudo para dizer que, se somos todos óbvios, que sejamos, ao menos, os melhores óbvios do mundo.

Boa leitura!

 

Somos todos óbvios

 

Aconteceu ontem, mas acontece todo dia. Criar não é só se comprometer com algo, mas também se arriscar. Com orgulho, mencionei uma frase que criei após laboriosa reflexão: “somos simples ecos das palavras de outras pessoas.” Não levou dois minutos para alguém me dizer que lembrava o Ricardo Piglia, “existem frases escritas dentro das frases dos outros”, um dos fundamentos da intertextualidade. Na mesma hora, recordei Paul Valéry, autor da melhor definição para o processo intertextual na literatura, “o leão é feito de carneiros assimilados”. No breve espaço de dois minutos e meio, a frase que imaginava tão criativa desapareceu no fosso das ideias comuns, humilhada pelas gigantes que lhe anteciparam.

Não creio que ainda exista algo original no mundo. Algo que não tenha sido tentado, dito ou sonhado. Percebo muitas pessoas lutando para serem originais. Impossível que alguém não tenha pensado o que imaginamos hoje. Afinal, respiramos o mesmo oxigênio que, no seu ciclo infinito de oxigênio e gás carbônico e oxigênio, foi igualmente respirado por outras pessoas, por uma árvore, por animais e até por galinhas. Somos todos óbvios.

melancia-quadrada

Chesterton falou sobre isso, mas sobre qual assunto o escritor inglês não se debruçou com a sua ironia? Certa vez me perguntaram o que faria se ganhasse na Megasena acumulada, e respondi que compraria uma casa isolada para passar o resto da vida relendo Chesterton, Cícero e o padre Antônio Vieira. Quanto mais velho fico, mais me impressiono com a vivacidade dos seus argumentos, e é um dos poucos escritores que leio rindo e aprendendo.

Foi Gilbert Keith Chesterton quem falou sobre as pessoas desconhecidas que, na aurora das coisas, tiveram ideias criativas, e, mesmo assim, não saberemos nunca quem foram:

“E entre aqueles benfeitores imaginários de todas as épocas, pareceu-me ver uma classe especialmente proeminente. Refiro-me às pessoas que, nos turvos primórdios dos tempos, uniram uma coisa a outra de modo artificial, mas permanente. Que sacerdote primitivo, por exemplo, casou pão e queijo? Quem foi o sábio visionário (de tempos posteriores) que, após esquadrinhar todas as florestas, e contar todas as frutas da terra, descobriu que amêndoas e passas procuravam umas pelas outras desde o começo do mundo? Quem, sobretudo, descobriu uma coisa tal como o feliz casamento entre música e literatura? Os homens do passado menos conhecidos são certamente os que fizeram essas combinações. E os homens do presente mais conhecidos são seguramente aqueles que estão retalhando tais combinações.”

Algumas semanas atrás, citei essa frase de Chesterton, sobre os homens do presente estarem retalhando o bom senso, quando me referi à esdrúxula combinação de salada de maçã, cenoura e repolho que me apresentaram em um restaurante. No entanto, a sabedoria de Chesterton vale também para outras relevantes questões que suscitei em mesas de bar, como a perene dúvida sobre quem combinou queijo e goiabada e, mais importante ainda, se tal combinação surgiu antes ou depois de Shakespeare escrever “Romeu e Julieta”, servindo de inspiração involuntária ou de homenagem duvidosa aos amantes de Verona. As pessoas verdadeiramente originais não possuem o seu nome escrito nos livros de História.

Toda a experiência humana é uma tentativa patética de escapar da obviedade. Em matéria de produção artística, a busca pela originalidade e a descoberta de não passar de um pastiche de segunda categoria de algo que já foi feito é mais cruel ainda. Os artistas ambicionam a originalidade: o fazer uma música que ninguém nunca escutou, o escrever um livro inesperado, o realizar uma escultura que subverta os padrões de todas as escolas artísticas. Vejo muitas pessoas buscando uma originalidade absoluta que jamais irão encontrar, e debochando daqueles que apresentam versões alteradas de ideias já existentes.

galinhas-originais

Sempre comparando com outros trabalhos do passado, o crítico se subroga na ideia de que somos todos copiadores de fórmulas anteriormente realizadas, mas o ideal seria ver como a obra se comporta dentro de si mesma, na sua “aparência de verdade” para ficarmos com Aristóteles, no seu “microcosmo estético” para ficarmos com Adorno ou no seu “acontecimento de verdade” para lembramos de Heidegger. A obra de arte se basta por si só e, assim como toda pessoa é única na suas singularidades e é um clichê se comparada aos demais indivíduos, o mesmo acontece com qualquer trabalho a que se pretende dar o estatuto de arte. Quanto mais luta para ser original, mais óbvio parece ser, justificando aquele antigo ditado das nossas avós: “se quiseres aparecer, coloca uma melancia na orelha”.

A melhor versão para a nossa impossibilidade de ser original foi acidentalmente proferida por T. S. Eliot. Ao analisar os trabalhos de três críticos, Strachey, Murray e Lewis, sobre as obras de Shakespeare, o poeta e crítico americano diz que as suas análises deixaram de ser sobre Shakespeare e passaram a ser sobre o quanto de Strachey, Murray e Lewis poderia ser encontrado dentro da obra de Shakespeare. Não era mais o bardo inglês, mas uma versão dele produzida pelo olhar dos seus críticos.

T. S. Eliot segue a ideia, afirmando que mesmo ele quando comenta Shakespeare, não o faz de acordo com a obra, mas seguindo seus pensamentos. Toda a originalidade do outro é ditada pelo o que nós achamos inusitado em relação à forma com que vemos o mundo. A pessoa que mistura queijo e goiabada pode ser original para quem nunca fez esta combinação, pode ser clichê para quem está acostumada a realizá-la e, no caso de quem se depara com junções absurdas entre doces e salgados no mesmo prato como eu, é um ser humano herético.

A originalidade é uma questão de ângulo de quem enxerga, não de quem produz. A conclusão final de T. S. Eliot, um pouco espantado, é que nem mesmo Shakespeare era original para si mesmo, pois, além de copiar outras obras, ele estava contaminado com as próprias experiências para saber se a sua obra era original ou uma cópia malfeita de outros trabalhos. Uma vez produzido algo, o próprio artista não mais se reconhece como criador incontestável e único do que realizou. Nem ele próprio serve de parâmetro de originalidade para si. O artista inovador não almeja tal condição, ela surge da sua obra ao natural.

O problema é quando imaginamos uma originalidade que não existe na vida real. Os mecanismos criativos operam por estranhos caminhos, e não é espantoso que uma pessoa no outro lado do mundo esteja pensando o mesmo que nós. Recordo a história de uma amiga que, na reta final da apresentação do seu doutorado nas ciências exatas, descobriu que um pesquisador na Rússia estava fazendo pesquisa muito similar. Em contato com essa pessoa que poderia colocar em risco todo o trabalho que realizara nos últimos 4 anos, a minha amiga descobriu que o trabalho não era idêntico, mas similar, e existe uma diferença gritante entre estes dois conceitos.

Passei por situação muito parecida no início do mês. Quem escreve, sabe o quão chato é estar produzindo uma história e alguém comentar que existe uma narrativa idêntica. No meu caso, queria escrever sobre um escritor que cria um personagem tão perfeito que se recusa a matá-lo, mesmo que tal morte fosse essencial para a trama. Pretendia, assim, criar uma inquietação narrativa sobre o próprio conceito de estar vivo: existem pessoas que precisam morrer para que a nossa história prossiga. A ideia surgiu de uma reflexão que fiz ao escutar depoimentos lacrimosos de futebolistas no Esporte Espetacular da Rede Globo, mas tal fato não é importante.

Quando estava no meio da minha escritura e sem saber como terminá-la, alguém me comentou de um conto de Arthur Schnitzler, escritor austríaco, no qual o autor se apaixona tão violentamente pela sua personagem que, ao invés de matá-la, prefere matar-se no mundo real. Procurei o conto, que lera muitos anos atrás, e estava no livro “Contos de Amor e de Morte”. Para minha angústia, a história era perfeita, muito melhor do que eu imaginara. Em “Meu amigo Ypsilon”, o autor não só se apaixona pela sua criação como passa a ver todas as mulheres reais em comparação à fictícia. Ele tem um mal de Stendhal às avessas: ao invés da Beleza exterior enlouquecê-lo, é a própria criação urdida em noites a fio que o assombra e o devasta.

Arthur Schnitzler, há mais de 100 anos dando spoilers de textos ainda não-escritos

Arthur Schnitzler, há mais de 100 anos dando spoilers de textos ainda não-escritos

Com essa enorme sombra literária a se projetar sobre a minha incipiente criação, acabei desistindo da narrativa. Menos mal que não sou o primeiro com quem Schnitzler apronta uma dessas. O autor austríaco recebeu elogios (ou seriam reclamações?) de Sigmund Freud, por estar fazendo naturalmente na literatura aquilo que o pai da psicanálise levava um bom tempo para escrever após uma série de reflexões e de consultas. Freud ficou tão encantado – eu diria indignado – que mandou uma carta para Arthur Schnitzler em 1922, chamando-o de seu duplo:

“Sempre me atormentei com a pergunta sobre a razão por que em todos esses anos nunca procurei conhecê-lo nem conversar com o senhor (ignorando é claro, a possibilidade de que a minha tentativa não fosse bem recebida pelo senhor). A resposta contém a confissão que me parece íntima demais. Acho que evitei o senhor por causa de uma espécie de relutância em conhecer o meu sósia. Não que eu me incline facilmente a identificar-me com outrem, ou que pretenda fazer pouco da diferença de talento que me separa do senhor, mas todas as vezes em que me absorvo profundamente nas suas belas criações pareço sempre encontrar sob uma superfície poética os mesmos pressupostos, interesses e conclusões que alimento. (…) De modo que criei a impressão de que o senhor sabe, pela intuição – ou, antes, em virtude de minuciosa auto-observação -, tudo o que eu descobri mediante laborioso trabalho em outras pessoas.”

Arthur Schnitzler tinha esse péssimo hábito de estragar as ideias alheias, mas é bom existir em um mundo no qual já se faz presente a obra que sonhamos. Não tenho problemas em ser o autor ou o leitor de uma história que prezo e, em algumas circunstâncias, até prefiro ler algo a ter que escrever isso, dá muito trabalho e nem é tão compensador (Manguel fala o mesmo sobre as obras que imploramos em silêncio para que outros façam ao invés de nós mesmos, por falta de tempo, de força de vontade ou de habilidade).

No entanto, por mais óbvios que sejamos, existe algo no olho do artista que permite a ele ver a realidade de uma forma sempre inédita, ainda que existam obras similares (mas não idênticas). Em 1946, realizaram um concurso internacional de pintura em que os artistas convidados deveriam representar “A tentação de Santo Antão”, imagem que já tinha sido objeto de muitas interpretações desde a Renascença, entre elas a de Hieronymus Bosch. O próprio Gustave Flaubert tratou do assunto, mas pelo viés literário.

Não foi um concurso qualquer. Os juízes eram Marcel Duchamp, Sidney Janis e Alfred Barr. Entre os pintores concorrentes, estavam Paul Delvaux, Dorothea Tanning, Max Ernst e Salvador Dalí. Cada um apresentou a sua versão de “A tentação de Santo Antão”, mas, mesmo com a vitória de Max Ernst, as obras dos outros competidores acabaram se destacando. Entre elas, o quadro de Salvador Dalí, que possuía um conjunto de imagens díspares formando um típico desfile surrealista, incluindo elefantes equilibrando-se em pernas de pau.

Muitas análises foram feitas sobre tal pintura, mas o mais interessante é uma foto mostrando o dia em que Gala, a esposa de Dalí, está posando para o quadro. Na pintura, o corpo feminino aparece cortado em dois momentos: em um, a mulher se revela inteira, mas cobrindo os seios; em outro, seu rosto não aparece, somente os seios e o púbis. O próprio pintor admitiu que, nas imagens, estava homenageando Bernini, e não retratando a sua modelo: então, por qual motivo Gala posou? É interessante observar que, no contexto de “A tentação de Santo Antão”, de Dalí, o que menos aparece é a mulher despida, apesar de, na foto, ela ocupar posição central. O pintor espanhol estava diante de Gala com o intuito de representá-la, mas entre a realidade, aquilo que o seu olho detectou e a imagem decodificada no papel, muitas sensações, ideias e experiências acabaram sendo transmitidas.

Salvador Dalí pintando "A tentação de Santo Antão"

Salvador Dalí pintando “A tentação de Santo Antão”

Por maior que seja o desespero de parecermos originais em um mundo de comportamentos massificados, o exemplo de “A tentação de Santo Antão” conforme concebido por Salvador Dalí mostra que a originalidade não está no real, mas no que gostaríamos que ele fosse. Gala foi só um pretexto para Dalí realizar a sua obra, ocupando posição secundária. Contudo, quando se sabe que a intenção do pintor era fazer uma versão sensual do tema tantas vezes explorado por outros artistas, passa-se a ver a modelo despida no atelier não como finalidade, mas como meio de lembrar a sensualidade, que se encontra espalhada por todas as curvas e ângulos quase femininos do quadro.

Quando vejo pessoas dizendo que algo atual já foi feito melhor no passado ou jactando-se do próprio ineditismo, penso que deveríamos fazer o movimento contrário e abraçar de vez a ideia de que nunca seremos originais. Aprender com os modelos prévios, tentar recombiná-los, destacar suas características mais inesperadas, esconder o óbvio, brincar com os conceitos. O mais importante é nunca perdermos a nossa capacidade singular de ver o mundo e contá-lo do jeito que sentimos, não importando quem veio antes, não dando atenção para quem exige criatividade e originalidade o tempo todo. Se é bom ser inovador, melhor ainda é saber brincar com o convencional. Também existe alegria em ser óbvio.

 

Texto publicado originalmente no link https://medium.com/colecao-dublinense/somos-todos-%C3%B3bvios-3bb25aee32e#.uktf0hjhq

1 comentário

Arquivado em A tentação de Santo Antão, Arte, Arthur Schnitzler, Chesterton, Dublinense, Filosofia, Intertextualidade, Literatura, Original, Salvador Dali, Sigmund Freud, T. S. Eliot

Obras Inquietas – 04: “O mundo de Christina” (1948), de Andrew Wyeth

Na minha coluna dessa semana no “Obras Inquietas”, lá no Artrianon (www.artrianon.com), eu falei de “O mundo de Christina” (1948), um dos quadros mais famosos dos Estados Unidos, de autoria de Andrew Wyeth.

Alguns detalhes interessantes sobre esse quadro – e que tentei passar no meu texto – é que Christina Olson era uma mulher que, devido a um surto de poliomelite ainda na infância, passou a vida a rastejar. Era vizinha de Andrew Wyeth e, mesmo sendo frequentemente retratada por ele, nessa pintura, “O mundo de Christina”, foi a esposa do pintor quem serviu de modelo.

Tentei trabalhar com três tempos (o tempo de alguém que se arrasta, o tempo do pintor fazendo a obra, o tempo da esposa), ao lado de três pontos de vista (da inspiração, da modelo e do artista) e juntando ainda passado, presente e futuro. Tenho algumas dúvidas se funcionou, mas a ambição era realmente grande para um espaço tão curto de texto.

Boa leitura!

 

4. “O mundo de Christina” (1948), Andrew Wyeth

andrew-wyeth-christinas-world-1948

 

Deitada no campo onde o trigo foi recém-colhido, a jovem contempla o sol frio do fim de outono a lamber as telhas da sua casa. Arrastando-se no campo, a aleijada ambiciona somente chegar até a sua cama, tão longe, tão no horizonte, antes que a chuva transforme o percurso em uma longa sucessão de barro e medo. Recostada na grama, a mulher escuta os murmúrios sôfregos do artista enquanto deposita tinta na tela, uma pincelada lenta e excruciante de cada vez. Ainda ofegante depois da queda que colocou fim à sua corrida, a adolescente olha para a casa, estremecendo ao ver a silhueta nervosa do pai a lhe aguardar. Rastejando no chão, que insiste em cortar de novo os seus joelhos em eterna cicatrização, joelhos de quem não consegue mais ficar ereto, a doente colhe verduras, pretextando ainda ter alguma utilidade para a família. A esposa do artista sufoca um bocejo, esperando que ele termine logo aquela porcaria de quadro, ela precisa fazer o jantar ainda. O pintor olha as espáduas da sua mulher e surpreende-se ao imaginar as costas nuas da outra, a rastejante, e lembra os ossos cortando as omoplatas, o desenho da coluna vertebral por baixo da pele cremosa, e mexe o pincel com força redobrada. O silêncio, ninguém nunca soube o quão bom é o silêncio recheado de vento no meio do campo de trigo; ali ninguém me julga, ali eu sou ninguém. A solidão, ninguém nunca soube o quão horrível é se sentir sozinho quando estamos rastejando atrás da boa vontade alheia. O artista olha as costas da sua esposa e pensa na musa disforme para quem construiu um mundo de tinta; a esposa pensa no jantar do pintor e no quão inusitado é servir de modelo para uma aleijada. Enquanto isso, no mundo de Christina, o verdadeiro, arrasta-se a mulher que não possui esperança alguma de salvação – os primeiros pingos começam a cair. Christina chora, mas o quadro futuro esconderá o desespero do seu rosto: o chão é um mundo hostil para quem se arrasta.

 

Texto originalmente publicado no link https://artrianon.com/2016/10/20/04-o-mundo-de-christina-1948-andrew-wyeth/

2 Comentários

Arquivado em Andrew Wyeth, Arte, Impressões, O mundo de Christina, Obras Inquietas, Produção Literária

Obras Inquietas – 03: “Final de tarde de verão na praia Skagen ou O Artista e sua Mulher” (1899), de Peder Severin Kroyer

Na minha coluna dessa semana no Artrianon, “Obras Inquietas”, eu analiso uma obra que, aparentemente, mostra uma cena corriqueira, mas, nas profundezas, esconde alguns significados bem mais sombrios. Aquele momento em que a obra de arte consegue ver o futuro antes mesmo do seu artista. O instante em que o artista flagra a morte do amor – e nem foi capaz de perceber.

Boa leitura!

 

3. “Final de tarde de verão na praia Skagen ou O Artista e sua Mulher” (1899) – Peder Severin Kroyer

peder-severin-kroyer-summer-evening-at-skagen-beach-the-artist-and-his-wife-1899

 

Existem verdades que só vivem dentro da obra, situações que somente o olho do artista consegue revelar. Quando ela esteve diante do quadro pela primeira vez, na exposição, espantou-se com a leve curva que pairava sobre o lábio de tinta da sua gêmea: o que era aquilo, uma ruga? Concentrou-se no detalhe, sem prestar atenção nas imagens, na sombra luminosa da lua sobre as águas, na alegria do cachorro, na solidão delicada das ondas. Demorou segundos para entender que, dentro daquele deslize do pincel, morava algo ainda desconhecido: o desespero de estar presa a algo doloroso, como uma madeira abandonada pelo barco naufragado se prende ao rochedo que o derrubou. No azul sufocante da pintura, a outra – tão semelhante a ela – contempla o horizonte fora do quadro, e a curva de desespero, que até então morava no silêncio de um detalhe, abre-se como uma fenda e a engloba, sai dos limites da representação, engole o mundo. Os seus olhos, que sempre imaginou alegres, revelam-se mortiços, pálidos, e a mulher percebe que, para o artista, ela nunca foi alguém, mas um pretexto para exibir nas reuniões, um simulacro de alegria. A sua vida só é feliz quando cercada pela moldura de um quadro. Lembra das conversas do marido: quero pintar a nossa felicidade, quero fazer uma cena conjugal que mostre ao mundo o nosso sentimento, eu quero, eu quero. Ele levou cinco anos para achar a lua certa, a luz apropriada, o local idílico, a areia mais branca; depois, colocou os barcos a pescarem no silêncio da imagem, sem mostrar os pescadores que espreitam as redes em busca dos peixes distraídos que namoram à noite. Construiu toda a cena para mostrar o amor do casal, mas esqueceu que a obra de arte não consegue mentir e, no risco de agonia sobre o lábio da mulher idealizada, no olhar perdido para longe, no corpo encolhido que se afasta do homem, está toda a verdade que precisa saber: não quer mais. E não adianta segurar com força o seu braço, fora e dentro da vida, pois a pintura, espelho incômodo da realidade, venceu o tempo e mostrou aquilo que ela até então desconhecia – o amor morreu.

 

Texto originalmente publicado no link https://artrianon.com/2016/10/14/obras-inquietas-03-final-de-tarde-de-verao-na-praia-skagen-ou-o-artista-e-sua-mulher-1899-de-peder-severin-kroyer/

1 comentário

Arquivado em Amor, Arte, Final de tarde de verão na praia Skagen ou O Artista e sua Mulher, Generalidades, Obras Inquietas, Peder Severin Kroyer

Texto publicado na revista eletrônica da Dublinense (13/10/2016): “Se arrependimentos matassem”

Completei um ano escrevendo a coluna para a Dublinense e, para meu espanto, ninguém morreu, ninguém foi processado, ninguém me xingou de nada. Devo estar fazendo algo errado. Ao contrário: a resposta dos leitores sempre foi gentil. Às vezes, pessoas que nem conheço me encontram por aí e comentam que são meus leitores e pedem para que eu continue escrevendo exatamente o que escrevo. Dizem que ler minha coluna é um oásis – tenho até medo do deserto em que vivem.

Brincadeiras à parte, agradeço muito as leituras e retornos de todos vocês, seja para sugerir assuntos, seja para contar histórias, seja para fazer retificações. Desculpem a minha falta de jeito quando vocês aparecem do nada para conversar comigo (sempre acho que tem alguma câmera oculta me fazendo uma “pegadinha”), mas estou trabalhando no assunto para, ao menos, parecer um pouco mais perspicaz e simpático.

Nessa semana, por uma coincidência adorável, essa coluna foi publicada no Dia do Escritor. Escritores escrevem, e parece justo falar do dia escrevendo não redundâncias sobre o ato de escrever, mas um texto. Então, eu falei de algo que meus nobres colegas escritores com certeza nunca enfrentaram, pois são quase semideuses: o arrependimento de fazer algo e, depois, ter que negar e “fazer cara de telefone sem linha”. Aproveitei para contar que, se São Pedro já fez lambança com Jesus, a gente está autorizado a cometer qualquer burrada; faço uma linda – e, claro, acidental – definição da vida, “essa tonitruante sequência de vergonhas e humilhações com lapsos de sol”; menciono brevemente Moacyr Scliar; conto a história de Ovídio, que escreveu “A arte do amor” e se deu mal com o imperador Augusto, foi condenado ao exílio e passou o resto da vida dizendo que não foi ele quem escreveu o próprio livro e criticando a si mesmo; em seguida, falo de Ossip Mandelstam, o “Epigrama de Stálin” soltando-se como um monstro pelo mundo, e o que Ossip fez para matar a sua obra (ele falhou, não se preocupem); termino contando uma história erótica (afinal, sexo vende), sobre o pintor Wladislaw Podkowinski, que foi numa exposição para tentar esfaquear o próprio quadro, tudo para dizer que, no final, a gente só se arrepende daquilo que não faz.

Boa leitura!

 

Se arrependimentos matassem

 

Existem alguns momentos decisivos na vida de todos nós: quando brigamos pela primeira vez, punhos descobrindo a dor inédita de bater na pele do outro; o instante em que se rompe a inércia e se busca o beijo; o segundo em que ficamos diante da morte e descobrimos o gosto do medo. Voltaremos a passar muitas vezes por essas experiências, mas a primeira ocasião sempre refulge na memória com a luz sombria do desconforto.

Uma ocasião de extrema importância que costumamos ignorar (ou, ao menos, não pensar a respeito) é quando ficamos diante do dilema: aceitamos algo que fizemos ou negamos? O dia em que, enfim, nos arrependemos de algo já realizado.

ctrz

Acontece com todo mundo. É da natureza humana fazer atos dos quais, depois, irá se arrepender. Ter a chance de voltar atrás torna a todos nós covardes em potencial. Até São Pedro passou por isto, quando recusou conhecer Jesus Cristo por três vezes antes do cantar do galo. Não é demérito algum ter medo de negar as condutas e pensamentos anteriores. Cada um tem a sua consciência para lidar depois, e só quem perdeu algumas horas de sono queimando de vergonha pelas condutas tomadas em virtude da covardia sabe o verdadeiro sentido da vida, essa tonitruante sequência de vergonhas e humilhações com lapsos de sol.

Não foram poucos os artistas que, em algum momento das suas vidas, viram-se forçados a negarem aquilo que criaram. Recordo de uma história que escutei sobre Moacyr Scliar, que passou a vida inteira rastreando exemplares do primeiro livro lançado ainda jovem, e do qual tinha tanta vergonha que comprava os livros para lhes destruir e apagar tal nódoa criativa da sua trajetória de escritor.

Depois de passarem um tempo enorme imaginando algo, e gastarem outra quantidade de esforço significativa no intuito de realizá-lo, alguns artistas subitamente recusaram-se a continuar como autores da própria obra. Ainda assim, tão forte era a sua obra que ela se libertou e, apesar de tudo, ganhou o mundo.

Em alguns casos, os artistas foram ao extremo de não só repudiarem a criação, como se tornaram os maiores e mais ferozes críticos de si mesmos. Foi o que aconteceu com Ovídio, autor de “As metamorfoses”. Ele já era um autor reconhecido como o maior da sua época quando, após descrever as histórias dos deuses, decidiu aventurar-se por terreno mais inóspito: as relações entre homens e mulheres na sociedade romana. É provável que um pouco de arrogância tenha se apoderado do insuperável poeta, a sensação de que somente ele poderia contar a história de como os relacionamentos nasciam e morriam, das táticas de sedução, das hipocrisias que regem as mulheres e os homens. Ovídio imaginou estar acima de todos, e pagou por tal presunção.

Quando escreveu “A arte de amar” (Ars Amatoria), o poeta latino desprezou dois fatores: o primeiro foi o seu talento literário, pois o livro se tornou famoso em todas as casas de Roma, decorado por aristocratas e escravos. O segundo foi o conservadorismo do Imperador Augusto, famoso pela frugalidade e pelo desejo de controlar os excessos libertinos da sociedade (e da sua família, cujas condutas escandalosas eram escondidas sem muito sucesso), que se enfureceu ao tomar conhecimento do conteúdo erótico da obra. Era uma noite calma de verão quando a trovoada despejou-se sobre a cabeça do poeta, que recebeu a ordem de deixar imediatamente Roma e partir em exílio para Tomos, cidade hoje na Croácia. Ovídio deveria abandonar a civilização e a cultura romanas, que tanto apreciava, para morar em meio aos povos bárbaros.

arrependimento

Ovídio estabeleceu-se em meio às tribos bárbaras e, com o passar dos tempos, graças ao seu domínio cultural e ao manejo da palavra, tornou-se respeitado no lugar do exílio, tanto que aprendeu a língua local e escreveu nela um panegírico para o Imperador Augusto, “O Cântico do Triunfo”, que não sobreviveu aos tempos.

Quando estava no exílio, Ovídio só conseguia pensar no que perdera: as festas de Roma, os agitos sociais, a vida cultural. Tentando reverter a condenação, Ovídio lançou-se à tarefa de mandar longas cartas suplicando e adulando Augusto e, para tanto, renegou a própria obra. Transformou-se no maior crítico de “A arte de amar”, menosprezando o alcance do que escreveu, diminuindo o teor das lições, insinuando que suas palavras tinham sido distorcidas. Valia qualquer argumento para voltar para Roma.

Seus esforços para destruir a obra que lhe conduziu ao desterro foram inúteis, pois Augusto nunca respondeu às suas cartas e, após a morte do imperador, o novo, Tibério, manteve a condenação. Ovídio nunca mais retornou à Roma, e “A arte de amar” é ainda hoje lida e apreciada, o que demonstra que obras sobrevivem não graças aos seus autores, mas apesar deles.

Até mesmo quando morreu, Ovídio continuou com as suas lamúrias e “puxa saquismos”. Pediu para que “ao menos suas cinzas voltassem para Roma” e para que escrevessem na sua lápide “Eu, que aqui jazo, o poeta Nasão, cantor dos doces amores, pereci por causa dos meus talentos; mas tu, que passas, quem quer que sejas, se alguma vez amaste, não hesites em dizer; que os ossos de Nasão, enfim, repousem suavemente.” Uma alfinetada final, um louvor ao próprio talento literário e um pedido para que sempre falemos de amor, mesmo sendo estigmatizados e destruídos. Ovídio conseguiu fazer literatura até depois de morrer, e nunca desistiu de voltar para casa.

Existem artistas que acreditam que a melhor maneira de acabar com uma obra é criar outra semelhante em sentido contrário, como se a força de uma pudesse apagar a anterior. Quem fez isso foi o russo Ossip Mandelstam. Em 1934, ele declamou o “Epigrama de Stálin”, um poema de fôlego cuja história de como foi realizado e correu mundo é a maior prova de que a verdadeira obra de arte tem vida própria e autônoma. Como não se arrepiar com as suas primeiras estrofes?

“Surdos na terra que pisamos nós vivemos.

A dez passos de nós, quem ouve o que dizemos?

O alpinista do Kremlin eu ouço há meses:

É um assassino massacrando os camponeses.

Os dedos gordos como larvas mela

E, em chumbo, cai-lhe o verbo de sua goela.”

Elaborado de impulso no interior da casa onde Ossip morava com sua esposa, Nadjeda, o poema foi declamado para uma exígua plateia, constituída por Boris Pasternak, Anna Akhámatova e outras pessoas, que tentaram demover o poeta da loucura de pensar naqueles versos e assumiram o compromisso de não redigi-lo por causa do seu caráter polêmico. Contudo, uma das presentes naquele dia, Zinaida Záitseva-Antónova, amante de Ossip e de Nadjeda, resolveu escrevê-lo para melhor memorizar e, algumas semanas depois, o “Epigrama de Stálin” corria a União Soviética, incontrolável como fogo em palha seca.

Ossip Mandelstam foi preso. Deveria ser assassinado, mas Stálin temeu matar o poeta e ampliar o alcance dos seus versos, então preferiu mandá-lo para o exílio. A ordem de Stálin foi clara: Ossip deveria ser isolado, mas mantido vivo. Entre 1934 e 1937, muitas pessoas tentaram convencer o poeta a deixar o seu ofício, mas ele não conseguia, as poesias continuavam a atormentá-lo.

Tentando comutar a sua pena, sofrendo com doenças respiratórias, com o frio e com a fome, Mandelstam percebeu que não podia apagar a força do “Epigrama de Stálin”, a não ser que criasse uma força poética equivalente ou maior, capaz de substituir o poema anterior pela nova criação. Entregou-se com desespero a esta tarefa, elaborando poemas em honra a Stálin, panegíricos, louvores, mas a sua intenção manifesta era tão falsa que aumentava a força do poema proscrito. Até mesmo Stálin, que adorava um elogio, via a mentira das palavras de Ossip e não dava mostrar de ter recebido ou apreciado poemas como “A ode ao Pai dos Povos” e outros.

Em 1937, Ossip foi novamente preso por atividades contrarrevolucionárias e mandado para Vtoraya Rechka, onde acabou falecendo. Nadjeda tornou-se a memória viva dos poemas do marido, passando boa parte da sua vida a fugir de Stálin e carregando consigo, no interior da recordação, os poemas de Ossip. O próprio poeta desprezava as obras de exaltação a Stálin que realizou neste período nebuloso em que o medo falou mais alto do que a integridade, e solicitou para que ninguém nunca soubesse disso, mas Nadjeda manteve vivos tanto os poemas bons quanto os desprezíveis.

Mesmo tendo se arrependido do impulso poético que lhe levou a elaborar o “Epigrama de Stálin”, Ossip percebeu que a obra adquirira vida própria, independente de si, e não podia mais ser destruída, mas esquecida ou eclipsada. O arrependimento acabou sendo inútil, e um poema se transformou no motivo para a sua morte. Entretanto, a ideia de que obras literárias obedecem às leis da Física, e uma força só pode ser anulada por outra que lhe seja equivalente ou maior, mesmo sem funcionar (podem existir duas obras literárias em sentido contrário dentro do mesmo mundo sem que uma necessariamente destrua a outra), revela uma nova maneira de lidar com as consequências dos próprios atos.

É improvável que algum artista tenha se arrependido mais da obra realizada do que o pintor simbolista polonês Wladislaw Podkowinski. Em 1893, quando tinha 27 anos, o pintor fechou-se no seu atelier para produzir a obra que anunciou como “a mais decisiva da sua vida”. Um ano depois, essa pintura veio ao mundo: um quadro enorme, de quase 3 metros de altura, chamado de “Frenesi de Exultação” (1894), que exibia uma mulher nua cavalgando um cavalo furioso.

frenzy-of-exultations-1894-wladyslaw-podkowinski

O título parece o de alguma obra de Sidney Sheldon ou de Harold Robbins, e não está tão longe de tal interpretação: “Frenesi de Exultação” representa o orgasmo feminino. No entendimento do artista, o êxtase sexual seria o valor mais importante a ser buscado nas relações humanas. O cavalo suado e com baba a escorrer pela boca significa o vigor sexual; a mulher enlaçada no pescoço do animal está imersa no gozo, e o quadro inteiro é uma alegoria para o momento exato da ejaculação. É possível sentir a tensão sexual aflorar de cada uma das cores que compõem a obra e, mesmo passados mais de 100 anos, o quadro ainda desperta pensamentos lascivos.

Desde o início, Podkowinski passou a apresentar problemas de relacionamento com a sua obra. Era atormentado pela criação. Não conseguia ficar no atelier, não enquanto o quadro estivesse no seu interior, e tentou colocá-lo à venda. Não apareceram compradores. O pintor reduziu o preço de forma paulatina e, ainda assim, ninguém surgiu. Quando ofereceram um valor, era tão baixo que mal pagava os gastos do material usado na pintura.

Podkowinski colocou o quadro em exibição em Zacheta, e viu a sua obra transformar-se em um grande escândalo. Filas de curiosos se formaram em frente ao quadro; estima-se que mais de 12.000 pessoas viram “Frenesi de Exultação”.

No trigésimo sexta dia de exibição, Podkowinski entrou na fila, esperou pacientemente a sua vez chegar e, poucos minutos antes de fechar a galeria, sacou a faca do casaco e esfaqueou “Frenesi de Exultação”. Acertou em cheio a mulher no dorso do cavalo. Teria rasgado o quadro de cima a baixo se não fosse impedido por outras pessoas. Foi prontamente levado para longe da própria obra e internado em um hospital, passando por severa crise nervosa, que acabou agravando seus problemas pulmonares. Faleceu dois dias depois. Apesar do motivo oficial da sua morte ter sido a deficiência respiratória, há evidências de que possa ter se suicidado.

O motivo para o homem esfaquear a própria obra nunca ficou claro. Muitas teorias foram formuladas. Uma delas é que a mulher retratada no quadro era uma paixão não correspondida do pintor polonês, o que explicaria a primeira navalhada ter acertado em cheio a figura feminina. Ficou claro o desconforto que ele passou a sentir desde que Wladislaw Podkowinski terminou “Frenesi de Exultação”; a obra deixou de ser um sonho idílico e, ao ser concretizada, transformou-se no mais terrível dos pesadelos. E quem a tinha trazido ao mundo era o mesmo artista que, assim como aconteceu com Ovídio e com Ossip Mandelstam, perdeu a capacidade de controlar a criação. A única maneira de acabar com aquela sensação ruim era destruir a pintura, mas Podkowinski falhou. Arrependeu-se por pensar e por executar “Frenesi de Exultação”, e, como o quadro sobreviveu ao ataque violento realizado pelo seu idealizador, a única alternativa para o homem era deixar de existir, pois não havia espaço no mundo para os dois, o criador e a criatura.

Em algum momento da vida, todos iremos nos arrepender de algo. Não sabemos se estamos certos, e ajustes de conduta e mudanças de pensamento são não só inevitáveis, mas sinais de saúde mental. Desconfio muito das pessoas que dizem não ter arrependimentos, assim como desconfio daqueles que afirmam ter noites tranquilas e dormirem sem remorsos. Tenho receio de quem engessa o pensamento de tal forma que não consegue mais mudá-lo. A ideia de evolução passa pelo conceito de adaptação, não de certeza. Entretanto, tenho uma única certeza, e a ela me curvo como se fosse o altar de um Deus perdido: na vida, só se arrepende daquilo que não se faz. Portanto, muitos erros cometerei e muitos arrependimentos terei, pois, assim como vocês, estou experimentando os limites à medida que caminho, e  ainda é melhor ter algo de que possa me arrepender na vida do que não ter nada.

 

Texto originalmente publicado no link https://medium.com/colecao-dublinense/se-arrependimentos-matassem-813badb9981b#.2pg7vxl7y

Deixe um comentário

Arquivado em Arrependimento, Arte, “Frenesi de Exultação” (1894), Generalidades, Literatura, Ossip Mandelstam, Ovídio, Wladislaw Podkowinski

Obras Inquietas – o2: “Hércules e Licas” (1815), de Antonio Canova

Na minha segunda coluna para o “Obras Inquietas”, lá no Artrianon (www.artrianon.com), eu analiso uma escultura do Antonio Canovas, “Hércules e Licas” (1815), contando uma história da mitologia grega por meio do enfoque dos últimos segundos de vida de Licas, o servo de Hércules que teve o azar de pegá-lo em um péssimo dia.

Boa leitura!

 

“Hércules e Licas”, Antonio Canova (1815)

 

Antonio Canova, "Hércules e Licas" (1815)

Antonio Canova, “Hércules e Licas” (1815)

 

Viver nunca é justo. Eu, Licas, nasci de mãe desconhecida, filho provável de um cidadão ou de um escravo. Não conheci meus pais. Fui alimentado pela caridade alheia; comi com cães, com ratos, com porcos. Aprendi a roubar desde antes de respirar. Aprendi a matar desde antes de saber que era vivo. Criado nas ruas, perdi uma por uma das minhas inocências até esquecer que era um ser humano. Por que existo, se toda minha existência não deveria ser? Sou um erro; sou aquele que não devia estar aqui. Então, um dia, olhos negros me contemplam com carinho. É bom ser amado: é quente, faz com que a vida tenha sentido. Sinto-me alguém; descubro que tenho sombra, ganho um nome, aprendo a sentir. Dejanira é o nome dela, e leva-me para morar consigo e com seu marido, um homem de olhos furiosos, cujo corpo foi feito para matar, para violentar, para trazer sofrimento. Mesmo assim, ele se esforça para me tratar bem, e aprendo a amá-lo. Um dia, levo para o patrão a túnica, conforme me foi ordenado. O homem a veste; seu urro faz as nuvens encolherem de medo. Ele queima, é possível ver a fumaça saindo da pele rija, e eu não sei o que fazer. É quando a montanha de músculos vira para mim, os olhos injetados de sangue, e descubro que não é um herói, mas um assassino, o maior de todos. A voz de ferro troveja, “então, és tu quem traz a minha morte, Licas?”, e eu digo, “por favor, não me mate!”, mas já estou girando, corpo distendido em um passo de dança com o infinito. As mãos tentam se segurar em algo, o penhasco tão próximo que posso sentir a sua respiração salgada, e o grito repleto de mármore escapa da minha garganta, não é justo, não é justo nascer se a morte é sempre injusta.

antonio-canovas-hercules-e-licas-2

 

antonio-canovas-hercules-e-licas-3

 

antonio-canovas-hercules-e-licas-4

 

antonio-canovas-hercules-e-licas-5

 

antonio-canovas-hercules-e-licas-6

 

antonio-canovas-hercules-e-licas-7

 

antonio-canovas-hercules-e-licas-8

 

antonio-canovas-hercules-e-licas-9

1 comentário

Arquivado em Antonio Canova, Arte, Escultura, Obras Inquietas