Em primeiro lugar – e pode parecer engraçada essa ressalva –, quando comecei a ler, não sabia que estava lendo uma obra infanto-juvenil. Induzido pelo título altamente sugestivo, imaginava uma história em que, sim, livros tinham devorado o pai do protagonista. Tenho o costume de não escolher livros pelo autor, pelo gênero ou pelo público a que se destina, e sim por interesse, o que sempre me trouxe surpresas bem agradáveis e revigorantes (além de ajudar a me manter longe de ideias perigosas como “somente autores de um determinado país são bons”, “os livros escritos em determinada época são os melhores já escritos” ou – a pior falácia dos tempos atuais – “escritores ou escritoras pertencentes a um gênero são os únicos que merecem atenção”). Estou sempre aberto para o jogo e para a novidade.

Por este motivo, posso adiantar que “Os livros que devoraram meu pai”, do escritor português Afonso Cruz, foi uma leitura bem aprazível. Nada muito complexo, uma história que vai do início ao fim sem maiores sobressaltos ou reviravoltas. Um resumo apertado: o pai do protagonista, Vivaldo Bonfim, estava trabalhando quando, no meio da leitura de “A ilha do Doutor Moreau”, de H. G. Wells, desapareceu sem deixar notícias. Anos depois, o seu filho, Elias Bonfim, de 12 anos de idade, herda a biblioteca deixada pelo pai e resolve ler os livros, em uma tentativa de rastrear os seus passos e encontrá-lo. A cada livro lido, Elias entra na trama e conversa com os personagens, perguntando pelo pai, e começa a deslindar uma conspiração em que ele estava envolvido, unindo o Dr. Zirkov – de “A ilha do Doutor Moreau”, de Wells -, Raskolnikov – personagem de “Crime e castigo”, de Dostoievski – e Mr. Hyde – o antagonista de “O médico e o monstro”, de Stevenson, tratando ainda de Borges e de Bradbury, tudo ligado ao desejo dos personagens de expiarem a culpa que sentiam pelos atos praticados no interior das tramas em que foram engendrados. O livro desanda para uma série de reflexões muito interessantes e ponderadas sobre a culpa, sobre o bem e sobre o mal. No entanto, ao mesmo tempo, uma história paralela se desenvolvia no mundo fora dos livros, em que um amigo de Elias, Bombo, depois de sofrer bullying por ser gordo, acaba cometendo suicídio, e o personagem tem que lidar com a própria culpa. Não encontra o pai, mas, em um determinado momento, a “fuga” dele passou a ser mais um escapismo do que uma prisão, e o personagem prefere encarar as consequências das suas ações e omissões dentro do mundo em que vivemos, encontrando somente conforto nos livros que continua lendo, não indo morar dentro deles.

É um livro que, mesmo tendo uma pegada infanto-juvenil (em boa parte devido à “empolgação” do autor em narrar circunstâncias adolescentes por esta ótica, pois, se não fosse esse detalhe, seria um livro adulto sobre questões adolescentes), consegue fazer refletir sobre várias questões, que vão desde a força da literatura de nos fazer sair da realidade em que vivemos até o sinal de maturidade que é admitir nossos erros e falhas. Não subestima os jovens, como tantos livros infanto-juvenis infelizmente fazem: trata de temas como morte na adolescência e “desaparecimento” de um pai de forma clara e responsável, sem ocultar nada. Também fala da dificuldade de admitir que todos possuem um lado negro, repleto de segredos e dores que preferimos ocultar, mas o segredo não é eliminá-lo e sim como conviver com ele.

Por não ser um livro longo e ter capítulos curtos, mantém a tensão narrativa de forma muito adequada. Oscila entre frases comuns e diretas com momentos de muito lirismo. Outro traço característico da boa literatura infanto-juvenil: não possui uma linguagem domesticada, moralizante ou que trata o jovem como alguém de baixa capacidade cognitiva, mas utiliza palavras simples, honestas e que conduzem a história com habilidade, sem ser hermética ou redutora de sentidos.

Existe uma inesperada dureza no final, algo que espanta um pouco pelo abrupto choque com a realidade. Quando Elias está dentro de algum livro, mesmo sendo ameaçado, há um caráter ligeiramente farsesco nas ameaças. No entanto, é fora da literatura que a vida acontece, cheia de asperezas, dores e pequenas covardias, e nela surgem os conflitos, gerando traumas e medos. A literatura suaviza a vida e, se levada a extremos, pode acabar criando uma bolha de irrealidade na qual um leitor é capaz de se refugiar e não só esquecer o mundo, mas ficar longe demais dele, longe demais das sensações. Entre viver e escrever/ler – o velho dilema – deveríamos optar sempre por viver, mas o engendrar outra realidade é tão bom que é fácil se perder dentro da imaginação.

“Os livros que devoraram meu pai” é enganoso: dentro da sua sutil escritura, temas muito vastos estão insinuados, e nenhuma questão é fechada. Sem contar que é um livro que estimula leituras, em um diálogo constante e apaixonado com as obras de outros escritores. Mostra, sem didatismo e sem soar pedante, que todo livro conversa com outros livros, e que o leitor interessado pode entrar em um emaranhado incessante de incessante de histórias que falam sobre outras pessoas imaginárias, mas também conversam com as nossas próprias histórias, tornando mais real uma frase escrita por Afonso Cruz: “Porque um homem é feito de histórias, não de DNA e músculos e ossos. Histórias.”

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4 comentários em “Livro: “Os livros que devoraram meu pai”, de Afonso Cruz

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