Arquivo da categoria: Arte

Obras Inquietas – 61. “Autoretrato com máscaras” (1899), James Ensor

Nessa semana, no Obras Inquietas lá no Artrianon (www.artrianon.com), eu falei sobre “Autoretrato com máscaras”, obra do pintor belga James Ensor. Não tão conhecido quanto outros pintores do mesmo período (apesar de ser renomado na Europa), o que torna Ensor um artista notável é a sua capacidade de retratar multidões como uma forma de crítica social e de reflexão filosófica. Bom, ele também é considerado um renovador de toda a pintura belga, o que não é pouca coisa. Esse quadro me inquieta por vários motivos, mas um deles é a noção de que vivemos cercados por aparências e por pouco conteúdo. Observem as pessoas na rua e verão o mesmo – não estamos cercados por máscaras?

Boa leitura.

“Autoretrato com máscaras” (1899), James Ensor

Idêntico ao estilhaço de um navio naufragado, atravessamos as águas agitadas da existência lutando para manter a integridade, esforçando-nos para não ceder à angústia, tentando ignorar o medo. Caminhamos pelas ruas e avenidas dessa cidade que degusta a loucura dos seus integrantes com a ferocidade contida de um tigre sem fome, envolvidos por ondas e mais ondas de rostos que se perdem em um borrão, distinguindo um que outro sorriso tétrico repleto de batom, às vezes um olhar impregnado de dor que desliza por uma esquina, em outras ocasiões flagrando uma testa contraída de preocupação e de gotas de suor. Estamos cercados por máscaras vazias que remetem a um rosto outrora humano: todos os dias, escolhemos a falsidade colorida e repleta de lantejoulas que mostraremos ao mundo, e ela derrete ao redor do nosso rosto, incorporando-se à pele que esconde o sorriso de enlevo, que disfarça o grito de desespero, em uma sucessão de semblantes fingidos que se somam de tal forma ao nosso rosto que nos tornamos um rescaldo de máscaras derretidas, sobrepostas. Não existe nada verdadeiro nas pessoas: tudo é mentira e ilusão. Procuramos uma realidade impossível, pois mal nascemos e já estamos vestindo máscaras para enganar os demais, e mesmo a mais cristalina das verdades soa despercebida atrás de um sorriso falso. Rodeados pela multidão de máscaras que insiste em nos mentir, é muito fácil encontrar a loucura e a solidão, é muito fácil esquecer o próprio rosto.

Texto originalmente publicado no link https://artrianon.com/2018/05/13/obras-inquietas-61-autoretrato-com-mascaras-1899-james-ensor/

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Obras Inquietas – 60. “A Garota Cega” (1856), Sir John Everett Millais

Nessa semana, no “Obras Inquietas”, eu tratei de um dos meus pintores favoritos, Sir John Everett Millais. Preferi uma obra nem tão conhecida, mas que encerra uma série de significados. Em “A Garota Cega” (1856), as duas irmãs estão na beira da estrada quando ocorre um duplo arco-íris, que deixa assustada a que enxerga. A outra, cega, só pode imaginar o pavor da sua companhia, mas não será ainda maior o medo quando não somos capazes de enxergá-lo em meio às trevas? Prefiro pensar na maravilha e do horror que se escondem ao alcance da nossa visão e da qual nos encontramos privados, mas as interpretações são várias. Detalhe para a borboleta pousada no ombro da garota cega: foi a interessante maneira que Sir John Everett Millais encontrou para demonstrar que o pavor é tão grande que as duas moças estão paralisadas, incapazes de se mexerem.

Boa leitura.

“A Garota Cega” (1856), Sir John Everett Millais

Disseram-me que algo maravilhoso está acontecendo agora, um milagre de Deus ou talvez seja o fim dos tempos, mas, seja lá o que for, nada me atinge ou perturba nas trevas a que fui condenada viver. Ao redor, um mundo insiste em se renovar, gritante e entusiasmado, mas eu estou excluída da alegria dele. A dor perturba com o seu gosto de morte, o incômodo é uma constante nesse universo repleto de aparas e superfícies cortantes e o medo não cansa de visitar a minha imaginação, mas as maravilhas da Criação continuam me sendo negadas: sempre ao alcance de um simples olhar que me é impossível, sempre imersas na penumbra a que chamo de vida. Dentro do abraço, consigo sentir o corpo apavorado da minha irmã, enquanto as suas palavras tentam explicar a aparição súbita de cores no céu ainda estremecido da chuva de momentos atrás e a mão suada aperta com força a minha, revelando com mais clareza a maravilha que me é negada do que qualquer insuficiente descrição. Esse é o meu destino, deslocar-me em meio ao veludo da escuridão infinita, divisando matizes menos e mais claros de trevas, enquanto o mundo dos que vêem tenta me sufocar em meio aos seus constantes, invisíveis espantos. Existe vantagem em não ver os horrores que me cercam, mas também há angústia em saber que tenho uma vida pela metade, pois nunca verei a limpidez de uma gota de chuva, ou as cores dos pássaros que gorjeiam nas minhas costas, ou as nuances de verde e amarelo que se espalham em meio aos campos saudados pelo sol. Mergulhada na escuridão, rezo para o Deus que mora nas profundezas, pedindo para que espalhe sua sombra por todo o mundo e faça com que todos sejam tão ignorantes das maravilhas do mundo quanto eu sou.

Texto originalmente publicado no link https://artrianon.com/2018/04/29/obras-inquietas-60-a-garota-cega-1856-sir-john-everett-millais/

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Obras Inquietas – 59. “Esperança e Desesperança de Ángel Gavinet” (1977), Eduardo Arroyo

Nessa semana, no Obras Inquietas, eu escolhi um quadro do pintor espanhol Eduardo Arroyo, “Esperança e Desesperança de Ángel Gavinet” (1977). Gavinet era um escritor e ensaísta espanhol que, ao ser diagnosticado com uma doença degenerativa, receando o sofrimento que lhe esperava, decidiu matar-se, jogando-se no rio Divina. Por muitos anos esse assunto fascinou Arroyo, que dedicou uma série de pinturas ao suicídio do escritor, o qual não chegou a conhecer.

Escolhi esse quadro em especial por mostrar o limite entre esperança e desesperança que separa quem sente a morte chegando, mas ainda possui vida no interior do corpo. A ideia de alguém se sentir tão descartável que sequer possui rosto também causa perturbação; estamos todos de passagem no planeta, e chegará o tempo em que a premência dos tempos e o surgimento das novas gerações nos empurrará inevitavelmente para a obsolescência, para uma morte em vida.

Boa leitura.

“Esperança e Desesperança de Ángel Gavinet” (1977), Eduardo Arroyo

Estar vivo sentindo-se morto é o pior tipo de morte que existe: estamos no mundo, mas, ao mesmo tempo, não fazemos mais parte dele. A morte executou a sua sentença, mas esqueceu de nos buscar e, assim, os dias passam, sem gosto, sem vontade, sem cores. Tornamo-nos incômodos, fantasmas adiados a caminhar sem direção pelas ruas. Esperamos um alívio que não chega e, apesar disso, a esperança da salvação de última hora nos traz um fiapo de alegria, a sombra de um sorriso – se estamos vivos, ainda há esperança, não foi o que nos ensinaram? No espelho, não consigo mais ver o meu rosto, somente a caveira antecipada que espera para surgir, triunfal, no meio da pele prestes a se desfazer nas bocas ansiosas dos vermes. Os dias passam, nada muda, e sei que logo chegarei em algum lugar – restaurante, cafeteria, cinema, parque – e os dedos gélidos da morte envolverão meu pescoço, e isso é algo que não posso suportar, tenho medo. Somente o moribundo sabe o real valor da vida que se prende nas suas carnes com a tenacidade de um cachorro faminto; somos uma espécie apartada dos demais seres humanos, nós, os que sabem que não existe mais chance de sobreviver. Respiramos, mas o ar queima a nossa consciência ao inflar pulmões que, em breve, nada mais sentirão; comemos, mas a comida que enche o nosso estômago deixa de fazer parte de outra vida que, inocente, talvez esteja no mundo ansiosa por alimento; bebemos, e o álcool não concede conforto, só desperta angústias. A lógica diz que eu devo desistir, parar de ocupar espaço no mundo, ceder diante do inevitável. Melhor isso do que ser uma pessoa sem objetivo algum, a não ser esperar os dias modorrentos passarem, indiferentes, sempre com a sua promessa de finitude a cada por do sol, sempre com a morte a nos assombrar a cada lufada de ar, a cada gaivota que atravessa o céu.

Texto originalmente publicado no link https://artrianon.com/2018/04/22/obras-inquietas-59-esperanca-e-desesperanca-de-angel-ganivet-1977-eduardo-arroyo/

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Obras Inquietas – 58. “Autoretrato com Morte tocando Violino” (1872), Arnold Böcklin

Nessa semana no “Obras Inquietas”, eu escrevi sobre o quadro “Autoretrato com Morte Tocando Violino” (1872), do pintor suíço Arnold Böcklin, um homem que esteve cercado pela morte desde que nasceu e que estabeleceu com ela um relacionamento, senão amigável, ao menos respeitoso. Não se sabe direito o que ele quis retratar nesse quadro, mas existem interpretações um pouco esotéricas de que a Morte toca a música da nossa vida. Preferi interpretar essa música como um som incessante no vácuo da nossa consciência, algo que, aos poucos, nos enlouquece e nos faz cometer desatinos. Interessante que não poucos artistas se fascinaram com a música tocada pela Morte: um deles, Gustav Mahler, intitulou o segundo movimento da sua Quarta Sinfonia como “A Morte pega o Violino”.

Boa leitura.

“Autoretrato com Morte Tocando Violino” (1872), Arnold Böcklin

Preso no quadro, o pincel a meio caminho do destino de conspurcar a tela, o artista encara sem medo a própria morte, sabendo que irá prendê-la nesse pentagrama de tintas e esguichos, pois esse é o destino da verdadeira arte: conceder imortalidade aos demônios que nos rodeiam. No fundo de todo som que preenche o mundo de barulhos irritantes, repetitivos ou belos, no resquício de cada silêncio que mora dentro do ar imobilizado, existe uma música que nunca para. Está aí, dentro da sua cabeça, no espaço que separa a sombra da carne; de tão habituado, você não mais a escuta, mas ela continua tocando, misturando-se com os seus pensamentos de maneira tão insidiosa que parece brotar deles. Às vezes, no meio dos pesadelos, você consegue escutar o ruído rasgando a escuridão, algo que congela o espírito e que gruda no céu da sua boca com o gosto incômodo de carne putrefata. É ela, a música que lhe persegue desde o primeiro ar que se apossou dos seus pulmões ainda cheios de líquido; o som discreto e infernal que insiste em lhe bafejar a nuca, uma lembrança amarga de que tudo acabará e de que logo você será outra lápide a acumular musgo em um cemitério qualquer. Junto ao seu ouvido, a sombra do medo sussurra “não esqueça que és humano”, e você caminha com o peso da falibilidade sobre os próprios ombros. Todo ser humano carrega em si, incubada e irreversível, a morte. Ela dita os nossos passos e dúvidas, sempre nos guiando com dedos ossudos, repletos de dores e de memórias, pelos caminhos que nos levarão ao fim, e não podemos escapar da sua condução, pois nos enlouquece aos poucos ao tocar a sinfonia que compôs para cada pessoa assim que ela nasceu, uma música que nos devora com lentidão, assim como a onda paciente faz desmoronar o rochedo.

Texto originalmente publicado no link https://artrianon.com/2018/04/01/obras-inquietas-58-autoretrato-com-morte-tocando-violino-1872-arnold-bocklin/

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Obras Inquietas – 57. “Retrato de Família” (1954), Dorothea Tanning

Nessa semana, no “Obras Inquietas”, eu falei sobre um quadro da pintora surrealista Dorothea Tanning, “Retrato de Família”. Dorothea é mais conhecida pelos seus trabalhos literários, que são muito elogiados, mas não se pode esquecer a sua importância para a pintura, arte na qual se destacou desde a adolescência.

Na época em que fez esse quadro, ela estava casada com o pintor Max Ernst – cujas obras são mais conhecidas do que as dela – e não consta que se sentisse pressionada como a mulher que retratou. Inclusive é famosa uma entrevista em que Dorothea Tanning afirmou que ela e Max Ernst jamais conversavam sobre arte em casa. No entanto, um poema do mesmo período deixa entrever a mágoa por constatar que o casamento obscureceu a sua arte (bom, Max Ernst deixou a sua mulher para casar com Dorothea, e ela sempre foi vista como a mulher sedutora-destruidora-de-lares, o que acabou se refletindo na apreciação da sua pintura):

Many years ago today
I took a husband tenderly
This simple human gentle act
Seen as a hard decisive fact
By all who dote on category
Did stain my work indelibly
I don’t know why that is
For it has not stained his

Em uma tradução muito livre:

Há muitos anos hoje

Eu recebi um marido com ternura

Este simples ato gentil humano

Visto como um fato difícil e decisivo

Por todos os que trabalham na categoria

Manchou o meu trabalho indelevelmente

Não sei por que isso aconteceu

Pois não manchou o dele.

Boa leitura.

“Retrato de Família” (1954), Dorothea Tanning

Mesmo ausente, a sombra incômoda do homem se espalha pela sala de jantar, espalhando ordens com a sua onipresença raivosa. Ela diz para a empregada: se vista de forma apropriada, isso aqui não é um puteiro; alimente o cachorro, ele é o ser mais importante da casa; não erga a voz, seja discreta e mantenha a limpeza em dia, mesmo nos desvãos mais improváveis. A sombra fala para os móveis: mantenham a posição em que eu os coloquei, vocês me pertencem e eu controlo a sua vida e a sua morte; não tenham personalidade; não tentem se destacar. Em seguida, a sombra concentra toda a sua atenção na mulher, deliciando-se com a tensão com que a pequena figura se segura na cadeira, os olhos impregnados de um medo palpável que se projeta para o mundo em busca da salvação que não virá: não coma, não desejo que você engorde; não sorria, você não tem o direito de ser alegre sem a minha presença por perto; não fale, você não pode ter voz própria longe de mim para cercear as suas palavras burras e descuidadas; não coloque chinelos ou uma roupa velha, mulher minha tem que estar sempre ajeitada, sempre perfeita; não tenha uma vida ou carreira, pois nada pode obscurecer a minha existência, ainda mais uma criatura ínfima como você. A sombra do homem ausente sufoca a vida da casa, um lembrete constante sobre quem realmente manda na família. Dentro dos olhos cristalinos da mulher, um esgar de terror – sombra fugidia repleta de líquido – tenta escapar, mas ela não foi autorizada a chorar, e tem medo do deboche da sombra, tem medo de que aquilo que chama de amor seja uma prisão dourada, então mantém o corpo teso sobre a cadeira, esperando que a sombra em breve se junte ao corpo do homem de quem está desgarrada – o homem que acabou com a sua luz.

Texto originalmente publicado no link https://artrianon.com/2018/03/18/obras-inquietas-57-retrato-de-familia-1954-dorothea-tanning/

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Mari Roldán Cañete – arte que vale dinheiro

Uma das funções do blog também é espalhar as boas ideias que andam à solta pelo mundo e, assim, louvar a criatividade, item que está cada vez em mais falta no mercado.

Recebi um link repleto de informações sobre essa artista espanhola, Mari Roldán Cañete, que desenha imagens clássicas da pintura em notas de euro. Ao contrário das notas que trafegam no Brasil que, quando são rabiscadas, geralmente o são com palavrões ou insultos, Mari transforma dinheiro em pequenos quadros portáteis que são carregados pelas pessoas como uma lufada de beleza na carteira.

Entre as reproduções, temos Magritte, Klimt, uma versão desaforada da “Origem do Homem” de Michelangelo, Rembrandt, Botticelli, Katsushita Hokasai, Van Gogh, Munch, Salvador Dalí e até Bansky.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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OBRAS INQUIETAS – 55. “Subúrbios de uma Cidade Paranoica Crítica” (1936), Salvador Dalí

Nessa semana, na minha coluna no Artrianon (www.artrianon.com), eu tratei de um quadro do Salvador Dalí, “Subúrbios de uma Cidade Paranoica Crítica” (1936). Um quadro cuja multiplicidade de imagens esconde uma série de símbolos e pensamentos. Além das óbvias referências às pinturas de Georgio de Chirico, na época Dalí também tinha lido os trabalhos de Kraepelin e Breuler sobre a esquizofrenia e a paranoia, desenvolvendo um método que chamou de “paranoico crítico”. O principal sustentáculo deste método era a ideia de que o indivíduo portador de tais doenças psiquiátricas conseguia ver uma série de erros na realidade, empregando-os na formação de uma realidade diversa na qual conseguia articular estes elementos díspares pelos quais nutria uma espécie de “apego apaixonado”.

É um pouco inquietante que os surrealistas tenham conseguido ver o mundo com tamanha clareza. Hoje os seres humanos se sentem oprimidos por cidades que cada vez mais, a pretexto da paz social, lhes vigiam e cerceiam discretamente os seus direitos de ir e vir. Tornamo-nos paranoicos em relação aos nossos semelhantes e críticos em relação a todos aqueles com que interagimos. Preferimos não pensar naquilo que vemos todos os dias, mas podemos oscilar entre maravilhas e horrores com a mais absoluta tranquilidade. A Cidade nos envolve e nos destrói. Não interessa o quão longe tentamos fugir, somos incapazes de escapar dos seus tentáculos de concreto.

Boa leitura.

“Subúrbios de uma Cidade Paranoica Crítica” (1936), Salvador Dalí

As esquinas se sucedem, sempre diferentes, sempre a mesma. Você anda com a sensação de não sair do lugar; o ar saturado de poluição envenena o seu corpo aos poucos. Todas as pessoas lançam olhares estranhos, e você consegue ver a crítica ao modo com que se veste, à forma com que caminha, ao seu comportamento. Mesmo sem querer, você se encolhe diante de tamanha pressão, os passos rápidos e furtivos. A Cidade é um labirinto sem Minotauro, uma boca perversa repleta de dentes ansiosos para se cravar na sanidade dos infelizes sem rumo que deslizam pelas suas ruas. Monumentos para deuses e homens desconhecidos marcam a sua trajetória, dividindo espaço com colunas feitas em um estilo que desafia o cansaço dos tempos. Uma moça lhe oferece uvas, e o cheiro doce mistura-se ao caos dos seus pensamentos. Diferentes pessoas em diferentes distâncias e perspectivas estão perto, longe, em todos os lugares, e todos a lhe julgar, a lhe condenar, a cochichar. Cercado por rostos distorcidos que se misturam em uma canibalesca mistura, aqui um olhar mais incisivo, lá um cílio inesperadamente erguido, ali uma voz rasgante, você nunca sentiu tanta solidão. A Cidade é um buraco repleto de desilusões e de gritos interrompidos, com risadas frenéticas que cortam o rugido dos carros. Você pode abrir uma porta e estar em Pequim, Londres, o inferno ou o lugar que só existe na sua imaginação. A Cidade é uma máquina feita com o propósito de enlouquecer e de confundir e, em meio às suas engrenagens, você não passa de um pião atormentado, batendo de um lado para o outro à espera do dia em que a Morte enfim lhe alcançará.

Texto originalmente publicado no link https://artrianon.com/2018/03/04/obras-inquietas-55-suburbios-de-uma-cidade-paranoica-critica-1936-salvador-dali/

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