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A literatura como um farol

A produção do Fronteiras do Pensamento 2017 pediu para que eu escrevesse um ensaio sobre a obra do escritor cubano Leonardo Padura. Mas, como nada na vida é simples, pediram para que tentasse conectar o texto ao tema do Fronteiras desse ano, que, em uma síntese, seria “Num mundo onde as divisas são sutis e o impacto das culturas é real, o pensamento nos aproxima na tarefa de resgatar e fortalecer valores. O que nos define como civilização? Buscar o que nos conecta, o que nos concretiza como ‘nós’, é um dos grandes desafios atuais.”  Disseram que, se eu não conseguisse, tudo bem – algo que, claro, é a senha para eu tentar até o último suspiro literário. There’s no mountain high enough.

O resultado foi esse texto, “A literatura como um farol”. Escrevi no início do ano, mas tenho lembrado dele cada vez com mais frequência, em especial nos dias que estamos vivendo. Quando estivermos em dúvida sobre algo, ou nos sentindo desesperados e sozinhos demais, é necessário buscar tranquilidade na Arte, que serve como porto seguro para nossas agruras. A beleza e o horror estão criptografados na Arte, assim como nossos dilemas éticos e questões existenciais. Está tudo ali, em silêncio, à espera de ser decifrado por quem realmente se interessa em descobrir respostas que vão além do imediatismo.

Os que tiverem interesse no libreto completo do Fronteiras do Pensamento 2017, está aqui o link: http://www.fronteiras.com/produtos-culturais/produto/libreto-leonardo-padura 

Na segunda feira próxima, assistirei a palestra do Padura.

Boa leitura.

 

A literatura como um farol

“O farol de Bell Rock”, 1819, William Turner

Vamos pensar em um farol. Sozinho, ele luta contra a inexorabilidade furiosa das ondas que se arremessam, tentando arrastá-lo para o seu coração molhado no fundo do oceano, onde moram os fantasmas dos náufragos. Ainda assim, ele resiste ao cerco raivoso, a luz servindo de guia para as embarcações em meio ao escuro e às tempestades. Um farol sinaliza não somente o perigo de rochedos, mas o sonho de uma terra segura em que possamos descansar das agruras do mundo.

Em um livro lançado em Portugal no ano de 1968 e com coordenação de Urbano Tavares Rodrigues, perguntaram para seis escritores franceses, “Que pode a literatura?”, que se tornou seu título. Entre os escolhidos para responder essa singela – e traiçoeira – pergunta, estavam Jean-Paul Sartre, Yves Berger, Jean Ricardou e Simone de Beauvoir. O mundo atravessava momentos conturbados, em que valores eram rediscutidos à medida que os estudantes espalhavam-se pelas ruas da França lutando pelo direito de mudarem aquilo que julgavam errado. Era um período de crise e, como Urbano Tavares Rodrigues anuncia na introdução, é importante determinar se, nesse contexto problemático, estando sob ataque da crítica e da ciência, a literatura ainda teria, nos dias de então, um poder real e efetivo e, se acaso existisse esse poder, “a forma que ele se reveste, se se traduz em negação, contestação, transformação ou manifestação de impotência”. Uma dúvida que, sem muitas alterações, poderíamos aplicar nos dias atuais: a literatura é capaz de mudar o mundo e se, acaso sim, poderia salvá-lo, destruí-lo ou somente manifestar a sua impotência diante dos dilemas humanos?

Entre as respostas, a mais perturbadora e otimista foi a de Simone de Beauvoir. Após interrogar-se se a literatura ainda fazia sentido em um mundo no qual a informação possuía fácil acesso, em que o livro de um sociólogo sobre as favelas que cercam a Cidade do México era analisado de forma idêntica às descrições feitas por Balzac em “A Comédia Humana” – e estávamos antes do advento da internet, quando a informação não só se tornaria abundante como veloz -, a escritora francesa diz que, sim, a literatura fazia sentido, pois não se arvora na condição de ser verdadeira, mas pretende ser uma forma alternativa de se posicionar diante da realidade: “É este o milagre da literatura, o que a distingue da informação: é uma outra verdade que se torna minha sem deixar de ser outra. Abdico do meu ‘eu’ em favor de quem fala e, no entanto, continuo a ser eu própria. (…). A obra literária existe, na minha opinião, sempre que o escritor é capaz de manifestar e de impor uma verdade: a da sua relação com o mundo, a do meu mundo. Mas é preciso levar em conta o significado destas palavras: ter qualquer coisa para dizer não é mesmo que ter um objeto que se leve na mala e se ponha em cima da mesa, procurando descrevê-lo em seguida por palavras.”

Semelhante ao acontecido na década de 60, atravessamos outro período de turbulência. Os valores que imaginávamos intocados, como as noções de democracia e de liberdade civil, estão sob constante readequação. As fronteiras se diluíram; assoberbados pela fome e pela guerra, os povos se deslocam sem respeitar limites físicos, tornando inevitável o choque entre diferentes culturas. As instituições são questionadas, e tudo o que nos deixava seguros hoje paira sobre o clima da incerteza. Assim, torna-se imperativo retomarmos a pergunta: o que pode a literatura para manter esse equilíbrio precário que coloca em dúvida o próprio conceito de civilização?

Oportuno retornarmos à imagem do farol, mas pelo ângulo contrário. Imagine-se sobre o convés de uma embarcação, atacado pelos antigos deuses das águas, que esboroam as madeiras, ansiosos para saborear o seu último hálito. Imagine o vento fustigando a sua cara com centenas de cortes gelados, o rugido de um mundo que se contorce ao redor, o descontrole de vagar pela noite infinita onde as nuvens se unem às águas com o propósito de lhe engolir vivo. Estremecido de medo, você enxerga a luz solitária sobre a água, um bruxuleio tímido que aos poucos se firma no horizonte e lhe diz: calma, tudo vai acabar bem. Aproxime-se com cautela e, em breve, o pesadelo será passado. Toda a lógica indica que aquela luz é um farol, mas, para quem está dentro do barco enfrentando a tempestade, ela se chama Esperança.

Em tempos de crise moral e ética, é na Arte que devemos buscar aquilo que perdemos. É nela que encontramos o Humano, não a criatura multifacetada e repleta de agonia imposta pela pós-modernidade, mas o ser solitário que tenta chegar à sua essência para entender o mundo que lhe cerca. A Arte é o farol que nos conduz no silêncio da existência. É ela que tem a capacidade de fornecer a resposta para aquilo que sequer conseguimos transformar em pergunta.

Entre as artes, a Literatura ocupa um papel de relevo ao mostrar caminhos diferentes dentro da realidade, trazendo novas reflexões para dentro da vida singular que cada um ocupa. A melhor maneira de entendermos o outro é tentando enxergar o mundo através do seu ponto de vista. A Literatura é o exercício de alteridade por excelência, pois, quando lemos um livro, por um intervalo de tempo delirante, deixamos de sermos nós mesmos e nos transformamos em Gregor Samsa, em Aquiles, em Jane Eyre, em um axolote. Quanto mais lemos, maior a capacidade de entendermos os dilemas do outro e, quanto maior a compreensão, maior a tolerância e o respeito a quem nos é diferente.

É o caso do escritor cubano Leonardo Padura. A sua obra constitui um microcosmo dos séculos XX e XXI; o leitor que se debruçar sobre os seus romances, aprenderá mais sobre política, economia, sociologia e relações humanas do que qualquer busca no Google. Terá a vantagem de caminhar por uma Cuba mais real do que aquela que conhecemos: um cenário quente, de desilusões prolongadas, de desencanto e de alegrias que insistem em se esconder nos cantos das esquinas. Conhecerá um povo que sorri apesar das agruras, que sobrevive com dignidade e que possui dramas não muito distantes dos que atormentam pessoas em outros lugares do mundo. Ao contrário do que se pensa, o acesso amplo à informação é inútil se não acompanhado do toque humano de saber articular tais dados na forma de um pensamento coerente. Quando Simone de Beauvoir expressou o seu receio que o excesso de informação tornasse a literatura obsoleta, antecipou algo que Leonardo Padura demonstra nos seus romances: as informações e a pesquisa detalhada dos assuntos só possuem algum sentido quando são depuradas pelo olhar aguçado de um homem sobre o seu tempo.

Para descrever a sociedade em que vive, e fazer com que a sua obra tenha um alcance universal, Leonardo Padura escreve romances policiais, tidos por muitos como uma espécie de subgênero literário (por mais questionado que seja esse conceito). Autor da série de novelas policiais “Estações Havana”, formada por quatro livros (“Passado perfeito”, “Ventos de Quaresma”, “Máscaras” e “Paisagens de Outono”), o autor cubano criou o detetive Mario Conde, um policial atormentado por questões pessoais e que resolve crimes enquanto Cuba vive as primeiras crises do final do socialismo castrista. É um tempo de mudanças sociais e políticas e, em meio a essas incertezas que afetam o cotidiano de milhares de pessoas, Mario Conde atravessa as ruas de Havana em busca de respostas para os crimes, precisando lidar com os mais variados e ricos personagens, que dissimulam, mentem e, às vezes, até falam a verdade.

Dificilmente existe gênero literário que melhor represente a literatura como forma artística do que o romance policial. Reduzido aos seus elementos mais básicos, ele é a caçada de um criminoso realizada por outra pessoa que dispõe a mais perigosa das armas: a criatividade de unir pontos díspares em uma rede lógica de causa e efeito. Seres humanos criativos são algo a ser temido em qualquer tempo e lugar, e o romance policial faz com que os seus leitores tracem ligações e imaginem cenários que expandem as possibilidades da criatividade ao infinito.

Em um ensaio sobre o conto policial, Jorge Luis Borges, após afirmar que a literatura é algo que tende ao caótico, acaba encontrando organização dentro da história policial, “que está salvando a ordem em uma época de desordem.” Poucas sensações são mais tranquilizadoras do que juntar pistas ao lado de um detetive ficcional e trazer algum conforto e segurança ao mundo. Chesterton afirmou que o verdadeiro inimigo da história policial é o escritor, que esconde pistas com o desejo de que elas sejam encontradas. Nesse caso, Leonardo Padura é o melhor adversário que um leitor pode encontrar, pois, além de tentar encontrar sentido para uma Cuba que espelha as perplexidades de todo um século, constrói o caos de um crime dentro de um caos social maior, e faz com que o leitor se torne cúmplice na tarefa de juntar os pedaços de um mundo semi-destruído com o objetivo de dar alguma ordem que, se não for a ideal, ao menos seja satisfatória.

Retomando a pergunta motivadora desse texto, o que pode a literatura? Talvez a resposta seja outra questão: o que a literatura não pode fazer nos tempos em que vivemos? Existiria assunto tão insondável que não possa ser trazido para dentro da arena ficcional a fim de ser analisado sob todos os prismas possíveis? Com o passar do tempo, criou-se a ilusão de que surgirá alguém capaz de nos salvar, um ente iluminado que, com inteligência, guiará a nossa embarcação para longe da crise, mas, parafraseando Brecht, pobre da nação que precisa de heróis! O melhor é buscar o conforto da literatura para achar as respostas tão ansiadas, confiantes de que, como um farol em meio ao mar bravio, ela será capaz de nos conduzir quando nos sentirmos perdidos e sozinhos. Nesse cenário, a obra de Leonardo Padura continuará dialogando com os dilemas da nossa época, mostrando para o leitor que uma das grandes funções da literatura, afinal de contas, é mostrar quem realmente somos.

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Obras Inquietas – 39. “A Vida e a Morte” (1916), Gustav Klimt

Nessa semana na minha coluna Obras Inquietas, no Artrianon, tive a oportunidade de falar de um dos pintores que mais admiro: Gustav Klimt. Em “A Vida e a Morte”, Klimt deixa de lado as mulheres etéreas ou as paisagens vagas e trata, de forma simbólica, da relação entre uma vida que insiste em preservar aquilo que temos, na forma de um abraço carinhoso, e uma morte que espreita ao redor, ansiosa para terminar com aquela unidade. Curiosamente, muitos críticos consideram-no uma pintura otimista, afirmando que os seres humanos dormem ao lado de sombra tão nefasta por que estariam a desprezando. Eu não penso assim: para mim, a morte é quase como um tigre de tocaia em torno de um acampamento, esperando pacientemente que alguém se distraia para, então, atacar com ferocidade.

Boa leitura!

“A Vida e a Morte” (1916), Gustav Klimt

Enquanto estivermos juntos, estamos protegidos. Basta ficarmos abraçados, protegidos sob a luz e em meio ao conforto cálido do nosso contato, e nada de ruim vai acontecer. Podemos sentir a adversária à espreita, rondando o círculo de proteção em que estamos, ela e a sua caveira sem alma, ela e seus dentes gélidos que nunca sorriem. Basta um segundo de distração, um momento em que tentamos avançar além do seguro, para que o porrete da inimiga desça e acabe com o nosso sonho. Então, só podemos ficar sempre juntos, homens, mulheres e crianças, e dizer que a noite não existe longe do nosso abraço, que a morte não nos espera faminta, que podemos ser felizes enquanto existir luz, enquanto existir cor. Mas não nos iludamos: o bafo pútrido dela cerca o mundo, cobiçando a chama dos nossos olhares, a candura dos nossos amores, ansiosa para nos tocar com os seus dedos repletos de escuridão. Passamos a existência toda tentando evitá-la, mas ela sabe que, mais dia ou menos dia, iremos nos distrair – todos se distraem, seja atravessando uma rua, seja subestimando a pessoa errada – e, neste momento, ela ceifará a nossa vida com toda a fúria que a inveja lhe proporciona. Ela está sempre vigilante e nunca descansa, andando em círculo em torno da pequena esfera de felicidade que ousamos criar. Ela sabe que a felicidade é efêmera e o fim inevitável; um dia, iremos sair do abraço que nos protege e entrar no seu manto sombrio. Tudo é passageiro, menos a paciência da morte, e ela segue esperando o instante em que os nossos entes amados irão se distrair para, então, plantar a dor no seio da nossa – tão rápida, tão cintilante – alegria e se deliciar, vendo desmoronar o mundo perfeito que cuidadosamente criamos ao nosso redor. Aproveite os dias de sol hoje, pois eles irão acabar, e somente o pântano da recordação irá nos lembrar da época em que éramos felizes e não sabíamos. Enquanto dormimos o sono dos inocentes, a morte nos contempla – e espera.

Texto originalmente publicado no link https://artrianon.com/2017/07/23/obras-inquietas-39-a-vida-e-a-morte-1916-gustav-klimt/

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Obras Inquietas – 38. “Finis – O Fim de todas as coisas” (1887), Maximilian Pirner

Na minha coluna dessa semana no “Obras Inquietas”, escrevi sobre um quadro tão repleto de simbolismos que não foi decifrado até os dias atuais. Em “Finis – O Fim de todas as coisas”, o artista tcheco Maximilian Pirner deu a sua versão para o que acontecerá no fim do mundo, e fez de maneira tão misteriosa e criptografada que não conseguimos compreender nada – apesar de estranhamente entendermos o que está na imagem em um nível que faltam palavras para descrever. O melhor lugar para esconder uma folha seca é no meio de um bosque, e o melhor lugar para ocultar algo é colocar o mais próximo possível dos olhos alheios.

Um quadro que, passados 130 anos, não só não entendemos, como inclusive nos recusamos a falar a respeito – um quadro quase invisível, com exceção do detalhe que ele existe. Há algo mais inquietante do que isso, obras de arte que não conseguimos ver e que andam impunes por aí?

Boa leitura.

“Finis – O Fim de todas as coisas”, Maximiliam Pirner

Existem mistérios que não conseguimos responder, e a nossa cegueira seletiva sempre impressiona: vemos aquilo que está diante dos olhos, mas somos incapazes de perceber os infernos que nos espreitam se dermos um passo para o lado errado, se virarmos a esquina inesperada, se encararmos os olhos de um gato sem o medo de enlouquecer. Quando o pintor abandonou o quadro, o fez com um suspiro de dor: de qual incômodo abismo surgira aquela imagem, de qual subterrâneo oculto da sua alma emergira tamanho delírio? Não soube responder, e isso lhe inquietou. Por segundos a arte tocara na fímbria do Universo, e o seu espírito mais sentiu do que viu o último segundo: o fim da raça humana, do sonho, do sexo, da unânime noite, da pergunta que não fazemos, dos medos e das angústias que arrastamos por todos os lados. Na pintura, as imagens pediam para serem decifradas, e a sua simplicidade perturbava por serem mais próximas do que imaginava: os corpos desmaiados no chão ainda recendiam a uma orgia impregnada de desvarios. Na tumba, o anjo tocava a lira, ameaçado pela Morte e por sua silhueta faminta. Aos pés do improvisado altar, uma medusa chorava, lançando um olhar de desespero à procura de uma salvação que não viria. Codificado no interior de um quadro, escondido por trás de camadas de símbolos, de corredores, de neblinas e de falsas respostas, encontrava-se tudo o que precisávamos saber sobre o Fim. Impossível não ver o quadro e não reconhecer que existe um segredo a deslizar, escorreito como uma serpente, por trás das tintas, ansioso para ser descoberto, debochando da nossa sanidade. Impossível não estremecer ao pensar que, nesse exato momento, em uma galeria de arte tcheca, existe um quadro que contém o fim do Universo à espera de um salvador, e não conseguimos entender, pois não entendemos nada, nunca entendemos nada – em especial o que está na frente dos olhos.

Texto originalmente publicado no link https://artrianon.com/2017/07/09/obras-inquietas-38-finis-o-fim-de-todas-as-coisas-1887-maximilian-pirner/

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Obras Inquietas – 37. “O suicida” (1880), Édouard Manet

Nessa semana na coluna “Obras Inquietas”, eu tratei de um pequeno quadro de Édouard Manet – pequeno no sentido de dimensões, ele possui em torno de 30 cm X 46 cm – que, sem firulas, aborda um assunto considerado tabu até hoje: o suicídio. O quadro é ainda mais singular pelo seu mistério, pois ninguém sabe quem é o suicida retratado (já tentaram ver várias pessoas, até um assistente do estúdio em que o artista trabalhava) e é um quadro que escapa das temáticas preferidas de Manet. Perturba mais por ser uma cena que acabou de acontecer, e o suicida ainda não está completamente morto, mas no limite entre a vida e a morte.

Boa leitura.

O suicida (1880), Édouard Manet

Ninguém nunca saberá qual nome eu carregava. A partir de hoje, serei conhecido somente como “o suicida”, e as pessoas evitarão pensar em mim, enquanto secretamente insultam a fraqueza ou covardia que me levou a esse gesto. Os homens e mulheres são tão fortes, tão bravos, tão destemidos, e a ideia de que existam pessoas que não aguentam o peso insuportável da vida é algo que atemoriza pela sua proximidade: todos pensam em um fim cômodo, uma forma honrosa de colocar fim aos problemas, uma saída de cena no auge da experiência. A única diferença a nos separar é que dei o último passo, enquanto os demais preferem continuar carregando a sua miséria por todos os lados, em uma vida que se prolonga, indesejada, inoportuna. Nenhuma pessoa conhecerá qual angústia carcomia os meus pensamentos no momento em que decidi acabar com o sofrimento, disparando a arma contra o peito. A dor de existir é silenciosa, mas dilacera o espírito como uma adaga a se retorcer nas tripas. Ninguém imaginará o nome que escapou dos meus lábios quando o estrondo do tiro encheu o mundo. Entrarei para o rol dos covardes, para a lista de nomes a serem esquecidos ou mencionados somente em sussurros, nos entremeios de ruidosas festas; todos temerão que a minha covardia seja contagiosa. O suicida é a pessoa mais sozinha do mundo e, no quarto de hotel em que estou, o silêncio era absoluto até o disparo atravessar a noite. Ninguém será capaz de entender o alívio que se espalhou pelos músculos até então contraídos, tendo a bala como epicentro nervoso, quando a morte invadiu meu corpo com seus dedos repletos de gelado. Não terei sequer o consolo de uma lápide; ninguém nunca mais lembrará quem fui, a não ser em alguma risada indiferente ou algum comentário debochado. Eu sou aquele que não devia ter nascido

Texto originalmente publicado no link https://artrianon.com/2017/07/02/obras-inquietas-37-o-suicida-1880-edouard-manet/

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Obras Inquietas – 36. “As tentações de Santo Antônio” (1646), Salvator Rosa

Quem me conhece sabe bem da minha admiração pelas inúmeras versões de “As tentações de Santo Antônio” que foram pintadas no decorrer da História da Arte. É um tema que fascinou – ou, melhor dizendo, inquietou – vários artistas, e é algo bem legal de ver o quanto o mesmo assunto recebeu visões diferentes, algumas mais sombrias, outra mais leves.

Para minha coluna dessa semana no “Obras Inquietas”, optei por essa versão da história pintada pelo Salvator Rosa, um artista conhecido pelas suas pinceladas distorcidas, quase góticas. E aproveitei para falar sobre as sombras que habitam nosso quarto e roubam nosso sono à noite. Vocês sabem do que estou falando. Eu sei que sabem.

Boa leitura.

“As tentações de Santo Antônio” (1646), de Salvator Rosa

Toda vez que você repousa a cabeça em um travesseiro, eles se alvoroçam na escuridão. Estão sempre lá, à espreita, vigiando o seu sono e a sua sanidade, ansiosos para cravar os dentes na paz de espírito. Ninguém sabe os nomes dos demônios que dormitam nas trevas à espera do momento em que você finalmente vai relaxar. Alguns os chamam de preocupações, outros de medos, e ainda tem aqueles que os chamam de vida. São eles que impedem o seu sono à noite e, quando você dorme, são quem aguilhoam a sua memória e trazem à tona os piores pesadelos. No abismo ainda insondável das regiões oníricas, as tentações, com línguas bífidas e cicios impregnados de ilusões, esperam o momento de surgirem na sua mente e deixarem atrás de si o espectro das palavras não ditas, as dores dos sentimentos sufocados, as angústias dos gestos que jamais fizemos. Não adianta rezar; seu deus não servirá de nada quando a tentação vier sugar a sua tranquilidade e tirar o seu sono. Você lutará toda a noite contra os próprios pensamentos e dúvidas, sempre inseguro, sempre com medo, enquanto os demônios chicoteiam em silêncio tudo aquilo que você gostaria de esquecer, expondo as chagas que você julgava estarem cicatrizadas e estavam à flor da pele. Viver é nunca ter paz: após um dia inteiro enfrentando a realidade, as noites são longas batalhas contra os próprios pensamentos. Tendo somente a sua alma como companheira fiel contra os demônios invisíveis que infestam o quarto, você espera que a noite termine, mesmo sabendo que ela nunca desistirá de lhe enlouquecer com as culpas que moram nos cantos da memória, nos desvãos da existência.

Texto publicado originalmente no link https://artrianon.com/2017/06/25/obras-inquietas-36-as-tentacoes-de-santo-antonio-1646-de-salvator-rosa/

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Obras Inquietas – 35. “Uma família de san-culottes descansa depois das fadigas do dia” (1792), James Gillray

A minha proposta no “Obras Inquietas”, a coluna que assino no Artrianon, sempre foi mostrar obras de arte que, de alguma forma, me transmitiam inquietação e perplexidade. No entanto, tal inquietação se dá em muitos níveis, tanto em mim como es. Nunca estabeleci critérios, e até acho errado estabelecer classes e distinções, pois as obras de arte não encontram uma forma canônica para se expressarem.

Assim como trato pintura, escultura e fotografia no mesmo nível artístico, não espanta que a caricatura também tenha entrado na minha listagem de obras. Escolhi uma caricatura feita por James Gillray, “Uma família de san-culottes descansa depois das fadigas do dia”. Essa obra foi feita para consumo rápido, no calor dos eventos, e levada imediatamente para a gráfica para farta distribuição entre o povo. Era 1792, ou seja, a Europa ainda estava sob o impacto da Revolução Francesa, iniciada na França três anos antes. Os san-culottes – “sem calça”, fazendo justiça à sua denominação – devoram os burgueses com requintes de crueldade, algo que funcionava tanto como uma admoestação feroz dos riscos da Revolução chegar à Inglaterra quanto uma crítica social e construção de uma imagem bestial para os revolucionários.

Se eu fosse escrever sobre James Gillray, precisaria de um longo texto, então é melhor deixar para outra ocasião.

Enquanto isso, boa leitura.

“Uma família de san-culottes descansa depois das fadigas do dia” (1792), James Gillray

É muito sutil a linha que separa o ser humano do animal, a civilização da bestialidade, a ordem do caos. Todos possuem um ser primitivo à espreita no seu interior, alguém que já existia antes mesmo que caminhássemos eretos, criatura feita de terror e de raiva pura; uma fera ansiosa por liberdade, que observa os outros com gula e cobiça, músculos retesados prontos a se soltarem em um salto na jugular alheia. Não tentem mentir – eu conheço a besta que mora na sua sombra, pois ela é a selvagem irmã daquela que meus olhos escondem. É só uma mera convenção social que nos impede de matar o outro, de devorar crianças (a carne delas, será doce ou salgada? Eis uma dúvida que acalentará os seus pensamentos noturnos hoje, pouco antes do horror te fazer sucumbir ao pesadelo que não lembramos), de violentar mulheres, homens, cavalos, cachorros. Afinal, quem não pensa como eu é o inimigo, e meus inimigos não possuem alma. É assim que justificamos a besta que se alimenta das nossas virtudes, vomitando escuridões e medos. No entanto, chegará o dia em que abriremos os olhos e veremos que a civilização é somente um verniz e, debaixo dele, se esconde um oceano furioso; nesse dia, as bestas cavalgarão pelo mundo, e todo o horror que já imaginamos não fará jus à imaginação sem freios do animal que nos habita, e cujos olhos famintos podemos ver às vezes brilhando no interior da nossa sombra. Quando a civilização enfim for desmascarada, não mais existirá arte, não mais existirá nada a nos dividir; seremos os animais que sempre desejamos, e nos entregaremos alegremente à tarefa de destruirmos um ao outro. Quando esse dia chegar (e está cada vez mais próximo), corra rápido, pois a maldade humana não terá mais nada a lhe segurar.

Texto originalmente publicado no link https://artrianon.com/2017/06/18/obras-inquietas-35-uma-familia-de-san-culottes-descansa-depois-das-fadigas-do-dia-1792-james-gillray/

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O Poema sem Fim de Utrecht

Isso é muito lindo. No exato momento em que estou escrevendo essas palavras – e você está lendo -, um poema sem fim está sendo escrito com palavras e pedras na cidade holandesa de Utreicht.

Os responsáveis pelo poema são os integrantes da Guilda de Poetas de Utreicht. Cabe a eles escolherem a palavra que será escrita em pedra. O funcionamento é simples e, depois de cinco anos, transformou-se em um ritual. Todo sábado, o dono de uma pedreira local transporta uma pedra até a beira do canal local e a deixa ali, até o poeta surgir com seu formão e inscrever a letra. Em seguida, a pedra é arrastada até o fosso em que as suas irmãs se encontram, juntando-se a elas em uma linha sucessiva que forma palavras, que se juntam em versos, que virarão uma poesia que ninguém sabe como ou quando terminará – se é que terminará algum dia.

O projeto – considerado uma “escultura social feita ao ar livre” – começou oficialmente em 2012, mas nesse ano foram acrescentados 648 blocos correspondendo às letras que eram devidas desde o dia 01 de janeiro do ano de 2000, então, para todos os efeitos, é um projeto que teve o seu início com o século XXI e se estenderá enquanto existirem palavras, enquanto existirem pedras, enquanto existirem poetas.

O poema tem um título, “Cartas de Utreicht”, e a linha pela qual ele segue contorna o antigo canal da cidade (Oudegracht), mas já existe uma ideia de como expandi-la se, algum dia, o canal não for mais suficiente para a poesia. Veremos, então, o que é mais forte: o rio ou a poesia. A geografia e suas linhas duras e furiosas ou a instabilidade da imaginação.

O projeto é apoiado pela cidade, que também se mobiliza para saber qual caminho o poema tomará. Leva semanas para as palavras se formarem, e alguns meses para as orações se tornarem compreensíveis, mas quem disse que a poesia não é um trabalho de construção laboriosa e muita paciência? Desconfio muito desses poetas que se jactam de escreverem de forma compulsiva, com a inspiração à flor da pele, em um fluxo contínuo de imagens poéticas. Para mim, a verdadeira poesia se faz assim: uma letra de cada vez, as palavras sendo paulatinamente conquistadas pelo entusiasmo ou pelo cansaço, até se renderem em versos e estes em estrofes. Desconfio da poesia rápida, pois tudo aquilo que é facilmente feito, é também fácil de ser esquecido.

Não posso sequer imaginar como será o dia em que o último poeta de Utreicht – pois tudo chega até o fim, mesmo os poetas – estiver formando as derradeiras letras para colocar nos versos iniciados por uma longa linhagem de homens e mulheres que lhe antecederam, todos unidos sob a mesma bandeira e mesmo sonho. Será que a pedra terá o mesmo peso, será que as palavras ainda farão sentido? Será que ele verá o fim do poema ou o deixará inconcluso, incapaz de encerrar um trabalho de tantos anos?

O Poema sem Fim, ou as “Cartas de Utreicht”, possui os seguintes versos, traduzidos para o inglês pela equipe do Atlas Obscura (www.atlasobscura.com):

You have to start somewhere to give the past a place, the present is getting less and less. The further you are, the better. Go ahead now,

Leave your tracks. Forget the flash in which you may exist, the world is your street plan. Was there a time when you were another: it went by.

You are the other though. You are, as you know, the spell of this story. This is eternity. It takes. It’s time. Therefore, go into your story and swallow. Tell.

Tell us who you are with each step. In our story we disappear naturally, and only you remain in the long run. You and these letters, which are cut out of stone. Like the letters on our grave.

They burst into the Dom. Raised to the sky like an index finger, to indicate the guilty and demand more time. So we can go up straight, like people along the canal.

Stare at their feet. Look up! See Utrecht’s churches protruding above ground level. Raise the hands, begging with the towers to be this privilege: to be, now. The weather is nice.

Stand on. Life is witness to your gaze on the horizon. Your footsteps …

Está ficando um poema ótimo.Provavelmente não estaremos vivos para saber o seu final, e nisso existe uma lição de humildade: o Tempo não existe para a Poesia. Nós criamos o Tempo que nos encapsula, mas, para a Poesia – e para as Pedras – o Tempo é um conceito tão vago que sequer é levado em consideração. O que importa, no final do dia, é prosseguir em frente, sem saber se aquela é a última palavra, uma letra qualquer no muro da existência ou se chegamos ao verso final da vida.

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