Arquivo do mês: janeiro 2013

Santa Maria e o desaparecimento das palavras

Depois da última postagem no blog, hoje eu queria escrever sobre assuntos alegres. Talvez contar as minhas impressões sobre um filme ou sobre algum seriado (estou com vários débitos). Ou falar de literatura. Ou abordar outro assunto. Qualquer um.

Mas a realidade acabou comigo. No dia 26 de janeiro de 2013, um incêndio matou mais de 200 jovens na boate KISS em Santa Maria, RS. E eu, que não costumo ficar sensibilizado com tragédias, considerando-as como parte deste ônus de estar vivo e ser parte de uma Humanidade que se retorce por todos os lugares – por conseguinte, um mundo onde tragédias são inevitáveis, pois como podemos deslizar sem nos bater de vez em quando? – subitamente me vi desprovido de palavras. Elas desapareceram. Todas. Ao mesmo tempo.

Junto com o sumiço das palavras, também veio a pergunta inevitável: do que elas valem em um mundo cheio de desgraças? Um texto meu impedirá uma tragédia? Um conto pode salvar uma vida? Para que escrever se tudo é loucura e desespero, desilusão e abismo? Nenhuma palavra é capaz de dar conta da dor. Não existe nada que uma palavra possa fazer para acalmar alguém, para apagar o passado, para salvar de uma recordação. Palavras são inúteis. E ridículas. Vivemos uma ilusão de que elas podem fazer tudo e, na realidade, é no silêncio que a verdade se manifesta, mostrando a nossa fragilidade e a nossa empáfia. Somos poeira que fala, e só isto. Pretensões cheias de justificativas e desculpas.

Em algum lugar da escuridão do deserto, palavras se escondem.

Em algum lugar da escuridão do deserto, palavras se escondem.

Menos mal que não fui o único a experimentar o silêncio interno e a sensação de que as palavras eram insuficientes e inúteis. A Carol Bensimon também passou por esta experiência e relatou em um texto, que também considero um retorno pesaado à vida inocente que nos foi roubada: http://www.blogdacompanhia.com.br/2013/01/no-final-de-um-corredor-sonolento/

Com o passar dos dias, as palavras estão voltando. Receosas, titubeantes, um pouco desconfiadas, mas pedindo para voltarem ao mundo. Ao contrário dos mortos de Santa Maria, nós continuamos. E persistimos com somente a palavra para espalhar a sua memória e dor pelo mundo. Não temos onde nos refugiar. Somos criaturas cheias de palavras. Gostemos ou não, precisamos gritar para todo mundo aquilo que também não sabemos expressar direito.

Mas não se preocupem: não vou desonrar a memória dos mortos com insuficientes palavras, com declarações de impacto, com a pretensão de efeitos estilísticos. Tudo seria em vão. E estranhamente vazio neste mundo em que, de repente, todo mundo se descobriu poeta e com vontade de fazer declarações constrangedoras sobre o indescritível. Poucas horas após a tragédia começar a se desenhar, dezenas de textos passaram a assolar a internet, cada um tentando ser mais criativo, mais original, mais compungido do que o outro. Todos insuficientes. Não há palavras. Simplesmente não há.

Os antigos tinha suas maneiras de lidar com a dor. Depois da batalha de Salamina, em que perdeu grande parte do seu prodigioso exército, o imperador Xerxes mandou chicotear o mar, culpando-o pela sua desgraça. Ele precisava extravasar a sua raiva pela morte inútil do seu exército, precisava expiar a culpa que lhe corroía como um verme traiçoeiro. Culpou o mar e, como se fazia a um escravo desobediente, mandou açoitá-lo.

Contam que, após perder três legiões romanas na Batalha da Floresta de Teutoburgo, o imperador Augusto passou várias noites insone, com pesadelos que lhe atormentavam. Seus criados relataram que, por algumas semanas, ele foi visto caminhando pelos corredores do palácio, gritando “Quintili Vare, legiones redde!” (‘Quintilius Varus, devolva minhas legiões!’) enquanto batia a cabeça nas paredes. Ele precisava pedir desculpas para as dezenas de vidas que mandou para a morte, ele precisava do perdão.

São duas formas de lidar com o luto. Podem parecer estúpidas diante dos nossos olhos pós modernos, mas demonstram a angústia de quem viu uma tragédia se desenhar e não sabe como sobreviver a ela da mesma forma. E tudo ficou diferente. Estamos mais desconfiados. Estamos mais tristes. As palavras voltaram, mas perderam um pouco da inocência. Elas também se tornaram mortais. Lembro da triste lição do Padre Antônio Vieira sobre a nossa efemeridade: “A vida é uma lâmpada acesa; vidro e fogo. Vidro, que com um assopro se faz; fogo, que com um assopro se apaga.” Ele também dizia que a vida não é nada, uma poeira no Universo. Talvez realmente não seja nada. Mas, se assim for, por que dói tanto?

E tudo que eu gostaria era de bater a cabeça em uma parede e suplicar para que me devolvam as 235 vidas que o incêndio apagou do mundo. Ou que existisse um mar que eu pudesse chicotear. Mas até isto a modernidade roubou: o direito de fazer uma atitude insensata para pedir o impossível.

Continuarei perseguindo as escorreitas palavras. Tudo está igual, tudo está diferente.

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A vida não ensina tanta coisa

Nos últimos tempos, tenho aprendido – a duras penas – que a vida não ensina quase nada. Somos atores que entram no meio de uma peça e precisam descobrir o enredo, os outros personagens e as nossas falas enquanto a tragédia (ou comédia) acontece. A vida é cruel, e esta é a primeira coisa que ela não ensina: quando você aprender qual é o sentido e distinguir o número do tijolo que a sua vida representou no muro da história humana, você já não estará vivo ou – se ainda estiver – verá que não valeu a pena. Somos criaturas feitas de descontinuidade; pequenos rasgos de luz no meio de nuvens negras que logo nos apagam.

Enquanto isto, a vida continua dando uma lição atrás da outra, exibindo o seu conhecimento vasto diante da minha ignorância. É como o bedel de um colégio, com a diferença de que o sermão e o sorrisinho irônico nunca terminam. A vida faz uma longa preleção, divertindo-se com os nossos frequentes enganos, com as confusões, com os nossos desesperos de existir em um mundo cheio de regras, códigos, dores, sabores e desgostos que precisa ser compreendido enquanto o jogo acontece, enquanto todo mundo faz o mesmo ao seu redor.

A vida não me ensinou quanto tempo é prudente esperar até que uma erupção no rosto necessite de tratamento médico. A vida não me ensinou como explicar ao médico a infinitude da dor de ter um ouriço quente retorcendo-se na bochecha. No canto do consultório, invisível, a vida ri enquanto o médico me repreende: deveria ter procurado ajuda antes, deveria deixar o assunto para os especialistas, deveria ter feito o contrário. Já é passado, mas as recriminações continuam.

A vida não me ensinou o que dizer ou fazer quando alguém está tão desesperançado que nem mais palavras possui. Não me ensinou como manter acesa uma luz que está nos seus estertores. Não me ensinou como farei para viver depois que a luz se apagar, quando menos uma pessoa estiver no mundo. Não me ensinou a me despedir ou a dizer “olá”: precisei aprender na porrada, e tanto um quanto o outro são igualmente dolorosos e difíceis.

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Talvez eu não tenha sido um bom aluno, pois nunca aprendi quando a risada é espontânea ou quando o choro é honesto. Evito ambos, para não cair no erro. Não aprendi quando a ironia se torna espada, quando a palavra se torna pedra, quando o silêncio se torna soco. Vou descobrindo enquanto ando e, assim, meu caminho é feito de cadáveres de sentimentos, de fantasmas de boas intenções, de pessoas mutiladas pela minha inabilidade. Pediria perdão, mas também não sei se, quando faço isto, está correto ou se é outra agressão.

Não sei quais são os protocolos que devem ser seguidos para sofrer: demonstrações públicas de dor? Ranger de dentes? Explosões de sentimentos incontroláveis? Recolhimento monástico em algum lugar fechado? Desconheço como expor o sofrimento, e desconheço até mesmo se algo tão íntimo deve ser mostrado. Da mesma maneira, a minha existência seria muito mais fácil se eu soubesse demonstrar o prazer que sinto quando me deparo com o inefável, com a simplicidade de uma declaração inesperada, com o vazio de uma surpresa, com o espanto de um reencontro. Na dúvida, e como toda reação parece falsa e desproporcional ao sentimento que vivencio, prefiro ficar inerte.

Não aprendi como desligar a preocupação que me acomete, no meio do dia, de ter esquecido as chaves do apartamento em algum lugar e não poder entrar em casa. Não sei como desejar felicidades a alguém sem soar hipócrita. Não aprendi a dignidade de perder e muito menos a forma com que se comemora o júbilo. São fatos que vou aprendendo no susto, à medida em que eles acontecem, e não me espanto quando vejo pessoas chorando na alegria ou rindo na tristeza. Somos todos aprendizes, e erros são frequentes.

Não sei absolutamente nada sobre o Tempo, e a vida mantém um silêncio desconfortável sobre este assunto. Quanto tempo dura uma recordação? Nos últimos tempos, tenho lembrado de pessoas mortas: é meu destino lembrar de forma reiterada de pessoas que já não mais estão no mundo? Se for verdade, a vida não tem decência alguma em me manter preso no passado. Quanto tempo dura uma alegria? Em qual momento a risada vira escárnio? Em qual segundo exato um livro ruim é esquecido? A vida não ensina quanto tempo é necessário para construir a felicidade; talvez estejamos sendo felizes agora e nunca descobriremos. Ou talvez a felicidade não exista, e o Tempo seja um agulhão que se retorce no nosso espírito, trazendo imagens do passado e visões do futuro, desesperança e ilusão, fumaça e concreto.

A vida não nos ensina a amar. E nunca ensinará: prefere ficar rindo das nossas tentativas desajeitadas. Não fomos feitos para amar; o amor é uma excrescência, um deslize, um passo fora da linha dado pelo equlibrista.

A única e terrível lição que a vida ensina, de forma incessante, é que ela acabará. Coloca a espada no nosso pescoço e manda-nos ser alegres, sorrir, sofrer, ter dignidade ou ser um crápula, mas anuncia que, em algum momento, com um leve deslizar da sua mão emplumada, mexerá a lâmina e nos fará encontrar a efemeridade. Logo que abrimos os olhos e aprendemos a aspirar a primeira lufada de ar, a vida começa a contagem regressiva. Mas, até chegar no último segundo, serão inúmeras as lições que não aprenderemos, e continuaremos a viver como se fôssemos os caóticos carrinhos bate-bate de um parque de diversão.

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Apontamentos para uma história trágica da literatura

Começarei a falar de literatura com a descrição de um quadro. Na sala de um consultório médico que frequento com desagradável habitualidade, existe a reprodução de um quadro de Picasso. Não sou um especialista em Picasso, muito menos seu admirador incondicional:  no entanto, reconheço os traços típicos da sua Fase Rosa, as matizes mais quentes das cores, a exploração do feminino, a bifurcação do rosto que, ao mesmo tempo em que olha o espectador do quadro, também está de perfil, dissimulando os pensamentos da mulher retratada. Com a devida relutância, reconheço o fascínio da obra e sei que, daqui a 20, 50 ou 100 anos, ela continuará encantando com a sua construção quase displicente, leveza de traços e concentração de esforços para gerar um efeito no espectador. Admito a eternidade da pintura, a sua imanência, mesmo sem gostar dela.

Na época da sua produção, as obras de Picasso não foram bem recebidas, em especial no início do movimento cubista. Ele teve sorte de ver seu trabalho ainda reconhecido em vida, mas foram poucos os artistas que tiveram tamanha honra. A grande maioria viveu sem ter reconhecimento em vida e, pior ainda, alguns passaram por períodos de fome, por tragédias familiares, por problemas graves de saúde, por pobreza extrema. E, ainda assim, produziram sem se queixar ou sem se aviltar. E suas obras constituem patrimônio universal.

Tenho acompanhado um sem-número de discussões na mídia em que as pessoas procuram estabelecer o que é literatura ruim e o que é literatura boa. Considero impressionante a quantidade de pessoas que se empenham em um pugilato inócuo usando palavras como socos ou chutes. Tornou-se um lugar comum considerar que os livros que vendem bastante são má literatura. Também vejo muita gente debochando do gosto pessoal de outros leitores, ou tachando gêneros literários como uma “literatura indigna”. Sou contra estas classificações, e muito me espanta que a maioria delas venha de outros escritores. Na minha opinião, soa como uma forte espécie de despeito: como meu livro não é lido na mesma proporção dos outros, é por que os outros são ruins ou “populares”, os livros são melhor colocados nas gôndolas das livrarias ou os leitores não sabem diferenciar a boa da má literatura.

Admito que todos os argumentos são válidos, mas me pergunto se esta não é uma posição cômoda: culpar os outros pela falta de alcance do próprio livro. É inegável que autores de bestsellers identificaram uma aspiração ou inquietude da sociedade e a souberam materializar em uma obra de ficção. O fato de se tornarem muito vendidos só demonstra a acuidade da visão do escritor na sua apreensão do mundo real. Soa estranha esta visão de que literatura bem sucedida (e, na proporção inversa, ruim) é aquela que vende mais. Parece um resquício de visão católica, em que os ricos devem distribuir a sua riqueza para a felicidade geral do mundo, pois o capital é moralmente obsceno. Para mim, existe literatura adequada às minhas aspirações (aquela que funciona e não me subestima como leitor) e literatura inadequada (aquela que não funciona dentro das minhas especificações, mas que pode agradar outras pessoas menos exigentes).

Como nas enchentes, muitos livros entram na enxurrada social, mas poucos sobreviverão à insaciedade das águas.

Como nas enchentes, muitos livros entram na enxurrada social, mas poucos sobreviverão à insaciedade das águas.

Penso ser relevante mostrar outro ponto de vista: o quanto eu, como artista, desejo realmente ser consumido? O que seria uma quantidade ideal de leitores: dez? Mil? Um milhão? Isto realmente importa? Dez leitores atentos são ainda mais interessantes do que um milhão de leitores que cedem aos apelos midiáticos ou influência do meio social e acabam comprando bestsellers para colocar nas prateleiras.

Ao invés de definir aquilo que é bom ou ruim com base na lista dos mais vendidos, sugiro um estudo retrospectivo: por que certos autores espezinhados pela mídia do seu tempo, pobres, ignorados ou escarnecidos pela sociedade, ainda são lidos, enquanto os queridinhos da época hoje são solenemente ignorados? Seria interessante pesquisar, novamente através de um método arqueológico, quais os fatores sociais que determinaram a aceitação de uma obra em detrimento de outra. E por qual motivo os verdadeiros artistas, aqueles que sobreviveram à voracidade dos anos, na sua época foram destratados ou ignorados. Seria medo do novo? Receio do desconhecido?

Somente através desta pesquisa chegaríamos à imanência, à eternidade, aos verdadeiros valores que são mantidos era após era, milênio após milênio – a verdadeira natureza do homem. Deve-se buscar os motivos pelo qual uma obra faz sucesso em uma determinada época, enquanto outros trabalhos artísticos só encontram sucesso fora do seu tempo. Esta ideia também é defendida por Schopenhauer, no seu “A arte de escrever”:

“Gostaria que alguém tentasse escrever um dia uma história trágica da literatura, na qual expusesse como as diferentes nações, cada uma das quais deposita seu maior orgulho nos grandes escritores e artistas que tem a exibir, trataram esses homens durante suas vidas. Assim, o autor poria diante dos nossos olhos aquela interminável batalha travada pelo que é bom e autêntico, em todos os tempos e países,  contra o domínio do que é deturpado e ruim; descreveria o martírio de quase todos os verdadeiros iluminados da Humanidade, de quase todos os grandes mestres em cada disciplina e em cada arte; mostraria como eles, com poucas exceções, sofreram na pobreza e na miséria, sem reconhecimento, sem apreço, sem alunos, enquanto a fama, a honra e a riqueza eram reservadas aos indignos em cada área. Sua sorte foi a mesma de Esaú, que foi substituído, enquanto caçava para levar comida para o pai, por Jacó, vestido com suas roupas, para roubar em casa a benção paterna. Como, apesar de tudo, o amor à sua causa manteve os educadores da espécie humana em seu caminho até que terminasse sua difícil batalha, o laurel imortal lhes foi concedido e chegou enfim a hora em que se pode dizer a seu respeito: ‘A pesada couraça ganha asas, / Curta é a dor, eterna a alegria’.”

Não cansa de me impressionar a quantidade de tempo – e de espaço mental – que as pessoas perdem discutindo os motivos pelo qual a “literatura ruim” vende mais do que a “literatura boa”, e os motivos dela ser consumida em números gigantescos, maiúsculos. Lucrariam bem mais se estivessem olhando para os lados e procurando as obras que irão sobreviver à carnificina dos tempos, procurando os traços da eternidade que caminham por aí, impunes. Se são escritores, pior ainda; deveriam estar escrevendo mais e melhor, estudando com mais afinco, lendo com mais energia. Não deveríamos nos preocupar tanto com classificações ou com o sucesso dos outros. Deveríamos pensar mais no nosso próprio talento, na nossa força criativa. Deveríamos ser melhores. E não falo isto somente no aspecto literário: qualquer um pode ser melhor naquilo que faz se deixar de cuidar dos outros e se concentrar na especialização do próprio talento.

Enquanto o mundo tenta se classificar e artistas entram em uma disputa autofágica para tentar anular o sucesso de algumas obras e idolatrar as suas próprias, existe uma categoria especial que não se preocupa com isto. Eles estão ocupados com a sua produção, com o burilamento das suas capacidades, com o estudo constante da forma, com o autoconhecimento. Estão escrevendo, deixando o trem desgovernado seguir montanha abaixo, emocionados com o milagre daquilo que sai de sua mente, em uma sensação que Tchekóv, somente ele, através do personagem Trigorin na peça  “A Gaivota” (preciso reler o Tchekóv urgentemente) seria capaz de descrever com uma precisão absoluta. É assim que eu me sinto. Exatamente assim. E começaria os apontamentos para uma história trágica da literatura lembrando que os maiores artistas são aqueles que nunca param, aqueles que possuem uma incansável bala de canhão na imaginação:

“Há na nossa mente algumas ideias obsessivas, que a dominam: por exemplo, uma pessoa pode pôr-se a pensar na Lua,  dia e noite. Ora bem, eu tenho a minha própria lua. Passo o dia e a noite obcecado por uma só e única ideia: escrever, escrever, escrever. Mal acabo uma história e já tenho de escrever outra, sei lá por quê, e depois escrevo outra, e mais outra… Ponho-me a escrever, a escrever sem parar, como um cavalo de diligência, não sei fazer  doutra maneira. Diga-me se é assim tão excitante tudo  isto, tão maravilhoso… Ah, é uma maneira de viver  absurda. Estou aqui consigo, emocionado e a pensar a todo o momento numa história, na minha história inacabada que me espera. Estou agora a ver, uma nuvem, que parece um piano enorme. E penso logo que  não posso esquecer-me de a incluir numa história – uma  nuvem que passou, flutuante, e que parecia um piano.  Cheira a heliotrópio. E, num ápice, anoto no meu pensamento: perfume doce, do tom da viuvez, lembrar e usar numa descrição de noite estival. Apanha cada frase, cada palavra minha e cada palavra sua, e, no momento seguinte, tudo isso já está guardado no meu cacifo literário, frases, palavras – ainda me podem vir a servir, em qualquer momento! Quando chego ao fim do meu trabalho, ou me meto num teatro ou vou para a pesca. Ao menos, nessa altura, eu deveria poder esquecer e repousar um pouco – mas não! oh maravilha! – uma  autêntica bala de canhão começa às voltas no meu cérebro, a sacudi-lo. É um novo tema para uma história,que me empurra para a minha secretária, e aí tenho eu, uma vez mais, de escrever, escrever. É e será sempre assim, não encontro a paz em mim próprio, sinto que estou a consumir a minha vida. Por umas gotas de mel,que eu destilo para outros, roubo o pólen das minhas mais belas flores, arranco-as e espezinho as raizes. Não lhe parece que estou louco?”

Sim, Tchekóv. Completamente.

Confessei a perturbação e fascínio que a reprodução de Picasso me causa; ao mesmo tempo, admiti não ser um fã entusiasta do seu estilo. No entanto, o motivo deste fascínio me traz questionamentos: o que a minha alma vê que os olhos são incapazes de perceber? Posso confiar na minha traiçoeira visão ou devo ser conduzido pelo insidioso espírito do quadro? Então, se eu fosse realizar esta história trágica da literatura da forma com que Schopenhauer propõe, eu iniciaria tentando definir qual é o conceito de permanência. Em seguida, consultaria e revisaria cada um dos autores, vivos ou mortos, se eles se sentem como Tchekóv descreveu e tentaria ler, nas suas atitudes, na sua chama interna, na sua insaciedade espiritual, se eles sentem a coisa queimar como o pior dos fogos do inferno. Então, afastaria os invejosos e aqueles que pensam que este tipo de sentimento pode ser classificado, e criaria o meu próprio Olimpo, a Cidade dos Homens e Mulheres que Valem a Pena, estas silenciosas somnbras repletas de tragédia.

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De Quincey e o meu problema com álcool

Na Noite de Ano Novo de 2012, ao abrir a geladeira, deparei-me com um produto assaz espantoso: uma garrafa de vinho. Quem me conhece sabe que sou semi-abstêmio, raramente bebo álcool (somente em ocasiões festivas e com pessoas especiais) e gosto de bebida mais por que acho as garrafas bonitas. Tal circunstância não me impediu de realizar quatro cursos de degustação de vinho e espumantes, mas o simples fato de não lembrar nada daquilo que deveria ter aprendido atesta a pouca importância que dou ao tema.

Gastei alguns segundos pensando em como a garrafa tinha escalado o prédio e se insinuado na geladeira, mas logo recordei que tinha sido o gentil presente de final de ano dado por um casal de amigos. Como não sabia onde colocá-la, acabei botando na geladeira e, naquele momento, ela devia estar em uma temperatura supostamente agradável – ou, ao menos, gelada.

A televisão anunciou o início de “2001 – Uma Odisséia no Espaço”, do Stanley Kubrick. Adoro este filme, já o assisti algumas vezes e o fato de alguma alma caridosa colocá-lo para passar na Noite de Ano-Novo quase me fez acreditar que existe um desígnio divino.

Enquanto o filme começava, eu olhei a garrafa de vinho e pensei: por que não? Estamos nós dois aqui, em silêncio, e precisamos resolver a nossa relação de alguma forma. Abri o vinho, servi-me de um cálice e, enquanto assistia ao filme, fiquei sorvendo a beberagem.

Não sei o que aconteceu. Bebi somente uma taça, esta é a triste verdade. Talvez tenham sido duas, não lembro direito, mas a garrafa de vinho ainda existe, não passou disto. O fato é que, de repente, do nada, o filme começou a fazer sentido. Elaborei uma teoria altamente complexa que explicava tudo, desde a rebelião de HAL até o monolito. Tudo parecia tão óbvio, tão singelo. A imaginação traçou caminhos inéditos, unindo pontos distantes de compreensão, aproximando ideias contrárias como se fossem velhas amigas, criando novas chaves de interpretação. Em silêncio, eu me regozijava eternamente por, enfim, ter atingido o nirvana do entendimento absoluto de uma obra feita com um alto grau de abstração. Naquela noite, fui dormir o sono dos que entenderam o mundo.

É evidente que, no dia seguinte, ao acordar, não lembrava de mais nada. Quase não recordava que tinha assistido ao filme. A teoria se desvaneceu, e não sei se ela fazia sentido ou se tinha sido algum delírio. Entrou para o gigantesco rol de coisas geniais e inovadoras que esqueci.

Desde criança, sempre fui muito resistente aos pretensos fascínios do álcool.  Nem tanto por receio de falar bobagem ou de cometer alguma indiscrição (acreditem, as pessoas realmente falam muitas bobagens e cometem muitas indiscrições quando estão sob os efeitos do álcool). O meu problema com álcool é o mesmo que possuo com qualquer tipo de substância entorpecente: toda coisa capaz de alterar meu estado de atenção ou nível de captação do mundo é algo perigoso por natureza. Isto por que eu vivo em um mundo onde a mínima distorção pode ter efeitos catastróficos, onde o menor detalhe capaz de deturpar a minha atenção pode significar muitos problemas. O álcool abre portas que é melhor manter fechadas.

Não é que eu não saiba beber, pois sei. Bebo em raras vezes e com extrema moderação. Aliás, quando a pessoa sabe beber e consegue se manter na cerca que separa a inconsequência da felicidade, dizem que é um dos melhores estados que alguém pode passar. Sim, já tomei meus porres de adolescente, e o próprio uso do plural significa que demorei a entender as consequências do álcool sobre meus sentidos. No entanto, desde o momento em que comecei a escrever, cresceu a consciência de que prefiro a minha voz narrativa interna límpida, distante de qualquer interferência. Minha Musa interna só toma água do Parnaso, não suja seus lábios de morango com substâncias perigosas.

Sei que muitos escritores bebem para escrever, mas qual seria o custo deste afrouxamento da sua concentração? Na minha opinião, alto demais. Não é bebendo que a imaginação vai ser tonificada ou diminuída. Penso que o álcool escreve muitas páginas por muitos escritores, e ele não é um bom conselheiro. Acho até meio clichê a pessoa dizer que bebe para escrever melhor. Surpreendente seria o cara dizer – como eu – que toma chá ou água gelada enquanto escreve.

Talvez tenha sido esta constatação que me fez ficar distante dos efeitos do álcool. Ou talvez tenha sido a constatação de que a lâmina da imaginação precisa ser mantida sempre limpa e imaculada, pronta para o uso quando for necessário. Ou – a hispótese mais provável – para que entorpecer os sentidos com um meio físico quando é tão mais divertido deixar eles virem à tona sem intermediários desagradáveis? Algumas pessoas pensam que só conseguem ver o demônio da imaginação enganando os sentidos, mas não percebem que o demônio vem de qualquer jeito, e a única diferença é que, tentando colocá-lo atrás de uma névoa de álcool,  só está prorrogando o encontro com o inevitável.

Não julgo quem bebe ou quem se droga para escrever. Chama minha atenção que, indo para o trabalho às 08 horas da manhã, passo por colégios estaduais onde vejo meninos e meninas fumando maconha e bebendo cerveja. Sim, às 08 horas da manhã. E penso o quanto as pessoas precisam de entorpecentes físicos para turbinarem as suas vidas, esquecendo-se que o verdadeiro ópio é mergulhar na mente e deixar a imaginação correr como um cavalo furioso pelas pradarias.

Falando em ópio, lembro de um delicioso livro que li alguns anos atrás e cuja recordação sempre me surge quando penso em bebidas, drogas e estas coisas que as pessoas acham divertidas e me parecem enfadonhas. Quando Thomas de Quincey escreveu “Confissões de um Comedor de Ópio”, pretendeu registrar, com a maior fidedignidade possível, os efeitos do ópio nas suas sensações. Na maioria do tempo ele glorificou o estado lisérgico que o ópio lhe proporcionava, ainda que, especialmente na parte final, tenha tentado se desvincular de tamanho vício. Mais um dos escritores que chamo em silêncio de “pussy”, por ser incapaz de sustentar a sua rebeldia até o final (uma hora farei uma lista com outros escritores, preparaem-se, cabeças irão rolar).

O estilo da obra é praticamente uma carta confessional, passando uma certa impressão de cinismo: De Quincey idolatra o uso do ópio, revestindo esta homenagem de uma mal-disfarçada repugnância. É um discurso favorável usando a negação como forma de convencimento, algo que, em termos de retórica, sempre é meritório de realizar.

Thomas De Quincey

Thomas De Quincey

Interessa-me no livro os relatos de como o ópio afetava a sua visão de mundo. O tempo parecia mais lento; a respiração tornava-se compassada; as fronteiras do real se dissipavam e ele sentia o universo inteiro ao redor do próprio corpo, como se fosse parte de um todo maior. Ele considera que a sua literatura nasce deste desvanecimento dos sentidos, como se mantê-los em estado de prontidão implicasse em não conseguir atravessar as fronteiras do imaginário. Sempre me perguntei como seria a obra de De Quincey sem ópio, como seria a sua visão de mundo. Pois tenho a teoria de que tudo continuaria igual; a substância entorpecente só proporcionava uma diminuição das barreiras sociais, algo que pode ser conseguido sem o prejuízo dos próprios sentidos e sem ser escravizado por um vício. Nas suas próprias palavras, graças ao ópio, “desenredei, quase até o último nó, o emaranhado de cordas que me atava.”. Ou seja: De Quincey imaginava-se libertado pelo ópio, mas, na realidade, só estava se enganando. Interessante que as pessoas mais tímidas que eu conheço usam o álcool como uma muleta para se relacionarem na sociedade.

O autor também relata vários sonhos que teve sob alegada influência do ópio. A obra transcorre em um estágio lisérgico, alternando relatos de como o ópio afetava as suas sensações com sonhos distorcidos. Baudelaire também tratou da influência do ópio na sua obra “Paraísos Artificiais”. Por influência destes dois autores, muitos artistas acostumaram-se a achar que a droga ou a entorpecência é a melhor forma de fazer a arte aflorar – algo que acho completamente questionável. Tanto De Quincey quanto Baudelaire eram escritores talentosos sem o uso do ópio. Talvez tal substância tenha modificado algo da sua visão de mundo, mas  dizer que lhes trouxe talento é um longo caminho a percorrer.

De certa maneira, De Quincey previu o surgimento do álcool como forma de substituir as sensações do ópio, quando escreveu, com certa dose de nostalgia: “A felicidade podia agora ser comprada com uma moeda e carregada no bolso do casaco: êxtases portáteis poderiam ser engarrafados e a paz de espírito poderia ser remetida em galões pela diligência do correio.” Mas em seguida acrescenta, repleto de picardia, um vigoroso elogio do ópio como uma melhor forma de entorpecimento, algo que os homens usavam ao invés do álcool, feito para principiantes; “Mas, como não acredito facilmente que um homem que tenha experimentado uma vez a divina luxúria do ópio se contentará com os prazeres grosseiros e mortais do álcool, dou por garantido que agora o comem os que nunca comeram; E os que sempre comeram agora comem ainda mais.”

A leitura de Thomas De Quincey me diverte de várias formas. Em especial por ver várias pessoas que conheço repetindo os mesmos dramas quase sem pensar, em uma atitude que ultrapassa o clichê e praticamente se torna um esquete cômico engessado, daqueles que rimos sem nem mais saber o motivo.

Em alguns momentos de fraqueza, penso que a minha vida seria muito mais simples se eu seguisse esta convenção social e passasse a ingerir álcool com mais frequência. Contudo, assim que estes pensamentos aparecem, eles são prontamente rechaçados. Já diz a Bíblia: não deves servir a dois senhores. Considero incongruente manter um ofício literário de qualidade com perder a agudez dos sentidos de vez em quando. A limpidez dos meus sentidos não me pertence; não sou dono da minha vontade, sou escravo de outro ser. A Musa me chicotearia até cansar se eu estendesse um copo de vodka para ela. Inclusive tenho um pouco de desprezo pelas pessoas que usam a facilidade de abrir uma garrafa para esconder seus pensamentos no interior do enganoso líquido.

Mesmo diante de restrições tão severas, não consigo deixar de me divertir ao imaginar que se consegui, mediante a ingestão de uma ou duas míseras taças de vinho, decodificar e entender “2001 – Uma Odisséia no Espaço”, o que eu poderia fazer se tomasse uma garrafa inteira? Ou duas? No mínimo, a cura do câncer. Ou o sentido da existência. Ou a linguagem de Deus. Alguma coisa ia sair, mas ninguém saberia, pois eu estaria ou desmaiado ou com a fala irremediavelmente comprometida.

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Um breve elogio da banalidade

Ano novo, postagem nova. É inusitado começar um ano fazendo um louvor à banalidade, este óleo essencial que lubrifica a criatividade humana, mas só vejo pessoas escrevendo e falando sobre coisas sérias, ignorando a importância dos assuntos genéricos que infestam o nosso cotidiano com o seu rosário de singelas maravilhas e decepções.

O excesso de seriedade prejudica a apreensão exata do tema discutido. Vejo canais de televisão entregues à sanha absurda de analisar detalhes da economia, da política e da religião, como se fosse possível quantificar e esquematizar tais áreas; o futebol próprio tornou-se algo repleto de detalhes e estatísticas. Os programas que se dedicam aos assuntos banais são repletos de regras, tentando transformar pequenas diversões em um assunto sério. Entre eles, os mais circunspectos são aqueles que tratam da vida banal das celebridades, procurando motivos ou justificativas para alguém comprar um jacaré, outra mulher ter largado um ator famoso, um cantor exigir 200 toalhas brancas no seu camarim. Talvez não exista motivo; visto sob uma lupa, qualquer um possui estranhezas difíceis de explicar em termos racionais. Mesmo assim, a ansiedade de encontrar relações entre pessoas e aquilo que elas fazem transforma os repórteres em fac-símiles de Sherlock Holmes, ainda que as suas deduções sejam repletas de clichês e obviedades.

Defendo a ideia de um programa de televisão repleto de caos. Uma obra aberta, cheia de banalidades, algo capaz de instruir o cérebro do espectador a buscar a dissonância que cerca a sua vida com pequenas gotas de fantástico.

Existe uma desagradável tendência do mundo moderno de parecer sério e responsável, como se a banalidade fosse algo proibido. Na literatura, este movimento é especialmente declarado. Considera-se boa literatura aquela que aborda assuntos sérios ou que possua algum grau de imanência. Tornou-se costume abordar os livros sob o enganoso critério da sua relevância pessoal ou em descrições amplas que chegam a assustar: “o livro trata da finitude humana diante do abismo existencial”, “o livro aborda a fatalidade do homem como ser individual”, “a obra responde à angústia emocional do seu autor”. Em tal concepção, livro bom é aquele que tenta provar algum ponto de vista e, quanto mais próximo estiver da realidade do autor e daquilo que sabemos da vida do demiurgo, melhor será.

Por consequência lógica, livros que não representam alguma espécie de ganho pessoal para o leitor, ou que tratam de irrelevâncias, são literatura ruim, descartável. Quando os escritores notaram esta tendência do público de desejar algo que represente um ganho emocional, cortaram o intermediário: deixaram de escrever histórias e foram direto para as pseudo-lições de vida ou mensagens gratificantes.  É impressionante a quantidade de pessoas que se aproximam de mim dizendo que leram livros de auto-ajuda. Em seguida, pedem para que eu pare de escrever literatura e passe diretamente para as mensagens, que são mais fáceis de entender do que o trabalho mental que é decodificar a mensagem estabelecida em uma narrativa literária.

A banalidade se esconde nas insignificãncias. Um quadro de Alfred Sisley: "Mulheres indo para as árvores" (1866).

A banalidade se esconde nas insignificãncias. Um quadro de Alfred Sisley: “Mulheres indo para as árvores” (1866).

Por incrível que possa parecer, a melhor maneira de valorizarmos os assuntos sérios passa pela banalidade. Precisamos ser banais e irrefletidos, precisamos deixar a mente como uma tábula rasa para que a seriedade do cotidiano nos atinja com maior energia. Precisamos ser absurdos, no melhor estilo de Camus em “O mito de Sísifo”: o sentido da vida não existe além da compreensão que nossa consciência lhe confere, pois a vida é uma questão da consciência de cada um. Para vivermos plenamente, para o conhecimento absoluto, precisamos partir da ideia de que viver é um ato sem sentido e absurdo. Sabendo disto, nossa existência torna-se uma revolta contra a falta de sentido do universo, o que nos permite, pela primeira vez, vivermos de forma livre, sem amarras, sem buscar a explicação para tudo. A banalidade é a melhor forma de atingir este ideal: quanto menos sérios, maior a capacidade de higienizar a mente e mantermos os olhos abertos para a singularidade do mundo. É nas coisas banais que a magia mora: no pão com manteiga, no caminhar de um gato velho sobre o telhado sonhando com passarinhos que não mais pode alcançar, no céu azul que cede espaço relutante para nuvens sombrias.

Em “A arqueologia do saber”, Foucault defende a ideia de que qualquer assunto do conhecimento humano pode ser analisado arqueologicamente, retrocedendo a pesquisa e desbastando-a até chegar ao ponto aproximado da sua gênese. Muitos estudos já foram feitos usando este método, mas ninguém se importa em pesquisar a banalidade ou os assuntos irrelevantes. Esta é a maior magia que eles conseguem fazer: como um mágico realizando um truque de prestidigitação, a banalidade explode uma nuvem de gelo seco e consegue se esconder com perfeição. Está ali, uma sombra vaga no meio da neblina, mas não a conseguimos divisar. E o pior é que ela está rindo dos nossos semblantes compenetrados.

Quando eu falo da banalidade, não penso naquele significado mais comum com que as pessoas sérias se dirigem a ela: não a considero como algo desnecessário ou um conhecimento irrelevante. Penso na banalidade como a antesala da maravilha. Penso nela como a curva fora da estrada, como o caos que mora nos desvãos da normalidade. Considero o banal como o único elemento que nos mantém coesos.

Estou lendo um livro de Almeida Garrett, “Viagens na minha terra” (em breve teremos resenha do livro no Amálgama, mas avisarei aqui). O livro foi escrito em meados de 1800 e, em essência, é uma coleção impressionante de banalidades elencadas pelo autor em torno de uma viagem realizada por Portugal. Ele trata de seus pensamentos sobre literatura, sobre o amor, sobre o movimento romântico, sobre os cabelos femininos, sobre a veleidade dos olhos verdes, sobre a obra de outros escritores, sobre o desmatamento das florestas portuguesas, sobre qualquer assunto. Há muitos anos, li uma entrevista em que o ator Jackie Chan classificava o seu estilo de luta como “drunk fighting”, ou seja, ele vai lutando desengonçadamente, e cada golpe segue o anterior como se fosse uma dança, pegando tudo o que estáao seu alcance, aproveitando cada elemento do cenário para transformá-lo em uma arma. Cada golpe é inesperado e caótico.

Da forma com que Almeida Garrett escreve, percebo que ele usa este longo rol de banalidades como um antecessor do monólogo interior, mas sem a completa liberdade da linguagem. Atreveria-me a dizer que ele criou um estilo invulgar de literatura, o “drunk writing”, onde a história e a sua coesão não são tão importantes quanto as banalidades que insistem em chamar a atenção do escritor e desviar seu foco narrativo. Quando Umberto Eco escreveu “Seis passeios pelo bosque da ficção”, com certeza não imaginava que Almeida Garrett pudesse fazer o leitor entrar no bosque e nunca mais encontrar a saída. Um leitor que precisa ser resgatado de dentro do manancial de banalidades. Não digo que o livro é ruim, muito pelo contrário – afirmo que é a elogiável construção de caos e desordem sob uma estrutura mínima, um exercício de desapego à seriedade.

Outro escritor que se dedicou com afinco a tarefa de buscar a banalidade é Ambrose Bierce,  alguém cuja obra é uma das minhas maiores referências pelo humor abusado e pela capacidade de dizer tudo e nada ao mesmo tempo. Quem leu “O Dicionário do Diabo” sabe que é um livro irônico e repleto de desconstruções de conceitos. Interessante que a crítica chama o livro de “amargo”, pois eu o considero irônico, algo que dmeonstra como duas ideias tão desparelhas podem estar concectadas. Diante de várias banalidades que elenca, não surpreende que Ambrose Bierce tenha conceituado a própria banalidade, de forma que não só explica de forma vaga a ideia como também a homenageia, merecendo transcrição em inglês:

“Platitude, n.
The fundamental element and special glory of popular literature. A thought that snores in words that smoke. The wisdom of a million fools in the diction of a dullard. A moral without the fable. All that is mortal of a departed truth. A demitasse of milk-and-morality. The Pope’s-nose of a featherless peacock. A jelly-fish withering on the shore of the sea of thought. The cackle surviving the egg. A desiccated epigram.”
Ambrose Bierce

Ambrose Bierce

Um conceito de banalidade formado pela própria. Uma lista arbitrária de ideias que pretendem formar uma imagem, mas que não aspira a certeza, o esgotamento conceitual. A explicação que não contém respostas, mas deixa perguntas em aberto. De todos os verbetes de “O Dicionário do Diabo”, este é o que mais chama a minha atenção, pois Bierce tangencia o assunto e o deixa irresolvido. Considero o único momento em que o escritor despe a sua armadura irônica e fala a verdade, ainda que não consiga sintetizar a ideia de forma precisa, como se o próprio ato de escrever fosse tão sério que não admite a banalidade.

A melhor forma de não ser sério e ceder à irrelevância é sendo inesperado, permitindo que a imaginação do outro interaja com o conceito. Ou fazer como Somerset Maugham, no seu “A writer’s notebook”, onde descreve uma personagem capaz de se abandonar à banalidade da própria existência: “She plunged into a sea of platitudes, and with the powerful breast stroke of a channel swimmer made her confident way toward the white cliffs of the obvious”. Qual o motivo de tanta seriedade, se a vida não passa de uma sucessão de banalidades para a qual tentamos dar alguma conexão?

Por isto, neste ano de 2013, sejamos adoravelmente banais. Sejamos inconsequentes. Que o banal entre na nossa vida com sua lista de pequenas incredulidades, trazendo o fantástico, o imponderável – o único.

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