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O sonho do arco-íris e o persistente cheiro de sangue humano

Às vezes perguntam-me o segredo de escrever bem – como se existisse algum segredo nisso, e como se escrever fosse algo mensurável – e eu respondo com o sábio conselho da minha orientadora de Mestrado e professora Léa Masina: ler e decorar um poema em jejum, assim que acordar.

Por alguns anos consegui fazer essa “dieta” com moderado sucesso, mas, nos últimos tempos, percebo que os poemas outrora decorados estão sumindo. Um lado meu lastima que as leituras posteriores estejam apagando os poemas memorizados com tamanho afinco, mas outro lado exulta, pois não quer dizer que os poemas estejam sumindo, mas que estão se mesclando ao meu estilo. Não são poucas as ocasiões em que escrevo frases e sinto fantasmas de palavras que não são minhas, mas de Drummond, de Camões, de Shakespeare, de Petrarca. Estão todos dentro do texto, meus antigos amigos.

Eles surgem nas horas mais inesperadas, e abrem passagem aos trambolhões. Percebi um fenômeno muito interessante: a persistência das imagens poéticas. Assim como o marisco que gruda no rochedo e luta contra a onda, as imagens poéticas marcantes continuam vivas dentro da minha memória, revolvendo-se e surgindo quando o “gatilho” é acionado. Esses dias alguém me comentou “Raimundo”, e eu respondi automaticamente com o verso de Drummond, “mundo mundo, se eu me chamasse Raimundo, seria uma rima, não uma solução”. Outra pessoa comentou que seu filho escrevia ótimos poemas mas nunca mostrou para ninguém, e eu mencionei o “Tabacaria”, de Fernando Pessoa, “o mundo é para quem nasce para o conquistar, mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda, ainda que não more nela”. Uma escritora falou da sua dificuldade de escrever poemas e eu sugeri, sem pensar, “Penetra surdamente no mundo das palavras. Lá estão os poemas que esperam ser escritos. Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário”, e só depois notei que estava citando Drummond e a “Procura da poesia”.

As imagens poéticas não seguem a métrica original, como se pode ver por esses exemplos. Estão sintetizadas, cortadas, reduzidas àquilo que mais me impactou, em uma forma selvagem que lembra não somente os autores originais mas também as minhas reflexões sobre o assunto – e a de outros escritores. Quando deixada sem controle, a memória é mais feroz do que um tigre acuado.

Ao contrário de alguns colegas, que forçam a recordação para que ela traga à tona os poemas escondidos debaixo da sua camada de gelo, eu me resignei. Deixo a memória solta para fazer a associação que bem entender, e não me esforço em lembrar o desinteressante, mas prefiro destacar aquilo que me marcou. As imagens poéticas estão por todos os lados a me atormentar, podendo surgir quando menos se espera.

Não faz muito tempo assisti a um documentário, “The truth is in the stars”, uma série de entrevistas que William Shatner – o eterno Capitão Kirk da Enterprise – fez com uma série de físicos e artistas para ver o quanto Star Trek influenciou as suas vidas, indo de Ben Stiller até Stephen Hawking. Entre as entrevistas, ele passeou por Cambridge, a faculdade que, desde o seu surgimento em 1208, viu passarem pelos seus pátios Isaac Newton, Charles Darwin e o próprio Stephen Hawking.

Enquanto estava lá, Shatner contou a história do chinês Xu Zhi Mo que, em 1928, estudando em Cambridge, escreveu um poema que se tornou muito famoso na China, mesclando a visão oriental de mundo com as formas poéticas ocidentais. Ele costumava sentar em um banco debaixo de uma árvore, na frente do lago que corta a Universidade, e escreveu o poema “On Leaving Cambridge” desse ponto de vista.

On Leaving Cambridge

Softly I am leaving,
Just as softly as I came;
I softly wave goodbye
To the clouds in the western sky.

The golden willows by the riverside
Are young brides in the setting sun;
Their glittering reflections on the shimmering river
Keep undulating in my heart.

The green tape grass rooted in the soft mud
Sways leisurely in the water;
I am willing to be such a waterweed
In the gentle flow of the River Cam.

That pool in the shade of elm trees
Holds not clear spring water, but a rainbow
Crumpled in the midst of duckweeds,
Where rainbow-like dreams settle.

To seek a dream? Go punting with a long pole,
Upstream to where green grass is greener,
With the punt laden with starlight,
And sing out loud in its radiance.

Yet now I cannot sing out loud,
Peace is my farewell music;
Even crickets are now silent for me,
For Cambridge this evening is silent.

Quietly I am leaving,
Just as quietly as I came;
Gently waving my sleeve,
I am not taking away a single cloud.

Tão famoso ficou esse poema que o governo chinês mandou encravá-lo em uma rocha, a qual foi colocada em Cambridge, próxima ao banco onde Xu Zhi Mo se sentou e teve a sua inspiração. Hoje é um ponto famoso de visita, e é muito legal ver quando algo sai da literatura e invade a realidade.

“On Leaving Cambridge”, de Xu Zhi Mo

Desde o momento em que soube essa história e li o poema, encantei-me por uma imagem: a água que está debaixo da sombra dos olmos que se projetam sobre o rio e contém, no seu interior, os sonhos do arco-íris. Tão poderosa essa construção que não consegui mais olhar as cenas filmadas em Cambridge sem imaginar como seriam os sonhos do arco-íris escondidos pelos multifacetados cristas de água que ondulam, sábios, na corrente tão enganadoramente pacífica.

Coincidência ou não, na mesma época em que assisti a esse documentário, estava lendo “Conversas com Francis Bacon”, escrito por Franck Maubert, reunindo algumas das conversas mantidas pelo jornalista com o pintor sobre arte, sobre literatura e sobre o mundo. Admiro muito a carnalidade quase obscena das obras de Francis Bacon – é o tipo de quadro que não entendo o motivo pelo qual me fascina, mas não consigo afastar os olhos. Uma explicação possível, quase indiferente, é dada pelo próprio artista: ele tenta pintar a carne fora do corpo que lhe confina, ou seja, a carne é algo que se despeja para fora do limite corporal. Essa ideia é absolutamente fascinante: quem nos garante que o corpo não é uma prisão, e a carne seria algo ansioso para explodir e se libertar da sua materialidade constrangedora?

Irritei-me um pouco com a tentativa explícita de Maubert de ver as influências da fotografia, do cinema e de outros pintores sobre o trabalho de Francis Bacon, quando o artista afirma diversas vezes que a sua fonte maior de inspiração eram as imagens presentes nos poemas de Shakespeare, de Racine, de Dante, de Yeats, de T. S. Eliot. Por que é tão difícil acreditar que a literatura pode ser fonte de criação para outras formas de expressão artística? O fato dela não possuir imagens não quer dizer que somente imagens podem inspirar outras.

“Estudo para um retrato” (1952), Francis Bacon

Nas ocasiões em que citou a literatura como meio de inspiração, o pintor menciona a inquietação que alguns textos geravam na calma do seu espírito, tão forte que a única maneira encontrada para expiar o sentimento era através da pintura. Da mesma forma que acontece comigo, Francis Bacon não lembrava os poemas completos, mas as imagens poéticas evocadas pela memória, tão poderosas que tinham sobrevivido à erosão da memória e do tempo, e assim citou de cabeça versos de Yeats e de Eliot.

Foi numa dessas recordações que Francis Bacon mencionou um verso de Ésquilo nas “Eumênides”, algo tão impactante que cravara os dentes na sua personalidade e acabara se transformando quase em um credo pessoal. O verso era “O cheiro do sangue humano não desgruda seus olhos de mim”.

No entanto, esse verso não existe. Como o jornalista fez questão de destacar em uma nota de rodapé, apesar de ter sido citada pelo pintor por inúmeras vezes dessa maneira, o verso constante na obra de Ésquilo era “O cheiro do sangue humano me sorri”. Mauteck levanta a hipótese de que Bacon tenha se apossado desse verso das “Eumênides”, deixando de ser do dramaturgo grego e passando a ser propriedade sua. Era uma criação nova, cheia de vida e de ferocidade, engendrada por uma memória que não só recordava, mas era igualmente uma força inventora dotada de mecanismos próprios.

Foi algo que acabou me trazendo um consolo: não esqueci aquilo que levei tantos anos para saber, mas estou digerindo os poemas de muitos autores inesquecíveis e, no meio dessa confusão, existem estrelas – imagens poéticas – que reluzem com raiva indômita, aparecendo nos momentos mais inesperados. Tantas pessoas reclamam da falta de memória, mas eu acredito que a minha, em um processo de sobrevivência, está se canibalizando. A memória escolhe os temas e eu dou gume, alada rima, fazendo deles flechas exímias que, após lançadas, voarão certeiras até que a presa, nosso inimigo, se lamente. Nada como acabar um texto invocando a sombra de Aleksandr Pushkin – ou a minha, já não sei mais quem está falando aqui dentro.

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A literatura como um farol

A produção do Fronteiras do Pensamento 2017 pediu para que eu escrevesse um ensaio sobre a obra do escritor cubano Leonardo Padura. Mas, como nada na vida é simples, pediram para que tentasse conectar o texto ao tema do Fronteiras desse ano, que, em uma síntese, seria “Num mundo onde as divisas são sutis e o impacto das culturas é real, o pensamento nos aproxima na tarefa de resgatar e fortalecer valores. O que nos define como civilização? Buscar o que nos conecta, o que nos concretiza como ‘nós’, é um dos grandes desafios atuais.”  Disseram que, se eu não conseguisse, tudo bem – algo que, claro, é a senha para eu tentar até o último suspiro literário. There’s no mountain high enough.

O resultado foi esse texto, “A literatura como um farol”. Escrevi no início do ano, mas tenho lembrado dele cada vez com mais frequência, em especial nos dias que estamos vivendo. Quando estivermos em dúvida sobre algo, ou nos sentindo desesperados e sozinhos demais, é necessário buscar tranquilidade na Arte, que serve como porto seguro para nossas agruras. A beleza e o horror estão criptografados na Arte, assim como nossos dilemas éticos e questões existenciais. Está tudo ali, em silêncio, à espera de ser decifrado por quem realmente se interessa em descobrir respostas que vão além do imediatismo.

Os que tiverem interesse no libreto completo do Fronteiras do Pensamento 2017, está aqui o link: http://www.fronteiras.com/produtos-culturais/produto/libreto-leonardo-padura 

Na segunda feira próxima, assistirei a palestra do Padura.

Boa leitura.

 

A literatura como um farol

“O farol de Bell Rock”, 1819, William Turner

Vamos pensar em um farol. Sozinho, ele luta contra a inexorabilidade furiosa das ondas que se arremessam, tentando arrastá-lo para o seu coração molhado no fundo do oceano, onde moram os fantasmas dos náufragos. Ainda assim, ele resiste ao cerco raivoso, a luz servindo de guia para as embarcações em meio ao escuro e às tempestades. Um farol sinaliza não somente o perigo de rochedos, mas o sonho de uma terra segura em que possamos descansar das agruras do mundo.

Em um livro lançado em Portugal no ano de 1968 e com coordenação de Urbano Tavares Rodrigues, perguntaram para seis escritores franceses, “Que pode a literatura?”, que se tornou seu título. Entre os escolhidos para responder essa singela – e traiçoeira – pergunta, estavam Jean-Paul Sartre, Yves Berger, Jean Ricardou e Simone de Beauvoir. O mundo atravessava momentos conturbados, em que valores eram rediscutidos à medida que os estudantes espalhavam-se pelas ruas da França lutando pelo direito de mudarem aquilo que julgavam errado. Era um período de crise e, como Urbano Tavares Rodrigues anuncia na introdução, é importante determinar se, nesse contexto problemático, estando sob ataque da crítica e da ciência, a literatura ainda teria, nos dias de então, um poder real e efetivo e, se acaso existisse esse poder, “a forma que ele se reveste, se se traduz em negação, contestação, transformação ou manifestação de impotência”. Uma dúvida que, sem muitas alterações, poderíamos aplicar nos dias atuais: a literatura é capaz de mudar o mundo e se, acaso sim, poderia salvá-lo, destruí-lo ou somente manifestar a sua impotência diante dos dilemas humanos?

Entre as respostas, a mais perturbadora e otimista foi a de Simone de Beauvoir. Após interrogar-se se a literatura ainda fazia sentido em um mundo no qual a informação possuía fácil acesso, em que o livro de um sociólogo sobre as favelas que cercam a Cidade do México era analisado de forma idêntica às descrições feitas por Balzac em “A Comédia Humana” – e estávamos antes do advento da internet, quando a informação não só se tornaria abundante como veloz -, a escritora francesa diz que, sim, a literatura fazia sentido, pois não se arvora na condição de ser verdadeira, mas pretende ser uma forma alternativa de se posicionar diante da realidade: “É este o milagre da literatura, o que a distingue da informação: é uma outra verdade que se torna minha sem deixar de ser outra. Abdico do meu ‘eu’ em favor de quem fala e, no entanto, continuo a ser eu própria. (…). A obra literária existe, na minha opinião, sempre que o escritor é capaz de manifestar e de impor uma verdade: a da sua relação com o mundo, a do meu mundo. Mas é preciso levar em conta o significado destas palavras: ter qualquer coisa para dizer não é mesmo que ter um objeto que se leve na mala e se ponha em cima da mesa, procurando descrevê-lo em seguida por palavras.”

Semelhante ao acontecido na década de 60, atravessamos outro período de turbulência. Os valores que imaginávamos intocados, como as noções de democracia e de liberdade civil, estão sob constante readequação. As fronteiras se diluíram; assoberbados pela fome e pela guerra, os povos se deslocam sem respeitar limites físicos, tornando inevitável o choque entre diferentes culturas. As instituições são questionadas, e tudo o que nos deixava seguros hoje paira sobre o clima da incerteza. Assim, torna-se imperativo retomarmos a pergunta: o que pode a literatura para manter esse equilíbrio precário que coloca em dúvida o próprio conceito de civilização?

Oportuno retornarmos à imagem do farol, mas pelo ângulo contrário. Imagine-se sobre o convés de uma embarcação, atacado pelos antigos deuses das águas, que esboroam as madeiras, ansiosos para saborear o seu último hálito. Imagine o vento fustigando a sua cara com centenas de cortes gelados, o rugido de um mundo que se contorce ao redor, o descontrole de vagar pela noite infinita onde as nuvens se unem às águas com o propósito de lhe engolir vivo. Estremecido de medo, você enxerga a luz solitária sobre a água, um bruxuleio tímido que aos poucos se firma no horizonte e lhe diz: calma, tudo vai acabar bem. Aproxime-se com cautela e, em breve, o pesadelo será passado. Toda a lógica indica que aquela luz é um farol, mas, para quem está dentro do barco enfrentando a tempestade, ela se chama Esperança.

Em tempos de crise moral e ética, é na Arte que devemos buscar aquilo que perdemos. É nela que encontramos o Humano, não a criatura multifacetada e repleta de agonia imposta pela pós-modernidade, mas o ser solitário que tenta chegar à sua essência para entender o mundo que lhe cerca. A Arte é o farol que nos conduz no silêncio da existência. É ela que tem a capacidade de fornecer a resposta para aquilo que sequer conseguimos transformar em pergunta.

Entre as artes, a Literatura ocupa um papel de relevo ao mostrar caminhos diferentes dentro da realidade, trazendo novas reflexões para dentro da vida singular que cada um ocupa. A melhor maneira de entendermos o outro é tentando enxergar o mundo através do seu ponto de vista. A Literatura é o exercício de alteridade por excelência, pois, quando lemos um livro, por um intervalo de tempo delirante, deixamos de sermos nós mesmos e nos transformamos em Gregor Samsa, em Aquiles, em Jane Eyre, em um axolote. Quanto mais lemos, maior a capacidade de entendermos os dilemas do outro e, quanto maior a compreensão, maior a tolerância e o respeito a quem nos é diferente.

É o caso do escritor cubano Leonardo Padura. A sua obra constitui um microcosmo dos séculos XX e XXI; o leitor que se debruçar sobre os seus romances, aprenderá mais sobre política, economia, sociologia e relações humanas do que qualquer busca no Google. Terá a vantagem de caminhar por uma Cuba mais real do que aquela que conhecemos: um cenário quente, de desilusões prolongadas, de desencanto e de alegrias que insistem em se esconder nos cantos das esquinas. Conhecerá um povo que sorri apesar das agruras, que sobrevive com dignidade e que possui dramas não muito distantes dos que atormentam pessoas em outros lugares do mundo. Ao contrário do que se pensa, o acesso amplo à informação é inútil se não acompanhado do toque humano de saber articular tais dados na forma de um pensamento coerente. Quando Simone de Beauvoir expressou o seu receio que o excesso de informação tornasse a literatura obsoleta, antecipou algo que Leonardo Padura demonstra nos seus romances: as informações e a pesquisa detalhada dos assuntos só possuem algum sentido quando são depuradas pelo olhar aguçado de um homem sobre o seu tempo.

Para descrever a sociedade em que vive, e fazer com que a sua obra tenha um alcance universal, Leonardo Padura escreve romances policiais, tidos por muitos como uma espécie de subgênero literário (por mais questionado que seja esse conceito). Autor da série de novelas policiais “Estações Havana”, formada por quatro livros (“Passado perfeito”, “Ventos de Quaresma”, “Máscaras” e “Paisagens de Outono”), o autor cubano criou o detetive Mario Conde, um policial atormentado por questões pessoais e que resolve crimes enquanto Cuba vive as primeiras crises do final do socialismo castrista. É um tempo de mudanças sociais e políticas e, em meio a essas incertezas que afetam o cotidiano de milhares de pessoas, Mario Conde atravessa as ruas de Havana em busca de respostas para os crimes, precisando lidar com os mais variados e ricos personagens, que dissimulam, mentem e, às vezes, até falam a verdade.

Dificilmente existe gênero literário que melhor represente a literatura como forma artística do que o romance policial. Reduzido aos seus elementos mais básicos, ele é a caçada de um criminoso realizada por outra pessoa que dispõe a mais perigosa das armas: a criatividade de unir pontos díspares em uma rede lógica de causa e efeito. Seres humanos criativos são algo a ser temido em qualquer tempo e lugar, e o romance policial faz com que os seus leitores tracem ligações e imaginem cenários que expandem as possibilidades da criatividade ao infinito.

Em um ensaio sobre o conto policial, Jorge Luis Borges, após afirmar que a literatura é algo que tende ao caótico, acaba encontrando organização dentro da história policial, “que está salvando a ordem em uma época de desordem.” Poucas sensações são mais tranquilizadoras do que juntar pistas ao lado de um detetive ficcional e trazer algum conforto e segurança ao mundo. Chesterton afirmou que o verdadeiro inimigo da história policial é o escritor, que esconde pistas com o desejo de que elas sejam encontradas. Nesse caso, Leonardo Padura é o melhor adversário que um leitor pode encontrar, pois, além de tentar encontrar sentido para uma Cuba que espelha as perplexidades de todo um século, constrói o caos de um crime dentro de um caos social maior, e faz com que o leitor se torne cúmplice na tarefa de juntar os pedaços de um mundo semi-destruído com o objetivo de dar alguma ordem que, se não for a ideal, ao menos seja satisfatória.

Retomando a pergunta motivadora desse texto, o que pode a literatura? Talvez a resposta seja outra questão: o que a literatura não pode fazer nos tempos em que vivemos? Existiria assunto tão insondável que não possa ser trazido para dentro da arena ficcional a fim de ser analisado sob todos os prismas possíveis? Com o passar do tempo, criou-se a ilusão de que surgirá alguém capaz de nos salvar, um ente iluminado que, com inteligência, guiará a nossa embarcação para longe da crise, mas, parafraseando Brecht, pobre da nação que precisa de heróis! O melhor é buscar o conforto da literatura para achar as respostas tão ansiadas, confiantes de que, como um farol em meio ao mar bravio, ela será capaz de nos conduzir quando nos sentirmos perdidos e sozinhos. Nesse cenário, a obra de Leonardo Padura continuará dialogando com os dilemas da nossa época, mostrando para o leitor que uma das grandes funções da literatura, afinal de contas, é mostrar quem realmente somos.

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Obras Inquietas – 39. “A Vida e a Morte” (1916), Gustav Klimt

Nessa semana na minha coluna Obras Inquietas, no Artrianon, tive a oportunidade de falar de um dos pintores que mais admiro: Gustav Klimt. Em “A Vida e a Morte”, Klimt deixa de lado as mulheres etéreas ou as paisagens vagas e trata, de forma simbólica, da relação entre uma vida que insiste em preservar aquilo que temos, na forma de um abraço carinhoso, e uma morte que espreita ao redor, ansiosa para terminar com aquela unidade. Curiosamente, muitos críticos consideram-no uma pintura otimista, afirmando que os seres humanos dormem ao lado de sombra tão nefasta por que estariam a desprezando. Eu não penso assim: para mim, a morte é quase como um tigre de tocaia em torno de um acampamento, esperando pacientemente que alguém se distraia para, então, atacar com ferocidade.

Boa leitura!

“A Vida e a Morte” (1916), Gustav Klimt

Enquanto estivermos juntos, estamos protegidos. Basta ficarmos abraçados, protegidos sob a luz e em meio ao conforto cálido do nosso contato, e nada de ruim vai acontecer. Podemos sentir a adversária à espreita, rondando o círculo de proteção em que estamos, ela e a sua caveira sem alma, ela e seus dentes gélidos que nunca sorriem. Basta um segundo de distração, um momento em que tentamos avançar além do seguro, para que o porrete da inimiga desça e acabe com o nosso sonho. Então, só podemos ficar sempre juntos, homens, mulheres e crianças, e dizer que a noite não existe longe do nosso abraço, que a morte não nos espera faminta, que podemos ser felizes enquanto existir luz, enquanto existir cor. Mas não nos iludamos: o bafo pútrido dela cerca o mundo, cobiçando a chama dos nossos olhares, a candura dos nossos amores, ansiosa para nos tocar com os seus dedos repletos de escuridão. Passamos a existência toda tentando evitá-la, mas ela sabe que, mais dia ou menos dia, iremos nos distrair – todos se distraem, seja atravessando uma rua, seja subestimando a pessoa errada – e, neste momento, ela ceifará a nossa vida com toda a fúria que a inveja lhe proporciona. Ela está sempre vigilante e nunca descansa, andando em círculo em torno da pequena esfera de felicidade que ousamos criar. Ela sabe que a felicidade é efêmera e o fim inevitável; um dia, iremos sair do abraço que nos protege e entrar no seu manto sombrio. Tudo é passageiro, menos a paciência da morte, e ela segue esperando o instante em que os nossos entes amados irão se distrair para, então, plantar a dor no seio da nossa – tão rápida, tão cintilante – alegria e se deliciar, vendo desmoronar o mundo perfeito que cuidadosamente criamos ao nosso redor. Aproveite os dias de sol hoje, pois eles irão acabar, e somente o pântano da recordação irá nos lembrar da época em que éramos felizes e não sabíamos. Enquanto dormimos o sono dos inocentes, a morte nos contempla – e espera.

Texto originalmente publicado no link https://artrianon.com/2017/07/23/obras-inquietas-39-a-vida-e-a-morte-1916-gustav-klimt/

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Obras Inquietas – 35. “Uma família de san-culottes descansa depois das fadigas do dia” (1792), James Gillray

A minha proposta no “Obras Inquietas”, a coluna que assino no Artrianon, sempre foi mostrar obras de arte que, de alguma forma, me transmitiam inquietação e perplexidade. No entanto, tal inquietação se dá em muitos níveis, tanto em mim como es. Nunca estabeleci critérios, e até acho errado estabelecer classes e distinções, pois as obras de arte não encontram uma forma canônica para se expressarem.

Assim como trato pintura, escultura e fotografia no mesmo nível artístico, não espanta que a caricatura também tenha entrado na minha listagem de obras. Escolhi uma caricatura feita por James Gillray, “Uma família de san-culottes descansa depois das fadigas do dia”. Essa obra foi feita para consumo rápido, no calor dos eventos, e levada imediatamente para a gráfica para farta distribuição entre o povo. Era 1792, ou seja, a Europa ainda estava sob o impacto da Revolução Francesa, iniciada na França três anos antes. Os san-culottes – “sem calça”, fazendo justiça à sua denominação – devoram os burgueses com requintes de crueldade, algo que funcionava tanto como uma admoestação feroz dos riscos da Revolução chegar à Inglaterra quanto uma crítica social e construção de uma imagem bestial para os revolucionários.

Se eu fosse escrever sobre James Gillray, precisaria de um longo texto, então é melhor deixar para outra ocasião.

Enquanto isso, boa leitura.

“Uma família de san-culottes descansa depois das fadigas do dia” (1792), James Gillray

É muito sutil a linha que separa o ser humano do animal, a civilização da bestialidade, a ordem do caos. Todos possuem um ser primitivo à espreita no seu interior, alguém que já existia antes mesmo que caminhássemos eretos, criatura feita de terror e de raiva pura; uma fera ansiosa por liberdade, que observa os outros com gula e cobiça, músculos retesados prontos a se soltarem em um salto na jugular alheia. Não tentem mentir – eu conheço a besta que mora na sua sombra, pois ela é a selvagem irmã daquela que meus olhos escondem. É só uma mera convenção social que nos impede de matar o outro, de devorar crianças (a carne delas, será doce ou salgada? Eis uma dúvida que acalentará os seus pensamentos noturnos hoje, pouco antes do horror te fazer sucumbir ao pesadelo que não lembramos), de violentar mulheres, homens, cavalos, cachorros. Afinal, quem não pensa como eu é o inimigo, e meus inimigos não possuem alma. É assim que justificamos a besta que se alimenta das nossas virtudes, vomitando escuridões e medos. No entanto, chegará o dia em que abriremos os olhos e veremos que a civilização é somente um verniz e, debaixo dele, se esconde um oceano furioso; nesse dia, as bestas cavalgarão pelo mundo, e todo o horror que já imaginamos não fará jus à imaginação sem freios do animal que nos habita, e cujos olhos famintos podemos ver às vezes brilhando no interior da nossa sombra. Quando a civilização enfim for desmascarada, não mais existirá arte, não mais existirá nada a nos dividir; seremos os animais que sempre desejamos, e nos entregaremos alegremente à tarefa de destruirmos um ao outro. Quando esse dia chegar (e está cada vez mais próximo), corra rápido, pois a maldade humana não terá mais nada a lhe segurar.

Texto originalmente publicado no link https://artrianon.com/2017/06/18/obras-inquietas-35-uma-familia-de-san-culottes-descansa-depois-das-fadigas-do-dia-1792-james-gillray/

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Miguel Ángel Astúrias e a América Latina em carne e seiva

Ontem completamos 43 anos sem Miguel Ángel Asturias, um dos escritores que melhor soube cantar as belezas da América Latina. Fiz uma postagem no Facebook comentando o fato, e várias pessoas pediram-me para falar um pouco mais sobre esse escritor guatemalteco, então resolvi escrever algo um pouco mais dilatado aqui no blog.

Miguel Ángel Astúrias

Nós, brasileiros, conhecemos pouco sobre a obra de Ángel Astúrias. Não farei uma tabulação e nem elencarei estatísticas, mas basta observar o mundo literário local, mais preocupado com autores que vêm da Europa e dos Estados Unidos do que com a vasta literatura produzida no nosso próprio quintal. É sintomático que tantas pessoas louvem escritores que possuem uma literatura de viés mais europeu (haja vista as dezenas de palestras e homenagens a Cortázar e a Borges), deixando quase esquecido um autor que sabia escrever ao mesmo tempo em que se maravilhava pela beleza, pelas cores e pelos sabores que só existem no nosso continente.

Há alguns anos li “Homens de milho”. Era um livro muito carnal, na falta de uma palavra melhor: substancioso, forte, cheio de vida a brotar das letras. Lembro o impacto que Ángel Asturias me causou e, ao lado de Alejo Carpentier, na minha opinião são o melhor que a América Latina já produziu. Pena que quase não seja traduzido, e que boa parte das pessoas ignore não só a sua obra, mas o fato dele ter inclusive ganhado um Nobel de Literatura. 

Miguel Ángel Astúrias escreveu romances, poesias, ensaios e até se aventurou pelo teatro. Na sua obra poética, foi um adepto fervoroso do soneto, uma das mais nobres formas de escrever poesia (o que me faz lembrar de uma história contada por Affonso Romano de Sant’Anna: Manuel Bandeira, quando queria saber se a obra de algum poeta novato tinha vigor literário, pedia dois poemas de amostra, um em versos livres e o outro um soneto. Segundo ele, poeta que não sabe escrever soneto também não seria capaz de dominar a arte poética). Entre os poemas de Ángel Astúrias, gosto muito desse:

La luz corre desnuda por el río 

La luz corre desnuda por el río
huyendo sin cesar en lo movible
de la profundidad, del hondo frío
en que empieza la sombra y lo invisible.
La conoció al nacer, era rocío,
no este vano correr tras lo imposible,
imagen del humano desafío
a la divinidad. Sueño apacible
que endulza los saleros de los ojos,
mesa frugal y paz es lo que anhela
navegante, soldado y rey de antojos;
pero ¡ay! del ¡ay! del alma, no se alcanza
a volver con los remos y la vela
al puerto en que dejamos la esperanza.

Um soneto repleto de imagens poéticas fortes. Pega a metáfora do rio e a transforma em vida e depois de novo em rio com tanta naturalidade que nem parece estar conduzindo o leitor por essas águas plácidas.

A fama de Miguel Ángel Astúrias deve-se a um outro romance, “El Señor President”. O personagem nunca nominado é um retrato de tantos tiranos que conhecemos, capaz de se encaixar em qualquer cultura e espaço. Foi graças a esse romance que o guatemalteco ganhou o Nobel de Literatura, e leiam a beleza que foi o final do discurso de aceitação do prêmio (tradução minha):

“Andaimes. Escadas. Novos vocabulários. A recitação primitiva dos textos. Os rapsodistas. E, mais tarde, mais uma vez, a trajetória quebrada. A nova língua. Grandes cadeias de palavras. Pensamento descontrolado. Até chegar, mais uma vez, após as mais sangrentas batalhas lexicais, às próprias expressões. Não há regras – elas são inventadas. Depois de muita invenção, os gramáticos vêm então com suas tesouras de corte de linguagem. A América Hispânica está bem comigo, mas sem a aspereza. Gramática torna-se uma obsessão. O risco de anti-gramática. É aí que estamos agora. A busca de palavras dinâmicas. Outra magia. O poeta e o escritor da palavra ativa. Vida. Suas variações. Nada pré-fabricado. Tudo em ebulição. Não para escrever literatura. Não substitua palavras por coisas. Para procurar coisas de palavras, seres de palavras. E procure os problemas do homem, além disso. A evasão é impossível. Homem. Seus problemas. Um continente que fala, e que foi ouvido por esta Academia. Não nos peçam genealogias, escolas, tratados. Nós trazemos as probabilidades de uma palavra. Verifique-as. Elas são singulares. Singular é o movimento, o diálogo, a intriga novelística. E, o mais singular de tudo, ao longo dos tempos, nunca houve interrupção nessa criação constante.”

Toda uma teoria de construção da literatura da América Latina contida em um único discurso. A troca de histórias entre colonizados e colonizadores servindo para cimentar relações, não para desconstruir; a literatura usada como um aceno de paz, de mútua concordância e, mais do que tudo, de perdão. Ángel Astúrias levou adiante as reflexões de Ángel Rama e de Ana Pizarro, mas indo pelo viés literário, buscando uma integração pacífica por meio da literatura.

Eu lembro muito de um poema dele, “Guatemala”, que toda vez que leio dá vontade de correr para uma agência de turismo e zarpar para a Guatemala (acreditem, sou uma pessoa muito controlada). Creio que é um dos poucos casos de poema fundacional que existe, ao lado da Ilíada, mas daí é injustiça comparar – prefiro defender essa comparação falando em alguma mesa, quando não corro o risco de ser esquartejado pelas minhas palavras escritas (“verba volant, scripta manent”, blablabla).

Guatemala

Guatemala 

(Cantata)
¡Patria de las perfectas luces, tuya
la ingenua, agraria y melodiosa fiesta,
campos que cubren hoy brazos de cruces!
¡Patria de los perfectos lagos, altos
espejos que tu mano acerca al cielo
para que vea Dios tantos estragos!
¡Patria de los perfectos montes, cauda
de verdes curvas imantando auroras,
hoy por cárcel te dan tus horizontes!
¡Patria de los perfectos días, horas
de pájaros, de flores, de silencio
que ahora, ¡oh dolor!, son agonías!
¡Patria de los perfectos cielos, dueña
de tardes de oro y noches de luceros,
alba y poniente que hoy visten tus duelos!
¡Patria de los perfectos valles, tienden
de volcán a volcán verdes hamacas
que escuchan hoy llorar casas y calles!
¡Patria de los perfectos frutos, pulpa
de paraíso en cáscara de luces,
agridulces ahora por tus lutos!
¡Patria del armadillo y la luciérnaga
del pavoazul y el pájaro esmeralda,
por la que llora sin cesar el grillo!
¡Patria del monaguillo de los monos,
el atelcolilargo, los venados,
los tapires, el pájaro amarillo
y los cenzontles reales, fuego en plumas
del colibrí ligero, juego en voces
de la protesta de tus animales!
Loros de verde que a tu oído gritan
no ser del oro verde que ambicionan
los que la libertad, Patria, te quitan.
Guacamayas que son tu plusvalía
por el plumaje de oro, cielo y sangre,
proclamándote va su gritería…
¡Patria de las perfectas aves, libre
vive el quetzal y encarcelado muere,
la vida es libertad, Patria, lo sabes!
¡Patria de los perfectos mares, tuyos
de tu profundidad y ricas costas,
más salóbregos hoy por tus pesares!
¡Patria de las perfectas mieses, antes
que tuyas, júbilo del pueblo, gente
con la que ahora en el pesar te creces!
¡Patria de los perfectos goces, hechos
de sonido, color, sabor, aroma,
que ahora para quién no son atroces!
¡Patria de las perfectas mieles, llanto
salado hoy, llanto en copa de amargura,
no la apartes de mí, no me consueles!
¡Patria de las perfectas siembras, calzan
con hambre de maíz sus pies desnudos,
los que huyen hoy, tus machos y tus hembras!

Não podia concluir o texto sem voltar a esse tema que fascinou tantos escritores, desde Homero até Joyce e Borges: a volta para casa de Ulisses, que, na versão de Miguel Ángel Astúrias, foi o homem cujo corpo voltou para casa, mas o espírito continua vagando, incontrolável, pelos mares da memória. Essa imagem também é uma perfeita alegoria para a América Latina, um continente que hesita entre olhar para o futuro e cicatrizar as feridas do passado:

Ulises

Intimo amigo del ensueño, Ulises
volvía a su destino de neblina,
un como regresar de otros países
a su país. Por ser de sal marina.

Su corazón surcó la mar meñique
y el gran mar del olvido por afán,
0calafateando amores en el dique
de la sed que traía. Sed, imán.

Aguja de marear entre quimeras
y Sirenas, la ruta presentida
por la carne y el alma ya extranjeras.

Su esposa lo esperaba y son felices
en la leyenda, pero no en la vida,
porque volvió sin regresar Ulises

três Prêmios Nobel de Literatura levando um papo: Gabriela Mistral, Pablo Neruda e Miguel Ángel Asturias

 

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Livro: “Mário de Andrade – Exílio no Rio”, de Moacir Werneck de Castro

Escrevi para o Homo Literatus ( http://homoliteratus.com/ ) uma resenha sobre o livro “Mário de Andrade – Exílio no Rio”, do jornalista Moacir Werneck de Castro, que trata do período muito intenso que o Mario viveu fora de São Paulo.

Um livro tão bem escrito – e com personagens tão fascinantes – que nem parece verdade, mas ficção.

Boa leitura.

 

Mário de Andrade no Rio: o escritor como personagem da própria história

Ao final da leitura de “Mário de Andrade – Exílio no Rio”, uma dúvida: o livro é a biografia de um escritor relatando o período que ele viveu fora da sua cidade natal ou a versão romanceada de fatos reais? Tão prazerosa era a leitura, tão bem construídos os dramas e personagens que, em determinados momentos, foi possível acompanhar as aventuras e desventuras de Mário de Andrade como se estivesse lendo um romance em que ele era reticente personagem, uma tora de madeira a se deslocar em meio a um oceano de nomes, de fatos e de correntes artísticas que insistiam em mudar o seu percurso – e sobre os quais o poeta soube aproveitar o que era interessante e descartar o supérfluo.

Mário de Andrade em sua casa no Rio de Janeiro (1938).

Mário de Andrade em sua casa no Rio de Janeiro (1938).

Para criar essa sensação de ler um misto de reportagem e romance, ajudou muito o fato de Moacir Werneck de Castro (1915-2010) ter sido um jornalista de grande apuro técnico, além de possuir um forte engajamento político, atuando tanto na função de escritor quanto como editor e tradutor. No período que considera ser “de juventude”, estabeleceu amizade com Mário de Andrade, tornando-se seu confessor por meio de conversas e longas cartas (as quais se encontram reproduzidas na última parte do livro, demonstrando todo o carinho e respeito que o escritor lhe dedicava). Graças a essas condições pessoais, quando decidiu escrever sobre os assim chamados “anos de exílio” de Mário de Andrade – o período de tempo em que, frustrado, o escritor saiu de São Paulo e mudou-se para o Rio de Janeiro – a sua intenção manifesta era transmitir toda a efervescência que marcava a cena cultural carioca, com Mário de Andrade transitando maravilhado e um tanto entontecido em meio ao cenário. A construção do livro em segmentos curtos e parágrafos de redação clara e objetiva transformam a leitura em um caleidoscópio de informações não somente sobre o escritor, mas igualmente sobre a política, a economia, a sociedade e a cena cultural de uma época decisiva para os rumos nacionais.

Ao mesmo tempo, Moacir Werneck de Castro pretendia transformar as suas memórias sobre Mário de Andrade em um documento histórico, tanto que buscou fontes bibliográficas para explicar acontecimentos e esclarecer algumas lacunas. O resultado é uma prosa encantadora e informativa, que descreve detalhes do passado de forma natural, usando uma linguagem próxima do coloquial sem soar forçada:

“A Taberna da Glória, a poucos passos do edifício da rua Santo Amaro, era o ponto de Mário de Andrade, que lá ia de noite tomar chope com os amigos, todos mais jovens. Além do grupo da Revista Acadêmica, costumavam aparecer Guilherme Figueiredo, Dante Viggiani, Otávio Dias Leite, Henrique Carstens e Pedro Nava, o mais próximo a ele em idade, e outros.

Mesa alegre, de conversa variada e muita discussão. Quando a roda era mais íntima, vinham à baila problemas pessoais da moçada, e então ele era o conselheiro fraterno. Não raro se largava em confissões sobre a sua natureza de escritor e artista, mas sempre escudado no pudor de revelar o que chamava sua ‘verdade interior’.”

Conforme se percebe pelo trecho acima, é possível ver Mário de Andrade em meio a uma mesa de artistas, tomando chope e trocando confidências sobre a sua vida, ainda que tais confissões sempre tenham mantido um aspecto reservado. Esse detalhe sobre Mário de Andrade é o que mais chama a atenção do autor: ele era uma esfinge ansiosa para ser revelada, mas que prezava o seu mistério. Mesmo cercado por pessoas, mesmo escrevendo críticas literárias e crônicas para os jornais, mesmo proferindo conferências, mesmo se envolvendo em contendas artísticas, existia uma parte do escritor que era intocada pelo público, algo íntimo e preservado a duras penas.

Por este motivo, é grande a tentação do jornalista de transpor o fosso da objetividade e aventurar-se no terreno insondável dos pensamentos mais secretos de Mário de Andrade. Pela amizade que unia ambos, é um movimento compreensível, mas os adeptos de uma biografia mais ponderada e documental podem se sentir enganados pelo grande número de ocasiões em que Moacir Werneck de Castro tenta adivinhar os pensamentos do escritor que se dizia ser “trezentos não, trezentos e cinquenta!”, como demonstra o trecho:

“Recusava-se a aceitar uma literatura e uma arte que, dando desmedida ênfase ao social, tendiam, por leviandade de uns ou falta de talento de outros, a cair na demagogia, e que justificavam, em nome do caráter supostamente revolucionário dos fins, o desprezo pelos meios próprios à obra de arte, ou seja, o domínio do artefazer. A batalha da crítica realça um traço importante da sua personalidade: o apego à ‘lealdade interior’ que o fazia desdenhar facilidades oportunísticas e acomodações. Arriscava-se a ficar sozinho, ou quase; expunha-se à incompreensão quando afirmava: ‘Tudo é possível neste mundo vasto, mas também é incontestável que somente na solidão encontraremos o caminho de nós mesmos.”

É difícil entender o que são pensamentos pessoais do jornalista a respeito do seu objeto de análise ou o que era efetivamente pensado por Mário de Andrade. Da mesma forma, é difícil para Moacir Werneck de Castro esconder a sua amizade ao tratar de assuntos então delicados, como a assim descrita “pansexualidade” de Mário de Andrade – para não dizer homossexualidade. Nesse momento, o jornalista deixa a posição neutra e tece uma série de defesas do escritor enquanto ataca os seus detratores, em especial Oswald de Andrade.

Ainda assim, tal circunstância não prejudica a leitura; ao contrário, deixa o livro mais interessante. Por meio da descrição das palavras e das atitudes do escritor em meio a um período conturbado na vida dele, cercado por uma efervescente cena cultural com quem mantinha uma relação misto de fascínio e de horror, o jornalista realiza uma série de reflexões sobre o fazer artístico que, graças às suas fontes documentais e às dezenas de entrevistas que realizou, se não são fidedignas, chegam bem próximo da realidade.

É possível que a pós-modernidade, com a sua ênfase dada ao documentalmente provado e ao realismo sem licenças criativas, considere “Mário de Andrade – Exílio no Rio” como uma obra ficcional baseada em fatos reais, ao molde dos alertas inseridos no início dos filmes que pretendem contar fatos efetivamente acontecidos. No entanto, se o leitor aceitar o jogo do autor e se concentrar no andamento da história ao invés de colocar em dúvida cada frase, acabará descobrindo um Mário de Andrade diferente da imagem pintada pelos livros escolares ou pela História da Literatura. Verá o escritor como um personagem ultrapassando um importante rito de passagem na sua vida e na sua arte, envolvido em questões mundanas enquanto se interroga sobre o alcance efetivo da sua obra poética. Porém, mais do que tudo, verá que, por trás da aura literária, existia um homem frágil e indeciso para quem a poesia era mais forte do que o próprio corpo.

Texto originalmente publicado no link http://homoliteratus.com/mario-de-andrade-no-rio-o-escritor-como-personagem-da-propria-historia/

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Se não tiver fatos, use o lirismo

No domingo passado, em conversa com os meus pais, eles perguntaram se tinha realmente acontecido um fato que narrei no Facebook. Transcrevo aqui:

“Resumo breve da história: na minha rua, um cara tentou incendiar um ônibus. Os passageiros impediram e bateram nele. A polícia chegou e o salvou. Ele foi preso. Fim da história.
Algumas considerações:
– quando o cara anunciou a sua intenção, o motorista e o cobrador saíram correndo do ônibus. Foram bem ligeiros. Então, se algum dia motorista e cobrador saírem correndo do nada, tem alguma coisa errada acontecendo;
– não sei o que o cara pensou, mas, se não pretendia se imolar, foi o pior plano de assalto que já vi;
– não se tenta ser engraçadinho ou ter planos ousados em um ônibus cheio de gente com camisas de banda de heavy metal. Simplesmente, não;
– a polícia agiu de forma muito controlada e ordeira. Como advogado, eu esperava alguns excessos, um abuso de poder básico, uma ofensinha aos direitos humanos aqui e acolá, um tapa desnecessário, estas coisas, e não. Chegaram, separaram, acalmaram e ainda disseram para o cara que ele devia ter muita vergonha do que tinha feito. Além de apanhar e ser preso, levou uma baita lição de moral;
– a cereja do bolo da história: o cara não carregava combustível consigo. Em determinado momento da refrega, o pessoal que batia nele entrou numa paranoia de que o bandido tinha um cúmplice dentro do ônibus, e este sim carregava o combustível. A polícia foi investigar essa possibilidade e, surpresa surpresa, achou um outro rapaz com o combustível. O mais espantoso era que o cara também tinha ajudado a surrar o seu comparsa. Era inclusive um dos mais entusiasmados, dos que mais chutava e dos que mais gritava “vamu taca fogo nele!” (o que explica tudo, alias, se tivéssemos sido mais atentos, teríamos visto). Sem saber, provando que a vida imita a literatura, o cara usou a estratégia que Edgar Alan Poe descreveu em “A carta roubada” – o lugar menos esperado para se achar algo é o lugar óbvio. O comparsa que tenta se mimetizar com a urbe linchadora… esse sim foi um bom plano.”

É evidente que sim. Os fatos aconteceram como descrevi. Poupei as pessoas de alguns detalhes enfadonhos, como os chutes fortíssimos que deram nas costas do bandido (e que só podiam ter como objetivo quebrar a sua coluna, mas sem sucesso) ou o rastro de sangue deixado quando os policiais arrastaram-no até o camburão e o levantaram. Ou, ainda, o rapaz de cabelos compridos e camisa do Megadeth que, alterado pela bebida, deu um “peitaço” em um dos policiais, cuja única reação foi erguer uma espingarda quase do tamanho da sua perna, e perguntar “Meu, sério mesmo que tu quer fazer isso? SÉRIO MESMO?, e o cara se aquietou.

Poderia ter acontecido, mas não aconteceu.

Poderia ter acontecido, mas não aconteceu.

Começamos a conversar sobre como duas ou mais pessoas podem olhar o mesmo fato e serem capazes de chegar a narrativas diferentes. Ao final, concluí que o importante não é o que se conta, mas o jeito que se conta algo.

Podia ver, nas demais janelas e sacadas da rua, mais gente acompanhando a mesma cena que testemunhei. No entanto, somente eu descreveria da forma que fiz. Outro homem ou mulher tentaria um tipo alternativo de abordagem, talvez alguém se solidarizasse com as vítimas, outro atacasse os policiais, e ainda existiriam aqueles capazes de chegar a conclusões sociológicas sobre a mesma sucessão de fatos. Não sei. Muitas visões, muitas possibilidades. Eu, por minha vez, só conseguia ver literatura se contorcendo por toda a cena como se fossem serpentes, todas evocando livros. Mencionei “A carta roubada”, do Edgar Alan Poe, mas poderia ter mencionado outras histórias que me acudiram no momento, como “Arsène Lupin”, do Maurice Leblanc, “Recordações da casa dos mortos”, de Dostoiévski, a cena das sereias da “Odisseia”, de Homero, ou a briga no convés de “Lorde Jim”, do Conrad.

Existem muitas formas de contar a mesma história, e cabe ao autor escolher a mais adequada. Na descrição que fiz, o primeiro parágrafo contém um breve sumário de toda a cena, do início ao fim, e uma pessoa mais pragmática pode se satisfazer com a realidade fria dos fatos. Em seguida, eu próprio afirmei que ia fazer algumas considerações. Neste momento, saí da objetividade formal e passei àquilo que o meu subjetivo observou dentro da mesma sequência imutável de fatos. Os detalhes que concederam vivacidade à cena.

Claro que descrevi a cena no calor do momento, sem atentar muito para a correção gramatical ou lexical, sem sequer observar o estilo, e toda esta análise que acabei de fazer aconteceu em segundos, quando ainda estava redigindo, no mais absoluto impulso. Quando se aprende a escrever com o objetivo de transmitir uma narrativa, o pensamento é mais rápido do que as palavras ou do que o estilo; o resto do texto é revisão e correção.

Escrever é fazer escolhas. Qualquer um pode escrever como Shakespeare ou como a Barbara Cartland, tudo é questão de saber o jeito que deseja contar a história.

O que me faz lembrar de Tchekhov. No dia 23 de fevereiro de 1892, do alto dos seus recém-completos 32 anos, ele escreveu uma carta para o seu amigo escritor V. A. Tihonov com este teor (tradução minha do inglês para o português):

“Você está enganado em imaginar que estava bêbado na festa realizada para o aniversário de Shcheglov. Você teve uma queda, isso foi tudo. Você dançou quando todos eles dançaram, e o seu jigitivka na carruagem nada animada do cocheiro causou deleite geral. Quanto à sua crítica, era mais provável  estar longe de ser grave, posto que não lembro mais dela. Só lembro que Vvedensky e eu, por algum motivo, caímos na gargalhada enquanto o escutávamos.
Você quer a minha biografia? Aqui está.
Eu nasci em Taganrog em 1860. Terminei o ensino médio em Taganrog em 1879. Em 1884, eu consegui a minha licenciatura em medicina pela Universidade de Moscou. Em 1888, ganhei o prêmio Pushkin. Em 1890, fiz uma viagem para Sahalin através da Sibéria, e voltei pelo mar. Em 1891, eu fiz uma turnê na Europa, onde bebi excelente vinho e comi ostras. Em 1892, tomei parte em uma orgia na companhia de V. A. Tihonov em uma festa de aniversário. Comecei a escrever em 1879. As coleções publicadas das minhas obras são: ‘Contos heterogêneos’, ‘À meia noite’, ‘Histórias’, ‘Pessoas Rudes’, e um romance, ‘O Duelo’. Pequei na linha dramática também, embora com moderação. Eu fui traduzido em todas as línguas, com exceção das estrangeiras, embora eu tenha de fato sido, desde há muito atrás, traduzido pelos alemães. Os checos e os sérvios parecem aprovar-me também, e os franceses não são indiferentes a mim. Tenho sondado os mistérios do amor desde meus treze anos. Com os meus colegas, tanto os médicos quanto homens de letras, eu estou no melhor dos termos. Sou um bacharel. Gostaria de receber uma pensão. Pratico medicina, e tanto assim que, por vezes, no verão eu executo autópsias, embora não tenha feito isso por dois ou três anos. Dos autores, o meu favorito é Tolstoi, e, entre os médicos, Zaharin.
Contudo, tudo isto é nonsense. Escreva a biografia que quiser. Se não tiver fatos, use o lirismo.”

Imagino que Tihonov tenha pedido uma biografia de Tchekhov para apresentar em algum lugar, e essa foi a resposta do escritor russo.

Anton Tchekhov jovem

Anton Tchekhov jovem

Na carta, Tchekhov faz uma autobiografia deliciosa. Consegue misturar fatos inquestionáveis (o nascimento, a formatura em medicina, as viagens) com pequenos detalhes que fazem extrema diferença, como a referência às ostras e a à participação em uma orgia. Faz um jogo de linguagem engraçado com as suas traduções e, ao mesmo tempo, apresenta frases de uma ironia devastadora, como Pequei na linha dramática também, embora com moderação e Gostaria de receber uma pensão. Fora da ordem cronológica, insere uma frase aparentemente fora do contexto, Tenho sondado os mistérios do amor desde meus treze anos”, e ainda diz quem é o seu escritor e seu médico favoritos.

Ao final, a grande lição do escritor russo: tudo é nonsense. A vida própria que levamos é nonsense. As pessoas podem fazer a biografia que quiserem sobre nós, podem ter a imagem que bem desejarem a nosso respeito. Podem imaginar que somos herois ou vilões nas histórias delas. Contudo, no final do dia, a única coisa que importa é como usamos o lirismo para contar as nossas vidas chatas e rotineiras. Assim como algumas pessoas podem ver um fato social em um ônibus quase assaltado, existem aquelas que conseguem ver os mesmos eventos como uma sucessão de planos mal executados ou de uma genialidade impressionante diante das circunstâncias.

Quem tiver o melhor lirismo, fará a sua versão triunfar. Não por ser a mais realista, mas por ser a mais verossímil.

altamira

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