Arquivo do mês: fevereiro 2015

Algo lindo, mas aniquilante

Uma das muitas coisas com que um escritor precisa se acostumar é com a existência de alucinações criativas. São frases e fragmentos desgarrados que insistem em se apegar na recordação, acendendo e apagando como as luzes de um vagalume no meio de um bosque. Da mesma forma que um náufrago no meio do oceano, o escritor permanece à deriva no meio de um manancial ininterrupto de histórias que fustigam a sua pele e tentam se apossar da sua alma. Perdoem os nossos silêncios ou as eventuais esquisitices: não é nada fácil manter a integridade quando um mundo de metáforas e de belezas ocultas tenta nos dissolver em meio a um cadinho de emoções.

Às vezes, as minhas alucinações criativas ingressam no meio do cotidiano, o que me faz caminhar por um mundo repleto de imagens poéticas. Queria não ter memória, mas não consigo esquecer; apesar de Kant dizer que um dos segredos da felicidade é “lembrar-se de esquecer”, eu não consigo, pois sou fraco. Não esqueço, e sempre lembrar é algo que acaba se tornando dolorido, uma faca espremida entre as costelas.

Em algumas ocasiões, deixo as alucinações saírem e percorrerem o mundo com a alegria dos Quatro Cavaleiros do Apocalipse, mas os olhares que me são direcionados mostram desaprovação e medo. Não se devem abrir as portas do sublime para as outras pessoas. Não assim. Não fora de um contexto.

Então, o melhor é silenciar. Morder a língua. Impedir que a memória venha brincar nas areias da realidade, deixá-la protegida debaixo do guarda sol.

No entanto, nos últimos dias, três alucinações criativas grudaram em mim de tal forma que a única maneira possível de me livrar delas é – talvez tolamente – um exorcismo através da escritura. Colocando no papel, talvez os fantasmas me abandonem, encontrando o necessário descanso. Escrever também é uma forma de sepultar agonias.

 

I – “Algo lindo, mas aniquilante.” – Sylvia Plath

 

Está no poema “The rival”, de Sylvia Plath:

“The Rival
If the moon smiled, she would resemble you.
You leave the same impression
Of something beautiful, but annihilating.
Both of you are great light borrowers.
Her O-mouth grieves at the world; yours is unaffected,

And your first gift is making stone out of everything.
I wake to a mausoleum; you are here,
Ticking your fingers on the marble table, looking for cigarettes,
Spiteful as a woman, but not so nervous,
And dying to say something unanswerable.

The moon, too, abuses her subjects,
But in the daytime she is ridiculous.
Your dissatisfactions, on the other hand,
Arrive through the mailslot with loving regularity,
White and blank, expansive as carbon monoxide.

No day is safe from news of you,
Walking about in Africa maybe, but thinking of me.”

Colocarei a tradução também, feita por Rodrigo Garcia Lopes e Maurício Arruda Mendonça:

 

“Se a lua sorrisse, teria a sua cara.
Você também deixa a mesma impressão
De algo lindo, mas aniquilante.
Ambos são peritos em roubar a luz alheia.
Nela, a boca aberta se lamenta ao mundo; a sua sincera,

 

E na primeira chance faz tudo virar pedra.
Acordo num mausoléu; te vejo aqui,
Tamborilando na mesa de mármore, procurando cigarros,
Desconfiado como uma mulher, não tão nervoso assim,
E louco pra dizer algo irrespondível.

 

A lua, também, humilha seus súditos,
Mas de dia ela é ridícula.
Suas reclamações, por outro lado,
Pousam na caixa do correio com regularidade encantadora,
Brancas e limpas, expansivas como monóxido de carbono.

 

Nem um dia se passa sem notícias suas,
Vadiando pela África, talvez, mas pensando em mim.”

 

Sempre que olho para a lua, são estas palavras de Sylvia Plath que lembro. Linda. Aniquilante. Algo pode possuir estas duas características simultaneamente? Só o amor. Quem ama sabe o que é ser perseguido por uma bela imagem de forma implacável, algo que, ao mesmo tempo, consola e dilacera. As noites são longas sessões de tortura repletas de recordações; durante o dia, cercado por afazeres e tarefas, conseguimos nos esquecer e até debochar da lua invisível que se esconde no meio do céu repleto de enganadora claridade. No entanto, basta surgir a primeira estrela e o rastro iluminado no horizonte para a ausência voltar a nos assombrar.

 

by Kaveh Hosseini

 

Tanto a pessoa amada quanto a lua são peritas em roubar a luz alheia, pois o amor é a maior forma de vampirismo psíquico que sofremos: estamos ao lado de alguém que reflete e toma posse ciumenta da nossa essência. Ainda assim, só existe sentido na vida quando nos submetemos a ele, por mais ilógico que seja. Quanto mais tentamos esquecer, menos esquecemos, e este paradoxo atordoa – a capacidade de ser drenados por algo que está além das nossas forças. Mesmo que a lua se esconda na África, o pensamento continua fixo na pessoa amada. Não podemos evitar a aniquilação, assim como não podemos evitar a lua.

 

II – “Os postes vomitavam luz azulada.” – Patrick Modiano

 

A frase está em “Ronda da Noite”, do escritor francês. Desde que a li, entendi um pouco mais a meu respeito. Recordei uma caminhada solitária que realizei no meio da noite em Colonia do Sacramento, no Uruguai. Tinha acabado de assistir a um espetáculo de candombe, e o ritmo forte da música ainda ribombava na minha memória. Estava uma noite agradável e, antes de ir para o hotel, tentei perder-me no meio do centro histórico, passeando por entre ruas antigas e de calçamento desajeitado. Tinha boas possibilidades de ser assaltado, mas os bandidos geralmente respeitam aqueles andarilhos sem medo e que não tem nada a perder (existe algum animal oculto nos olhos deles). No meio do céu, o farol lembrava barcos invisíveis de que ali existiam seres humanos. As ruas estavam parcamente iluminadas por postes que não projetavam a luz, mas, com sabedoria secular, despejavam somente um facho de luz azulada para baixo ou erguiam mãos amarelas para o céu longínquo. Mosquitos e mariposas fritavam no meio da luz fria.

Em uma esquina, percebi-me no meio da escuridão completa. Não sabia mais onde estava. Conseguira meu objetivo. A lua estava tão longe e entretida com as nuvens que cansara de iluminar meus passos. De súbito, um poste atrasado – ou defeituoso – projetou a sua luz alguns metros na minha frente, e ela acariciou um carro perdido que procurara o conforto de um poste amigo no meio da cidade deserta. E eu me localizei instantaneamente.

Não entendi direito o que aconteceu neste momento, mas a solidão, a caminhada vazia, a tentativa de mergulhar na alma de uma cidade velha, o silêncio acachapante, o olho vermelho do farol cheio de embaraço ao recordar embarcações fantasmas, o poste que subitamente vomitara sua luz sobre o carro… alguma coisa fez muito sentido no meio deste cenário.

Às vezes recordo desta cena, nos momentos mais inesperados, e a frase de Modiano me fez encontrar a perfeita expressão para o que aconteceu naquela noite: sem explicação alguma, o poste se acendeu e vomitou luz azulada. Foi uma epifania – eu ainda não sei sobre qual assunto, mas é algo que espero descobrir no decorrer da minha vida. Até este momento, sou uma sombra que caminha por aí, procurando a justificativa para uma epifania inoportuna que aconteceu na hora errada.

 

III – “Diadorim é a minha neblina.” – Guimarães Rosa

 

A frase está no “Grande Sertão: Veredas”, e eu a considero como uma das melhores definições que existe para uma pessoa. Nunca enxergamos a realidade, somente a neblina misteriosa que cerca os outros. Ainda recordo de quando a minha avó morreu: o mais assustador foi constatar que, alguns minutos após este evento, eu não recordava mais direito o rosto dela. Ele parecia se perder no meio de traços vagos e indistintos, como se fosse uma efígie embaixo de um espelho de água. Tentei reter o máximo de detalhes que podia, mas eles foram progressivamente se dissolvendo e, quanto mais me esforçava para não esquecer, mais traços sumiam para nunca mais voltar. Hoje não recordo mais a pessoa, somente a neblina que a cercava.

 

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No caso de Riobaldo, o amor por Diadorim deixava a neblina ainda mais intensa. Quando apontamos um facho de luz para a neblina, parte dela reflete de volta esta iluminação, e amar alguém é permitir-se ser ofuscado e esquecer dos seus defeitos visíveis. No entanto, Diadorim não é neblina por si só, ela é a neblina em que se perde o homem que a ama. Diadorim é um daqueles campos que separam a madrugada do nascer do sol, com uma penugem de névoa destacando-se da grama, indecisa entre a vontade de dominar o mundo ou de desaparecer em silêncio.

Saber que uma pessoa tem o poder de eclipsar a realidade de outra é uma poderosa declaração de amor. Ainda assim, é triste saber que, dissolvida a neblina, a realidade pode ser atordoante. Talvez este seja o segredo de amar: permanecer sempre uma criatura de névoa para o outro, duas neblinas enrodilhadas vagando por um mundo de ventos traiçoeiros.

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A angústia das naturezas mortas

Acredito que, a esta altura do campeonato, é de conhecimento público que gosto muito de ler e que considero a leitura não só como uma forma de criar novos pensamentos quanto de nos libertar de qualquer prisão em que estejamos recolhidos. A leitura liberta do medo, da angústia, da morte. Ela também nos salva da maior prisão de todas, que são os limites da própria vida, mas as implicações de tal ideia seriam tema para uma longa – e, no momento, inoportuna – digressão.
Consequência disto é que as pessoas olham a palavra “livro” escrita em algum lugar e lembram de mim; veem citações de livros dentro de algum filme e recordam deste Cavaleiro da Triste Figura; escutam músicas que fazem referências literárias e, voilá, eu surjo, tal como um djinn preso em uma lâmpada empoeirada. Onde duas ou mais pessoas estiverem e um livro aparecer, meu fantasma estará entre elas. Não é algo ruim: melhor ser lembrado assim do que por alguma outra circunstância funesta.
Na semana passada, três pessoas me enviaram a mesma música que trata de livros. Era uma música que eu conhecia, “Livro Aberto”, do Vitor Ramil, mas nunca tinha me detido na letra. Ao escutá-la, tudo o que veio na minha cabeça foi um quadro não tão conhecido que Kiesling fez em homenagem a Modigliani e um estilo de arte, a “vanitas”.
Em 2012, estive na exposição “Modigliani: Imagens de uma vida”, que trouxe os quadros de Amedeo Modigliani ao Brasil. Os quadros mais famosos na exposição eram certamente as mulheres longilíneas, de pescoços compridos, elegantes tanto trajando roupas quanto despidas. No entanto, as pinturas que mais me chamaram atenção eram as quase desconhecidas e, entre elas, estava um quadro de Moïse Kisling, com quem Modigliani dividiu um atelier durante algum tempo. De acordo com a descrição do quadro, era bem possível que os dois pintores tivessem o pintado em conjunto, tanto que Kisling fez uma homenagem ao amigo, colocando uma escultura de Modigliani entre os demais elementos do atelier. A obra se chamava “Atelier de Kisling com uma escultura de Modigliani” (1918), e encontra-se abaixo.
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O que mais gostei no quadro de Kisling, excluída a intertextualidade brejeira que colocou Modigliani para dentro dele, foi ver uma natureza morta com pincéis e com tintas. Não existiu a intenção de mostrar todas as particularidades do atelier, mas só a confluência momentânea de dois pintores em busca da materialização dos quadros que assombravam a sua imaginação. Observando a mesa retratada, é possível escutar as discussões de ambos por mais espaço, no meio da divisão quase fraterna das cores e dos pincéis que seguiriam rumos diferentes assim que tocassem as telas brancas.

É uma natureza morta – mas feita com vida. Tudo ali está morto, esperando a chegada (agora impossível) dos artistas que lhe dariam vida. As obras foram suspensas. Toda tela vazia é uma espera e, por isto mesmo, ela se reveste de angústia e de ambição. Os pincéis não serão usados. As tintas não se depositarão em um quadro. A arte morreu esperando os pintores.

Eu gosto muito dos conceitos que envolvem o “vanitas”, uma modalidade de arte simbólica muito em vigor entre os séculos XVI e XVII, em que os pintores colocavam uma série de elementos que visavam a recordar a vacuidade da vida, a passagem inexorável do tempo, a inevitabilidade da morte. Uma espécie de natureza morta com elementos simbólicos. Um exemplo é “Vanitas”, de Pieter Claesz:

 

 

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Tanto no quadro de Kiesling quanto no de Claesz existe a superposição de figuras remetendo a uma ausência, a alguém que não está ali. No caso de Kiesling, o atelier se ressente da falta dos pintores, as tintas urdindo vinganças no seu silêncio. Para Claesz, existe a falta de vida, a insuficiência do tempo, o cadáver antecipado que somos.

O que me traz de volta à música de Vitor Ramil, “Livro aberto”. Um cenário é construído pela letra: um quarto sem pessoas, mas com objetos carregados de poesia e de possibilidades. Um livro está aberto sobre a cama, e ele assume múltiplas imagens: uma alegoria (prenunciando o teor da letra), uma saída (todo livro é uma saída deste mundo), uma sangria (tanto os leitores quanto os autores sangram imaginação ao conviver com uma história), uma indecência (o livro está aberto e desprotegido aos olhos de quem quiser desfrutá-lo).

Toda a letra transmite uma espera. O quarto está intacto, aguardando os humanos que irão lhe dar sentido. Ao mesmo tempo,  é uma natureza morta esperando que a vida, como uma lufada de ar fresco, penetre no seu interior e traga um objetivo para tudo. É possível sentir a angústia do cenário, paralisado na sua espera. Também se percebe que alguma cena aconteceu naquele quarto, e que agora ele está esperando a resolução do conflito. O livro aberto sobre a cama sofre uma série de metamorfoses, mas a mais importante delas é só sugerida: alguma coisa interrompeu a leitura e levou embora a vida do quarto.

Talvez a vida seja uma longa espera. Assim como a natureza morta espera a vida, assim como o livro espera o seu leitor, estamos todos como Godot, aguardando algo que sequer sabemos se virá ou se já não passou. Ou talvez sejamos como John Marcher, o protagonista de um dos mais terríveis livros que já li, “A Fera na Selva”, de Henry James: a vida toda esperando por algo que estava diante dos seus olhos, só enxergando depois que perdeu.

Enquanto as pessoas decidem seus dramas, o livro indiferente dança sobre a cama, no meio do quarto à espera.

Livro aberto – Vitor Ramil

Essa cama imensa consumindo a noite
Esse livro aberto como alegoria
O abajur perdido em sua luz
Essa água quieta desejando a sede
O controle girando no ar
A TV remota em sua fantasia
Uma alegria que não vai passar
Se você vier

Esse teto frágil sustentando a lua
Esse livro aberto como uma saída
O tapete e seu plano de vôo
O lençol revolto antecipando o gozo
Essa velha casa de coral
Essa concha muda que o meu sonho habita
A paixão invicta que não vai passar
Se você vier

Esse rádio doido de olhos valvulados
Esse livro aberto como uma sangria
Esse poema novo sem papel
O papel que cabe aos meus sapatos rotos
O meu rosto que o espelho não vê
A janela imóvel em seu desatino
Esse meu destino que não vai passar
Se você vier

Esse quarto agindo à minha revelia
Esse livro aberto como uma indecência
O desejo é um naco de pão
A ilusão exposta em tanto desalinho
Uma tecla insiste em bater
No relógio o tempo é uma saudade tensa
E essa cama imensa que não vai passar
Se você vier

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