Arquivo do mês: abril 2014

O roubo impossível

Semana passada fui acusado de roubar o meu próprio livro.

Como geralmente estou carregando e transportando livros de um lado para o outro, tenho o desagradável hábito de, às vezes, entrar em livrarias esquecido de que estou com um deles nas mãos. Este fato subverte a ordem natural das coisas: as pessoas tiram livros de livrarias, não os levam para o seu interior.

Estava com meu livro, levando-o para uma pessoa, e entrei na livraria Saraiva. Quando fui sair, sem ter achado aquele que buscava, os seguranças se aproximaram e pediram para que eu devolvesse o que estava nas minhas mãos.

Argumentei que o livro me pertencia. Os dois seguranças trocaram olhares, sem acreditar muito nas minhas palavras: se o livro era meu, por que eu estava levando-o para dar uma volta justo na livraria? Para ver seus irmãos aprisionados? Mostrei o interior do livro, onde não estava nenhum selo identificador da Saraiva, mas eles disseram que os livros recentes não eram cadastrados. Mostrei que a porta não buzinou quando eu passei com o livro, eles contra-argumentaram que nem todos os livros apitam quando passam pela porta.

Estava sem ideias do que dizer quando resolvi apelar para o último argumento: “o livro é meu mesmo, fui eu quem o escrevi”.

Descrença foi a primeira reação. “Como assim, tu escreveu este livro?”. Eu concordei. Nos olhares de absoluto descrédito que os seguranças trocaram entre si, percebi que eles nunca imaginaram que, por trás de cada livro, existe uma pessoa de carne e espírito que o escreveu. Os livros surgem na livraria, são etiquetados, manuseados e vendidos, mas a ideia de um livro sair de um homem de carne e osso – não uma figura oculta nas sombras, um Verbo semovente – era quase ficção científica. Um deles – que parecia o mais paternal – deu uma risadinha e perguntou: “Se tu escreveu mesmo, por qual motivo sairia por aí carregando o próprio livro, se já sabe toda a história dele?”

Diante de tal encruzilhada, onde deveria escolher entre ser o ladrão de um livro que me pertence ou o autor neurótico que passeia por livrarias carregando a própria obra, resolvi a situação como deveria ter agido desde o começo: identifiquei-me formalmente com a minha carteira da OAB e deixei a magia e o entendimento se espalharem pelo mundo diante de tal visão. Pediram-me desculpas, mudaram os meus títulos (virei “senhor” e “doutor” em questão de segundos) e me liberaram.

Longe de irritar, a situação me divertiu. Como alguém faz para provar que é ele mesmo? Um documento não parece ser um meio muito confiável. E como um escritor faz para demonstrar que é um escritor? Senta em uma cadeira e escreve um parágrafo que as pessoas devem dizer se é literatura ou não? Fala sobre as vicissitudes de Hamlet ou das glórias de Aquiles? Usa palavras empoladas e de difícil entendimento? Se pedissem para dizer um trecho do meu livro, eu estaria em uma bela enrascada, pois já aconteceu de citarem partes do que escrevi, eu elogiar e perguntar de onde a pessoa tinha retirado a referência… Não sei como é ter cara de escritor, mas definitivamente não tenho.

Quando me perguntam por qual motivo escrevo, a resposta é simples: escrevo as histórias que gostaria de ler. Tenho o sonho do esquecimento. Um dia, irei numa livraria, pegarei o meu próprio livro, folhearei as suas páginas e pensarei “é exatamente isto que sempre sonhei em ler!”. Será o momento mais feliz de todos, o dia em que conseguir esquecer quem fui.

O meu leitor favorito, aquele com quem sonho e escrevo para ele, sou eu mesmo.

Enquanto a memória ficar me atormentando, a felicidade é impossível. Por isto escrevo bastante, talvez o esquecimento venha mais rápido. Ainda assim, não descarto a hipótese de, um dia, ser preso tentando libertar meu livro de alguma livraria ou biblioteca. É o único roubo que vai valer a pena: um homem recapturando a sua verdadeira identidade através das palavras que deixou para trás como migalhas a marcarem o caminho.

Eu não escrevo histórias; estou deixando rastros.

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