Talvez eu tenha sido azarado até hoje, ou talvez esteja escolhendo os livros errados para ler, mas o fato é que não consigo gostar de Paul Auster. Não deixa de ser um mistério, pois a prosa dele reúne todos os elementos que mais gosto de ver em uma narrativa: é bem escrita, fluida, interessante, alternando cenas muito visuais com descrições sucintas e eficazes. Apesar de todos esses elementos, sempre existe algo que me impede de ceder ao fascínio da sua escrita, quase como se existisse uma barreira entre o que é narrado e a minha suspensão da descrença: eu sei que a prosa de Auster é encantadora, mas reconheço o artifício e, quando se percebe os fios quase invisíveis que manipulam a trama, também se sabe quais os esforços que o autor emprega para criar a “sensação de real” no seu leitor.

Porém, é importante frisar que a circunstância de não gostar de Paul Auster não me impede de lê-lo e notar que, em alguns momentos, a narrativa dele chega a alçar voo e quase me arrebata. No entanto, como se diz no interior do estado do Rio Grande do Sul, é um “voo de marreco”: curto, desengonçado e muito ocasional. Ainda assim, possuo parte da obra dele, pois alguns dos mais incríveis leitores que conheço insistem em dizer que Paul Auster é o melhor escritor do mundo e que eu certamente vou gostar de lê-lo. Enquanto esse momento não chega, vou experimentando e, ainda que continue tendo seguidas frustrações, também tenho a esperança de que, um dia, entenderei o motivo de tanta gente gostar dele.

Não nego que o fator que me atraiu até “O caderno vermelho” foi a sua extensão: 85 páginas. Imaginava que, por ser curto, talvez me mostrasse alguma chave de leitura muito particular de Auster, algo que me permitisse entendê-lo melhor e ler as suas demais obras sob esta ótica. Não foi o que aconteceu. É um conjunto de narrativas curtas, unidas pelo mesmo fio condutor: o acaso. Existe um esforço visível para transmitir histórias efetivamente ocorridas, agora contadas por um escritor habilidoso, mas a intenção acaba deixando tudo cansativo e asséptico. Todo o aspecto maravilhoso das coincidências narradas (um pneu de carro que furou em quatro ocasiões diferentes com a mesma pessoa no banco do caroneiro; uma carta enviada por um falso Paul Auster e que acaba chegando nas mãos do verdadeiro; a mulher que, sem querer, casou com o seu meio irmão; o dia em que o autor, ainda criança, não recebeu um autógrafo do ídolo que jogava beisebol porque ninguém ao redor tinha canetas, como isto fez ele sempre andar com uma caneta no bolso e o quanto este acaso foi decisivo para ele se transformar em um escritor) acaba sendo drenado pelo desejo de transmitir não verossimilhança, mas realidade (por mais problemático que seja esse conceito). Auster não cede ao imponderável do que narra, e intencionalmente tenta transmitir serenidade para algo (o acaso) que, por sua natureza, é caótico. É como se Zola ou Hemingway tentassem escrever algo fantástico, usando a realidade que conhecemos para comportar à força o inusitado, o estranho, o inquietante. Sei que Zola escreveu ótimas narrativas de cunho fantástico, e sei que Hemingway sabia como ninguém acrescentar pequenos e pontuais elementos imponderáveis nos seus contos, mas também sei que os dois nunca tentaram minimizar o acaso e transformá-lo em parte indissolúvel do mundo real: ao contrário, eles se entregaram à força do que estavam narrando, não tentaram percebê-la atrás de um véu de realidade.

Talvez seja isto o que me faz ficar com um pé atrás em relação à Paul Auster: a sensação de que não é um escritor quem está conduzindo a narrativa, mas um escritor tentando ser jornalista, alguém que se recusa a ceder à própria história e tenta encaixá-la em padrões que farão tanto um jornalista quanto um leitor de jornais pensar “ufa, o mundo é um lugar estranho, mas ainda bem que pode ser contido e explicado em palavras”.

Volto a dizer: essa é uma opinião altamente pessoal. E não retira os méritos do livro, que são muitos. Paul Auster descreve uma série de acasos que vivenciou ou escutou outras pessoas relatarem, oscilando entre histórias trágicas – como a do colega que sofria bullying no colégio e acabou sendo vitimado por um raio durante uma excursão – e outras cômicas – como a da mulher que entrou em trabalho de parto do primeiro filho no meio de um filme e, anos depois, quando estava grávida do segundo filho, começou a assistir o filme na metade em que tinha parado, tendo entrado novamente em trabalho de parto quando ele acabou. Não posso negar que são histórias muito bem contadas e interessantes, mas tão cautelosas no seu intuito de agradar qualquer leitor que é possível perceber o medo do escritor de se arriscar fora da sua área de conforto.

À medida que o tempo passa, mais percebo que literatura não é só escrever símbolos e signos em um meio físico ou contar histórias criativas, mas também é gerar ondas no espírito do leitor, sejam elas agradáveis, sejam elas tormentosas. “O caderno vermelho” é o quarto livro de Paul Auster que leio e a sensação é de como estar caminhando na beira de uma praia: o mar faz desaparecer as minhas pegadas, não sou capaz de lembrar nem sequer o percurso que estou fazendo, só resta seguir em frente, sabendo que logo esquecerei a página anterior assim que passar para a próxima. É uma prosa que não me gera recordações a longo prazo, somente a de alguns bons momentos vividos enquanto estou lendo. Mas, oras, não há motivo para ser exigente: ter bons momentos durante uma leitura, sendo conduzido por um escritor hábil, também é uma das formas de ver a literatura. Sem contar que permite a eterna renovação da história, pois, se eu ler algo que gera um pequeno resíduo na memória, posso ler mais e mais vezes e sempre ter o encantamento da primeira leitura, a sensação de que já li algo bem parecido antes – ainda que realmente tenha lido e esquecido, lido e esquecido, em um perpétuo retorno da narrativa. Talvez essa seja a chave de leitura que estava buscando em Paul Auster: ler para esquecer tudo, menos o essencial. Admitir o esquecimento que existe dentro de cada leitura como uma estratégia narrativa.

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