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Miguel Ángel Astúrias e a América Latina em carne e seiva

Ontem completamos 43 anos sem Miguel Ángel Asturias, um dos escritores que melhor soube cantar as belezas da América Latina. Fiz uma postagem no Facebook comentando o fato, e várias pessoas pediram-me para falar um pouco mais sobre esse escritor guatemalteco, então resolvi escrever algo um pouco mais dilatado aqui no blog.

Miguel Ángel Astúrias

Nós, brasileiros, conhecemos pouco sobre a obra de Ángel Astúrias. Não farei uma tabulação e nem elencarei estatísticas, mas basta observar o mundo literário local, mais preocupado com autores que vêm da Europa e dos Estados Unidos do que com a vasta literatura produzida no nosso próprio quintal. É sintomático que tantas pessoas louvem escritores que possuem uma literatura de viés mais europeu (haja vista as dezenas de palestras e homenagens a Cortázar e a Borges), deixando quase esquecido um autor que sabia escrever ao mesmo tempo em que se maravilhava pela beleza, pelas cores e pelos sabores que só existem no nosso continente.

Há alguns anos li “Homens de milho”. Era um livro muito carnal, na falta de uma palavra melhor: substancioso, forte, cheio de vida a brotar das letras. Lembro o impacto que Ángel Asturias me causou e, ao lado de Alejo Carpentier, na minha opinião são o melhor que a América Latina já produziu. Pena que quase não seja traduzido, e que boa parte das pessoas ignore não só a sua obra, mas o fato dele ter inclusive ganhado um Nobel de Literatura. 

Miguel Ángel Astúrias escreveu romances, poesias, ensaios e até se aventurou pelo teatro. Na sua obra poética, foi um adepto fervoroso do soneto, uma das mais nobres formas de escrever poesia (o que me faz lembrar de uma história contada por Affonso Romano de Sant’Anna: Manuel Bandeira, quando queria saber se a obra de algum poeta novato tinha vigor literário, pedia dois poemas de amostra, um em versos livres e o outro um soneto. Segundo ele, poeta que não sabe escrever soneto também não seria capaz de dominar a arte poética). Entre os poemas de Ángel Astúrias, gosto muito desse:

La luz corre desnuda por el río 

La luz corre desnuda por el río
huyendo sin cesar en lo movible
de la profundidad, del hondo frío
en que empieza la sombra y lo invisible.
La conoció al nacer, era rocío,
no este vano correr tras lo imposible,
imagen del humano desafío
a la divinidad. Sueño apacible
que endulza los saleros de los ojos,
mesa frugal y paz es lo que anhela
navegante, soldado y rey de antojos;
pero ¡ay! del ¡ay! del alma, no se alcanza
a volver con los remos y la vela
al puerto en que dejamos la esperanza.

Um soneto repleto de imagens poéticas fortes. Pega a metáfora do rio e a transforma em vida e depois de novo em rio com tanta naturalidade que nem parece estar conduzindo o leitor por essas águas plácidas.

A fama de Miguel Ángel Astúrias deve-se a um outro romance, “El Señor President”. O personagem nunca nominado é um retrato de tantos tiranos que conhecemos, capaz de se encaixar em qualquer cultura e espaço. Foi graças a esse romance que o guatemalteco ganhou o Nobel de Literatura, e leiam a beleza que foi o final do discurso de aceitação do prêmio (tradução minha):

“Andaimes. Escadas. Novos vocabulários. A recitação primitiva dos textos. Os rapsodistas. E, mais tarde, mais uma vez, a trajetória quebrada. A nova língua. Grandes cadeias de palavras. Pensamento descontrolado. Até chegar, mais uma vez, após as mais sangrentas batalhas lexicais, às próprias expressões. Não há regras – elas são inventadas. Depois de muita invenção, os gramáticos vêm então com suas tesouras de corte de linguagem. A América Hispânica está bem comigo, mas sem a aspereza. Gramática torna-se uma obsessão. O risco de anti-gramática. É aí que estamos agora. A busca de palavras dinâmicas. Outra magia. O poeta e o escritor da palavra ativa. Vida. Suas variações. Nada pré-fabricado. Tudo em ebulição. Não para escrever literatura. Não substitua palavras por coisas. Para procurar coisas de palavras, seres de palavras. E procure os problemas do homem, além disso. A evasão é impossível. Homem. Seus problemas. Um continente que fala, e que foi ouvido por esta Academia. Não nos peçam genealogias, escolas, tratados. Nós trazemos as probabilidades de uma palavra. Verifique-as. Elas são singulares. Singular é o movimento, o diálogo, a intriga novelística. E, o mais singular de tudo, ao longo dos tempos, nunca houve interrupção nessa criação constante.”

Toda uma teoria de construção da literatura da América Latina contida em um único discurso. A troca de histórias entre colonizados e colonizadores servindo para cimentar relações, não para desconstruir; a literatura usada como um aceno de paz, de mútua concordância e, mais do que tudo, de perdão. Ángel Astúrias levou adiante as reflexões de Ángel Rama e de Ana Pizarro, mas indo pelo viés literário, buscando uma integração pacífica por meio da literatura.

Eu lembro muito de um poema dele, “Guatemala”, que toda vez que leio dá vontade de correr para uma agência de turismo e zarpar para a Guatemala (acreditem, sou uma pessoa muito controlada). Creio que é um dos poucos casos de poema fundacional que existe, ao lado da Ilíada, mas daí é injustiça comparar – prefiro defender essa comparação falando em alguma mesa, quando não corro o risco de ser esquartejado pelas minhas palavras escritas (“verba volant, scripta manent”, blablabla).

Guatemala

Guatemala 

(Cantata)
¡Patria de las perfectas luces, tuya
la ingenua, agraria y melodiosa fiesta,
campos que cubren hoy brazos de cruces!
¡Patria de los perfectos lagos, altos
espejos que tu mano acerca al cielo
para que vea Dios tantos estragos!
¡Patria de los perfectos montes, cauda
de verdes curvas imantando auroras,
hoy por cárcel te dan tus horizontes!
¡Patria de los perfectos días, horas
de pájaros, de flores, de silencio
que ahora, ¡oh dolor!, son agonías!
¡Patria de los perfectos cielos, dueña
de tardes de oro y noches de luceros,
alba y poniente que hoy visten tus duelos!
¡Patria de los perfectos valles, tienden
de volcán a volcán verdes hamacas
que escuchan hoy llorar casas y calles!
¡Patria de los perfectos frutos, pulpa
de paraíso en cáscara de luces,
agridulces ahora por tus lutos!
¡Patria del armadillo y la luciérnaga
del pavoazul y el pájaro esmeralda,
por la que llora sin cesar el grillo!
¡Patria del monaguillo de los monos,
el atelcolilargo, los venados,
los tapires, el pájaro amarillo
y los cenzontles reales, fuego en plumas
del colibrí ligero, juego en voces
de la protesta de tus animales!
Loros de verde que a tu oído gritan
no ser del oro verde que ambicionan
los que la libertad, Patria, te quitan.
Guacamayas que son tu plusvalía
por el plumaje de oro, cielo y sangre,
proclamándote va su gritería…
¡Patria de las perfectas aves, libre
vive el quetzal y encarcelado muere,
la vida es libertad, Patria, lo sabes!
¡Patria de los perfectos mares, tuyos
de tu profundidad y ricas costas,
más salóbregos hoy por tus pesares!
¡Patria de las perfectas mieses, antes
que tuyas, júbilo del pueblo, gente
con la que ahora en el pesar te creces!
¡Patria de los perfectos goces, hechos
de sonido, color, sabor, aroma,
que ahora para quién no son atroces!
¡Patria de las perfectas mieles, llanto
salado hoy, llanto en copa de amargura,
no la apartes de mí, no me consueles!
¡Patria de las perfectas siembras, calzan
con hambre de maíz sus pies desnudos,
los que huyen hoy, tus machos y tus hembras!

Não podia concluir o texto sem voltar a esse tema que fascinou tantos escritores, desde Homero até Joyce e Borges: a volta para casa de Ulisses, que, na versão de Miguel Ángel Astúrias, foi o homem cujo corpo voltou para casa, mas o espírito continua vagando, incontrolável, pelos mares da memória. Essa imagem também é uma perfeita alegoria para a América Latina, um continente que hesita entre olhar para o futuro e cicatrizar as feridas do passado:

Ulises

Intimo amigo del ensueño, Ulises
volvía a su destino de neblina,
un como regresar de otros países
a su país. Por ser de sal marina.

Su corazón surcó la mar meñique
y el gran mar del olvido por afán,
0calafateando amores en el dique
de la sed que traía. Sed, imán.

Aguja de marear entre quimeras
y Sirenas, la ruta presentida
por la carne y el alma ya extranjeras.

Su esposa lo esperaba y son felices
en la leyenda, pero no en la vida,
porque volvió sin regresar Ulises

três Prêmios Nobel de Literatura levando um papo: Gabriela Mistral, Pablo Neruda e Miguel Ángel Asturias

 

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Livro: “Mário de Andrade – Exílio no Rio”, de Moacir Werneck de Castro

Escrevi para o Homo Literatus ( http://homoliteratus.com/ ) uma resenha sobre o livro “Mário de Andrade – Exílio no Rio”, do jornalista Moacir Werneck de Castro, que trata do período muito intenso que o Mario viveu fora de São Paulo.

Um livro tão bem escrito – e com personagens tão fascinantes – que nem parece verdade, mas ficção.

Boa leitura.

 

Mário de Andrade no Rio: o escritor como personagem da própria história

Ao final da leitura de “Mário de Andrade – Exílio no Rio”, uma dúvida: o livro é a biografia de um escritor relatando o período que ele viveu fora da sua cidade natal ou a versão romanceada de fatos reais? Tão prazerosa era a leitura, tão bem construídos os dramas e personagens que, em determinados momentos, foi possível acompanhar as aventuras e desventuras de Mário de Andrade como se estivesse lendo um romance em que ele era reticente personagem, uma tora de madeira a se deslocar em meio a um oceano de nomes, de fatos e de correntes artísticas que insistiam em mudar o seu percurso – e sobre os quais o poeta soube aproveitar o que era interessante e descartar o supérfluo.

Mário de Andrade em sua casa no Rio de Janeiro (1938).

Mário de Andrade em sua casa no Rio de Janeiro (1938).

Para criar essa sensação de ler um misto de reportagem e romance, ajudou muito o fato de Moacir Werneck de Castro (1915-2010) ter sido um jornalista de grande apuro técnico, além de possuir um forte engajamento político, atuando tanto na função de escritor quanto como editor e tradutor. No período que considera ser “de juventude”, estabeleceu amizade com Mário de Andrade, tornando-se seu confessor por meio de conversas e longas cartas (as quais se encontram reproduzidas na última parte do livro, demonstrando todo o carinho e respeito que o escritor lhe dedicava). Graças a essas condições pessoais, quando decidiu escrever sobre os assim chamados “anos de exílio” de Mário de Andrade – o período de tempo em que, frustrado, o escritor saiu de São Paulo e mudou-se para o Rio de Janeiro – a sua intenção manifesta era transmitir toda a efervescência que marcava a cena cultural carioca, com Mário de Andrade transitando maravilhado e um tanto entontecido em meio ao cenário. A construção do livro em segmentos curtos e parágrafos de redação clara e objetiva transformam a leitura em um caleidoscópio de informações não somente sobre o escritor, mas igualmente sobre a política, a economia, a sociedade e a cena cultural de uma época decisiva para os rumos nacionais.

Ao mesmo tempo, Moacir Werneck de Castro pretendia transformar as suas memórias sobre Mário de Andrade em um documento histórico, tanto que buscou fontes bibliográficas para explicar acontecimentos e esclarecer algumas lacunas. O resultado é uma prosa encantadora e informativa, que descreve detalhes do passado de forma natural, usando uma linguagem próxima do coloquial sem soar forçada:

“A Taberna da Glória, a poucos passos do edifício da rua Santo Amaro, era o ponto de Mário de Andrade, que lá ia de noite tomar chope com os amigos, todos mais jovens. Além do grupo da Revista Acadêmica, costumavam aparecer Guilherme Figueiredo, Dante Viggiani, Otávio Dias Leite, Henrique Carstens e Pedro Nava, o mais próximo a ele em idade, e outros.

Mesa alegre, de conversa variada e muita discussão. Quando a roda era mais íntima, vinham à baila problemas pessoais da moçada, e então ele era o conselheiro fraterno. Não raro se largava em confissões sobre a sua natureza de escritor e artista, mas sempre escudado no pudor de revelar o que chamava sua ‘verdade interior’.”

Conforme se percebe pelo trecho acima, é possível ver Mário de Andrade em meio a uma mesa de artistas, tomando chope e trocando confidências sobre a sua vida, ainda que tais confissões sempre tenham mantido um aspecto reservado. Esse detalhe sobre Mário de Andrade é o que mais chama a atenção do autor: ele era uma esfinge ansiosa para ser revelada, mas que prezava o seu mistério. Mesmo cercado por pessoas, mesmo escrevendo críticas literárias e crônicas para os jornais, mesmo proferindo conferências, mesmo se envolvendo em contendas artísticas, existia uma parte do escritor que era intocada pelo público, algo íntimo e preservado a duras penas.

Por este motivo, é grande a tentação do jornalista de transpor o fosso da objetividade e aventurar-se no terreno insondável dos pensamentos mais secretos de Mário de Andrade. Pela amizade que unia ambos, é um movimento compreensível, mas os adeptos de uma biografia mais ponderada e documental podem se sentir enganados pelo grande número de ocasiões em que Moacir Werneck de Castro tenta adivinhar os pensamentos do escritor que se dizia ser “trezentos não, trezentos e cinquenta!”, como demonstra o trecho:

“Recusava-se a aceitar uma literatura e uma arte que, dando desmedida ênfase ao social, tendiam, por leviandade de uns ou falta de talento de outros, a cair na demagogia, e que justificavam, em nome do caráter supostamente revolucionário dos fins, o desprezo pelos meios próprios à obra de arte, ou seja, o domínio do artefazer. A batalha da crítica realça um traço importante da sua personalidade: o apego à ‘lealdade interior’ que o fazia desdenhar facilidades oportunísticas e acomodações. Arriscava-se a ficar sozinho, ou quase; expunha-se à incompreensão quando afirmava: ‘Tudo é possível neste mundo vasto, mas também é incontestável que somente na solidão encontraremos o caminho de nós mesmos.”

É difícil entender o que são pensamentos pessoais do jornalista a respeito do seu objeto de análise ou o que era efetivamente pensado por Mário de Andrade. Da mesma forma, é difícil para Moacir Werneck de Castro esconder a sua amizade ao tratar de assuntos então delicados, como a assim descrita “pansexualidade” de Mário de Andrade – para não dizer homossexualidade. Nesse momento, o jornalista deixa a posição neutra e tece uma série de defesas do escritor enquanto ataca os seus detratores, em especial Oswald de Andrade.

Ainda assim, tal circunstância não prejudica a leitura; ao contrário, deixa o livro mais interessante. Por meio da descrição das palavras e das atitudes do escritor em meio a um período conturbado na vida dele, cercado por uma efervescente cena cultural com quem mantinha uma relação misto de fascínio e de horror, o jornalista realiza uma série de reflexões sobre o fazer artístico que, graças às suas fontes documentais e às dezenas de entrevistas que realizou, se não são fidedignas, chegam bem próximo da realidade.

É possível que a pós-modernidade, com a sua ênfase dada ao documentalmente provado e ao realismo sem licenças criativas, considere “Mário de Andrade – Exílio no Rio” como uma obra ficcional baseada em fatos reais, ao molde dos alertas inseridos no início dos filmes que pretendem contar fatos efetivamente acontecidos. No entanto, se o leitor aceitar o jogo do autor e se concentrar no andamento da história ao invés de colocar em dúvida cada frase, acabará descobrindo um Mário de Andrade diferente da imagem pintada pelos livros escolares ou pela História da Literatura. Verá o escritor como um personagem ultrapassando um importante rito de passagem na sua vida e na sua arte, envolvido em questões mundanas enquanto se interroga sobre o alcance efetivo da sua obra poética. Porém, mais do que tudo, verá que, por trás da aura literária, existia um homem frágil e indeciso para quem a poesia era mais forte do que o próprio corpo.

Texto originalmente publicado no link http://homoliteratus.com/mario-de-andrade-no-rio-o-escritor-como-personagem-da-propria-historia/

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Se não tiver fatos, use o lirismo

No domingo passado, em conversa com os meus pais, eles perguntaram se tinha realmente acontecido um fato que narrei no Facebook. Transcrevo aqui:

“Resumo breve da história: na minha rua, um cara tentou incendiar um ônibus. Os passageiros impediram e bateram nele. A polícia chegou e o salvou. Ele foi preso. Fim da história.
Algumas considerações:
– quando o cara anunciou a sua intenção, o motorista e o cobrador saíram correndo do ônibus. Foram bem ligeiros. Então, se algum dia motorista e cobrador saírem correndo do nada, tem alguma coisa errada acontecendo;
– não sei o que o cara pensou, mas, se não pretendia se imolar, foi o pior plano de assalto que já vi;
– não se tenta ser engraçadinho ou ter planos ousados em um ônibus cheio de gente com camisas de banda de heavy metal. Simplesmente, não;
– a polícia agiu de forma muito controlada e ordeira. Como advogado, eu esperava alguns excessos, um abuso de poder básico, uma ofensinha aos direitos humanos aqui e acolá, um tapa desnecessário, estas coisas, e não. Chegaram, separaram, acalmaram e ainda disseram para o cara que ele devia ter muita vergonha do que tinha feito. Além de apanhar e ser preso, levou uma baita lição de moral;
– a cereja do bolo da história: o cara não carregava combustível consigo. Em determinado momento da refrega, o pessoal que batia nele entrou numa paranoia de que o bandido tinha um cúmplice dentro do ônibus, e este sim carregava o combustível. A polícia foi investigar essa possibilidade e, surpresa surpresa, achou um outro rapaz com o combustível. O mais espantoso era que o cara também tinha ajudado a surrar o seu comparsa. Era inclusive um dos mais entusiasmados, dos que mais chutava e dos que mais gritava “vamu taca fogo nele!” (o que explica tudo, alias, se tivéssemos sido mais atentos, teríamos visto). Sem saber, provando que a vida imita a literatura, o cara usou a estratégia que Edgar Alan Poe descreveu em “A carta roubada” – o lugar menos esperado para se achar algo é o lugar óbvio. O comparsa que tenta se mimetizar com a urbe linchadora… esse sim foi um bom plano.”

É evidente que sim. Os fatos aconteceram como descrevi. Poupei as pessoas de alguns detalhes enfadonhos, como os chutes fortíssimos que deram nas costas do bandido (e que só podiam ter como objetivo quebrar a sua coluna, mas sem sucesso) ou o rastro de sangue deixado quando os policiais arrastaram-no até o camburão e o levantaram. Ou, ainda, o rapaz de cabelos compridos e camisa do Megadeth que, alterado pela bebida, deu um “peitaço” em um dos policiais, cuja única reação foi erguer uma espingarda quase do tamanho da sua perna, e perguntar “Meu, sério mesmo que tu quer fazer isso? SÉRIO MESMO?, e o cara se aquietou.

Poderia ter acontecido, mas não aconteceu.

Poderia ter acontecido, mas não aconteceu.

Começamos a conversar sobre como duas ou mais pessoas podem olhar o mesmo fato e serem capazes de chegar a narrativas diferentes. Ao final, concluí que o importante não é o que se conta, mas o jeito que se conta algo.

Podia ver, nas demais janelas e sacadas da rua, mais gente acompanhando a mesma cena que testemunhei. No entanto, somente eu descreveria da forma que fiz. Outro homem ou mulher tentaria um tipo alternativo de abordagem, talvez alguém se solidarizasse com as vítimas, outro atacasse os policiais, e ainda existiriam aqueles capazes de chegar a conclusões sociológicas sobre a mesma sucessão de fatos. Não sei. Muitas visões, muitas possibilidades. Eu, por minha vez, só conseguia ver literatura se contorcendo por toda a cena como se fossem serpentes, todas evocando livros. Mencionei “A carta roubada”, do Edgar Alan Poe, mas poderia ter mencionado outras histórias que me acudiram no momento, como “Arsène Lupin”, do Maurice Leblanc, “Recordações da casa dos mortos”, de Dostoiévski, a cena das sereias da “Odisseia”, de Homero, ou a briga no convés de “Lorde Jim”, do Conrad.

Existem muitas formas de contar a mesma história, e cabe ao autor escolher a mais adequada. Na descrição que fiz, o primeiro parágrafo contém um breve sumário de toda a cena, do início ao fim, e uma pessoa mais pragmática pode se satisfazer com a realidade fria dos fatos. Em seguida, eu próprio afirmei que ia fazer algumas considerações. Neste momento, saí da objetividade formal e passei àquilo que o meu subjetivo observou dentro da mesma sequência imutável de fatos. Os detalhes que concederam vivacidade à cena.

Claro que descrevi a cena no calor do momento, sem atentar muito para a correção gramatical ou lexical, sem sequer observar o estilo, e toda esta análise que acabei de fazer aconteceu em segundos, quando ainda estava redigindo, no mais absoluto impulso. Quando se aprende a escrever com o objetivo de transmitir uma narrativa, o pensamento é mais rápido do que as palavras ou do que o estilo; o resto do texto é revisão e correção.

Escrever é fazer escolhas. Qualquer um pode escrever como Shakespeare ou como a Barbara Cartland, tudo é questão de saber o jeito que deseja contar a história.

O que me faz lembrar de Tchekhov. No dia 23 de fevereiro de 1892, do alto dos seus recém-completos 32 anos, ele escreveu uma carta para o seu amigo escritor V. A. Tihonov com este teor (tradução minha do inglês para o português):

“Você está enganado em imaginar que estava bêbado na festa realizada para o aniversário de Shcheglov. Você teve uma queda, isso foi tudo. Você dançou quando todos eles dançaram, e o seu jigitivka na carruagem nada animada do cocheiro causou deleite geral. Quanto à sua crítica, era mais provável  estar longe de ser grave, posto que não lembro mais dela. Só lembro que Vvedensky e eu, por algum motivo, caímos na gargalhada enquanto o escutávamos.
Você quer a minha biografia? Aqui está.
Eu nasci em Taganrog em 1860. Terminei o ensino médio em Taganrog em 1879. Em 1884, eu consegui a minha licenciatura em medicina pela Universidade de Moscou. Em 1888, ganhei o prêmio Pushkin. Em 1890, fiz uma viagem para Sahalin através da Sibéria, e voltei pelo mar. Em 1891, eu fiz uma turnê na Europa, onde bebi excelente vinho e comi ostras. Em 1892, tomei parte em uma orgia na companhia de V. A. Tihonov em uma festa de aniversário. Comecei a escrever em 1879. As coleções publicadas das minhas obras são: ‘Contos heterogêneos’, ‘À meia noite’, ‘Histórias’, ‘Pessoas Rudes’, e um romance, ‘O Duelo’. Pequei na linha dramática também, embora com moderação. Eu fui traduzido em todas as línguas, com exceção das estrangeiras, embora eu tenha de fato sido, desde há muito atrás, traduzido pelos alemães. Os checos e os sérvios parecem aprovar-me também, e os franceses não são indiferentes a mim. Tenho sondado os mistérios do amor desde meus treze anos. Com os meus colegas, tanto os médicos quanto homens de letras, eu estou no melhor dos termos. Sou um bacharel. Gostaria de receber uma pensão. Pratico medicina, e tanto assim que, por vezes, no verão eu executo autópsias, embora não tenha feito isso por dois ou três anos. Dos autores, o meu favorito é Tolstoi, e, entre os médicos, Zaharin.
Contudo, tudo isto é nonsense. Escreva a biografia que quiser. Se não tiver fatos, use o lirismo.”

Imagino que Tihonov tenha pedido uma biografia de Tchekhov para apresentar em algum lugar, e essa foi a resposta do escritor russo.

Anton Tchekhov jovem

Anton Tchekhov jovem

Na carta, Tchekhov faz uma autobiografia deliciosa. Consegue misturar fatos inquestionáveis (o nascimento, a formatura em medicina, as viagens) com pequenos detalhes que fazem extrema diferença, como a referência às ostras e a à participação em uma orgia. Faz um jogo de linguagem engraçado com as suas traduções e, ao mesmo tempo, apresenta frases de uma ironia devastadora, como Pequei na linha dramática também, embora com moderação e Gostaria de receber uma pensão. Fora da ordem cronológica, insere uma frase aparentemente fora do contexto, Tenho sondado os mistérios do amor desde meus treze anos”, e ainda diz quem é o seu escritor e seu médico favoritos.

Ao final, a grande lição do escritor russo: tudo é nonsense. A vida própria que levamos é nonsense. As pessoas podem fazer a biografia que quiserem sobre nós, podem ter a imagem que bem desejarem a nosso respeito. Podem imaginar que somos herois ou vilões nas histórias delas. Contudo, no final do dia, a única coisa que importa é como usamos o lirismo para contar as nossas vidas chatas e rotineiras. Assim como algumas pessoas podem ver um fato social em um ônibus quase assaltado, existem aquelas que conseguem ver os mesmos eventos como uma sucessão de planos mal executados ou de uma genialidade impressionante diante das circunstâncias.

Quem tiver o melhor lirismo, fará a sua versão triunfar. Não por ser a mais realista, mas por ser a mais verossímil.

altamira

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Texto publicado na revista eletrônica da Dublinense (19/01/2016): “Não existe escritor livre (ou coisas para não se fazer na literatura)”

No texto que escrevi esta semana para o Medium da Dublinense, tratei da liberdade relativa do ato de escrever.

Imaginamos que a literatura é um ato de sublime liberdade, mas, na verdade, nunca estamos completamente sem amarras, sempre estamos com o pé preso em algum lugar. Recordo que Virginia Woolf afirmou que só existiram dois escritores livres no mundo, Montaigne e Rousseau, no sentido de que tudo aquilo que pensavam era colocado em algum papel. Concordo quanto ao Montaigne e discordo quanto ao Rousseau, mas aposto que meus pensamentos não perturbarão a Virginia Woolf.

Boa leitura!

Não existe escritor livre (ou coisas para não se fazer na literatura)

 

Sábado passado, durante o jantar, estava conversando com uma amiga sobre a peça “Dona Flor e seus dois maridos”, baseada no livro de Jorge Amado, e constatei um inesperado paralelismo com “Incidente em Antares”, do Érico Veríssimo. Em ambas as obras, os autores utilizaram elementos fantásticos para desmascarar as hipocrisias do seu tempo: a primeira usou o fantasma de Vadinho, a segunda, mortos-vivos. Mencionei a ironia de que dois escritores imbuídos do espírito da Geração de 30, caracterizada pela denúncia política, pela exploração dos temas nacionais e pela busca incessante do realismo, tenham apelado para o velho e bom fantástico para conseguir contar as suas histórias.

Jorge Amado e Erico Verissimo em Porto Alegre

Jorge Amado e Erico Verissimo em Porto Alegre

Às vezes acontece de eu mencionar uma frase solta e ela só fazer sentido alguns dias ou meses ou anos depois. No caso desta conversa, foi “não existe escritor livre, estamos todos presos”. Assim que falei, a frase caiu como uma pedra no poço azul da minha tranquilidade, gerando ondas, reflexos, dúvidas.

Sempre imaginei a literatura como um espaço livre no qual escritores teriam plena liberdade para desenvolver os assuntos que melhor desejassem. No entanto, não é bem assim. Escritores são escravos dos seus leitores: é uma cadeia bem elegante, com muito conforto e até mesmo algumas alegrias, mas, ainda assim, é uma cadeia. A extensão da nossa liberdade é ditada pelo público. Escrever fora das suas expectativas leva à maior de todas as punições: a não-leitura. O desprezo. O escárnio. A obra futura está em constante comparação com a que já foi realizada, e sempre em desvantagem. Com o passar dos tempos, não é tão difícil imaginar um fantasma parado às nossas costas, olhar pousado sobre as frases escritas, dedos tamborilando o encosto da poltrona. Maupassant chamou de Horla, mas poderia ser o Leitor, e não é um copo de leite que irá satisfazê-lo.

No domingo, assisti a um documentário contando a vida de Charles Dickens em que o assunto voltou a surgir. Dickens foi um dos primeiros escritores a realizar leituras públicas das suas obras e a ganhar muito dinheiro com elas. Ele realizava turnês pela Inglaterra, lendo “David Copperfield”, “Oliver Twist”, “Barnaby Rudge”, “A Christmas Carol”, e os teatros enchiam de leitores dispostos a pagar caro para escutá-lo. Segundo depoimentos de alguns espectadores, Dickens não falava muito alto, mas a sua figura magnetizava o ambiente. Ele interpretava a voz e os maneirismos de cada personagem. Na plateia, algumas pessoas riam, outras se emocionavam e ainda existiam aquelas que desmaiavam de emoção ao escutar ditas leituras públicas. No entanto, Dickens odiava realizá-las, e o seu propósito manifesto era, de acordo com as cartas, “ganhar muito dinheiro”. Conseguiu tal objetivo, mas às custas de se exibir como um macaco amestrado para os seus leitores. Não é coincidência que, após retornar de uma turnê nos Estados Unidos, estava magro, cansado e sem vontade de conversar com ninguém, acabando por falecer alguns meses depois. Estar constantemente agradando ao leitor e se submetendo à sua vontade causa problemas de saúde e ausência de criatividade.

keep calm an

Talvez por causa deste paradoxo – escrevemos para exercer a liberdade, mas acabamos sendo presos pela própria literatura – que, em uma esquecida noite de 1939, em San Isidro, Jorge Luis Borges, Silvina Ocampo e Adolfo Bioy Casares sentaram-se para conversar e acabaram esboçando um conto (“otro de los que nunca escribiríamos”).

Imaginaram a história de um jovem literato da capital que, atraído pela fama – restrita a alguns círculos acadêmicos refinados – de um escritor, resolve investigá-lo e chega a uma lista desparelha de obras, que vão desde discursos vazios até tratados sobre assuntos irrelevantes. Os livros escritos por este escritor eram feitos com o objetivo específico de não serem estimados pelo público, e não tinham uma sequência lógica. Intrigado, o jovem literato persegue os passos do escritor e chega ao castelo onde ele passou seus últimos meses de vida. Entre rascunhos e papéis incertos, encontra uma lista de “coisas para não se fazer na literatura”, constituída pelos seguintes itens a serem evitados quando se pretende escrever:

* Curiosidades e paradoxos psicológicos: assassinatos por gentileza, suicídios por felicidade;

* Interpretações surpreendentes de certos livros e personagens: a misoginia de Don Juan, etc.;

* Pares de protagonistas muito obviamente contrastantes: Dom Quixote e Sancho, Sherlock Holmes e Watson;

* Romances com personagens idênticos, como Bouvard e Pécuchet: ao inventar uma característica para um deles, o autor é obrigado a inventar uma equivalente para o outro;

* Personagens retratados por suas singularidades, como em Dickens;

* Novidades e surpresas: leitores civilizados não se divertem com a descortesia de uma surpresa;

* Jogos ociosos com o tempo e o espaço: Faulkner, Borges, etc.;

* Revelação, em um romance, de que o verdadeiro herói é a pradaria, a selva, o mar, a chuva, a bolsa de valores;

* Poemas, situações, personagens com os quais o leitor pudesse se identificar;

* Frases que possam se tornar provérbios ou citações: são incompatíveis com um livro coerente;

* Personagens capazes de se transformar em mitos;

* Enumeração caótica;

* Vocabulário rico, sinônimos, “Le mot juste”, toda tentativa de precisão;

* Descrições vívidas, universos repletos de detalhes físicos, como em Faulkner;

* Pano-de-fundo, ambientação, atmosfera: calor tropical, ebriedade, som de rádio, frases repetidas como um refrão;

* Começos e fins metereológicos, falácias patéticas: “Le vent se lève! Il faut tenter de vivre!”;

* Toda metáfora, especialmente metáforas visuais, e sobretudo metáforas tiradas da agricultura, da navegação, das finanças, como em Proust;

* Antropomorfismo;

* Livros que espelham outros livros: Ulisses e a Odisseia;

* Livros que fingem ser cardápios, álbuns de fotos, mapas viários, programas de concerto;

* Tudo que inspire ilustrações, tudo que possa inspirar um filme;

* A censura ou o elogio nas críticas (segundo o preceito de Ménard). Basta o registro dos efeitos literários. Nada mais cândido que estes “dealers in the obvious” que proclamam a inépcia de Homero, de Cervantes, de Milton, de Molière;

* Toda referência histórica ou biográfica. A personalidade dos autores. A psicanálise;

* O incongruente: cenas domésticas em romances policiais, cenas dramáticas em diálogos filosóficos;

* O esperado: páthos e cenas eróticas em histórias de amor, enigmas e crimes em romances policiais, fantasmas em histórias sobrenaturais;

* Vaidade, modéstia, pederastia, ausência de pederastia, suicídio.

O leitor atento perceberá que o escritor que seguir toda esta lista de “coisas a não se fazer na literatura” jamais escreverá literatura. No meio de elementos inócuos (enumeração caótica), existem outros dos quais a literatura não pode prescindir (caso da metáfora). O autor que deseja evitar os velhos truques da literatura não escreverá literatura, ou seja, melhor aceitar os grilhões do que tolamente tentar enfrentá-los. Bioy Casares descreveu esta noite de conversa com Borges e Ocampo no texto “Libros y amistad”, e a sua conclusão sobre os motivos pelo qual o texto não foi escrito diz muito sobre o medo de como ele seria recebido pelo público dos três escritores:

“Os poucos amigos para quem lemos este catálogo inconfundivelmente manifestaram o seu desgosto. Talvez acreditaram que nos arrogamos das função de legisladores das letras e quem sabe se não receavam que, mais cedo ou mais tarde, iríamos lhes impor a proibição de escrever livremente; ou talvez não entenderam o que propúnhamos. Neste ponto, alguma razão tinham, pois o critério da nossa lista não era claro; inclui recursos lícitos e práticas censuráveis. Percebi que, se tivéssemos escrito o conto, qualquer leitor encontraria suficiente explicação no destino do autor das proibições, o literato sem obra, que ilustra a impossibilidade de escrever com lucidez absoluta.”

Conforme Bioy Casares comenta no texto, no decorrer desta mesma conversa, Borges contou para ele e para Silvina Ocampo a trama de “Pierre Ménard, autor de Quixote”. De certa maneira, este conto ilustra a ideia de tradição literária, de que o escritor ecoa outros escritores e, por mais que tente se libertar deles, é um produto do seu tempo e da sociedade que lhe cerca.

Um escritor que faz a sua obra sem prestar tributo à tradição (e sem a pretensão de, um dia, tornar-se também a tradição de outro) é um escritor que não faz literatura. Chama a minha atenção alguns autores atuais que imaginam que a literatura nasceu com eles ou que são livres para ousar o quanto quiserem e ir contra todas as convenções. Por mais criativos que pensam ser, alguém já passou por lá antes. Não existe escritor livre, estamos todos com mãos presas uns nos outros; assim como Jorge Amado e Érico Veríssimo apelando para o fantástico para contar a realidade social, ou Charles Dickens interpretando as suas histórias para uma plateia extasiada de leitores que drenavam as suas forças, ou Bioy Casares, Ocampo e Borges na silenciosa noite de San Isidro, arquitetando maneiras de escrever um texto de ficção sem que ele seja literatura, toda a experiência humana é uma tentativa de escapar da previsibilidade e do clichê, os verdadeiros grilhões que nos sufocam.

Texto originalmente publicado em https://medium.com/colecao-dublinense/n%C3%A3o-existe-escritor-livre-ou-coisas-para-n%C3%A3o-se-fazer-na-literatura-3a40c3af9fde#.180bgcgjo

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Quando escritores se reúnem: sobre a “Antologia de Literatura Fantástica”, de Borges, Ocampo e Bioy Casares.

Foi com certa tristeza que fui informado, nessa semana, do encerramento das atividades da editora Cosac Naify. Sou (era) um dos maiores clientes dela. Adquiri inúmeros livros de autores que adoro: Tolstói, Melville, Victor Hugo, Henry James, entre outros. Também investi em autores que não conhecia e muito me surpreenderam: Rogério Teixeira, Angélica Freitas, Ronaldo Correia de Brito. Livros que não somente possuíam conteúdo primoroso, como eram verdadeiras obras de arte.

Dois anos atrás, convidado pelo amigo e escritor Antonio Xerxenesky, escrevi uma resenha sobre “Antologia de Literatura Fantástica”, seleção clássica de textos feita por Jorge Luis Borges, Silvina Ocampo e Adolfo Bioy Casares. Era um livro que, por muitos anos, tive vontade de ler, mas não existia de forma integral no Brasil. Quando recebi o convite para resenhá-lo, prontamente aceitei, e o resultado foi este texto. Como não sei o que acontecerá com as resenhas localizadas no blog da Cosac Naify, achei prudente trazê-lo para cá.

O texto parte de uma premissa simples: o que acontece quando escritores se reúnem? Quando forças criativas se localizam em um espaço reduzido? Com certeza, algo acontecerá. Seja um livro ou uma conversa instigante, mas o equilíbrio do mundo nunca mais será o mesmo. Tentei imaginar as reuniões de Borges, Bioy Casares e Ocampo, falando histórias fantásticas e as discutindo nos mínimos detalhes. O resultado de tal esforço imaginativo é este texto.

Boa leitura!

 

antologia

 

Quando escritores se reúnem
Por Gustavo Melo Czekster
29/10/2013 às 16:26

Coisas muito estranhas ocorrem nos encontros de escritores. Como lembra Ursula K. Le Guin, quando Lord Byron, Percy Shelley, Mary Shelley, John William Polidori e Claire Clarmont resolveram passar juntos o verão em um vilarejo próximo de Genebra, na Suíça, provavelmente não imaginavam que, após uma noite de tédio e um jogo perigoso, chegaria ao mundo Frankenstein, assustadora alegoria que nos mostra que todo homem é formado por pedaços de outros (ou cada escritor também é a síntese de vários). Nunca saberemos as conversas que o quinteto teve enquanto caminhava na beira do lago, as histórias urdidas pelo frigir das mais leves ideias, as faíscas criativas que surgiam nos jantares, nos coquetéis ou dentro do mais prosaico “boa noite”.

Da mesma forma, só podemos presumir os chás, o estremecer de colheres de prata em xícaras delicadas, os risos polidos e o reluzir dos olhos de Jonathan Swift, Alexander Pope, Robert Harley, Mortimer, Thomas Parnell e outros artistas que, reunidos para trocar ideias em um clube de Londres, acabaram criando um autor fictício, amálgama obsceno de demiurgos. Ele assumiu o nome de Martinus Scriblerius e passou a assombrar as obras dos seus inventores; dizem que é o verdadeiro autor de As viagens de Gulliver. No Brasil, o chá foi trocado por bebidas mais adequadas aos trópicos e, ao redor de uma mesa de bar, ao som de risadas brejeiras e de desafios impregnados de poesia, Olavo Bilac, Aluísio Azevedo, Coelho Neto e Pardal Mallet convocaram do vazio a figura de Victor Leal, o autor que escrevia aquilo que eles não podiam dizer, o supremo bode expiatório da literatura alheia. Quando escritores se encontram longe do olhar dos leitores, qualquer maravilha pode acontecer. Entre elas, até mesmo uma inocente conversa, se é que podemos usar tal adjetivo para literatos.

Quando Jorge Luis Borges, Adolfo Bioy Casares e Silvina Ocampo se encontraram para conversar em uma noite perdida do ano de 1937, abriu-se uma janela no espaço-tempo da criatividade. Como as nuvens negras precedem o alívio do relâmpago, era evidente que o mundo não escaparia ileso de tal reunião. Escritores deste tipo não conversam; eles adejam no limite da criação, na zona sem fim que cerca as impossibilidades. Nunca saberemos por quais meandros a conversa acabou chegando ao assunto que lhes apaixonava: a literatura fantástica. Nunca conheceremos as provocações, as ironias, as demonstrações de cultura com que os três autores se brindaram nesta noite eterna. Só temos acesso ao resultado: a Antologia de Literatura Fantástica, esboçada em 1937 e lançada em 1940.

Bioy Casares, Silvina Ocampo e J. L. Borges

Bioy Casares, Silvina Ocampo e J. L. Borges

No prólogo, Bioy Casares conta a origem do livro e afirma que, para organizá-la, seguiram um “critério hedônico”. Não foram escolhidas as obras exemplares de alguns escritores ou as mais famosas. Guy de Maupassant, que possui vários contos com teor sobrenatural, teve escolhido “Quem sabe?”, história que não se destaca na sua produção. O critério maior foi o prazer e a maneira com que as tramas ainda retiniam na memória dos organizadores da antologia. Por não terem feito um livro para agradar aos outros leitores, mas a si mesmos, eles acabaram chegando ao âmago do fantástico: aquilo que continua inquietando o espírito do leitor mesmo quando as palavras morrem.

Quem espera uma antologia convencional irá ficar espantado. Borges, Bioy Casares e Ocampo pretendem uma antologia de literatura, ou seja, algo que não possui uma forma exclusiva. Contos extensos cedem lugar para trechos de romances, que, por sua vez, são sucedidos por excertos de peças de teatro. Histórias de alto teor de complexidade são alternadas por fábulas quase pueris.

Por trás desta escolha, encontra-se o maior objetivo da antologia: mostrar que o inesperado desliza ao lado da rotina, apto a ser visto por qualquer pessoa que se disponha a aceitar que nada é aquilo que aparenta ser, que tudo é flutuação, tudo é instabilidade – inclusive o mundo dito “real”. Para fortalecer a ideia, algumas histórias sequer são idênticas às originais. Sofreram interferências dos organizadores, tanto na sua tradução quanto no “esmerilhamento” de detalhes, como muito bem destaca Walter Carlos Costa no ensaio que encerra o livro. Ele conta que alguns autores da antologia podem ter sido “imaginados” pelos escritores e que certas tramas são falsas atribuições. Existe um grande mérito em fazer uma antologia de literatura fantástica, mas trazer o fantástico para a forma displicentemente aleatória com que ela foi construída e inserir elementos irreais no seu meio é outra característica que deixa a leitura mais envolvente. Nunca se sabe qual será a versão do sobrenatural que espera em cada página – e nem se estamos lendo uma história “verdadeira”. Dentro do livro, o universo se torna trêmulo.

Borges, Bioy Casares e Ocampo recusam-se a ceder aos confortos do gênero literário, transitando entre autores, épocas e estilos diferentes para destacar aquele coeficiente de estranheza que os fascina e faz as histórias permanecerem assombrando as suas recordações. Escritores famosos, arqueólogos, exploradores, autores desconhecidos, dramaturgos ou filósofos, não existem diferenciações quando o assunto é o imponderável. A organização por ordem alfabética faz com que as histórias desprezem a cronologia em que surgiram, permitindo que diferentes visões da literatura fantástica travem um contato hesitante, no qual o leitor se sente numa montanha russa de espantos.

É um exercício pensar qual escritor foi o responsável pela lembrança de cada segmento, tomando por base a sua obra para tecer suposições. Ainda assim, o acúmulo de autores desconhecidos, as histórias mágicas que não encontraram a devida ressonância na sua época e os trechos descontextualizados de escritores que tocaram de forma involuntária nas fímbrias do fantástico, tudo contribui para transformar o livro em um desafio às leis da verossimilhança. Ao se aventurar pela Antologia, os leitores esquecem as linhas que separam o real do imaginário. Perseguem uma nuvem que constantemente se esquiva; quando pensam que entenderam o significado mais puro da irrealidade, a história seguinte desmorona com esta pretensão. O fantástico está sempre dois passos à frente, mandando piscadelas cúmplices para o leitor que tenta compreendê-lo, até o momento em que ele desiste e passa a aceitar as suas regras, formadas por neblina e labaredas. Passa a aceitar que pode ser um fantasma lendo um livro.

Nunca saberemos a temperatura desta noite “tão longa quanto o medo”, ou a comida que foi servida (se é que foi servida alguma), ou as bebidas degustadas. Nunca saberemos o timbre das vozes, a ordem em que a conversa se sucedeu, se era em tom de paródia ou de prepotência. O que sabemos é o seguinte: em uma determinada noite de 1937, três escritores se reuniram e, enquanto o Tempo batia nas janelas tentando entrar, enquanto o mundo rugia ao redor com seus compromissos e pressas, eles trocaram histórias sobre fantasmas arrependidos, sobre demônios que fazem contratos pela alma de artistas, sobre homens que se transformam em deuses e deuses que se arrastam pelas ruas. A realidade esmurrava portas e tentava se esgueirar por frestas, mas, dentro da improvável sala, o fantástico e o impossível rolava de boca em boca, de história em história, assumindo as mais diferentes formas no bruxuleio da lareira. Quando escritores se reúnem, o fantástico está sempre à espreita, ansioso para participar da conversa. E muitas histórias começam assim: “Em uma certa noite de 1937, três escritores se reuniram para conversar sobre literatura fantástica”. O resto é história e História.

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Texto publicado na revista eletrônica da Dublinense (17/11/2015): “Não faça vôos imaginários, a não ser que seja imprescindível”

Algum dia, eu descreverei – com a maior riqueza de detalhes possível – a forma com que um texto inicia na minha cabeça e chega até a nossa realidade. Pois, quando escrevi “Não faça vôos imaginários, a não ser que seja imprescindível”, o meu objetivo inicial era falar de Dostoiévski, de “Crime e castigo”, de Alexandre, o Grande e de uma receita de purê de batatas. Como é possível ver, deu muito errado.

A veiculação pública deste texto gerou uma inesperada onda de confissões, em que pessoas vieram me contar qual o “ponto cego” da memória delas. No meu caso, são guardanapos, detergentes e a “Poética” de Aristóteles. Pelo visto, para outras pessoas são bonecos de pelúcia, papel higiênico, sabonetes, cotonetes, gelatinas, Códigos Civis, os “Cantos” de Ezra Pound e a “Ilíada” de Homero.

Boa leitura!

 

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Não faça vôos imaginários, a não ser que seja imprescindível

Eu admiro pessoas metódicas, concretas. O mundo pertence àqueles capazes de condensar todo o caos humano em uma lista de prós e contras, ou tarefas a fazer de imediato e outras que podem esperar, ou coisas a comprar em curto, médio e longo prazo.
Mal e mal consigo escrever uma lista de supermercado e, quando faço, invariavelmente acabo a esquecendo. A falta de método para atividades cotidianas se projeta em uma irrestrita confiança na minha memória e, talvez por isto, eu seja o feliz proprietário de cinco detergentes líquidos, quatro “Poética” de Aristóteles e seis pacotes de guardanapos, totalizando 600 guardanapos, algo que levarei em torno de 5 anos para consumir. Ainda assim, basta passar na fileira do supermercado que sempre penso “não tem mais detergente!” ou “está faltando guardanapo”, e assim eu compro produtos que já tenho em demasia. Detergentes, Aristóteles e guardanapos são a “gap” da minha memória, o ponto em que ela falha.
Tolstói era uma pessoa metódica. Acreditava que o mundo inteiro podia ser explicado ou contido em uma lista. Bom, ele também tinha uma invejável autoestima, tanto que afirmou no seu Diário: “Devo me acostumar, de uma vez por todas, que sou um humano excepcional. Não encontrei ninguém moralmente tão bom quanto eu, ou disposto a sacrificar tudo por um ideal, como eu”. Como diria a minha avó, “está se achando” – mas ele é Tolstói e, gostemos ou não, só pode “se achar” quem tem estatura intelectual suficiente para tanto. O escritor russo tinha 25 anos quando escreveu isto, e a constatação serena da própria perfeição é algo admirável. Ainda não tinha escrito “Anna Karenina” ou o portentoso “Guerra e Paz”, mas já tinha noção do seu destino.
A partir dos 18 anos, e em um hábito que se estendeu pelo decorrer de sua vida, Tolstói escreveu uma série de regras para as pessoas que desejavam ser perfeitas como ele. Uma espécie de manual de instruções para virarmos Tolstóis. Não foi o único a se espelhar no próprio exemplo; Montaigne, que era dezenas de vezes mais pândego, reconheceu tanto a sua perfeição quanto a imperfeição, e dedicou a vida a escrever somente sobre si mesmo, “o ser humano que melhor conhecia na face da Terra e o mais interessante”, o que acabou gerando os seus “Ensaios”.

Tolstói

Tolstói

As regras de Tolstói oscilam de questões práticas (“acorde às cinco da madrugada”, “coma de forma moderada”), passam por sugestões metafísicas (“nunca demonstre emoções”, “fique longe de mulheres”) e chegam até observações sensatas (“fale uma coisa de cada vez”, “visite bordéis apenas duas vezes por mês” – ainda que exista um conflito aparente com o “fique longe de mulheres”). No entanto, entre as regras, uma acabou chamando a minha atenção: “Não faça vôos imaginários, a não ser que seja imprescindível”.
É possível entender o conselho para que não façamos “vôos imaginários”. A imaginação é algo perigoso para o ser humano: ela faz ver coisas que não existem, cria sentimentos onde só há indiferença, constrói ilusões que não resistem ao primeiro vento da realidade.
No 18º ensinamento de “A arte de ser feliz”, Arthur Schopenhauer se entrega a um virulento ataque contra a imaginação, pois ela é cruel: ou faz com que nos apeguemos à fantasia de uma vida feliz, transformando a realidade em algo ruim, ou faz com que realizemos previsões funestas, que paralisam a vida. O ideal seria dosar a imaginação com parcimônia, mas, diante da impossibilidade prática de fazer isto na vida, o filósofo radicaliza e termina a lição número 18 com um brado: “Refreie-se a imaginação!”.
Artistas são muito dados aos tais “vôos imaginários”. São momentos em que eles se desconectam da realidade e adentram em um universo particular, um local onde as regras são flutuantes e a sua satisfação é o objetivo maior. “Vôos imaginários” criam uma versão alternativa tão palpável que uma pessoa pode se perder na ilusão, ao invés de ver a dura verdade: você não vai ganhar aumento; você é feio, sim; você agiu de forma covarde; ela não gosta de você. Além de impedirem a pessoa a ver a realidade, escondendo-a atrás de um enganoso verniz, também induzem ao erro e à análise equivocada. Boa parte das mentiras que já escutei são derivadas de um “vôo imaginário” que não se confirmou na realidade.
O que deixa mais estranho a continuidade do conselho de Tolstói: “(…) a não ser que seja imprescindível”. Em qual momento um “vôo imaginário” deixaria de ser algo ruim e se tornaria questão de vida ou morte?
A resposta parece óbvia: em qualquer momento. Todo o engenho humano se origina de um “vôo imaginário”. Se Santos Dumont não tivesse sonhado com um avião, ele não existiria. Se os homens não sonhassem em pisar na Lua desde Jules Verne e Cyrano de Bergerac, estaríamos ainda sentados no planeta a observar estrelas distantes. Se um macaco não sonhasse em caminhar sobre as duas pernas, ainda estaríamos escalando árvores. Os “vôos imaginários” estão no cerne de tudo, desde o sonho da lagarta em se transformar em borboleta até o primeiro beijo de um casal ainda inexistente. Existem instantes em que “vôos imaginários” são absolutamente irrelevantes, mas, em outros, eles são indispensáveis para que possamos avançar.

Método e arte: intervenção de Candy Chang ao redor do mundo propõe listas do que fazer antes de morrer [Fonte DDU Connect]

Método e arte: intervenção de Candy Chang ao redor do mundo propõe listas do que fazer antes de morrer [Fonte DDU Connect]


Sabendo isto, fica ainda mais interessante ver a história dos “vôos imaginários” que deram errado. Ou certo, dependendo do ângulo. Em “Geografia do romance”, o escritor Carlos Fuentes conta a história de um “vôo imaginário” coletivo, que uniu vários escritores em torno de um objetivo único – e a imensidão do fracasso só é obscurecida pelo tamanho da audácia criativa.
Diz Fuentes que, no outono de 1967, ele e Mario Vargas Llosa estavam, por coincidência, em Londres. Os dois se reuniram em um pub de Hamstead para tomar pints e trocar impressões sobre um livro que ambos tinham lido a pouco, “Patriotic Gore”, de Edmund Wilson. Conversavam sobre o livro quando tiveram a ideia de escrever “uma galeria imaginária de retratos” com os ditadores latino-americanos, pois “como competir com a História? Como inventar personagens mais poderosos, mais loucos ou mais imaginativos do que os que apareceram em nossa História?”.
Algumas das histórias que eles pensaram incluir nesta série de retratos são absolutamente deliciosas, e só mencionarei duas delas, a de Juan Vicente Gómez, ditador da Venezuela durante trinta anos, e que anunciou sua própria morte para poder castigar quem tivesse o atrevimento de fazer comemorações, e a de Enrique Peñaranda, ditador da Bolívia, sobre quem a própria mãe disse “se eu soubesse que meu filho ia chegar a presidente, tê-lo-ia ensinado a ler e a escrever”.
Os dois resolveram chamar alguns amigos escritores para o projeto. Cada um deles escreveria uma novela de até 50 páginas, estrelada por um ditador do respectivo país, e a união das novelas seria chamada de “Os pais das pátrias”. Os escritores que aceitaram embarcar neste “vôo imaginário” coletivo foram, além de Vargas Llosa e Carlos Fuentes, o paraguaio Augusto Roa Bastos, o argentino Julio Cortázar, o colombiano Gabriel Garcia Márquez, o venezuelano Miguel Otero Silva, o cubano Alejo Carpentier, o dominicano Juan Bosch, os chilenos José Donoso e Jorge Edwards (que escreveria sobre o ditador da Bolívia, influenciado pela sua esposa, María Pilar). Um dream team da literatura, todos tratando dos ditadores que deram feições aos seus respectivos países – e de como eles formaram a América Latina.
O que aconteceu com um projeto tão incrível? Pois ele nunca virou realidade. Mesmo contando com um editor interessado (Charles Gallimard), foi impossível concatenar os tempos de cada um dos autores, os seus compromissos e as suas vontades. O “vôo imaginário” foi tão amplo e ambicioso que acabou se transformando em algo impossível de acontecer. Entrou na longa lista de obras sonhadas e jamais concluídas da Humanidade.
No entanto, a ideia gerou inesperados frutos, e aí está a parte boa dos “vôos imaginários”: mesmo que não cheguem ao destino, a sua simples existência deforma a realidade e acrescenta novos elementos de sonho ao cotidiano. Ainda que não constituam um volume único, três obras nasceram do projeto, uma de Carpentier (“O recurso do método”), outra de Garcia Márquez (“O outono do patriarca”) e a última de Roa Bastos (“Eu, o Supremo”). Três clássicos da literatura latino americana originaram-se de uma proposta audaciosa que nunca foi efetivada. Não sabemos o quanto da imaginação dos autores foi provocada pela proposta criativa, ou se eles pretendiam escrever estes três livros de qualquer jeito, mas podemos hoje ler as obras como parte de um projeto naufragado, mas, ainda assim, exitoso. O “vôo imaginário” não alcançou as estrelas pretendidas, mas foi até a Lua, e isto já foi uma grande vitória.
Quando Tolstói se insurge contra os “vôos imaginários”, pretende impedir que as pessoas se abandonem aos veios caudalosos da imaginação e esqueçam as agruras da realidade. No entanto, a sua ressalva, “a não ser que seja imprescindível”, nos permite estabelecer que devaneios e sonhos podem ser tão vitais quanto o ar que nos preenche.
Eu admiro pessoas metódicas (também admiro pessoas não fissuradas em comprar detergentes líquidos e guardanapos, pois a elas pertence o Reino dos Céus), mas sei que os “vôos imaginários” escondidos no meio da frieza dos elementos de uma lista são os melhores. São o que dão graça para a vida: a possibilidade de imaginar uma outra realidade. O “vôo imaginário” que descola a mente do chão e nos leva a um mundo mais confortável, um local somente nosso, em que tudo existe para nos agradar. A capacidade de transformar tais “vôos imaginários” em obras concretas é o que forma um artista, e pensem em quantas músicas, livros, esculturas e pinturas existem no mundo, famosas ou não, para vermos que o estado natural de um ser humano é estar imerso no meio de um delirante vôo proporcionado pela sua imaginação.
Talvez sejamos criaturas formadas de imaginários, e o vôo seja a consequência natural de quem nunca esteve bem firmado ao chão. Por mais que eu respeite – e tenha uma certa inveja – de seres organizados, sei também que a luta deles para deixar o mundo mais ordeiro está fadada ao fracasso. Afinal, quem nunca acrescentou espontaneamente uma barra de chocolate entre o arroz e a água mineral da lista de supermercado que jogue a primeira pedra.

 

Publicado originalmente em https://medium.com/colecao-dublinense/n%C3%A3o-fa%C3%A7a-voos-imagin%C3%A1rios-a-n%C3%A3o-ser-que-seja-imprescind%C3%ADvel-559460e8dd8d#.w8o7sxh3b

Este texto NÃO segue a Nova Ortografia Brasileira: não consigo escrever “vôo” sem o circunflexo. Lamento muito, puristas.

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Sobre Borges, que não queria ser borgeano

No dia 24 de agosto de 1899, Jorge Luis Borges veio ao mundo e nada mais foi da mesma forma.

Boa parte dos escritores se dizem seguidores ou admiradores dos contos de Borges, e a ideia de seguir a voz autoral de uma sombra é algo que não deixa de ser “borgeano” (em uma recente conversa entre escritores, brincamos que o cara só sabe que fez algo certo na vida quando vira um adjetivo, o qual será depois sumariamente cortado na revisão). Dá para imaginar os escritores querendo virar Pierre Menard e escrever as histórias que não lhes pertencem, batendo cabeças em janelas entreabertas, vivendo com a mãe até idade avançada, lutando contra o peronismo, esperando uma cegueira que nunca chega, tudo para recriar algo impossível, este conjunto de impossibilidades unido em torno de átomos e bactérias e sonhos a que convencionamos chamar de ser humano.

Escritores também são uma colcha de retalhos feita pelo seu tempo, pela sua experiência de vida, pela sociedade que lhes cercava, pelos seus medos e dúvidas, o que implica em afirmar que jamais existirá outro Borges, não nas condições em que ele existiu e floresceu. Contudo, parcela significativa dos autores que se identificam como influenciados não tem nada de Borges dentro dos seus estilos. Acham que sim, mas somente eles conseguem ver esta influência, e novamente dá para invocar o adjetivo “borgeano” para escritores que veem os fantasmas dos autores mortos a infestarem os seus textos como se fossem uma praga de ratos.

Borges, Silvina Ocampo e Bioy Casares, um “power trio” da Literatura

Eu podia lembrar Borges e falar dos labirintos, do punhal, das manchas do tigre, do tempo, do esquecimento. Mas recordo de uma entrevista assistida no canal Curta, em que Borges disse que, na verdade, só escreveu um único livro na sua vida, o primeiro, e o restante da sua obra foram desmembramentos dos temas constantes nesta obra. Em seguida, acrescentou, não com certa tristeza, que o escritor se prende a um único livro em toda a sua vida.

O primeiro livro de Jorge Luis Borges foi uma obra de poesia, “Fervor de Buenos Aires”, e, para mim, a melhor parte da obra dele está realmente nos versos dos seus poemas, em especial um dos meus favoritos, “Los justos”, presente no livro “A cifra”:

Un hombre que cultiva un jardín, como quería Voltaire.
El que agradece que en la tierra haya música.
El que descubre con placer una etimología.
Dos empleados que en un café del Sur juegan un silencioso ajedrez.
El ceramista que premedita un color y una forma.
Un tipógrafo que compone bien esta página, que tal vez no le agrada
Una mujer y un hombre que leen los tercetos finales de cierto canto.
El que acaricia a un animal dormido.
El que justifica o quiere justificar un mal que le han hecho.
El que agradece que en la tierra haya Stevenson.
El que prefiere que los otros tengan razón.
Esas personas, que se ignoran, están salvando el mundo

Meu verso favorito? “Una mujer y un hombre que leen los tercetos finales de cierto canto.” O casal está lendo a “Divina Comédia” de Dante Alighieri e a construção final de cada canto em terceto, em uma tessitura que se assemelha à construção de um labirinto feita pelo florentino. Existe algo de extremamente “borgeano” – para não dizer uma declaração implícita de amor à Literatura – em um casal se dedicar à leitura dos tercetos finais da “Divina Comédia”.

No que eles estão salvando o mundo não é possível saber, mas quem sabe da construção intrincada dos versos do clássico italiano e a sua obsessão ritmada com o número três sabe que existe um inusitado triângulo formado pelo casal e pelo livro, e isto pode mudar qualquer universo, borgeano ou não.

 

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