Arquivo do mês: novembro 2015

Texto publicado na revista eletrônica da Dublinense (24/11/2015): “Os livros que eu gostaria de ler no meio de um jantar enfadonho”

Nos últimos tempos, na minha vida, parece que as reuniões enfadonhas se tornaram norma – assim como as palestras e bate papos chatos. Raras são as pessoas que me dão prazer genuíno de encontrar para conversar. O mundo se tornou um grande Grenal, ou Fla-Flu, em que ignorantes destilam opiniões à esmo sem sequer saber direito do que estão falando. Não se pode nem dizer que esta “bipolaridade” irrite, mas, que me causa bocejos mentais, disso não tenho dúvidas.

Cresce, assim, a vontade de simplesmente abrir um livro e ficar lendo enquanto as asneiras se empilham ao redor. Uma hora dessas vou acabar tomando tal atitude. Pelo menos não perderei tempo.

Boa leitura!

Os livros que eu gostaria de ler no meio de um jantar enfadonho

No final do ano passado, uma aluna do curso de Letras enviou-me uma série de perguntas sobre o fazer literário. Era parte de um trabalho de conclusão de curso que ela estava realizando, investigar junto aos “escritores contemporâneos” – por mais ojeriza que me cause tal expressão, acredito que o sentido de contemporâneo aqui era “estar vivo e escrevendo” – a forma através da qual a literatura aflora do seu interior.

Estava relendo as indagações e, secretamente, me divertindo com a visível contrariedade com que respondi algumas, ainda que somente eu seja capaz de ver o mau humor surgindo por entre as curvas dos argumentos. Foi quando me deparei com a pergunta “qual critério você usa para escolher os livros que pretende comprar?” e a subsequente resposta “livros que gostaria de ler em meio a um jantar enfadonho”.

jantar enfadonho

Não é uma frase minha. O mau humor sim, mas a frase não. Quem a disse foi São Benedito: “como se tornaria agradável o mais lúgubre e aborrecido jantar se pudéssemos interromper as tagarelices para ler o trecho de algum livro inteligente”. Se a recordo com tamanha riqueza de detalhes é por que, nas ocasiões chatas que a vida acaba impondo, ou reuniões sociais que parecem nunca acabar, sempre imagino o quão legal seria interromper tudo, erguer-me e, livro na mão, ler um trecho de “Dom Quixote” do Cervantes, ou de “A cidade e as serras” do Eça de Queirós, ou um conto de Tchekhov. Não sei se conseguiria ultrapassar o momento enfadonho lendo trechos de livros que adoro, mas seria melhor do que continuar sentado escutando besteiras.

A resposta enviesada levou-me a refletir sobre os critérios que uso para adquirir livros. Em um primeiro momento, diria que o critério é caos completo: compro obras com o intuito meramente estético de obter prazer delas. Sou um utilitarista. Neste contexto, tanto faz se é um autor ou uma autora, um livro infantil ou adulto, contos ou romances, bestsellers ou clássicos. O importante é a história, e o quanto de prazer ela pode gerar, o que transforma toda a minha biblioteca em um templo ao hedonismo e ao meu egoísmo, algo que não me desagrada em absoluto.

Lembro de Alberto Manguel: qualquer biblioteca, mais do que um espaço livre, é o retrato das intolerâncias secretas da pessoa que a engendrou. Não existe maneira melhor de vermos o espírito de alguém do que analisando os livros ao seu redor – ou a própria ausência deles. Cada livro dentro de uma casa tem um motivo para estar nela, seja por vontade do seu dono, seja por alguém achar que determinado livro lhe representava.

No momento em que o leitor escolhe uma obra, está exercendo a sua liberdade pessoal para um ato de intolerância e, neste sentido, as bibliotecas são espaços naturais para o exercício da exclusão. Achamos que são territórios de liberdade do espírito humano, mas, por serem formadas por pessoas, padecem dos mesmos vícios e visões de mundo dos seus proprietários. Talvez por este motivo eu seja um pouco descrente com a ideia de vivermos em um mundo sem exclusão: no momento em que respiramos, já estamos tomando decisões excludentes. Melhor do que abolir a exclusão seria entendê-la ou atenuá-la, e grande parte dos problemas mundiais da atualidade passam pela incapacidade de entender o outro lado e de respeitar que somos seres humanos excludentes. Jamais serei muçulmano, ou mulher, ou negro; assim, por eliminação, pertenço a um grupo excludente, algo que não me impede de analisar a forma com que a exclusão age nas minhas atitudes, tentando evitá-la ao máximo.

biblioteva em espiral

A formação das bibliotecas é um assunto que atrai a Humanidade há muito tempo. Na semana passada, li um interessante livro, lançado em Londres em 1766, “Directions of a Proper Choice of Authors to Form a Library” (em tradução livre, “Diretivas para a Escolha Adequada de Autores para Formar uma Biblioteca), de autor desconhecido.

Nesta obra curta – tem 62 páginas -, o autor (ou autora) se esforça para dar algumas dicas para as pessoas que desejam comprar livros para suas bibliotecas. O objetivo é claro desde o início: apresentar ao leitor “a correct list of proper books on the several subjects” (em tradução livre, “uma correta lista de livros adequados nos mais variados assuntos”). A simples ideia de que existem livros adequados para serem lidos traz consigo o seu oposto, qual seja, a noção de que existem livros inadequados. Nesta frase reside uma concepção de leitura que surge muito em debates literários: a divisão entre obras que devem ser lidas (ou “adequadas) e obras que não devem ser lidas (“inadequadas”) ou, para usar outra expressão execrável, a distinção entre “alta” e “baixa” literatura. No fundo, ambos os conceitos expressam não uma verdade intangível da Literatura, mas a visão da pessoa que formulou tal distinção, as suas noções particulares do que seja bom ou ruim em matéria literária.

Tornou-se até um clichê. Quando as pessoas querem puxar papo com um escritor, ao invés de perguntarem se hoje vai chover, costumam dizer “que porcaria este livro novo do Paulo Coelho, não é?” Esperam uma opinião que confirme as ideias arraigadas de que existem classes diferentes de livros ou alguém distribuindo estrelinhas imaginárias neste imenso caleidoscópio de obras que atormentam estantes. Não é tão difícil imaginar que, cedendo ao clichê em torno do qual a Humanidade orbita, o escritor concordará que o livro novo do Paulo Coelho seja uma porcaria – apesar de sequer tê-lo lido – e o leitor se sentirá confortável ao imaginar que puxou uma conversa inteligente com o seu autor favorito. Perpetuamos o estereótipo de que existe boa ou má literatura sem sequer darmos o benefício de ler o livro e constatar se ele é bom ou ruim.

No prefácio, o autor desconhecido tenta estabelecer um critério que justifique a sua lista de livros adequados para uma biblioteca. Afirma que, por causa do “prodigioso crescimento de edição de livros nos últimos 50 anos” – lembrando que estamos em 1766, o que demonstra a atemporalidade deste argumento do “ah, temos tantos livros no mercado, precisamos que alguém de bom gosto faça uma seleção” -, tornou-se importante fazer uma lista que distinguisse, entre os escritores, “aqueles que, com Sucesso, pelo seu Mérito, conseguiram obter um valoroso Caráter, daqueles que, por causa da Necessidade, ou em decorrência somente de Visões Lucrativas, iludiram o Público graças às suas insignificantes e ignorantes Performances”.

Quase 250 anos nos separam deste livro, mas as noções do que merece estar em uma biblioteca continuam idênticas. Da mesma forma que hoje, o lucro com a literatura é visto com suspeita, implicando em dizer que escritores ricos são muito ruins; o fato de leitores gostarem muito de um livro demonstra que eles foram enganados por autores cheios de truques, mas sem talento; o livro bom está vinculado à ideia de que o autor desenvolveu uma história valorosa do ponto de vista do caráter humano, não para entreter seu leitor.

bestsellers

A seguir, o criador desconhecido divide as áreas de interesse de uma biblioteca em Divindade, Física, Leis, Matemática, Astronomia, Jardinagem, Heráldica e “Outras Artes”, entre as quais se encontram História, Biografia, Geografia e a ficção, que também se divide em romances e novelas, poesia clássica, humor e moralidade, tragédia. Poderia desenvolver o assunto e tratar de algumas obras sugeridas, ou das suas interessantíssimas explicações sobre os livros pertencentes à parte da Divindade, que expressam muito do moralismo da época, tanto que sequer indica uma Bíblia, somente as leituras feitas por outros teólogos sobre ela. No entanto, observando as indicações e os poucos motivos apresentados para algumas delas, é possível perceber que, em nenhum momento, o autor pensou que pudesse estar errado. Escolheu o que lhe parecia bom – excluindo, por eliminação, o que não lhe parecia “bom” ou “decente” -, em um critério amplamente baseado no seu gosto pessoal. Assim como nós escolhemos se preferimos brócolis ou aspargos, o autor desconhecido fez a seleção do que era bom de acordo com o seu gosto, sem sequer nos permitir ler ambos e escolher aquele que mais fecha conosco.

O menos importante na História da Literatura são os livros que lemos, mas a imensidão de obras que foram destruídas, queimadas, ignoradas e, enfim, esquecidas. Somente uma conjunção única de detalhes permitiu que Homero sobrevivesse até hoje ou que tantas obras da mesma época desaparecessem. Não é o valor literário que permite a permanência de alguns livros, não são prêmios ou honrarias ou milhares de leitores; também é sorte, também é achar um leitor misericordioso, também é estar no lugar certo na hora certa. Como um relacionamento. Como a vida. Uma sucessão gigantesca e imprevisível de acasos que pode, ou não, dar certo.

Por isto, o único critério que considero válido para adquirir ou não um livro é “ser mais interessante do que um jantar enfadonho”. Se ele consegue me desejar lê-lo ao invés de ficar escutando conversas irrelevantes, é o suficiente para fazer parte deste Templo do Hedonismo, do Egoísmo e da Exclusão a que convenciono chamo de biblioteca. E, se me der vontade de lê-lo em voz alta no meio de uma reunião aborrecida, neste caso, estou diante de um clássico, o qual, na minha definição, significa “livros cuja leitura fazem um jantar chato ganhar vida e graciosidade”. Então, já sabem: no dia em que me verem levantar de súbito e declamar o trecho de algum livro, mudem o rumo da conversa no jantar, pois ela não está agradando.

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Texto publicado na revista eletrônica da Dublinense (17/11/2015): “Não faça vôos imaginários, a não ser que seja imprescindível”

Algum dia, eu descreverei – com a maior riqueza de detalhes possível – a forma com que um texto inicia na minha cabeça e chega até a nossa realidade. Pois, quando escrevi “Não faça vôos imaginários, a não ser que seja imprescindível”, o meu objetivo inicial era falar de Dostoiévski, de “Crime e castigo”, de Alexandre, o Grande e de uma receita de purê de batatas. Como é possível ver, deu muito errado.

A veiculação pública deste texto gerou uma inesperada onda de confissões, em que pessoas vieram me contar qual o “ponto cego” da memória delas. No meu caso, são guardanapos, detergentes e a “Poética” de Aristóteles. Pelo visto, para outras pessoas são bonecos de pelúcia, papel higiênico, sabonetes, cotonetes, gelatinas, Códigos Civis, os “Cantos” de Ezra Pound e a “Ilíada” de Homero.

Boa leitura!

 

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Não faça vôos imaginários, a não ser que seja imprescindível

Eu admiro pessoas metódicas, concretas. O mundo pertence àqueles capazes de condensar todo o caos humano em uma lista de prós e contras, ou tarefas a fazer de imediato e outras que podem esperar, ou coisas a comprar em curto, médio e longo prazo.
Mal e mal consigo escrever uma lista de supermercado e, quando faço, invariavelmente acabo a esquecendo. A falta de método para atividades cotidianas se projeta em uma irrestrita confiança na minha memória e, talvez por isto, eu seja o feliz proprietário de cinco detergentes líquidos, quatro “Poética” de Aristóteles e seis pacotes de guardanapos, totalizando 600 guardanapos, algo que levarei em torno de 5 anos para consumir. Ainda assim, basta passar na fileira do supermercado que sempre penso “não tem mais detergente!” ou “está faltando guardanapo”, e assim eu compro produtos que já tenho em demasia. Detergentes, Aristóteles e guardanapos são a “gap” da minha memória, o ponto em que ela falha.
Tolstói era uma pessoa metódica. Acreditava que o mundo inteiro podia ser explicado ou contido em uma lista. Bom, ele também tinha uma invejável autoestima, tanto que afirmou no seu Diário: “Devo me acostumar, de uma vez por todas, que sou um humano excepcional. Não encontrei ninguém moralmente tão bom quanto eu, ou disposto a sacrificar tudo por um ideal, como eu”. Como diria a minha avó, “está se achando” – mas ele é Tolstói e, gostemos ou não, só pode “se achar” quem tem estatura intelectual suficiente para tanto. O escritor russo tinha 25 anos quando escreveu isto, e a constatação serena da própria perfeição é algo admirável. Ainda não tinha escrito “Anna Karenina” ou o portentoso “Guerra e Paz”, mas já tinha noção do seu destino.
A partir dos 18 anos, e em um hábito que se estendeu pelo decorrer de sua vida, Tolstói escreveu uma série de regras para as pessoas que desejavam ser perfeitas como ele. Uma espécie de manual de instruções para virarmos Tolstóis. Não foi o único a se espelhar no próprio exemplo; Montaigne, que era dezenas de vezes mais pândego, reconheceu tanto a sua perfeição quanto a imperfeição, e dedicou a vida a escrever somente sobre si mesmo, “o ser humano que melhor conhecia na face da Terra e o mais interessante”, o que acabou gerando os seus “Ensaios”.

Tolstói

Tolstói

As regras de Tolstói oscilam de questões práticas (“acorde às cinco da madrugada”, “coma de forma moderada”), passam por sugestões metafísicas (“nunca demonstre emoções”, “fique longe de mulheres”) e chegam até observações sensatas (“fale uma coisa de cada vez”, “visite bordéis apenas duas vezes por mês” – ainda que exista um conflito aparente com o “fique longe de mulheres”). No entanto, entre as regras, uma acabou chamando a minha atenção: “Não faça vôos imaginários, a não ser que seja imprescindível”.
É possível entender o conselho para que não façamos “vôos imaginários”. A imaginação é algo perigoso para o ser humano: ela faz ver coisas que não existem, cria sentimentos onde só há indiferença, constrói ilusões que não resistem ao primeiro vento da realidade.
No 18º ensinamento de “A arte de ser feliz”, Arthur Schopenhauer se entrega a um virulento ataque contra a imaginação, pois ela é cruel: ou faz com que nos apeguemos à fantasia de uma vida feliz, transformando a realidade em algo ruim, ou faz com que realizemos previsões funestas, que paralisam a vida. O ideal seria dosar a imaginação com parcimônia, mas, diante da impossibilidade prática de fazer isto na vida, o filósofo radicaliza e termina a lição número 18 com um brado: “Refreie-se a imaginação!”.
Artistas são muito dados aos tais “vôos imaginários”. São momentos em que eles se desconectam da realidade e adentram em um universo particular, um local onde as regras são flutuantes e a sua satisfação é o objetivo maior. “Vôos imaginários” criam uma versão alternativa tão palpável que uma pessoa pode se perder na ilusão, ao invés de ver a dura verdade: você não vai ganhar aumento; você é feio, sim; você agiu de forma covarde; ela não gosta de você. Além de impedirem a pessoa a ver a realidade, escondendo-a atrás de um enganoso verniz, também induzem ao erro e à análise equivocada. Boa parte das mentiras que já escutei são derivadas de um “vôo imaginário” que não se confirmou na realidade.
O que deixa mais estranho a continuidade do conselho de Tolstói: “(…) a não ser que seja imprescindível”. Em qual momento um “vôo imaginário” deixaria de ser algo ruim e se tornaria questão de vida ou morte?
A resposta parece óbvia: em qualquer momento. Todo o engenho humano se origina de um “vôo imaginário”. Se Santos Dumont não tivesse sonhado com um avião, ele não existiria. Se os homens não sonhassem em pisar na Lua desde Jules Verne e Cyrano de Bergerac, estaríamos ainda sentados no planeta a observar estrelas distantes. Se um macaco não sonhasse em caminhar sobre as duas pernas, ainda estaríamos escalando árvores. Os “vôos imaginários” estão no cerne de tudo, desde o sonho da lagarta em se transformar em borboleta até o primeiro beijo de um casal ainda inexistente. Existem instantes em que “vôos imaginários” são absolutamente irrelevantes, mas, em outros, eles são indispensáveis para que possamos avançar.

Método e arte: intervenção de Candy Chang ao redor do mundo propõe listas do que fazer antes de morrer [Fonte DDU Connect]

Método e arte: intervenção de Candy Chang ao redor do mundo propõe listas do que fazer antes de morrer [Fonte DDU Connect]


Sabendo isto, fica ainda mais interessante ver a história dos “vôos imaginários” que deram errado. Ou certo, dependendo do ângulo. Em “Geografia do romance”, o escritor Carlos Fuentes conta a história de um “vôo imaginário” coletivo, que uniu vários escritores em torno de um objetivo único – e a imensidão do fracasso só é obscurecida pelo tamanho da audácia criativa.
Diz Fuentes que, no outono de 1967, ele e Mario Vargas Llosa estavam, por coincidência, em Londres. Os dois se reuniram em um pub de Hamstead para tomar pints e trocar impressões sobre um livro que ambos tinham lido a pouco, “Patriotic Gore”, de Edmund Wilson. Conversavam sobre o livro quando tiveram a ideia de escrever “uma galeria imaginária de retratos” com os ditadores latino-americanos, pois “como competir com a História? Como inventar personagens mais poderosos, mais loucos ou mais imaginativos do que os que apareceram em nossa História?”.
Algumas das histórias que eles pensaram incluir nesta série de retratos são absolutamente deliciosas, e só mencionarei duas delas, a de Juan Vicente Gómez, ditador da Venezuela durante trinta anos, e que anunciou sua própria morte para poder castigar quem tivesse o atrevimento de fazer comemorações, e a de Enrique Peñaranda, ditador da Bolívia, sobre quem a própria mãe disse “se eu soubesse que meu filho ia chegar a presidente, tê-lo-ia ensinado a ler e a escrever”.
Os dois resolveram chamar alguns amigos escritores para o projeto. Cada um deles escreveria uma novela de até 50 páginas, estrelada por um ditador do respectivo país, e a união das novelas seria chamada de “Os pais das pátrias”. Os escritores que aceitaram embarcar neste “vôo imaginário” coletivo foram, além de Vargas Llosa e Carlos Fuentes, o paraguaio Augusto Roa Bastos, o argentino Julio Cortázar, o colombiano Gabriel Garcia Márquez, o venezuelano Miguel Otero Silva, o cubano Alejo Carpentier, o dominicano Juan Bosch, os chilenos José Donoso e Jorge Edwards (que escreveria sobre o ditador da Bolívia, influenciado pela sua esposa, María Pilar). Um dream team da literatura, todos tratando dos ditadores que deram feições aos seus respectivos países – e de como eles formaram a América Latina.
O que aconteceu com um projeto tão incrível? Pois ele nunca virou realidade. Mesmo contando com um editor interessado (Charles Gallimard), foi impossível concatenar os tempos de cada um dos autores, os seus compromissos e as suas vontades. O “vôo imaginário” foi tão amplo e ambicioso que acabou se transformando em algo impossível de acontecer. Entrou na longa lista de obras sonhadas e jamais concluídas da Humanidade.
No entanto, a ideia gerou inesperados frutos, e aí está a parte boa dos “vôos imaginários”: mesmo que não cheguem ao destino, a sua simples existência deforma a realidade e acrescenta novos elementos de sonho ao cotidiano. Ainda que não constituam um volume único, três obras nasceram do projeto, uma de Carpentier (“O recurso do método”), outra de Garcia Márquez (“O outono do patriarca”) e a última de Roa Bastos (“Eu, o Supremo”). Três clássicos da literatura latino americana originaram-se de uma proposta audaciosa que nunca foi efetivada. Não sabemos o quanto da imaginação dos autores foi provocada pela proposta criativa, ou se eles pretendiam escrever estes três livros de qualquer jeito, mas podemos hoje ler as obras como parte de um projeto naufragado, mas, ainda assim, exitoso. O “vôo imaginário” não alcançou as estrelas pretendidas, mas foi até a Lua, e isto já foi uma grande vitória.
Quando Tolstói se insurge contra os “vôos imaginários”, pretende impedir que as pessoas se abandonem aos veios caudalosos da imaginação e esqueçam as agruras da realidade. No entanto, a sua ressalva, “a não ser que seja imprescindível”, nos permite estabelecer que devaneios e sonhos podem ser tão vitais quanto o ar que nos preenche.
Eu admiro pessoas metódicas (também admiro pessoas não fissuradas em comprar detergentes líquidos e guardanapos, pois a elas pertence o Reino dos Céus), mas sei que os “vôos imaginários” escondidos no meio da frieza dos elementos de uma lista são os melhores. São o que dão graça para a vida: a possibilidade de imaginar uma outra realidade. O “vôo imaginário” que descola a mente do chão e nos leva a um mundo mais confortável, um local somente nosso, em que tudo existe para nos agradar. A capacidade de transformar tais “vôos imaginários” em obras concretas é o que forma um artista, e pensem em quantas músicas, livros, esculturas e pinturas existem no mundo, famosas ou não, para vermos que o estado natural de um ser humano é estar imerso no meio de um delirante vôo proporcionado pela sua imaginação.
Talvez sejamos criaturas formadas de imaginários, e o vôo seja a consequência natural de quem nunca esteve bem firmado ao chão. Por mais que eu respeite – e tenha uma certa inveja – de seres organizados, sei também que a luta deles para deixar o mundo mais ordeiro está fadada ao fracasso. Afinal, quem nunca acrescentou espontaneamente uma barra de chocolate entre o arroz e a água mineral da lista de supermercado que jogue a primeira pedra.

 

Publicado originalmente em https://medium.com/colecao-dublinense/n%C3%A3o-fa%C3%A7a-voos-imagin%C3%A1rios-a-n%C3%A3o-ser-que-seja-imprescind%C3%ADvel-559460e8dd8d#.w8o7sxh3b

Este texto NÃO segue a Nova Ortografia Brasileira: não consigo escrever “vôo” sem o circunflexo. Lamento muito, puristas.

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Arquivado em Alejo Carpentier, Arthur Schopenhauer, Artigo, Augusto Roa Bastos, Candy Chang, Carlos Fuentes, Dublinense, Filosofia, Gabriel García Márquez, Julio Cortázar, Leon Tolstói, Literatura, Mario Vargas Llosa, Produção Literária, Voos Imaginários

Texto publicado na revista eletrônica da Dublinense (10/11/2015): “Sobre ideias – e demônios – que andam no ar”

Em épocas normais, não me divirto muito escrevendo: é algo que causa mais preocupações do que alegria. Por isso, é muito estranho que tenha feito este texto, “Sobre ideias – e demônios – que andam no ar”, e me divertido horrores enquanto o escrevia.

Provavelmente por causa de São Macário, cuja vida insólita tem momentos de extrema picardia (ainda mais pícaros por não ser esta a intenção do santo, que foi buscar o isolamento em uma caverna e acabou fundando uma colônia de eremitas, algo que deve ser o pesadelo de qualquer eremita). No texto, não tive oportunidade de contar outra história engraçada envolvendo São Macário: certa vez, o governante de alguma região no Egito achou que tinha muitos pagãos em determinada localidade. Então, resolveu sequestrar São Macário e mais dois santos, levá-los para a cidade – que ficava em uma ilha, cercada por um pântano – e deixá-los lá, para remover o paganismo. Uma espécie de “limpeza étnica”. Ao cabo de três meses, mandou buscar os santos sequestrados e acabou encontrando uma cidade temente a Deus. Não consigo parar de sorrir ao imaginar os três santos acordando, em uma cidade desconhecida, cercados por pagãos, e pensando “ok… simbora trabalhar!”

E pensar que o texto inteiro teve início em uma observação prosaica: alguns dias antes de escrevê-lo, observei que, em alguns lugares onde eu estava, surgiam abelhas do nada. No início, foi uma constatação indiferente, mas, quando as abelhas passaram a tentar entrar nos copos que eu usava ou pousavam na minha roupa, acabei chegando à evidente conclusão de que as abelhas só podiam ser, na verdade, demônios disfarçados. O resto é história.

Boa leitura!

 

Sobre ideias – e demônios – que andam no ar

abelhas

Na semana passada, comentando sobre a quantidade de demônios existentes no Inferno, lembrei de São Macário, que disse que os demônios são tão numerosos quanto as abelhas e, via de regra, andam próximos delas. Desde então, as abelhas parecem me perseguir, algo que, se não comprova a tese de São Macário, ao mesmo demonstra que existe uma espécie de ironia divina a adejar sobre o mundo.
São Macário foi um homem singular. Viveu nos gloriosos anos 300 após Cristo, ou seja, naquela fase trepidante em que as pessoas acreditavam em tudo e discutiam as suas ideias estapafúrdias sem medo de alguma câmera colocá-los no YouTube. Não tão diferente de hoje, em que continuam falando insanidades, a diferença é que sabemos um pouco mais rápido do que no passado.
Uma particularidade de São Macário: no início da sua vida, quando estava com 20 anos, foi acusado de engravidar uma mulher. Isto em uma época em que não existia exame de DNA. Ele foi preso, torturado e acusado de hipocrisia. Mesmo assim, enviava os ganhos da sua família e parte da sua ração na prisão para a acusadora, argumentando que precisava sustentar a criança (mesmo sem ser pai dela, mas provavelmente por não existir outra maneira de conseguir sustento para a mulher).
No entanto, ao que tudo indica, Deus ouviu falar desta história e resolveu fazer uma intervenção: a mulher só teria o filho depois de revelar o nome do verdadeiro pai. A gravidez se estendeu além do prazo – e deixo para a imaginação alheia o quanto e o como isto aconteceu – até que a mulher confessou a verdade, e São Macário foi libertado. Logo depois deste episódio, o até então aprisionado virou herói da cidade – um “plot twist” na sua história, digno de merecer nos tempos atuais, talvez, uma reportagem motivacional no Fantástico.
Depois deste episódio, São Macário saiu da cidade e foi morar em uma caverna, onde passou os outros 60 anos da sua existência em estado eremítico. A justificativa que ele deu para sair da cidade foi “excesso de estima”, o que o transforma no primeiro antissocial que se tem notícia. Com o passar dos tempos, outros eremitas buscaram as cavernas contíguas, e eles iniciaram uma espécie de condomínio de eremitas nas montanhas de Esquita, algo bem complicado para alguém que buscava intencionalmente o isolamento. Afinal, a própria ideia de se transformar em eremita implica em ser deixado em paz, não cercado pelos colegas eremitas.
Mas, mesmo preferindo o isolamento, Macário saiu bastante, teve as suas aventuras de santo (chegou a ressuscitar um homem, mas só conseguia fazê-lo falar e não levantar e sair andando, ou seja, um morto falastrão e bem inconveniente) e até mesmo há evidências de que, junto com Santo Antônio, deu umas voltas no deserto – “rolê no deserto”, a forma mais habitual de diversão para os santos no período.

São Macário

São Macário

Mas falar de São Macário me fez pensar nas coisas que andam por aí, no ar. Ao identificar abelhas com demônios, e dizer que eles andam por aí a nos espreitar, o santo também deixou implícita a ideia de que tentações, pecados e crimes estão ao redor, podendo nos invadir ao seu bel prazer e nos transtornar. Algo não tão difícil de acreditar quando muitas pessoas argumentam “impulsos irrefreáveis” ou “desejos que cegam” para realizar as mais variadas loucuras.
Todos sabem que o ar que nos rodeia é formado por oxigênio, nitrogênio e gás carbônico, entre outros. Em alguma aula do passado, um professor de Ciências explicou que, tão logo respiramos pela primeira vez, desencadeamos um processo que nos levará inevitavelmente à corrosão das células e, por assim dizer, à morte. O oxigênio nos mantém vivos, mas, ao mesmo tempo, nos mata de forma devagar e cruel, pois ele é veneno. Assim como o caráter duplo da literatura que, de forma idêntica ao ar, é “phármakhon”: tanto serve como “medicina”, ou remédio para a alma, por meio da perpetuação das memórias, quanto como “veneno”, ou morte para as histórias, que, não fossem o meio escrito, necessitariam sobreviver na forma oral. Assim, a literatura tanto nos salva quanto nos mata, e em todo texto existe uma pulsão de morte a nos lamber, lasciva. Não se preocupem, não sou eu quem diz isto, mas foi o Sócrates – não a parte da lascívia da lambida, evidentemente.
É interessante imaginar que este ar que nos rodeia, ao mesmo tempo em que nos permite viver e nos sentencia à morte, além de estar cheio de demônios, também é frequentado por histórias. Em fevereiro de 1895, Jules Renard escreveu no seu “Diário” a constatação mais verdadeira já feita sobre o fazer literário: “A história que estou escrevendo existe, escrita na forma mais absolutamente perfeita, em algum lugar, no ar. Tudo o que preciso fazer agora é encontrá-la e copiá-la.” Descrito assim, até parece simples, mas são tantas histórias que infestam o ar que separar o joio do trigo é mais complicado do que ter ideias, e isto explica o fato de todo mundo achar que tem uma história para contar ou um livro para escrever.
Pensar que existem histórias à solta no ar, esperando que alguém as “cheire” e seja por elas “possuído”, é algo que vem desde a Grécia Antiga, quando diziam que os artistas eram “bafejados” pelas Musas. Impossível não imaginar uma Musa se aproximando por trás de uma pessoa e, sem que ela veja, lançando-lhe uma baforada de inspiração no rosto. Sempre considerei injusto que alguns artistas vissem as Musas e conversassem com elas – puxa, Boécio chegou a passar uma noite inteira na prisão conversando com a Filosofia transformada em criatura de carne e argumentos -, mas hoje sei que, como disse Henry James, ter uma história (ou uma ideia) sem ter um estilo (sem saber passar adiante aquilo que se pretende) é algo inútil. Por isso, fico até feliz de saber que as Musas erram o meu endereço; elas me deixariam muito confortável e preguiçoso. Só posso confiar em mim mesmo, não em bafejadas efêmeras e voláteis.
Não são poucas as pessoas que acreditam, ainda hoje, que as ideias circulam pelo ar, procurando homens e mulheres que sejam capazes de captá-las e transformá-las em arte, circunstância que transformaria cada artista em uma antena parabólica de histórias ou de imagens. Não é algo tão desprovido de lógica. Seria como a frase clássica de Sinhô sobre o samba: “samba é que nem passarinho, está no ar e é de quem pegar primeiro”. Pensando nestes termos, podemos ver que artistas são seres capazes de desviar de demônios, mas que capturam histórias ou imagens que andam por aí, desgarradas, à espera de um dono. Ou seja, capturando passarinhos – ou pescando borboletas, como Nabokov fazia na vida real e na literária, de acordo com suas memórias. Ainda assim, é somente uma questão de sorte o que separa “As Três Graças” de Bernini de uma pilha de pedras empilhadas de forma desajeitada. Nem sempre a ideia respirada é algo benéfico e lendário. Às vezes, é uma simples piada de mau gosto, como tantas assim designadas “obras de arte” que não passam de arremedos trágicos de uma ideia que o artista não entendeu direito.
Existem perigos em respirar qualquer ideia que esteja vagando no ar, ainda mais em períodos no qual todo mundo parece estar respirando o mesmo oxigênio, compartilhando de idênticas inspirações, momento em que isto deixa de ser algo original e se torna período artístico. Erich Auerbach, no seu “Ensaios sobre a Literatura Ocidental”, afirma que “quando uma ideia é aceita porque é moeda corrente, porque está no ar que se respira – e esta foi a sorte de muitas ideias no final do século XIX e início do século XX -, sua expressão torna-se geralmente frouxa e confusa, uma vez que parece supérfluo o esforço de expressão precisa; uma alusão, uma palavra-chave, alguns torneios de frases familiares sugerindo um certo viés de pensamento parecem bastar; nesses casos, uma mera palavra a respeito de uma das ideias que estão no ar é suficiente para induzir uma compreensão geral ou, pelo menos, um vago sentimento do que o autor deseja transmitir”.
Em seguida, falando de Pascal, Auerbach refere que a maior qualidade do filósofo francês era a sua capacidade não de tirar ideia do ar, mas do mais profundo dos seus pensamentos, dos seus sentimentos mais ocultos. Eis uma definição interessante para os artistas que desejam a permanência das suas obras, a perpetuidade da sua experiência criativa – buscar aquilo que está no ar e, ao mesmo tempo, como um submarino, mergulhar no oceano profundo da própria alma para descobrir como as ideias se acumulam no mais escuro recôndito do subconsciente.
Não está errado sair por aí pegando ideias no ar e transformando em arte. Mas, seguindo o exemplo de São Macário, talvez seja prudente se afastar um pouco do “excesso de estima” que nos cerca e, através do isolamento e da reflexão, pensar muito bem antes de se entregar à obra artística. Vejo pessoas com uma produção quase industrial de obras de arte; é evidente que a qualidade vai sofrendo uma perda progressiva. Contudo, não podemos esquecer que o dever primeiro de um artista é com a sua obra e com a ideia que se apossou do seu espírito, não com a sociedade ou com os seus valores, e não existe nada mais trágico do que uma obra mal executada, aborto estético caminhando por aí a assombrar os passos alheios.

 

Originalmente publicado no link https://medium.com/colecao-dublinense/sobre-ideias-e-dem%C3%B4nios-que-andam-no-ar-a3ca15dd1534#.6008d41yg

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Texto publicado no Literatortura (09/11/2015): “Onde está o público dos eventos culturais?”

Nos últimos tempos, tenho frequentado muitos eventos culturais, e sempre chama a minha atenção a ausência de pessoas neles. Após uma série de reflexões e conversas com outros frequentadores, cheguei a algumas conclusões, que expus no texto abaixo. Algo a se pensar é a quantidade de pessoas que entrou em contato comigo para concordar com aquilo que falei – dar Educação sem Cultura para um povo é absolutamente inútil.

Um texto um pouco triste, pois nadar contra a correnteza é sempre desgastante, mas que espero ser capaz de suscitar indagações e novos pensamentos.

Boa leitura!

 

Onde está o público dos eventos literários?

 

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Em uma conversa recente com um amigo, comentei sobre a baixíssima presença de público nos eventos literários que frequento. Parece impressionante que, no meio de uma cidade com mais de um milhão de habitantes, como é o caso de Porto Alegre, consideramos bem sucedido qualquer evento literário capaz de reunir entre dez a quinze presentes. Onde está o público, então?

Não bastando, não são poucas as ocasiões em que pessoas se aproximam e reclamam da falta de opções intelectuais para frequentar. A cidade pulsa de cultura; tem para todos os gostos, todos os dias da semana, nos mais variados horários. Temos museus, casas de espetáculos, bibliotecas (ainda que a Biblioteca Pública local esteja vergonhosamente fechada e assim permanecerá por tempo indefinido, algo que considero um crime de responsabilidade de todos os governos); temos shows de música clássica, de samba, de funk, de MPB; temos cinemas com programações que escapam dos blockbusters que infestam os shopping centers; temos eventos literários por todos os lados, com palestras e bate-papos dos assuntos mais diversos; temos programas infantis, juvenis e adultos. Temos tudo isto – e tudo está vazio.
O meu amigo escutou em silêncio. Quando cheguei ao final, ele suspirou e disse: “Olha, cara, toda a cultura que preciso saber aparece no Jornal Nacional. Se for sair de casa, no meio de tanta insegurança e de tantos gastos com estacionamento, gasolina, comida, bebida, prefiro ficar assistindo televisão mesmo.”

Há algum tempo que não assisto aos telejornais, mas, na época em que assim agia, parece-me que a parte cultural ocupava, no máximo, dois ou três minutos, e era destinada a artistas estrangeiros, exposições fora do país e lançamentos de filmes internacionais. Aliás, este tipo de eventos estão sempre lotados, mostrando que existe interesse de público pelo artista de fora, não pelo local. Mesmo assim, os assuntos eram completamente comprimidos e, não raro, era substituída por reportagens que tentavam ver o futebol ou o vôlei somente pela ótica cultural.

A Marina Franconeti, que também é colunista aqui no Literatortura, está atualmente estudando em Paris. Ao lado de fotos lindas e de opiniões sensíveis sobre o melhor da arte mundial vista in loco, as observações de Marina sobre o cotidiano francês – ainda que não tenham nenhum objetivo contrastante com o Brasil, como tanta gente costuma fazer de forma enfadonha, “na França é assim, no Brasil é assado” – nos permite uma série de pensamentos sobre a nossa realidade.

Na semana passada, a Marina relatou que foi a um curso gratuito de História da Arte no Museu do Louvre e tinha uma fila gigantesca de interessados. Ao final, 697 pessoas se espremeram no salão para ouvir falar sobre a arte, e uma parcela significativa do público era formada por franceses.

Uma análise apressada poderia argumentar da diferença cultural entre o público francês e o brasileiro, mas estamos em uma etapa do nosso conceito de nação em que é possível deixar de lado este eterno viralatismo e choradeira: sim, somos produtores de excelente cultura, passível de ser admirada pelo mundo todo. Outra análise igualmente rasteira poderia argumentar que um curso de arte no Museu do Louvre é muito diferente do que um curso aqui no Brasil. Contudo, é uma opinião também equivocada. Temos museus com muitas histórias e com obras igualmente relevantes. Talvez não em quantidade, mas a qualidade é indubitável.

Então, qual seria a diferença entre as plateias lotadas de outros museus e nossos eventos entregues às moscas? Após muita reflexão, consegui detectar dois fatores que me desagradam e, se não explicam totalmente tal discrepância de interesses, ao menos lançam alguns assuntos para serem debatidos.

Em primeiro lugar, a ideia de que Arte é Lazer e, como tal, é algo a ser feito nos momentos de ócio ou nas sobras do orçamento familiar.

De acordo com as teorias de apreensão artística, é evidente que a Arte – e aqui falo de qualquer tipo – possui um caráter estético fortíssimo, algo que nos causa prazer pelo simples fato de estarmos expostos à sua influência, seja diante de uma pintura, seja apreciando uma escultura, seja lendo um livro. No entanto, Arte não é só Lazer, também possui um aspecto de formação do caráter e da personalidade. Parece-me impossível explicar algo sem utilizar um dos variados aspectos da Arte: como explicar o que é narcisismo, este amor extremo por si mesmo, sem mostrar o quadro “Narciso”, do Caravaggio? Como falar do pecado sem contar os dilemas expostos por Dostoiévski em “Crime e castigo”? Como tratar da redenção sem escutar o “Réquiem” de Mozart?

Explicar os conceitos sem a utilização da Arte me parece algo extremamente vago. Charles Baudelaire estabelecia distinção entre a arte pura e a arte filosófica, dizendo que a primeira era a arte que visava a alçar o espírito humano e a segunda seria uma forma de transmitir noções de História, de Geografia, de Matemática. Qual seria o problema de utilizar em conjunto os dois conceitos de Arte, tanto como inspiração quanto como forma de ensino? Neste instante, é imperativo constatar a ausência maciça dos professores em eventos que não estejam relacionados com as suas escolas. Existe uma tendência a considerar que aquilo que existe na Arte é diferente daquilo que está nos sistemas de ensino, mas não consigo ver uma distinção deste tipo. Nada impede que a Arte vá até as escolas ou que os sistemas de ensino incluam espontaneamente a apreciação da Arte como meio de passar conhecimentos. Um pouco de criatividade não faz mal a ninguém.

Arte não é só Lazer ou entretenimento; Arte também pode ser uma fonte de pesquisa e de expansão dos pensamentos. Não é justo que seja condenada a luxo supérfluo e como primeiro item a ser cortado em caso de crise econômica. Pelo contrário: é onde o investimento pessoal deveria ser mais intenso em tempos de crise, como forma de escapar dela.

Em segundo lugar, e aqui é necessário realizar um mea culpa, os eventos culturais no Brasil não sabem atrair público, e isto decorre da falta de conhecimento dos organizadores do que seja cultura. Os museus nacionais possuem exposições cansadas; consideram mais válido atrair exposições internacionais do que investir na prata da casa. É difícil de entender por que não usam, por exemplo, o método arqueológico conforme Foucault tratou em “A arqueologia do saber”, e estabelecendo não cortes laterais de exposições, mas viés longitudinais: fazer, por exemplo, a história do fogo de acordo com a Arte, usando músicas, instalações e pinturas. Este tipo de criatividade é inexistente. Ou fazer como uma exposição atual no Canadá, onde Alberto Manguel contou a história das bibliotecas e organizou uma visita virtual a algumas famosas bibliotecas do mundo, inclusive a dele mesmo.

O mesmo pode ser dito dos eventos literários, que oscilam entre dois extremos: ou são excessivamente acadêmicos e com uma linguagem distante da realidade do público, ou são eventos que visam a enaltecer ou elogiar autores, falando platitudes e descrevendo processos de criação literária. Para mim, soa muito improvável alguém sair de casa, após um dia cansativo de trabalho, para sentar em um determinado local e assistir a um grupo de pessoas discursando obviedades. Novamente penso em Foucault e pergunto: não seria mais interessante um evento que, ao invés de discutir a obra de um determinado autor, analisasse um assunto em que determinadas obras pudessem vir à tona, permitindo inclusive a participação do público com as suas próprias leituras e opiniões? Quem protagoniza eventos literários parece ter medo de mostrar o seu itinerário de leituras – ou o que permaneceu de cada obra lida na sua memória. A sensação constante é que, a qualquer momento, pode surgir uma pergunta inoportunamente inteligente, quando os seguranças e guarda-costas removerão o escritor às pressas do evento, com medo que a qualidade da obra seja colocada em risco pela presença do homem que a engendrou.

No início deste texto, perguntei onde estava o público dos eventos culturais, e a resposta é simples: está em casa. Ele não vê motivo algum para sair, pois entende que Arte é um item supérfluo (inclusive também é algo que o governo acredita e que a mídia prega) e os eventos culturais disponíveis não lhe atraem em razão da sua pouca inventividade. Enquanto estes dois elementos estiverem presentes, não há motivo algum para imaginarmos grande presença do público a prestigiar os nossos artistas. No entanto, basta desequilibrar uma das pontas da gangorra – seja mostrando o valor da Arte e, por conseguinte, da Cultura como patrimônio do ser humano, seja deixando os eventos culturais mais interessantes – e toda a estrutura acabará sendo abalada.

Ao contrário do que dizem por aí, a chave para o sucesso de um país não está na economia, na política ou no desenvolvimento social – sem Cultura, ainda que falemos a língua dos homens e dos anjos, seremos como o bronze que soa ou o címbalo que retine. Sem Cultura, nunca seremos algo, pois sequer entenderemos o quanto falta para sermos humanos.

Texto originalmente publicado em http://literatortura.com/2015/11/onde-esta-o-publico-dos-eventos-culturais/

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Texto publicado na revista eletrônica da Dublinense (03/11/2015): “A leitura como experiência lasciva”

No texto que escrevi para o Medium da Dublinense da semana passada, tratei do poder quase letal das leituras efetuadas em conjunto. Andei relendo trechos da “Odisseia” de Homero e da “Divina Comédia” de Dante por causa de alguns eventos em que falei nos últimos tempos, e impressionei-me com a história de Paolo e Francesca, e de como o primeiro beijo deles foi trocado no meio da leitura da história de Lancelot e Guinevere. Tão completa foi a identificação da vida real com a ficção que o amor se tornou inevitável, transformando a leitura em conjunto como o motivo maior da sua desgraça.

Não conheço pessoas que leem em conjunto, mas deve ser uma experiência interessante dividir o mesmo livro com outro par de olhos, e deixar os sentimentos da ficção se transportarem livremente para a realidade. Partindo deste pressuposto, escrevi sobre a importância da leitura como forma de criar e solidificar relações.

Boa leitura!

 

A leitura como experiência lasciva

É incrível pensar que a leitura em silêncio foi criada por um homem. Melhor dizendo, por um santo.

Foi Santo Agostinho em “Confissões” que, descrevendo a rotina de Santo Ambrósio (responsável pela sua conversão), mencionou que ele “refazia o corpo com o alimento necessário, ou o espírito com a leitura. Mas, quando lia, os olhos divagavam pelas páginas e o coração penetrava-lhes o sentido, enquanto a voz e a língua descansavam.” Em seguida, Santo Agostinho diz que sentava na frente do silencioso leitor e passava um longo tempo contemplando-o, antes de ir embora. Na pergunta “quem é que ousaria interrompê-lo no seu trabalho tão aplicado?”, existe todo um despeito e inveja, ainda mais se considerarmos que, logo a seguir, Agostinho insinua que a leitura em silêncio impedia o debate de temas e dúvidas com outros discípulos, prejudicando o entendimento do livro. Muito ciúme dentro de um só homem. No final, ele redime Santo Ambrósio com uma declaração que impressiona pela sua fragilidade argumentativa (sem contar que parece mais a opinião cega de um fã): “Mas, fosse qual fosse a intenção com que o fazia [a leitura em silêncio], só podia ser boa, pois era feita por tal homem.”

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No passado, era costume que as pessoas lessem em voz alta, transformando a leitura em uma experiência coletiva. Quando alguém lia para os outros, mais do que entregar palavras, estava permitindo que eles se deleitassem com a história e participassem do mesmo ato de comunhão literária. Não deixa de ser interessante que uma das definições mais conhecidas de leitura a situa como um ato individual. É uma construção mais atual do que imaginamos; no seu início, a leitura era um ato de divisão entre iguais, da mesma forma que se dividia um pão na mesa.

Nem paramos para pensar no quanto a individualidade se espalha pelo mundo, insidiosa e constante. Pensar na nossa satisfação nos impede de pensar nos outros. Por exemplo, é muito difícil enxergarmos um casal lendo o mesmo livro: são tempos de leitura diferentes, ritmos antagônicos, vontades díspares. Um quer acelerar, o outro pode ir mais devagar. As conversas sobre livros demandam duas almas cordatas em busca de crescimento pessoal, algo não tão fácil de achar, pois precisaríamos procurar uma pessoa que não só gosta de ler, como alguém que tenha lido o mesmo livro e, não bastando, esteja disposta a conversar sobre ele. Admito que um dos meus pecadilhos é presentear pessoas cujas opiniões respeito com livros que já li, tentando, assim, criar ambiente para um diálogo futuro.

É possível que exista perigo em um casal ler o mesmo livro de forma simultânea. Em “A Divina Comédia”, quando estava passando pelo segundo círculo do Inferno, onde ficam os lascivos, Dante encontra um casal, Francesca e Paolo. Como de costume na obra do escritor florentino, existe uma base na realidade. Francesca da Rimini era uma bela mulher que, com o propósito de acabar com uma guerra entre duas famílias de Ravena, foi entregue em casamento para o filho mais velho da família adversária. Ela se apaixonou pelo cunhado, com quem estabeleceu um relacionamento adúltero por 10 anos, até que o marido traído descobriu e matou o casal.

Paolo e Francesca, por Dante Gabriel Rossetti

Paolo e Francesca, por Dante Gabriel Rossetti

 

Ao colocar o casal no final do Canto V, Dante Alighieri conta a história de como o amor deles surgiu: Francesca diz que estava lendo um livro quando Paolo se adiantou e começou a ler em conjunto com ela. O livro era “Lancelot em prosa”, dividido em cinco volumes, e, quando ela menciona que “Galeotto foi o livro e quem o escreveu”, podemos situar como o segundo volume, que narra os primeiros momentos do amor de Lancelot por Guinevere, esposa do rei Arthur. A descrição de Francesca do que é narrado dentro do livro e, ao mesmo tempo, do que está acontecendo fora dele, faz com que as fronteiras da leitura e da vida real vão caindo uma a uma, até que o casal se confunde tanto com a outra dupla presente na ficção que acaba se beijando.

É uma descrição lasciva, como não podia deixar de ser. É possível sentir os corpos frementes quase colados no ato da leitura em conjunto, enquanto Lancelot desiste dos seus preceitos de honra e toca os lábios de Guinevere ao mesmo tempo em que Francesca sente Paolo se abandonar aos seus. Dante, que não dá ponto sem nó, coloca dentro da ficção uma história real que foi influenciada por outra ficção, e eis o auge da genialidade: ao contar o surgimento do amor por causa de outra história de amor, o escritor coloca em evidência a ideia de que o amor pode ser insuflado por outras formas de amor, inclusive através de livros.

Francesca deixa entrever, na sua narrativa, que o amor por Paolo surgiu graças à descrição do amor sentido por Guinevere e Lancelot, um sentimento igualmente proibido. A própria menção a “Galeotto” passa a ideia de um ato inimigo, pois este era um dos nomes do inimigo do rei Arthur: ao dizer que “Galeotto foi o livro e quem o escreveu”, a mulher declara que o livro tanto foi inimigo do rei Arthur – por descrever e atestar a infidelidade conjugal da rainha – quanto o seu autor, por insuflar pensamentos libidinosos em outros leitores. Toda a descrição de Francesca é no sentido de que o livro é o culpado pelas suas desventuras e que, se não existisse tal exemplar, provavelmente o amor não teria surgido.

No entanto, também se pode ler este trecho de “A Divina Comédia” como o potencial perigo de uma leitura em conjunto. Partilhar de um livro é ter os olhos concentrados no mesmo espaço físico. Estar lendo ao lado de alguém faz com que nos sintamos próximos a esta pessoa e, dependendo da qualidade da leitura, não seria surpreendente se os corações batessem no mesmo ritmo ou se as bocas secassem ao passar pelas mesmas palavras. A ficção faz desmoronar os limites da realidade e, ao ler a história de um casal, foi impossível para Francesca e Paolo não assumirem os papéis que eles representavam, cedendo ao amor de tal forma que leitura e vida real acabaram se confundindo.

É possível que não leiamos livros em conjunto por um medo quase atávico, primitivo, do que pode acontecer quando duas imaginações se concentram no mesmo ponto. Apesar de Santo Agostinho elogiar – com a necessária dose de despeito – a leitura em silêncio feita por Santo Ambrósio, ao lermos um texto em voz alta, com a constante intromissão de perguntas, risadas e outros sons humanos, conseguimos manter distância da absoluta entrega para a ficção. É improvável que Francesca e Paolo tivessem se beijado se a história fosse lida em voz alta. A tensão da cena concentra-se na leitura em silêncio, na ficção pulando o fosso da realidade e escalando os muros para invadi-la, nos corpos que se ajustam ao drama presente nas páginas até então quietas. A literatura pode estar na origem de muitas coisas, desde uma guerra até um beijo, ainda mais se considerarmos que uma das definições mais diretas do amor é “o encontro de duas solidões”. E existe solidão maior do que a proporcionada pela leitura?

A escultura O beijo, de Rodin, originalmente se chamava Francesca da Rimini

A escultura “O beijo”, de Rodin, originalmente se chamava “Francesca da Rimini”

Comentando este trecho de “A Divina Comédia”, Alberto Manguel diz que “Paolo e Francesca não eram leitores ideais, pois confessaram a Dante que depois de seu primeiro beijo pararam de ler. Leitores ideais teriam se beijado e continuariam lendo. Um amor não exclui o outro.” No instante em que o casal trocou um beijo, a leitura tornou-se dispensável. A literatura virou um detalhe. Ouso em dizer que não era mais Francesca e Paolo que estavam ali, mas Guinevere e Lancelot. Dante não deixa claro se a leitura em conjunto foi algo positivo ou não, pois liberou as represas sentimentais que separavam os apaixonados, mas a punição que aflige o casal é exemplar: um vendaval os aproxima e os afasta por toda a Eternidade. Eles estão sob constante ataque do vento. Foi a forma encontrada pelo escritor florentino para censurar os que são conduzidos pelo vendaval das próprias emoções, mas também serve como representação para a leitura e a sua capacidade de nos levar de roldão para dentro de mundos ficcionais, fazendo-nos esquecer de quem somos ou onde estamos para nos absorver em dramas alheios.

Ao final do Canto V do Inferno, um grande mistério: assim que Francesca da Rimini termina a história (Paolo passa o tempo todo chorando ao seu lado), assaltado pela piedade, Dante Alighieri desmaia, “e tombei, como tomba corpo morto”. No meio dos horrores que presenciará no Inferno, é um dos poucos momentos em que o narrador fraqueja, e é graças à piedade. Uma das possíveis explicações para este trecho diz que, da mesma forma que Paolo e Francesca se entregaram ao amor após a leitura de uma história, logo após escutá-la, Dante foi tomado por tamanha identificação com o drama narrado que acabou desmaiando. É uma meta-referência interessante, pois mostra a força quase física da literatura dentro de uma obra literária. Também existe um claro nivelamento da história escrita com a oral: tanto de uma maneira quanto de outra, o drama continua passando do mesmo jeito para o leitor/ouvinte, algo que, de certa forma, tranquiliza Santo Agostinho.

É impossível não pensar o quanto consideramos a leitura como algo mágico até os dias atuais. Quando Santo Ambrósio começou a ler em silêncio, ocultando as suas reflexões e chamando a atenção de Santo Agostinho, e quando Francesca e Paolo se entregaram ao amor desvairado por causa da comunhão conjunta de um livro que mimetizava (ou criava) seus sentimentos, eles estavam mostrando o quanto a leitura pode ser tanto fonte de poder quanto de desconforto.

Pessoas que lêem são imprevisíveis. Possuem vidas inesperadas. São lascivas, pois se misturam com outras almas ficcionais e conseguem induzir sentimentos em inocentes. Sabem conversar sobre muitos assuntos diferentes, e não conseguem distinguir o acontecido do imaginado. Leituras em silêncio são subversivas, pois cultivar o silêncio em uma sociedade gritante é revolucionário. Colocar um livro próximo a um casal é como deixar uma espingarda dentro da sala, sabendo que, um dia, ela vai disparar. A experiência humana é uma tentativa perene de segregar a leitura alheia, o que nos leva a concluir que, talvez, as pessoas não leiam mais por ignorância ou preguiça.

Talvez elas tenham medo do que pode acontecer.

(Publicado originalmente em https://medium.com/colecao-dublinense/a-leitura-como-experi%C3%AAncia-lasciva-9a7ffe9633de

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Texto publicado na revista eletrônica da Dublinense (27/10/2015): “Os livros que nunca leremos”

Na minha coluna da semana passada no Medium da Dublinense, escrevi sobre um assunto que me fascina: os livros que não existem. Aqueles que acreditamos que são fidedignos ao original, mas não passam de acúmulos de detritos narrativos e de sonhos de escritores anônimos. Citei Homero, “O Livro das Mil e Uma Noites” e Shakespeare, mas poderia ter citado a Bíblia ou mesmo as obras de Sócrates. Livros que nos dizem, na capa e na crítica, que beberam da água límpida da originalidade do autor, mas não passam da sombra de outras obras há muito perdidas.

Boa leitura!

Os livros que nunca leremos

Alguns meses atrás, durante uma conversa delirante como as que estamos acostumados a praticar, a escritora Daniela Langer — autora de “No inferno é sempre assim e outras histórias longe do céu”, lançado pela Dublinense — disse ter um estranho hábito: quando estava fora de Porto Alegre, e achava um exemplar do seu próprio livro em alguma livraria ou loja, ela o adquiria. Depois acabava presenteando algum felizardo com a obra, mas era tão mágico entrar em uma livraria em outra cidade e achar a própria criação que ela não conseguia resistir. Claro que nossa conversa degringolou para a teoria de que, talvez, nossos livros não tenham mais a sequência de contos que colocamos, talvez eles estejam incorporando outras histórias ou outros personagens, ou modificando sua estrutura, usando o silêncio das prateleiras para se ajustarem sozinhos. Dizia Barthes que o mundo é um livro e dizia Mallarmé que tudo está no Livro, ou seja, não estamos tão desprovidos de razão.

Não cheguei a comentar com a Daniela, mas também tenho um hábito peculiar em relação ao meu “O homem despedaçado”: possuo somente dois exemplares na minha casa, e os dois apresentam defeitos. Um deles não possui trinta páginas, da 17 até a 47. No outro, os contos estão misturados; provavelmente os “cadernos” em que se dividem um livro foram confundidos na gráfica, gerando um volume confuso, com contos que terminam no nada e outros que se alongam, em uma experiência surrealista.

“…imaginar os braços que não existem é melhor do que vê-los” [Fonte: Wikipedia]

O mais interessante é que eu mesmo comprei estes dois livros defeituosos, um na Feira do Livro de Porto Alegre e o outro na livraria Saraiva de Caxias do Sul. Não sei o que me levou a folheá-los. Também não entro no comodismo de criticar a editora; em um universo de 700 exemplares da primeira edição, é plenamente possível 5% de problemas, e dois livros é praticamente nada. Quis o destino que eu encontrasse estes volumes imperfeitos e os resgatasse e, se menciono esta particularidade da minha relação com a obra, é para dizer que os dois livros defeituosos me comovem. São como a Vênus de Milo; imaginar os braços que não existem é melhor do que vê-los.

Nunca terão a capacidade plena do original; nunca serão completamente entendidos. Também tem um lado meu que acredita que, do jeito que eles foram reordenados, é possível que tenham adquirido outro sentido. É possível, assim, que seja um outro livro, não mais aquele que sonhei. Por isto, é melhor que eles continuem presos na minha casa.

Ampliando a ideia de que cada exemplar do meu livro tem vida própria, nada me assegura que os leitores estão lendo realmente o livro verdadeiro. Eles podem estar lendo outras obras, com outras disposições de contos, com outras palavras, com páginas adulteradas ou acrescentadas. Talvez tenham medo de me comentar para não parecerem ignorantes, ou achem algo tão pós-moderno que pensam ser quase um livro-instalação, ou tenham considerado tão arrojado e tão louco que ficam com receio de confrontar o autor. Nada pode me garantir que as pessoas estão lendo o livro que outrora escrevi — só a esperança.

Passei boa parte do domingo dando risada de Aristarco da Samotrácia (216 a.C. — 144 a.C.). Tenho um humor estranho, mas, toda vez que recordava da empáfia do grego, desatava a rir. Quem chamou minha atenção para ele foi Horácio que, no seu Ars Poetica, comentou pejorativamente sobre os riscos da crítica literária feita com excessiva frouxidão ou rigor desmedido, dizendo que, no segundo caso, o crítico pode acabar “virando um Aristarco”. Ao procurar mais dados sobre a história dele, descobri que Aristarco da Samotrácia foi o terceiro diretor da Biblioteca de Alexandria. De acordo com um cronista da época, era antipático e tinha uma aparência descuidada. Também odiava poesia, tanto que, durante o período em que esteve à frente da Biblioteca, desestimulou o crescimento dos estudos poéticos.

Representação do incêndio da Biblioteca de Alexandria [Fonte: Cultura Brasileira]

Contudo, o que caracterizou Aristarco foi o seu ódio extremo a Homero. Seus trabalhos — hoje perdidos — criticavam de forma ácida a Odisseia e a Ilíada, afirmando que os versos eram grosseiros, mal feitos e espúrios. Aristarco da Samotrácia tanto odiava Homero que acabou se transformando nele: resolveu fazer uma edição comentada e — aí está o ponto que me fez dar gostosas risadas — revista da Ilíada e da Odisseia. Retirou os versos que não gostava, emendou as partes sem sentido, modificou a estrutura do livro. Também apontou discrepâncias, e foi a primeira pessoa que usou o asterisco para designar divergências com o texto original. Alguns comentadores insinuam que ele acrescentou e retirou personagens, tudo para entrar na ideia que fazia de um livro mais adequado. Aristarco acreditava que Homero era só um homem, não uma multiplicidade, e que interpolações posteriores teriam sido acrescentadas na sua obra. Fiel a esta linha de entendimento, resolveu ajudá-la, decidindo remover tudo aquilo que, no seu entendimento, não fazia parte da Ilíada e da Odisseia originais. Não é à toa que ele foi fundador de uma estirpe de gramáticos alexandrinos, que se dedicaram a estudar e, se fosse o caso, corrigir obras literárias.

Existe uma série de histórias interessantes ligadas às leituras que Aristarco da Samotrácia fez de Homero, inclusive a forma bizarra com que algumas de suas anotações surgiram, já no século XIII. Seria legal contá-las, mas iria me estender demais. Contudo, é assustadora uma constatação: é muito provável que o Homero que hoje lemos não seja o Homero original, mas, sim, a obra reformada pelo bibliotecário, seu adversário figadal. A ideia da Biblioteca de Alexandria era consolidar, em um só local, todas as obras existentes no mundo. Assim, é muito possível que, entre os livros fugidos do incêndio, não estivessem a Ilíada e Odisseia originais, mas a versão modificada por Aristarco.

Causa tristeza a ideia de que nunca leremos Homero como ele realmente foi. Hoje é um outro livro que o emula e se identifica como se fosse ele, não mais aquele teor fresco e recendendo a espadas gloriosas que encantava os habitantes das polis gregas.

O mesmo acontece com outros livros: no ano retrasado, assisti a uma palestra do professor Mamede Mustafa Jarouche, tradutor de “Livro das Mil e Uma Noites” para o português. Após contar a sua epopeia para localizar textos e as diferenciações existentes entre o ramo sírio e o ramo egípcio do mesmo livro,o professor afirmou que jamais conheceremos o teor integral do “Livro das Mil e Uma Noites”. As histórias andaram por tantas bocas e escribas diferentes que elas se transformaram. Nos tempos atuais, lemos um livro que nos dizem ser o “Livro das Mil e Uma Noites”, mas não o original. Prova maior disto é que sequer existem mil e uma histórias como o título promete, e “Ali Babá e os Quarenta Ladrões” e “Sinbad, o Marujo” não fazem parte do original, são acréscimos contemporâneos. Além disto, existem lapsos inexplicáveis entre as histórias contadas por Sheherazade, tirando a ideia de continuidade, em que uma trama engata na outra.

Ao final da palestra, o professor Mamede comentou que, na melhor tradição dos escribas anteriores que definiram inúmeras versões do livro, ele também acrescentara algumas histórias esparsas do ramo persa e modificara trechos para permitir uma visão mais complementar e profunda do livro. Foi um momento arrepiante: a história ainda vive. Transforma-se e modifica-se, mas acaba se adaptando aos ambientes, invencível. É a teoria darwinista aplicada à literatura — só as histórias fortes sobreviverão, mas desde que se adaptem.

Impossível não lembrar que também jamais leremos o Shakespeare no original. O bardo inglês era um dramaturgo profícuo, não escrevendo para ser lido, mas para ser representado. Durante a sua vida, nunca existiu a preocupação de manter um registro acurado das peças. Afinal, nem William Shakespeare sabia que, um dia, seria William Shakespeare. Não só isso: como a rainha às vezes pedia apresentações particulares na corte, era normal que Shakespeare adaptasse a peça solicitada para o público específico, acrescentando trechos de louvação a determinadas correntes políticas, inclusive a do Conde de Westminster, e retirando palavras de baixo calão.

Anos após a morte do dramaturgo, ocorreu a formação dos Fólios, compêndios que reuniam as suas obras, mas, como eles foram feitos de forma fragmentada, é muito possível que alterações feitas por atores ou outros escritores tenham passado a integrar o conjunto da obra, não sendo mais possível diferenciar o original dos acréscimos posteriores. Inclusive existem histórias muito engraçadas sobre superposições ilógicas nas mesmas peças, tais como personagens que morrem e depois reaparecem e outros que mudam drasticamente de opinião sem nenhuma explicação convincente.

Nem todo livro chega ao leitor da maneira que saiu das mãos do escritor. [FONTE: zazzle]

É uma pena que nunca leremos as versões originais de Homero, do “Livro das Mil e Uma Noites”, de Shakespeare. Entretanto, também nesta possibilidade existe magia: a certeza de que a literatura se faz independente de homens ou de mulheres, mas com histórias. Quando Daniela Langer compra o próprio livro em outra cidade, tem a ilusão de que, na troca geográfica, outra obra nasceu, e pode ter acontecido.Quando eu mantenho exemplares imperfeitos do meu livro na biblioteca, tenho o delírio de que eles contam histórias diferentes das que engendrei, e pode ser igualmente verdade.

Não temos como saber o que acontece dentro dos limites estreitos de um livro.Não sabemos o que vocês, leitores, estão fazendo com as nossas criações. A única certeza que temos é que nenhum leitor atravessa duas vezes o mesmo livro — nem mesmo o seu autor.

(Publicado originalmente em https://medium.com/colecao-dublinense/os-livros-que-nunca-leremos-a184707ee64#.8e7jqzxbq )

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Arquivado em Daniela Langer, Dublinense, Generalidades, Homero, Literatura, Livro, Livro das Mil e Uma Noites, William Shakespeare