Arquivo do mês: fevereiro 2016

Texto publicado no Literatortura (2/02/2016): “O que leem os políticos?”

Na minha coluna dessa semana no Literatortura, tratei de um assunto que está me causando perplexidade: o que leem os nossos políticos? Será que leem algo? Uma breve pesquisa sobre o tema e descobri que os americanos são muito preocupados com esse assunto, o qual inclusive é objeto de curiosidade nacional, enquanto que, no Brasil, nossa indigência cultural se revela no triste fato de que não perguntamos o que os políticos estão lendo por que não nos interessa. Nem mesmo a imprensa, tão vigilante em tantos assuntos, possui este tipo de curiosidade.

Mas eu sou um utópico, tanto que ouso sugerir um novo tipo de critério para analisar candidatos: o literário. Não vai dar em nada, claro, antevejo os sorrisinhos de escárnio e as risadas debochadas, mas, do jeito que está, pelo menos é um critério que entendo válido.

Boa leitura.

 

O que leem os políticos?

Não sou a pessoa que mais assiste programas de televisão, nem tanto por uma questão de princípios, mas por motivos de falta de tempo e por achar todos os programas desprovidos de originalidade, algo que, em geral, me causa sono. Ainda assim, na semana passada, acompanhando sem querer a escolha dos candidatos a presidente nos Estados Unidos, acabei assistindo na CNN a um programa dedicado a analisar as obras atualmente lidas pelos candidatos democratas e republicanos. Pena que era um analista político quem tentava “entender” os candidatos através das suas leituras; consideraria mais apropriado um especialista em literatura.

Ainda assim, impressionei-me com o nível de leituras dos candidatos. Donald Trump disse ler “Moby Dick”, de Herman Melville; se está entendendo ou aquilo que está captando da leitura, aí é outra história. Hillary Clinton encontra-se relendo “Mulherzinhas”, de Louisa May Alcott, mas declarou a sua admiração por “A cor púrpura”, de Alice Walker, livros que, de certa forma, se relacionam com as lutas femininas. Ainda assim, achei Trump mais corajoso por admitir – ou talvez mentir – a leitura de uma obra portentosa. Na minha opinião, Hillary Clinton jogou para cair nas graças do público, ficando dentro da zona de conforto do seu eleitorado.

Tal programa me levou a investigar as leituras dos demais presidentes americanos. Existem muitas reportagens e artigos escritos sobre este assunto. Podemos entender muito da personalidade de alguém analisando as suas leituras e, quando se trata de ver aquilo que os outros pensam, não existe maneira melhor do que observar os seus hábitos de leitura.

Por exemplo, George Washington, fã da primeira escritora negra que lançou um livro de poemas nos Estados Unidos. Phillis Wheatley era uma ex-escrava que tinha recebido educação formal, e escreveu um poema em homenagem ao presidente americano. Ao lê-lo, Washington enviou uma carta para a poeta, declarando admiração pelos “seus grandes talentos poéticos” e dizendo para Wheatley que, se algum dia estivesse passando por Cambridge, em Massachussets, seria uma honra recebê-la para uma visita, ou, nas suas palavras, “eu ficaria muito feliz em ver uma pessoa tão favorecida pelas Musas”.

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Phillis Wheatley

Quanto a Abraham Lincoln, era um grande admirador de Robert Burns, ao ponto de saber várias das suas poesias de cor. Em certa ocasião, Lincoln foi convidado a fazer um discurso em homenagem ao escritor predileto. Declinou de tal honra, enviando uma carta: “Eu não posso fazer um discurso em honra a Burns. Não posso dizer nada que seja merecedor do coração generoso dele e do seu gênio transcendente. Pensando no que ele disse, percebo que não há nada a dizer que valha a pena ser dito”. Um poeta cuja obra é capaz de tirar as palavras sempre fecundas de um político – eis uma criatura a ser temida.

Thomas Jefferson também possui uma história curiosa com o seu escritor predileto. Durante viagem aos Estados Unidos, o poeta irlandês Thomas Moore foi apresentado para Jefferson, e as impressões do poeta foram altamente desfavoráveis, pois confessou, em carta escrita para a sua mãe, que o americano lhe tratou com “incivilidade pontual” e “hostilidade selvagem”. Em outras ocasiões, o irlandês também se referiu pejorativamente ao homem que outrora conhecera. Anos depois, quando Jefferson leu a poesia de Moore, declarou “Nossa, esse é o pequeno homem que me satirizou tanto! Nossa, ele é um poeta mesmo, apesar de tudo!”. Pelo resto da sua vida, o presidente americano admirou os poemas de Moore, apesar do contato pessoal entre ambos não ter sido tão favorável.

Thomas Moore

Thomas Moore

Analisando-se as leituras dos demais presidentes americanos, percebe-se uma grande inclinação por poesia. Os mandatários mais atuais têm optado pela prosa, como é o caso de Barack Obama e a sua predileção explícita pela obra “A canção de Salomão”, de Toni Morrison. Obama também é um leitor profícuo: as suas listas de leituras de férias sempre percorrem a mídia tão logo são divulgadas, e é frequente ele citar as obras que leu nas suas conversas, ou seja, não pratica uma leitura descompromissada.

Grande parte do meu interesse pelas leituras dos políticos partiu de uma constatação pessoal: não existe maneira melhor de analisar alguém do que saber aquilo que ele leu. A pessoa consegue esconder tudo a respeito da sua personalidade, ficando atrás de máscaras sociais (ou, no caso dos políticos, dos marqueteiros), mas, quando se trata de leitura, não existe meio termo – ou leu ou não leu. Sou o tipo de homem que, ao entrar na casa de alguém, tenta traçar um perfil psicológico analisando as obras que estão lá, a forma com que as prateleiras foram organizadas, a sua disposição em relação ao resto da casa e mesmo as predileções e idiossincrasias dos proprietários dos livros. Até a inexistência de prateleiras ou de livros diz muita coisa. Até hoje, tal tipo de observação não me decepcionou e se, às vezes, pareço antecipar o futuro, não é por uma questão de sorte, mas meramente por entender a mensagem subjacente que se esconde por trás dos livros de outrem. Quem lê livros também sabe ler seres humanos.

O passo natural seguinte era buscar as leituras dos políticos brasileiros e, então, deparei-me com um silêncio absoluto. Existiam, contudo, notícias ocasionais. Quatro anos atrás, um jornalista descreveu os hábitos de leitura dos políticos de Goiás, que oscilavam entre Maquiavel e Paulo Coelho, mas passando pela Bíblia (alguns políticos se orgulhavam de ler somente ela), por Chico Buarque e por muitas biografias de esportistas. Detalhe assustador foram os quatro parlamentares que disseram não ter lido nenhum livro importante para a sua formação. No entanto, era possível ver claramente quem foi sincero e quem jogou com o clichê, como a parlamentar do PC do B que disse ter como leitura predileta “O Capital”, de Karl Marx, uma forma de propagandear a sua ideologia. A ingenuidade de outros políticos ficou patente, como os parlamentares que disseram desconhecer e mesmo não gostar da literatura goiana, Estado que tem, nas suas hostes literárias, nomes como Bernardo Élis, José J. Veiga e Cora Coralina. É aceitável que alguém não goste da literatura de determinado lugar, mas o desconhecimento sobre ela também é inquietante.

Cora Coralina

Cora Coralina

No que diz respeito ao panorama nacional, uma breve notícia, ainda da época da primeira campanha eleitoral de Dilma Rousseff, informava que o seu livro predileto era “Grande Sertão: Veredas”, de Guimarães Rosa, sobre o qual declarou “acho inigualável”. Ainda assim, como lembra a reportagem inclusive mostrando o vídeo, em outra ocasião, quando questionada sobre o seu livro preferido, Dilma Rousseff não soube responder e se confundiu por completo. Entendo tal confusão, pois já estive em situação análoga, no meio de um evento repleto de pessoas, e, ao ser indagado sobre o mesmo assunto, percebi que esquecera subitamente todos os meus livros favoritos. Não é uma pergunta fácil de ser respondida assim, de chofre. Ainda na mesma época da eleição, José Serra declarou ser admirador inconteste de “Crime e castigo”, de Dostoiévski, e de Machado de Assis. Outra resposta sem riscos, estilo a proferida por Hillary Clinton, que visa a agradar gregos e troianos.

Chamem-me de utópico, mas acredito que as campanhas eleitorais seriam muito mais interessantes se, ao invés de escutar dezenas de esperanças, de promessas vazias e de números distorcidos, falássemos sobre as obras literárias preferidas de cada candidato. É evidente que qualquer candidato de sã consciência vai defender sempre as mesmas variáveis: mais segurança, mais saúde, mais emprego. Saber o que alguém pensa do Capitão Rodrigo, de “O Tempo e o Vento”, do Érico Veríssimo, me parece mais significativo do que um clichê qualquer sobre investimentos em segurança. Perscrutar o que alguém acha de Macabéa, de “A Hora da Estrela”, da Clarice Lispector, é mais revelador do que cem frases feitas por algum marqueteiro.

Torna-se claro que este tipo de investigação desnudaria muitas pessoas que imaginamos inteligentes, mas os não leitores ávidos são capazes de gostar de uma boa história, e é nela que encontraremos a sua essência. Nos tempos atuais, tornou-se lugar comum chamar de elitista toda a pessoa que busca o conhecimento, mas qualquer forma de expressão artística – entre elas a literatura – mostra muito sobre como uma pessoa se posiciona diante dos seus semelhantes, se cruel ou benéfico, se aberto ao diálogo ou intransigente. Acaso a outra pessoa não queira mostrar suas leituras (eu entendo, é algo íntimo e revelador demais), que diga a sua opinião sobre um quadro ou sobre uma música.

Como não temos acesso ao que verdadeiramente pensa um político, e qual a sua visão de mundo, a literatura é uma chave para compreensão do humano, assim como qualquer expressão artística. Não é minha intenção dizer que planos e projetos para qualquer localidade não são importantes, mas conhecer bem as pessoas é uma forma de saber para onde elas pretendem nos direcionar.

Diante do voyeurismo com que a mídia americana aborda as leituras dos seus presidentes, percebi que o nosso problema talvez não sejam as respostas, que mostrariam a verdade sobre muitos políticos, mas a absoluta incapacidade da mídia local de realizar as perguntas que realmente importam, protegendo-se sempre atrás do “óbvio ululante”, para usar outra expressão que adoram. Não mostraríamos a falta de cultura básica dos políticos, mas sim a dos repórteres. É uma pena que tenhamos que nos sujeitar a esta visão míope, em que os entrevistadores fazem perguntas clichês esperando as mesmas respostas evidentes. Diga-me o que estás lendo e te direi quem és, mas, se ninguém perguntar, estaremos sempre condenados a votar no candidato que melhor se encaixar no estereótipo de “salvador da pátria”. Uma dica, contudo: jamais votem em quem disser que seu personagem favorito é Aquiles. Há grande perigo aí.

Texto originalmente publicado em http://literatortura.com/2016/02/o-que-leem-os-politicos/

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Texto publicado na revista eletrônica da Dublinense (23/02/2016): “A melancolia das obras que jamais conheceremos”

Na minha coluna dessa semana no Medium da Dublinense, eu escrevi sobre as obras que nunca conheceremos, mas me detive na análise do maior pintor de todos os tempos – cujas pinturas só chegaram até nós através de relatos – e em livros que foram somente imaginados, e jamais escritos.

Boa leitura!

A melancolia das obras que jamais conheceremos

Existe uma relativa melancolia em saber que, não interessa quanta energia tenhamos ou quanto dinheiro venhamos a possuir, muitas coisas jamais veremos, e isso vai desde um por do sol em Madagascar até a sombra de uma estrela cadente cortando a aurora boreal. Cada dia que passa, uma imensidão de sensações e de experiências são jogadas fora. No entanto, se escolhemos ter esta vida ao invés de outra, é por que – nos consolamos em silêncio – as possibilidades poderiam ser piores ou menos confortáveis. É a mesma hipótese de ser assaltado nos tempos atuais: “ufa, que bom que não aconteceu nada mais grave”, como se um assalto não fosse suficientemente grave. Nós nos consolamos com as perdas diárias que sofremos, até o momento em que perdemos tudo de vez. Ficamos até contentes em sermos “somente” assaltados se continuamos vivos. A vida é um constante perder coisas – e uma infindável tentativa de se ajustar ao mundo que nos foi imposto.

"Melancolia", de Edvard Munch

“Melancolia”, de Edvard Munch

A esta altura do campeonato, podemos dizer que, infelizmente, nunca conheceremos as obras do maior artista de todos os tempos. Boa parte da Antiguidade clássica afirmava que existiam artistas e, além deles, existia Apeles de Cós, colocando-o em um patamar inacessível aos demais mortais. Não são poucos os relatos e histórias que chegaram até nós sobre as obras deste pintor, mas nenhum deles foi tão acurado quanto o feito por Plínio o Velho no seu “História Natural”.
Tão importante foi Apeles na sua época de vida que Alexandre o Grande o incluiu na sua comitiva, transformando-lhe no seu artista oficial. Uma das muitas histórias que formam a lenda de Apeles conta que, em certa ocasião, ele participou de um concurso artístico tendo por objeto a representação de cavalos. Ao perceber que os demais artistas estavam manipulando os juízes, Apeles pediu para que um cavalo entrasse no salão onde eram exibidos os quadros. O cavalo passou pelas obras e, ao chegar diante do desenho feito pelo artista, relinchou alegremente ao reconhecer-se – ou ver o semblante de um amigo – nele. O pintor ganhou o concurso graças ao cavalo com noções estéticas.
Além disso, Apeles de Cós granjeou a admiração de pessoas tão diferentes quanto Ovídio, Petrônio e Estrabão. Os relatos sobre a sua obra dão conta que o último quadro sobrevivente, “Afrodite Anadiômene”, morreu em chamas quando Nero e Tigelino incendiaram Roma. Como o quadro estava dentro do palácio de Nero e, em seguida, repousava em meio às chamas que consumiam os subúrbios romanos, é possível incluir Apeles de Cós na longa lista de assassinatos cometidos pelo Imperador. Antes disso, o quadro feito em conjunto pelos pintores Apeles e Protógenes morreu dentro do palácio de Júlio César, também queimado, em um incidente que nunca ficou bem esclarecido, e a circunstância do mesmo pintor ligar dois imperadores romanos por intermédio do fogo diz muito a respeito dele.

De Jacques-Louis David, "Apeles pintando Campaspe na presença de Alexandre o Grande"

De Jacques-Louis David, “Apeles pintando Campaspe na presença de Alexandre o Grande”

Apeles dominava a ingrata arte da linha. Para ele, o traçado de uma linha era o suficiente para conter a obra inteira. Ser capaz de transmitir a intensidade de qualquer coisa por intermédio do desenho de uma linha era uma característica que o destacava de qualquer outro artista. Basta imaginarmos o extraordinário poder de síntese de um pintor que pode fazer um traço com a forma que bem desejar. Dizer o máximo com o mínimo é a maior de todas as artes.
Uma história famosa envolvendo Apeles de Cós aconteceu quando uma tempestade o levou até Alexandria. O bobo da corte, pretextando lhe enganar, convidou-o para uma festa reservada nos aposentos de Ptolomeu, que não gostava de Alexandre o Grande e, na época, governava o Egito. Quando chegou lá, o rei, temido pelos seus ataques repentinos de fúria, exigiu que Apeles lhe contasse quem o convidara para a festa sem autorização. O pintor pegou um carvão apagado dentro da lareira e desenhou, na parede, uma simples linha. Não tinha chegado ao seu fim e o rei já reconhecera o semblante do bobo da corte.
Outra história muito conhecida é o insólito duelo travado entre Apeles e Protógenes, considerado um excelente pintor. Certa feita, Apeles viajou até Rodes para conhecer o homem de quem tanto falavam. Ao chegar ao seu estúdio, não lhe encontrou, mas um cavalete ostentando a tela ainda em branco. Quando a criada perguntou qual era o seu nome para dizer ao amo, Apeles desenhou uma linha no quadro e disse “este”, pedindo-lhe para que mostrasse para Protógenes.
Quando o rodesiano chegou ao seu estúdio, a criada contou o acontecido e, ao olhar a sutileza trêmula da linha, no mesmo momento ele identificou Apeles de Cós, pois nenhum outro seria capaz de traçado tão perfeito. Então, desenhou uma outra linha sobre a outrora feita, dizendo para a criada que, se o homem aparecesse, era para lhe perguntar se era o homem naquele pintura a quem estava procurando. No dia seguinte, ao voltar no estúdio, Apeles recebeu o recado e enrubesceu ao perceber que fora reconhecido. Cortou as linhas com uma cor diferente, sem deixar espaço para um traçado mais fino, e foi embora da cidade. Quando Protógenes viu o desenho, reconheceu a sua derrota e correu até o porto, onde conseguiu encontrar Apeles. Decidiu, ainda, que a tela onde as linhas foram pintadas seriam preservadas para a posteridade, e assim foi, tanto que o quadro tornou-se objeto de especial veneração pelos artistas que o contemplavam. Essa foi a obra que morreu queimada no palácio de Júlio César.
Entre todos os detalhes que Plínio o Velho destaca sobre Apeles de Cós, nenhum é mais significativo do que a sua visão sobre uma obra de arte bem feita. Para Apeles, não seria aquela que melhor expressasse a realidade, mas a obra capaz de possuir a maior graça, um atributo que só poderíamos alcançar através do estudo exaustivo da técnica. Escreve Plínio o Velho:
“Excepcional em sua arte era a graciosidade, em uma época de excelentes pintores. Embora admirasse a arte destes, elogiando muito a todos, dizia que lhes faltava aquela espécie de encanto seu, o que os gregos chamam kháris [graça]; tinham alcançado todo o resto, mas, naquilo apenas, ninguém estava à sua altura. E reclamou para si uma outra glória ao admirar a obra de Protógenes, imensamente laboriosa e excessivamente meticulosa; disse, de fato, que em tudo estava à altura daquele ou aquele era melhor, mas que lhe era superior apenas nisto: sabia quando tirar as mãos do quadro, preceito memorável: é danoso, muitas vezes, o excesso de zelo.”
É um preceito prudente até os dias atuais – tudo em excesso soa artificial, opulento, um tanto ridículo. Quando leio livros em que o autor está visivelmente “enrolando” para aumentar o suspense, sempre recordo da frase pejorativa com que o Imperador da Áustria comenta uma sinfonia de Mozart em “Amadeus”: “And there are simply too many notes, that’s all. Just cut a few and it will be perfect.” Se a pessoa precisa de muitas notas para dizer o que pretende, algo está errado aí – com exceção, claro, de Mozart, mas nem todos nós somos Mozart.

Sandro Botticelli tentou reproduzir Apeles, mas considerou o resultado um fracasso, chamando o quadro de Calúnia

Sandro Botticelli tentou reproduzir Apeles, mas considerou o resultado um fracasso, chamando o quadro de Calúnia

Se hoje me sinto melancólico por saber que nunca contemplaremos um quadro de Apeles de Cós, cuja obra foi sepultada pela passagem dos anos e pela inveja de homens pequenos, também me causa indizível tristeza pensar nos livros que nunca leremos.
Existem muitos exemplos na literatura. Jamais leremos as obras escritas por Sherlock Holmes, de Conan Doyle, nas quais ele explana o seu espírito dedutivo, com títulos instigantes como “A arte da investigação”, “Sobre as diferenças das cinzas do tabaco”, “Sobre a escrita enigmática” e “A utilidade dos cães no trabalho do detetive”. Nunca leremos o Necronomicon, livro maldito escrito por Abdul Al-Hazred de acordo com H. P. Lovecraft – mas, neste caso, ainda bem, senão acabaríamos com o Universo e despertaríamos os Old Ones. Em compensação, ainda bem que nossos olhos foram poupados das obras listadas por Rabelais em “Gargantua e Pantagruel” na Biblioteca de St. Victor, a “primeira e única biblioteca imaginária da Europa”, conforme colocado no capítulo VII: não sei se o mundo seria um local melhor se pudéssemos ler “Ars honeste petandi in societate” (em uma tradução livre, “A arte honesta de soltar puns em sociedade”), “The practice of iniquity” (“A prática da iniquidade”), “De modo cacandi” (novamente em tradução livre, e com respeito aos meus leitores, “As formas de defecar”) e “Campi clysteriorum per paragraph” (“Como colocar supositórios, por parágrafos”, em tradução livre).
No entanto, a melhor lista de livros que nunca leremos foi providenciada por John Donne, mais conhecido por suas poesias e pela obra “Meditações”. Na semana passada, chegou aos meus olhos (veio por via digital, através de “amigos do alheio literários”, para ficar em um eufemismo) uma cópia de “The courtier’s library, or, Catalogus librorum aulicorum incomparabilium et non vendibilium”, escrito por John Donne. É um livro caríssimo – o exemplar físico custa mais de 100 libras – e as versões digitais não são, digamos, autorizadas.
Nesta obra, escrita entre 1603 e 1611, mas publicada somente em 1650, Donne faz uma lista de 34 obras imaginárias que teriam sido escritas por outros autores. Exercendo ao máximo a sátira, mas ainda assim sendo sutil, o escritor inglês faz resumos de obras que não existem no nosso mundo e que, portanto, jamais leremos. Aproveita, ainda, para cravar facas de ironia por toda a produção literária do período na Inglaterra e nos seus colegas escritores. Entre as obras imaginárias, estão “On shortening the Lord’s prayer”, de Martinho Lutero, “Hercules, or the method of purging Noah’s Ark of excrement”, de John Harington, “The imitator of Moses – the art of preserving clothes beyond forty years”, de Topcliffe, “On the diametrical current through the Center from pole to pole, navigate without a compass”, de André Thevet, “One book on false knights”, por Edward Prinne (“slightly enlarged by Edward Chute”) e “On the privileges of the Parliament”, pretensamente escrito por Richard Tarleton, um famoso palhaço da época. Também possui uma interessante análise de como se poderia retirar a partícula “não” dos Dez Mandamentos.
John Donne era um defensor incansável da leitura e da troca de experiências literárias. Em uma carta incluída no mesmo volume, ele afirma “o conhecimento enterrado em livros perece e torna-se ineficaz se não for constantemente aplicado e refrescado pela companhia ou por algum amigo que permite que ele venha ao exterior de si. Esse processo de troca vivifica o conhecimento. Após o seu recebimento, as cartas dos nossos amigos são colocadas em uma caixa em nosso gabinete, ou em uma prateleira da nossa biblioteca”. Ao criar um catálogo de obras inexistentes, Donne conseguiu fazer a mais vibrante troca de ideias sobre livros que podem existir: aqueles que ainda não existem, mas podem ser criados por qualquer alma de boa vontade e um pouco de empenho.
Nunca veremos as obras de Apeles de Cós, nunca leremos os livros imaginados por John Donne. Podemos sonhar com a perfeição ou o conteúdo delas, e é nisto que reside a única força capaz de dobrar o Tempo: a capacidade de criar, dentro da cabeça, a nossa galeria particular de obras sonhadas ou visitar a biblioteca imaginária com os livros que nunca chegaram a existir. Dessa maneira, preenche-se uma das funções mais interessantes da arte: não se exibir para olhos afoitos, mas permitir, por meio do inconformismo e do sonho, que qualquer pessoa chegue na sua própria experiência artística.

 

(Texto original no link https://medium.com/colecao-dublinense/a-melancolia-das-obras-que-jamais-conheceremos-a819cfe156e7#.n257ag9mt )

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Texto publicado na revista eletrônica da Dublinense (16/02/2016): “O dia em que me quebraram ao meio”

Na coluna que escrevi para a revista eletrônica da Dublinense nesta semana, falei de um assunto que me gera constante perplexidade: as pessoas que conseguem dizer que algo – ou alguém – é o melhor do mundo. Todas as pessoas tem um momento da vida em que descobrem alguém que lhes supera. No meu caso, descobri, e foi da pior forma possível.

Boa leitura!

O dia em que me quebraram ao meio

Às vezes, quando estou especialmente confiante, eu recordo de Louis Marchand, organista francês de renome, e sinto o mesmo efeito de um balde de água fria percorrer as minhas até então inabaláveis certezas. Consta que, em 1717, em Dresden, um grupo de aristocratas apostou quem seria o melhor organista do mundo e chegaram a dois nomes. Um deles era Louis Marchand. Na véspera do grande embate, disfarçado, Marchand foi assistir a um ensaio do seu concorrente. No dia seguinte, sem nenhuma explicação, ele fugiu de Dresden. Atualmente, podemos entender o motivo de tal pânico, pois o adversário do músico francês era ninguém menos do que Johann Sebastian Bach. Impossível não imaginar o que passou pela cabeça de Marchand olhando o ensaio de Bach e percebendo que o seu melhor não chegava aos pés do outro. Mais prudente uma fuga precipitada do que reconhecer em público que, ao contrário de Bach, ele era um reles ser humano, não um artista completo.

Sempre existe alguém melhor do que nós. O fato de ainda não termos encontrado dita pessoa não quer dizer que ela não exista, e esteja esperando para aparecer no pior momento, aquele em que estivermos mais fragilizados.

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Aconteceu comigo, há questão de dois anos. Estava palestrando sobre literatura de terror para crianças de uma escola da zona rural de um município do Rio Grande do Sul. Chovia muito naquela manhã, e eu estava no ginásio de esportes, com os pingos de chuva destroçando o zinco do telhado. Estava quase impossível para que eu próprio me escutasse, e o microfone não estava ajudando muito. Neste cenário improvável, ao final da palestra, como sempre fazia, abri espaço para as crianças contarem as suas histórias de terror. Uma menina (jamais esquecerei o seu rosto) pediu para que eu contasse uma história minha e – não sei direito o que aconteceu, talvez tenha sido o momento, ou o clima, ou a distração com o microfone e seu fio curto, ou a balbúrdia da chuva – eu tranquei. Não conseguia pensar em nenhuma história. Um grande vazio se apossou da minha cabeça.

Existe um momento na vida em que toda pessoa diz “isso nunca me aconteceu antes”, e este foi o meu. Eu gaguejei, caminhei de um lado para o outro, tentei duas ou três vezes, e nada. Dezenas de crianças esperavam a história do palestrante, a insatisfação e a descrença se avolumando ao meu redor. Foi quando a própria menina me salvou: “tio, posso contar uma?” Estendi o microfone para ela e a menina não conta uma história, mas me larga um petardo ficcional, um uppercut de criatividade, falando sobre o dia em que abriu a porta da sua casa e viu uma criatura sombria saindo correndo do galinheiro, de como os vizinhos se armaram e foram atrás daquele ser, de como o encurralaram e acabaram descobrindo que era o filho de uma mulher que fora deixado para morrer no meio do mato e que, agora, gostava de invadir quartos para ver o sono tranquilo das outras crianças. Uma impressionante mistura de “Frankenstein”, da Mary Shelley, de “A Ilha do Doutor Moureau”, do Wells, de “Peter Pan”, do Barrie, e do conto “O Horla”, de Maupassant. A forma com que ela contou foi tão intensa que até eu acreditei no que estava falando (a menina jurava que testemunhara tudo, e este truque antigo de verossimilhança tornou a história real).

Quando terminou, eu agradeci a história e pedi uma salva de palmas. Neste momento, a única atitude sábia é pretextar controle, mas, no meu íntimo, sempre soube a verdade: aquela menina me quebrou ao meio. Se eu tivesse a oportunidade de, assim como Marchand, assistir ao ensaio e ter noção do que iria acontecer, é possível que tentasse escapar da cidade, do Estado, do mundo, mas fiquei e tive que engolir em seco o momento em que alguém me superou ao natural, sem sequer fazer esforço. Alguém de roupa da Minnie e de atilho no cabelo.

Se hoje confesso tal fato, é com humildade. Tenho plena noção de que existem pessoas que podem nos superar, nos momentos mais inesperados, e nos deixar com caras de principiantes. Por tal motivo, considero no mínimo estranho esta necessidade que muitos possuem de catalogar os bons e os ruins de uma determinada época ou período histórico. É uma noção própria da contemporaneidade: a certeza de que podemos separar o joio do trigo ao mesmo tempo em que o saco de trigo está sendo enchido, sem o necessário tempo de reflexão.

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É equivocada a noção de que alguém pode ser bom em tudo aquilo que faz, e de manter a regularidade na sua produção. O que existe são pessoas que, em um determinado momento, conseguiram atingir a excelência diante dos seus pares. Impossível dizer com precisão que alguém é o melhor escritor ou artista ou engenheiro ou arquiteto quando tudo pode ser uma questão de tal pessoa não ter encontrado o oponente certo na sua época. Neste contexto, ao invés de pensarmos “Fulano é o melhor da sua geração”, o mais adequado seria refletirmos “Fulano fez algo bom, mas existem pessoas que não conhecemos que podem estar fazendo melhor”. Se a menina não tivesse levantado a mão, eu nunca teria confrontado a verdade de que, mesmo andando em território conhecido, posso saber nada. Se Marchand não tivesse ido assistir ao ensaio, nunca reconheceria que Bach era muito melhor.

Mas faz parte da nossa ansiedade, imaginar que podemos ser os primeiros a reconhecer um gênio ainda anônimo caminhando entre nós. Tão angustiante é esta sensação que, em especial no mundo da arte, a cada semana nasce um “gênio”. Neste exercício de futurologia, consideramos gênios todo mundo, e deixamos o Tempo separar os acertos dos erros.

Sobre tal atitude, Dostoiévski conta uma anedota muito peculiar. Após concluir “Gente pobre”, um de seus primeiros romances, ele deu uma cópia para Grigorovitch, que a emprestou para o poeta Nekrassov. Os dois leram a obra juntos, em voz alta, e se sentiram maravilhados. Tamanho foi o fascínio de ambos que, às quatro horas da manhã, resolveram procurar o escritor russo e dizer que o seu romance era uma obra prima. Alguns dias depois, Nekrassov emprestou a cópia para o crítico Bielinski, anunciando “Um novo Gogol apareceu na Rússia!”. Na mesma hora, Bielinski replicou “Ora, para você, os Gogol nascem como cogumelos!”. Algum tempo depois, o crítico acabou reconhecendo que o romance era excelente, mas o fato de Dostoiévski recordar desta história demonstra uma grande realidade: estamos toda hora tentando achar gênios como Gogol, pensando que eles nascem como cogumelos, mas, na verdade, gênios são raros.

Talvez o maior problema de tentar encontrar gigantes seja a capacidade de pessoas não tão geniais tentarem replicá-los. Eis outro problema da contemporaneidade: por desconhecimento das fontes clássicas, consideram geniais e inovadores meras cópias malfeitas de procedimentos artísticos, e isso nos leva à massificação de pensamentos que impede o surgimento do novo. Pior ainda – pregam que aquilo é o futuro, jactando-se da sua capacidade de antecipar as tendências, mas a arte não só já passou por aquele momento como o esgotou, esperando um redescobrimento, não uma repetição chata.

Qualquer pessoa pode colocar um copo debaixo de uma cachoeira e dizer que aquela água no copo é a melhor que já caiu, mas, e toda a outra água que escapou durante a queda? A única maneira de dizer que algo é representativo é aumentando o tamanho do copo por meio do estudo constante e da observação, não fazendo declarações estéreis sobre o que é melhor para o mundo (momento em que a água contida em um dedal subitamente vira a mais límpida e deliciosa do universo).

Recordo aqui de Émile Zola. Em 1876, o escritor visitou o Salão Internacional de Pintura, que acontecia anualmente em Paris, reunindo as tendências mais modernas da arte então em voga. Em um artigo que escreveu para comentar tal visita, Zola inicia dizendo que, pelo terceiro ano consecutivo, os pintores impressionistas apresentaram a sua obra fora dos salões oficiais. Isto por que, diante das majoritárias tendências realistas na pintura, as obras impressionistas não eram bem recebidas, tanto que o próprio nome “impressionismo” era um deboche, apropriado pelos pintores de tal estilo para se diferenciarem dos demais. Zola tenta definir o impressionismo: “Penso que devemos entender por pintores impressionistas os pintores que pintam a realidade, e que se orgulham de representar a própria impressão da natureza, que eles não estudam em seus detalhes, mas em seu conjunto.” Em seguida, conclui “Daí uma pintura de impressão e não uma pintura de detalhes. Mas felizmente, além dessas teorias, há outra coisa no grupo; quero dizer que há verdadeiros pintores, dotados do maior mérito.”

Zola era capaz de reconhecer o mérito dos pintores impressionistas ao mesmo momento em que eles estavam apresentando as suas obras, tanto que ficou amigo de vários pintores (Manet e Cézanne) e usou da sua habilidade com as palavras para elogiá-los, defendendo publicamente o impressionismo.

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No entanto, em 1896, o escritor francês voltou a comentar os Salões Parisienses para o jornal Le Figaro. Vinte anos tinham se passado. Zola não era mais o mesmo, e nem os impressionistas. Agora, eles não estavam mais fora do Salão; ao contrário, tinham se tornado a maioria das obras apresentadas. O movimento, antes proscrito a alguns poucos artistas, subitamente se tornara a sensação. E, com ela, veio junto a decadência, o descaso, o desleixo, a cópia descuidada e barata dos princípios que eram puros, o que leva Zola a comentar:

“Mas o que redobra meu assombro é o fervor dos convertidos, o abuso da nota clara, que faz com que certas telas se pareçam com tecidos desbotados por uma lavagem excessiva. O que as novas religiões têm de terrível é que quando se misturam com a moda, elas ultrapassam todo bom-senso. E diante deste Salão lavado, tratado com cal, de uma brancura giz, insípida e desagradável, quase sinto saudade do Salão escuro, do Salão de betume de antigamente. Ele era escuro demais, mas este aqui é branco demais. A vida é mais variada, mais quente, mais flexível. E eu, que lutei tão violentamente pelo ar livre, pelas tonalidades loiras, sinto-me exasperado diante desta fila contínua de quadros exangues, de uma palidez de sonho, de uma anemia premeditada, e surpreendo-me desejando um artista de rudeza e trevas!”

O autor francês demonstra o seu desencanto com aquilo que ajudou a constituir como movimento estético. Considera que as ideias acabaram sendo deturpadas por copiadores que, sem entender direito aquilo que pregava o impressionismo, achavam que colocar qualquer mancha de qualquer cor sobre uma tela bastava para transformar a obra em algo impressionista. O excesso malfeito leva à destruição do ideal de perfeição buscado, e Zola encerra o seu artigo com uma nota de desespero ao perceber o que tinha feito:

“Desperto e estremeço. Então, na realidade, foi por isso que lutei? Foi por essa pintura clara, por essas manchas, por esses reflexos, por essa decomposição da luz? Meu Deus! Eu estava louco? Isso tudo é muito feio e me causa horror. Ah! Futilidade das discussões, inutilidade das fórmulas e das escolas! Eu deixei os dois Salões deste ano perguntando-me com angústia se minha antiga batalha teria sido nociva. […].”

A tentativa de revelar gigantes faz com que qualquer pessoa alta se identifique desta forma, mesmo sem ser gigante. Zola se decepcionou com o movimento impressionista por que, antes dele estar devidamente desenvolvido, o seu esforço em considerá-lo como o futuro da arte fez com que os ideais se deturpassem. Quando uma pessoa nos diz que existe alguém melhor do que todos os outros, está completamente errada, pois não tem como conhecer todos os outros. Pior ainda: periga sufocar uma voz original, que, na tentativa de copiar o modelo de excelência, acaba esquecendo a sua própria criatividade.

Portanto, o melhor é ser criativo e não pensar em ser o melhor para os outros, mas o melhor para si. Senão, é grande a possibilidade de que, em uma manhã ainda desconhecida, uma menina de não mais do que 12 anos levante na plateia e acabe com toda a sua presunção de conhecimento em longos (quiçá intermináveis) 3, 4 minutos. Podem acreditar – aconteceu comigo, e não foi uma experiência agradável. Ninguém sabe o dia em que, enfim, será batido e humilhado.

 

Texto originalmente publicado em https://medium.com/colecao-dublinense/o-dia-em-que-me-quebraram-ao-meio-a0c92decd526#.nu48kynx6

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Se não tiver fatos, use o lirismo

No domingo passado, em conversa com os meus pais, eles perguntaram se tinha realmente acontecido um fato que narrei no Facebook. Transcrevo aqui:

“Resumo breve da história: na minha rua, um cara tentou incendiar um ônibus. Os passageiros impediram e bateram nele. A polícia chegou e o salvou. Ele foi preso. Fim da história.
Algumas considerações:
– quando o cara anunciou a sua intenção, o motorista e o cobrador saíram correndo do ônibus. Foram bem ligeiros. Então, se algum dia motorista e cobrador saírem correndo do nada, tem alguma coisa errada acontecendo;
– não sei o que o cara pensou, mas, se não pretendia se imolar, foi o pior plano de assalto que já vi;
– não se tenta ser engraçadinho ou ter planos ousados em um ônibus cheio de gente com camisas de banda de heavy metal. Simplesmente, não;
– a polícia agiu de forma muito controlada e ordeira. Como advogado, eu esperava alguns excessos, um abuso de poder básico, uma ofensinha aos direitos humanos aqui e acolá, um tapa desnecessário, estas coisas, e não. Chegaram, separaram, acalmaram e ainda disseram para o cara que ele devia ter muita vergonha do que tinha feito. Além de apanhar e ser preso, levou uma baita lição de moral;
– a cereja do bolo da história: o cara não carregava combustível consigo. Em determinado momento da refrega, o pessoal que batia nele entrou numa paranoia de que o bandido tinha um cúmplice dentro do ônibus, e este sim carregava o combustível. A polícia foi investigar essa possibilidade e, surpresa surpresa, achou um outro rapaz com o combustível. O mais espantoso era que o cara também tinha ajudado a surrar o seu comparsa. Era inclusive um dos mais entusiasmados, dos que mais chutava e dos que mais gritava “vamu taca fogo nele!” (o que explica tudo, alias, se tivéssemos sido mais atentos, teríamos visto). Sem saber, provando que a vida imita a literatura, o cara usou a estratégia que Edgar Alan Poe descreveu em “A carta roubada” – o lugar menos esperado para se achar algo é o lugar óbvio. O comparsa que tenta se mimetizar com a urbe linchadora… esse sim foi um bom plano.”

É evidente que sim. Os fatos aconteceram como descrevi. Poupei as pessoas de alguns detalhes enfadonhos, como os chutes fortíssimos que deram nas costas do bandido (e que só podiam ter como objetivo quebrar a sua coluna, mas sem sucesso) ou o rastro de sangue deixado quando os policiais arrastaram-no até o camburão e o levantaram. Ou, ainda, o rapaz de cabelos compridos e camisa do Megadeth que, alterado pela bebida, deu um “peitaço” em um dos policiais, cuja única reação foi erguer uma espingarda quase do tamanho da sua perna, e perguntar “Meu, sério mesmo que tu quer fazer isso? SÉRIO MESMO?, e o cara se aquietou.

Poderia ter acontecido, mas não aconteceu.

Poderia ter acontecido, mas não aconteceu.

Começamos a conversar sobre como duas ou mais pessoas podem olhar o mesmo fato e serem capazes de chegar a narrativas diferentes. Ao final, concluí que o importante não é o que se conta, mas o jeito que se conta algo.

Podia ver, nas demais janelas e sacadas da rua, mais gente acompanhando a mesma cena que testemunhei. No entanto, somente eu descreveria da forma que fiz. Outro homem ou mulher tentaria um tipo alternativo de abordagem, talvez alguém se solidarizasse com as vítimas, outro atacasse os policiais, e ainda existiriam aqueles capazes de chegar a conclusões sociológicas sobre a mesma sucessão de fatos. Não sei. Muitas visões, muitas possibilidades. Eu, por minha vez, só conseguia ver literatura se contorcendo por toda a cena como se fossem serpentes, todas evocando livros. Mencionei “A carta roubada”, do Edgar Alan Poe, mas poderia ter mencionado outras histórias que me acudiram no momento, como “Arsène Lupin”, do Maurice Leblanc, “Recordações da casa dos mortos”, de Dostoiévski, a cena das sereias da “Odisseia”, de Homero, ou a briga no convés de “Lorde Jim”, do Conrad.

Existem muitas formas de contar a mesma história, e cabe ao autor escolher a mais adequada. Na descrição que fiz, o primeiro parágrafo contém um breve sumário de toda a cena, do início ao fim, e uma pessoa mais pragmática pode se satisfazer com a realidade fria dos fatos. Em seguida, eu próprio afirmei que ia fazer algumas considerações. Neste momento, saí da objetividade formal e passei àquilo que o meu subjetivo observou dentro da mesma sequência imutável de fatos. Os detalhes que concederam vivacidade à cena.

Claro que descrevi a cena no calor do momento, sem atentar muito para a correção gramatical ou lexical, sem sequer observar o estilo, e toda esta análise que acabei de fazer aconteceu em segundos, quando ainda estava redigindo, no mais absoluto impulso. Quando se aprende a escrever com o objetivo de transmitir uma narrativa, o pensamento é mais rápido do que as palavras ou do que o estilo; o resto do texto é revisão e correção.

Escrever é fazer escolhas. Qualquer um pode escrever como Shakespeare ou como a Barbara Cartland, tudo é questão de saber o jeito que deseja contar a história.

O que me faz lembrar de Tchekhov. No dia 23 de fevereiro de 1892, do alto dos seus recém-completos 32 anos, ele escreveu uma carta para o seu amigo escritor V. A. Tihonov com este teor (tradução minha do inglês para o português):

“Você está enganado em imaginar que estava bêbado na festa realizada para o aniversário de Shcheglov. Você teve uma queda, isso foi tudo. Você dançou quando todos eles dançaram, e o seu jigitivka na carruagem nada animada do cocheiro causou deleite geral. Quanto à sua crítica, era mais provável  estar longe de ser grave, posto que não lembro mais dela. Só lembro que Vvedensky e eu, por algum motivo, caímos na gargalhada enquanto o escutávamos.
Você quer a minha biografia? Aqui está.
Eu nasci em Taganrog em 1860. Terminei o ensino médio em Taganrog em 1879. Em 1884, eu consegui a minha licenciatura em medicina pela Universidade de Moscou. Em 1888, ganhei o prêmio Pushkin. Em 1890, fiz uma viagem para Sahalin através da Sibéria, e voltei pelo mar. Em 1891, eu fiz uma turnê na Europa, onde bebi excelente vinho e comi ostras. Em 1892, tomei parte em uma orgia na companhia de V. A. Tihonov em uma festa de aniversário. Comecei a escrever em 1879. As coleções publicadas das minhas obras são: ‘Contos heterogêneos’, ‘À meia noite’, ‘Histórias’, ‘Pessoas Rudes’, e um romance, ‘O Duelo’. Pequei na linha dramática também, embora com moderação. Eu fui traduzido em todas as línguas, com exceção das estrangeiras, embora eu tenha de fato sido, desde há muito atrás, traduzido pelos alemães. Os checos e os sérvios parecem aprovar-me também, e os franceses não são indiferentes a mim. Tenho sondado os mistérios do amor desde meus treze anos. Com os meus colegas, tanto os médicos quanto homens de letras, eu estou no melhor dos termos. Sou um bacharel. Gostaria de receber uma pensão. Pratico medicina, e tanto assim que, por vezes, no verão eu executo autópsias, embora não tenha feito isso por dois ou três anos. Dos autores, o meu favorito é Tolstoi, e, entre os médicos, Zaharin.
Contudo, tudo isto é nonsense. Escreva a biografia que quiser. Se não tiver fatos, use o lirismo.”

Imagino que Tihonov tenha pedido uma biografia de Tchekhov para apresentar em algum lugar, e essa foi a resposta do escritor russo.

Anton Tchekhov jovem

Anton Tchekhov jovem

Na carta, Tchekhov faz uma autobiografia deliciosa. Consegue misturar fatos inquestionáveis (o nascimento, a formatura em medicina, as viagens) com pequenos detalhes que fazem extrema diferença, como a referência às ostras e a à participação em uma orgia. Faz um jogo de linguagem engraçado com as suas traduções e, ao mesmo tempo, apresenta frases de uma ironia devastadora, como Pequei na linha dramática também, embora com moderação e Gostaria de receber uma pensão. Fora da ordem cronológica, insere uma frase aparentemente fora do contexto, Tenho sondado os mistérios do amor desde meus treze anos”, e ainda diz quem é o seu escritor e seu médico favoritos.

Ao final, a grande lição do escritor russo: tudo é nonsense. A vida própria que levamos é nonsense. As pessoas podem fazer a biografia que quiserem sobre nós, podem ter a imagem que bem desejarem a nosso respeito. Podem imaginar que somos herois ou vilões nas histórias delas. Contudo, no final do dia, a única coisa que importa é como usamos o lirismo para contar as nossas vidas chatas e rotineiras. Assim como algumas pessoas podem ver um fato social em um ônibus quase assaltado, existem aquelas que conseguem ver os mesmos eventos como uma sucessão de planos mal executados ou de uma genialidade impressionante diante das circunstâncias.

Quem tiver o melhor lirismo, fará a sua versão triunfar. Não por ser a mais realista, mas por ser a mais verossímil.

altamira

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Texto publicado na revista eletrônica da Dublinense (10/02/2016): “Como se inspirar batendo a cabeça”

Na minha coluna desta semana no Medium da Dublinense, eu tratei de inspiração e de como alguns autores acabaram, por vias transversas, até mesmo traumáticas, conseguindo inspiração para as suas obras. No meu caso, o problema não é propriamente estar inspirado, mas deixar de me sentir assim. Tornou-se um pouco habitual, nos últimos tempos, conversar com as pessoas e ter ideias para escrever meus textos. Este não é exceção: nasceu também de uma conversa, em especial no momento em que afirmei “Não existe tragédia maior que ver uma ótima história ser má contada por um escritor impregnado de desleixo ou preguiça”. Não existe nada pior mesmo. O resto do texto se estruturou em torno de tal constatação: não basta ser inspirado, é imprescindível fazer jus à inspiração.

Boa leitura!

 

Como se inspirar batendo a cabeça

Quando as pessoas me perguntam de onde tirar inspiração, a minha resposta é sempre a mesma: de tudo. Qualquer objeto, sentimento ou situação pode ser a mina atrás da qual o ouro da inspiração se esconde. Basta ler as obras clássicas para percebermos que os grandes escritores são capazes de usar qualquer material humano ou inumano de fonte para as suas histórias. Recordo do impacto que sofri ao ler “Objetos turbulentos”, de José J. Veiga, e ver que seus contos oscilavam em torno de objetos cotidianos, capazes de catalisar as mais diversas reações humanas no seu entorno. O próprio título é auto-explicativo: dentro de cada objeto existe uma turbulência, uma história ansiosa para se libertar. Podemos ir um pouco mais longe e utilizar uma explicação da Física: a matéria é formada por átomos em constante movimento. E se cada átomo quiser contar a sua história?

cafeteira para masoquistas, de Jacques Carelman

cafeteira para masoquistas, de Jacques Carelman

Se a inspiração está em tudo, a grande questão deixa de ser onde encontrá-la, mas como transformá-la em narrativa. Para tal tarefa, existem estudos, técnicas, estratégias, tudo com o objetivo de transformar ideias em histórias. Não existe tragédia maior que ver uma ótima história ser má contada por um escritor impregnado de desleixo ou preguiça. Para mim, equivale a um assassinato. Isto por que a história existirá, mas nunca com toda a força e energia que poderia ter. Não é à toa que comparo os clichês às sanguessugas: quando em excesso, estão ali, sugando o viço da narrativa, mas, usados com parcimônia, podem ser essenciais para que ela se sustente sozinha.

Penso em inspiração e lembro um livro fascinante, “Cuando llegan las musas”, de Raúl Cremades e Ángel Esteban. Nesta obra, os dois autores se debruçam sobre como alguns escritores latino-americanos se inspiraram para iniciar as suas narrativas. No caso de Borges, todos os seus contos nasciam de sonhos: assim que ele acordava, punha-se a falar sobre aquilo que tinha sonhado para não esquecer, e só depois colocava no papel. Pode-se dizer, assim, que grande parte da sua obra nasceu no mundo dos sonhos e veio para a literatura quase que de forma direta. Para Isabel Allende, a inspiração é ainda mais peculiar: a cada dia 08 de janeiro de todo ano, a escritora chilena senta na sua mesa de trabalho e inicia um romance. Ninguém sabe o motivo desta data em específico (existem hipóteses, destacadas pelos autores), mas sabemos que, irrelevante o que aconteça, dia 08 de janeiro Isabel Allende iniciará um livro. Vargas Llosa só consegue escrever se estiver rodeado por imagens e por bonecos de hipopótamos. Rafael Alberti escrevia em qualquer lugar e em todo tipo de material, até mesmo papel higiênico e guardanapos de bares. Contudo, na hora de dar autógrafos, não escrevia, preferindo desenhar pombas.

Dança das Musas no Monte Hélicon, de Bertel Thorvaldsen

Dança das Musas no Monte Hélicon, de Bertel Thorvaldsen

Existem aqueles para quem a inspiração nasceu de um trauma. Em algum momento da vida, eles tiveram um choque tão emblemático que a única forma que conseguiram lidar foi transformando em arte. Ao contrário do que muitos dizem por aí, a arte não tem um efeito somente recreativo, pensamento este que transforma todas as experiências artísticas em uma grande brincadeira ou forma de lazer. Ela também serve para expiar culpas, para ensinar, para alertar e para curar antigos medos.

Vejamos o caso de Dostoiévski. Aos 28 anos de idade, ele escreveu um livro chamado “Pobre gente”, obra ainda imberbe e longe do seu potencial pleno, mas que, mesmo assim, recebeu vários elogios. Entusiasmado, o escritor russo escreveu “O duplo” e “Noites brancas”, os quais, por sua vez, receberam críticas devastadoras. Por causa das suas amizades e das suas visões sociais, Dostoiévski foi mandado para a Sibéria, onde permaneceu durante oito meses. No dia 22 de dezembro de 1849, avisaram-lhe que o czar decidira pelo fuzilamento dos revolucionários. Depois de uma péssima noite de expectativa e de pensamentos funestos, na manhã do dia 23, Dostoiévski e os seus companheiros ficaram diante do pelotão de fuzilamento. Os soldados ergueram as armas…. e abaixaram-nas. O czar decidira comutar a pena de morte, modificando-a para trabalhos forçados e exílio. Depois se soube que, desde o início, o czar proferira a determinação neste sentido, mas mandara acrescentar o quase-fuzilamento como um ingrediente extra de perversidade.

A história da quase-morte foi descrita em uma carta de Dostoiévski para o seu irmão e, no texto, o escritor faz frequentes menções a um escrito de Victor Hugo, “Os últimos dias de um condenado à morte”, demonstrando que os impactos sofridos graças aos acontecimentos foram previamente antecipados pela literatura. O inquestionável é que, depois deste evento, o escritor nunca mais foi o mesmo. Passar tão perto da morte deixou-lhe marcas no espírito. Um homem foi colocado diante do pelotão de fuzilamento – e, quando abriu os olhos, ali estava o Dostoiévski que se tornaria tão importante para a literatura mundial.

Curiosamente, os impactos psicológicos sofridos por Dostoiévski foram melhor descritos – ou imaginados – em outra obra ficcional. Em “Verão em Baden Baden”, Leonid Tsipkin conta a história do Dostoiévski pós-trauma, assolado por problemas financeiros e pela epilepsia, que tenta melhorar de vida jogando em um cassino em Baden Baden. Ainda que se desloque entre dois focos narrativos – um é o próprio Tsipkin viajando de trem pela Rússia enquanto pensa nos seus dilemas de ser um autor proibido de publicar e o outro é a suposição do que aconteceu com Dostoiévski naquele final de semana -, o autor imagina um Dostoiévski sacudido por demônios indevassáveis, com as suas histórias ainda presas no corpo tentando sair, sendo sistematicamente humilhado, um homem frágil e instável incapaz de lidar com a própria mente e que, ainda assim, deve continuar vivendo.

Outro escritor que sofreu um decisivo abalo psicológico – no caso dele, um “abalo psicológico” no sentido literal do termo – foi Michel de Montaigne. Existiu um tempo em que Montaigne não pensava em escrever como forma de melhor usufruir da existência. Escrevia os seus textos, sim, mas eram superficiais, para seu próprio deleite. Morava na propriedade deixada pelos seus pais, tinha família e posses, mas sentia que algo estava faltando. Aos 36 anos de idade, imerso em uma vida da qual não via muito sentido, Montaigne pegou o cavalo para passear dentro das suas terras e visitar as casas dos servos mais distantes, como fazia com frequência.

Nestes passeios, Montaigne era acompanhado por um grupo de servos, que estavam ali para protegê-lo. Vivia-se um período violento, com guerras entre protestantes e católicos, e era normal encontrar bandidos vagando à esmo. Naquele dia em específico, ninguém soube direito o que aconteceu: Montaigne afirmou que tentaram lhe acertar um tiro e ele caiu do cavalo, batendo com a cabeça no chão; os servos contaram que um deles teria passado à frente do cavalo do filósofo francês que, em um solavanco repentino, o derrubou. O inquestionável é que Montaigne caiu e desmaiou.

Foi levado para a sua casa, onde permaneceu mais de uma semana em coma. Os familiares estavam convictos de que ele morreria. No entanto, ao cabo de 17 dias, Montaigne voltou à consciência. E dizendo que tinha assistido a tudo que lhe acontecera desde o desmaio, inclusive no período de coma. Ele descreveu como se sentiu naquela época:

“Parecia que a vida pendia dos meus lábios por um fio; fechei os olhos, querendo, ao que me parecia, ajudar a soltá-la; e senti prazer em ficar cada vez mais lânguido e me entregar. Essa ideia apenas flutuava na superfície da minha alma, delicada e frágil como todo o resto, mas na verdade não só livre de qualquer aflição como misturada àquela doce sensação que experimentamos ao nos deixar deslizar para o sono.”

Andar próximo da morte, assim como Dostoiévski, fez Montaigne escrever com maior afinco. À reunião dos seus escritos, com o passar do tempo, decidiu chamar de “Os ensaios”. Dotados de forte tom subjetivo, os textos possuem um constante flerte com a morte. O fato de ele se sentir como se tivesse morrido naquele incidente o forçou a escrever com mais constância e determinação sobre todos os assuntos. A morte estava espreitando a sua vida e, para afastá-la, só lhe restava escrever sem parar.

Um detalhe interessante é que o estilo literário e filosófico do francês foi determinado pela sua gata. Em uma noite, Montaigne estava escrevendo junto à janela quando ouviu a gata ronronar atrás de si. Percebeu que ela estava sentada sobre uma poltrona, esperando que ele parasse de escrever para brincar consigo. Montaigne obedeceu – foi até a poltrona e, enquanto brincava com a gata, de acordo com o que escreveu, começou a pensar em como ela devia observar o mundo. Por alguns segundos, Montaigne entrou na visão da gata e tentou perceber a realidade através dela, saindo dali a famosa frase “Quando brinco com a minha gata, como sei se não é ela quem está brincando comigo?”. Pode parecer uma observação ínfima, mas está no cerne de todo o seu sistema filosófico: para apreender a realidade, precisamos entrar na pele do outro e ver o mundo como ele veria, não como nós gostaríamos que ele o enxergasse. Uma lição muito válida para os tempos atuais. Em termos literários, não deixa de ser notável a humildade do filósofo, saindo do patamar de homem para olhar o mundo através da sua gata e, assim, descobrir a voz narrativa que buscava.

Gato na poltrona
Outro incidente notável que mudou de forma definitiva a história de um escritor aconteceu com Borges. Em 1938, ele chegou à casa da sua mãe e, ao subir correndo a escada que levava para o segundo piso, não viu uma janela aberta. Borges acertou a cabeça com força no batente da janela aberta e, durante meses, como a ferida infeccionou, precisou caminhar com a cabeça enfaixada como se fosse um turbante.

Quando lembrava desta época, Borges mencionava que se sentia como se fosse um cego, posto que não enxergava direito por causa da atadura, e necessitava de uma bengala para se locomover. Estela Canto, em “Borges à contraluz”, afirma que foi neste momento que nasceu o escritor Jorge Luis Borges que o mundo conheceria:

“Durante esse período de cegueira, [Borges] compôs momentaneamente a figura que haveria de mostrar ao mundo anos depois, já velho, trêmulo e glorioso: um cego patético e transparente, tateando o caminho com uma bengala branca, um humilde velho que pedia ao transeunte desconhecido que o ajudasse a atravessar a rua, um pouco Ulisses mendigo em Ítaca, Édipo em Colona, um rei disfarçado. Sua vida tinha se convertido numa fábula. O mito não era uma fuga da realidade, era seu apogeu. A literatura não era o consolo dos fracos, mas a vida intensificada, a vida exaltada e com sentido.”

O escritor argentino transmitiu este fato para a sua literatura. No conto “O Sul”, Borges conta a história de Dahlmann, um homem normal e enfadonho que, certo dia, ao subir correndo as escadas da sua casa, bate com a cabeça na janela e, a partir deste momento, passa a viver em uma realidade disforme, em um estado delirial constante. As leituras outrora feitas parecem se confundir e se entremear graças ao trauma experimentado. Dahlmann resolve empreender uma viagem pelo “Sul’, um local mais mítico do que real, atrás dos mitos fundadores do país e, neste processo, acaba entrando em um bolicho, onde uma situação limite acontecerá. Borges considerava este o seu melhor conto, e tem muito de autobiográfico nele. Para ser sincero, tenho dúvidas se Borges não pensava que Dahlmann era o Borges real e ele, o de carne e osso, a criatura fictícia que se arrastava pelo mundo. Misto de Dom Quixote e Madame Bovary, Dahlmann é enganado pelas leituras realizadas, que guiarão os seus passos até um problemático confronto com a realidade.

Isso não quer dizer que as pessoas precisem sair por aí batendo cabeça em paredes ou arrumando brigas com czares russos. Experiências traumáticas podem parecer importantes para a literatura, mas nem só de trauma se forma um artista. Shakespeare teve que pagar o ressarcimento por um teatro inteiro que roubou, e isto dói decisivo para forçá-lo a escrever os seus melhores trabalhos no espaço de dois anos; Cervantes foi preso por dívidas e, na cadeia, sem nada para fazer, começou a escrever “Dom Quixote” ao encontrar um tradutor mouro cheio de histórias na mesma cela. Não adianta nada ter inspiração se não souber transformá-la em palavras e, se existe algo que a literatura nos ensina, é que a imaginação é o único espaço livre por natureza. Sempre temos grilhões, mas, quando se trata de sonhar, não temos limites.

 

Originalmente publicado em https://medium.com/colecao-dublinense/como-se-inspirar-batendo-a-cabe%C3%A7a-16f5f353835#.7x34sgz34

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Texto publicado na revista eletrônica da Dublinense (03/02/2016): “As minhas criações do mundo”

Na sexta passada, caiu uma forte tempestade sobre Porto Alegre que, apesar de não deixar mortos, acabou causando muitos estragos. Sem contar que o pior do ser humano aproveitou a desgraça para aflorar: vi gente brigando por sacos de gelo, vi carros fazendo conversões proibidas e quase atropelando pedestres, vi autoridades omissas lavando as mãos e passando responsabilidades adiante. Enfim, humanos fazendo coisas humanas. Mas também presenciei cenas bonitas, como uma velhinha solitária limpando a Redenção em um final de tarde.

A tempestade serviu também para que eu refletisse um pouco não sobre a destruição, mas sobre a criação de mundos. Destruir é fácil, criar é a verdadeira dificuldade. Pensei nas criações do mundo que eu realmente gostava, e o resultado acabou se tornando este texto, que tem de tudo um pouco: desde deuses distraídos dando cusparadas e um universo engendrado por Shakespeare até a história de um quadro obscenamente fascinante e um mundo invertido em que fomos criados pelo Diabo.

Relendo o texto, duas frases me fazem dar muitas risadas: “apesar de, às vezes, o mundo parecer mais uma trama de um Ionescu chapado do que algo elegante como Shakespeare” e “A idade não nos deixa mais inteligentes, nos deixa mais doloridos”. Eis uma das partes mais estranhas da literatura: quando se vai ler algo e se pensa “uau, eu queria ter escrito esta ideia!” – e escrevi mesmo!

Boa leitura.

As minhas criações do mundo

Após a tempestade que se abateu sobre Porto Alegre na semana passada, não foram poucas as pessoas dizendo que o mundo tinha acabado. Parece-me um pouco presunçoso que o mesmo Deus, que se esmerou em requintes de criatividade mandando um Dilúvio e depois destruindo Sodoma e Gomorra com fogo, terremoto e chuva de enxofre, agora esteja tão displicente que manda só chuva e vento para limpar a Terra. Não, o mundo não acabou, por mais esfuziantes que sejam os vídeos da tormenta passada. Cabe a todos restabelecermos os serviços essenciais e voltarmos à vida de sempre, com nossos bons e velhos problemas ínfimos.

Foto de Alexandre Ludwig para o Jornal NH

Foto de Alexandre Ludwig para o Jornal NH

Essa conversa de fim do mundo me fez lembrar o contrário: os mitos da criação, e de como a Arte os observa. Desde o início da Humanidade, existem pessoas tentando explicar como o mundo surgiu. Faz parte da eterna angústia de saber de onde viemos. Não sei se é uma pergunta boa de ser respondida: prefiro pensar que ou somos milagres de uma divindade inegavelmente brincalhona ou somos partículas de caos brincando com a efemeridade, e qualquer uma das explicações é suficientemente assustadora.

Existem tantos mitos da criação que não vale a pena listá-los, até por que cada um tem o seu favorito. Impossível não lembrar o Gênesis e o seu tom monocórdio anunciando a forma com que o mundo se originou. Contudo, o meu predileto é o mito de criação da antiga Lituânia. Segundo ele, um dia, Dievas, o deus da criação, estava caminhando em uma praia e encontrou uma criatura estranha vinda no sentido oposto. Encarou-a de cima a baixo e ficou pasmo, pois não tinha inventado tal ser. Perguntou de onde tinha vindo, e o estranho foi incapaz de responder com precisão, gaguejante. Foi quando Dievas lembrou que, no dia em que criara o mundo, em certo momento cuspiu no chão, e a criatura só podia ter se originado desse gesto. Consigo imaginar uma divindade limpando a garganta através de um cuspe e, desta atitude impensada, criando homens e mulheres que se espalhariam como praga pelo planeta. Eis um Deus em que é fácil de acreditar: o distraído.

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Na pintura, não consigo pensar na criação do homem – e, por conseguinte, do mundo – de acordo com Michelangelo, com Deus tocando o dedo de Adão na Capela Sistina. Considero uma versão asséptica e correta demais para um gesto por demais caótico. Ou seja, muito bonito para ser verdade.

Na minha opinião, poucos quadros representam melhor a criação do que a ousadia quase desaforada de “A origem do mundo”, de Gustave Coubert, provavelmente um dos quadros mais fascinantes – e escondidos – que já foi pintado.

A história de “A origem do mundo” é quase mais incrível do que o seu conteúdo. Feito por encomenda a pedido de um diplomata turco que já adquirira outra obra erótica pintada por Courbet (“As adormecidas”), o quadro acabou sendo vendido para saldar antigas dívidas. O antiquário que comprou a obra foi acusado pela esposa de estar ostentando algo pornográfico, e decidiu escondê-la atrás de outro quadro. Émile Vial, colecionador de arte cuja especialidade era arte japonesa, em visita ao antiquário, foi apresentado à obra oculta e, sem entender direito o motivo, comprou-a.

No início do século XX, o quadro foi comprado por um aristocrata húngaro, o barão François de Hatvany, que levou “A origem do mundo” consigo para Budapeste. Contudo, durante a Segunda Guerra Mundial, o Exército russo roubou o trabalho de Courbet, devolvendo-o somente após solicitação expressa dos sucessores do barão. Estes, por sua vez, venderam o quadro para o famoso psicanalista Jacques Lacan, que o colocou na sua casa de campo, mas atrás de um anteparo de madeira, para escondê-lo de eventuais visitantes. Era, assim, uma obra de arte apreciada por somente um homem, Lacan em pessoa. Após a morte do psicanalista, o desenho desprovido de pudor foi então doado ao Museu D’Orsay, onde se encontra até os dias atuais.

"A origem do mundo", de Gustave Coubert

“A origem do mundo”, de Gustave Coubert

“A origem do mundo” era um quadro que, entre sucessivas idas e vindas, tinha tudo para acabar destruído, seja por querer, seja de forma acidental. Não se pode ignorar o quanto a sociedade é conservadora, por mais liberal que pretenda se identificar, e o quanto o quadro subverte todos os sensos de moralidade com a sua visão explícita e abrangente do sexo feminino. Ainda assim, ao contrário de tantas obras desaparecidas na História da Arte, logrou sobreviver, em boa parte graças à força quase hipnótica em que faz submergir o observador. É um quadro resistente. O título é tão definitivo que nos força a olhar o conteúdo com a certeza de que o nosso mundo começa ali mesmo: no meio das pernas de uma mulher. O nosso mundo, o de Alexandre o Grande, o de Marie Curie. O de Hitler também.

Em 2013, ocorreu uma grande polêmica ao redor de “A origem do mundo”, pois surgiu o boato de que a pintura correspondente à parte de cima – o rosto da mulher – teria sido encontrada. Por muito tempo acreditou-se que Gustave Coubert fizera um díptico: enquanto o rosto da mulher – identificada na suposta pintura como Joanna Hiffernan – resplandeceria de beatitude, as pernas abertas mostrariam uma outra realidade, algo que, sem dúvida, geraria novas interpretações. Contudo, os críticos ainda não possuem uma unanimidade sobre tal descoberta, até por que a ideia de um sexo feminino ter nome, rosto e endereço tira boa parte da universalidade da obra.

Ainda sobre este quadro, lembro um divertido livro do escritor chileno Jorge Edwards, chamado também “A origem do mundo”, que inicia com o personagem principal e a sua namorada observando a obra de Courbet no Museu D’Orsay. Ao perceber que a namorada estava com um semblante estranhamente absorto, naquela noite, antes dos dois transarem, o narrador tenta criar um jogo sexual com ela, pedindo para que imitasse a posição presente no quadro. Diante da recusa enfurecida da namorada, o narrador passa a prestar mais atenção nos relacionamentos do casal, e, quando morre o seu melhor amigo (de quem tinha ciúmes por reconhecer o seu poder de sedução sobre as demais mulheres), descobre, dentro da gaveta do criado mudo, a foto de uma mulher na mesma posição de “A origem do mundo”. Enciumado, basta olhar a foto para concluir que a sua namorada transara com o amigo, pois só podia ser o sexo dela constante na imagem, o que explicaria a sua estranheza quando viram o original, e o restante do livro é uma investigação desastrada para descobrir se a traição aconteceu mesmo. Apesar de servir para mostrar a situação política do Chile e as discussões entre os exilados, o livro de Edwards também demonstra algo do poder enlouquecedor da arte e a sua capacidade de modificar o nosso destino.

Em outro mito da criação que aprecio muito, Shakespeare é quem assume o lugar de demiurgo e dá origem ao nosso universo. No poema “Shakespeare”, do romeno Marin Sorescu (1936-1996), autor infelizmente ainda desconhecido no Brasil, o poeta descreve um mundo com sentimentos e personagens criados pelo bardo (abaixo, na tradução de Luciano Maia):

“SHAKESPEARE
Shakespeare criou o mundo em sete dias.
No primeiro dia fez o céu, as montanhas e os abismos da alma.
No segundo dia fez os rios, os mares, os oceanos
E os restantes sentimentos –
Que deu a Hamlet, a Júlio César, a António, a Cleópatra e a Ofélia,
A Otelo e a outros,
Para que fossem seus donos, eles e os seus descendentes,
Pelos séculos dos séculos.
No terceiro dia juntou todos os homens
E ensinou-lhes os sabores:
O sabor da felicidade, do amor, do desespero
O sabor ciúme, da glória e assim por diante,
Até esgotar todos os sabores.
Por esse tempo chegaram também uns indivíduos
Que se tinham atrasado.
O criador afagou-lhes compassivo a cabeça,
E disse que só lhes restava
Tornarem-se críticos literários
E contestarem a sua obra.
O quarto e o quinto dia reservou-os para o riso.
Soltou os palhaços
Para darem cambalhotas,
E deixou os reis, os imperadores
E outros desgraçados divertirem-se.
Ao sexto dia resolveu alguns problemas administrativos:
Forjou uma tempestade,
E ensinou ao rei Lear
O modo de usar uma coroa de palha.
Com os restos da criação do mundo
Fez o Ricardo III.
Ao sétimo dia viu se havia algo mais a fazer.
Os diretores de teatro já tinham coberto a terra de cartazes,
E Shakespeare concluiu que depois de tanto esforço
Também ele merecia assistir ao espetáculo.
Mas antes disso, esfalfado de todo,
Foi morrer um pouco.”

Assim como Harold Bloom acredita que Shakespeare criou o Humano, não é tão difícil imaginar um mundo repleto de situações, personagens e tramas shakespereanas (apesar de, às vezes, o mundo parecer mais uma trama de um Ionescu chapado do que algo elegante como Shakespeare). Se precisamos tanto da imagem de um Deus, é melhor que ela corresponda à de um artista completo, e não a de um ser indiferente e distante. Shakespeare mostra-nos a dúvida, o sentimento humano mais palpável de todos: ele nos mostra os caminhos, mas deixa que cada um faça a sua escolha, e existe algo de divino nisto.

William Shakespeare (Hulton Archive/Getty Images/VEJA)

William Shakespeare (Hulton Archive/Getty Images/VEJA)

A ideia de qualquer artista ser capaz de criar e povoar um mundo é algo que atrai a curiosidade alheia, e representa uma fonte de fascínio quase tão grande quanto o quadro de Courbet. No interior da obra, o autor é Deus, mas as consequências da sua criação repercutem no mundo externo. Neste contexto, prefiro ter um Deus shakespereano ao invés de outros escritores mais superficiais. Nesse caso, como diz o Riobaldo de Guimarães Rosa, “se Deus vier, que venha armado”.

Ainda existe um último mito de criação que me encanta, e está no poema “Novo Gênesis”, de Affonso Romano de Sant’Anna. Nele, quem cria o universo é o Diabo. Cria a cobiça, a usura, a inveja, a gula, a preguiça, a soberba e a ira, e vê que os pecados capitais são bons. Cria as guerras, as epidemias, a opressão, a mentira e, no sétimo dia, quando vai descansar, um anjo chamado Deus se revolta e é expulso para os céus, onde passará o restante da Eternidade travando pequenas escaramuças que não mudarão em nada os eventos humanos.

A inversão da história bíblica e a exibição do Diabo como o verdadeiro poder, contra o qual a bondade de Deus se insurge, demonstra uma grande desesperança com o próprio ser humano. O mal é o estado natural das pessoas, o bem é a exceção, e basta vermos as notícias para constatar o quanto tal fato é verdadeiro. A cada dia que passa, fica mais difícil acreditar na figura de um Criador benevolente, e o poema de Affonso Romano de Sant’Anna, com a sua inversão, soa muito mais verídico do que as outras histórias que nos contaram.

Existem muitos mundos, e todos eles foram algum dia inventados do nada. Seja criado por Shakespeare ou pelo Diabo, esteja no cuspe indiferente de um deus ou no meio das pernas de uma mulher, o universo renasce a cada vez que abrimos os olhos. Se será um universo bom ou ruim, cabe a nós decidirmos. Por algum tempo, nos meus anos iniciais, acreditava que a cada dia bom sucedia-se um dia ruim, e vice versa, e este arranjo meu com o Destino funcionou adequadamente por alguns anos, até que a equiparação acabou e uma sucessão de dias ruins é agora interrompida, às vezes, por um único dia razoável. A idade não nos deixa mais inteligentes, nos deixa mais doloridos. As pessoas acham-se tão importantes que tem a certeza de que o mundo acabará quando elas morrerem, mas, sinto dizer, vai continuar. O único fato que podemos mudar é o rumo da nossa história, a forma com que nosso mundo se articula. Somos só passagem, e não fim.

 

Texto originalmente publicado em https://medium.com/colecao-dublinense/as-minhas-cria%C3%A7%C3%B5es-do-mundo-2dea0104d510#.roymlefmm

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