Arquivo da categoria: Arte

Obras Inquietas – 47. “A lição de anatomia do Dr. Frederik Ruysch” (1714), de Jan van Neck

Em virtude de ter passado duas semanas viajando e palestrando por aí, atrasei as colunas do “Obras Inquietas”, motivo pelo o qual me puxaram as orelhas em mensagens.

No meu retorno, tratei de “A lição de anatomia do Dr. Frederik Ruysch” (1714) do pintor holandês Jan van Neck. Poderia ter escolhido outras versões da mesma ideia, inclusive mais famosas, como a de Rembrandt: existiu uma época na História da Arte em que era frequente pintores retratarem aulas de anatomia, o que por si só daria um longo texto. Optei por essa de van Neck por que, entre elas, é a que mais recordo, talvez pelo fato de ser a autópsia de um recém-nascido, talvez pelo detalhe destoante da criança assombrada que segura um esqueleto no canto da imagem. Existe algo de perturbador na calmaria aparente dessa pintura e, se não sou capaz de detectar, o quadro merece estar elencado nessa minha lista de perturbações.

Boa leitura.

“A lição de anatomia do Dr. Frederik Ruysch” (1714), de Jan van Neck

Um corpo não passa de um aglomerado de órgãos, músculos e sangue impulsionados por um espírito. Por favor, esqueçam o horror enquanto presenciam a curiosidade quase sádica dos homens ao redor da mesa, para quem o cadáver da criança é um mero objeto de estudo, e nada mais. Eles não pensam na vida que animava esse corpo ainda fresco até alguns minutos atrás, não pensam no ronco de esperança que brotou dos pulmões e, em seguida, desapareceu, não pensam no aspecto lívido da pele que esperávamos rosada, macia, tenra, e agora tem o tom marmóreo da ausência, não pensam no choro da mãe ou nos soluços do pai a ecoar pelo corredor vazio. A ciência não pode se dar ao luxo de ter piedade. Ignoram o olhar espantado do menino que segura o esqueleto do bebê; ele não consegue entender que sentimentos atrapalham o progresso e que os homens reunidos naquela sala, que dissecam o cadáver como se estivessem olhando uma borboleta morta, fazem aquilo pelo bem de todos. Somente quem se afasta da Humanidade é capaz de desvendar o humano. Mesmo assim, por maior o nosso desejo de frieza, impossível não olhar o cadáver diminuto estendido sobre a mesa e pensar em tudo aquilo que ele deixou de viver, em todas as sensações que não teve tempo de sentir, em todos os sorvetes que não comerá, em todos os sorrisos que não dará, em todos os beijos que lhe serão negados, enquanto a curiosa pinça esgravateia o corpo sem defesas e a placenta jaz sobre a mesa, morta. Pior do que morrer é nem ter a chance de ter vivido.

Texto originalmente publicado no link https://artrianon.com/2017/10/22/obras-inquietas-47-a-licao-de-anatomia-do-dr-frederik-ruysch-1714-jan-van-neck/

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Obras Inquietas. 46 – “O homem em queda” (2014), James Wedge

Nessa semana, na minha coluna no “Obras Inquietas”, eu tratei de uma pintura de James Wedge chamada “O homem em queda”. A postura do homem em queda infinita e para sempre não-concretizada lembra uma fotografia icônica do século XXI, também chamada “O homem em queda”, de Richard Drew, que mostra um homem despencando para a morte após o atentado nas Torres Gêmeas nos Estados Unidos, em 2001.

Existe algo de terrível e de poético na forma com que o corpo se entrega à inevitabilidade da queda, desfazendo-se enquanto mergulha na direção de algo que não sabemos.

Boa leitura.

“O homem em queda” (2014), de James Wedge

 

Ninguém sabe precisar o momento – ninguém sobreviveu o suficiente para contar – mas existe um instante, um segundo talvez (um segundo no meio da eternidade da queda possui todos os tempos do mundo no seu interior), em que a barreira do corpo cede ao fascínio de despencar no abismo e o que era carne vira vento, o que era osso vira graveto, o que era sangue vira medo. Nesse fugaz momento, impregnado de delírio e de horror, o espírito perde as comportas que lhe confinavam no interior de pele e músculo e sente, pela primeira vez, as responsabilidades de ser livre. Nunca ficamos tão próximos de algum Deus quanto agora, o segundo em que perdemos os limites. Suspenso em uma queda que nunca será concretizada, o homem persiste caindo agora e para todo o sempre, desfazendo-se como poeira que volta a encontrar o seu destino, como deserto ondulando em dunas instáveis. O desconhecido – será um de nós? Será alguém que amamos? Será aquele para quem não estendemos a mão na hora certa, ou para quem faltou a palavra que poderia ter sido a âncora salvadora? – atravessa o vazio e se identifica com ele, lutando para manter uma coesão que, em breve, será destruída pelo concreto da realidade. Existe algo de conformismo no homem em queda; podemos escutar o grito que ele não solta ou imaginar os pensamentos que se destroçam na sua consciência esperando a chegada do fundo, do chão, do local em que a morte lhe espera sem ansiedade, enquanto olha para cima e vê o céu tão azul conspurcado por uma sombra que corre em sua direção.

Texto originalmente publicado no link https://artrianon.com/2017/10/01/obras-inquietas-46-o-homem-em-queda-2014-james-wedge/

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Obras Inquietas – 45. “Cão atacando gansos” (1769), Jean-Baptiste Huet

Quem acompanha minhas colunas sabe que gosto de quadros que narram cenas de alta tensão e que estão concentradas em um momento no qual o terror e a beleza confluem como uma pororoca, e esse é o caso da pintura que tratei no “Obras Inquietas”. Em “Cão atacando gansos” (1769), de Jean-Baptiste Huet, a cena revela uma luta feroz pela vida, em que um lado está fragilizado por causa do amor e o outro se sente poderoso pela imposição física – algo que vemos muito por aí.

Boa leitura.

“Cão atacando gansos” (1769), Jean-Baptiste Huet

É no silêncio do anônimo desfiladeiro que se travará a luta decisiva. De um lado, o cão imerso em ferocidade mal esconde a raiva com que contempla as suas futuras vítimas, os dentes salivando de antecipação; do outro, o casal de gansos antepõe seus corpos diante do inimigo, protegendo a ninhada ainda indefesa de filhotes. Sob a pata do cão, os gritos agônicos de um ganso demonstram que esse é um cadáver que ainda respira por uma mera questão de tempo. Os gansos sabem que não possuem chance alguma, mas precisam lutar a batalha impossível e o farão com dignidade. Não existe a possibilidade de virar as costas e fugir, não podem abandonar os filhotes à própria sorte (apesar desse pensamento incômodo às vezes surgir como uma sombra no meio dos olhos injetados de pavor). Eles agitam as asas e grasnam com tons ameaçadores, rezando para assustar o cão, mas o inimigo traz consigo o hálito sombrio da morte, e sustenta a posição, premido pela fome que o faz investir contra a família de animais. A morte nunca é algo pessoal, mas necessário: hoje são os gansos, amanhã quem sabe se não será o cão quem restará acuado? A angústia da cena é palpável, assim como a impressão de que somos os gansos encarando a inexorabilidade do assassino que enfim colocará um termo à nossa vida, e tudo o que podemos fazer é rezar para que o inimigo mostre piedade, só um pouco, e que seja rápido e indolor com nossos entes queridos. Ave caesar imperatori, morituri te salutant, e assim os gansos lutam não para vencer, mas para que seus filhotes possam sobreviver mais alguns minutos em meio a esse mundo impregnado de crueldades e certezas.

Texto originalmente publicado no link https://artrianon.com/2017/09/24/obras-inquietas-45-cao-atacando-gansos-1769-jean-baptiste-huet/

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Obras Inquietas 44. “Melancolia I” (1514), Albrecht Dürer

Na minha coluna dessa semana no “Obras Inquietas”, cheguei à 44a obra que me desperta algum tipo de desconforto, e a escolhida dessa vez foi “Melancolia I” (1514). do Albrecht Dürer. Não cheguei a ler “O símbolo perdido” do Dan Brown, mas certa vez me comentaram que essa pintura é o centro de onde saem todos os mistérios resolvidos pelo personagem principal. Não surpreende: “Melancolia I” tem 503 anos de idade, e ainda engatinhamos nas tentativas de entendê-la.

Não resisti à tentação de atualizar os símbolos constantes na pintura e, assim, na minha leitura da obra de Albrecht Dürer, fiz citações indiretas aos desenhos de Goya, aos desalentos de Nietzsche, aos receios de Bernardo Soares e, por fim, mencionei trechos da peça para vocal “La nuit”, de Jean-Phillippe Rameau, e da música “Bota pra fudê”, do Camisa de Vênus. Vai aqui o link de “La nuit”:

Boa leitura.

“Melancolia I” (1514), Albrecht Dürer

Tudo tende ao vazio. Ao nada absoluto. À irrelevância. O tempo se arrasta com a paciência de quem sabe ser eterno. Paralisado, o vento suspende a sua caminhada ágil e o ar fede à morte, à imobilidade das águas paradas. Na parede, o Quadro Mágico deixa entrever os mistérios que nunca serão desvendados; enquanto isso, o compasso repousa, indeciso, nas mãos tristes do homem que não sabe para onde ir – ou será um artista à espera da sempre traiçoeira inspiração? A imagem retorce-se lentamente em torno do seu próprio centro, como uma cobra saciada que dorme sob a luz de um sol morto; os animais, os anjos e o céu estão cansados, não conseguem sair da areia movediça caprichosa em que a inação do homem os colocou. Diante da enormidade daquilo que podemos ser e do fracasso inevitável dos nossos sonhos, sentimo-nos insignificantes, incapazes de romper a inércia, incapazes de escapar do buraco negro que mora no nosso peito e diz que não podemos ser nada, que nunca seremos nada, que na nossa lápide estará escrito “nada”. Existe uma beleza tão bonita quanto o sonho, existe uma verdade mais doce do que a esperança? Qual o sentido de viver, se não conseguimos escapar de nossas fraquezas? Se nada acontece, a vida então se repete? Dentro da imagem se esconde o segredo dos erros sempre iguais, da sensação de desalento que às vezes nos acomete, da procrastinação das tarefas, do medo de começar para, então, falhar. A Melancolia é um veneno lento que sufoca a nossa liberdade – é o cadáver silencioso que nos segue dentro da sombra, sempre lembrando que somos humanos, demasiado humanos.

Texto originalmente publicado no link https://artrianon.com/2017/09/10/obras-inquietas-44-melancolia-i-514-albrecht-durer/

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Um artista não pode perder a humanidade

Alguns dias atrás, assisti na Netflix ao filme “Margot e o casamento” (2007). Em geral, narrativas sobre famílias disfuncionais reunidas à contragosto por um evento naturalmente estressante (como um casamento ou um funeral), sendo obrigadas a conviver sob o mesmo teto e com uma explosão prestes a ocorrer graças à mais insignificante fagulha, não me interessam muito. Parecem muito previsíveis na sua tentativa de soarem surpreendentes. Mas assisto por causa dos diálogos e pelo aspecto da construção de personagens.

Entre os filmes com essa temática, apreciei bastante “Margot e o casamento”, em especial por que os diálogos eram abruptamente cortados no seu ponto mais tenso, impedindo de ver o que aconteceu depois de frases tão agressivas ou carinhosas. Foi um mecanismo muito apropriado para demonstrar a tensão existente entre os personagens, que, mesmo rindo e se abraçando, escondiam um inferno de intenções, desejos e fúrias por trás desses gestos. Colocarei aqui o trailer para quem se interessar:

No entanto, o que mais me perturbou no filme foi uma questão tangenciada pelo diretor. O personagem de Margot, interpretado por Nicole Kidman, é uma escritora de relativo sucesso, mas incapaz de se relacionar com as outras pessoas. Cortante, brusca e auto-destrutiva, Margot está casada com um homem que lhe ama, mas o trai com outro que visivelmente não quer nada além de sexo. O filho dela convive em meio às mais absurdas violências verbais e psicológicas, tudo por que a mulher não lhe mente ou atenua nada. No esforço de prepará-lo para a vida, Margot é aquela que mais se esforça para destruí-lo.

Não bastando, a obra literária de Margot é calcada no seu círculo pessoal e, assim, ela utiliza as situações familiares como força criativa, mesmo que ao custo de expô-las – e, no caso da irmã, terminar um relacionamento. Não se sabe o quanto ela não é um fator desestabilizador da própria família para depois poder criar uma história em cima, aproveitando-se das situações como um abutre farejando uma carcaça próxima. Em uma cena emblemática, logo após brigar com o namorado e se refugiar com Margot em um quarto de motel, a irmã vê a escritora ocupada em registrar fatos no seu diário e a impede, dizendo que aquilo é íntimo e dolorido demais para virar literatura.

Sempre me perturba um pouco a ausência de limites éticos no ato de criar uma obra artística. Recordo de uma pintura de Edvard Munch, “Morte no quarto da doente” (1896), em que o artista retrata o suspiro final da sua própria irmã, em um quarto repleto de familiares. O quanto o pintor viveu da dor da situação e o quanto ele estava artisticamente analisando a cena? Não estaria Munch, no mais recôndito da sua consciência, pensando nas cores que usaria para retratar a cena, ou na melhor perspectiva, ou no estremecer da lágrima no olho da sua mãe? Estaria ele sendo cruel, sendo realista com o seu fazer artístico, sendo um crápula ou usando uma estratégia diversiva para fugir da dor? Essas questões sempre me deixam incomodado, e prefiro pensar que existem histórias e cenas que a decência humana nos impede de contar – mas nem todos comungam dessa opinião.

“Morte no quarto da doente” (1896), Edvard Munch

A conduta de Margot e a sua relação complicada com as pessoas suscitaram-me um questionamento: pode um escritor – ou qualquer artista – ser desumano?

Parece uma pergunta ilógica, mas não é. Todas as pessoas esperam que o artista toque naquilo que nos transforma em humanos, a emoção secreta que sequer conseguimos nomear e para a qual a obra de arte serve como porta de entrada. Se sairão anjos ou demônios por essa porta, não temos como saber, mas o objetivo maior da arte é nos aproximar daquilo que temos de mais sagrado ou profano. Esperam que somente humanidade saia do artista, ou aquilo que enlevará o espírito, e, por isso, imaginam-no como alguém capaz de tocar as mais profundas cordas do ser humano. Nesse cenário, imaginar que um artista possa ser desumano soa como um contrasenso: pode alguém desprovido do mínimo senso de humanidade representar adequadamente o humano?

No filme, todas as condutas de Margot apontam não somente para o fato dela ser desprezível, mas de ser alguém pouco conectado aos anseios, medos e sonhos de outros indivíduos. O seu egoísmo é tão grande que ela não trata ninguém de forma decente, encarando todos como possíveis obstáculos a lhe separarem da felicidade. Ela é uma escritora reconhecida pelo aspecto humano da sua obra – apesar de não ter empatia nenhuma ou senso de observação que nos autorize a imaginá-la como uma artista capaz de se conectar a um público.

Não entendo como um artista pode existir sem ser humano. Se a arte é um produto humano, seja como artista ou seja na forma de uma apreensão diferenciada do mundo, tal variável não pode ser desconsiderada. Inclusive vou um pouco mais longe e digo que artista de verdade não é aquele que possui a melhor técnica ou o assunto mais adequado para abordar, mas aquele que consegue articular melhor a sua humanidade de forma a tocar na dos outros. Na minha visão, a arte só existe como forma máxima de expressão do humano, o que me deixa um pouco decepcionado com os tempos atuais, em que ela deixou esse caráter imanente e passou a ser aquilo que o autor diz que é arte, por mais conceitual e vago que seja.

Não faz muito tempo eu comentei que, antes de ser artista, qualquer pessoa deveria se afundar nos estudos sobre a natureza humana e sobre todos os assuntos possíveis do conhecimento. Nenhum assunto pode existir somente sob uma ótica, tudo é um prisma multifacetado, um mosaico de peças que não combinam. A arte não é só fazer uma obra e colocar algum conceito nela, mas uma tentativa tênue de chegar ao infinito usando um meio físico. Os grandes artistas são aqueles que mergulharam tão fundo no seu oceano interior que conseguiram fazer-nos ver o nosso reflexo nele.

Quando penso em artista completo, tanto pelos defeitos quanto pelas virtudes, o único nome que me ocorre é o de Leon Tolstói. O escritor russo foi cheio de falhas e de posicionamentos morais controvertidos, mas, em relação à sua arte, ele tentou ir além de si mesmo. Sempre tentou abandonar o que era e revelar o espelho cujo reflexo fazemos de conta que não existe. Sua versatilidade temática é impressionante. Querem conhecer as paisagens russas e os dramas dos camponeses? Leiam os contos de Tolstói. Querem discutir a instabilidade dos relacionamentos humanos e as hipocrisias sociais? Leiam “Ana Karênina”. Querem saber como é morrer, as pequenas misérias que norteiam as nossas existências e a fragilidade da vida? Leiam “A morte de Ivan Ilitch”. Querem saber como um mundo inteiro pode existir dentro do nosso mundo? Leiam “Guerra e Paz”. Para Tolstói, a arte sempre foi tudo ou nada, e ele se desnudava por completo dentro da obra. Os leitores reconhecem o seu esforço, tanto que continuo vendo a habilidade com que ele construiu as suas tramas até hoje, em um domínio técnico invejável, sem esquecer a piedade com que encarava o seu semelhante.

Leon Tolstói

E aqui chego naquilo que, para mim, diferencia um artista medíocre de alguém inesquecível: a piedade. Os artistas completos cujos nomes lembro – Auguste Rodin, Camille Claudel, Fernando Pessoa, Leon Tolstói, Jane Austen, Fiódor Dostoiévski, Dickens, Diego Velázquez, Joseph William Turner, Artemisia Gentileschi, Mozart, Beethoven, Tchaikovsky – foram pessoas que usaram a sua arte não com o propósito de fazer sucesso ou conseguir sustento material, mas para tocar o humano nas pessoas que sequer conheciam. Para fazer isso, eles não só entenderam o passado e o futuro dos indivíduos, como viram as suas pequenezes e foram capazes de perdoá-los, pois nós não sabemos muito bem o que estamos fazendo e precisamos que alguém nos segure a mão e diga que tudo vai acabar bem no final da nossa história.

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O dia em que fui censurado

Em todos esses anos de vida que escrevo, nunca tinha passado pela experiência de ser cerceado no meu direito de expressão ou sofrer censura, e acabou vindo do lugar mais inesperado.

Fui denunciado por “pornografia” no Pinterest. Isso por que, no meu painel sobre pinturas, onde coloco as obras que mais gosto, tive a “audácia” de colocar esse quadro de Paul Cézanne:

“Hortense dando de mamar para Paul” (1872), Paul Cézanne

Detalhe interessante: existem dezenas de pinturas nesse painel ( https://br.pinterest.com/gmeloczekster/pinturas/ ) que considero pornográficas, aplicando o conceito mais tradicional da palavra. Tenho pinturas de homens e de mulheres nus, algumas inclusive em posições sexuais, e nunca antes fui chamado de “obsceno” ou “pornográfico”. Não escolho pinturas sob esse viés, mas pela sua beleza estética e, assim, no mesmo painel, podemos encontrar desde autorretratos até paisagens, passando pela exibição de corpos nus, como não poderia deixar de ser, pois é natural da vida. Na minha visão, o importante é a pintura conter uma história inteira condensada em um único momento, e nunca parei para pensar se estou pisando além dos limites da moral e dos bons costumes – aliás, creio que, em matéria de experiência artística, esses limites sequer são claramente identificáveis.

O Pinterest já me “inocentou”, e a pintura retornou para o painel. Ainda assim, a questão persiste me intrigando: o que fez alguém se ofender tanto com uma mulher dando de mamar para o seu filho que o levou a denunciar o quadro como “pornografia”? Não existe nada de sexual aí, a não ser se consideramos o corpo feminino como algo naturalmente pornográfico. Além disso, é possível que a pessoa “enojada” com o quadro tenha se alimentado da mesma forma, ou conheça ao menos uma criança que tenha se alimentado no peito da mãe… seriam essas pessoas também pornográficas?

Não cabe a mim responder a esse anônimo ou anônima que tachou um quadro de Cézanne como “pornográfico” – até por que o anonimato garante a todos os covardes a chance de se manifestarem sem réplica. Na verdade, acho um pouco perturbador alguém pensar assim a respeito de uma cena que, até onde posso ver, é prosaica e absolutamente rotineira. Concordo que as concepções de “pornografia” variam muito entre os indivíduos, mas a ausência de lógica e de coerência daqueles que consideram a amamentação como um gesto pornográfico chega a ser risível. Darão o que para os nenês, Coca Cola? Cerveja?

Não faz muito tempo, comentei que não existia atividade mais perigosa nos tempos atuais do que escrever. Cada mínimo texto meu – cada mísera frase – é descontextualizada, fragmentada e analisada nas suas minúcias em busca de fraquezas ou posições ideológicas. Uma palavra ou expressão distraída é a senha para que não só meu texto seja destruído, mas igualmente eu acabe sofrendo ataques que escapam do âmbito das palavras e entram na esfera pessoal. O mundo está cheio de justiceiros e, como demonstra essa situação que vivi com o quadro de Cézanne, não importa o quanto o indivíduo se ache correto, a verdade é que ele possui uma visão de certo ou de errado que é somente sua.

Sob certos aspectos, sou uma pessoa afortunada. Sei medir o alcance das minhas palavras de tal forma que a patrulha tenta encontrar brechas sem sucesso, e acaba se resignando. A última vez em que fui questionado sobre um texto aconteceu alguns meses atrás, quando inadvertidamente escrevi nesse blog “a grande poeta espanhola Florbela Espanca”. Um equívoco pequeno – não sei onde estava com a cabeça, pois ela é portuguesa – , mas foi motivo suficiente para que a minha caixa de mensagens enchesse de recados. A grande maioria limitou-se a apontar o problema, mas outros foram irônicos (“logo vc, que se acha tão erudito”, adorei essa) e alguns descambaram para a fúria desarrazoada, chamando-me de preconceituoso, xenofóbico e inimigo de Portugal.

As pessoas mais preconceituosas que conheço são justamente as que pensam estar fazendo um “favor” apontando falhas, erros e preconceitos alheios. Da mesma forma, as pessoas que se dizem mais libertárias, progressistas e favoráveis à liberdade da expressão são as que mais vociferam quando alguém tem a ousadia de lhes questionar. Em geral, quem cuida das atitudes e falas dos outros diz mais a respeito de si mesmo do que dos “patrulhados”.

No mundo em que vivemos, parece inevitável ser objeto de patrulhamento e de constante vigilância. Escrever é se expor com palavras. Eu poderia fazer um longo arrazoado histórico sobre patrulhamentos, ou escrever um texto repleto de ironias, ou mesmo fazer um desabafo apaixonado a favor da minha liberdade de expressão. Poderia fazer tanta coisa, mas essa planura de pensamento me dá sono.

A única coisa que posso dizer para quem lê os textos ou observa a minha vida sob o prisma de achar erros, falhas ou preconceitos é que estão perdendo toda a diversão do caminho. Procurar fraturas em meio ao meu discurso é inútil – claro que ele possui ideologia, pois somos seres ideológicos, já diria Bakthin. A questão é: o quanto a tua ideologia sobrevive quando confrontada com a minha? És assim tão fraco(a) que uma imagem ou um texto podem te derrubar?

Os patrulhadores passam, mas a caravana continua seu caminho.

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Obras Inquietas – 43. “Mulher chorando” (1947), Cândido Portinari

Nessa semana, na minha coluna no Artrianon, eu falei sobre uma obra pouco comentada de Cândido Portinari, “Mulher chorando” (1947). A postura pasma e um tanto bovina da desconhecida revela uma mulher acostumada a sofrer e que, ainda assim, deixou a dor assumir o controle dos seus atos. Temos mais dúvidas do que certezas, mas todos nos identificamos de alguma forma com essa mulher e seu choro dolorido.

Boa leitura.

“Mulher chorando” (1947), Cândido Portinari

No silêncio da imagem, um olho mal consegue esconder o espanto, a incredulidade, a dor. As mãos desajeitadas, disformes depois de tantos anos de maus-tratos e de serem usadas até os limites das suas forças, amparam o rosto como se nunca tivessem tocado a pele que envelhece mais rápido do que o tempo. Ela não é uma mulher acostumada a acariciar e, no gesto paralisado, existe algo de mecânico, de desconforto. Do olho fechado, o silêncio dolorido cede diante do peso da sua existência e brota na forma de uma lágrima impregnada de desespero. Ela não é bonita, e sequer sabe se vestir com a elegância irreal que a sociedade exige. A mulher não se preocupa com ser, e sim com o que é, e, nesse momento, ela está preenchida pela dor, que se espalha no mundo através do olho ainda cheio de surpresa, pelo outro semicerrado que permitiu a fuga da lágrima traiçoeira. Ninguém sabe o motivo pelo qual a mulher ali jaz em silenciosa contemplação. Ninguém conhece o seu nome, ou qual o peso que angustia a sua consciência. Ainda assim, reconhecemos nela o incômodo reflexo das vezes em que choramos sozinhos no escuro, das ocasiões em que nos sentimos sufocar no meio do cotidiano, dos momentos em que perdemos o controle. Não perguntes por quem a mulher chora, pois ela pranteia todos nós.

Texto originalmente publicado no link https://artrianon.com/2017/09/04/obras-inquietas-43-mulher-chorando-1947-candido-portinari/

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