Arquivo do mês: março 2017

Um conto para você, leitor e leitora do blog

Olá, leitor e leitora do blog.

Sim, você mesmo. Não olhe para trás, não estou falando com outra pessoa. Pois é, hoje vim falar com você mesmo. Rompi a barreira que separa autor do leitor, e resolvi deixar de ter um texto como intermediário para conversarmos de forma direta.

Em primeiro lugar, para pedir desculpas. Sou um blogueiro meio ingrato. Em geral não penso muito nos leitores. Às vezes, inclusive acho que não tenho nem seguidores e nem leitores, e que o WordPress brinca comigo criando visualizações para não me desanimar. Talvez o WordPress não queira me ver deprimido: “puxa, vou dar uma força para o cara, ele fez o texto com tanto esforço, merece umas visualizações e, voilá, eis 200 visualizações, Gustavo”. Parece muito verossímil. É um pouco difícil de acreditar que existem pessoas que leem meus longos textos! Então, se for isso, muito obrigado pela mentira, WordPress.

Aliás, o meu nível de ingratidão é tão grande que nem sei quantas visualizações tem esse blog. Sou ruim de números, e eles não me importam tanto, somente o texto. Mea culpa, mea maxima culpa: isso que dá escrever sem pensar em ser lido, às vezes a gente acaba sendo lido mesmo. Pois hoje descobri que tenho 95.367 visualizações – até esse momento. Pois é. Quase 100 mil vezes esse blog foi acessado. Se colocasse todas as pessoas deitadas em fila, se transformasse cada visualização em um barbante de 10 cm, se todas as pessoas estivessem em um estádio… não sei o que aconteceria. Como eu disse, não sou bom em números.

Falando em tamanho de textos… são grandes, não é? Sei disso por que, às vezes, alguns dos leitores do blog me mandam e-mails comoventes – quase súplicas – pedindo para que eu escreva menos, pois não possuem tempo para ler tudo. Ah, não foram poucas as pessoas que vaticinaram que esse blog não seria lido por causa da extensão dos textos, que o mundo pós-moderno não quer saber de textos longos e sim de memes, e outras previsões do tipo e…. bom, 95.367 acessos. Estavam errados. Podem não ser milhões de acessos como seria se eu falasse sobre celebridades televisivas ou fofocas políticas, mas também não é um número insignificante. E números nem importam tanto.

O mais impressionante foi notar hoje que tenho 340 seguidores! Poderia, em tese, começar uma religião. Ou, talvez, dar início a um povoado. Se conseguirmos treinamento militar, dá até para ocupar um país pequeno.

Passei os olhos pela lista de seguidores e percebi que, tirando a família e alguns amigos, em torno de 290 pessoas são amplamente desconhecidas. Não sei nem como chegaram aqui e começaram a me seguir. Para ser sincero, tenho até um pouco medo de saber. Pois a única explicação lógica é que essas 290 homens e mulheres estavam vagando pela internet, chegaram – por caminhos desconhecidos – a esse blog, gostaram do que leram e resolveram ficar. Se isso for verdade, é tão incrível que nem sei o que dizer.

Aliás, esses 290 seguidores sequer me conhecem ou sabem como sou. Alguns deles são de outros países (é isso ou os hoaxes andam cada vez mais criativos). Por isso, deixem eu mostrar quem sou:

Esse sou eu. Muito prazer a todos. Se algum dia me verem passando por aí, por favor, digam que me leiam e vamos conversar e trocar ideias.

Acredito que boa parte de vocês desconfia, mas também sou escritor. Bom, sou muitas coisas, nem todas dizíveis em horário nobre, mas escritor também. Escrevi um livro de contos, “O homem despedaçado” (isso mesmo, o nome do blog), e agora está saindo o segundo livro de contos, “Não há amanhã”. Olhem que legal ficou a capa dele:

Aliás, vou dar um spoiler: esse banco de praça abandonado em uma praça tem muito a ver com dois contos do livro. Não está aí por coincidência.

Para quem estiver a fim de adquirir o livro, ele já está à venda no site da editora e, em breve, estará por várias livrarias do Brasil, virtuais e físicas. Para quem tiver dificuldade de encontrar – ou ser como eu, um paranoico rematado em compras via internet – podem entrar em contato comigo, que dou um jeito do livro chegar até onde estiverem. Enquanto isso, segue aqui o link para quem desejar adquiri-lo no site da Editora Zouk:

http://www.editorazouk.com.br/pd-43a8cb-nao-ha-amanha.html?ct&p=1&s=1

Não posso terminar essa postagem sem agradecer a todos vocês pela confiança nesses cinco anos de blog, e pelos quase 100 mil acessos. Obrigado mesmo. Perdoem o fato de eu ser um pouco “mocorongo” nessas questões virtuais e por ter criado um blog que, como um amigo me disse certa vez com desespero na voz, é o “ambiente mais hostil já criado para um leitor virtual”.  Aqui não tem espaço para fracos.

Deixo um presente, para vocês que me acompanham com tanta fidelidade. Um conto que não entrou em “Não há amanhã” (já tem 30 contos no livro, chega uma hora de parar, né) e que só existirá aqui, pois não pretendo publicá-lo. Ele tem uma proposta de escritura meio arrojada, uma constante inversão de narradores (dentro do mesmo parágrafo) e é uma ode à criação e às criaturas ou, como gosto de pensar, sou eu quem crio ou a criação que me inventou?

Boa leitura, pessoal, e nos falamos – sempre – por aqui.

Pigmalião inversus

Quando aparei a última aresta, pequeno defeito no ombro, senti a sua respiração, e foi algo bom, mistura de arrepio e neblina: as coisas mudaram e eu soube que lhe tirara da pedra para me fazer companhia, e tudo pareceu com tanto sentido de repente, como se o mundo parasse de rodopiar para dizer que você era o meu prêmio por tanto trabalho e miséria e sofrimento e as coisas que acontecem quando não se tem dinheiro, mas dom nas mãos. Sim, você, a minha maior criação e aquela que ninguém verá, pois os olhos dos homens e mulheres são indignos de tocarem nos pontos onde somente a minha mão pode passear, na carícia do formão ou na pancada gentil do martelo. Você não nasceu para ser colocada com outras estátuas, ultrajaria a sua nudez de mármore, transformaria o amor com que cuidei de cada detalhe em algo corriqueiro, você e o seu púbis saltado, as coxas fortes de quem escalava oliveiras na Arcádia, sorriso saciado, sêmen ainda escorrendo pela virilha, pelo canto dos lábios, por entre os dedos entreabertos, sêmen de sátiro passeando pelo corpo da ninfa violentada. Você existe para me servir, a ilusão do sonho que não acaba, a mulher que não envelhece, não trai, jamais abandona. Não mexer as pernas, é horrível, pior que o sorriso paralisado, este sorriso mentiroso – estou me vendo no espelho da sala, horror duplo o de ser e enxergar aquilo que se é – tão satisfeito e que só serve para esconder o grito da minha condição. Ele me fixa com olhos de louco, as mãos repletas de pedaços meus, barba por fazer, e suas mãos quentes, ambiciono este calor, sinto tanto frio, passeiam na aspereza do corpo que nada sente. Você me tirou da pedra e da sua cabeça, me sentenciou a uma vida de amargura, recolhida neste gelo sólido. Destruiu a minha essência de centenas de anos inocentes para que servisse ao seu egoísmo, por que você se ama tanto que me fez à sua imagem, ou não percebe que os olhos que encara nasceram da sua solidão, o sorriso satisfeito é aquele reservado para o final de um dia de trabalho, o meu corpo feminino feito para se adequar às investidas e recuos do seu membro. Tão preocupado você estava em criar a perfeição que descobriu a mulher incapaz de se mexer, alguém preso a esse amor doentio que o move.

Doente de merda, filho da puta insensível, as palavras de Lúcia ainda ecoam na minha cabeça, assim como a batida da porta que a tirou para sempre da minha vida. Como podia explicar para ela o amor que nos une, este amor bonito de pedra e carne, ela nunca iria entender que não existe espaço para duas no meu coração e, entre ela e você, mil vezes o sabor duro das suas juntas ao invés da incerteza da carne feminina. Você é imortal, como gostaria que compreendesse a extensão do presente que lhe ofertei, o maior presente que alguém pode dar a outra pessoa, mas você não entende, fica aí com este ar sensual, sem saber que está diante do homem que desafiou o Tempo para estar ao lado da mulher sonhada no meio de uma bebedeira; ah, querida, você me tirou da companhia da garrafa, afastou as más influências, me guiou pela escuridão e mostrou o amor eterno. Explicar para você, que não consegue me ouvir, é o mesmo que explicar para Lúcia o que ela viu quando abriu a porta do atelier, ela foi capaz de entender o simbolismo do ato e nem tentou entender, me julgou com só um olhar, condenou e bateu a porta, doente de merda, filho da puta insensível, eu, cujo único pecado foi amar, eu, que disse para Lúcia na nossa primeira noite juntos que nunca a amaria, meu coração pertencia a outra. Você não pode ouvir, mas se colocar a cabeça no meu peito saberá que imploro pela liberdade, ambiciono a minha antiga forma e não este arremedo repleto de curvas desagradáveis, sinto tanto frio, tanto. Não é minha culpa que você deseje preencher as faltas de sua vida. Pensa ter criado, mas você destruiu, não consigo mais lembrar como era, e o sorriso abestalhado do espelho, aquele que você me deu, mostra que estou satisfeita, mas eu não estou. Gostaria tanto de sentir novamente o calor do sol na aurora de tudo, quando só existia o silêncio e não haviam criaturas para brincar com nossa aparência, seres com egoísmo tão grande que criavam para não se sentirem sozinhos. Agora tenho que aguentar o seu olhar injetado diante do meu rosto, bafejando na face imóvel, lambendo a orelha de pedra e sussurrando palavras de amor falso, mentiroso e passageiro como tudo o que a carne sente. Você é fraco, não passa de poeira em acúmulo, já vi centenas do mesmo material que você, eles passaram e eu continuo, eterna na minha existência e na vergonha das coisas que presenciei você fazer com meu corpo.

Eu não tive culpa. Quando concluí a última batida e vi a perfeição que agora respirava em silêncio, imobilizada na pedra, o impulso de adorá-la foi demais, e nunca foi tão bom ver o sêmen correndo pelas pernas de uma mulher, você nasceu para ser diariamente homenageada, merece ser o acúmulo insensível do meu esperma. Pena que Lúcia tenha interrompido, mas acabou sendo bom. Logo ela teria que entender que somente você, com seu olhar vazio e os cabelos de Medusa, consegue me fazer sentir algo, e isto é o mais próximo que já cheguei do amor, este amor para o qual me julgava invulnerável e que me acertou quando vi a mulher perfeita em um sonho de bêbado, amor que precisava ser desgarrado do sonho para virar uma estátua. Passar a vida presa em uma situação insustentável, este é o meu dilema: não passo de um capricho da criatura que concebeu esta forma bestial, despindo a aspereza que me acompanhava desde o início. Algo na minha nova estrutura atinge os olhos e o membro deste ser, que não cessam de verter lágrimas, cristalinas ou brancas, como se eu fosse o sentido da sua vida passageira, que absurdo, dedicar uma existência tão frágil à adoração da pedra, ele devia juntar-se aos seus iguais e não perder tempo com algo que lhe ultrapassa. As criaturas de carne prendem a transitoriedade em seres imutáveis, perdem tempo, fazendo como esta pessoa, parada na minha frente e imaginando estar diante do amor da sua vida quando ele acabou de bater a porta e ir embora. Pena que não entendem a verdade, não podem amar um pedaço de pedra, somente iguais amam, as criaturas de carne e pó dedicam o amor à busca da perfeição, ao passo que a pedra possui sentimentos que não mudam, dores que não esquece, tristezas insondáveis no fundo do mármore.

Agora preciso viver desta maneira vazia, sem sonhos, estou diante da mulher que sonhei e ela está sorrindo e nós transamos (na medida do possível), ela sorri quando eu conto o meu dia e o seu sorriso malicioso me convida a um novo sacrifício a escorrer pelo seu corpo eterno, ela sabe que nunca poderá me abandonar. Tem pés fixos, mas não está triste, pois, na sua cabeça constante, com pensamentos femininos materializados no tempo e espaço, ela me ama. Prendi o amor na pedra. Contudo, há um abismo no meu peito, um buraco dizendo que não adianta estar ao lado de uma mulher se ela não pode sentir e não posso senti-la por inteiro. O amor ideal continua tão longe quanto na época em que o forjei dentro do sono, estar ao lado de uma mulher que não pode amar e só ser amada é tão horrível quanto não estar. Pare de me encarar com estes olhos imersos em mansidão, olhos que refletem a angústia de quem foi modificada para lhe servir, virar depósito das coisas que saem do seu corpo. Pedra eu sou e continuarei sendo pelo resto dos tempos, criatura eterna em contraste com a sua fraqueza, ser de poeira. Você precisa se conformar com a sua natureza, pois nada mais é do que uma passagem, um intervalo, enquanto eu sou o ponto em comum que o une com seus antecessores e posteriores, eu sou a que estava e a que vai ficar para ver a geração que lhe seguir, e a outra, e a outra. Modificar a minha forma não altera a solidão da sua vida. Os olhos castanhos refletem um vazio comparável à minha imensidão, um corpo inerte que não possui maiores objetivos, uma criatura que necessitaria ser moldada pela minha paciência, isto, claro, se quisesse aprender que, diante de mim, você não representa coisa alguma e se assemelha a um aglomerado de sujeira marrom. Encare minha frieza, criatura de gesso e líquido, e começará a entender que mudar a minha forma é atingir a imortalidade, se equiparar à minha beleza, nada sentir, tudo ser e jamais recear o fim.

Contudo, a vida existiu por um motivo, e esta vida foi preâmbulo do sonho em que lhe criei, amada minha, e talvez este sonho tenha um significado maior do que conseguimos ver, pois não fui um homem, mas somente uma criatura que sonhou o motivo da sua morte. Agora sei que, sem você, não posso viver. Cumpri a missão, criar o motivo pelo qual morrerei, uma morte por amor desenfreado, existe uma única forma de nos juntarmos e, se não pode ser em carne, que o seja na rigidez dos que nada sentem, na ausência de respiração, na dureza que é sua maior virtude, um encontro na eternidade para a qual me dirijo. Espirro de areia, você foi útil, despertou pensamentos sobre o que sou e o que posso ser, e agora vejo você se afastar com passos rápidos, tensos, e me sinto sozinha, como se o seu calor se transmitisse, sinto saudades surpreendentes. Quando o vejo com a faca, disparo gritos em silêncio com este sorriso zombeteiro, não tente se juntar a mim, pois você é poeira e eu sou pedra, não tente, não tente e você não escuta. A faca entra no peito frágil que eu odeio, e só então entendo que o amo com toda a força que uma pedra pode amar o homem que lhe prendeu, e vejo você cair e sua mão tocar meu peito, a coxa, resvalar até o chão, seu sangue na minha sombra branca, você tentou me resgatar da pedra virando uma, meu pequeno amor, tola criatura de poeira que aprendi a amar.

Uma lágrima corre do olho. O líquido vermelho esquenta a sola do meu pé. Grito ao entender o que perdi e, desta vez, o som sai, se espalha no atelier, dançando nas cortinas, nas roupas do homem enrijecido.

“Pigmalião e Galatéia”

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Obras Inquietas – 25. “Bela Adormecida” (1899), Henry Meynell Rheam

No meu texto dessa semana no “Obras Inquietas”, eu falei sobre uma pintura de Henry Meynell Rheam, um pintor pré-rafaelita, chamada “Bela Adormecida” (1899).

Existe algo que sempre me deixa perplexo sobre esse quadro. Quando estamos dormindo, ficamos vulneráveis e, nessa condição, qualquer coisa pode acontecer. A sensação de que alguém espia a nossa vigília é uma das mais antigas que tempos, e vem da época das cavernas. Muito dos terrores noturnos que sacodem algumas pessoas – entre elas eu – está nesse receio ancestral: o de que existem presenças que estão ao nosso lado e não conseguimos ver.

A predominância do azul no quadro também não é uma coincidência: no passado, o azul era considerado um tom opressivo.

Boa leitura.

“Bela adormecida” (1899), Henry Meynell Rheam

 

Você pode não saber, mas ele está ali, ao lado da cama, analisando os seus traços fisionômicos com um misto de escárnio e ternura. Pode não ter um nome para essa presença, mas sabe de quem estou falando. É mais um desconforto, uma sombra um pouco mais soturna que se destaca na parede do quarto, um arrepio que não devia eriçar sua pele, mas, ainda assim, está ali. As crianças tentam nomeá-lo: Homem de Areia, Devorador de Sonhos, Bicho Papão. Com o passar dos tempos, damos outros nomes (Horla, vampiro), mas a presença nunca deixa de nos acompanhar. Afinal, nomes não importam, pois ele está sempre no canto do quarto onde a luz tem medo de entrar, velando o seu sonho, tão próximo que a boca está a centímetros do beijo, tão atento que você pode sentir o toque gelado roçar a sua face. Quando está irritado, o hálito dele causa pesadelos horríveis que parecem nunca terminar, e você se sente sufocar no tempo infinito que mora dentro do horror. Quando feliz, ele sussurra histórias que lhe deixam com um sorriso bobo. No entanto, existem vezes em que essa presença invisível deseja o seu mal. Nessas noites, a criatura sem nome e sem rosto senta sobre o seu peito e sorri angelicamente enquanto pressiona o seu pescoço com dedos repletos de morte, sentindo você sufocar dentro do pesadelo, escutando os gritos sem som que você solta. Em geral, após brincar um pouco trazendo a morte para dentro do sono, a presença recua, e se regozija ao ver o seu despertar no estertor de um grito suado. No dia seguinte, você não saberá o que lhe deixou tão mal ou o pesadelo que transformou a noite em um inferno sem fim, e é provável que nunca saiba o quão próximo da morte esteve. Contudo, um dia, a presença irá cansar; os dedos serão um pouco mais firmes ao redor do seu pescoço, sua vontade um pouco menos volúvel. Nesse dia, você estará no pior pesadelo de todos e não irá sair nunca mais dele, enquanto o espectro beija seus lábios e retém o seu último suspiro como se fosse o manjar dos deuses. Algumas pessoas chamam tal presença de Medo, e saber que ele nasceu conosco e está sempre próximo, ansioso para cravar suas garras ao menor sinal de distração, é o que nos deixa em constante estado de tensão por estarmos vivos.

Texto originalmente publicado no link https://artrianon.com/2017/03/19/obras-inquietas-25-bela-adormecida-1899-henry-meynell-rheam/

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O estímulo à leitura da Librairie Mollat, de Bordeaux

Uma das contas do Instagram que me dá mais alegria de acompanhar é a da Librairie Mollat, que fica em Bordeaux, na França.

Isso por que os funcionários e clientes do local encontraram uma maneira muito criativa de entusiasmar a leitura: passaram a usar as capas do livro como parte dos seus semblantes.

Alguns anos atrás, lembro que a Feira do Livro de Porto Alegre fez isso, mas, se bem me recordo, foi uma ação institucional e durou o tempo da Feira, além das capas serem fictícias (talvez por causa do receio das implicações comerciais). A Librairie Mollat pouco se importa com questões de publicidade ou de propaganda, prefere falar de livros, e suas fotos são muito engraçadas.

Tenho percebido que a literatura tem se levado muito a sério, e não precisa ser assim. É possível estimular a leitura com práticas divertidas e que não dependem da boa vontade dos governos, só usando um pouco de bom humor.

Vou colocar algumas fotos aqui, mas fica o convite para segui-los no Instagram.

 

 

 

 

 

 

 

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Obras Inquietas – 24. “Garota comendo pássaro (O prazer)”, 1927, René Magritte

No meu texto da semana passada no “Obras Inquietas”, eu falei de “Garota comendo pássaro (O prazer)”, de René Magritte, um dos meus pintores surrealistas favoritos.

O que eu mais gosto nos quadros de Magritte é o deslize abrupto entre o título e a imagem. No caso desse, o título é espantosamente linear em relação à imagem, mas a expressão entre parênteses, “(O prazer)”, passa algo de proibido. Perguntado sobre a sua inspiração para o quadro, Magritte foi simples: disse que a ideia surgiu ao ver a sua esposa comendo um pássaro de chocolate. No entanto, a sequência de pinturas que ele fez na época, entre as quais estava “O assassino ameaçado”, demonstra uma certa fixação por mortes e assassinatos.

Para o meu texto, resolvi homenagear Magritte e contrastar a liberdade do pássaro com a prisão da mulher. E alertar que nem sempre aqueles que estão presos desejam se libertar, mas só tirar esse direito de outros.

Boa leitura.

 

“Garota comendo pássaro (O prazer)”, 1927, René Magritte

A liberdade é quente e tem o gosto pastoso de sangue. Nas mãos da assassina, impregnadas de fúria contida, o pássaro agoniza em espasmos de dor, a vida se esvaindo em penas e vísceras enquanto ela trinca a carne ainda vibrante de medo. O vestido a oprime; o ar pesado a cansa; viver é seguir as expectativas dos outros. A jovem nasceu para servir, para obedecer, para abaixar a cabeça, para cumprir o destino de todas as outras mulheres que lhe antecederam, e ter essa consciência machuca mais do que o esperado. O sutiã invisível corta a sua respiração; as mãos pálidas deslizam nos ossos diminutos do pássaro, quebrando-os graças à força que imprimem sem querer, mas o ser não pensa mais em fugir, ele só pode morrer, e a dor dos ossos quebrados não é nada perto dos dentes ferozes que estraçalham a sua barriga e sorvem o seu sangue. Por muito tempo, a mulher olhou os pássaros na árvore do jardim; admirou os seus chilreios, impressionou-se com a alegria deles pulando de galho em galho, observou – com inveja – quando eles voavam para longe, indo para onde bem entendessem, sem ninguém para lhes controlar. Quando se aproximou da árvore naquele dia, tinha o seu objetivo em mente; esticou a mão, prometendo uma carícia na penugem do pássaro, que se aproximou, com a lentidão dos ingênuos. A mulher ainda escuta o som que escapou dos pulmões do pássaro quando foi agarrado com firmeza, o olhar incrédulo e luzidio que lhe lançou ao ver os dentes – aquela coluna branca repleta de lâminas afiadas – aproximando-se da sua barriga. Ainda recorda o suspiro que ele largou quando foi destroçado pela voracidade da sua assassina. A mulher come o pássaro, deleitando-se com a carne cada vez mais morta. Um prazer quase indecente irradia-se da sua boca ensanguentada e preenche a sua pele enquanto ela saboreia a vida de outra criatura. Em breve a mulher voltará aos grilhões com os quais é forçada a se acostumar, mas, hoje, a liberdade do passarinho vai ser um alívio para aquela raiva fria que somente um condenado à morte é capaz de sentir. Já que ela não pode ser livre, que o pássaro também não seja.

Texto originalmente publicado no link https://artrianon.com/2017/03/11/obras-inquietas-24-garota-comendo-passaro-o-prazer-1927-rene-magritte/

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Muita calma nessa hora

Em um mundo cada vez mais caótico, manter o controle deixou de ser uma virtude e passou a ser uma arte. Tudo conduz ao descontrole: notícias desordenadas brigam com cronologias e induzem pânico, ao mesmo tempo em que damos risadas nervosas de piadas feitas no calor do momento; pessoas matam por fatos mínimos e morrem sem nenhuma lógica; realizamos dezenas de tarefas por dia, e não somos sequer capazes de elencá-las, de tão desconcentrados que estamos. Descontrole, desordenação, desconcentração: o prefixo definidor da nossa época é “des”, e ele tem sentido negativo. Estamos nos desfazendo dentro de nós mesmos. Somos formados de átomos, e eles tendem à dispersão, oscilando precariamente em torno de um núcleo que poderíamos chamar de alma, mas que precisa ser mantido sob constante vigilância para não explodir por culpa desse mundo que insiste em bater na nossa pele.

Tenho observado esse descontrole na literatura. Usando como argumento de defesa a sua “contemporaneidade”, vejo livros que vão do nada ao lugar algum, com personagens vagando como se fossem madeiras náufragas em meio ao oceano, com conflitos batidos e cansados cujas resoluções são anti-naturais (para não dizer clichês). Tudo isso em linguagem dolorosamente poética, que se tornou um misto de propaganda mal feita e de haikais desconexos. Já dizia Sêneca que não existe vento bom para quem não sabe onde deseja ir, e tem sido uma experiência decepcionante ver boas histórias serem estragadas pela incapacidade dos seus autores exercerem um maior controle sobre a narrativa.

Na semana passada, brinquei que alguns dos meus textos se descontrolavam do nada, como se, no entremeio das linhas, eles passassem a escutar “Maniac” do Michael Sembello e desandassem a correr, a pular, a dançar. Isso me fez lembrar de Stephen King. Em “Sobre a escrita”, ao comentar sobre a fama que lhe atribuem de ser um autor que costuma realizar uma mortandade de personagens, o mestre do terror afirma que, quando começa a escrever, ele não quer matar ninguém. Gosta das suas criaturas, tem estima por elas, são pessoas com as quais gostaria de conviver.

No entanto, a partir de um certo momento, a história perde o controle e os personagens entram em uma série de situações nas quais imploram para morrer, mas o autor os ama, então evita esse destino. No entanto, chega o trecho da trama em que os personagens acabam ultrapassando os limites da sensatez, e a sua morte se torna inevitável, momento em que o autor – chateado – aceita que isso vai acontecer e lhes concede o descanso final.

Na versão de Stephen King, os personagens tomam o controle da trama e ditam o ritmo, pedindo para morrer, e o autor – esse Deus involuntário – precisa ficar desviando as facas, as pedras, os carros e as balas do caminho deles. Fico pensando no que diria Vladimir Nabokov, para quem o escritor sempre possuía o controle da narrativa, e perder tal domínio era inaceitável. Em entrevista para a Paris Review, quando perguntado sobre o que achava da opinião de E.M. Fortser (autor de “Passagem para a Índia”), grande admirador do seu trabalho e que disse “que as personagens principais de Nabokov às vezes ganham vida própria e ditam o curso dos romances”, o russo fuzilou:

“O meu conhecimento das obras de E. M. Forster limita-se a um romance, do qual não gosto. De qualquer forma, não foi ele quem deu início a essa fantasia banal a respeito de personagens que fogem ao controle; isso é mais velho do que o mundo. Se bem que, naturalmente, daria para se sentir solidário com os personagens dele, caso tentassem escapar daquela viagem para a Índia, ou para onde quer que ele os estivesse levando. Os meus personagens são verdadeiros escravos”.

Nabokov era um autor obcecado pelo controle. Ficou famosa a vez em que, no meio de uma aula, reclamando das digressões e idas e vindas de “Dom Quixote”, o escritor pegou um exemplar da obra de Cervantes e despedaçou-o raivosamente na frente dos alunos. No entanto, lendo um pouco sobre o seu método quase doloroso de escrita e as dificuldades que ele tinha para manter o controle da própria história, é possível entender um pouco do seu caráter beligerante. Em outra entrevista, desta vez para James Mossman, ao ser perguntado se escrever era um ato prazeroso ou doloroso, Nabokov respondeu:

“Prazer e agonia enquanto componho o livro em minha cabeça. Grande irritação enquanto luto com minhas ferramentas e vísceras – o lápis que precisa ser reapontado, o cartão que precisa ser reescrito, a bexiga que precisa ser esvaziada, a palavra que eu sempre vou escrever errado e preciso conferir. Depois o trabalho de ler o trabalho já transcrito por uma secretária, a correção dos meus maiores erros e até dos menores, transferindo as correções para as outras cópias; perder o lugar de cada página, tentando lembrar alguma coisa que deveria ter sido retirada ou acrescentada. Repetir o mesmo processo durante a revisão. Abrir a radiante, bela e robusta cópia pronta, abri-la e descobrir um estúpido exagero cometido por mim, mas me permitir sobreviver a isso. Depois de alguns meses mais ou menos, pegar o livro no seu estágio final e ver que ele finalmente foi ‘desmamado’ de mim. Eu agora considero isso com um pouco de efusiva ternura, assim como um homem vê não o seu filho, mas a jovem esposa de seu filho.”

Personagens não possuem vontade própria: ou o autor os comanda ou a narrativa não possui sentido, o que explica muito das chateações atuais, tanto nas artes quanto na vida, de pessoas controlando os nossos destinos e nos deixando sem eira nem beira. Estamos sendo constantemente manietados e perdendo o controle dos mais mínimos atos, seja pela família, pelo governo ou pela nossa própria moral. Aleister Crowley, que criou a única máxima legal que todo ser humano deveria seguir, “faze o que quiseres será a vossa lei”, ficaria impressionado ao ver o nosso ritmo de escravidão e de perda de liberdade, pois hoje estamos cercados por patrulhas ditando o que podemos ou não pensar.

Aliás, o ocultista Aleister Crowley podia estar livre do controle de outros humanos, mas não de deuses, fantasmas e silfos. Em março de 1904, ele queria escrever um livro para presentear a sua esposa, Rose Kelly, e resolveu convocar Thoth, o deus egípcio da sabedoria. Nos primeiros dias não deu certo, mas, passada uma semana, quando estava quase desistindo, Thoth apareceu na sala – incorporado em Rose Kelly – e disse que ele não ia ditar livros (provavelmente estava ocupado), mas, se quisesse ajuda, Hórus estava disponível, era só chamar. Crowley mudou o seu enfoque de deus egípcio, pretendendo conseguir a ajuda de Hórus, que não se dignou a aparecer, mas mandou o seu secretário, Aiwass. O ocultista teve tanto trabalho para achar um deus disposto a lhe ditar um livro que era mais fácil ter escrito um sozinho, o que só atesta a dificuldade de todo escritor para formar um romance minimamente interessante.

Nos dias 08, 09 e 10 de abril de 1904, das 12h às 13h, Aleister Crowley foi obrigado a sentar na sua escrivaninha e receber ditados de Aiwass. Nunca chegou a vê-lo diretamente – Aiwass sempre ficava atrás dele, ditando -, mas, na única vez em que o enxergou, descreveu-o como “um homem alto e escuro, de aproximadamente trinta anos, bem apessoado, ativo e forte, com o rosto de um rei selvagem, cujos olhos eram velados, pois seu olhar poderia destruir o que quer que estivesse olhando”. Foram três horas de ditado, mas delas saiu “O Livro da Lei” ou “Liber AL vel Legis”, que serviu de fundamento para todas as teorias ocultistas que ainda hoje são lidas e estudadas.

Como estava recebendo um livro ditado pelo secretário de Hórus, Crowley perdeu por completo o controle da própria obra. Não era mais dele, mas do outro. E – horror dos horrores -, enquanto estava escrevendo, o ocultista inglês começou a ver erros gramaticais no texto que lhe era passado. Não só isso: Aiwass ainda inventou de incluir narradores em cada uma das três partes do livro. Eles seriam Nuit, a Rainha do Espaço; Hadit, o Infinito Domínio das Coisas, e Ra-Hoor-Khuit, a Criança Coroada Conquistadora. Três narradores, cada um com a sua visão de mundo, mais o secretário de um deus egípcio como responsável pelo ditado controlando os narradores: Aleister Crowley perdeu completamente o controle do que estava escrevendo.

É uma pena que, pelo espaço desse texto, não possa me deter sobre o conteúdo de “O Livro da Lei”, pois é um livro fascinante; os ocultistas afirmam que cada leitor lê o que deseja ler, ou seja, estamos diante de um livro multíplice, que não possui um significado único e que cada leitor renova constantemente. É provável que eu não tenha lido o mesmo livro ditado por Aiwass, e minha leitura seja diferente da de outros leitores.

No entanto, justiça seja feita, Crowley tentou corrigir muitos trechos de “O Livro da Lei”. Tinha medo de que os erros gramaticais e de concordância fossem atribuídos a ele, não ao responsável pelo ditado. Mas Aiwass era orgulhoso, e insistia em dizer que estava certo, contra todas as evidências da gramática inglesa. É possível que o “Livro da Lei” tenha a mais estranha errata já feita, quando o autor afirma para o leitor que redigiu o livro, mas não o escreveu:

“É claro que eu o escrevi, tinta no papel, no sentido material; mas aquelas não eram e nem nunca foram as Minhas palavras, a não ser que Aiwass não fosse mais do que uma extensão do meu self subconsciente ou alguma parte disto: nesse caso, meu Self consciente, por ser ignorante acerca da Verdade do Livro e hostil à maior parte da ética e filosofia presentes Nele, Aiwass seria uma parte severamente suprimida de mim.”

De um lado, Nabokov e o seu controle absoluto sobre todo o andamento da obra; no outro, Crowley perdendo o controle narrativo por causa de um secretário divino com laivos de romancista. Entre esses extremos, está ainda Franz Kafka, que se preocupava demais com os itens que estavam fora do controle de uma narrativa.

Quando lemos uma obra literária, existem personagens secundários para os quais não damos muita importância. Eles estão fazendo figuração nas cenas dos personagens principais, em torno dos quais a história gira. Quem sabe os nomes de todos os personagens secundários mortos nas batalhas de “Guerra e Paz”, de Tolstoi? Quem sabe os nomes dos participantes dos animados bailes na casa de Bingley, como Jane Austen fala em “Orgulho e Preconceito”? Não sabemos, pois esse assunto é irrelevante.

Contudo, Kafka se preocupava com o destino dos personagens que apareciam em uma cena e, a seguir, desapareciam da obra. Quem eram, para onde iam, o que estavam fazendo? Como podiam desaparecer assim do mundo? Essa preocupação o levou a redigir uma carta em 1918 para Max Brod (tradução minha):

“Esta coisa de me obcecar pelos personagens secundários cujas vidas leio nos romances, peças de teatro, etc. Este sentimento que possuo de pertencer ao mesmo mundo deles! Em ‘As Virgens de Bischofsang’, existem duas costureiras que costuram a roupa da noiva da peça. Qual será a vida dessas duas jovens? Onde moram? O que fizeram para não obterem o direito de entrar na peça com as outras? Só lhes é permitido ficar do lado de fora, e, afogando-se em frente à Arca de Noé, comprimir o rosto contra o vidro, para que o espectador do drama perceba ali, por um instante, qualquer coisa um pouco obscura que se move.”

É o paroxismo da obsessão: querer controlar a vida de tudo e de todos, não só dos personagens principais da história, mas dos secundários. É uma atitude muito frequente nos dias atuais: pessoas que, não suficiente controlarem as próprias vidas, ainda precisam se meter e opinar na dos outros. Ao menos Kafka se preocupava com o destino dos personagens secundários dentro de um livro, não com a vida alheia.

Ainda existem aqueles que alegremente abraçaram o caos do mundo, como aconteceu com Samuel Johnson. Ao invés de ter algum controle sobre as suas leituras, o escritor inglês resolveu que, em matérias de livros, adotaria o descontrole como regra. Desenvolveu um método de leitura chamado “leitura cursória”, que consistia em pegar um livro na biblioteca, ler algumas páginas, em seguida pular para outro, abri-lo no meio e ler outras páginas, para, a seguir, escolher outro exemplar e selecionar algum trecho randômico… Johnson dizia que a sorte era tão boa conselheira quanto a erudição e, com o passar dos anos, desenvolveu a sua habilidade de leitura a ponto de não mais pegar os livros, deixando-os em meio a mais absoluta confusão, caindo e abrindo páginas, quando então o escritor as lia até cansar e deslocava a atenção para outro exemplar.

Samuel Johnson e a leitura cursória

Suas justificativas para agir dessa forma desordenada eram ótimas: “Se um homem começa a ler um livro pela metade e tem vontade de ir adiante, de nada vale parar e ir para o começo. Pode ser que ele não tenha a mesma vontade”. Ou então: “Não largar os livros antes do fim seria como querer manter por toda a vida a amizade com quem quer que se encontre pela frente”. Samuel Johnson não era obrigado a ler nenhum livro do início até o fim e escolhia a ordem que ia começar a leitura sem nenhuma interferência do autor, e tal método de leitura certamente ajudou a formar o seu invejável conhecimento, pois a mente dele estava preparada para pular entre as mais diferentes associações sem nenhum juízo de valor ou preconceito.

Cada pessoa possui a sua própria maneira de se sentir no controle de algo. Temos medo das possibilidades que o desconhecido pode acarretar e, por isso, tentamos manter a vida dentro de normas perfeitamente organizáveis e esperadas. Todos aqueles que reclamam de tédio, na realidade deveriam reclamar do controle a que se auto-impuseram. Isso por que a vida é uma longa sucessão de desatinos e instabilidades, em que a rotina nos escraviza e a falta de controle é o primeiro passo para o auto-entendimento. Portanto, é preciso perder o controle – mas sem esquecer que, assim como no poema de Elizabeth Bishop, a arte de perder também tem um método.

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Como melhorar uma história usando assassinatos

Uma interessante – e divertida – moda está crescendo no mundo literário anglo-saxão. Muito melhor do que autoficção e representatividade, questões amplamente não-literárias que transformaram a literatura brasileira em um longo e enfadonho desfile de platitudes, egos e estatísticas.

Ela começou com uma reflexão sobre as regras de escrita de Elmore Leonard. São regras bem práticas, bem diretas e dizem respeito ao ato de escrever qualquer história. Por exemplo, a primeira regra é “Nunca comece um livro descrevendo o tempo”. A segunda é “Evite prólogos”, e por aí as regras seguem.

O escritor Marc Laidlaw levou adiante as ideias de Elmore Leonard e tirou a ênfase da primeira frase da história, passando para a segunda:

De acordo com ele, a primeira frase de quase todas as histórias pode ser melhorada se a segunda for “E então os assassinatos começaram”.

Isso gerou uma onda de escritores imaginando histórias em que a segunda frase seria obrigatoriamente “E então os assassinatos começaram”.

Também deixa qualquer história infantil mais interessante:

Um exercício de criação literária sendo feito ao vivo e com a participação da imaginação de centenas de leitores, eis o que deixa a literatura viva e interessante.

Tenho falado muito com outros escritores sobre os motivos pelo qual a literatura é tão pouco consumida no Brasil, e uma das conclusões a que cheguei é que, no nosso país, a literatura deixou de ser arte e virou palanque para tantas causas que as pessoas passaram a considerá-la panfletária.

Tiraram toda a graça de escrever e ler uma boa história. Hoje, todos leem livros esperando que, em algum momento, ao estilo dos antigos contos de fadas, alguém vai aparecer e dizer qual a moral da história. Ou, pior ainda, leem o livro julgando o tempo inteiro a sombra que deveria pairar quase invisível por trás dele: o seu autor.

Está bem chato escrever no Brasil atual. É como carregar uma granada sem pino no meio de um campo de batalha, sabendo que, a qualquer deslize ou distração, ela pode explodir nas nossas mãos. Por enquanto ainda tive sorte, mas mesmo ela eventualmente acabará e, se existe algo que me consola é saber que, se esse dia chegar e a literatura virar não mais liberdade, mas medo, eu vou recolher-me à minha escrivaninha e continuar escrevendo em silêncio. À esta altura do campeonato, escrever não é algo que preciso tanto de outras pessoas, é mais uma questão interna do que uma necessidade de exposição.

Meu dever único é ser fiel à história. Sem concessões, sem medos. Mesmo que ninguém a leia e mesmo que eu seja julgado pelo o que digo ou pelo o que omito. Se for para escrever com medo do leitor, melhor nem escrever, até por que cada leitor vai pensar uma coisa diferente e nunca agradarei a todos.

Por isso acho relevante esse desafio literário que circula nos Estados Unidos e na Inglaterra. Parece mais importante do que discutir uma série de questões paralelas à Literatura. É um exercício de criação brejeiro e divertido, tudo aquilo que devia ser importante para nós e estamos fazendo cada vez menos. Isso por que escrever devia ser algo divertido, não a chatice que se tornou. Então, enquanto não me cercearem de vez, prosseguirei escrevendo e me divertindo, pensando em assassinatos escondidos dentro de cada livro.

 

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