Arquivo do mês: dezembro 2011

Duas descrições

Postagem rápida, quase encerrando o ano.

Duas descrições não saem da minha cabeça. A descrição literária é uma arte que se encontra em desuso: para ser eficiente, precisa ser reduzida. Para ser reduzida e caber a integralidade da imagem, é imprescindível que ela seja exata. No livro do Gabriel Garcia Márquez, “Como contar um conto” (que emprestei para alguém e ainda não voltou, ou seja, perspectivas negras, em especial por que não lembro para quem emprestei), ele diz que são os detalhes que conferem concretude à imagem. Inesquecível o exemplo usado, em que ele fala de uma mulher em um enterro, vestido negro, véu cobrindo o rosto e um escandalosa flor vermelha apregada na blusa. A flor vermelha deu carne e substância para a mulher, cuja descrição passaria despercebida se não fosse o detalhe.

Primeira descrição, encontrada em “Mundo animal”, do Antonio Di Benedetto:

  • “Era um homem, um homem de presença inexplicável”.

Ele está descrevendo um ladrão. Genial o uso da expressão “presença inexplicável”, pois não existe nada mais sintomático do que abrir a porta de casa e ver uma pessoa de presença inexplicável no seu interior. Como explicar isto, já que não é um fantasma (posto que é homem), se não for concluir que um ladrão está no interior da casa? Em seguida, o autor argentino refere que aquele homem irá lhe retirar a possibilidade de voltar a ver o céu azul na vida. Outro genial eufemismo para “ladrão”, com uma pitada de “assassino”.

A segunda descrição está em um conto de Julio Cortázar:

  • “(…) aquela sensação de não estar de todo”.

Esta descrição de um estado de espírito me fascina há muitos anos. Como pode alguém se sentir tão incompleto a ponto de imaginar que não está integralmente no local? Esta é uma impossibilidade física. No entanto, Cortázar refere que a pessoa está em um determinado local, mas parte dela está faltando. Qual seria esta parte? A ausência desta parte deixa o sujeito incompleto? Só quem já se sentiu deslocado ou desconfortável pode saber, de forma exata, como é a sensação nela descrita. Mais genial ainda que esta descrição se encaixa em várias situações.

São duas descrições que conseguem dizer um mundo com pouquíssimas palavras.

Até para mim, mente absolutamente crédula, esta foto possui centenas de explicações normais. No entanto, foi a única imagem que conseguiu preencher dois critérios: "presença inexplicável" e "sensação de não estar de todo"

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Problemas inesperados com o Lovecraft

Após começar a revisar as histórias que escrevi em homenagem ao grande mestre do terror H.P. Lovecraft, meu amigo Tiago Maraschin apontou um problema singular: elas estão muito parecidas com o Lovecraft. Ou seja: de tanto pesquisar os temas, os estilos, a construção argumentativa, as descrições, os cenários e os cacoetes linguísticos, eu escrevi histórias como as que o Lovecraft fazia.

Isto quer dizer que não fiz somente os acertos, mas também os ERROS de Lovecraft. E os problemas de ler Lovecraft nos dias atuais é justamente as descrições longas, o excesso de adjetivos, os cenários inesgotáveis.

Este fato levou-me a uma interessante reflexão. Acredito que foi Nietzsche quem disse que nós lemos os filósofos gregos com olhos modernos, mas eles não tinham a nossa visão moderna quando escreveram as suas obras. Ou seja, o nosso olhar moderno é incapaz de se encantar com a mesma espontaneidade por ideias que já foram concebidas, descartadas e até mesmo evoluídas.

Quando eu escrevi contos como os que Lovecraft faria, eu ignorei fatos de extrema importância, como o desenvolvimento tecnológico e a fragmentação atual das religiões. Além disso, o mundo moderno não comporta mais histórias cansativas e longas. Vivemos em uma época moderna, que demanda histórias ágeis, precisas, que vão direto ao ponto e não se perdem em descrições. De tanto tentar escrever que nem o Lovecraft faria, acabei fazendo o contrário, mostrando o motivo pelo qual ele não é mais lido atualmente (eu e o Tiago nos alongamos na discussão sobre o fato de que as obras atuais que tratam de temas lovecraftianos devem consultar resumos atuais feitos sobre seus contos, ou seja, não consultam mais o material original).

Não sei, mas esta experiência fez eu me sentir como “Pierre Menard, autor de Quixote”, conto de Jorge Luis Borges. Pierre Menard não é Cervantes. Não sou Lovecraft e nem posso escrever como ele, pois sou uma pessoa de outro tempo, outros valores e outras vivências. O Tiago disse que matei a minha voz de autor para dar vazão à voz do Lovecraft.

O desafio agora ficou mais interessante. Se Lovecraft nascesse hoje, qual seria a sua escritura? Seus temas? Suas inquietações? Vou adaptar os temas para o meu estilo, minhas regras, minhas inquietações. Não vou descartar os contos antigos – servem quase como uma experiência arqueológica -, mas vou escrever como eu faria.

Selecionei uma foto, uma gravura que retrata Dom Quixote e sempre me deixa em um misto de fascínio e desesperança. Um Dom Quixote envelhecido, junto à tênue luz que vem da rua (seria a luz do entardecer de sua vida?) luta contra as criaturas que se escondem na escuridão do seu quarto e que parecem se originar de livros, em um caleidoscópio de cavaleiros e bestas fundidos em um ser disforme. São fotos como esta que me dão certeza que livros podem matar uma pessoa mais facilmente do que uma bala.

Inquietação e medo - Dom Quixote quer evitar que as criaturas saiam da sua mente para o mundo ou está aproveitando as últimas luzes da sua existência em uma batalha desesperada?

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Sobre o ar

Hoje, passei boa parte da manhã acompanhando a instalação de um condicionador de ar split na minha fortaleza de Teutônia, que estava sendo literalmente incendiada pelo implacável sol do verão gaúcho (existia um receio não-confessado que tamanho sol pudesse incendiar os meus livros, mas acredito que seja improvável. Em todo o caso, coloquei a estante no lado contrário ao que incidem os raios solares).

Neste intervalo de tempo ocioso, fiquei refletindo sobre o ar.

Sim, o ar, esta substância invisível que colocamos para dentro do corpo, utilizamos aquilo que nos interessa e depois jogamos para fora o gás carbônico, outra prova da insensibilidade geral que norteia a civilização humana.

Se pensarmos bem, o ar está em toda a Terra nos rodeando. Quando caminhamos ou nos movemos sobre o planeta, na realidade estamos rompendo (e corrompendo) o ar que nos cerca. Se hoje o ar virasse sólido, ficaríamos como moscas fossilizadas, daquele tipo que fica paralisada na resina de alguma árvore. Não vivemos sem ar, mas é o mesmo ar que nos propicia a vida quem acaba deteriorando e envelhecendo as nossas células. Ele é um veneno, ministrado calmamente durante toda a nossa existência, fornecendo energia e erodindo a nossa juventude.

Anaxímenes de Mileto (588-524 a.c) afirmou que tudo provém do ar e tudo retorna a ele. Ele disse uma frase que ficou famosa: “Exatamente como a nossa alma, o ar mantém-nos juntos, de forma que o sopro e o ar abraçam o mundo inteiro.” Engraçado que ninguém pensou no caráter fatídico desta declaração: não podemos escapar do ar. Ele está em todos os lugares. Se queremos viver, precisamos estar sob o seu jugo. E podemos ampliar o horror desta constatação de uma fuga impossível quando pensamos na segunda consequência desta frase: o ar é o elemento que nos dá concretude. Ele faz a barreira entre a pele e a não-pele, ou seja, o ar cerca os limites de cada pessoa.

Anaximenes, com olhos vazios contemplando o ar

O grego também dizia que o ar possuía vida e existência própria. Se levarmos esta ideia às úlltimas consequências, a tarefa de cada ser humano no planeta é destruir e matar o ar através de sucessivas inalações e conversão em outros gases. Em troca dos ataques protagonizados pelo ar contra as nossas células e a sua deterioração constante, nós tentamos matar o ar a cada mínima respiração, infantil ou adulta. Se pensarmos desta forma, somos soldados em meio a uma guerra eterna.

Além disso, Anaxímenes também falou que todos os elementos se originaram do ar, tais como o fogo, a água (evaporação e condensação), as nuvens,  a terra e até mesmo as estrelas (que seriam rarefações do fogo do qual se originou a terra). É interessante que ninguém tenha levado a sério este filósofo. Tanta gente inventou teoria das mais estapafúrdias de origem do mundo e ninguém pensou de onde veio o ar e se ele não estava na nossa origem.

O mundo segundo Anaximenes. Um pouco perturbador este azul claro ao redor do mundo

As obras de Anaxímenes não chegaram até a atualidade, só se sabe dele por causa das referências feitas nas obras de outros filósofos. No entanto, não deixa de ser assustadora a concepção de que podemos estar vivendo dentro do Deus-Ar, respirando-o centenas de vezes por dia, enquanto eles nos mata com lentidão e paciência. Não conheço elemento mais onipresente para a vida humana do que o ar, não conheço elemento que seja mais onisciente (pois quem simultaneamente está em todos os lugares ao mesmo tempo não fica longe de se gredos), não conheço elemento que esteja dentro e fora das pessoas com tamanha naturalidade e que nos irmane mais do que o ar. Talvez esta fosse a resposta para os fundamentalistas, grupos da minoria ou fanáticos de qualquer tipo: se você respira, então nós somos iguais.

De qualquer jeito, menos preocupado com a vastidão inimaginável de ar que me rodeia (quanto ar existe no mundo?) e que neste momento está sendo respirado ao mesmo tempo por bilhões de outras pessoas (eu incluso), só posso agradecer que, ao menos hoje, ao menos em Teutônia, estou respirando um Deus mais gelado e menos sufocante.

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Álbum: “Beethoven’s Last Night”, de Trans-Siberian Orchestra

Capa de Beethoven's Last Night - o clima do álbum já começa pela capa

Sempre gostei de álbuns conceituais. São álbuns que, além da música, apresentam também uma concepção geral de tema, uma coluna vertebral de assuntos, sobre os quais oscila a música em múltiplas variações. Bem feito, um álbum conceitual tem quase o mesmo valor de um livro, pois possui história, trama, mistério, personagens, todos os ingredientes de um bom livro.

Um bom exemplo de álbum conceitual é “Beethoven’s Last Night”, da Trans-Siberian Orchestra. A história que guia as músicas é singular: Beethoven acaba de completar a Décima Sinfonia (na realidade, esta sinfonia permanece incompleta). Neste momento, ele recebe a visita de Fate e do seu filho distorcido, Twist. Os dois anunciam que aquela é a última noite de Beethoven na face da Terra. Enquanto estão conversando, o demônio Mefistófeles aparece e faz uma proposta: Beethoven poderá manter a sua alma e sua vida se concordar em apagar toda a sua obra da história da Humanidade. Mefistófeles dá uma hora para ele pensar e sai da sala. Beethoven passa a xingar Fate (é uma mulher na versão em inglês, mas é o Destino), afirmando que ele teve uma vida miserável em troca da música que compôs. Neste momento, Fate permite que Beethove volte no Tempo e veja todos os eventos da sua vida, sendo que, se ele não gostar de alguma coisa, poderá mudá-la.

No primeiro momento, Beethoven revive uma história da sua infância, quando seu pai lhe esbofeteou após ele ter falhado em uma apresentação perante a corte. Ele pede para Fate apagar aquele evento. Ela concorda, mas avisa que precisará apagar a Sexta Sinfonia, pois tal fato da infância foi a inspiração para a existência de tal Sinfonia. Beethoven desiste de apagar este evento. A partir deste momento, Beethoven começa a perceber que qualquer evento que ele precise apagar da sua existência terá consequências funestas sobre a sua música.

Beethoven relembra um encontro que ele teve com Mozart (não sei se esta história é real, mas acredito que não seja), e este encontro está entre os seus momentos mais felizes. Aliás, a música que narra este encontro é duplamente fantástica: primeiro, os integrantes da TSO fazem uma música bem poética sobre Viena, com um piano que lembra a queda da neve. Em seguida, engatam a abertura de “O Casamento de Figaro”, de Mozart, em uma versão heavy metal, no melhor estilo Ritchie Blackmore.

A  história fica um pouco surreal, pois passa a entrelaçar a vida de Beethoven com a trama do filme “Minha Amada Imortal”. Beethoven revê a história do seu amor por Theresa e descobre que ela também o amava e teria ficado com ele. Beethoven se deprime, percebendo que deixou a felicidade escapar entre os seus dedos. Fate joga pesado: mostra os milhares de músicos que irão se inspirar na obra dele por toda a Eternidade. Beethoven comunica que não modificará nada da sua existência e que recusará o acordo com o Diabo.

Mefistófeles chega. Quando toma conhecimento da decisão de Beethoven, tenta um outro acordo: se ele lhe entregar somente a Décima Sinfonia que terminou há pouco tempo, irá preservar a sua vida e alma. Como Fate gastou o seu melhor argumento, aparece outro deus ex-machina, para convencê-lo do contrário, o fantasma de Mozart. Novamente Beethoven recusa a oferta de Mefistófeles, que, apelando por completo, faz um golpe de extrema sujeira: aponta para uma criança que está passando na rua e diz para Beethoven que, se ele não entregar a Décima Sinfonia, irá torturá-la para sempre. Condoído, Beethoven aceita entregar a Décima Sinfonia para Mefistófeles, e faz um acordo com ele.

No entanto, não acabou ainda a sequência de baixarias, pois, ao tentar queimar o manuscrito da Décima Sinfonia, Mefistófeles percebe que ele não queima. Neste momento, Twist – que até então estava na reserva – diz que Beethoven na realidade foi o segundo filho nascido dos seus pais e que colocaram nele o mesmo nome do filho falecido, circunstância esta que anula o acordo, sabe-se lá por qual detalhe jurídico. É anunciado que o destino final de Beethoven será o Paraíso, por que Mefistófeles estava mentindo o tempo inteiro (um Diabo mentindo? Inacreditável!). Beethoven morre, sua alma sobe aos céus e Twist pega o manuscrito da Décima Sinfonia e leva com ele.

Claro que a história possui algumas falhas, um monte de clichês e uma pilha de conveniências ajustadas para que ela venha a fluir. Mas é interessante a idéia de que Mefistófeles, o Diabo do Fausto, apareça fazendo acordos megalomaníacos com Beethoven (até onde posso ver, Mefistófeles deve ser o único diabo que fala alemão, pois está sempre passando por aquela área).  O gancho da Décima Sinfonia é igualmente instigante. No entanto, o que realmente salva o álbum é a música que costura esta história. A mente de Beethoven oscila entre diferentes músicas nesta última noite, e ele revive uma série de trechos das suas próprias músicas, além de trechos compostos por Mozart, por Chopin e até o “Flight of the Bumblebee”, de Rimsky-Korsakov (que foi composta em 1900, ou seja, depois de Beethoven ter morrido). A mente de Beethoven ainda está criando sons, refazendo trechos de música que já habitaram a sua alma, e está criando sons futuros que logo os compositores seguirão sozinhos. Muito interessante este efeito de colcha de mosaico: Beethoven, na última noite da sua vida, está sendo assombrado pelas músicas que inventou e antecipando, em um caleidoscópio de sons, outras músicas que poderia ter composto se a morte não tivesse chegado.

Eu poderia dizer que este álbum é conceitual em duas esferas diferentes: primeiro, na existência de uma história-guia de todas as músicas. Segundo, na construção da música da TSO com várias músicas de outros compositores, passando a ideia de anarquia mental e agitação interna de Beethoven. Uma oscilação muito bem realizada, gerando uma área de incerteza e um confronto constante. Mas nada disto funcionaria se a música não fosse boa e se as letras não fossem simples, mas diretas.

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Ficção e realidade: um paradoxo

Ernesto Sabato escreveu:

“UM DOS PARADOXOS DA FICÇÃO
É característico de um bom romance que nos arraste para seu mundo, que nele mergulhemos, que nos afastemos a ponto de esquecer a realidade. E, não obstante, ele é uma revelação sobre a mesma realidade que nos rodeia!”
(SABATO, Ernesto. O escritor e seus fantasmas. São Paulo: Companhia das Letras, 2003, p. 168).

É um paradoxo interessante. Ao mesmo tempo em que o autor cria uma realidade paralela dentro da sua obra, a leitura faz com que aquele arremedo de realidade crie vida diante dos olhos de uma pessoa que se absorve pela história.
Na zona cinzenta existente entre realidade e ficção, mora o paradoxo da criação literária. Parte da realidade, mas com ela não se identifica. O autor descreve uma pedra, mas a pedra existe fora do livro. Ao mesmo tempo, a ficção torna-se real pela leitura, mas é desprovida de realidade. Por mais detalhista e obsessivo que seja o autor de um livro de História, por melhores e mais abrangentes que sejam as suas fontes, ele está escrevendo uma obra de ficção. O próprio encurtamento do aspecto temporal em parágrafos (“E assim passaram-se semanas….”) é impossível, posto que, na vida real, as semanas não transcorrem em um passe de mágica.

Eu gosto de paradoxos. Na definição clássica, paradoxo é uma declaração verdadeira que leva a uma contradição lógica. No conto “A gênese dos paradoxos brancos”, contido no meu livro de contos, “O homem despedaçado”, defendo a ideia de que o paradoxo é a forma que Deus usa para individualizar cada ser que habita o globo terrestre. Na alegoria que utilizei no conto, o paradoxo funciona como uma espécie de “código de barras”, que Deus lê com a sua máquina própria e descobre quem realmente somos. Cada ser seria formado por um único paradoxo, ou seja, cada ser seria um paradoxo ambulante. São evidentes os perigos de ler o paradoxo que constitui a própria essência, e a leitura do meu conto revela o problema insolucionável de se meter em assuntos acima da alçada que nos cabe.

Realmente acredito que as pessoas são paradoxais. Às vezes, elas tomam atitudes que vão contra toda a lógica e são de natureza tão contraditória que nos custa a acreditar que tomaram tais decisões. Que o digam os campos de concentração, ou atentados suicidas. Borges já disse: “Ah, se a vida tivesse os pruridos da ficção!”. É uma verdade absoluta. Acredito que o paradoxo da criação literária não seja a contenda realidade X ficção, e sim o fato de que cada pessoa que lê um livro pode fazer com ele aquilo que bem entender, podendo ou não compreendê-lo. A multiplicidade de interpretações faz com que algumas pessoas encarem como realidade um livro, outras vejam um manifesto ficcional em um texto crítico.

Não existe norma na leitura, não existe norma na criação literária. Só existem os seres humanos, estes paradoxos ambulantes.

 

"Relativity", quadro de M. C. Escher, um bom exemplo para paradoxos.

 

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Livro: “1599 – Um ano na vida de William Shakespeare”, de James Shapiro

Assim que vi o livro, o primeiro elemento que chamou a minha atenção foi a capa. Este tom acobreado, com os barcos em um final de tarde singrando o Tâmisa, conquistou-me desde o início.  Quando vi a proposta do autor – pegar um ano na vida de William Shakespeare, o ano mágico em que ele escreveu “Henrique V”, “Júlio César”, “Como gostais” e “Hamlet”, e ver todos os fatos que ocorreram naqueles meses, destacando a sua influência sobre as peças de teatro, revelando os bastidores políticos e econômicos da corte da Rainha Elizabeth I – fiquei definitivamente seduzido pela ideia.

A leitura não me decepcionou. Shapiro foi muito hábil ao construir a história e, em alguns momentos, a imaginação e a força que fazia para transmitir concretude para seres humanos que passariam à História (com “H” maiúsculo) trouxeram suspense e mistério para a trama. Todos sabem como a história se desenrolou, mas o autor transmite um grande grau de incerteza, que deixa o leitor em constante estado de tensão. Bom exemplo disso é o início do livro, quando o autor narra a caminhada noturna de William Shakespeare e os demais membros do Chamberlain’s Men, atravessando Londres para retirar um teatro construído em um terreno alugado e transferi-lo para outro terreno (onde ficaria o The Globe original). É um momento tenso na vida de William Shakespeare, e Shapiro deixa esta preocupação bem evidente. Por causa de duvidosas questões contratuais, o dono do terreno poderia pleitear o madeirame do teatro a seu favor, em uma questão jurídica que poderia se estender por anos. Por causa disto, aproveitando-se da véspera de Natal, Shakespeare e seus companheiros resolvem remover o teatro inteiro (às escondidas) e transferi-lo para o outro lado de Londres. O tempo gelado, os vizinhos que acorreram para tentar impedi-los, o cuidado dos construtores ao desmontar e numerar cada peça para permitir a futura reconstrução, tudo é motivo de tensão e expectativa. Fica evidente que aquele é um dos momentos capitais da vida de Shakespeare, e o mundo talvez não teria estas quatro grandes peças de teatro se aquela simples questão não fosse resolvida.

Em outros momentos, o autor novamente contou a história como se ela estivesse se desenrolando em tempo real nos dias atuais. As batalhas diplomáticas da rainha Elizabeth I com o Conde de Essex são hilárias. Essex é jovem e impetuoso; a rainha Elizabeth é um animal político, velho e experiente. Do contraste entre as duas personalidades, acabam saindo os melhores momentos do livro. O momento em que Essex, irritado com uma decisão contrária da rainha aos seus interesses, vira-se de costas para a soberana para ir embora e a rainha Elizabeth o alcança na corrida, desferindo-lhe um tapa na cabeça, está entre as passagens mais engraçadas do livro.

Ao mesmo tempo, James Shapiro investiga com profundidade os livros que teriam sido publicados na época, bem como a possibilidade de serem consultados por Shakespeare, assim como as influências que as peças sofreram das leituras do bardo. A reconstrução de Londres é tão precisa que parece estarmos caminhando junto com Shakespeare pelas livrarias, por entre as ruelas, pelos becos. Da mesma forma, o autor revive a experiência teatral da época, mencionando que Shakespeare estava apresentando suas peças provavelmente para o público de teatro mais crítico da história, pois era um volume absurdo de peças teatrais novas que eram assistidas pelos londrinos, sempre ávidos por novidades.

Muito interessante ver como as peças de Shakespeare se articulavam dentro do contexto histórico. O autor faz um grande trabalho arqueológico, vendo, nas minúcias das falas e das colocações de cada personagem, pequenas nuances das situações históricas vividas. O público ia ao teatro para ver a história de Henrique V ou de Júlio César (melhor dizendo, a história de Brutus, o personagem mais instigante da peça) e acabavam identificando detalhes da corte e de personalidades que então regiam as suas vidas. Da mesma forma, muito oportuna a revelação de como Shakespeare teve que retirar William Kemp das suas peças, pois a figura cômica de um bufão não se adequava mais aos assuntos que ele desejava tratar. Foi uma decisão de extrema coragem, ainda mais se considerarmos que o bufão era o ponto de relaxamento das longas peças de teatro, servindo para as plateias relaxarem e darem algumas risadas.

Ao final, um certo clima de nostalgia envolve o livro, quando o autor conta a história das inúmeras versões de “Hamlet” e temos o conhecimento de que a peça que chegou até a atualidade não é o verdadeiro “Hamlet”, e sim uma junção de duas ou mais versões, o que explica algumas incongruências encontradas na peça. Shapiro se esforça para reconstruir a versão idealizada por Shakespeare, e este é o único pecado do livro: como bom aficcionado pelo tema que escreveu, às vezes o autor mergulha fundo no que “gostaria que tivesse sido”, deixando pouco espaço para “aquilo que aconteceu”. Por vezes, a narrativa do livro fica imprecisa e impressionista demais, quando Shapiro preenche lacunas com o seu desejo do que gostaria que tivesse acontecido. Entretanto, justiça seja feita, no prólogo ele avisou que iria tomar esta atitude, até para impedir que a narrativa trancasse.

Uma excelente leitura. Em alguns momentos, a narrativa ficou um pouco trancada, mas nada que prejudicasse demais a leitura. Recomendo fortemente o livro, tanto para aqueles que estudam a Literatura (como eu) quanto para aqueles que gostam de História, pois o autor encontrou a simbiose exata entre a forma que os acontecimentos históricos podem influenciar a construção literária de um período. Além disso, transformou Shakespeare, aquela figura simpática representada por pinturas que nada tinham a ver com a sua aparência real (outro detalhe saboroso do livro), em uma criatura de carne e de ossos, de som e de fúria.

 

Algumas fotos do The Globe, antes e atualmente:

 

Projeto do The Globe Theatre

 

Teatro The Globe hoje, após ser reconstruído

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Enlouquecendo com Lovecraft

Estou finalizando uma sequência de contos com temáticas do Lovecraft. Ao contrário do trabalho realizado por outras pessoas, o método que estou usando é enlouquecedor. Além dos temas e assuntos comumente observados pelo grande Lovecraft, preciso atentar para a linguagem, os vícios narrativos, as descrições, os adjetivos, a junção de substantivos, o clima, a percepção, o narrador. Não é uma tarefa fácil. Além de precisar fazer muita leitura crítica dos contos, também estou lendo trechos de obras críticas sobre ele e – graças ao meu amigo Tiago Maraschin – muitos livros de RPG.

 

Observei que os contos de Lovecraft davam especial ênfase para o cenário. O horror estava contido na descrição do cenário, passando para os personagens que passavam a habitar naquelas paragens assustadoras. O cenário acaba criando o horror. Hoje, na nossa literatura pós-moderna, o horror está nos personagens e acaba se refletindo (seja intensificando, seja diminuindo) no cenário.  É uma mudança que terei de levar em conta.

 

Estou especialmente fascinado pelos ângulos não-euclideanos. Seriam formas não-lineares de arquitetura, construções capazes de desafiar a realidade (corredores maiores por dentro do que a visão imagina, espaços lineares que aparentam ter 10 metros e, na realidade, possuem quilômetros de extensão, escadas inversas, curvas que andam em linhas retas).

 

Lovecraft acreditava que a ciência e a fé eram constructos alienígenas, o que é outra ideia interessante: o ponto de intersecção do caráter científico e do aspecto religioso seriam a sua origem alienígena, o que ajuda a pensar por que as duas se repelem, ao mesmo tempo em que possuem uma grande área em conjunto. Seria muito diabólico que alienígenas tivessem criado ciência e religião no mesmo momento e, depois, as separado como irmãos siameses. Em muitos contos do Lovecraft, a junção destas duas áreas acaba resultando nos alienígenas.

 

A foto abaixo é do filme “Chtulhu”, que, até onde sei, sequer saiu no Brasil. Pelos detalhes fornecidos pelo Tiago, o filme nem é tão bom assim. Mas a simples figura passa toda a ideia de terror do filme (as pessoas dentro da caixa são sacrifícios humanos deixados na praia para os Deep Ones). Achei extremamente inspirador. Toda vez que caminhar na beira da praia, procurarei sacrifícios humanos a partir deste momento.

 

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