Arquivo da categoria: Produção Literária

Obras Inquietas – 53. “Marguerite no sabá” (1911), Pascal Dagnan-Bouveret

Na minha coluna dessa semana no “Obras Inquietas” lá no Artrianon (www.artrianon.com), eu escrevi sobre uma pintura de Pascal Dagnan-Bouveret, “Marguerite no sabá”. Essa é uma cena decisiva do “Fausto”, de Goethe: o momento em que Fausto está em um sabá com Mefistófeles e olha Marguerite, a mulher que seduziu e engravidou, emergir como um espectro de dentro do inferno, o corpo do filho nas mãos.

Um detalhe interessante sobre a pintura: Dagnan-Bouveret costumava usar fotografias para pintar os quadros, mas, nesse caso, usou como modelo uma atriz – Suzanne Delvé – e mais as fotografias que tirou, tudo para extrair o máximo de tensão da cena. E escolheu muito bem o momento em que a imagem se sobrepõe à literatura e crava seus olhos no leitor. Impossível ler a cena de novo sem lembrar de novo desse quadro e, no meu texto, tentei dar uma voz de desesperança à Marguerite, revelando a sensação de inutilidade do seu sacrifício, sem esquecer o mito fáustico, mais Goethe, mais Thomas Mann – acendi vela para um bocado de santo.

Boa leitura.

“Marguerite no sabá” (1911), Pascal Dagnan-Bouveret

 

Maldito o momento em que escutei as palavras sedutoras que escapavam da sua boca como as serpentes ondulam ao sol; maldito o instante em que acreditei no amor. Encare o resultado da sua luxúria e da minha danação. Não, não desvie o olhar; não deixe a vergonha toldar os seus pensamentos. Olhe o crime que cometi por você – contemple o corpo do nosso filho, fruto morto do pecado em que foi concebido. Não preste atenção aos cânticos lascivos desses outros perdidos que vieram encontrar o diabo que mora dentro de si mesmos, nem nas palavras de adulação que lambem a noite com o hálito frio da morte; sinta o calor das chamas a que fui condenada pelo erro de acreditar em você. Nunca serei perdoada. Nunca serei capaz de me perdoar. Responda, então: valeu a pena sacrificar o amor pelo conhecimento? Eu perdi tudo para merecer o sentimento que, iludida, pensei existir na voracidade urgente das suas pupilas; perdi o meu próprio respeito, perdi a família, perdi a alma, perdi o nosso filho, e foi em vão, pois perseguia a sombra de um morto, a neblina insondável que habita isso que você chama de espírito. Olhe o fundo da minha angústia, maldito Fausto, e conheça a imensidão da sua derrota. Eis o nosso filho, morto por causa da soberba do pai e da cegueira ingênua da mãe. As crianças sempre pagam pelos erros dos seus pais. Consegue escutar os lamentos e gritos que se despegam do inferno a que fui condenada? Pois o pior de todos os infernos mora na crueldade da minha memória, no fantasma do filho que condenei à morte por ter escolhido o homem errado para ser seu pai, por ter escolhido você, esse pálido esboço de ser humano.

Texto originalmente publicado no link https://artrianon.com/2018/01/21/obras-inquietas-53-marguerite-no-saba-1911-pascal-dagnan-bouveret/

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Obras Inquietas – 52. “Volta para casa no Natal” (1948), Norman Rockwell

Hoje é Natal e, no melhor espírito da data, sugeriram que eu falasse no “Obras Inquietas” sobre alguma obra de arte com tema natalino. Optei por essa pintura do americano Norman Rockwell, “Volta para casa no Natal”, um bom exemplo de algo que sempre me deixou desconfortável com o estilo do artista: a plasticidade das pessoas, os sorrisos amplos que escondem falsidades, a sensação de que a cena foi cuidadosamente construída para passar uma mensagem de conformismo e aceitação. É tudo tão perfeito que tenho a sensação de que existe um universo de terrores por trás, algo escondido dentro do quadro e que se encontra ao alcance da visão, esperando o momento de ser desvendado.

Bom, se a ideia era ser natalino, creio ter falhado. Mas, além da Páscoa (em que comemoramos uma crucificação), existe feriado mais inquietante do que o Natal?

Boa leitura.

“Volta para casa no Natal” (1948), Norman Rockwell

Não enxergamos o rosto do homem, somente as costas curvadas de quem atravessou o mundo para voltar para casa – ou de quem carrega todos os problemas da Humanidade sobre uma estrutura frágil, de ossos velhos e de coluna alquebrada. Sob um dos seus braços, presentes coloridos escorregam, enquanto a mão firme segura a mala tão exausta quanto o viajante. À primeira vista, é uma cena festiva: o homem que retorna para o lar, o abraço apertado da sua esposa, os olhares de curiosidade da família e dos amigos. No entanto, existe algo oculto na tela, um desconforto na tessitura da imagem, um terror submerso que só observamos depois de algum tempo: todos os homens que encaram o recém-chegado são variações do mesmo rosto, cada um em um tempo cronológico diferente. Não precisamos ver o rosto do viajante por que ele está diante de inúmeros espelhos, todos debochando, todos ostentando risadas que mal escondem o pânico. O homem achou que podia vencer a morte e o tempo se se afastasse de si mesmo, e não conseguiu: retornou para os problemas, para os medos, para os dramas do cotidiano. Estamos sempre voltando para casa, seja real ou metafórica, e nunca conseguimos escapar de quem somos e da sutil prisão de circunstâncias e destino em que nos colocaram tão logo nascemos, prisão essa que chamamos de vida e nos sufoca lentamente com a certeza da areia movediça. O abraço da esposa aproxima-se de um enforcamento. Como Penélope ao reconhecer Ulisses, a mulher não sabe se chora, se ri ou se diz no ouvido do marido a verdade: você voltou para o lugar onde um dia vai morrer – devia ter fugido quando teve chance.

Texto originalmente publicado no link https://artrianon.com/2017/12/25/obras-inquietas-52-volta-para-casa-no-natal-1948-norman-rockwell/

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Obras Inquietas – 51. “Tigre na selva” (1917), Max Slevogt

Nessa semana, na coluna “Obras Inquietas”, eu falei de um quadro do pintor impressionista alemão Max Slevogt. Em “Tigre na selva”, a mistura entre a imprecisão dos movimentos sinuosos de um tigre e o abandono repleto de êxtase da mulher que ele carrega acaba gerando uma forte carga erótica que, ainda que não saibamos colocar em palavras, nos faz perder a respiração. Isso sem contar que Max Slevogt era um grande pintor de tigres e de cenas carregadas de erotismo não-aparente, mas que ensinariam muitos artistas contemporâneos sobre a incrível capacidade de ser pornográfico e escandaloso sem escancarar. Existe coisa muito mais erótica do que genitália, e quem não sabe disso precisa urgentemente voltar para a época do colégio.

Boa leitura!

“Tigre na selva” (1917), Max Slevogt

Possuída pela sinuosidade do tigre, todo o corpo da mulher é medo e entrega. O abandono – o saber se consagrar à volúpia do precipício, o saber desistir da luta – é o mais difícil dos sentimentos, e o mais cruel: nunca se sabe se será possível voltar ao que éramos antes, nunca se sabe se não é tarde demais, fundo demais, dolorido demais. A vítima se entrega à ferocidade do desconhecido e, ainda que exista angústia nesse gesto, também há excitação. O gozo anda muito próximo da morte; o prazer caminha ao lado do desespero. Os cabelos da mulher dançam com o vento, enquanto a selva se rende à sensualidade do tigre que carrega o seu prêmio ofegante. A presa não mais resiste; o predador venceu, e a fúria contida da certeza com que seus passos deslizam pela tinta amorfa do quadro é algo de extrema obscenidade. A violência da cena interrompida momentos antes do seu desenlace – o instante em que o animal, enfim, possuirá a mulher já subjugada – nos deixa na incômoda dúvida do reconhecimento impossível de uma cena que jamais vivemos: somos o tigre vitorioso ou a vítima? O vencedor ou o derrotado? Devemos desistir diante da morte semovente ou encará-la mais uma vez nos olhos antes que ela crave seus dentes na nossa carne e nos confronte com o prazer repleto de indecência que mora no primitivo que não conseguimos entender? Temos medo das sombras e segredos que moram no fundo do abismo da entrega.

Texto originalmente publicado no link https://artrianon.com/2017/12/04/obras-inquietas-51-tigre-na-selva-1917-max-slevogt/

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Obras Inquietas – 50. “A cabeça da Medusa” (1612), Pieter Paul Rubens

Cheguei à quinquagésima coluna no “Obras Inquietas”, lá no Artrianon ( www. artrianon.com ), ou seja, cheguei à 50a obra que me desperta algum tipo de inquietação. Pode parecer pouca coisa, mas são 50 textos curtos que, apesar de terem sido muito prazerosos de escrever, também tocaram fundo em algumas feridas e medos internos que eu sequer imaginava existir.

Para “comemorar” a efeméride, nessa semana tratei de um pintor que respeito muito e, talvez por isso, sempre mantive distância. Em “A cabeça da Medusa” (1612), de Pieter Paul Rubens, o aspecto grotesco da cabeça cortada por Perseu revela tanto surpresa quanto pavor, assim como Rubens tenta responder uma pergunta sobre a qual a mitologia silenciou: o que aconteceu com as cobras da cabeça da Medusa? Freud viu esse quadro como uma representação da castração masculina (bom, afinal, onde o Freud não vê falos masculinos?), mas gosto de um aspecto particularmente inquietante da análise dele: sentimos uma estranha excitação e fascínio diante da obra, algo quase sexual, quase devasso, quase puro. Existe alguma perturbação expressa nesse quadro, mas o fato de não conseguimos definir com clareza o que é deixa as fronteiras entre o macabro e o sedutor ainda mais borradas.

Boa leitura.

“A cabeça da Medusa” (1612), Pieter Paul Rubens

O crime acabou de acontecer; o sangue fresco ainda escorre do corte repleto de crueldade o qual, certeiro, separou o pescoço do resto do corpo. Os olhos que antes levavam desespero ao mundo agora são um espelho estarrecido de finitude: então eu também posso morrer, então não sou imortal. Sobre a cabeça, aquelas que viviam em precária harmonia – unidas em torno do horror inspirado pela sua dona – entregam-se à feroz luta da sobrevivência. Irmãs até então inseparáveis atacam-se com raiva; existem aquelas que tentam aproveitar até o último resquício de vida do ser que lhes animava e dava propósito, sorvendo até a derradeira gota teimosa de sangue; uma delas aproxima-se, sorrateira, do olho vítreo, imaginando qual o gosto da carne de Deus. Outras cobras, pela primeira vez descobrindo o que é ser livre, esgueiram-se sobre a pedra onde jaz a cabeça, sem imaginar a solidão que lhes espera nesse mundo em que deixarão de ondular e passarão a rastejar por migalhas de sol. Enquanto as serpentes decidem seu destino (algumas gritam em silêncio para o sol indiferente), os vermes se aproximam, famintos, ansiosos para possuírem a cabeça sem vida e que, no passado, transformava carne em pedra. Tudo escorre em direção ao inexorável fim, pois aquilo que começa um dia acaba, mas ninguém nunca nos avisou sobre o fedor acre de sangue coagulado, ninguém falou sobre a solidão do vento a mexer nos cabelos insensíveis, ninguém nos avisou que a vida continua, pasma e patética, depois que morremos – e que, na história do universo, somos meros suspiros impregnados de efemeridade, nunca uma respiração.

Texto originalmente publicado no link https://artrianon.com/2017/11/26/obras-inquietas-50-a-cabeca-da-medusa-1612-pieter-paul-rubens/

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Obras Inquietas – 48. “Espalhados por toda a parte” (1864), Alexander ver Huell

Na minha coluna dessa semana no “Obras Inquietas”, em homenagem ao Halloween, tratei de um ilustrador extremamente singular e não tão badalado, o holandês Alexander ver Huell. Ele se notabilizou pelas suas obras repletas de romantismo e sensibilidade, que adornaram muitos livros do período que vai de 1822 a 1845. Porém, um dia – e ninguém sabe ao certo o que aconteceu -, ele se transformou em um homem repleto de paranoia e de fobia social, e as cenas românticas de antes foram invadidas pela morte, por demônios e pela bizarrice.

A ilustração que escolhi, “Espalhados por toda a parte” (o nome original está em latim, “Straas ubique”, mas optei por passar para português), me é significativa por um evento pessoal: certa vez, um amigo estava em uma casa noturna de Porto Alegre e passou mal, tendo que sair às pressas do lugar. Alguns dias depois, perguntei-lhe o que tinha acontecido e ele disse que, de repente, ao olhar as outras pessoas presentes no lugar, dançando e se divertindo, viu somente gente morta. Ainda lembro dele segurando meu braço e perguntando com urgência “tu não viu? TU NÃO VIU?”. Não enxerguei nada, mas sempre fiquei pensando que, talvez, o olhar seja somente uma questão de perspectiva.

Enfim, eis o texto. Boa leitura.

“Espalhados por toda a parte” (1864), Alexander ver Huell

O homem caminha com pressa, evitando olhar para os lados. Cobre o rosto, com receio de revelar o permanente ricto de terror que vinca os seus lábios em um constante gemido. Eles estão por todos os lugares. Em cada esquina, em cada rua, em cada casa, a doença e a morte espiam o estranho que atravessa os seus domínios. Atrás de risadas histéricas e da alegria fugaz da pele, escondem-se cadáveres putrefatos cobiçando a vida daqueles que ainda não escutaram o canto de sereia do Inferno, a música terrífica que se espalha pela catedral do mundo, o ruído que mora no fundo do pesadelo. A loucura eriça os pelos do homem enquanto ele atravessa as ruínas daquela necrópole, a cidade dos mortos que ainda respiram. “Estão todos mortos! Vocês e seus filhos, amantes, netos, cachorros, vocês não estão vivos, mas se arrastam pelo mundo sem sentido algum que não seja satisfazer o buraco infinito que mora no fundo da cova dos seus ossos!”, o homem deseja gritar, mas não sabe qual serão as consequências de revelar a verdade, então prefere silenciar. Estar vivo e não viver com a intensidade de um arrepio recém-surgido ou com a raiva com que a água na ânfora espia a sala ao seu redor é como estar morto, e o homem atravessa rapidamente o carnaval de gente a rir, a brincar, a sofrer, a se angustiar, sabendo que somente ossos vazios cobertos de enganosa pele estão ali, em uma confraternização macabra que marca os seres de vida comum que vieram ao planeta somente para servir de pasto para os vermes. Os passos velozes do homem e o medo que escapa dos seus olhos esbugalhados não deixam dúvida: ele está em um mundo repleto de inimigos, com o odor nauseabundo da morte a infestar cada recanto, cercado por cadáveres que ignoram essa condição, em eterna fuga de si mesmo, e ninguém sabe disso, não existe conforto em nenhum lugar, não existe descanso em nenhuma cama, não existe sorriso verdadeiro em nenhum rosto – só a morte a espreitar a sua vida com a mesma curiosidade com que a cascavel contempla a vítima distraída.

Texto originalmente publicado no link  https://artrianon.com/2017/10/29/obras-inquietas-48-espalhados-por-toda-a-parte-1864-alexander-ver-huell/

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Obras Inquietas – 47. “A lição de anatomia do Dr. Frederik Ruysch” (1714), de Jan van Neck

Em virtude de ter passado duas semanas viajando e palestrando por aí, atrasei as colunas do “Obras Inquietas”, motivo pelo o qual me puxaram as orelhas em mensagens.

No meu retorno, tratei de “A lição de anatomia do Dr. Frederik Ruysch” (1714) do pintor holandês Jan van Neck. Poderia ter escolhido outras versões da mesma ideia, inclusive mais famosas, como a de Rembrandt: existiu uma época na História da Arte em que era frequente pintores retratarem aulas de anatomia, o que por si só daria um longo texto. Optei por essa de van Neck por que, entre elas, é a que mais recordo, talvez pelo fato de ser a autópsia de um recém-nascido, talvez pelo detalhe destoante da criança assombrada que segura um esqueleto no canto da imagem. Existe algo de perturbador na calmaria aparente dessa pintura e, se não sou capaz de detectar, o quadro merece estar elencado nessa minha lista de perturbações.

Boa leitura.

“A lição de anatomia do Dr. Frederik Ruysch” (1714), de Jan van Neck

Um corpo não passa de um aglomerado de órgãos, músculos e sangue impulsionados por um espírito. Por favor, esqueçam o horror enquanto presenciam a curiosidade quase sádica dos homens ao redor da mesa, para quem o cadáver da criança é um mero objeto de estudo, e nada mais. Eles não pensam na vida que animava esse corpo ainda fresco até alguns minutos atrás, não pensam no ronco de esperança que brotou dos pulmões e, em seguida, desapareceu, não pensam no aspecto lívido da pele que esperávamos rosada, macia, tenra, e agora tem o tom marmóreo da ausência, não pensam no choro da mãe ou nos soluços do pai a ecoar pelo corredor vazio. A ciência não pode se dar ao luxo de ter piedade. Ignoram o olhar espantado do menino que segura o esqueleto do bebê; ele não consegue entender que sentimentos atrapalham o progresso e que os homens reunidos naquela sala, que dissecam o cadáver como se estivessem olhando uma borboleta morta, fazem aquilo pelo bem de todos. Somente quem se afasta da Humanidade é capaz de desvendar o humano. Mesmo assim, por maior o nosso desejo de frieza, impossível não olhar o cadáver diminuto estendido sobre a mesa e pensar em tudo aquilo que ele deixou de viver, em todas as sensações que não teve tempo de sentir, em todos os sorvetes que não comerá, em todos os sorrisos que não dará, em todos os beijos que lhe serão negados, enquanto a curiosa pinça esgravateia o corpo sem defesas e a placenta jaz sobre a mesa, morta. Pior do que morrer é nem ter a chance de ter vivido.

Texto originalmente publicado no link https://artrianon.com/2017/10/22/obras-inquietas-47-a-licao-de-anatomia-do-dr-frederik-ruysch-1714-jan-van-neck/

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Obras Inquietas. 46 – “O homem em queda” (2014), James Wedge

Nessa semana, na minha coluna no “Obras Inquietas”, eu tratei de uma pintura de James Wedge chamada “O homem em queda”. A postura do homem em queda infinita e para sempre não-concretizada lembra uma fotografia icônica do século XXI, também chamada “O homem em queda”, de Richard Drew, que mostra um homem despencando para a morte após o atentado nas Torres Gêmeas nos Estados Unidos, em 2001.

Existe algo de terrível e de poético na forma com que o corpo se entrega à inevitabilidade da queda, desfazendo-se enquanto mergulha na direção de algo que não sabemos.

Boa leitura.

“O homem em queda” (2014), de James Wedge

 

Ninguém sabe precisar o momento – ninguém sobreviveu o suficiente para contar – mas existe um instante, um segundo talvez (um segundo no meio da eternidade da queda possui todos os tempos do mundo no seu interior), em que a barreira do corpo cede ao fascínio de despencar no abismo e o que era carne vira vento, o que era osso vira graveto, o que era sangue vira medo. Nesse fugaz momento, impregnado de delírio e de horror, o espírito perde as comportas que lhe confinavam no interior de pele e músculo e sente, pela primeira vez, as responsabilidades de ser livre. Nunca ficamos tão próximos de algum Deus quanto agora, o segundo em que perdemos os limites. Suspenso em uma queda que nunca será concretizada, o homem persiste caindo agora e para todo o sempre, desfazendo-se como poeira que volta a encontrar o seu destino, como deserto ondulando em dunas instáveis. O desconhecido – será um de nós? Será alguém que amamos? Será aquele para quem não estendemos a mão na hora certa, ou para quem faltou a palavra que poderia ter sido a âncora salvadora? – atravessa o vazio e se identifica com ele, lutando para manter uma coesão que, em breve, será destruída pelo concreto da realidade. Existe algo de conformismo no homem em queda; podemos escutar o grito que ele não solta ou imaginar os pensamentos que se destroçam na sua consciência esperando a chegada do fundo, do chão, do local em que a morte lhe espera sem ansiedade, enquanto olha para cima e vê o céu tão azul conspurcado por uma sombra que corre em sua direção.

Texto originalmente publicado no link https://artrianon.com/2017/10/01/obras-inquietas-46-o-homem-em-queda-2014-james-wedge/

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