Arquivo do mês: abril 2013

Texto meu no blog “Leituras do Século XXI”

No dia 06 de abril, estive presente no seminário “Leituras do Século XXI” (tem blog: www.leiturasdosec21.blogspot.com.br), capitaneado pela professora  Léa Masina e pela minha colega escritora Daniela Langer. Nesta oportunidade, assisti à uma elucidativa palestra do professor Ricardo Barberena sobre literatura contmporânea, e acabei externando as minhas inquietações em um texto que está agora disponível na internet para quem desejar ler.

Segue o link:

http://leiturasdosec21.blogspot.com.br/2013/04/a-literatura-sombra-do-contemporaneo.html?spref=fb

Na expressão “literatura contemporânea”, qual das duas palavras é a dominante? Em qual momento o contemporâneo acaba destruindo a literatura da qual se origina e virando outra coisa? Gostaria de saber as respostas, mas, enquanto não possuo dados suficientes, compartilho as dúvidas com vocês, meus leitores. Participem lá do debate.

Boa leitura

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1 comentário

Arquivado em Artigo, Leituras do Séc. XXI, Literatura Contemporânea, Produção acadêmica, Produção Literária

Sobre a arte (perdida) da insinuação

É uma pena que as pessoas tenham perdido a arte de realizar insinuações, e uma lástima ainda maior que a literatura dita contemporânea – talvez influenciada pelo cinema ou pelas artes plásticas – baseie todo o caráter ficcional em uma enxurrada descritiva que deixa pouco espaço para a imaginação participar. Não são poucos os livros que afasto, cansado desta hemorragia de imagens (e do uso extremo de lirismo desastrado, mas isto é assunto para um outro momento). Para ler, precisamos de descrições, mas, quando elas estão em excesso, toda a diversão  de imaginar acaba se perdendo. O livro deixa de ser um diálogo com o leitor e vira um enfastiante monólogo.

Insinuar algo é uma arte na vida real: não basta plantar a semente na cabeça alheia. Também é necessário regá-la, cultivá-la, sonhá-la, tudo para que floresça e acabe se formando como uma certeza, mesmo sem jamais ter sido pronunciada. O que eu mais vejo são pessoas fazendo insinuações despropositadas, quase machadaços, sem nenhuma sutileza e, não raro, gerando o efeito diverso. A boa insinuação é aquela que diz tudo com o mínimo de elementos, interagindo mais dentro da mente do outro do que através de algo que tenha sido dito. As pessoas hábeis em insinuar são jogadores de xadrez capazes de prever jogadas de cinco, seis lances.

Na literatura, insinuar é uma capacidade em desuso. Neste caso, não é uma pessoa com quem se joga, mas com todos os leitores. E, para ser eficaz, a insinuação precisa ser entendida por todos e fazer um jogo mental com a imaginação desta figura, o leitor desconhecido. É pior do que o contrato de verossimilhança. Uma insinuação bem feita vale mais do que o livro inteiro.

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Recordo de dois casos em específico. É engraçado dizer isto, mas as maiores lutas que presenciei na literatura não existem como descrições literais. Elas aconteceram mais na minha imaginação do que dentro dos limites de um livro. São mais pedaços e estilhaços do que uma descrição inteira.

A primeira delas está em “Teresa Batista Cansada de Guerra”, do Jorge Amado. De um lado, Januário Gereba, um felino lutador de capoeira; do outro, uma quantidade indefinida de bandidos e de soldados. Toda vez que Januário se envolve em uma briga contra frequentadores de bar ou com a força policial, passes de mágica acontecem, forçando o leitor a fazer a ponte entre a narrativa e a imaginação. Na primeira luta em que ele aparece, dentro de um bar, a descrição é sucinta e suficientemente misteriosa para a interação do leitor:

“Sozinho tinha posto fim ao bafafá, rindo e falando alto, dirigindo-se a presentes e ausentes, pessoas e encantados; emérito no jogo da capoeira. Quando o tipo da polícia sacou do revólver, ameaçando atirar, nessa hora Flori desligou a luz e a responsabilidade fez-se coletiva e assim inexistente; quem pode dar testemunho do sucedido no escuro? O caboclo então lhe tomou a arma num passe de mágica e, se o secreta não houvesse espatifado a focinheira no chão, até se poderia dizer, não passando por mentiroso, tê-lo feito sem uso de pernas e mãos, na pura delicadeza.”

A luta continua, enquanto fregueses se misturam na confusão e Januário faz um estrago, até a chegada repentina de reforços policiais dispersar os brigões.

Em outro trecho, Januário volta a aparecer envolvido em uma briga contra vários policiais, novamente ganhando.

“Uns rapazes lhe contaram que a polícia prendera um arruaceiro (perigosíssimo, segundo revelou um dos tiras), aliás tinha sido necessário juntar para mais de dez agentes e guardas para conseguir sujeitá-lo, o fulano era mesmo perigoso, jogador de capoeira, quebrara uns três ou quatro policiais. Um cara enorme, com jeito de marinheiro. Não podia haver dúvidas sobre a identidade do preso. Os secretas estavam com raiva, desde a noite da briga.

— Já andei de um lado para outro, fui parar na central de polícia, estive em duas delegacias, ninguém dá conta dele.”

Em nenhum momento as lutas aparecem nas páginas do livro, elas só surgem em caráter entrecortado, na forma de conversas de outros personagens. Desta maneira, o leitor acaba sendo informado de que, toda vez em que entrava em uma briga, Januário era uma pessoa letal, um animal quase invencível.

As descrições luxuriosas de Jorge Amado deixam implícito que Januário Gereba era um mestre supremo da capoeira, tanto que a usava como dança e como uma mortífera arte marcial.  O fato de não existir descrições das lutas e a circunstância do marinheiro ter vencido uma série de batalhas impossíveis sempre fizeram a minha imaginação escrever um roteiro muito mais empolgante do que Jorge Amado conseguiria.

Outro exemplo de insinuação vem dos quadrinhos. Permitam-me ser um pouco contemporâneo: sim, eu considero os quadrinhos como uma forma artística na qual os desenhos podem se equiparar às melhores pinturas já feitas e os roteiros podem rivalizar com os de grandes romances. Não vou entrar na discussão epistemológica se quadrinhos são ou não literatura. Na minha concepção, eles são, pois preenchem os requisitos de uma boa história a ser passada no decorrer dos anos, e isto basta.

Na graphic novel “Os Livros da Magia”, escrita pelo Neil Gaiman (meu autor fetiche, mas não espalhem), é realizada uma grande homenagem aos personagens mágicos da DC Comics. A história gira em torno de um menino, Timothy Hunter, que tem o potencial de ser o maior  mago de todos os tempos, só não se sabe se para o bem ou para o mal. Um agrupamento díspare de magos resolve lhe mostrar os dois caminhos que podem ser seguidos. A assim intitulada “Brigada dos Encapotados” é constituída por John Constantine (o maior personagem que já foi criado, outra hora eu defendo a minha teoria), Doutor Oculto, Mister Io e o Vingador Fantasma.

Desde o início, eles mencionam, de forma indiferente, uma organização inimiga que teria se formado para matar o garoto, intitulada Chama Fria. Através de rápidas pinceladas, sabe-se que esta organização evolui a passos vistos e adquire poder crescente, tanto que realiza um atentado contra a vida de Timothy Hunter. Por meio de informações periféricas ditas por outros personagens, o leitor acaba descobrindo que os membros da Brigada dos Encapotados estão fazendo uma investigação e, logo, sitiam o local onde se reúne esta organização.

Impossível o leitor não se sentir angustiado ao imaginar como três seres pretendem atacar uma quantidade indefinida de inimigos poderosos (novamente a indefinição sendo plantada no espírito alheio). Não se pode esquecer que, enquanto a ação ocorre em um extremo desconhecido da narrativa, o foco do autor se mantém contando a história nada interessante de Timothy Hunter, deixando o leitor com a sensação de que está perdendo a melhor parte da trama.

E, enfim, a ruptura. Um bilhete inesperado convoca John Constantine a se juntar aos seus outros amigos para invadirem o esconderijo da Chama Fria. Enfurecido com a confusão em que foi envolvido, Constantine se afasta de Timothy Hunter e desaparece na sombra criada pelo autor e na qual se desenvolve a luta. A partir deste momento, só se ouvirão relatos da batalha invisível, e os relatos parciais são repletos de lacunas. Um personagem menciona que a batalha envolve “feitiços. Sacrifícios. Gente morta por toda parte (embora isso não seja novidade)”. O silêncio seguinte é desesperador.

Em outro momento, em uma conversa de salão, o leitor é informado de que a batalha que ocorre em outro lugar está cada vez mais intensa: “As coisas que eu estava contando… você não acreditaria. O culto de Kali, três esquadrões da morte ninjas, a Confraria da Chama Fria, mil elefantes…O Vingador Fantasma, o Dr. Oculto, Constantine, o outro pirado… TODOS eles. A maior batalha do oculto. Sangue. Devastação. Coisas estranhas.”

Para deixar a situação ainda mais instigante, só se sabe o resultado da batalha quando John Constantine retorna, e ele está com o rosto repleto de machucados e visivelmente ferido. A batalha foi vencida, mas só podemos imaginar as condições em que esta batalha contra um inimigo invisível e muito poderoso acabou acontecendo, pois a descrição nos foi habilmente escondida. Toda a luta acabou sendo insinuada, mas a insinuação foi tão bem feita que o leitor não percebe que a sua imaginação acabou sendo estimulada ao máximo. Na cabeça do leitor, novamente a luta foi bem melhor do que as palavras do escritor conseguiriam relatar.

Nos casos destas duas fenomenais batalhas que jamais aconteceram, acabamos com  a sensação de que lemos a sua descrição. No entanto, por um jogo narrativo que acabou contando com a cooperação involuntária do destinatário da obra, o autor conseguiu criar a aparência de verdade dentro da verossimilhança de uma obra. Uma verossimilhança dupla que dependeu do esforço lúdico do leitor e do sucesso da insinuação literária.

Acredito que esta seja uma das características mais interessantes da literatura: a capacidade de, em um jogo de espelhos, deixar a imagem refletida mais real do que as próprias palavras que a constituem. E exemplos são abundantes neste assunto. Quem esquecerá Luca Brasi, o assassino de confiança de Don Corleone em “O Poderoso Chefão”, de Mario Puzo, uma personagem tão assustadora que os mais empedernidos mafiosos a temiam, “um homem que intimidaria o próprio diabo no inferno”? As suas histórias eram sussurradas com respeito e medo nos meandros da narrativa. Imaginava-se que, quando ele aparecesse de forma efetiva na trama, seria decisivo. No entanto, a sua participação acabou sendo extremamente rápida e decepcionante. O autor brincou com a expectativa dos leitores, mas de forma adversa, construindo um mito e, em seguida, fazendo-o desmoronar em curtas frases.

É uma pena que as pessoas tenham perdido a capacidade de insinuar com classe. Há um grande embrutecimento das relações quando se desconsidera o valor de uma boa insinuação. E a literatura, com a sua atual incapacidade de ser sutil e deixar o leitor interagir com a história por meio da ausência, sai mais empobrecida. Nem sempre o excesso de descrições é uma boa estratégia; às vezes, a verborragia nada mais faz do que esconder a arrogância do autor e o seu desejo subreptício de mostrar ao leitor que, se não for a sua luz criativa a lhe guiar, ele é incapaz de imaginar sozinho. E ter este pensamento é um erro: uma das grandes vantagens da literatura é  jogar com os sentidos do leitor. As maiores histórias não precisam estar escritas. Ao contrário: escrevê-las também pode estragá-las.

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Arquivado em Capoeira, Insinuação, John Constantine, Jorge Amado, Neil Gaiman, Quadrinhos, Tereza Batista Cansada de Guerra

Texto meu no blog “Las Meninas”

Eu gosto muito da ideia do blog “Las Meninas” (www.lasmeninasmoda.blogspot.com.br), um espaço em que a moda encontra e revive trechos literários, filmes e livros. Nestes tempos em que as pessoas acham, de forma arrogante, que o mundo nasceu com elas, é consolador ver um local em que se mostra a tradição e como ela repercute na atualidade. Não somos tão originais quanto imaginamos, e pertencer a uma ideia em progressão e a um conceito humano é melhor do que parece.

Pois bem, a Laura me convidou a escrever um texto para o blog delas, e eu cometi a ousadia de falar de moda para especialistas. Como sou um menino, falei de ternos e o que eles me invocam: o Uruguai, homens bem vestidos em cafeterias, os quadros de Edward Hopper, a música do ZZ Top e os contos de Juan Carlos Onetti. Parece uma salada incompreensível, mas não se preocupem, tudo faz sentido. Até o fato de homens andarem com roupas desconfortáveis e que tentam lhe sufocar.

Segue o link:

http://lasmeninasmoda.blogspot.com.br/2013/04/ternos-e-cafe.html

Boa leitura!

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Arquivado em Crônicas, Impressões, Juan Carlos Onetti, Las Meninas, Literatura, Moda, Produção Literária, Terno

O inverno que não acaba

Estamos no outono, mas o inverno se apossou do meu corpo há alguns meses. O silêncio do frio brinca com a minha inconstância interna. Afundo na areia movediça branca. Rajadas me infestam, espalhando-se como fractais enlouquecidos. Não sinto, não respiro, não vivo. Congelo.

Ninguém suspeita disso. Acham que estou ali, inteiro, e não suspeitam da inesperada jornada que faço por dentro do meu inverno. Quando divisei a Fossa Mariana onde estava prestes a entrar, imaginei que seria um percurso curto. No entanto, os dias passam e ele se torna cada vez mais inóspito, cada vez mais cruel.  Caminho nos cenários repletos de depressão à procura de placas capazes de me guiar. Ou atrás de algo que perdi, algo que não sei o nome, mas é importante. Ou devia ser.

Diz Tchekhóv que, quando as pessoas são felizes, elas não reparam se é inverno ou verão. Não soa como um presságio muito promissor saber que só sinto o inverno por dentro. Sinto-me um traidor ao recusar a própria existência da felicidade, ao afastar de mim o conforto de dias melhores. Alguns dizem que o inverno está chegando; em mim, ele chegou há algum tempo e nunca mais saiu.

O mais coerente com meu estado de espírito pode ser Paulo Leminski, que escreveu:

Inverno

É tudo o que sinto

Viver

É sucinto

Neste longo inverno da alma, as minhas funções vitais estão preservadas no mínimo de força para permitir a sobrevivência. Reconheço em mim a postura do urso: recolhido na caverna, deixo o inverno vir de dentro para fora, diminuindo as batidas do coração, os sobressaltos da surpresa, a intangibilidade da alma. Diriam que estou dormindo, mas estou preservado: sou o mamute dentro do bloco de gelo. Não sinto, logo não sofro. O meu interior é possuído por um inverno muito mais inóspito, pois, mais do que uma estação, também é um estado de espírito.

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Quem tentar chegar na minha alma através dos olhos, irá se deparar com a nevasca incessante que borra os sentidos e perturba a jornada. No meio do desfazimento do universo em ondas de pedaços brancos, eu caminho, ainda procurando. Ainda perdido. As migalhas do labirinto se desvaneceram; tento encontrar a trilha e ela se desfaz em ilusões. Também existem miragens na neve. Dentro do meu inverno, os fantasmas brincam com suas vozes e me enganam. Eu não consigo mais confiar nos meus pensamentos. Estou vendo a realidade de forma errada.

Gostaria de ter o otimismo de Victor Hugo, quando diz que o inverno cobre a sua cabeça, mas uma eterna primavera mora no seu coração. Seria uma esperança inútil, pois é no coração que mora o centro do meu inverno, seu último bastião de resistência. O deserto ainda possui enganadores oásis nas curvas do seu labirinto sem paredes; no meio do inverno não existe o consolo de uma lufada de ar cálido ou a tranquilidade de um pouso seguro. Os sentimentos estilhaçam-se, mostrando a sua estrutura quebradiça. Quando se mora no nada, só existe silêncio e ausência. Nem o eco chega lá.

Camus escreveu que, nas profundezas do inverno, ele finalmente descobriu que, no seu interior, morava um verão invencível. O verão realmente é necessário? Não me desagrada viver neste inverno constante. Prefiro a calma da minha frieza do que a tepidez inesperada. Pelo menos ele não me ilude; congela, mas não destroi; preserva, mas não deixa nenhuma dor entrar. Agora que entrei neste caudaloso tempo de escuridão e ausência de outro sentido que não seja achar uma zona erma, não lembro mais o que é sentir calor. Acho que não tenho mais sangue.

Queria que a vida fosse simples o suficiente para ter os cinco desejos de Neruda:

Quero apenas cinco coisas..

Primeiro é o amor sem fim
A segunda é ver o outono
A terceira é o grave inverno
Em quarto lugar o verão
A quinta coisa são teus olhos
Não quero dormir sem teus olhos.
Não quero ser… sem que me olhes.
Abro mão da primavera para que continues me olhando.

Mas a vida não é nada simples e, enquanto as estações se sucedem fora do meu corpo, não encontro esta paz de espírito. Por isto, fecho as portas e continuo vivendo no meu inverno que nunca acaba. Não espero achar a enganosa primavera ou o verão repleto de infantilidades; minha alma caminha no frio insondável e receio que ela esteja procurando lembrar o meu próprio nome, aquele que esqueci.

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Outra resenha no Amálgama

Saiu mais uma resenha minha no Amálgama (www.amalgama.blog.br).

Desta vez, trato do livro “Balzac e a Comédia Humana”, de Paulo Rónai, livro de ensaios do escritor húngaro naturalizado brasileiro abordando várias possibilidades e chaves de leitura da portentosa obra de Honoré de Balzac, que está sendo relançada no Brasil. Para quem já conhece o livro (ou partes dele, “A Comédia Humana” é gigantesca), vale a pena ver o aprofundamento de alguns temas e a abordagem de novas formas de leitura, em especial o “dilema do mandarim” como questão fulcral na obra balzaquiana.

Segue o link:

http://www.amalgama.blog.br/04/2013/balzac-e-a-comedia-humana-paulo-ronai/

Boa leitura!

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Arquivado em Amálgama, Literatura, Paulo Rónai, resenha