Arquivo do mês: novembro 2016

Obras Inquietas – 09: “Susana e os anciões” (1610), Artemísia Gentileschi

Na minha coluna dessa semana no “Obras Inquietas”, eu abordo um quadro que me deixa extremamente perturbado, ainda que o assunto não seja fácil e possa facilmente descambar para o contrário da sua ideia. No entanto, a literatura é feita para isso, e eu não escreveria se não tivesse tal ímpeto: enfiar o dedo onde machuca e escarafunchar.

Em “Susana e os anciões” (1610), de Artemísia Gentileschi, o que mais me chama atenção é que a pintora conseguiu mostrar o exato momento em que Susana foi assediada pelos dois velhos lascivos, o instante em que ela não tinha escapatória. Os demais quadros feitos por outros artistas talentosos não possuem tal sutileza; em geral eles estão um segundo antes (quando começa o assédio) ou um segundo depois (quando Susana recusa a abordagem), não o instante precário em que Susana soube que estava em uma situação desesperadora – e indecisa sobre qual atitude tomar.

Boa leitura!

“Susana e os anciões” (1610), Artemísia Gentileschi

susana-e-os-velhos

 

Cale a boca. Eu sei que você quer. Se não quisesse, não estaria aí, desnuda, com esses seios brancos, duros, ansiosos pelas nossas mãos. Vem cá. Dê-me a tua boca: quero saber o gosto da fruta que mora no seu interior. Não chore; não implore por piedade, pois você nasceu para nos satisfazer. Se não fizer o que queremos, vamos acabar com a sua honra. Diremos para todos a puta que você é. Todos irão acreditar, quem pode desconfiar de nós, dois respeitáveis anciões? Nenhum homem mais irá lhe olhar. E o mesmo vale para a sua criadora, a pintora: mulheres não servem para pintar. Você não tem talento, não é nada. Devia estar limpando as nossas casas, sua vadia. As risadas debochadas saem do quadro, se espalham no atelier. Pare de chorar, mulher, tire logo a roupa. Satisfaça nós, os seus senhores, senão iremos dizer que vimos você com outro homem aqui, e todos terão nojo de tocar na sua pele suja. E você, pintora, desista de ser aquilo que a sua natureza proíbe. Mulheres nasceram para obedecer, não para criar obras. Vocês são o lixo que gruda nas nossas sandálias. Vocês e esses corpos lisos, ansiosos para serem violados, corpos que se oferecem ao sol, às águas e aos nossos olhos e mãos. Venha cá, mulher, nós estamos mandando. Obedeça. Pare de fugir. Você não tem para onde ir. Ninguém irá lhe salvar. Hoje você irá servir de pasto para a nossa fome; queremos encher seu corpo com nossas marcas de macho, desenhar linhas de sangue e roxos na sua pele perfeita. E você, pintora, olhe tudo acontecer e saiba que, se não fosse ela, faríamos com você. Faríamos com qualquer mulher, pois vocês são menos do que gente para nós. Recolha as suas lágrimas e preste atenção nos detalhes, pintora, enquanto você, Susana, cala logo essa boca, para de chorar e abra logo as pernas. Ninguém vai acreditar em você; ninguém vai lhe salvar. Hoje é o dia em que você perderá a sua inocência.

Texto originalmente publicado no link https://artrianon.com/2016/11/25/obras-inquietas-09-susana-e-os-ancioes-1610-artemisia-gentileschi/

Anúncios

Deixe um comentário

Arquivado em Crônicas, Impressões, Obras Inquietas, Pintura, Produção Literária, Susana e os anciões

Crônicas de um ano inteiro: “Qual o preço de um amigo?”

No meu texto dessa semana no “Crônicas de um ano inteiro” (publiquei na segunda, mas estou um pouco atrasado na atualização do blog), contei algo que até hoje me deixa consternado ao lembrar.

Boa leitura!

Qual o preço de um amigo?

cachorro-sozinho

 

Das muitas histórias que me assombram, existe uma que continuamente relembro. Aconteceu seis meses atrás. Era um belo dia de sol, e o parque estava lotado da sua costumeira fauna: ciclistas, crianças gritando nos brinquedos, casais caminhando com casquinhas de sorvete. Na beira do lago, um pouco distante do local onde transitava a maioria das pessoas, estava um homem sentado com uma cachorra maior e três filhotes. Não sei o que me chamou atenção nele, mas é provável que tenha sido a placa oferecendo os cachorros para doação. Os filhotes se enovelavam, brincando, enquanto a cachorra acompanhava tudo com olhos pachorrentos, dormitando ao sol.

Era um péssimo lugar para oferecer cachorros: escuro, mal sinalizado, úmido, fora da rota da maioria das pessoas. O homem estava condenado ao fracasso. Na placa, em letras menores, ele informava que, ao contrário dos filhotes, a cachorra não seria doada, mas vendida por 15 reais. Percebendo a minha presença, o desconhecido começou uma conversa, e queria não ter escutado o que ele me narrou.

A cachorra acompanhava o homem há mais de sete anos. Ela se chamava Sonja, e era a sua melhor amiga e companheira, o motivo pelo qual ele voltava correndo para casa. Por uma contingência da vida, a empresa onde ele trabalhava pedira concordata e o homem acabara sendo demitido. Era administrador de empresas. Não estava fácil conseguir emprego, ele só fazia bicos. Foi vendendo e descartando tudo o que possuía, até que nada mais de valor restou. O homem agora morava em uma pensão vagabunda do centro da cidade, e não tinha mais espaço para a Sonja e seus recém-nascidos filhotes. Nas últimas noites, ele comprara um pãozinho e dividira com a cachorra, mas sentia que a insegurança financeira estava fazendo mal para a sua amiga. Por esse motivo, decidira doar os filhotinhos e vender a cachorra, para que a Sonja tivesse algum dono capaz de lhe alimentar.

O homem estava arrasado, olhando para os próprios pés, os gestos plenos de vergonha. Era visível que ele não queria se descartar de Sonja – que continuava dormindo placidamente -, tanto que escolhera um local em que só por um milagre apareceria algum interessado em adotar os filhotes ou comprar a cachorra. Ele olhava para todos os lados, acuado, desejando que alguém se aproximasse e, ao mesmo tempo, rezando para que a pessoa seguisse adiante. Estava esperando um Deus ex-machina, alguma entidade trazendo a resposta para os seus problemas. Contudo, na vida real, isso jamais acontece.

Se essa história me causa tanto desconforto é por que pode acontecer com qualquer um. Ser derrotado. Perder todas as esperanças. Não ter para onde ir ou quem possa socorrê-lo. Precisar se desfazer de todos os bens e vínculos afetivos para sobreviver. A derrota final está ao alcance de todos nós, e é muito fácil chegar ao inverno da nossa desesperança.

Mas, mesmo assim, nunca entregamos os pontos. Vamos nos desfazendo de tudo que nos caracteriza até não restar mais nada: primeiro, os bens de maior valor; a seguir, os secundários, a vaidade representada pelas roupas, os pequenos objetos que nos fazem recordar momentos especiais e vão sumindo paulatinamente, enquanto juramos que não iremos nos desfazer de mais nada; por último, a dignidade, o amor próprio, a autoestima.

Descartamos tudo o que temos e somos em benefício da sobrevivência, esperando que a guinada aconteça. Mas ela já pode ter passado, e não notamos. Em uma das obras mais inquietantes já escritas, “A fera na selva”, de Henry James, o protagonista passa o livro inteiro esperando o momento decisivo, a hora da virada, o instante em que a sua vida inteira iria se definir e, enquanto espera, não nota a mulher apaixonada que caminhava em silêncio ao lado, acompanhando a sua jornada, sabendo que ela era a felicidade tão ansiada e não vista pelo homem. Estamos sempre aguardando dias melhores, mas eles podem estar passando neste exato momento e não conseguimos ver. Talvez estejamos vivendo no melhor dos tempos, mas o pessimismo nos impede de ver a realidade.

O homem no parque perdeu tudo, menos a esperança. Por algum tempo, lembrando da cena, perguntei-me sobre o motivo dele estar doando os filhotes, mas vendendo a cachorrinha. Irritava-me a ideia de alguém descartar o seu único amigo fiel depois de tantos anos de infortúnio: é possível colocar um preço em um amigo? Mas logo entendi que o maior ato de amor que um ser pode ter por outro é desejar o seu bem estar mesmo que distante. Ter a humildade necessária para reconhecer que o outro pode ser feliz, desde que não esteja ao seu lado. Descartar o próprio sentimento para que o outro alcance a felicidade em algum caminho diferente. Quinze reais não era o preço do cachorro, era uma desculpa que o homem deu para não deixar o seu último amigo ir embora em vão.

Ou talvez os quinze reais cobrados pelo cachorro fosse o momento da virada tão arduamente esperado, o segundo em que o desespero viraria o início de uma nova vida. Na dúvida, não comprei o animal, mas lhe alcancei os quinze reais. Quando saí de lá, Sonja continuava dormindo com inocência, mas o seu dono sorria. Ganhara mais um dia com a sua amiga, e é assim que os sentimentos se constroem: um dia de cada vez.

Deixe um comentário

Arquivado em Cachorro, Crônicas, Generalidades, Produção Literária

Obras Inquietas – 08: “Agnus Dei” (1635-1640), de Francisco de Zurbarán

Na minha coluna “Obras Inquietas” dessa semana, um quadro de Francisco de Zurbarán com a pergunta que não quer calar: de quem somos o cordeiro hoje?

É uma obra interessante sob outros aspectos. Ela possui todos os requisitos para ser um “still life”, ou “natureza morta” como chamamos no Brasil. A riqueza de detalhes, a imobilidade do cordeiro, a vida representando a morte. O problema é que o cordeiro está vivo´, ou seja, é uma natureza morta com um ser ainda vivo, mas que sabe a iminência da morte próxima e do sacrifício. Eis a imanência da arte, tanto da pintura quanto da literatura: fazer a representação de um cordeiro se manifestar sobre a injustiça e sobre a vacuidade da vida.

Boa leitura!

 

“Agnus Dei” (1635-1640), Francisco de Zurbarán

 

agnus-dei-francisco-de-zurbaran

 

Eu sou aquele que vai morrer por causa dos seus pecados. Não fiz nada, mas, apesar disso, virei a materialização ainda pulsante e quente dos seus erros. É bom ter alguém a quem culpar, não? Cometer crimes, proferir blasfêmias, realizar atrocidades e, em seguida, limpar a consciência besuntando-se no sangue de um inocente. Não acredito que o seu Deus exige a minha morte para lhe salvar: ele também não é o meu Criador? Por que o meu criador irá destruir a vida de quem nunca errou, em troca de você e seus erros mesquinhos e crimes vergonhosos? Para você, matar-me irá eximi-lo das suas culpas, mas, para aquele que jamais cometeu nada errado contra o Senhor seu Deus, você é o assassino cruel que acordou hoje, imerso no suor da vergonha, e escolheu uma vítima incauta que teve o azar de estar passando por perto. Tive uma existência curta e sem sentido – nasci, conheci brevemente minha mãe, andei por campos, dormi sob estrelas -, mas eu gosto de viver. Não posso ter nascido só para ser assassinado por causa das fraquezas de outro. Não atrapalho ninguém, e até meus balidos são baixos para não chamar atenção. Tudo inútil, pois fui o escolhido. Não há justiça; no final do dia, os inocentes sempre morrem por causa dos culpados. Observe meu pelo sedoso, os chifres que tantas vezes raspei nas pedras, os cascos ainda jovens; em breve, eles estarão sem vida e meu sangue escorrerá em sacrifício para o chão, ainda trêmulo na lâmina faiscante usada para cortar minha garganta. Você será rápido, os dedos escondendo o nojo, ou lento, deixando cada centímetro da faca afundar-se na minha pele e sufocar o gemido estrangulado que sairá da minha garganta, enquanto morro sem saber o que fiz de errado? Senhor, tende piedade de mim, pois não sei o que fiz de errado para morrer hoje.

 

Texto originalmente publicado no link https://artrianon.com/2016/11/18/08-agnus-dei-1635-1640-francisco-de-zurbaran/

Deixe um comentário

Arquivado em Agnus Dei, Arte, Crônicas, Francisco de Zurbarán, Obras Inquietas, Produção Literária, Uncategorized

Crônicas de um ano inteiro: “Uma vida cultural na esquina da sua casa”

Na minha crônica dessa semana no “Crônicas de um ano inteiro”, escrevi sobre as pessoas que reclamam não existir nada para fazer nas suas cidades, mas ignoram que a vida cultural somos nós que fazemos e pode estar inclusive na esquina da sua própria casa, escondida dos olhos pelo peso da nossa rotina diária.

E também falo da bela cachorrinha que adotei, a Alemoa, que tem me levado para passear e descobrir o que existe no bairro. Suspeito que ela voltará a aparecer mais vezes nos meus escritos.

Boa leitura!

 

Uma vida cultural na esquina da sua casa

na-esquina

 

O fato de ter adotado uma cachorrinha de rua há pouco tempo forçou-me a redesenhar e modificar boa parte da minha rotina. Entre alguns hábitos que estou instituindo (ou modificando), encontra-se a realização de longas caminhadas. Nunca caminhei tanto como nos últimos dois dias. A cachorrinha só faz as suas necessidades na rua, o que me força a esperá-la e a respeitar o seu tempo. Em breve, iremos nos entender automaticamente, mas, por enquanto, ainda estamos nos adaptando.

Enquanto aguardo ao chamado da natureza, deixo a curiosidade da cachorrinha definir o meu trajeto e foi assim que descobri, com grande surpresa, uma confeitaria a menos de 200 metros da minha casa. Ela se chama Buenos Aires, pertence a um argentino e é especializada em pães portenhos. Em um ano e três meses morando naquele prédio, eu nunca tinha visto a confeitaria que estava diante dos meus olhos e, se não fosse a cachorrinha a me impelir para lugares incomuns e a me fazer observar o mundo próximo, jamais a teria encontrado. E isso aconteceu no espaço de somente dois dias de passeio: o que mais poderá aparecer no meu caminho nos próximos tempos?

A sensação que tive foi que a confeitaria Buenos Aires surgiu no dia anterior da sua descoberta, instituindo-se em um passe de mágica, mas a verdade é que sempre esteve ali, eu que jamais prestei atenção. Tal situação me deixou com uma dúvida incômoda: quantos outros lugares incríveis deixei de ver no meu dia a dia? Ampliando a ideia, quantas pessoas legais deixei de conhecer ou quantas situações maravilhosas não vivi, tudo por causa da cegueira seletiva imposta pelo cotidiano?

Uma das frases que mais escuto é “não existe nada para fazer na cidade”. Não só em Porto Alegre, mas em quase toda a cidade em que já estive, desde o interior do Estado até grandes centros (com a exceção honrosa de São Paulo e Rio de Janeiro, que sempre possuem vastas programações). As pessoas reclamam que a cidade é parada, que não existe vida cultural, que é só ir para o trabalho e voltar para casa. Também pensava assim, mas, no momento em que comecei a aceitar convites para eventos e a prestar mais atenção na programação cultural, percebi que, ao contrário do imaginado, não faltam atividades, estamos vivendo em meio ao excesso. Não consigo estar em todos os compromissos que gostaria de prestigiar. Às vezes, são três ou quatro programações interessantes acontecendo no mesmo intervalo de tempo, e tenho que fazer escolhas cruéis. São filmes para assistir, peças de teatro para comentar, bate papos e palestras sobre assuntos relevantes, espetáculos de música, feiras públicas, eventos na rua… isso sem contar os encontros privados com amigos e amigas inteligentes, que marcam jantares, cafés e encontros para falarmos de livros e trocarmos histórias.

Mesmo em cidades distantes dos centros culturais, a vida é intensa para quem procura novidades. Na época em que morei no interior do Estado, não conseguia ficar em casa para descansar, tão grande o caleidoscópio de eventos que insistia em me envolver. As cidades menores talvez não tenham a mesma diversidade de outros lugares, mas existem saídas diurnas e noturnas, conversas na beira da calçada, parques para sentar e conhecer pessoas, e até mesmo uma roda de chimarrão ou de cerveja é pretexto para uma programação cultural. Recordo uma noite no campo eterno de Encruzilhada do Sul que consumimos contando histórias de terror. Para a pessoa que está aberta a novas experiências, e para quem possui bom humor, qualquer lugar é cheio de aventuras excitantes. Já comi mariscos semi-vivos em Florianópolis; já participei do primeiro dia da vindima em Faria Lemos; já caminhei no cemitério de Quaraí às dez horas da noite, buscando um túmulo inexistente; já me perdi em Montevidéu. São aventuras que só vivi por que tive a coragem de dizer não e lutar contra o vício insidioso da preguiça que se espalhava pelos meus músculos com promessas de conforto.

Boa parte do consenso geral dos que afirmam “não tem nada para fazer na cidade” parte do conformismo. Se ficarmos dentro de casa, sim, a cidade não tem nada para nos oferecer de atrações. Somos cheios de desculpas para justificar a falta de criatividade. Para aqueles que consideram a cidade insegura à noite, existe a opção de fazer uma atividade cultural dentro de casa mesmo: chamar os amigos, arrumar um jantar, assistir a um filme, conversar sobre um livro. Para aqueles que dizem estar sem dinheiro, grande parte das atrações são gratuitas, e as pagas possuem valores módicos que não representam a ruína financeira de ninguém. Para aqueles que acham desinteressantes as atividades culturais apresentadas, é possível criar a sua própria atividade e, assim, suprir a deficiência constatada. Parcela significativa das pessoas que reclamam da falta de atrações na cidade ficam em casa assistindo a jogos de futebol e a programas na televisão. Se preferem ficar em casa nessas atividades, é um direito seu, mas não é justo culpar a cidade pela sua própria preguiça. Qualquer local possui atrações, tudo é uma questão de desejar encontrá-las – ou, então, criá-las.

Em “Romance d’A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta”, de Ariano Suassuna, em determinado momento o personagem Quaderna comenta sobre a Vila de Taperoá, do alto da sabedoria dos seus 10 anos de idade: “Naquela minha primeira manhã na Vila eu já tinha entrado em contato com a rua do sexo, da embriaguez, do jogo e dos desmandos do pecado; com o teatro; com a miséria degradante do Alto; com o esgoto do crime, na Cadeia; e com o anúncio de uma guerra iminente a se travar entre as forças do meu Padrinho e as de Antonio Moraes – e Samuel ainda achava que ali na Vila não acontecia nada!”. As cidades possuem os seus encantos, mistérios e atrações para quem consegue abandonar o caminho do conformismo. Em “As aventuras de Huckleberry Finn”, de Mark Twain, dois garotos saem de balsa e buscam aventuras no meio do cotidiano, fazendo com que elas acabem surgindo aos borbotões. É sempre assim: para quem está disposto a correr riscos e a descobrir a efervescência cultural das cidades, basta abandonar-se à aventura e deixar o imponderável reger os seus passos. Ou adotar uma cachorrinha curiosa, capaz de levá-lo a lugares que nunca esteve antes, como a esquina da sua própria casa.

1 comentário

Arquivado em Crônicas, Produção Literária, Vida cultural

Obras Inquietas – 07: “Casal” (1986), de Montserrat Gudiol

Na minha coluna dessa semana no “Obras Inquietas”, eu falo de “Casal” (1986), uma pintura de Montserrat Gudiol, pintora catalã especializada em fazer imagens brotarem de dentro das cores.

No quadro, a angústia do silêncio. Um abraço sem sentido. A mão guardando o resquício de um gesto interrompido. O rochedo de aparência tranquilizadora que, na verdade, é o mar tempestuoso. O peso de uma relação morta. Os segundos que se arrastam, infinitos, como se o próprio infinito só existisse para morar dentro de um segundo.

 

“Casal” (1986) – Montserrat Gudiol

 

"Casal" (1986), Montserrat Gudiol

“Casal” (1986), Montserrat Gudiol

 

Todos nós já estivemos nessa situação, mas preferimos esquecer: em meio ao mais absoluto desespero. Tão atordoados que sequer conseguimos esboçar palavras; tão atônitos que não conseguimos nos mexer, cada músculo do corpo imerso no visco da areia movediça. Rezando para que o tempo passe logo e, mesmo assim, os segundos se arrastam, infinitos como se o próprio infinito só existisse para morar dentro de um segundo, enquanto chafurdamos no poço fundo onde dormitam os medos. A angústia é silenciosa, um verme paciente que rói o pensamento, faca cravada nas entranhas a se retorcer em movimento eterno, agonizante. A mulher não está ali; os olhos arremessam seus desesperos silenciosos para um local indefinido. A boca é um risco de dor a vincar o rosto com a raiva de palavras não ditas que, como serpentes, deslizam umas sobre as outras, ansiosas por liberdade, impregnadas de veneno. Cabeça pousada sobre o ombro da mulher, o homem se acalma, imaginando-se protegido dos horrores do mundo, mas ele ignora que não abraça um rochedo de segurança, mas o próprio mar tempestuoso. Uma criatura feita de fúria vermelha, que sai do sangue quente do seu corpo e espalha pavor pelo mundo todo, em ondas concêntricas de raiva e sentimentos desfeitos. O casal continua existindo de um lado, que abraça sem ser abraçado, mas, do outro, os sentimentos se desfizeram como a estátua de sal da mulher de Lot, aquela que sequer tem um nome. Aqui ela também não tem identidade, mas o seu drama é o de todos nós, estagnados em uma situação indesejada, querendo se libertar, mas sem saber como. A mulher ocupa o centro do universo. Dentro dos olhos vazios, o medo do futuro estraçalha a felicidade que deveria existir dentro de um abraço apaixonado. A mão – tão branca, tão fantasmagórica – estava a meio caminho da carícia no rosto masculino, mas desistiu quando percebeu a sua falsidade, a vontade de ceder ao comodismo de uma relação que já morreu e só esqueceram de sepultar. A mulher carrega todo o sofrimento da relação sobre os seus ombros, e ela nunca se sentiu tão sozinha.

 

Texto original no link https://artrianon.com/2016/11/11/obras-inquietas-07-casal-1986-de-montserrat-gudiol/

Deixe um comentário

Arquivado em Arte, Casal, Montserrat Gudiol, Obras Inquietas

Texto publicado na revista eletrônica da Dublinense (11/11/2016): “Lições de vida com Conan, o Bárbaro, ou a importância de não ser prudente”

Na minha coluna dessa semana no Medium da Dublinense, eu falo de como manter o bom humor no meio de um mundo insano. Mas, após uma abertura em homenagem à Jane Austen, aproveito para falar de algumas coisas divertidas, como o livro que Michel Houellebecq escreveu sobre H. P. Lovecraft, no qual o francês chegou a conclusões tão deprimentes sobre a raça humana que parecia Marvin, o Androide Paranoide, de “O Guia do Mochileiro das Galáxias”, do Douglas Adams; falo brevemente de “Sparkenbrook”, de Charles Langbridge Morgan, e de como a mesma história vivida agora pode se transformar em um romance ou em uma sátira no futuro; conto a vida de Charles Fort, o mais genial homem que já pisou na Terra, um cara que passou toda a vida buscando provas de que a nossa realidade estava errada, o que resultou em “O Livro dos Danados”, uma obra seminal; revelo para o mundo todo que sou integrante orgulhoso da Sociedade Forteana (ora, bolas, tenho até carteirinha, isso não é segredo para ninguém); ao final do texto, conto a história de um homem que foi vários homens, Widsith, o Grande Navegador, que viveu mais de 400 anos, e era o menestrel oficial dos governantes, imperadores, generais, déspotas, sátrapas e faraós de todos os reinos que se prezassem no Oriente Médio e na Europa, tudo para encerrar com uma brilhante lição de Conan, o Bárbaro, sobre o verdadeiro sentido da vida.

Há boatos (não-confirmados até o momento) de que eu só tenha escrito este texto como um longo pretexto para citar Conan, o Bárbaro de forma pretensamente sábia. Negarei até a morte.

Boa leitura!

 

Lições de vida com Conan, o Bárbaro, ou a importância de não ser prudente

 

É uma verdade universalmente aceita que uma pessoa solteira e de fortuna mediana (para não dizer leve) esteja procurando alguma diversão na vida, em especial na véspera – literalmente – dos seus quarenta anos de idade. Efemérides sempre assustam com a ideia de que outro período de tempo se fechou de forma inapelável, e o fato de eu estar parafraseando Jane Austen dá a medida exata para a ironia com que enxergo o mundo atual, repleto de disputas por frases de efeito nas redes sociais enquanto a realidade insiste em nos espancar com fatos, inapeláveis e cruéis.

caneca-com-boca

Não faz muito tempo, tive que responder para um leitor o que valia a pena na vida e, como não podia citar Conan, o Bárbaro, e a sua clássica solução para o mesmo dilema (“matar os inimigos, esmagar os seus crânios e ouvir o choro das suas viúvas”), restou-me responder que era o bom humor. O que não deixa de ser uma pena, contudo, é que o bom humor seja uma mercadoria em falta no mundo atual. Em geral, ele é associado à parvoíce, à insensibilidade e à omissão, como se precisássemos estar sempre falando sério para sermos entendidos, como se não existissem modalidades de humor muito mais perspicazes do que textos de um especialista. É necessária muita inteligência para manter o bom humor no meio desse mundo estranhamente irreal em que vivemos, um local em que oscilamos entre frases com trocadilhos pseudo-publicitários-inspirados-para-caber-em-um-meme ou textos repletos de palavras, números, dados, opiniões, som e fúria inócua.

Não é tão difícil ser bem humorado, só é necessário se afastar das pessoas que pregam o mau humor como solução para as vicissitudes mundiais. Nos últimos dias, por exemplo, estou me divertindo horrores com um livro escrito por Michel Houellebecq em 1991, chamado “H. P. Lovecraft: against the world, against life” (“H. P. Lovecraft: contra o mundo, contra a vida”, em tradução livre), um estudo de crítica literária relativamente longo que o escritor francês fez sobre o seu colega norte-americano, criador dos Mythos e das divindades sombrias chamadas de Old Ones.

Diga-me o que lês e te direi como isso entra na tua obra, e esse é um caso exemplar. É possível ver muito de Lovecraft dentro dos livros de Houellebecq, em especial a desesperança com o gênero humano. Algumas frases são tão magnificamente depressivas que é impossível não rir sozinho (todas traduções minhas): “entre o homem e um Old One, o Old One ao menos possui sentido”; “a vida é dolorosa e desapontadora. É inútil, inclusive, escrever novos romances realistas. Nós geralmente sabemos como nos posicionamos em relação à realidade, e não damos mais atenção para isto”; “o universo não passa de uma furtiva combinação de partículas elementares. Uma figura de transição no meio do mais absoluto caos. Isto é o que vai, enfim, prevalecer. A raça humana vai desaparecer. Outras raças surgirão a seguir, e também irão desaparecer. Os céus vão ficar glaciais e vazios, trespassados por uma tíbia luz de estrelas meio-mortas. Elas também vão desaparecer. Tudo vai desaparecer. Tudo.”. Quando leio essas frases, não consigo conter as gargalhadas, pois Houellebecq soa muito como Marvin, o Androide Paranoide, personagem de “O Guia do Mochileiro das Galáxias”, de Douglas Adams, um robô de Q.I. tão elevado que só se manifesta com frases do mais absoluto pessimismo e desprezo em relação à vida. Chego a imaginar as frases do autor francês ditas no mesmo tom de desespero controlado do robô.

É saborosa a simples ideia de que Houellebecq seja leitor e admirador confesso de Lovecraft, e é engraçado constatar tal junção improvável de interesses. Ou talvez eu tenha mesmo um senso de humor “duvidoso”, conforme já me disseram, algo que continuo sem descobrir se é bom ou ruim. Também já me disseram que não levo os assuntos com seriedade, mas é possível que a pessoa rindo seja justamente aquela que possui a reflexão mais profunda, capaz de perceber, por trás dos textos insossos chamados “de opinião” (existem textos sem opinião?), a vacuidade quase constrangedora dos pensamentos alheios repetindo fórmulas gastas como se fossem grandes novidades. O mundo é uma grande farsa, interpretada por péssimos atores que esqueceram as falas e ficam repetindo os mesmos clichês “ad infinitum”. Em “Sparkenbrooke”, de Charles Langbridge Morgan, o personagem principal, Piers Tenniel, afirma para Mary: “se ficarmos velhos, e ainda nos conhecermos na velhice, havemos de nos lembrar então desta noite; mas tu farás disto um romance e eu uma sátira, e tanto aquele como esta serão falsos.” Se ficarmos velhos, olharemos o dia de hoje como um romance ou como uma sátira, e o fato de não existir diferenças muito grandes entre ambos diz muito a respeito do nosso mundo. Levar algo a sério não é garantia de reflexão bem realizada.

É possível que a pessoa mais séria do mundo tenha sido também a mais engraçada, em especial por sempre ter falado a verdade. Em 1874, nos Estados Unidos, nasceu Charles Fort. É uma grande demonstração de ignorância mundial o fato de que poucos conheçam os trabalhos e as pesquisas de Charles Fort. Na minha opinião, ele foi o único homem sério que já pisou na Terra, e isso por que reconheceu que vivemos em uma realidade irreal. Fort abraçou a ideia de que as estranhezas fazem parte indissolúvel do nosso cotidiano; só não vemos por que nossos olhos foram acostumados a desacreditar no maravilhoso.

Para abrir nossos olhos, Charles Fort entregou a sua existência ao objetivo de mostrar-nos os grilhões que nos prendem. Fort passou toda a vida colecionando provas de fatos bizarros que se sucediam ao redor do mundo. Com paciência exemplar, lia jornais em várias línguas procurando aqueles fatos que escapavam de explicações simples: uma chuva de rãs nas Filipinas; uma maré vermelha nas ilhas Fiji; o aparecimento de um tigre na Islândia. Por menor que fosse a nota ou a informação passada sobre o assunto, Charles se esforçava para conseguir mais detalhes, testemunhos, fotos. O homem passava seus dias rastreando notícias estranhas nos jornais, procurando elementos que demonstrassem a sua teoria de que a nossa realidade está repleta de fissuras por onde o fantástico se esgueira. Tão grande era a sua dedicação para esta tarefa hercúlea que se mudou para Londres, passando a realizar pesquisas no Museu Britânico atrás de mais provas.

Em um determinado dia, Charles Fort juntou todas as suas pesquisas em um livro, “O Livro dos Danados” (“The Book of the Damned”). No início da obra, desafiou os cientistas a encontrarem explicações científicas para os fatos estranhos apontados com dia, hora e local quase cartesiana. Não é um livro bem escrito; ele se equilibra perigosamente entre a informação e o desafio, e as frases são escritas aos arranques, sem nenhuma depuração, deixando trechos muito chatos e outros panfletários. Em um capítulo intitulado “Vemos convencionalmente”, o autor explica a sua visão da realidade:

“Não apenas pensamos, agimos, falamos e vestimos igualmente, pela nossa rendição à tentativa social na busca da Entidade, nas quais somos apenas multicelulares. Vemos aquilo que devemos ‘devidamente’ ver. É ortodoxo dizer a uma criança que um cavalo não é um cavalo… mais do que seria dizer a uma alma simples que uma laranja é uma laranja. É interessante por vezes caminhar ao longo de uma estrada, olhar as coisas e perguntar-se que aspectos teriam as coisas se não se tivesse aprendido a ver os cavalos, as árvores e as casas, como cavalos, árvores e casas. Creio que para uma supervista são esforços locais que se confundem indiscernivelmente uma na outra num nexo onicompreensivo.”

book-of-damned

Como sempre acontece com as pessoas que não conseguimos compreender, Charles Fort – que recebeu o título de “colecionador de fenômenos anômalos” – passou a vida sendo ridicularizado pelas suas investigações. Os cientistas não eram capazes de confrontar as suas pesquisas, então preferiram atacar o homem. As risadas nunca o impediram de continuar juntando provas. Fort morreu por um tipo raro de leucemia que o matou em poucos dias (nem preciso dizer que até hoje pairam dúvidas sobre esta morte misteriosa). A sua dedicação a esta cruzada solitária contra a ditadura da realidade gerou frutos, pois foi fundada a Sociedade Forteana, um grupo que pesquisa eventos fantásticos ou sem explicação que acontecem por todo o mundo – Sociedade esta da qual faço parte, com muito orgulho.

Charles Fort sempre falou muito sério sobre a realidade, mas consideraram que ele estava brincando. Ninguém nunca entendeu o humor do americano: a única maneira de provar que a realidade ao nosso redor pode ser modificada se mudarmos os paradigmas de visão é revelando as suas falhas e, para isto, só pesquisa séria e listagem de dados irrefutáveis. Em muitos aspectos, Charles Fort antecipou distopias e até mesmo o filme “Matrix”, além das suas ideias servirem de fundamento filosófico para as noções de realidade aumentada.

É inusitado imaginar que uma pessoa pode passar a vida inteira falando seriamente e, apesar disso, ser considerada comediante. Assim como Fort, eu acredito que a realidade existe somente como convenção social, e o humor é a única forma real de atingir o âmago de qualquer situação. Não só para desconstituí-la, mas para colocá-la na sua devida importância.

Assim como ocorreu com Charles Fort, outra pessoa que quase não conhecemos e que usou o humor como maneira de desmascarar a realidade foi Widsith, o Grande Navegador, que existiu nos primórdios do século VII a. C. Boa parte da sua obra, escrita em inglês arcaico, não chegou até nós, somente 143 versos. Widsith – cuja tradução mais acurada significa “bem-viajado” – foi um trovador anglo-saxão que não só viajou por todas as terras do mundo conhecido por mais de 400 anos (documentados), como conversou com todos os reis, governantes, sátrapas, faraós, ministros e outros governantes, da Inglaterra até o Oriente Médio e a Índia.

É duvidoso que Widsith, o Grande Navegador, tenha vivido por mais de 400 anos. O mais provável é que tenham sido vários bardos que se sucediam na função de menestrel, todos recebendo o nome de Widsith. Ao decorarem os cantos do antecessor, passavam uma ideia de continuidade, como se fossem a mesma pessoa.

O interessante é que Widsith tinha livre acesso a todos os governantes. Era uma figura neutra com direito absoluto de passagem, o menestrel oficial dos líderes. Bastava chegar às portas de qualquer palácio do governo ou barraca de guerra que ele era conduzido até o cargo máximo do local, cantava os feitos dos antecessores e possivelmente agregava algum elemento do governante que acabava de conhecer. Widsith era o livro vivo de todos os líderes que passavam pela Terra, aquele que lembrava seus nomes e feitos depois que eles já tinham morrido ou sofrido derrotas. Em termos atuais, seria como se uma única pessoa conversasse de maneira íntima com todos os governantes de cada país, tornando-se o depositário final de suas glórias, aquele que diria para os líderes que eles tinham sido, sim, importantes.

Foi nessa condição que Widsith, o Grande Navegador, conversou com pictos, frísios, escotos, medos e egípcios; esteve diante de César na Gália e falou com godos, suecos e getas. Do rei Eormanric, recebeu um colar de anéis de ouro que valia seiscentas moedas. Descreveu encontros com Hrothgar e Hrothwulf no salão Heoror, apesar deles serem personagens de “Beowulf”, o mais famoso épico anglo-saxão, o que deixou dúvidas sobre o resto do poema: teriam existido os heróis clássicos ou seriam homens transformados em mito por escritores mentirosos? Widsith não responde, adejando de forma suave sobre os versos, sempre duvidoso, sempre instável: uma neblina escrevendo palavras no vento.

Widsith na versão Lego

Widsith na versão Lego

Existem evidências históricas de que, ao estilo de Homero, Widsith, o Grande Navegador, não foi somente um menestrel, mas vários reunidos sob a mesma alcunha. Também se sabe que o cristianismo, sempre mal-humorado, tratou de expurgar todos os traços da sua existência. Afinal, é intolerável permitir que alguém sem rosto e com nome compartilhado por uma multidão de pessoas ande por aí enunciando nomes de homens e mulheres ao invés de lembrar das vidas dos santos. Se Widsith sobreviveu por mais de 400 anos cantando para todos os líderes do mundo conhecido foi graças ao seu bom humor. Os líderes de então adoravam ouvir fofocas, maledicências e os feitos dos seus antecessores, assim como sonhavam com os versos que lhes seriam legados pelo menestrel. Penso que o canto do bardo incansável tinha ainda uma função dupla: lembrava a efemeridade dos reinados, assim como o “Ozymandias” de Percy Bysse Shelley, e mostrava para os governantes os erros que os outros tinham cometido, permitindo-lhes planejar melhor os seus passos futuros. Widsith usava o bom humor e suas habilidades de trovador para não só se insinuar na sua boa vontade e ser ouvido, mas para se transformar na memória coletiva dos governantes.

É utópico imaginar um mundo em que os governantes escutam os feitos dos líderes de outros tempos e aprendem com os erros cometidos no passado. Nos tempos atuais, cada governante que começa seu mandato acha que o país (e o mundo, e o universo) nasceu com ele. Não possuem a necessária ideia de continuidade, algo que também falta para todos nós. O mundo não nasceu conosco, e nem deixará de existir depois que partirmos, por maior que seja a nossa presunção em imaginar o contrário.

Portanto, a única maneira de atingir a imortalidade em vida é não levando todos os assuntos sempre a sério, mas acreditar – assim como Charles Fort – que a realidade é algo modificável a qualquer segundo se assim desejarmos. Ou nos divertirmos ao imaginar encontros tão improváveis de escritores como um Houellebecq lendo a obra de Lovecraft (e nadando no vasto mar de piche da desesperança pela Humanidade, mar este em que Lovecraft surfava com desenvoltura). Ou sermos como Widsith e usarmos o bom humor para chegar perto das pessoas mais influentes e, assim, tentarmos mudar o mundo sem que ninguém note. Respeito muito quem consegue ver seriedade neste mundo não-sério, mas respeito mais aqueles que sabem que a vida não é nada se não conseguirmos ver a Grande Graça que se esconde por trás dos horrores do cotidiano: a experiência de estar vivo. A mesma experiência que somente Conan, o Bárbaro, foi capaz de definir na sua plenitude:

Já conheci muitos deuses; quem nega sua existência é um cego, assim como aquele que confia demais neles. Não me importo com o que existe além da morte. Tanto pode ser a escuridão em que acreditam os céticos nemédios, o reino de gelo e nuvens onde vive Crom, as planícies geladas e os corredores fechados da Valhalla nos quais crê o povo de Nordheim. Eu não sei, não me importo. Preciso viver intensamente enquanto posso. Quero experimentar os ricos sucos da carne vermelha e o vinho picante, o aperto quente de braços brancos como o marfim, a loucura do triunfo na batalha quando as lâminas azuladas queimam e se tingem de vermelho. Isto basta para me alegrar. Que os mestres, os sacerdotes e os filósofos meditem sobre as questões da realidade e da ilusão! De uma coisa eu sei. Se a vida é ilusão, também sou uma: a ilusão é real para mim. Eu vivo, eu QUEIMO com a vida, eu amo, eu mato, eu sou feliz assim.”

 

Texto originalmente publicado no link https://medium.com/colecao-dublinense/li%C3%A7%C3%B5es-de-vida-com-conan-o-b%C3%A1rbaro-ou-a-import%C3%A2ncia-de-n%C3%A3o-ser-prudente-4410d4fc7c1b#.we5zez8xg

Deixe um comentário

Arquivado em against life, Bom humor, Charles Fort, Charles Langbridge Morgan, Douglas Adams, Generalidades, H. P. Lovecraft: against the world, Literatura, Lovecraft, Michel Houellebecq, o Grande Navegador, O Guia do Mochileiro das Galáxias, O Livro dos Danados, Widsith

Crônicas de um ano inteiro: “Um mundo cada vez mais perfeito, cada vez mais chato”

Na minha crônica dessa semana na página do Facebook “Crônicas de um ano inteiro”, eu falei de como o desejo de perfeição está nos deixando cada vez mais pasteurizados e previsíveis. Mas também falei de Caravaggio, de censura e de Johann Sebastian Bach, e eis uma combinação insólita o suficiente para mostrar que as pessoas que pensam fora das fórmulas óbvias ainda são as mais excitantes.

Boa leitura!

Um mundo cada vez mais perfeito, cada vez mais chato

 

amor-omnia-vincit-caravaggio

“Amor omnia vincit”, Caravaggio

 

A grande notícia da semana passada passou quase despercebida no noticiário local, atordoado por planilhas de novas corrupções, por descrições de atos violentos e pelas costumeiras discussões que logo serão esquecidas. Mais de 400 anos depois de ter morrido, Caravaggio voltou a sofrer censura, dessa vez pelo Facebook. O quadro “Amor omnia vincit”, feito em 1602, foi colocado no mural do promotor de artes Hamilton Moura Filho Desivel, e as políticas restritivas de conteúdo da rede social mais usada no mundo consideraram-no atentatório à moral e aos bons costumes. Durante algumas horas, a imagem ostentando um Cupido desnudo foi proibida de aparecer na rede social. Após os protestos de vários internautas, inclusive de Hamilton, que afirmou que a cultura não podia ser bloqueada pelos meios de comunicação em pleno século XXI, o Facebook voltou atrás, enviando uma mensagem para o usuário: “Erroneamente removemos algo que você publicou. Nós pedimos desculpas e publicamos novamente o seu post”.

No entanto, o estrago estava feito e, em especial na Europa, a discussão sobre os limites entre costumes e arte foi intensa. Hamilton Moura Filho Desivel afirmou: “Vivemos em um mundo onde a cultura fica em segundo plano. O que me deixa triste é que a única coisa que pode mudar a direção que esse mundo está tomando é exatamente a cultura. O sistema quer manter esse exército de idiotas que vemos por aí porque a cultura dá a possibilidade de pensar. E, quando você pensa, tem a possibilidade de mudar o seu destino.”

Não se pode deixar de ver a ironia da situação. Caravaggio desperta polêmicas há 400 anos. Acaso estivesse vivo, estaria se divertindo muito com essa nova celeuma causada em torno da sua obra. Quando pintou quadros com representações de cenas religiosas, Caravaggio despertou furor ao colocar prostitutas, criados e mendigos em posição de destaque. Os anos passam e a obra do pintor italiano some e reaparece, em geral envolvida em escândalos. No passado, era por causa da religião. Nos dias atuais, contudo, é por obscenidade. Daqui a 400 anos, ainda estará nos escandalizando. Caravaggio sempre despertará emoções conflituosas.

O mundo transformou-se em um lugar repleto de julgadores da moral alheia. Não podemos esquecer que, para censurar o quadro de Caravaggio no mural de Hamilton, o Facebook recebeu uma denúncia de alguém que se sentiu ofendido por uma representação do Cupido. Dessa vez foi o Caravaggio, mas, algumas semanas atrás, censuraram a icônica foto da Guerra do Vietnã em que uma menina nua sai correndo da aldeia que acabou de queimar depois de um bombardeio de napalm. Se continuar desse jeito, em breve, a falsa moral da burguesia da atualidade – falsa por que, entre paredes, no segredo do lar, continuam praticando atos extremamente vergonhosos – acabará por ditar não só a arte, mas também nossos pensamentos e ideias. Viraremos uma sociedade de autômatos preocupada em produzir discursos pasteurizados e impregnados de clichês. Em resumo, viraremos uns chatos.

Boa parte da responsabilidade por nossa moral cada vez mais engessada e conservadora – pois até mesmo de forma inconsciente estamos evitando falar assuntos que despertem discussões e reproduzir imagens que possam lançar interpretações duplas – vem do nosso desejo irreal de perfeição. Agimos de maneira a não despertar polêmicas; comportamo-nos de forma tal que não estejamos no centro do palco e debaixo do holofote. Falamos exatamente o que esperam que pessoas normais falem, e consideramos o diferente não como exótico, mas como algo que precisa ser destruído e assimilado à manada de ideias comuns. É impensável o surgimento de um Caravaggio nos tempos atuais, apesar de muitos artistas se jactarem dos seus pensamentos progressistas. Mesmo quem age assim, acaba seguindo normas cuidadosamente refletidas para não serem violadas de forma muito radical. São rebeldes estilizados, pois todo grupo precisa ter uma oposição justamente para afirmar a sua identidade. São rebeldes controlados.

Na gênese dos problemas que nos afligem como seres humanos, está a vontade de sermos aceitos pelos nossos semelhantes. Não tolerado, mas amado. É por esse motivo que colocamos fotos impregnadas de felicidade e depois realizamos retoques até a exaustão para que seja uma representação do melhor dia da nossa vida. Escrevemos textos sem sabor – ou com uma polêmica cansada, para suscitar os mesmos argumentos batidos de sempre – para que os leitores saibam que está tudo igual. Elegemos os mesmos políticos com as promessas vazias de costume, pois aqueles que possuem ideias criativas são instáveis demais na sua inovação. Pensar fora da caixa nos assusta. Melhor sermos sempre os mesmos.

Pensei sobre esse desejo de perfeição ao assistir a um vídeo do violoncelista Bruno Concset tocando a “Suíte n.º 04 para Cello em E-menor”, composta por Johann Sebastian Bach em 1717. O cenário era perfeito: o Koninklijk Theater Carré, localizado em Amsterdam, Holanda. O som era cristalino e as imagens irretocáveis. No entanto, algo deixava a música diferente, quase gutural de tão humana, um rasgo inesperado nas gravações a que eu estava habituado. Não entendia o que era. A resposta surgiu entre os comentários sobre o vídeo: um inglês elogiou o fato dos responsáveis terem deixado, na gravação, o som que os dedos fazem ao deslizar sobre as cordas do instrumento musical. Nas gravações que eu escutei, o som era tão cristalino que não tinha espaço para o travo humano deixado por dedos agitados que deslizam e machucam cordas. No afã de deixar a música o mais pura possível, os engenheiros de mesa do som resolviam eliminar justamente o ser humano que toca o instrumento, pois ele atrapalharia a fluência da melodia.

A situação é emblemática: tão grande é o nosso desejo de aceitação que preferimos eliminar o ser humano da equação social, pois ele nos perturba. São suas imperfeições naturais que estragam a boa ordem dos acontecimentos. Vivemos em um mundo tão perfeito que estamos nos transformando nos resmungões que não conseguem ver a obra de Caravaggio sem chamá-la de indecente ou escutar uma suíte de violoncello de Bach e achar que o instrumentista podia desaparecer. O ideal de perfeição é tão absoluto que não vemos mais fotos com sorrisos espontâneos, não rimos mais com a mesma espontaneidade, não conversamos da mesma forma livre de outrora. Para chegarmos a um mundo perfeito, precisaremos deixar de ser humanos.

  • Como um bônus, aos que se interessarem, eis o vídeo que menciono na crônica.

http://allofbach.com/en/bwv/bwv-1010/

 

pppp

3 Comentários

Arquivado em Amor omnia vincit, Arte, Caravaggio, Crônicas, Johann Sebastian Bach, Música, Produção Literária