Escrevi esse texto para o jornal “Em Questão” do Alegrete, mas, por ser um credo pessoal, acho válido compartilhar aqui também.

Boa leitura.

 

Estamos esquecendo aquilo que é importante

O som da chuva batendo na janela do quarto quando tentamos dormir. A risada de uma criança brincando no parquinho. O urro da multidão quando o time amado marca o gol decisivo em uma partida de futebol. A delicadeza com que o veludo roça os nossos dedos quando o acariciamos. A angústia esperando um telefonema de emprego. A aspereza com que a areia da praia tenta se entremear nos nossos dedos. O gosto de lágrima que mora dentro da espuma da onda. O perder-se dentro de um livro; o encontrar-se dentro de um livro. As estrelas distantes em um campo eivado de escuridão e silêncio. A pequena mão que se encerra no nosso dedo, cheia de esperança e medo. O grito que corta a madrugada. O medo de soltar uma gargalhada em meio a um funeral. Depois de um dia horrível de trabalho, brincar com o cachorro por alguns minutos antes de entrar em casa. Dançar livremente, sem sentir o corpo, sem sentir vergonha, tornando-se parte do ar, do universo, da música. Beijar alguém escondido no banheiro da escola. Nadar em um açude em um dia de sol inclemente. Compartilhar cervejas e camaradagem com um amigo durante uma pescaria. Rezar para Deus – qualquer Deus – e ter a sensação de que Ele não só escuta, mas coloca a mão sobre o ombro e concede a força que sentimos faltar. Comemorar a notícia de um milagre recebida dos lábios de um médico cansado. Desesperar-se e saber que, se tivermos fé e paciência, logo o momento difícil irá passar. Uma festa surpresa de aniversário. Encontrar uma pessoa que não vemos há muito tempo e prometermos que iremos nos reencontrar para um café, mesmo sabendo que isso dificilmente acontecerá. Sentir um arrepio quando o olhar daquela mulher encontra o seu. Ceder o lugar para uma pessoa idosa no ônibus e, em troca, escutar um elogio. Comer uma comida na panela, enquanto olha uma comédia na televisão.  Após um longo período juntando dinheiro, adquirir o carro tão sonhado e escutar o seu motor ronronar pela primeira vez. Sonhar com a menina mais bonita do bairro, mesmo sabendo que ela é mais velha e está noiva de outro. Abraçar pela primeira vez a pessoa amada em um cinema, enquanto lhe estende a pipoca. Ler um poema e senti-lo acariciar a alma. Ver um sorriso disfarçado e imaginar que ele nos pertence, que é nosso e de mais ninguém. Esquecer as ordens da nutricionista e afundar-se em um belo e proibido churrasco. O segundo imediatamente anterior ao beijo, aquele em que os olhos se fecham e as bocas começam a se render. Tomar um chimarrão na praça, olhando a vida que passa ao redor. Planejar viagens que nunca executaremos, sonhar com bens que nunca conseguiremos comprar. Jogar na Megasena e fazer planos absurdos para quando ganhar o dinheiro. Rir de uma piada ruim para o amigo não ficar chateado. Andar sem sapatos na grama. Perceber, no horizonte, a lenta formação de uma tempestade. O som oco que o vento faz ao passar por entre o taquaral. O gosto de um cacho de uvas comido debaixo da parreira. A descoberta, um pouco surpresa e atônita, do primeiro amor. O abismo que mora na pele da outra e que queima as pontas dos dedos.

Em tempos de ódios e sombras, não podemos esquecer aquilo que é importante.

Não podemos esquecer que somos humanos.

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