Arquivo do mês: novembro 2014

O mais solitário dos seres

Em um evento recente, comentei que o único sentimento verdadeiro que os seres humanos possuem é a solidão. Todos os demais sentimentos necessitam de outros seres ou objetos, mas a solidão pertence a cada um de nós. No final do dia, despidos de roupas, de ideologias, de fantasmas e de todos os estereótipos que insistem em nos atribuir, ficamos sozinhos dentro de nossos corpos, indissoluvelmente mergulhados na solidão que, por mais que tentamos derrubar, sempre persistirá. A pele é a fronteira final e, dentro dela, estamos sempre sós.

Por isto, nos relacionamos, nos encontramos, nos reunimos. Brigamos, beijamos, odiamos. Tudo para afastar o medo que é estar sozinho no mundo. A arte é uma forma de nos irmanar: quando escrevemos, pintamos, esculpimos ou cantamos, nosso objetivo é fazer com que, dentro de cada obra, os limites se dissolvam e as almas se encontrem sem intermediários, sem tempo, sem espaço. Quando vejo um quadro de Rembrandt, encontro dezenas de milhares de pessoas que já o viram e se sensibilizaram. Com a necessária concentração, posso encontrar o próprio artista, viajar pelo mundo através dos seus singulares olhos. Dentro do quadro, eu sou todos os espectadores, eu sou Rembrandt.

A solidão é nosso estado natural. Nascemos sozinhos e morremos sozinhos. Lutamos a vida toda para encontrar um espaço, para constituir uma família, para ter um amor, mas são paliativos utilizados para preencher o buraco insondável que é a solidão da nossa alma sentada dentro da prisão do corpo.

O que me faz lembrar do ser mais solitário do mundo: a “Baleia dos 52 Hertz”.

Ninguém nunca a viu. Só conseguimos ouvir o seu canto. Uma baleia comum canta a 20 hertz. As baleias-azuis cantam entre 15 e 20 hertz. A “Baleia dos 52 Hertz” canta na frequência anunciada no seu nome, quase três vezes superior, e o som é tão alto que afugenta as demais baleias. Ela não consegue se comunicar com nenhuma e, assim, foi proscrita de todos os grupos com quem poderia se relacionar. As outras baleias não conseguem escutá-la e, por conseguinte, não conseguem vê-la.

Os cientistas monitoram o seu percurso, sabem que o som sai de uma baleia sozinha e conseguem seguir os seus deslocamentos no Oceano Pacífico através do rastro deixado pela vocalização. Foram inclusive capazes de detectar o momento em que a sua “voz” mudou e ficou mais grave, indicando um certo amadurecimento.

Desde 1992, a “Baleia dos 52 Hertz” apareceu todos os anos, sempre seguindo o mesmo trajeto e sumindo do radar dos hidrofones entre janeiro e julho.

No entanto, desde 2004, nunca mais se ouviu a “Baleia dos 52 Hertz”. Ela completa 10 anos de desaparecimento.

Não se sabe o que aconteceu: é provável que ela tenha morrido, mas pode ter alterado o seu trajeto. Não temos como saber o conteúdo da sua vocalização. Alguns cientistas dizem que seria o equivalente a uma série de chamados repletos de desespero. No entanto, eles ressalvam que a baleia conseguiu viver e se sustentar mesmo estando isolada do mundo, o que demonstra que a vida em grupo não lhe era essencial.

Mesmo sem achar correspondência, a baleia prosseguiu cantando com o seu ritmo peculiar. Possivelmente procurava uma resposta, qualquer uma, alguém capaz de entender a sua comunicação e se relacionar com ela. Enquanto o outro ser não aparecia, continuou procurando, com esperança indômita, sempre imaginando que, um dia, conseguiria achar alguém que lhe fosse igual.

Eu acredito que a “Baleia dos 52 Hertz” desistiu da sua busca. Emudeceu e, agora, trafega pelos mares em silêncio. Acostumou-se com a própria solidão, deixou de lutar contra ela. Sabe que terá uma vida sem a mínima possibilidade de compartilhar algo e, ao contrário do que se pode pensar, consegue viver com esta ideia.

Resignou-se.

Existem poucas metáforas melhores para a experiência humana do que uma baleia solitária gritando pelos mares, procurando um ser que lhe complete.

baleia solitaria

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Arquivado em Baleia dos 52 Hertz, Generalidades, Impressões, Produção Literária, Solidão